sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O Juncal

por Francisco Zacharias d'Aça

O dia oito de setembro era o escolhido por Bulhão Pato para a abertura das suas caçadas do inverno no sul do Tejo, e o sitio preferido o Juncal da Trafaria. (1)

Rocha do conde d'Óbidos, Alfredo Keil, 1873
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N'aquelle dia, ao romper da manhã — uma manhã de novembro, fresca e luminosa — abicava ao caes do Aterro, fronteiro á Rocha, toda a esquadrilha do patrão Lourenço — três bellos catraios, governados por elle, pelo seu filho mais velho, João — um rapagão desembaraçado, e por outro arraes, alto e membrudo como um athleta, e que hoje é mestre dum dos vapores de Cacilhas.

Moços e velhos, eram todos marítimos ás direitas, e naquelles barquinhos iam elles á pesca, e por lá andavam, sem medo e á ventura, fora da barra! Quantas vezes, para não faltarem á sua palavra, elles nos vinham buscar alli, tendo perdido a noite no mar! E isto percebiamol-o nós pelo arranjo do barco, denunciante do serviço da noite. Da boca não lhes saiu nunca uma palavra, que podesse ser tomada como um encarecimento interessado, um appello á nossa generosidade!

João Lourenço já vinha com elles de Belém, trazendo as suas melliores espadas — o Thiers, a Norma, o Tibau, e outros. Acompanhavamn-o o Eusébio, e o Joaquim Tavares, da Junqueira, como elle creado da Casa Real, boa espingarda e sizudo companheiro. Um excellente rapaz. 

Iam senhoras também comnosco, mas, se eu escrevesse em estylo clássico, não poderia dizer que nós formávamos o cortejo de Diana, a caçadora. Nem a sr.ª D. Maria da Piedade, a irmã do illustre poeta, nem as outras senhoras, suas amigas, tinham a minima pretenção a "sports-women". A maré era boa, e aproámos ao Torrão, evitando o fadigoso transito pelo areal.

*
*   *

Bem auspiciado o dia. Encontrámos logo as codornizes á beira mar, no principio do matto. Cruzavam-se os rastros, como de costume, mas os cães, práticos do terreno e conhecedores da caça, logo destrinçaram a meada. D'ahi a pouco estavam todos parados á mostra do que ia na frente.

Paul da Outra banda/Pântano/Vista do Alfeite/Charco de Corroios, José Malhoa, 1885
Blog do Noblat

Formoso e singular espectáculo! Impressiona a todos este repentino estacar dos perdigueiros. A passo, a trote, a galope, que vam, ao sentirem a caça próxima, ficam de improviso immoveis, na posição em que ella os surprehendeu! Apenas um quasi imperceptível tremor denuncia nelles a vida.

Os nossos — eram sete ou oito — pareciam fundidos! Todos firmes em diversas attitudes, conforme o seu estylo de caçar. Norma, na frente, de cabeça alta e dominadora, apontava a caça; ao lado della o Thiers, marcando de mais longe, inclinava-se para o lado d'onde lhe vinham os effluvios; o Tibau, um cão preto como azeviche, arrastara-se como um reptil até ao centro do grupo, estacando súbito ! Os outros, mais affastados, vinham correndo e parando por sympathia, por influencia, e iam assim compondo e completando o maravilhoso quadro! Inteiriçados, alguns com o pello arripiado, não moviam um musculo!

Como eu registro aqui impressões antigas, direi que na minha vida de caçador nunca mais tornei a ver coisa assim. Um grupo como este jamais artista algum o compoz.

Diversos os animaes na pelagem, no desenho, na estatura, alguns d'elles — o Thiers, a Norma, a Jóia — eram verdadeiras estampas: a mesma variedade tinham nas attitudes elegantes. As senhoras, surprehendidas e encantadas pela belleza da scena, approximaram-se, e todos nós formámos um arco, tendo no centro os cães parados.

Na ponta esquerda estava Bulhão Pato. Á sua voz a Norma deu a pancada.

Em vão — a codorniz tinha-se furtado.

Então os perdigueiros romperam a mostra, e partiram de novo em todas as direcções, em busca da caça, que lhes fugira. Não tardaram em achal-a, e eil-os outra vez estacados. A Norma mantinha a dianteira — a codorniz tinha-a ella apontada. E como já não havia defeza, porque estava no limite do matto, ella pôz-se nas azas. 

O vôo, estridulo no arrancar, denunciava um macho. Naquella estação, naquelles logares as codornizes encontram abundante e succulento pasto nas myríadas de pequeninos caracoes, que cobrem litteralmente as joinas. Alli se preparam para a grande travessia da sua emigração para a Africa. 

Aquella, como não havia vento, voava baixo, mas distanciava-se rapidamente. Ouviu-se um tiro. A codorniz caiu.

Retrato do poeta Raimundo Bulhão Pato,
Miguel Angelo Lupi, C. 1880
ComJeitoeArte

A pontaria certeira foi de Bulhão Pato — pensará o leitor, que vae seguindo, e ás vezes anticipando, os factos... Não foi, e devia ser. Era o mais velho, o mais graduado — era o cabeça, o chefe. 

Mas entre nós havia um que, por ser o mais novo, o menos experimentado, se esqueceu de tudo isso, e, enthusiasmado com os lances daquelle jogo, não se conteve... A codorniz caiu redonda, mas eu — que fui o tal atirador — também caí logo em mim, e vi que, apesar da pontaria certeira, havia errado!

Aqui fica o meu — Peccavi...

Pato, confiado em si, tinha-a deixado alargar. Não viu d'onde partira o tiro, e perguntou de quem fora.

— Fui eu. 
— Está bem. Bom tiro. Deixa-a ver — disse elle. 
— Está gorda. Mas aqui ha mais. Vamos devagar.

