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segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Efémeros e imaginários

José Caetano Cyriaco (1740?-1800?)

Vista do Terreiro do Paço da Praça do Comércio em Lisboa tirada de poente, idealmente figurada segundo o projecto de Carlos Mardel. O alçado oriental é dominado pelo torreão de planta quadrangular, junto ao rio, encimado por cúpula verde e zimbório. A meio do alçado norte, perspectivado, quatro imponentes colunas clássicas servem de pés-direitos ao arco de triunfo.

Desfile do Terreiro do Paço na Praça do Comércio, José Caetano Cyriaco, 1794(?)
Cortejo da entrada do embaixador conde de Fernán Núñez, por ocasião dos esponsais da Infanta D. Mariana Vitória com D. Gabriel de Bourbon em 11 de Abril de 1785*
Museu Nacional dos Coches/Raiz

Este, é coroado por dois corpos pétreos escalonados: no primeiro, destaca-se um frontão angular, e no segundo rasgam-se arcos de volta perfeita. Cinco estátuas de vulto perfeito interrompem a platibanda que unifica o conjunto arquitectónico.

A praça é dominada pela estátua equestre de D. José I, inaugurada em 1775, à frente da qual desfilam, no estuário do Tejo, inúmeras embarcações. Um cortejo de gala constituído por nove coches conduzidos por cocheiro e sota e puxados por duas parelhas, percorre a praça no sentido sul/norte.

O coche real, identificado pela coroa que o encima, é seguido pela Guarda real a cavalo, envergando librés verdes e vermelhas. Ao centro do terreiro, junto ao arco de triunfo, um pelotão aguarda a passagem do cortejo, ao qual assistem inúmeras personagens perfiladas em primeiro plano.

Com excepção do enquadramento arquitectónico, nesta composição predomina a mancha cromática sobre a linha de contorno, sendo aquela sugerida por pinceladas curtas e sobrepostas. Esta técnica, associada ao facto de o pintor trabalhar com pigmentos muito diluídos, confere à composição um aspecto fluido e "esfumado" que, de algum modo traduz a luminosidade tão características das zonas ribeirinhas da cidade... (1)


(1) Raiz

* Os dados referentes a esta imagem (na legenda) foram-nos gentilmente cedidos pela Professora Doutora Ana Maria S. A. Rodrigues (CHUL), que muito agradecemos. Foi capa de cartaz do Congresso Internacional Corte eDiplomacia na Pensínsula Ibérica (séculos XIII-XVIII), 13-14 Julho 2016, FLUL. Quanto à imagem, devemos um agradecimento à museóloga Graça Santa-Bárbara, do Museu Nacional dos Coches. Não podemos deixar de referir o facto, extraordinário, de a estátua de D. José I se apresentar, nesta pintura, quase junto ao rio, e não no sítio onde deveria estar, e onde ainda se conserva hoje em dia (...) 
cf. M. Rafaela Moreira, A iconografia olisiponense na pintura de autor no mercado de arte... 2016

Informação adicional:
Milton Pacheco, Ocupado para uma real festa. As festividades em torno dos matrimónios régios de 1785 oferecidas pelo embaixador extraordinário o VI conde de Fernán-Núñez no Palácio da Inquisição de Lisboa

Artigos relativos ao conde de conde de Fernán-Núñez:
Antigo surgidouro e Praia do Rastello
O naufrágio do San Pedro de Alcántara

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Antigo surgidouro e Praia do Rastello

A Torre de Belém (ou de S. Vicente em memória da chegada das relíquias deste Santo a Lisboa) ficou rodeada da água do Tejo pelas quatro faces, e entre ela e a margem do lado norte podiam navegar pequenas embarcações. Do lado sul formou-se um estrangulamento do rio, a que chamavam Barra do Rastello, entre a Torre de Belém, e a Torre Velha no Almaraz (nome da encosta que se eleva desde Cacilhas à Trataria)...

The Mouth of the River Tagus
Jean Pillement, óleo sobre tela, 1785
Art & the Country House

Podemos fazer uma ideia do que restava da Praia do Rastello 200 anos depois de concluída a Torre de Belém, examinando um quadro pintado em 1786 pelo francês Jean Pillement, quando nesse ano veio a Peniche ver o local onde, em 2 de Fevereiro do mesmo ano, naufragára o galeão espanhol "São Pedro de Alcântara" (v. artigo relacionado), que vinha do Callao (Perú) para Cadiz, com 470 pessoas a bordo, das quais pereceram 300... Esse quadro ofereceu o seu autor ao conde Fernán Núñez, que foi Embaixador de Espanha em Lisboa no reinado dc Carlos III, sucessor da coroa de Castela por morte de seu irmão, Fernando VI, em 1759.

