quinta-feira, 6 de maio de 2021

Cantigas de Santa Maria (183)

Dun miragre que mostrou Santa Maria en Faaron quando era de mouros

Pesar á Santa María de quen por desonrra faz
dela mal a sa omagen, e caomia-llo assaz.




Desto direi un miragre que fezo en Faarôn
a Virgen Santa María en tempo d' Abên Mafôn,
que o reino do Algarve tiínn' aquela sazôn
a guisa d' óm' esforçado, quér en guérra, quér en paz.
Pesar á Santa María de quen por desonrra faz...


En aquel castél' avía omagen, com' apres' ei
da Virgen mui grorïosa, feita como vos direi
de pédra ben fegurada, e, com' éu de cért' achei,
na riba do mar estava escontra ele de faz.
Pesar á Santa María de quen por desonrra faz...


Ben do tempo dos crischãos a sabían i estar,
e porende os cativos a ían sempr' aorar,
e Santa Marí' a vila de Faarôn nomẽar
por aquesta razôn foron. Mas o póboo malvaz
Pesar á Santa María de quen por desonrra faz...

Dos mouros que i avía ouvéron gran pesar ên,
e eno mar a deitaron sannudos con gran desdên;
mas gran miragre sobr' esto mostrou a Virgen que ten
o mund' en séu mandamento, a que soberva despraz.
Pesar á Santa María de quen por desonrra faz...


Ca fez que nïún pescado nunca podéron prender
enquant' aquela omagen no mar leixaron jazer.
Os mouros, pois viron esto, fôrona dalí erger
e posérona no muro ontr' as amẽas en az.
Pesar á Santa María de quen por desonrra faz...



Des i tan muito pescado ouvéron des entôn i,
que nunca tant' i ouvéran, per com' a mouros oí
dizer e aos crischãos que o contaron a mi;
porên loemos a Virgen en que tanto de ben jaz.
Pesar á Santa María de quen por desonrra faz... (1)



(1) Cancioneros wiki

Mais informação:
Cantigas de Santa Maria, de D. Alfonso X, o Sábio
A cidade islâmica de Faro

Informaçāo relacionada:
Walter Mettmann, Cantigas de Santa Maria (Glossário), 1972

The Oxford Cantigas de Santa Maria Database (search: person, place)

The Oxford Cantigas de Santa Maria Database (search: Algarve):
183 The Moors of Faro who Threw a Statue of the Virgin into the Sea Pesar á Santa Maria
277 The Raiders who Fasted on Saturday Maravillo-m’ eu com’ ousa/ a Virgen rogar

The Oxford Cantigas de Santa Maria Database (search: Portugal):
95 The Hermit who was Captured by the Moors Quen aos servos da Virgen
222 The Chaplain who Swallowed a Spider Quen ouver na Groriosa | fiança con fe comprida
224 The Girl who was Healed and Revived in Terena A Reinna en que é/ comprida toda mesura
235 The Virgin’s Favours to King Alfonso Como gradecer ben-feito/ é cousa que muito val
237 The Murdered Prostitute Se ben ena Virgen fiar
245 The Hostage who was Released O que en coita de morte
267 The Merchant who Fell Overboard Na que Deus pres carne e foi dela nado
271 The Ship that was Stuck Fast in the River Ben pode seguramente/ demanda-lo que quiser
275 The Rabid Knights Hospitaller A que nos guarda do gran fog’ infernal
316 The Jealous Priest who Committed Arson Par Deus, non é mui sen guisa
346 The Woman who was Healed of a Swollen Arm Com’ a grand’ enfermidade | en sãar muito demora


The cantigas de Santa Maria:
Illuminations

quinta-feira, 8 de abril de 2021

GRAND HOTEL DU MATTA

Quem não conhece o Matta? Ou com mais verdade, quem ha em Lisboa que não tenha uma ou outra vez saboreado os seus acepipes culinários, as suas gulodices de copa? Matta é um nome que se não pronuncia sem que instinctivamente se leve a lingua ao céu da boca e se sinta no estomago, ao ouvir da ultima syllaba, o appetite voraz por um bom jantar, ou por uma succulenta e opipara ceia.

Hotel du Matta, Largo das Duas Egrejas
Diário Illustrado, 23 de outubro de 1874

Donde veio o Matta, onde nasceu, o que era antes de ser cosinheiro? São perguntas a que ninguém saberá responder já hoje; e a posteridade, quando tiver de registar o nome do Brillat Savarin português, encontrar-se-ha comcerteza em graves difficuldades para preencher taes lacunas.

O Matta para a geração actual nasceu no primeiro dia em que pegou na cassarola que mais tarde o devia tornar immortal, e que lhe abria o caminho para o Olympo ao lado dos semi-deuses. Conhecemol-o pela primeira vez no Restaurant á la Carte estabelecido no Caes do Sodré, esquina da rua do Alecrim ["... predio que torneja da praça dos Remolares para a rua do Alecrim, encontra-se o modernissimo café Royal, no 1.º andar do qual predio existiu, em 1854, o restaurant de João da Matta" cf. revista Serões, 1909].

Que almoços e que jantares aquelles! Finura de manjares, delicadeza no desert, luxo no serviço, aceio e ordem, etc. etc. e tudo a troco do já hoje legendário cruzado novo. Um pinto! Que milagre aquelle, de nos encher o estomago, de nos entreter o espirito, visto que o moral anda de braço sempre com o physico, e tudo por uma quantia minima, que se dava sem se sentir! Saudosos tempos de então, em que se jantava por tal quantia e em que se sentavam comnosco á meza vinte annos de menos!

Arte de cosinha, João da Matta, 1876.
Portal Guará

Porque acabou o Restaurant á la Carte do Caes do Sodré? não o sabemos também, mas o caso é que acabou e que mais tarde tornámos a encontrar o Matta estabelecido na rua do Ouro, na antiga casa Chapelier onde é hoje o Monte Pio Geral. Como se vê, aquella casa era predestinada a encher alguma coisa a humanidade. Dantes enchia-lhe o estomago; presentemente enche-lhe a algibeira. É verdade que antigamente era a troco do alguns cruzados novos apenas, e agora só pendurando ali o relogio, o annel, ou coisa parecida de prata ou oiro. Decorreram os annos e João da Matta enfastiou-se um dia de ali mentar o papinho á humanidade.

Atirou para longe o barrete branco que lhe fora por muito tempo coroa de carvalho e retirou-se á vida burgueza, começando a viver do sseus rendimentos. Foi esse um periodo de verdadeira decadencia para a arte culinaria em Portugal. Todos andavam amarellos, as digestões faziam-se difficilmente, e os rostos dos bons-vivants mostravam-se tristes e pesarosos. Não sabemos se a parte de policia registou durante esse periodo algum caso de suicídio por effeito do spleen. Não temos á mão a respeitável folha incolor para nos elucidar.