Effectivamente as paradas rcpetiram-se, e d'ahi a pouco dez codornizes tinham alli encontrado "sua fim". Escusado é dizer que foram quasi todas mortas por elle, que era de todos nós a melhor espingarda.

Coitadas, como o seu destino era atravessar um estreito, passaram por um — mas não foi o de Gibraltar.

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O sol ia apertando. As senhoras deixaram-nos, e tomaram, com as creadas, o caminho da Costa.

Grupo do Leão, 1881, O Brejo, José Malhoa.
Cabral Moncada Leilões

Á nossa esquerda tinhamos, em frente, a vinha do Miranda, bom abrigo para a caça, e, á direita, descobria-se a praia fronteira ao mar; mas no limite d'ella, á beira do matto, appareciam-nos, aqui e alli, alguns lagos, que as chuvas do outono tinham formado.

A agua era tão limpida, que se lhe via o fundo; apenas algumas moitas de juncos lhe sombreavam a superfície, que refíectia as raras nuvemzinhas brancas, que pairavam quietas no ar. Aquelles lagos eram tentadores.

Se elles tivessem narcejas...

— Vou-me aos lagos — disse eu ao meu amigo. Está-me sorrindo a idéa de lá encontrar certas senhoras... 
— Pois vae. Eu não vou, não me quero agora molhar. Tu não te importas com isso. Talvez lá estejam algumas. Eu cá vou andando para a tapadinha. 

Eu fui, e ellas lá estavam. Não eram aos centos, ainda assim encontrei as bastantes para errar uma dúzia de tiros. Mas não errei todas. Não sei o que as narcejas teem commigo; o que é certo é que eu — que em theoria, a frio, prefiro as perdizes e as gallinholas — quando defronto com ellas, nos terrenos alagadiços, que são os seus predilectos, perco a cabeça, e não ha lamas, nem aguas, nem lodos de marnotas, que me impeçam de as fuzilar! Será a difficuldade do tiro? Talvez. E é provável que seja, porque é a caça que mais se erra.

Entrar naquelles lagos era o mesmo que entrar em um tanque. A agua estava tão fria, e em alguns era tão alta, que tive de sair dum rapidamente: sentia já um começo de tontura. O que não me impediu de me metter logo em outro, e de andar assim mais duma hora, a entrar e sair da agua, debaixo d'um sol ardente, e num sitio tão sezonatico. Mas parece que eu andava então á guarda de Deus! Nem sezões, nem nada!

As narcejas tinham já desapparecido deante de mim nos lagos, e a fuzilaria continuava a ouvir-se para as bandas da tapadinha. Encaminhei-me para lá.

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Boa caçada. Pato estava radiante — as codornizes saltavam-lhe das joinas aos pares! E elle já se firmava com ellas, por causa da brisa que se levantara, e tambem por causa dos cartuchos. Contava-as a ellas, e já os contava a elles, que iam rareando no cinto.

clique para ler o livro
Bulhão Pato, Paysagens,
(capa de Raphael Bordallo Pinheiro)
Lisboa, Rolland E Semiond, 1871


— Então a tapadinha rende — disse-lhe eu. Merece o nome que lhe pozeste. 
— É como vés. Tudo isto está cheio dellas. Mas tu também achaste narcejas. 
— Trago aqui cinco, mas ficaram-me lá muitas. Estão um pouco ásperas. 
— Olha os cães, Zacharias. 

Palavras não eram ditas e três codornizes a saltarem. Estavam espertas, não esperavam. Bastava que os cães as apontassem.

Três tiros. Pato dobrou a duas, e eu matei a terceira.

— Dá cá, Thiers. Olha, estão magnificas. E, dizendo isto, passava-me á mão um esplendido macho, negro e de peito redondo. Todas assim — accrescentou elle. É a sazão da partida.

João Lourenço approximara-se com os seus companheiros. Estendemo-nos em ordem, e a fuzilaria continuou nutrida. Parecia o tiroteio duma linha de atiradores!

Cruzavam-se, por vezes, os tiros, porque a caça, espalhada pelo Juncal, ia-se levantando deante de nós em toda a extensão da linha. Os nossos improvisados "moços de monte" — rapazitos do sitio, que sempre se nos aggregavam — ficavam-se atraz, a descançar nas raras sombras dos médãos, e Pato já ia repartindo comigo os despojos, que lhe começavam a pesar na rede [sacca]. A brisa da manhã cessara, mas as nuvemzinhas brancas quebravam, de quando em quando, o ardor do sol, que nos principiava a morder. Só as meigas nos perseguiam, obrigando-nos a fazer dos lenços guarda-nucas.

[Á altura de meio Juncal fizemos frente á retaguarda em direcção aos lagos. Era a vez das narcejas para todos.]

— Aqui ha rastro d'uma lebre, sr. Pato — disse o João Lourenço, que ia atravessando um claro da areia. E lá vae ella! — gritou elle. Vae ao longo do médão! Ahi á sua direita!

Com elfeito ella ia-se furtando por entre as joinas e os juncos, aos saltos. Estava perto de nós.

— Deixa-a endireitar a carreira — disse Pato.

Era a primeira, que eu alli via. — Agora. E atirou-lhe. A lebre, ao tiro, deu um salto, e atravessou, cortando pelo Juncal. Ia ferida, e os cães, que a tinham visto, seguiram-na, e não tardou que a agarrassem. Estava crivada de chumbo.

— Agora vae um cigarro. E vamos ás narcejas, emquanto o sol não aperta mais. Eu não entro na agua, apesar do nome, mas vocês não fazem ceremonias, e sacodem-m'as para fora.

Quando chegámos já lá estavam outra vez as regadias, como lhes chamam na província, e principiaram a espirrar d'entre os juncositos, que bordavam os lagos.