Embocadura do Tejo
Jean Pillement, 1785
MIDAS Open Edition

O assoreamento, que com o decurso dos anos, ligou a Torre de Belém à terra firme, deve ter começado nos meados do século xviii, tanto a jusante, corno a montante, da face norte da Torre, porque o convento das dominicanas irlandesas no Bom Sucesso, a pouca distância da Torre, edificado em 1638 e concluído em 1638, era banhado pela água do Rio Tejo (v. artigo relacionado), assim como as muralhas dos terraços da casa, comprada por D. João V em 1745, onde viveu o último Duque de Loulé (D. Pedro), situada perto daquele convento. Do referido assoreamento resultou a formação da Praia do Bom Sucesso a leste da Torre, e a construção do forte do Bom Sucesso, a oeste... (1)

O lugar de Belém tinha em 1712 duzentos e dez "vizinhos" (moradores); e o bairro de Belém foi criado no reinado de D. José I, depois do terramoto de 1 de Novembro de 1755. Assim na Portaria de 29 de Julho de 1864 se diz que o Médico efectivo das "visitas de saúde" aos navios no Bom Sucesso, devia residir no Bairro de Belém. Este Bairro pertencia ao Concelho de Lisboa, donde foi desanexado e elevado a Concelho pelo Decreto de 11 de Setembro de 1852, e voltou a pertencer ao de Lisboa por Decreto de 22 de Julho de 1886, para se aumentar a área da cobrança do imposto de consumo, o qual foi abolido pelo artigo 69.° da Lei n.. 1.868 de 22 de Setembro de 1922... A freguesia de Santa Maria de Belém formou-se em 1834, (desanexada da de Ajuda) com sede na igreja dos Jerónimos.

Vista do Tejo e de Belém
Jean Pillement
MNAA/Palacio Nacional de Queluz

Da antiga Praia do Restello poucos vestígios restavam antes da rectificação (ou alinhamento) da margem direita do Tejo desde a Ribeira de Alcântara (transformada em Caneiro) até à Torre de Belém, porque grande porção dela foi incluída, talvez, em 1880, no largo em frente do templo dos Jerónimos, limitado ao norte por uma alameda arborizada com amoreiras (onde os rapazes das escolas iam colher folhas para alimentar bichos da seda), e ao sul por una muralha com duas rampas, o Cais dos Jerónimos. (2)


(1) Revista Municipal n° 53, 1952
(2) Idem

Informação relacionada:
O naufrágio do San Pedro de Alcántara
O Tejo de Jean-Baptiste Pillement
Praia do Bom Sucesso por Tony de Bergue
Typos e costumes populares
etc.

A view of Castle of Belem at the entrance of the Port of Lisbon
Alexandre Jean Noel, 1793
Museu de Lisboa

sábado, 20 de setembro de 2025

Alegoria da esperança

José Júlio de Souza Pinto (1856-1939)

Na Bretanha, a mulher, uma âncora por perto, a esperança. A jovem com os olhos cobertos, justiça, talvez.

Barco desaparecido, José Júlio de Souza Pinto, 1890 
MNAC

Na Póvoa, as ondas do oceano não me perseguem, se bem que os fascínios de outrora se tenham transformado em paixão.

A volta dos barcos, José Júlio de Souza Pinto, 1891.
Douta melancolia

E a arte, essa sim, não tem fim...


Tema:
Póvoa do Varzim

Mais informação:
Occidente n° 469, 1892
Octávio Lixa Filgueiras, O barco poveiro, Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, 1995
Carlos Carreto, Imaginários do mar, antologia crítica, 3
Francisco da Fonseca Benevides, Escola Industrial Pedro Nunes em Faro, Museu Industrial Maritimo, catalogo illustrado das collecções, 1891

Raul Brandão:
Raul Brandão, Os Pescadores, Paris, Ailland, 1923, 326 págs, 127,7 MB
Raul Brandão: Um percurso
Evocação de Raul Brandão (Vitorino Nemésio recorda a figura de Raul Brandão)
Inauguração do monumento a Raul Brandão

Archivo pittoresco:
Póvoa do Varzim n° 9, 1868 (I e II)
Póvoa do Varzim n° 22, 1868 (III e IV)
Póvoa do Varzim n° 22, 1868 (V e VI)
Póvoa do Varzim n° 25, 1868 (VII)
Póvoa do Varzim n° 29, 1868(VIII)
Póvoa do Varzim n° 30, 1868 (IX)
Póvoa do Varzim n° 33, 1868 (X)
Póvoa do Varzim n° 37, 1868 (XI)
Póvoa do Varzim n° 38, 1868 (XII e XIII)
Póvoa do Varzim n° 46, 1868 (XIV e XV)

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

O príncipe, por Taunay e Goya

Por razões diversas, hoje no Palácio Nacional de Queluz... continua sem fazer sentido que Taunay em 1816 tenha pintado um retrato póstumo do Príncipe da Beira, D. António Pio (1795-1801).