Matta pelo seu lado não andava menos triste do que os seus antigos freguezes. A sua actividade não se coadunava com a vida sedentaria que abraçara. Procurava distrair-se e não o podia conseguir. Por toda a parte por onde transitava via cassarolas a fazerem-lhe negaças; se saia para o campo em vez do perfume das boninas só respirava o aroma adocicado dos almis e o acre cheiro do molho de villão frio. Tentava dormir e não podia conciliar o somno. As facas da cosinha eram o seu pezadello habitual.

Uma madrugada, depois de ter sonhado toda a noite com a galantine e com a charlote-russe, saltou para fora da cama, tirou da cabeça o barrete de dormir e collocou em seu logar o bonnet branco que por tantos annos fora a sua gloria. A arte culinaria ia entrar numa brilhante phase. Os Gargantuas e os Pantagrueis podiam folgar, porque os antigos almoços e jantares iam reviver.

João da Matta então não se poupou  a despezas e fadigas para dar todo o lustre e esplendor á arte pela qual se suicidara Vatel e pela qual também elle estivera a ponto de morrer de saudade.

O Restaurant a la Carte do largo das Duas Egrejas, o Grande Hotel Matta da rua do Chiado  e o Grand Hotel du Matta no antigo palacio dos srs. Ferreiras Pintos, foram creações suas e instalaram-se a curtos intervallos. E só assim, só com essas tres casas, o rei dos cosinheiros poude dar guarida e satisfazer os estomagos das innumeras famílias que o procuravam, quer da província, quer da Hespanha, quer do Brazil. João da Matta sustenta ainda hoje essas tres casas e qualquer d'ellas ahi está para attestar pelo seu luxo o bom gosto e renome do seu proprietário.

O Grand Hotel du Matta, que a nossa estampa hoje representa, e que é situado no largo das Duas Egrejas, é sem questão alguma a casa mais bem collocada de Lisboa para um hotel. A sua construcção elegante, o espaçoso das salas e dos quartos, a luz e o ar que a circumdam por toda a parte, o largo pateo da entrada, pateo onde podem estar três a quatro carruagens, são outras tantas condições que recommendam o edifício.

O hotel do Chiado não é menos sumptuoso, nem menos elegante.

O Restaurant á la Carte é uma casa mais modesta, mas que não offerce um menor numero de commodidades aos seus habitues. Esta casa admiravelmente administrada e servida, está aberta durante toda a noite e offerece portanto ao tresnoitado a qualquer hora o conforto de um caldo, de uma costelleta, ou de um filete de vitella.

Podia-se ainda dizer muito do Matta e dos seus hotéis*, fallar dos seus jantares de encommenda, dos pratos que tem inventado ,da consciência com que trata todos os assumptos de cosinha, mas o espaço aperta comnosco e forçoso é acabar.

Acabemos portanto, não sem notar que se o nome de José Ostise ligou para sempre ao fogo de vistas, o nome de João da Matta não se vincula menos ao fogo sagrado da cassarola.

Se para um a bicha de rabear foi o ideal, para o outro a eiró grelhada não deixa de ser o sonho dilecto. (1)


(1) Diário Illustrado, 23 de outubro de 1874

* ... também estabelecido com restaurantes no Cais do Sodré e na Rua do Oiteiro, e hoteis na Rua do Ouro, na loja e 1.° andar do actual edifício do Montepio Geral; no prédio da Avenida da Liberdade n.° 65, onde foi o Teatro do Infante e é hoje, no 1.° andar, a Ordem dos Médicos; na Rua Garrett 74, 1.°, palácio que foi do Marquês de Nisa, em que está presentemente o Turf Club; e no palácio do  Calhariz, hoje Administração Central da Caixa Geral de Depósitos [cf. revista Olisipo n° 79, 1957].

Artigos relacionados:
À Bulhão Pato

Mais informação:
A Illustração Portuguesa n° 37, 1886
Mário Costa, O palácio do Loreto, Olisipo n° 79, 1957


Leitura relacionada:
Mme. Aglae Adanson, A arte do cosinheiro e do copeiro, 1845
O cozinheiro completo, 1849

Arte de cosinha, João da Matta

João da Matta, nos tempos áureos, quando se cobria com o seu gorro, punha o avental em forma de coiraça, commandando elle próprio o fogo das baterias, era um cabo de guerra eminente! (1)

Arte de cosinha, João da Matta, 1876.
Portal Guará

Lembra-me perfeitamente um episodio da minha viagem a Alcácer. Vou transcrevel-o do prologo com que precedi a Arte de cosinha de João da Matta, o nosso Vatel no século XIX.

"A mais celebre e a mais apetitosa caldeirada que jamais comi foi-me servida sobre o rio Sado, no barco de mestre Casimiro, de Setúbal para Alcácer do Sal. Era o dia 26 de abril de 1875, esplendido de luz e de effluvios da primavera."

"O Sado ia desdobrando a meus olhos a sua formosa vastidão inteiramente desconhecida a quem desde pequeno se familiarisára com a suave estreiteza dos rios do norte. Acompanhavam-me dois amigos — um d'elles o primeiro, o maior da minha vida — que porfiavam em dissipar da minha alma os dois grandes pesadellos que a acobardavam: o receio de ter de passar dois dias em Alcácer do Sal, de que Lisboa conta horrores sezonaticos, e o de ter de visitar, por ordem do ministério do reino, escolas primarias, quer dizer, escolas a que anda jungido o mais irónico, o mais pungente, o mais falso adjectivo d'este mundo."

Canoas (Setubal), Silva Porto 1883.
wikiart

"Ao passo que falávamos, e nos interrompiamos de vez emquando para admirar a placidez voluptuosa com que algum pescador fumava dentro do seu barquinho emquanto a rede lhe ia ganhando a vida, mestre Casimiro cozinhava á popa, sobre um taboleiro de areia, a nossa caldeirada de linguados, salmonetes e rodovalhos. "

Elle havia-se arremangado, e banhado primorosamente no Sado os seus braços musculosos e trigueiros. Deitara na caldeira o azeite, o sal, a pimenta, a salsa picada. Depois lavara escrupulosamente no rio os peixes, e, mal enxutos, os deitara á caldeira, que lançava sobre nós, sentados á proa, uma columna de fumo impregnada do agreste mas agradável aroma do cozinhado.

Canoa abicando à praia, João Vaz, 1886.
Obra de João Vaz, no Facebook

"Pouco tempo corrido, abríamos as nossas cestas de lunch, e mestre Casimiro servia a caldeirada, emquanto o nosso barco ia rasgando listrões de espuma, levado rapidamente pela grande vela enfunada." (2)


(1) Bulhão Pato, Memórias I, 1894
(2) Alberto Pimentel, A estremadura portuguesa, 1908

Artigos relacionados:
À Bulhão Pato

Leitura relacionada:
Mme. Aglae Adanson, A arte do cosinheiro e do copeiro, 1845
O cozinheiro completo, 1849
Paulo Plantier, O
Cozinheiro dos Cozinheiro
, Lisboa, P. Plantier, 1905

segunda-feira, 15 de março de 2021

Maria da Glória, jovem rainha em França (1831-1833) II de II

L'avance des armées du maréchal Gérard en Belgique, l'héroïque défense des Polonais, harcelés par les troupes du tsar, et la prise de l'île São Miguel par le général Vila Flor [combate da Ladeira da Velha a 3 de Agosto de 1831], devenu par cette victoire maître de l'archipel des Açores, étaient les principaux faits auxquels, en ce mois de septembre 1831, les journaux consacraient leurs colonnes.