O tiroteio redobrou então de intensidade, porque ellas — ha pouco batidas por mim — andavam levan- tadas, e saltavam umas atraz das outras, á roda de nós, cruzando-se no ar em todas as direcções.

A esta espécie são dois os momentos em que se lhe pode atirar — quando levantam, e então é um tiro de chofre, ou quando, depois de fazerem os seus zigzagues, ellas acertam o vôo. O mais seguro é chofral-as — o que, em todo o caso, é um tiro de acaso — porque não ha tempo para apontar.

Depois é quasi sempre tarde; ao endireitar vam saindo do alcance. Quem não é pratico, enthusiasma-se, dá muitos tiros, e não mata nenhuma. Foi o que me succedeu nas primeiras vezes, O commum dos caçadores não gosta dellas por isso, mas os outros capricham em emendar a mão, e voltam. E ha tal que as prefere a tudo.

O illustre poeta já então era óptimo atirador. Eu admirava-o, quando o via dobrar os tiros, e também ingenuamente me admirava, quando via cair alguma daquellas bicudas, que eu mal entrevira, ao desfechar.

Para arredondar a conta das narcejas appareceram dois marrequinhos. [Foi] Feliz a nossa visita á região dos lagos.

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Curtas as tardes do inverno. O sol descia rapidamente sobre o horisonte, e as nossas sombras principiavam a alongar-se no chão. Era tempo de nos approximarmos da Costa.

Entrance of the river Tagus with the harbour of Lisbon (detalhe), 1871
British Library

Íamos subindo pelo Juncal, quando a minha cadella — a Jóia — que acabava de me apontar com grande frieza uma codorniz, deu uma fiada rápida, e logo outra, formando um angulo recto com a primeira, e ficou-se como uma rocha... Uma narceja perdida alli, e que apenas saltou caiu. [E logo em seguida uma codorniz.]

Finíssima perdigueira — caçada pelo Manuel Candido, da Charneca, ás narcejas, ás lebres, ás gallinholas e ás perdizes — a primeira vez que a levei ao Juncal, vendo os outros cães accesos no rastro das codornizes, não fazia caso nenhum dellas; e parava a olhar para mim, como admirada, exprobrando-me talvez o eu tel-a arrancado aos seus frondosos pinhaes da Amora e de Corroios, para levantar passarinhos naquelle areal! Depois habituou-se, não deixava escapar uma [— mas era só por cumprir].

Até chegarmos ao fim do Juncal, ás Cabanas, a caça não cessou de saltar. Ahi tivemos uma scena — armada de improviso, que se apresentou desde logo com torvo aspecto.

Ao longo do caminho sobranceiro, que atravessa, no alto do Juncal, para as cabanas dos pescadores, havia uma nesga de chão, que o trabalho pertinaz do homem tentara transformar em horta. Em cima, á beira do tal caminho, um poço explicava, e, até certo ponto, justificava aquella pretençao. Couves de talo rijo, esgrouviadas, e meio seccas, era apenas o que alli se via! Á esquerda, em terreno mais alto, duas choças de colmo dominavam esta horticultura, pobre, triste, e agreste, como toda a região daquella costa. O couval não tinha sebes, que o defendessem, e por ahi costumávamos nós passar, á ida e á volta. A plantação era rara, e podiamos, transitar sem prejuizo. 
ica.

Plano hydrographico da barra do porto de Lisboa (detalhe), Francisco M. Pereira da Silva, 1857.
Biblioteca Nacional de Portugal

A invasão das codornizes chegara, naquelle dia, até lá, e quando Bulhão Pato, indo na nossa frente, a certa distancia, entrou na horta, os cães deram logo signal de algumas. Seguia-os elle, attento, quando á porta duma das choças assomou um homem, que lhe falou grosseiramente, começando por um: — Ponha-se lá fora! que soou muito mal aos ouvidos do poeta.

O dialogo travou-se assim rudemente, mas nós, eu e o Joaquim, que estávamos um pouco longe, não percebemos nem estas palavras, nem as que se lhe seguiram, e só conhecemos a gravidade da situação, quando vimos Bulhão Pato, com gestos de ameaça, pôr a espingarda no chão, e avançar para o rústico. Apressámos então o passo, tanto mais que o homem, recuando, entrara bruscamente em casa. 

As primeiras palavras do dialogo não as ouvi, mas ouvi as ultimas — as do poeta . . . Não eram académicas, não, não as posso aqui repetir; mas, num crescendo formidável de violência e de injuria, foram subindo até terminarem no mais agudo dos insultos — agudo no sentido e na palavra — repetida três vezes, a fechar a tremenda apostrophe ! A mais eloquente de certo, que jamais trovejara naquelles campos.

O homem podia voltar, mas não voltou. Temeu-se elle do caçador, cuja voz máscula tinha as impetuo- sas e dominadoras vibrações da cólera, e que avançava para elle com os punhos cerrados ou estaria lá alguém, que o segurou?

Quando nós, seguindo o mesmo trilho de Bulhão Pato, atravessámos a horta e depois, trepando pela rampa, passámos em frente da palhota, olhámos para lá. No escuro da porta não havia ninguém.

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Voltara o silencio áquelles logares. A nuvem negra, que de repente surgiu, a turvar-nos a limpida atmosphtra daquelle formoso dia, desapparecera, varrida pela voz do poeta. 

Costa da Caparica, Manhã na praia da Caparica, Adriano Sousa Lopes (1879 — 1944).
MNAC (museu do Chiado)

Dalli a pouco estávamos todos reunidos na casa de jantar da sr.ª Maria do Adrião. Ao lado, na sala, de paredes estucadas, e tecto com relevos — uma surpresa para nós aquella restauração — a menina Cazimira extrahia das gavetas das suas bellas commodas de polimento, e mostrava ingenuamente ás senhoras, as riquezas e os primores da sua guarda-roupa — chales, vestidos de cores garridas, saias com rendas finas, camisas bordadas, lenços de seda de ramagens, que tão bem ficam, e tanto realce dão áquelles rostos campesinos, já illuminados de tons quentes pelo ar do campo e pelo sol.