Retrato póstumo do Príncipe da Beira, D. António Pio
ou D. Sebastião de Bourbon e Bragança
atrib. Nicolas-Antoine Taunay, 1816
Parques de Sintra

Estamos em crer, que o retrato acima, de facto, represente o Infante de Portugal e Espanha, filho da infanta Maria Teresa de Bragança (filha mais velha de D. João VI) e do infante Pedro Carlos de Bourbon, o príncipe D. Sebastião de Bourbon e Bragança (1811-1874).

Retrato do Príncipe Dom Sebastião de Bourbon e Bragança
Infante de Portugal e Espanha
Francisco Goya, 1822 (acervo particular)

A Terra de Santa Cruz

O infante nasceu no Palácio de São Cristóvão no Rio de Janeiro, em 1811.


Artigos relacionados:
A familia do rei Clemente

Mais informação:
A Terra de Santa Cruz

segunda-feira, 29 de julho de 2024

Marguerite por Kisling e Sousa Lopes

Moïse Kisling

Moïse Kisling (1891-1953), pintor de origem polaca, mudou-se para Paris no início do séc. XX. Viveu em Montparnasse, no mesmo edifício que Jules Pascin e Amadeo Modigliani. O nu, o retrato, a paisagem e as naturezas-mortas foram os temas dominantes da sua obra, onde a proximidade a Modigliani se reflecte no desenho dos olhos (...)

Portrait de a soeur de Mme Renée Kisling (détail), Moïse Kisling, 1918
MutualArt

O atelier de Kisling em Paris era, nessa época, um lugar de encontro célebre e quotidianamente frequentado por Modigliani, Soutine, Max Jacob ou Cocteau. Também Diogo de Macedo conheceu Kisling em Paris e contou o seguinte episódio: “Chez Batty, um bistrôt barato, onde se reuniam pintores e poetas, Kisling perguntara-me uma vez:

– Diz-me lá, é verdade que no teu cantinho o meu cunhado, que pinta grandes máquinas para o salão dos pompier, é uma grande figura?

Referia-se a Sousa Lopes, de quem era amigo, à sua maneira. Nós éramos, então, vizinhos na rua Bara, ao pé do jardim do Luxemburgo” (...)

Portrait de a soeur de Mme Renée Kisling (détail), Moïse Kisling, 1919
Christie's

Adriano de Sousa Lopes

O casamento com Guitte (Marguerite Gros Perroux) proporcionou-lhe a amizade do pintor Moïse Kisling e do seu círculo, já que Kisling era casado com Renée, irmã de Guitte.

Sousa Lopes manteve durante toda a sua vida a proximidade com Kisling e, mesmo após a sua residência mais permanente em Lisboa, continuaram a encontrar-se com frequência, durante as férias, no sul de França. (1)

Portrait de Marguerite Gros, soeur de Mme Renée Kisling (détail), Moïse Kisling, 1919
MutualArt

Em 5 de Janeiro (de 1924) inaugura a exposição das obras de guerra no atelier do parque das Necessidades. Destacam-se na imprensa as apreciações de Artur Portela, José Rodrigues Miguéis, Júlio Dantas e Reynaldo dos Santos. Columbano adquire cinco águas-fortes para o Museu Nacional de Arte Contemporânea.

No Verão e até Janeiro seguinte está com Marguerite na Côte d’Azur, residindo em La Berle, commune de Gassin, perto de Saint-Tropez. “Guite” recupera de uma doença. Na Provença pinta retratos, muitas paisagens (ali perto em Minuty e no porto de Saint-Tropez), deslocando-se em bicicleta, e algumas naturezas-mortas ao ar livre.

“Estou a abrir os olhos outra vez, por causa das penumbras da guerra”, escreve em carta a Lopes Vieira (12 Dezembro). Nesses dias terá pintado o conhecido retrato de Marguerite, A blusa azul. Convive com a família Kisling e com o poeta e crítico de arte André Salmon, que os visita na Côte d’Azur. (2)

A blusa azul (detalhe), retrato de Marguerite Gros Perroux, esposa do autor
Adriano Sousa Lopes, c. 1920
MNAC


Em Março de 1927, teve lugar na SNBA a segunda grande exposição individual dos trabalhos do pintor realizados após 1917. Nela, Sousa Lopes apresentou um conjunto de obras de temática diversa, onde se incluíram pinturas a óleo, várias águas fortes e desenhos (quer sobre a Grande Guerra, quer sobre outros motivos). Esta mostra foi levada ao Porto, à Associação Comercial, um mês depois (...)