Vista do porto da cidade de Ponta Delgada na ilha de S. Miguel.
Elogio Histórico do Rei D. Pedro IV, pelo Marquês de Resende, 1836.
Palácio Nacional de Queluz

Em todos os meios e em todos os países interessavam-se agora à causa da jovem rainha. A Faculdade de Filosofia de Munich propunha como tema do concurso à sucessão portuguesa, les couturières du faubourg Saint-Honoré taillaient des robes vaporeuses dans un tissu appelé "gaze dona Maria" et tous les soirs, dans la salle du Gymnase, les spectateurs venaient applaudir l'acteur Bouffé que encarnava dom Miguel na peça de Scribe et Bayard, le Luthier de Lisbonne.

D. Maria II, rainha de Portugal durante o seu exílio em Londres (1826 1828-1829), por Thomas Lawrence (detalhe).
A pintura, no verso datada de 1827 [?], foi encomendada por George IV e representa a jovem rainha em 1829, .
Royal Collection Trust

L'arrivée de dom Pedro, dûment annoncée dans la rubrique des cinq jours du Voleur où son nom figurait à côté de celui du vicomte de Chateaubriand, également attendu à Paris, mit en émoi le cour de Louis-Philippe.

Le baron Attalin, aide de camp du roi — et que les mauvaises langues disaient marié secrètement à Mine Adélaide — se rendit en personne à Meudon pour veiller aux derniers préparatifs. Le duc de Castries qui dirigeait les haras dut, séance tenante, quitter les appartements qu'il occupait et une garde d'honneur de la garnison de Versailles vint prendre ses quartiers au château.

Dans les salons tirés de leur assoupissement, les femmes de chambre époussetaient les commodes aux bronzes de Feuchères et les vases de Sèvres, les frotteurs faisaient briller les parquets qu'avaient effleurés vingt ans auparavant les cothurnes de Marie-Louise et les valets suspendaient à la hâte les miroirs et les tableaux empruntés aux magasins de la Couronne pour compléter l'ameublement.

Construit par Mansart, le château de Meudon, avec ses balcons aux balustrades de fer forgé soutenus par des cariatides, ses hautes baies et son perron, avait encore grand air.

Au xvne siècle il avait abrité les amours de Mlle Chouin et du Dauphin, puis la nostalgie du roi Stanislas, chassé de Pologne, et enfin, pendant la campagne de Russie, les jeux du petit roi de Rome. 

De la terrasse d'où l'on embrassait un panorama qui s'étendait jusqu'aux toits gris de Paris dominés par la coupole des Invalides et les tours de Notre-Dame, de larges escaliers descendaient vers le parc.

Sous la monarchie de Juillet, les bosquets, ombreux, les jets d'eau et les bassins du siècle de Le Nôtre voisinaient bourgeoisement avec les melons du potager, les ifs roides et savamment taillés avec les berceaux de rosiers et de noisetiers d'une exubérance romantique.

L'empereur avait eu le tact de déclarer qu'il ne voulait pas re-présenter une charge pour la France et tenait à payer lui-même ses dépenses d'entretien. 

Il arriva à Meudon le samedi zo août. Une pluie fine tombait sur les frondaisons des tilleuls et des f marronniers qui, de leur double haie, bordaient l'allée.

A peine descendu de voiture, il commença par visiter du bas en haut sa nouvelle demeure, la bibliothèque, la salle de billard, les salons, les chambres à coucher. Faisant office de majordome, il distribua lui-même les logements à sa suite. 

Celle-ci comprenait deux cham-bellans — le marquis de Resende et Rocha Pinto —, deux secré-taires — Gomes da Silva et le chevalier d'Almeida. —, un médecin — le Dr Tavares, mulâtre qui à ses moments de loisir faisait des vers — et le capitaine Bastos, le seul officier de l'armée brésilienne à l'avoir suivi en exil. 

La jeune reine était accompagnée de sa gouvernante, dona Leonor da Camara et de cinq domestiques, et la duchesse de Bragance de sa dame d'honneur, la baronne de Sturmfeder, d'une dame d'atours, de deux femmes de chambre et d'un valet de pied. 

Une vingtaine de personnes s'installèrent ainsi tant bien que mal dans le château et ses dépendances. 

Soucieux du confort de son hôte, Louis-Philippe mit à sa disposition un piqueur, vingt-cinq chevaux et six voitures. 

Les palefreniers eurent cependant vite la nostalgie du Palais-Royal car leur nou-veau maître inspectait sans cesse les écuries, prétendait qu'en France on ne savait pas panser les chevaux et n'hésitait pas à se coucher sous une voiture pour vérifier si elle avait été bien nettoyée (r). 

Dom Pedro sortait beaucoup. Tout l'intéressait, et ces promenades qu'il entreprenait souvent seul, allant à Saint-Cloud sous une pluie battante pour y voir les jeux des grandes eaux, ou visitant le Palais des Chambres sous l'égide du jurisconsulte Dupin, lui permettaient de satisfaire à la fois la curiosité de son esprit et son besoin d'activité physique. Les rues de Paris étaient fort mouvementées à cette époque.

Des étalagistes disposaient leurs marchandises où bon leur semblait et quand les sergents de ville voulaient les faire déguerpir, ils protestaient en disant que, depuis les barricades, le pavé de Paris appartenait à tout le monde. 

Des vendeurs criaient d'une voix tonitruante des titres de journaux, des délégations de la Société des Amis du peuple ou des Réclamants de juillet défilaient en cortège et, sur la chaussée, roulaient diligences et citadines, dans un tintamarre de grelots et de roues grinçantes. 

Si la présence de dom Pedro passa presque inaperçue dans la salle de l'Odéon où l'on donnait le Masque de Fer, il n'en fut pas de même à l'Opéra la première fois qu'il y parut.

Avant le lever du rideau, les spectatrices, coiffées de capotes à plumes et rubans froufroutants, se tournaient furtivement vers la loge royale, et les lorgnettes de leurs cavaliers servants restaient braquées sur ses occupants. 

La jeune reine, toute blonde et timide, était assise à côté de la duchesse de Bragance dont la robe de mous-seline de laine bleu suédois, à raies claires, était rehaussée par un coulant en brillants qui retenait sa mantille en dentelle. 

Cheveux drus, noirs et bouclés, favoris épais encadrant son visage aux traits mobiles, yeux un peu saillants au regard vif et domi-nateur, bouche charnue et sensuelle, teint bistreux sous le reflet des lustres — tel apparaissait dom Pedro aux habitués de l'Opéra.

Tantôt il se penchait vers sa fille, tantôt vers Amélie qui s'éventait avec grâce. Une loge d'avant-scène retenait tout particulièrement l'attention de dom Pedro: celle où venait de prendre place le dey d'Alger, les yeux cachés derrière des lunettes à lourde monture. 