Uma figura gothica — esta menina Cazimira. Alta e delgada de corpo, nem pallida, nem corada, a voz dum timbre algo dorido, avara de palavras, os olhos sempre postos no chão, e um não sei que de triste e enigmático, davam-me a impressão de quem não anda satisfeito cá na terra...

Estas figuras, quando teem uma plástica individual, e caracteristica, por apagada que seja nellas a expressão da vida, são, como as estatuas, suggestivas. Imprimem-se indeléveis na memoria, e entram na galeria do nosso mundo interior. É com estas imagens, cujos contornos o tempo vae esbatendo, que os artistas e os poetas compõem os seus quadros, os seus romances, e os seus poemas. 

Aquella donzella, serena e silenciosa, recortava-se alli, aos meus olhos — destacando do discorde scenario, e parecia ter saído d'algum velho painel Flamengo, de Van Eyck ou de Memling — interior de cathedral gothica, ou comitiva castellã, em caçada fidalga, com pagens, lebreus e falcões.


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Ás Ave-Marias vínhamos nós nos barcos, já de volta, aconchegados nas mantas, fumando e conversando. Nos paneiros os cães, enroscados, dormiam.

Torre de Belém, Frank Dillon, 1850.
BBC Your Paintings

Ouvíam-se, rio acima, as sinetas de bordo, e, para o norte, o tiro de peça da torre de Belém annunciava, com o seu ruidoso pregão, o pôr do sol — um sol poente de outono, illuminando e doirando os aéreos castellos das nuvens, tão cambiantes, diaphanos, e fugitivos, como os da minha phantasia, naquelles áureos tempos da mocidade!...

24 de maio de 1898 (2)


(1) Zacharias d'Aça, O Tiro Civil n.° 139, quarta-feira 1 de junho de 1898
(1) Zacharias d'Aça, Idem

Artigos relacionados:
Retratos de Bulhão Pato

Tema: Bulhão Pato

Informação relacionada:
Bulhão Pato, Zacharias d'Aça, O Occidente n.° 717, 30 de novembro de 1898
O Occidente n.° 434, 11 de janeiro de 1891
Bulhão Pato, Paquita, Typographia Franco-Portugueza, 1866Bulhão Pato, Livro do Monte, georgicas, lyricas, Lisboa, Typographia da Academia, 1896
Francisco Zacharias d'Aça, Caçadas portuguezas: paizagens, figuras do campo,
Lisboa, Secção Editorial da Companhia Nacional Editora, 1898 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A laguna do Vouga

dita Ria de Aveiro

Há três dias que ando metido na ria, com a barba por fazer, sujo como um ladrão de estrada e fora de toda a realidade. Afigura-se-me que vivo num país estranho — amplidão, água e sonho. Pelo areal os palheiros da Costa Nova, S. Jacinto e da Torreira... Que me importa! (1)

Companha da Costa Nova, ex-voto ao Senhor Jesus dos Navegantes, séc. xix
Offerecido ao Senr. Jesus, Por Jese Carlos Fernandes Parraxo
MMI/Centro de Religiosidade Marítima
Google Arts & Culture

A barra de Aveiro

A barra de Aveiro era extremamente móvel, tomando sempre o rumo do Sul; em apenas duas décadas, desde a tentativa da sua fixação perto da Vagueira por João Iseppi, arquitecto hidráulico italiano que dirigiu as obras no início dos anos oitenta (1780-1781), o cordão dunar tinha avançado mais de 4 km para Sul, estando a barra próxima de Mira e a cerca de 24 km da cidade de Aveiro (...)

Extracto do Mappa geral Hydrographico da embocadura do Vouga, e da Ria ou Lago do mesmo nome.
Copiado no Real, e Geral Depozito das cartas Marítimas, Militares, em 1802...
Planta do projecto que se esta executando para a nova abertura da Barra do Rio Vouga
por Ordem de SAR o Principe Regente Nosso Senhor

O Programa de Obras Públicas para o Território de Portugal Continental, 1789-1809, vol. I


Reinaldo Oudinot apresentou uma memória sobre as causas do assoreamento dos rios e da costa portuguesa e discutiu o modo de diminuir essas causas aplicadas aos portos, tendo abordado o caso mais grave de todos, o do porto e barra de Aveiro. 

António Rangel de Quadros, guarda-mor da Alfândega de Aveiro, embora não fosse membro da Sociedade, apresentou, em Março de 1801, um plano para a abertura da barra de Aveiro, ano em que D. Rodrigo de Sousa Coutinho iniciou o processo de projecto. (2)

A Costa Nova

A abertura da Barra Nova de Aveiro em 3 de Abril de 1808, barra artificial, foi, pela sua má localização, a causa do assoreamento da orla marítima da praia de São Jacinto, verdadeira calamidade que obrigou as Companhas de Ílhavo a transferir os seus assentos para as areias ao Sul do paredão da Barra, pois ali se tornava impraticável o exercício da pesca.

Mappa da Ria de Aveiro para intelligencia do plano da abertura da nova barra 
por Luiz Gomes de Carvalho, 1813
 
Biblioteca Nacional de Portugal

Desta emergência do abandono da Costa Velha pelas Companhas dos pescadores de Ílhavo surgiu, para estas, a imperiosa necessidade de procurarem sítio adequado onde pudessem trabalhar. 
ré.