Retrato de Madame Sousa Lopes (detalhe), Adriano Sousa Lopes, 1927
MNAC

A par destas obras, o pintor voltou ao retrato, numa abordagem radicalmente diferente dos retratos apresentados em 1917 e em que revela outra paixão que, para além da intensidade da experiência de guerra, dominou a sua vida.

São os muitos retratos que fez da sua primeira mulher, Guitte, tais como o “Retrato no Parque”, de que foi assinalada a elegância e a delicadeza de tons, tendo como fundo um lago com nenúfares, ou um outro “Retrato de Madame Sousa Lopes” que José-Augusto França qualificou “como um dos melhores retratos da pintura nacional dos anos 20” (3)


(1) Maria FHP Perez, Adriano de Sousa Lopes, Director do Museu Nacional de Arte Contemporânea (...)
(2) Carlos Silveira Gonçalves, Adriano de Sousa Lopes (1879-1944), Um pintor na Grande Guerra
(3) Maria FHP Perez, Idem
 
Leitura relacionada:
Carlos Silveira Gonçalves, Adriano de Sousa Lopes (1879-1944), Um pintor na Grande Guerra
Adriano de Sousa Lopes, Conservação e restauro das obras académicas (...)

Mais informação:
Adriano de Sousa Lopes, Centro de Arte Moderna Gulbenkian
Moïse Kisling Catalogue raisonné en préparation

domingo, 7 de julho de 2024

Silva Porto, retratos de Adelaide

A portaria de 18 de Setembro nomeia dois pensionistas no estrangeiro: Silva Porto e Marques de Oliveira. Seguem juntos para Lisboa embarcando, rumo a França, em 29 de Outubro.

Qualquer equívoco nas repartições oficiais ocasionou um atraso na primeira mensalidade, como se depreende de uma carta de 11 de Dezembro, assinada pelo conselheiro António José Torres Pereira, enfermeiro mor dos Hospitais, director dos Negócios Administrativos do Ministério do Reino, na qual, em resposta a outra do pensionista, se diz estarem à disposição dos interessados, pela Agência Financial de Londres, as importâncias relativas aos meses de Novembro de 1873 até Junho de 1874 (à volta de 54.200 réis mensais).

Retrato de Adelaide Torres Pereira (detalhe), Silva Porto
Fundação Casa de Bragança

A demora, acrescenta o zeloso funcionário, foi por «não constar nesta Rep., nem o dia da sua partida, nem mesmo o da sua chegada a Paris». O conselheiro Torres Pereira morava no prédio junto ao Hospital da Ordem Terceira, frente ao pátio e traseiras da Academia de Belas Artes. Do seu rancho de filhos faz parte a menina Adelaide, ao tempo com uns onze anos, onze inocentes e risonhas primaveras.

Retrato de Adelaide Torres Pereira, Silva Porto
Varela Aldemira, Silva Porto (1850-1893)

Quem ousaria adivinhar? O pensionista de Paris, homem de contas certas, ao reclamar os dinheiros atrasados, dirigia-se ao seu futuro sogro. Por sua vez, o ilustre burocrata da capital, ao dar plena satisfação a um jovem artista seu desconhecido, estava escrevendo àquele que deverá ser um genro modelo (...)

A constituição de um lar estava no temperamento do paisagista crematístico, afeiçoado às do- çuras de uma existência regrada, e, para isso, o antigo arquitecto faz projectos calculados e orçamentados, avareza no trabalhar e gastar, diferente das unhas de fome na vulgar razão do amealhar.

Retrato de Adelaide Torres Pereira, Silva Porto
Fundação Casa de Bragança

Em 25 de Abril, precisamente o dia da abertura da grande Exposição da Promotora, de que já nos ocupámos, o pintor dirige uma carta à sua prometida Adelaide Torres Pereira, «a linda menina que mora defronte», dizia-se no pátio da aula de paisagem, a filha mais distinta do conselheiro Torres, ilustre burocrata conhecido dos pensionistas.

No canto superior da missiva, um raminho de flores impresso em relevo colorido precede as «duas palavras: amar e ser amado». A noiva está em Benfica: o artista não a esquece, apesar da distância impedir «contemplá-la maior número de vezes....