La présence de deux hôtes aussi illustres frappa à tel point le chroniqueur du Mercure de France qu'il en oublia presque les fandangos et boléros de l'Orgie: "Il était bien digne d'un temps de révolutions de montrer réunis à l'Opéra de Paris, un dey d'Alger, renversé par nous-mêmes, et un empereur du Brésil, aussi détrôné, devenus l'un pour l'autre un objet de curiosité I L'ex-empereur constitutionnel d'un État nouveau d'Amérique ayant abdiqué le trône du Portugal, père d'une reine dépossédée, époux d'une Beauharnais, dont la pré-sence et le nom rappelaient des vicissitudes non moins étranges I Il y aurait à faire sur tout cela des réflexions qui nous éloigneraient singulièrement des roulades et des pirouettes dont nous avons mission de nous occuper [Castellane, Journal, II, p. 448]" (1).

Sur le plan politique, le roi de France et l'ex-empereur du Brésil observaient tous deux une attitude circonspecte et c'était avec un certain mépris que dom Pedro appelait, dans sa correspondance, le successeur de Charles X "le Citoyen".

Sur le plan mondain cependant leurs relations étaient des plus cordiales. Dom Pedro était souvent l'hôte du Palais-Royal, jouait au billard avec le roi, assistait à ses côtés aux manoeuvres dans la cour du Carrousel ou à Vin-cennes, disposait de la loge royale à l'Opéra, à la Comédie-Française.

Le destin avait d'ailleurs parsemé leur vie de maintes analogies. Tous deux se piquaient d'être des monarques constitutionnels et, accusés de flirter avec la franc-maçonnerie, se voyaient traités avec désinvolture par les dynasties régnantes, sans pour autant arriver à capter la confiance des libéraux.

Leurs caractères même n'étaient pas sans présenter des points communs. Si Mine de Genlis avait de bonne heure habitué son élève aux sports en plein air, dom Pedro, dans la lointaine cour de Rio de Janeiro s'adonnait librement à tous les exercices violents, lutte ou équitation.

Affectant la plus grande simplicité, ils cachaient tous deux sous leur bonhomie apparente des goûts aristocratiques, s'intéressaient aux arts, avaient l'esprit ouvert.  Ils partageaient ce souci un peu exagéré des biens terrestres, cette pointe d'avarice qui parfois leur faisait lésiner sur une dépense, annoter les livres de comptes, rogner sur un pourboire.

Aussi quand la Mode se lassait de railler les menus du Palais-Royal où le gigot apparaissait successivement sous sa figure naturelle, ensuite froid, puis en ragoût, et finalement en hâchis, c'était à l'ex-empereur du Brésil que la revue carliste s'en prenait, rapportant sa discussion avec un cocher, ses démêlés avec un coiffeur [...](1)


(1) Denise Dalbian, Une fin d'été à Meudon

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Le Luthier de Lisbonne
História do Marechal Saldanha (1790-1876): nas Guerras Liberais (2 de 2)

Informação relacionada:
Maria Antónia Lopes, Sociabilidades dinásticas oitocentistas: o rei D. Fernando II (1816-1885)...
Isabel Lustosa, Le séjour de don Pedro 1er à Paris et la presse française (1831/1832)

sexta-feira, 12 de março de 2021

Maria da Glória, jovem rainha em França (1831-1833) I de II

A notícia da abdicação de d. Pedro I ao trono do Brasil em 1831 causou certo impacto na França. O ex-imperador e sua mulher, D. Amélia, desembarcaram às quatro da tarde do dia 10 de junho de 1831, no porto de Cherbourg, na Normandia.



Alguns dias depois, a informação aparecia nos principais jornais franceses: Le Moniteur, Le Temps, Le National, Le Constitutionnel, La Gazette de France, etc.

Apesar da queda de d. Pedro I ter se dado em um contexto em que as monarquias européias estavam sofrendo um abalo sísmico quase tão fatal como o que fora provocado pela Revolução Francesa, agravado pela sedimentação dos valores, idéias e ideais difundidos desde o século XVIII, o tom das notícias publicadas era o da incredulidade diante de um fato considerado inédito, fantástico e inesperado.

S.M.I. o Senhor D Pedro restituindo sua Augusta Filha a Senhora D Maria Segunda e a Carta Constitucional aos Portugueses, Nicolas-Eustache Maurin, 1832.
Biblioteca Nacional de Portugal

Em Cherbourg, D. Pedro recebeu todas as honras devidas a um monarca no poder. Os marinheiros ingleses da fragata Volage, que o trouxera, vestindo seus uniformes de gala, deram-lhe nove vivas, ao tempo em que a fragata e todas as fortalezas de terra o saudaram com uma salva de 21 tiros de canhão.

Nos discursos de boas-vindas, ele foi saudado como um defensor da liberdade, um doador de constituições. Cinco mil homens da Guarda Nacional perfilaram-se para que ele os inspecionasse. A prefeitura da cidade ofereceu-lhe um palácio para que ele e sua corte pudessem se instalar. D. Pedro faria de Cherbourg sua primeira base na Europa, convidando seus fiéis amigos, Antônio Teles da Silva, o Marques de Resende, e Francisco Gomes, o famoso Chalaça, para com ele ali se reunirem [...]

A reportagem mais longa sobre a chegada de d. Pedro na França foi publicada pela Revue de Paris que, em matéria de três páginas, detalha o acontecimento. O repórter diz de sua surpresa ao chegar à cidade portuária de Cherbourg e tomar conhecimento do desembarque de d. Pedro. No curso de uma viagem de prazer fui a Cherbourg. Imagine minha surpresa ao encontrar, chegados na véspera do Brasil, como despojos de uma Revolução, o primeiro monarca que a América envia ao exílio na nossa velha Europa.

Após explicar as circunstâncias da chegada do navio de d. Pedro, o narrador descreve os elementos da Corte que acompanhavam o casal: "dois camareiros, alguns oficiais da guarda, e quatro negros de libré com galões com as cores do Brasil". Diz que as roupas dos recém-chegados, — "leurs modes européennes taillées à Rio-Janeiro" — se destacavam por seu ar estrangeiro e que a imperatriz usava uma capa de seda amarela, um pouco desbotada pelo sol e amarrotada pela viagem.

Mesmo assim, o casal tinha um ar de serenidade e de "bienveillance". O imperador parecia um homem honesto que, cansado da realeza, "se aposentava com a integridade de seus direitos e de sua honra", diante do "temporal dessa mesma liberdade que ele fundou sob o céu tropical em um país ainda dominado por semibárbaros costumes".

O narrador descreve a recepção oferecida por d. Pedro nos salões do palácio que lhe fora cedido pela prefeitura. "A reunião era simples, as homenagens eram oferecidas sem constrangimento e recebidas com cordialidade". Diz que os convidados se sentaram em círculo, que a própria Imperatriz sentou-se ao piano para tocar e conclui: "Voilà ce qui succédait au gala d´une cour du midi, au baise-main de Rio-Janeiro".