Preparando as redes na Costa Nova ed. Faustino António Martins (F A Martins/FAM/Martins e Silva/MS), fotografia original de Paulo Guedes & Saraiva, Ílhavo n° 15, década de 1900.
Delcampe

O ilhavense Luís dos Santos Barreto foi o primeiro arrais a deixar a assoreada Costa do Norte e a estabelecer-se na Costa do Sul, assento da sua Companha, cujo local já tinha de antemão escolhido e que designou com o nome de Costa Nova, que, afinal, era um Enclave, pois esta zona não pertencia a Ílhavo.

Planta das Obras da Barra de Aveiro pelo Sarg.to Mor do R Corpo de Eng.os 
Luiz Gomes de Carvalho, 1876 
planta aguarelada realizada pelo engenheiro Silvério Augusto Pereira da Silva

A Barra da Laguna de Aveiro no Século XIX 
cf. AMORIM, I. (2008). Porto de Aveiro: entre a terra e o mar

Toda a orla marítima entre Ovar e Mira era pertença territorial e exclusiva do concelho de Ovar. Só em 1855, um decreto de 24 de Outubro, anexou ao domínio dos concelhos da Feira, Ovar, Estarreja, Aveiro, Ílhavo e Vagos, a faixa litoral marítima confinante com a terra firme pertencente a cada um destes seis concelhos. (3)

A Gafanha

O Padre João Vieira Rezende, na sua Monografia da Gafanha (1944), diz que Gafanha é "tôda a região arenosa dos concelhos de Ílhavo e Vagos com cêrca de 25 quilômetros de comprimento por 5 de largura, abracada do Norte ao Sul (lado poente) pelo rio Mira e do Norte ao Sul (lado nascente) pelo rio Boco, afluentes da Ria-de-Aveiro, e confinando pelo Sul com uma linha que, saindo dos Cardais de Vagos, vai fechar ao Norte do lugar do Pogo-da-Cruz, freguesia de Mira.

Aveiro.Vista da ria, tirada da ponte da Gafanha,
ed. Alberto Malva e Roque Sucessores (M&R/MIR) n° 764, c. 1905.
Delcampe

Pela identidade da sua origem, topografia, condigôes de vida, costumes, etc, consideramos como uma continuagão da Gafanha a duna situada naqueles dois concelhos, entre o Oceano e a Ria." (4)

A Vagueira

Em 1863 obstruiu-se a barra da (na) Vagueira, do que resultou grande vantagem para as condições do canal, deixando de haver, entre Aveiro e Mira, comunicação com o mar. Onde fôra out'rora a barra chamada da Vagueira, há hoje uma praia de banhos. (5)

Praia da Vagueira, Ponte sobre a Ria, ed. Supercor.
Aveiro e Cultura

Para o sul da Costa Nova, próximo da antiga barra da Vagueira, hoje totalmente obstruída, existe o porto de pesca do Arião (Areão) onde se exerce unicamente a pesca costeira (1886)... (6)


(1) Raul Brandão, Os Pescadores, Paris, Ailland e Bertrand, 1923
(2) O Programa de Obras Públicas para o Território de Portugal Continental, 1789-1809, vol. I
(3) Ramalheira, Como nasceu a praia da Costa Nova
(4) Henrique Souto, Comunidades de pesca artesanal na costa portuguesa... 1998
(5) Revista de Turismo n° 95 e 96, junho de 1920
(6) Arthur Baldaque da Silva, Estado actual das pescas em Portugal: comprehendendo a pesca maritima... 1886

Mais informação:
Cátia Martins, A Barra da Laguna de Aveiro no Século XIX Impactos da Ação Antrópica na Dinâmica Lagunar
Inês Amorim, Aveiro e sua provedoria no séc. xvii: 1690-1814i
Alfredo Pinheiro Marques, A arte-xávega da Beira Litoral e as suas embarcações, Revista da Armada n° 555, setembro-outubro de 2000

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Praia da Vieira

por Eça de Queiróz

Era então no começo de Setembro; a Sra. D. Maria da Assunção, que tinha uma casa na praia da Vieira, propôs levar a S. Joaneira e Amélia para a estação dos banhos, para ela espalhar, nos bons ares saudáveis, em lugar diferente, aquela dor.

Portugal, barque lune à Vieira de Leiria, 1954 par Jean Dieuzaide.
numelyo

— É uma esmola que me fazes, dissera a S. Joaneira. Sempre me lembra que era ali que ele punha o guarda-chuva... Ali que ele se sentava a ver-me costurar!

— Está bom, está bom, deixa-te disso. Come e bebe, toma os teus banhos, e o que lá vai lá vai. Olha que ele tinha bem os seus sessenta.

— Ah, minha rica! a gente é pela amizade que lhes ganha.

Praia da Vieira, Leiria.
Helena Corrêa de Barros, Arquivo Municipal de Lisboa

Amélia tinha então quinze anos, mas era já alta e de bonitas formas. Foi uma alegria para ela a estação na Vieira! Nunca vira o mar; e não se fartava de estar sentada na areia, fascinada pela vasta água azul, muito mansa, cheia de sol; às vezes no horizonte passava um fumo delgado de paquete; a monótona e gemente cadência da vaga adormentava-a; e em redor o areal faiscava, a perder de vista, sob o céu azul-ferrete.

Praia da Vieira, Leiria.
Helena Corrêa de Barros, Arquivo Municipal de Lisboa

Como se lembrava bem! Logo pela manhã estava a pé! Era a hora do banho: as barracas de lona alinhavam-se ao comprido da praia; as senhoras, sentadas em cadeirinhas de pau, de sombrinhas abertas, olhavam o mar, palrando; os homens, de sapatos brancos estendidos em esteiras, chupavam o cigarro, riscavam emblemas na areia; enquanto o poeta Carlos Alcoforado, muito fatal, muito olhado, passeava só, soturno, junto da vaga, seguido do seu Terra-Nova.