Retrato de Adelaide Porto, Silva Porto, 1882
Museu Nacional Soares dos Reis


Hoje é a abertura da Exposição, que certamente impede a visita habitual, rogando desculpas. O acontecimento maior para o artista, mal aflora na austera e sucinta epístola: a Exposição, uma palavra só, tudo, e por ela sacrificar a vida inteira, sem faltar um ano à chamada. A doença e o luto pelo pai da noiva atrasam o casamento, efectuado dois anos depois (...)

O Álbum ou Conversando, Silva Porto, 1885
(Maria Augusta Bordallo Pinheiro e  Adelaide Torres Pereira)
Varela Aldemira, Silva Porto (1850-1893)

O álbum, recolhido intimismo de duas senhoras, a esposa do artista e uma amiga folheando páginas ilustradas (mais conhecido por Conversando). Na pintura de interior, Silva Porto vence a timidez, garboso na presença de modelos familiares, os de casa e os de particular aproximação, o campónio humilde, a mansa bestiagem que não recusa a pose, amigos sem exigências para o caso de o retrato ficar menos «parecido». (1)


(1) Varela Aldemira, Silva Porto (1850-1893)

Artigos relacionados:
Silva Porto (falecido a 1 de junho de 1893)
Silva Porto (pequena biografia)
António Carvalho da Silva Porto, breve roteiro
etc.

Leitura relacionada:
Sara Beirão Antunes, Osdesenhos de Silva Porto no acervo artístico da SNBA
Ana Catarina Dantas, Silva Porto - Vida, Obra e a Sociedade Nacional de Belas Artes

Mais informação:
João Macdonald, Projecto L7885 Grupo do Leão

Tema:
Grupo do Leão

sábado, 6 de julho de 2024

Typos e costumes populares

Podendo considerar que durante séculos coexistiu uma apropriação entre as elites e o povo foi, de facto, com a pintura tardio-setecentista, com nomes como Jean-Baptiste Pillement (1728-1808), Alexandre-Jean Noel (1752-1834) e Nicolas Delerive (1755-1818), que vemos surgir, pela primeira vez, pequenas cenas de costumes inseridas na pintura de paisagem, um dos géneros pictóricos mais divulgados na época.

At the mouth of the River Tagus, Jean-Baptiste Pillement
MutualArt

De facto, é neles que encontramos os primeiros apontamentos do universo bucólico, absorto na inocência e simplicidade dos costumes rurais, apesar que não de forma explícita ou centralizada a nível de temática e enquadramento (...)

Aqueduto das Águas Livres, Alexandre Jean Nöel, 1792
(vista a jusante dos arcos com a Ermida de Sant'Anna)
Biblioteca Nacional de Portugal

Ao mesmo tempo que se davam os primeiros passos na representação dos populares nas artes em Portugal, os relatos dos viajantes e militares, ora com o fenómeno do Grand Tour, ora proporcionados pelas campanhas da Guerra Peninsular, concentravam um interesse pelos seus tipos característicos, costumes e infra-estruturas.

Feira da Ladra na Praça da Alegria em Lisboa (década de 1810), Nicolas Delaerive
MNAA

Estas aventuras turísticas a que se votaram William Beckford (1760-1844), Robert Southey (1774-1843), Lord Byron (1788-1824), Hans Christian Andersen (1805-1875), entre tantos outros, são autênticas resenhas de costumes civis ou populares que ao longo do século XIX serão amplamente reinterpretadas.

Aqueduto das águas livres, ponte e ribeira de Alcântara, século XIX
(cf.
William Beckford,  Sketches of the Country, Character, and Costume, 1808-1809)
Cabral Moncada Leilões

Alguns viajantes foram também gravadores, o que resultou numa tradução “directa” em imagens de tais costumes civis ou populares.

Vista do aqueduto de Lisboa, Henri l'Évêque, 1809
Cabral Moncada Leilões

Desenvolve-se então a gravura de costumes conhecendo-se nesta altura nomes como Nicolas-Louis-Albert Delerive (1755-1818), Zacharie Félix Doumet (1761-1818), Henry L’Évêque (1769- 1832), William Bradford (1779-1857), Jorge Bekkerster Joubert (1813-?) ou João Macphail (1816?-1856), sendo pioneiros a fazer circular imagens sobre os tipos populares portugueses que poucos anos depois viriam a ser reinterpretadas e aumentadas por outros gravadores e artistas, como por João Palhares (1810-1890), Manuel de Macedo (1839-1915), Alfredo Roque Gameiro (1864-1935), Alfredo Morais (1872-1971), Alberto Souza (1880-1961) ou até pelo figurado escultórico de Teixeira Lopes Pai (1837-1918) (...)