O texto destaca ainda a forma como d. Pedro recebeu seu velho amigo, o marques de Rezende: abraçando-o com familiaridade. Simplicidade e familiaridade serão as marcas da cortesia das pessoas da família imperial: "Elles parlent familiérement à toutes les personnes", diz o Journal des débats, (edição do dia 15 de junho de 1831).

Familiaridade por vezes excessiva para os padrões franceses. Na mesma edição, conta-se que d. Pedro estabelecera tal intimidade com um dos pilotos da marinha francesa que encontrara no porto que chegara a lhe confidenciar que a imperatriz estava grávida. (1)


(1) Isabel Lustosa, O "séjour" de D. Pedro I em Paris e a imprensa francesa...

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Petiscos de Lisboa por Eduardo Fernandes, o Esculápio (3 de 3)

[Feiras de Lisboa]

A êste livro vou buscar ainda alguns pormenores sôbre as feiras de Lisboa, que começavam antigamente pela das Amoreiras, tanto da minha mocidade, e seguiam com a feira de Alcântara e de Belem, para acabarem na feira do Campo Grande, tendo socumbido depois que a feira foi para a Rotunda, inaugurada com a popular "feira de Agôsto", de saudosa memória, que se estabeleceu ali ao comemorar-se o centenário da Descoberta da Índia.

Eduardo Fernandes (1870-1945) Esculápio.


Não vou descrevê·las, porque seria prolixo nesta ocasião e quásl dão assunto para outra palestra, mas referir-me-ei aos petiscos ali confeccionados, como já disse, pelos célebres barraqueiros "Pincha", pelo "Carapelino", pelo "Machadinho" e pela "Maria Botas", a companheira do "António Wenceslau" que perdeu a sua reputação ao descobrirem que vendia gato por coelho.

O "Pincha" era sogro do "Araujo Pécoré", que foi depois empresário da barraca da rua dos Condes, que sucedeu ao velho teatro, onde se representaram o "Microbio", a "Sombra do Rei" e o "Duque de Visela", peças de Jacobety, enriquecendo o empresário, que fundou na rua da Palma, um guarda-roupa, o qual foi depois pertença do "costumier" Castelo Branco, seu empregado, já falecido.

No calão das feiras, um bife era um "apoquentado"; a galinha, uma "penosa"; o coelho com feijão carrapato, "pulinhos com tirantes"; costeletas, "mariquinhas"; chispe com hortaliça, "rachado com ervas"; lulas, "provocadoras"; pescadinhas, "arrelampadas"; peixe espada, "chanfalho"; linguado, "espalmado"; sardinhas, "fraldiqueiras"; carapaus, "pencudos"; alface, "pinoia"; pimentos, "pimpões"; azeitonas, "caganitas"; pepino, "S. Gregorio"; mexilhão, "cabidela marítima"; ameijoas, "lambisgoias"; bananas, "sobremesa de macacos"; palitos, "sobremesa de cacete"; uma garrafa de vinho e copos, "uma viuva e fihos"; um litro de vinho, "um caiado"; um pão, "um susto".

Mas havia nas feiras outros petiscos, como as queijadas e as cavacas, as nozes na feira do Campo Grande, e, sobretudo, as "farturas", embréchados de farinha com assúcar, acompanhados de um vinho especial, nas barracas próprias, que mais não são do que os "churros" ou "buñuelos" que fregem todas as manhãs, para o primeiro almôço, nas terras espanholas, nas praças públicas, distinguindo-se na sua confecção os ciganos da feira de Sevilha.

A farinha, devidamente amassada, é expelida sôbre uma negra e larga frigideira com azeite, por um aparelho especial de fôlha que o cosinheiro oprime junto ao peito, fazendo sair pelo bico como que um enorme reptil que, muito amarelo, na frigideira se enrosca.

Referir-me-ei, agora, às modernas casas de mariscos que se abriram na cidade, em S. Domingos, no Jardim do Regedor, na rua Eugénio dos Santos e outros pontos, sucessoras da vendedeira que andava pelas hortas, com uma celha de fôlha, a apregoar:

— Vá lá Camarões! onde, com cerveja e vinho, vendem as santolas, as lagostas, os camarões, os pecebes, os búsios, as ostras, e outras especialidades, a peso, mas sem as balanças especiais e pequenas de que usava a vendedeira, à compita com a venda do salmão e da lampreia do Minho, que, com os ananazes, agora em crise por causa da guerra, se apresentam à cubiça dos gourmands nas lojas e nos armazéns de víveres dos sítios mais concorridos. Em S. Pedro de Alcântara, na casa onde esteve o "restaurant" de que atrás falámos, abriu recentemente um "bar" modêlo, propriedade da fruteira e vendedeira de mariscos e primores da rua Eugénio dos Santos. 

[Hortas e retiros]

É tempo de lhes falar de outra modalidade que houve em Lisboa para comer à tripa fôrra e saborear bons petiscos, entre os quais avultava o rico peixe frito, carapaus, peixe espada, llnguado e outros, acompanhados de bom vinho do Termo ou do Cartaxo, com a competente salada de alface, que se ia buscar, fresqulnha, à beira do pôço, onde escorria, e que se temperava com bom azeite e vinagre, pimpinela, cuentros e outros cheiros.

Lembro-me da quadra que se cantava numa paródia minha, o "José João", e que se tornou popular:

O vinho fóra de portas 
Tem um sabor exquislto, 
Sabe a galinha, nas hortas, 
A posta de peixe frito. 

Para se ir ás hortas, metia-se a gente num carrão ou "char-á-bancs" que, às tardes, se postava em S. Domingos, junto às grades, com a sua imperial de bancos em anfiteatro, por cima do veículo, três muares derrancadas que a puxavam, cocheiro e condutor de grandes melenas.

Pagava-se um pataco pelo transporte até à estrada de Sacavém, onde os principais retiros eram a "Perna de Pau" e o "Zé dos Pacatos", o primeiro onde trabalhavam de cosinheira a tia Gertrudes e a gorda Basalisa, que teve, mais tarde, um retiro com o seu nome e acabou em costureira do Teatro do Príncipe Real, e o segundo, onde havia um criado galego, baixo, pançudo, nariz arrebitado, tipo de gnomo, conhecido pelo "Bitoque", que acabou em criado da "Floresta".

O "Bitoque", que era popularíssimo, tinha imensa graça e descompunha os fregueses. Se lhe pediam qualquer vianda que demorava, respondla imediatamente:

— Espere! Vá você buscá-la! Eu não sou seu criado, sou criado do patrão!

Uma tarde, fui jantar ao "Zé dos Pacatos" com Fialho de Almeida, grande amador dos petiscos das hortas, e D. João da Câmara, que, a convite nosso, ia fazer a sua iniciação. Veiu a sopa, trazida pelo "Bitoque", cuja biografia contámos ao grande dramaturgo, e êste, metendo a colher à bôca e queimando-se, gritou:

— Ó "Bitoque"! Olha que esta sopa está quente!

O gnomo aproximou-se do prato de D. João da Câmare, meteu-lhe dentro o rechonchudo "fura-bolos", levou-o à bôca e chupou, declarando logo, com um enorme descaramento:  

— Não acho!