Praia da Vieira, Leiria.
Helena Corrêa de Barros, Arquivo Municipal de Lisboa

Ela saía então da barraca com o seu vestido de flanela azul, a toalha no braço, tiritando de susto e de frio: tinha- se persignado às escondidas e toda trêmula, agarrada à mão do banheiro, escorregando na areia, entrava na água, rompendo a custo a maresia esverdeada que fervia em redor.

Praia da Vieira, Leiria.
Helena Corrêa de Barros, Arquivo Municipal de Lisboa

A onda vinha espumando, ela mergulhava, e ficava aos saltos, sufocada e nervosa, cuspindo a água salgada. Mas, quando saía do mar, como vinha satisfeita! Arfava, com a toalha pela cabeça, arrastando-se para a barraca, mal podendo com o peso do vestido encharcado, risonha, cheia de reação; e em redor vozes amigas perguntavam:

— Então que tal, que tal? Mais fresquinha, hem?

Vieira de Leiria. Praia. 10, sahida das rêdes e venda de peixe.
Delcampe

Depois, de tarde, eram os passeios à beira-mar, a apanhar conchinhas; o recolher das redes, onde a sardinha toda viva ferve aos milheiros, luzidia sobre a areia molhada; e que longas perspectivas de ocasos ricamente dourados, sobre a vastidão do mar triste, que escurece e geme! (1)


(1) Eça de Queiróz, O crime do padre Amaro, 1875 (reescrito em 1878)

Mais informação:
A ARTE-XÁVEGA DA BEIRA LITORAL E AS SUAS EMBARCAÇÕES
Gazeta dos Caminhos de Ferro

Praia do Pedrógão

por Aquilino Ribeiro

A rilhar a última côdea, a hoste bárbara, esfarrapada, no meio da qual os alfacinhas rescendiam tanto em suas águas de cheiro que as varinas sentiam tonturas, avançou para a borda. Eram mais espaçadas, porém sempre alterosas, as ondas.

Praia do Pedrogão (Coimbrão, Leiria).
Delcampe


Mas já não havia medo. Treparam os dois fidalgos para a proa do barco; ocuparam os casteleiros os seus postos; plantou-se o arrais à popa, mão no roçoeiro, debaixo do pé a corda da muleta; ergueu-se no seu lugar o vareiro, mudo e roto como espantalho.

Praia do Pedrogão (Coimbrão, Leiria).
Delcampe

Rolaram a nave e, ao primeiro e sério chapinhar da água, o resto da tripulação saltou os bordos. O regedor da terra, o mestre, remadores dos outros barcos, dez, quinze mulheres empurravam com a muleta. Os homens devolutos puseram ombros contra os costados, Veio uma vaga, alagou a todos; veio segunda, despegou o esquife da orla, duas remadas, e empinou-se, desapareceu por detrás dum mar.

Praia do Pedrogão, aparelhando o barco com a rede.
Delcampe

Instantaneamente rompeu na praia um alarido pavoroso. Outro man o arrais fez sinal e, quando o aríete verde ia a lançar a marrada, o barco pulou. Rema, rema a vante! - e àquela voz os remos vergastaram rijamente a onda furiosa.

Praia do Pedrogão, ed. J. J. da Silva, puxando o barco para o mar.
Delcampe

Crescia sobre eles segundo vagalhão:

Praia do Pedrogão, ed. J. J. da Silva, barco com a rede entrando para o mar.
Delcampe

Força! Força! Louvado seja, lá iam safos, entre duas campas, a salvar o contrabanco. Ainda bailava o Lírio de Jericó, mas o perigo era vencido. Na praia amainara a gritaria das mulheres. Com ar de desprezo, como se cuspisse no monte, o Savelheiro lançou-lhes:

— Cabras! Punho sempre teso na corda que o calador ia desenroscando, o arrais buscava orientar-se à boa terra de mar. Rezavam pelas almas do Purgatório, a quem são de grande lenitivo as preces anuviadas, e um cantador ergueu a voz:

Não se vê o fundo ao mar,
Assim, mulher, ao teu peito,
Se me quiser afogar,
Em qual dos dois eu me deito?!


Praia do Pedrogão, ed. J. J. da Silva, vista parcial
Delcampe

Àquela toadilha, os remos bateram a água em cadência e o meia-lua correu como galgo preto em charneca. A prumo, balouçando levemente ao embalo da onda, as bicas da proa e da ré pareciam mãos em transe, a suplicar.

Começaram a decrescer as casas do Pedrógão; tornaram-se diminutas como pedras dum jogo desmanchado; escureceu o verde nas hortas; pela praia os vultos transverteram-se para sombras fátuas. Uma cercadura de espuma envolvia o barco e, esflocando-se à popa, deixava um rabo-leva de anil e íris que não tinha fim.

O mar enrugava-se faiscando e, no balouço das suas pregas e repregas, dormiam garças e garajaus. Ao escritor afigurou-se que ia agarrado à juba dum leão.

Por deferência para com os fidalgos, o arrais andou à busca de “ensejo” até onde o alcance lhe permitiu. Ao primeiro fervedoiro de água apreciável, indício de cardume em derrota, bradou:

Orça aí! Sustaram os remos. Em tom rude, de ladário, o Savelheiro encomendou o lanço às pessoas da Santíssima Trindade. E, remando à ré, calaram a rede. Ao afundir-se o saco, com entono de desafogo, ergueu nova imprecação:

Largai saco ao mar; rezai o credo com boa fé; vá ele em louvor do Santíssimo Sacramento, para que o mal saia para fora e o bem entre para dentro.

Salvo da rede, sem os milhares de quilos que o pejavam, o barco respondeu ao espadanar dos remos pulando alegremente na superfície das águas. Içaram a bordo o pavilhão de festa. Pouco a pouco foi avultando a chanfradura da costa e, mais dentro, a laguna doirada dos areais, a mancha opaca da floresta, Pedrógão - tabuleiro de cubos negros.