Aqueduto de Lisboa, Tomás da Annunciação, c. 1850.
Biblioteca Nacional de Portugal

Assim, imbuídos do espírito dos nossos escritores e da escola romântica estrangeira, Augusto Roquemont (1804-1852), Tomás da Anunciação (1818-1879), Francisco José de Resende (1825-1893), Leonel Marques Pereira (1828-1892), António José Patrício (1827-1858), João Cristino da Silva (1829-1877) e Manuel de Macedo (1836-1915), proporcionarão a estabilização do género, sustentando a retoma às origens, a procura da simplicidade rural, elogiando a saúde e qualidade de vida pré-industriais, representando de forma esbelta, proporcional e numa paleta excepcional, os usos e costumes portugueses (...)

Vista de uma parte da feira do Campo Grande, Tomás da Anunciação, c. 1850.
Biblioteca Nacional de Portugal

Com desenvolvimento litográfico e tipográfico dos meados do século XIX, vemos João Palhares a editar por três vezes uma extensa série de litografias denominadas de Costumes Populares Portugueses.
[...]

Guarda Municipal de Lisboa
Typos Costumes Portugueses, João Palhares, c. 1850
Biblioteca Nacional de Portugal

De tiragem significativa, mas até hoje não apurada, desconhece-se maioritariamente a proveniência das imagens representadas (se por um lado algumas imagens são reinterpretações doutros gravadores, por outro, determinados “tipos populares” surgem só nas suas litografias).

Novamente entendemos que as gravuras são muito “de inspiração”, sem noção das circunstâncias sociais, ou até mesmo dos factores determinantes, como económicos e geográficos, para a escolha de determinada indumentária em relação às designações e regiões atribuídas. (1)


(1) Gil Sousa Pinho, Decursos e discursos da tradição (...), 2021

Leitura relacionada:
Agostinho Araújo, Experiência da natureza e sensibilidade pré-romântica em Portugal (...), 1991
As Figuras de Costumes Populares de José Joaquim Teixeira Lopes

sábado, 29 de junho de 2024

Zacharie-Félix Doumet (1761-1818)

Entre as folhas de um album antigo encontrei, desenhadas e aguareladas por Zacharie Felix Doumet, algumas interessantissimas representações de episodios da vida portuguesa do fim do seculo xviii. Como póde este pintor estrangeiro observar com tamanha justeza o meio português de então?

Marché portugais, Zacharie-Félix Doumet (1761-1818)
Museu de Lisboa


Zacharie Felix Doumet, fiiho de Gaspar Doumet, mestre-pintor do rei, nasceu em Toulon a 4 de dezembro âe 1761. Aprendeu com seu pae e foi admitido como pintor de marinhas no Arsenal da cidade, onde se conservou até aos graves acontecimentos que destruiram parte da povoação e o proprio Arsenal.

Emigrou então para a Corsega, e, tres anos depois, para Portugal (1796-1806), conseguindo empregar-se, em Lisboa, numa das repartições do Real Corpo de Engenheiros. Voltou a Toulon em 1806, e faleceu em Draguignan em 1818, com 57 anos de idade.

Doumet pensava decerto publicar um livro de memorias ou de viagens, ilustrado com os seus desenhos. Nesse intuito coligiu os quadrinhos que agora se publicam, e que estão preparados para a reprodução em gravura a córes, com as respetivas cercaduras, numeração, legendas e assinaturas, ao gosto da epoca.

Os seus desenhos são tratados como miniaturas, com um a delicadeza assombrosa de promenores. O antigo pintor do Arsenal denuncia-se na reprodução das náus, dos barcos, das noss as muletas, etc., não faltando nas aguarelas, apezar das suas dimensões restritas, o mais insignificante detalhe de arquitetura naval.

Vue d'une partie de Lisbonne en Portugal, Zacharie-Félix Doumet (1761-1818)
Museu de Lisboa


As figuras são cuidadosamente entrajadas, denotando as atitudes e as côres uma observação atenta e alegre, melhor revelada na ironia leve com que alguns episodios populares são tratados.

As gravuras que acompanham estas notas, representam: a primeira, quatro mariolas, transportando uma pipa «a pau e corda»: a scena passa-se no Caes do Sodré, divisando-se no Tejo, á esquerda, uma náu portuguesa, e á direita, entre outros barcos, uma fragata inglesa.