Foram canas e canetas para o mimoso poeta não lhe partir a cara, custando a convencê-lo de que todos davam ao "Bitoque" a maior liberdade.

O galego apressou-se em trazer nova sopa e tais artes teve de se insinuar no ânimo de D. João da Câmara, que êste, quando ia ao "Zé dos Pacatos", não queria outro servo.

O "Zé das Hortas" ou freqüentador dos retiros campestres, era, no meu tempo de rapaz, um tipo especial, calça estreitinha e afeiçoada à perna, chapeu de côco de aba direita e bengala de muleta angular de ôsso ou de marfim.

Nas hortas, eram sempre certos os actores, com as suas grandes trunfas e casacos originais, e os cantadores de fado como o Manuel Serrano, o irmão do popular José Augusto; o Roldão e outros e outras, cujo nome não cito para não me desviar do meu tema.

Nas hortas, havia sempre cães famintos, pedintes, hortelões e cavadores, e o indispensável cego da guitarra, acompanhado pela mulher da viola e outros músicos, que entoavam canções de gultarredo fácil e dedilhavam e esganiçavam o fado com um estilo especial e inconfundível, indo de mesa para mesa, onde o peixe fumegava e os canjirões do roxo ferviam.

De quando em quando, a sua desordem, que as patrulhas da Municipal acalmavam, com a indispensável "comida de urso", também petisco lisboeta, e a retirada ao lusco fusco, todos mais ou menos "etilisados", como se diz à moderna, os rapazes cavalgando enormes canas e as mulheres cantando e transportando os farneis e os maridos.

Nos arrabaldes de Lisboa, pelo Arieiro, Campo Grande, Campolide, Xabregas e muitos outros sítios, eram inúmeros os retiros campestres, onde se comia, bebia, cantava e jogava o chinquilho em mangas de camisa.

Desapareceram já quási todos, uns porque a urbanização da cidade os sacrificou, outros porque passou de moda "ir ds hortas", o cego da guitarra eclipsou-se por ordem das autoridades e foi-se o ambiente "alfacinha" daquelas diversões.

Só na estrada de Sacavém, além dos que citámos, havia o "Papagaio", a "Quinta da Assunção", o "Gungunhana", o "Retiro da Montanha", a "Fonte do Louro", o "Camba", o "Cabaços" e o "Coimbra", todos em quintarolas onde se ouvia o chiar da nora e se podia, antes ou depois da refeição, ir dar um salutar passeio pelos rêgos das couves e outras hortaliças, ou vêr o boisinho que fazia andar os alcatruzes e visitar os estábulos e as barracas dos trabalhadores.

Havia, ainda, o "José dos Caracois", no Arielro; o "Faustino" e o "Guerra", em Cabo Ruivo, donde se viam passar, lá em baixo, os tramways de Vila Franca e se comia um delícioso pudim fabricado pelas recolhidas de Chelas; o "Ferro de Engomar", na estrada de Bemfica, bem como o "Bacalhau", o "Charquinho", que foi do "Paco", da rua das Gaveas; as "Pedralvas"; o" Caliça", todos em azinhagas próximas; o "Perú"; o "Quintalinho", as "Córtes", a Santa Marta; a "Horta das Tripas" e a "Horta Navia", aquela na Estefânia e esta em Alcântara; o "Manuel dos Passarinhos" e o "Retiro do Poço dos Mouros", hoje substituídos pela rua Morais Soares, que se abriu na direcção da azinhaga que levava ao cemítérlo, onde aquele se pavoneava com o conhecido letreiro: "Na volta cá os espero"; a "Quinta das Varandas" e outros retiros a Xabregas; as casas do Campo Grande e da Calçada de Caniche, que já citei e que se prolongavam com as do Senhor Roubado e de Odivelas, terra dos esquecidos e da marmelada, hoje representados pela "Tia Joaquina", locanda que se abre à direita do caminho de Loures, numa casa saloia, havendo em Loures também várias casas de vinhos e petiscos; os restaurantes afamados de Algés e do Dafundo; as tabernas do Ginjal, onde se petiscam excelentes caldeiradas, à beira do Tejo; o "Joaquim dos Melões", "Joaquina dos Caniços" e outros na Cova da Piedade e em Almada; o "Arte Nova" em Palhavã; o "Sossêgo", na Buraca; o antigo "Retiro da Torrinha", na Rotunda; o da "Rabicha", em Campolide [v. artigos dedicados: Romantismo e Patuleia na Quinta da Rabicha e Geração de 70 e Quinta da Rabicha], junto aos arcos das Águas Livres; o "Pedro dos Coelhos", na velha Porcalhota, onde guisavam um coelho enquanto o diabo esfregava  um ôlho.


Aqueduto de Alcântara, vista a montante dos arcos, século XIX.
Cabral Moncada Leilões


Em quarta feira de Cinzas, as hortas abarrotavam. Os actores e a gente de teatro eram os seus principais frequentadores. E por isso se chamava a essa reunião extraordinária e animadissima O "Carnaval dos actores".

E ainda aqui estaria por largo tempo a citar locandas que desapareceram. Quero, se não se aborrecerem, pregar-lhes uma pançada de petiscos para que comam à "labordaça" e possam agora, satisfeito o apetite, transitar para as bebidas que também dão prazer ao físico.

[A ginginha]

Falemos, em primeiro lugar, da ginginha, o licor ou infusão de ginjas em boa aguardente, tanto do agrado do portuguesinho, que, ao saboreá-la, lê, estarrecido, êste pequeno poema pintado à porta da ginginha de Santo Antão:

É mais fácil co'uma mão 
Dez estrêlas arrancar, 
Fazer o sol esfriar 
E reduzir o mundo a grude; 
(éste verso estd propositadamente errado para acentuar mais o fenómeno) 
Mas ginja com tal virtude 
É difícil de encontrar. 
27 — Portas de Santo Antão — 27 

Ou então: 

Em ginga nlnguem me engana, 
Sou deveras amador; 
A derrota é de uma cana; 
Por causa de tal licor, 
Rompi êste quarteirão 
Da rua de Santo Antão 
Ao Pateo do Regedor. (n.° 12)

A primitiva "ginginha", situada no largo de S. Domingos, no gaveto do quarteirão do Rossio, tem duas meias portas, nas quais, com umas pinturas do actor Alexandre de Azevedo, antigo pintor de tabuletas, estão inscritos os seguintes versos, pelos quais o galego dono da casa me deu, em bons tempos de penúria e quando o dinheiro era dinheiro, a soma de 5.000 reis:

Dona Prudência da Costa, 
Delambida e magrisela, 
Fez de ser tola uma aposta, 
Diz que ginginha nem vê-la 
Porque, coitada, não gosta. 

E a ama de um reverendo 
Que é das bandas da Barquinha 
Tem um aspecto tremendo, 
Bebe aos litros da ginginha 
E é isto que se está vendo. 

A pintura representa duas tipas a escorropichar copinhos, vendo-se, na outra meia porta e na mesma atitude, dois tipos, num dos quais o artista me quiz representar, mas com grande infelicidade.