Um fuminho ia-se carmeando e era a fimbria da mata. Mercê da névoa que flutuava sobre a terra, parecia tudo de pernas para o ar. Condensaram-se mais as coisas; ressaíram silhuetas; lobrigou-se o Pedrosa, plantado no chão branco, a ver o seu bem guardado pelo Anjo Custódio; à varanda do Posto, o fiscal devia assestar o óculo de ver ao longe.

Na franja clara da praia lá estavam os senhores lisboetas, estatelados na areia, a sonhar com as meninas do Chiado.

A passagem do contrabanco fez-se sem agruras nem aparato. O arrais aguardou a chapada da onda e deixou-se levar; a alçaprema formidável foi depô-lo em terra, manso, manso como as hacaneias que dobravam o joelho para as donas apearem.

Romperam logo os boizinhos de touço curto no manejo do arrasto, acicatados mais que de medida em homenagem aos forasteiros. Joaquim Lousal triunfava. À alegria que lhe era própria, com o seu tanto de pancada, aliava-se agora a satisfação de ver as coisas passarem-se a preceito do seu optimismo. Enquanto não arribava a rede, o vinho correu a rodos.

Praia do Pedrogão (Coimbrão, Leiria).
Delcampe

Emborrachou-se quem quis e o Pamplino, com vela e piela homéricas, subiu à varanda do Posto a personificar nos sete pecados mortais os sete figurões de Lisboa. (1)


(1) Aquilino Ribeiro, A batalha sem fim, 1932

Mais informação:
Aquilino Ribeiro revela-se um intérprete do mar, Ilustração n.° 17, setembro de 1932
A praia azul, Mundo Gráfico n° 47, 1944

Praia do Pedrógão (Coimbrão, Leiria), 1942.
Hemeroteca Digital de Lisboa


Leitura adicional:
Henrique Souto, Comunidades de pesca artesanal na costa portuguesa... 1998
Maria João Marques, Arte Xávega em Portugal

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Praia da Leirosa

A Lourosa, nome que mais tarde evolucionou para Leirosa, foi uma pequena e antiga povoação de Lavos, como tantas outras pequenas povoações da freguesia, mas esta com a característica de ter sido quase só povoada por moleiros (...) a última das povoações da costa meridional da Figueira a desistir da exploração das grandes artes de arrastar para terra, lançados pelos belíssimos e inconfundíveis grandes barcos da arte. (1)

Praia da Leirosa (Marinha da Ondas, Figueira da Foz).
Da esquerda para a direita: Elísio Ribeiro (Mudo); João Santos Barreto; Elísio Andrade Lucas; José Silva Parracho (mais conhecido por Zé da Requeta); Valentim Jacinto Oliveira (marido da Benvinda Patinha que faleceu no naufrágio da Nova Leirosa); Marino Ventura da Silva e em cima António Borges (mais conhecido pelo Rei)... cf. Alexandra Lucas
Praia de Leirosa no facebook

Topónimo que aparecia era o de Louroza dos Moinhos, por referência aos moinhos que então havia na povoação (2)

Praia da Leirosa (detalhe).
Manuel Cintrão no facebook

Nas memórias paroquiais de 1758, respeitantes a Lavos, já não encontrámos referência à Leirosa, «diminuída ou certamente quase eliminada pela concorrência dos moinhos do interior, movidos também pela água do rego: o mapa de José Carlos Magni (1790) só nos mostra estes moinhos, com o litoral da foz do rego despido de quaisquer símbolos».

Praia da Leirosa (detalhe).
Manuel Cintrão no facebook

Mappa dos barcos rêdes a aparelhos... (Figueira da Foz, 1871 e 1875).
Portugal pittoresco, 1879

De notar que, no mapa citado, a Leirosa aparece referenciada por moinhos de Lavos, com os símbolos de povoação, como se pode verificar em fotos do mapa inseridas neste trabalho. (3)

Barra do Mondego e costa sul, José Carlos Magni, 1790
(detalhe onde a Leirosa aparece referenciada por moinhos de Lavos).

Instituto Geográfico Português cf. Manuel Cintrão no facebook

Nos fins do século XVIII vem de Ílhavo para a Figueira um calafate de nome Silva. Um seu filho, José da Silva, estabelece-se em Lavos por volta de 1815, armando uma companha na Costa, onde se instala no Verão, em barracos de estorno (já ali tinha existido uma companha, anos antes, que não vingara) (...) (4)

Praia da Leirosa (detalhe).
Manuel Cintrão no facebook


(1) Capitão João Pereira Mano, Terras do Mar Salgado, São Julião da Figueira da Foz — São Pedro da Cova-Gala — Buarcos — Costa de Lavos e Leirosa, 1997
(2) Albúm figueirense
(3) Manuel Cintrão no facebook
(4) Palheiros de Mira cf. Manuel Cintrão no facebook

Leitura recomendada:
Manuel Costa Cintrão, Terras do Sul do Mondego até à Praia do Pedrógão: ecos da história (2 volumes), Figueira da Foz, 2021
Capitão João Pereira Mano, Terras do Mar Salgado, São Julião da Figueira da Foz — São Pedro da Cova-Gala — Buarcos — Costa de Lavos e Leirosa, 1997
Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano, Palheiros do litoral central português, Instituto de Alta Cultura. Centro de Estudos de Etnologia Peninsular. Lisboa 1964

Mais informação:
A. Pinheiro Marques, A arte-xávega da Beira Litoral e as sua embarcações
Gaspar Albino, Arte de Xávega

Praia da Leirosa (detalhe).
Manuel Cintrão no facebook

Leitura adicional:
Henrique Souto, Comunidades de pesca artesanal na costa portuguesa... 1998
Maria João Marques, Arte Xávega em Portugal

domingo, 21 de dezembro de 2025

Praia da Costa de Lavos

O barco da sardinha

Minha muito querida mãe,

Aproveitei a oportunidade duns momentos vagos para lhe escrever algumas linhas a dizer-lhe que estou perfeitamente bem, embora bastante fatigado e queimado por andar constantemente exposto ao sol e pela actividade que o meu conhecimento da língua e a nossa situação torna indispensavel (...) desembarcámos no primeiro deste mês (de agosto de 1808).