Maniére de porter les barriques de vin, Zacharie-Félix Doumet (1761-1818)
Hemeroteca Digital de Lisboa

A segunda mostra-nos o preto andador, de opa azul e branca, dando o Menino Jesus na sua maquineta de vidro e flores de talco, a beijar a uma mulher de lenço e capa de ramagens, emquanto o marido, oficial de linha , esportula a respetiva esmola.

L'enfant Jesus, Zacharie-Félix Doumet (1761-1818)
Hemeroteca Digital de Lisboa


Le Menino Jesus, l'agoadeiro et le dragon portugais, Zacharie-Félix Doumet (1761-1818)
Museu de Lisboa

Na ultima, a que Doumet intitulou "as vesperas do Natal", notam-se pequenos aspectos da vida das ruas, caraterísticos da epoca do ano a que al udem.Num grupo, mulheres de capote vermelho ou vasquinha debruada e lenço branco, e homens de bicorne, vestia ou gabão, abrigados por um chapelão de mercado, cinzento, vendem queijos, laranjas e ovos.

Les aproches de Noël, Zacharie-Félix Doumet (1761-1818)
Hemeroteca Digital de Lisboa

Mais adeante, uma outra vendedóra acocóra-se junto do seu cesto, perto de um perú enfatuado. Outros galinaceos espalhados pelo quadro esperam descuidosamente o dia do sacrificio.

Ao fundo, um preto velho, de opa, vara e maquineta, talvez o mesmo da aguarela anterior, segue na sua faina de andadôr, pedindo para o Menino a um «homem de ganhar» que vae passando. (1)

São poucos os documentos iconográficos que possuimos a respeito dos mercados portugueses dos fins do seculo xviii. Murphy, Kinsey, Baillie, Bradford, Léveque, e outros, reproduzindo, em gravuras soltas ou nas que acompanham as relações das suas viagens, tipos populares portugueses, raramente agruparam essas figuras de modo a indicarem, no conjunto, qualquer aspéto de um mercado.

Por outro lado, Stadler, Wells, Sofia Wagner, Humphrey e Dunstan Gordon — que presumo seja o autor que desenhou as pitorescas scenas do Scketches of Portuguese Life — procuraram apenas dar a impressão aproximada e despretenciosa dos episódios da nossa vida rural, desenhando e fazendo gravar, nas suas composições mais vastas, quadrinhos campestres, em que aparecem tipos populares.

Ora Zacharie Doumet, o minucioso pintor francês a quem no numero anterior me referi, deixou-nos, nas folhas do seu album, numerosos aspétos dos mercados da época, desenhados do natural. Não lhe escaparam, por isso, nem as atitudes e os trajos dos vendilhões e compradores, nem os pequenos incidentes característicos do ajuntamento, taes como os cães brincando com as galinhas, ou o burro filosofando tranquilo ante um cesto pojado de legumes...

Marché portugais, Zacharie-Félix Doumet (1761-1818)
Hemeroteca Digital de Lisboa

Entre as personagens representadas, salientam-se o frade, de habito pardo e escapulário, o negociante, com seu bicorne e capote de mangas, e o sargento, de farda azul com peitilho e vivos brancos e chapeu debruado, que faz a polícia do mercado.

Marché portugais, Zacharie-Félix Doumet (1761-1818)
Hemeroteca Digital de Lisboa

Doumet reproduz com muito cuidado os trajos. As mulheres usam, quasi invariavelmente, uma saia de baixo, amarela, sendo a que trazem apanhada sob a cinta, azul ou arroxeada; a vasquinha é vermelha, debruada de azul ; os capotes, com cabeção, amarelados ou escuros, e os lenços, brancos, assentando o carapuço ou chapeu sempre sobre o lenço.

Marché portugais, Zacharie-Félix Doumet (1761-1818)
Hemeroteca Digital de Lisboa

Os homens trajam véstias cór de castanha ou azuladas, debruadas de fita, e coletes vermelhos.

Marché portugais, Zacharie-Félix Doumet (1761-1818)
Hemeroteca Digital de Lisboa

 

O chapeu é geralmente um bicorne agaloado de amarelo ou azul, e os carapuços são amarelados ou vermelhos. Os capotes, cór de pinhão ou de azeitona, tem cabeção, mangas, e ·Um capuz, forrado de verde.