O Mateus é um chóchinha 
Mais feio que um camafeu, 
Magro, tísico, um fuinha, 
Nunca na vida bebeu 
Nem um copo de ginginha.

O irmão, que sabe a virtude 
Desta divina ambrozia, 
É gordo como um almude, 
Bebe seis copos por dia, 
Por isso goza saúde. 

Muitas casas de venda da "ginginha" há na cidade, mas só uma imitou as primeiras nas tabuletas em verso, juntando o alcool à poesia. É situada na actual rua de Barros Queiroz, não longe das outras, e tem à porta um painel com o seguinte:

Matei tigres e leões, 
Leopardos mais panteras, 
Eu já matei tantas feras 
Que calculo em dez milhões, 
Matei perdizes, faisões, 
O veado, o javali 
Minha sanha acaba aqui, 
Mato agora por capricho 
Todas as manhãs o bicho 
Com a ginginha Rubi.

As casas da ginginlza foram as sucessoras dos velhos alambiques, que muitos havia por Lisboa, um que eu conheci no Largo do Rato, outro na Rua do Prlncipe, antes da construção da estação do Rossio, e, ainda, outro no Loreto, esquina da rua da Emenda, o último a desaparecer.

Eram casas de venda de cafés e bebidas alcoolicas ao balcão, com o licor de amendoa amarga, o licor de rosa, e a "mistura"; o "meio curto", ou café com aguardente; a "carocha", ou café com vinho; a "pintada" e outros "mata-bichos", semelhantes à "cana do Brasil" ou "Paraty", que se ia beber aos botequlns "rascas" da Ribeira Nova.

Era no tempo em que se cantava no final das cantigas de fado:

Torradinhas com manteiga, 
Por cima café limão...

Na travessa de Santa Justa, esquina da Rua da Prata, certo aldabrão manipulava o "cacharolete", ou conjunto de quantas bebidas havia na loja, em maior ou menor quantidade, segundo o preço, e constituindo uma bebida, antecessora do actual "coklail", e dos "piratas", vendidos numa tabacaria aos Restauradores, que produzia pela garganta abaixo os mais originais cambiantes do paladar.

A "ginginha" bebe-se em pequenos copos, onde o taberneiro, com o gargalo da garrafa sufocado pela rôlha, deita uma ou duas ginjas, cujos caroços os fregueses veem roendo pela rua fora, depois de saborearem a polpa do fruto.

[O vinho]

E passemos da aguardente para o vinho, que é sempre de apurado gôsto e aprazimento dos beberrões nos carvoeiros, não sei porquê, talvez pelas emanações próximas do carvão e das bolas de cisco.

Já fecharam há muito os grandes armazéns de vinhos do "Quintão" e do "Mesquita", pai do chorado dramaturgo Marcelino Mesquita, do Cartaxo, a S. Domingos, onde hoje está uma oficina de desmancha de porcos e fabricação de enchidos. O primeiro era situado ao Loreto, no prédio que pertence à antiga Associação da Imprensa, onde está hoje um cinema multo freqüentado pela garotada.

Eram vastos casarões, com uma atmosfera especial, onde se acumulavam os piteirelros em frente do copo e de uma fila interminável de pipas, numa barulhada infrene e atroadora.

No "Quintão", que tinha à porta uns colchões, porque o proprietário fôra em tempos colchoeiro, chegavla a vender·se uma pipa por dia, aos domingos e dias de festa, fazendo bôca ao vinho os petiscos do Bal, a quem já nos referimos, e as castanhas assadas da Carolina, uma moçoila espadaúda, bonita e desenxovalhada, que abanava, entre portas, o assador e misturava, por vezes, Bacho com Cupido.

De entre as vendas de vinho da capital, tem particular fama a "Tendinha" do Rossio, junto ao Arco de Bandeira, sôbre cuja porta se vê ainda hoje um quadro alusivo ao que foi a locanda em 1840. Na loja guardam-se e estão à vista na montra as enormes chaves do primitivo estab.elecimento à mistura com garrafas de vinho daquele tempo. Continua a ser muito frequentada, bem como a casa do "Zé Dieguez", na Rua Paiva de Andrade, onde se reuniam os "oficiais do copo", os marialvas e decilitreiros do século passado, e a adega do "Mendonça", dos vinhos da Arruda, no largo da Guia, hoje de Martim Moniz.

Novas casas vão aparecendo para substituir as antigas, como uma que se abriu no Arco de Bandeira para "distribüição" — é o têrmo que se emprega na tabuleta — dos mais famosos vinhos verdes.

O "pastel de bacalhau", que é petisco preferido dos amadores da pinga, a que no Pôrto chamam "bolo de bacalhau", desempenhou sempre um grande papel na vida citadina. Ainda me lembro de ter sido presidente de um júri num concurso de pasteis de bacalhau que houve no antigo teatro D. Amélia. Tive de comer uns trinta e tantos pasteis para conferir o prémio — já se sabe e segundo o costume, por empenhos — a uma corista das minhas relações.

O "José Maria dos Santos", o "Val do Rio" e o "Abel Pereira da Fonseca", grandes produtores e comerciantes de vinho, abriram para a sua venda, muitos estabelecimentos na cidade, rivais do famoso barracão de Campolide e congéneres casas de Alcântara, onde o vendiam a quatro vintens o litro, abarrotando de amadores do roxo sumo.

Chamavam-lhe, então, o vinho barato, mal prevendo que se havia ainda de vender o litro a quási dois escudos, com grande desespêro dos "rechinchas" e dos "arrenegas". Não havia ainda as cosinhas económicas onde os pobres petiscavam por pouco dinheiro.

[Outras bebidas]

Não eram, porém, só o vinho e a aguardente as bebidas preferidas. O chocolate, que se vendia nos chocolateiros, como um que houve no Largo do Carmo; o que funcionava na loja, onde depois abriu o "Tavares Pobre"; e o do comêço da rua do Carvalho, hoje de Luz Soriano, tinha os seus adeptos para o primeiro almôço, por entre o bater do chocolate do operário que estava à porta, a batucar sõbre uma pedra.

E era também vendido pela manhã nos botequins do "Refilão", da Mouraria; no "Café Bom", de S. Domingos; no "Contente", no "Marcial", da Carreirinha do Socorro; no "café Piolho", em frente da Politécnica, nos cafés da Rua da Betesga e em outros botequlns semelhantes, onde, às noites, tocavam piano e outros instrumentos para atrair os bebedores de café e de bebidas generosas. Tiveram fraca existência os "cafés de camareiras", como um que houve na rua Ivens, onde Alfredo Tinoco, com o pé de uma mesa, pôs tudo em alvorôço.

O "café quente" que os "pirilampos", ou vendedores ambulantes dessa bebida, traziam em grandes cafeteiras de folha, com lume nos baixos a aquecer o líquido, tinha muitos fregueses durante a noite e a madrugada, impingindo os vendilhões, clandestinamente, aos notívagos o seu copinho da "rija".

E lá estava no Campo Grande, às portas, o "café dos Espelhos", posto de café multo conhecido dos boémios, similar de outros armados em diversos sítios, como um que esteve largo tempo ao cimo da Calçada da Glória.