O desembarque do exército inglês na baía do Mondego (praia da Costa de Lavos) em agosto de 1808.
The Landing of the British Army at Mondego Bay, Henri l'Évêque.
Campaigns of the British Army...

Foram precisos três dias para o desembarque de todo o exército, e se de terra nos tivessem feito oposição, nós positivamente nunca o conseguiríamos ter efectuado tão grande é a ressaca tanto na costa como na barra (...) graças a Deus todo o exército desembarcou sem nenhuma perda, a não ser de um ou dois cavalos e agora ocupámos uma posição neste lugar, tendo à nossa esquerda a aldeia (de Figueira da Foz) e à direita o mar... (1)

Como dissemos (v. Bateira do Mar, o elo perdido), o barco usado na Costa de Lavos para a pesca do pilado tinha a mesma forma dos grandes barcos da xávega, com o fundo chato muito arqueado, e a proa e a ré muito erguidas, mas aquela avançando e subindo num movimento forte, extremamente bem lançado; e não tinha leme. É pois um dos barcos chamados geralmente de meia-lua.

Um barco da Sardinha e Pescadores da Costa de Lavos, Figueira da Foz, Portugal.
Delcampe



O seu comprimento rondava os 8 m, com 2,40 m de largura; o barco desenhado era dos pequenos (des. 45 e 46).

Costa de Lavos, Bateira do Mar.
Actividades Agro-Marítimas em Portugal



(legenda da imagem acima)
1) Cachulo [céu da proa] ; 2) Alvaçuz [arco da proa] ; 3) Mãosinha [golfiões] ; 4) Cinta ; 5) Borda falsa ; 6) Talabardões ; 7) Verdugo; 8) Escalamão [tolete] ; 9) Draga; 10) Banco da proa; 11) Banco da ré; 12) Paneiro da proa; 13) Paneiro da ré; a) Pormenor do bico; b) corte da borda, fora dos talabardões ; c) corte da borda na altura dos talabardões.

Na proa há um espaço coberto, o cachulo, cuja boca tem, em cima, uma peça arqueada, o alvaçuz, firmada nas bordas contra um par de braços, e cujo fundo é um estrado fixo, já debaixo do cachulo ; funcionando como caverna e braços, há 2 peças largas, recortadas de modo a deixarem em cima uma abertura semicircular, e cujas pontas superiores, passando acima da cobertura, formam as mãosinhas para amarração do cabo do ferro. À ré há um pequeno banco rectangular.

Costa de Lavos, Bateira do Mar.
Actividades Agro-Marítimas em Portugal



(legenda da imagem acima)
a) Vista interior da proa; b) pormenores do remate da ré.

O barco é movido a dois remos.


Os braços do cavername têm, a quase todo o comprimento do barco, a mesma curvatura e inclinação ; apenas junto da proa e da ré estas variam. No sector em que estão os talabardões, nos quais assentam as barras que servem de chumaceiras dos remos, os braços do cavername são, em cima, cortados horizontalmente; nos restantes braços, essa parte é cortada parcialmente em bisel, o que dá origem à inclinação do interior da borda.

Tanto a roda da proa como a da ré têm secção losangular e são cuidadosamente executadas. A da proa é, no bico, talhada de modo a simular o prolongamento da cinta. A da ré é ainda mais elaborada, e a ela se adapta um remate que do mesmo modo prolonga a cinta e a borda falsa (des. 46 b).

Figueira da Foz, Lavos, Barco da sardinha (Costa de Lavos), ed. Adelino Alves Pereira.
Delcampe


Como o barco pode varar de proa ou de ré, há no exterior do costado 2 ganchos a cada lado. Cravada na roda da ré há uma peça de ferro para a alagem do barco.


Figueira da Foz (Portugal), Barco de pesca na Costa de Lavos.
Delcampe oliveira73


A bombordo, logo adiante do banco da ré, e adaptada a 3 braços do cavername, há uma tábua larga fazendo um banco a meia altura do costado. Banco semelhante mas mais pequeno está a estibordo, logo à frente da antepara da ré. (2)


(1) William Graham, Travels in Portugal, Spain, during the Peninsular war, London, Sir RichardPhillips and Co. 1820 cf. Nótulas sobre a Figueira da Foz no século xix
(2) Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira, Actividades Agro-Marítimas em Portugal

Leitura recomendada:
Manuel Costa Cintrão, Terras do Sul do Mondego até à Praia do Pedrógão: ecos da história (2 volumes), Figueira da Foz, 2021
Capitão João Pereira Mano, Terras do Mar Salgado, São Julião da Figueira da Foz — São Pedro da Cova-Gala — Buarcos — Costa de Lavos e Leirosa, 1997
Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano, Palheiros do litoral central português, Instituto de Alta Cultura. Centro de Estudos de Etnologia Peninsular. Lisboa 1964
Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira, Actividades Agro-Marítimas em Portugal

Mais informação:
Freguesia de Lavos (súmula histórica)
São Pedro Cova Gala (resenha histórica))
A. Pinheiro Marques, A arte-xávega da Beira Litoral e as sua embarcações
Gaspar Albino, Arte de Xávega

Leitura adicional:
Henrique Souto, Comunidades de pesca artesanal na costa portuguesa... 1998
Maria João Marques, Arte Xávega em Portugal