La conversation portugaise ou le temps perdu, Zacharie-Félix Doumet (1761-1818)
ComJeitoeArte

A proteger as pernas, usam as personagens, além dos calções de fazendas grossas, polainas de pano ou meias brancas. Na frente dos sapatos, arqueia-se quasi sempre uma daquelas grandes fivelas, tão satirizadas pelos folhetos de cordel da época. (2)


(1) Luís Keil, Scenas da vida portuguesa (fim do século xviii), Terra Portuguesa 21/23, 1917
(2) Luís Keil, Antigos mercados portugueses, Terra Portuguesa 24, 1918

Mais informação:
ComJeitoeArte, Costumes portugueses - Doumet, Zacharie Félix
Museu de Lisboa

segunda-feira, 24 de junho de 2024

Brigue Viajante

Foi ao mar, no dia 19, o Brigue Viajante, construido pelo habil constructor o sr. Silva, no estaleiro de Porto Brandào, ao Sul do Tejo.

Brigue Viajante, João Pedroso
Cabral Moncada Leilões

São geralmente elogiadas as contrucções do sr. Silva pela sua elegancia e valentia.

Barca [Brigue] Viajante (João Pedroso, atrib.).
Invaluable

Os bem conhecidos lindos navios — Brigue, Bom Successo, palhabote, Veloz, e barca, Izabel, foram egualmente construidos pelo sr. Silva. Consta que este senhor já recebeu encommendas de novos vasos; oxalá que tal noticia ae verifique.

Barca Isabel, 1851.
"Janêllos" da História: Os Serzedello

A marinha mercante nacional, e o credito das nossa construcções navaes, ganham muito em que o sr. Silva seja animado e honrado, como incontestavelmenle merece, na profissão que, com tanto amor, sabe exercer. (1)


(1) Revista Popular, 1851

Artigos relacionados:
Barca Isabel
Planos inclinados de 1865

domingo, 23 de junho de 2024

Dispersos, anónimos ou em falta

A. E. Hoffman

Fantoches, autor desconhecido, no Museu de Lisboa que atribuímos a A. E. Hoffman, no contexto das Guerras Liberais ou da vitória dos liberais sobre os absolutistas, c. 1835.

Fantoches, autor desconhecido
(possível A. E. Hoffman c. 1835)
Museu de Lisboa

Bailarico em Cacilhas, datato da década de 1810, da colecção do dr. José Coelho da Cunha (de momento não temos informação do seu paradeiro), fez da nossa parte objecto de um apontamento dedicado (v. Bailarico em Cacilhas).

Bailarico em Cacilhas, possível original de A. E. Hoffman, c. 1835
Alberto de Souza, Alfacinhas, Os Lisboêtas do passado e do presente

Saltimbancos (ou Largo do Corpo Santo ), A. E. Hoffman c. 1833, no Museu de Lisboa, pertencia ao engenheiro Vieira da Silva. Referia um local errado para a cena nele descrita. Apresenta, de facto, o Largo dos Remolares, posteriormente Praça do Duque da Terceira.

Saltimbancos, A. E. Hoffman, c. 1833
Museu de Lisboa



Alexandre-Jean Nöel


Comemoração da abolição do imposto sobre o pescado, atribuido a Alexandre-Jean Nöel (1787-1788), cremos que ainda pertença ao ao Museu Nacional de Arte Antiga, como referido no catálogo da exposição de documentos e obras de arte relativos à história de Lisboa, 1947.

Cortejo no Tejo
(comemoração da abolição do imposto sobre o pescado)
Pertence ao Museu Nacional de Arte Antiga
Arquivo Municipal de Lisboa


Nicolas Delerive


Junot passando revista às tropas no Rossio/Parada dos Voluntários reais no Rossio, que atribuimos a Nicola Delerive. Cremos que ainda pertença ao ao Museu Nacional de Arte Antiga,

Junot passando revista às tropas no Rossio, anónimo.
Pertence ao Ex.mo Senhor Eduardo Mendia.
Catálogo da exposição de documentos e obras de arte relativos à história de Lisboa, MNAA, 1947


Tony de Bergue


Casamento de D. Maria II com D. Fernando II em 1836. Cremos que ainda pertença ao ao Museu Nacional de Arte Antiga,

Casamento de D. Maria II com D. Fernando II em 1836.
Igreja de Santos o Velho, óleo sobre tela da autoria de Tony de Bergue, meados do século XIX.
Pertence ao Ex.mo Senhor Pedro Costa.
Arquivo Municipal de Lisboa


Henri l'Évêque


Pelo grafismos, olhos expressivos, rosto amplo permitindo uma boa aguarelagem, atribuímos o desenho a Henri l'Évêque, embora a imagem não tenha sido incluída em Costume of Portugal, 1814.

O pobre dos bonecos, Oficina Régia Litográfica, impr. 1832
(Costumes portugueses ou Colecção dos trajos, usos e costumes mais notáveis e característicos dos habitantes de Lisboa e Províncias de Portugal, 1832-35)
Biblioteca Nacional de Portugal



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Uma exposição no tempo... 1947