O leite, que hoje se vende nas leitarias, era dantes vendido pelas ruas, e mungido das tetas das burras, ou das vacas que os leiteiros conduziam a pé, distribuindo-o largamente por tôda a parte. Ainda há de haver quem se lembre do velho pregão noturno do "i i ú à leite" e daquele saloio que, tangendo as pobres e escanzeladas ruminantes, gritava, cantando:

Ó menina, venha depressa, 
Que o leite esfria cá na travessa! 

O "capilé", ou xarope de avenca, também se vendia em abundância, ou na conhecida casa de Santo Antão, em frente do Coliseu, cheia de avencas no tecto, hoje transformada em botequim, ou nos demolidos quiosques do Camões, e, ainda, pelos vendilhões de água fresca e do "capilé de cavalinho", chupado pelos rapazes em canudos de folha, sôbre os quais bailarinas, toiros e toireiros giravam.

O "prémier marchand d'eau", velhote vestido de branco, com chapeu de palha, fez época no Rossio, e a "tia Maria", multo lavadaça e cheia de toalhas brancas, a bilha com os três caniças na rôlha, era indispensável na Avenida. Também eram vulgares os vendedores de limonada, à moda do norte, com os seus barris de cortiça, enramados de hervas.

[A fava-rica e o mexilhão]

Dois petiscos há em Lisboa, porém, de remotos tempos, que ainda hoje perduram: a "fava rica" pela manhã e o "mexilhão" à noite.

A primeira vem em panelas de folha à cabeça de asseadas provincianas que cobrem a vasilha com um pano branco, dentro de um enorme cesto retirando a fava ainda fumegante para o prato da freguesa e borrifando-a com uma almotolia de azeite; o segundo vem em dois tachos, um com mexilhão e o outro com o môlho de azeite, alho e rodas de cebola, os tachos também em cestos, e cobertos de panos brancos, pendurados da extremidade de um pau que o vendilhão coloca ao ombro, gritando:

Iérre, iérre, mexilhão 
Com seu dente de "aio", 
Seu "zaragataio",
Seu azeite de Santarém, 
Que êle é pouco e sabe bem.

E em outro tom: 

Traz o môlho feito à espanhola.

Este vendilhão noturno é o sucessor da "Marisqueira das Trindades", dos tempos de Tolentino, e da "preta do mexilhão", da minha infância, que também vendia "gergelim" e "alcomonla", espécie de bolos feitos com mel, amendoas e pinhões, rivais da "alféola", ou canudo de açúcar em ponto, passado na fieira das mãos, que os rapazes chupavam com delicia, lambusando-se todos, a extremidade segura com um papel.

Esta "alféola" era vendida por homens que traziam caixas, com os canudos armados em papeis, a tiracolo, encarregando-se mulheres, especialmente velhas, de vender, pelas ruas ou à porta dos estabelecimentos, os tremoços, as pevides, o amendoim, a fava torradinha, a alfarroba, os figos passados, o torrão de Alicante e outras gulodices. Também era multo procurada a raiz de "alcaçuz", ou "pau cachucho", espectante e emoliente, que os rapazes chupavam com delicia.

Uma vendedeira especial apregoava as belas arrufadas, muito fofinhas, que desapareceram, gritando:

Vá lá boas arrufadas!

O rapaslo, pelas ruas, fazia-a desesperar, imitando:lhe o pregão:  

— Já lá vou bater o fado!

[As romarias]

Lisboa delirava sempre com as bresundelas que fazia nas romarias dos arredores: o "Senhor da Serra", em Belas, com o leitão assado; a "Senhora da Atalaia", ao pé do Montijo, com a festança dos círios ; a "feira da Luz", cêrca de Carnide, onde também havia vários retiros; a "feira das Mercês", com o seu "muro do derrete", as peras assadas e as frituras de carne de porco, à saloia, com muito colorau; a "festa de Santo Amaro", com as suas enfiadas de pinhões e a gaita de foles dos galegos.

Muitas destas festas perderam já os seus encantos e outras desapareceram ou tendem a desaparecer.

[Os doces]

Com respeito a doces — e descansem que não vou enumerar-lhes as confeitarias e pastelarias que tem havido na cidade, desde o célebre pasteleiro da Rua da Rosa — consultem, ainda, o livro de Forjaz de Sampaio, que traz dêles uma longa lista, o que não quere dizer que não lhes lembre o "jesuita", bolo do feitio do chapeu da seita, multo estimado antes da República; a "brôa do Natal", a "amendoa", e o "folar da Páscoa"; o "Bolo Rei", do princípio do ano; o "Bolo de Noiva", a "lampreia" e as "trouxas de ovos", o "bom bocado", as "rabanadas", ou "fatias de parida" da noite do Natal, os "rebuçados", ou "matacões", o "doce de côco", o "pão de ló", o "bolo de arroz", os "coscorões", os "onhos" e as "filhós do Entrudo", o rico "arroz doc"e e o "leite de creme", o "bolo de leite", os "pastéis de Belém", a "bola de Berlim", os "especiones", os "biscoitos", as "linguas de gato", as "barriguinhas de freira" e o "toicinho do ceu", as "orelhas de abade", os "palitos de Oeiras", a "bolacha fina" e a "Maria Pia", que, nos meus tempos de rapaz, se vendiam numa loja às Trinas e em algumas das barracas, que, junto do Lagoia, o cangalheiro, foram demolidas para edificar o Politeama.

Todos estes doces são multo nossos, ou, por outra, muito Vossos, porque eu sou diabético e tenho de me contentar com um pão negro que por ar \lendem e que é o meu constante petisco. Nem sequer posso regalar-me com um "bolo de trigo", em forma de ferradura, que as saloias, com os seus burros, por \lezes vêm vender à cidade e que hão de ter visto e provado, com certeza. Nem sequer como uma fatia do antigo e saboroso "pão saloio de Maleças"!

As casas de comida que enumerei podia acrescentar os hoteis e pensões — não tenham medo que não vou fazer a sua lista — onde se janta bem e por bom preço. Ricos tempos em que, no "Francfort", do Rossio, se jantava por seis tostões, com muitos pratos, vinho, doce, fruta e café!

Pela cidade, abundam, ainda, os vendilhões com coisas boas — sem alusão aos vendedores das farturas que gritam: "Isso é que elas são boas! E que culpa tenho eu de que elas sejam boas"?

E a "pera assada" no forno, quando entra o outono, vendlda em cestos transportados por duas pessoas, homens ou mulheres, com uma lanterna acesa; a "pera de Santo António", em Junho; as "uvas", os "melões" e as "melancias cortadas à faca"; os outros mimosos frutos, muitos dos nossos pomares, sem escapar a "romã", cujos bagos se comem em dia de Reis; "figos de capa rôta, quem quer figos, quem quer almoçar?"; as "castanhas assadas no forno", que os homens da Beira trazem em cestos vindlmos a tiracolo, apregoando em bons tempos: "dez reis vinte! Quentes e boas! Elas estão a escaldar!" ou então cosidas, em panelas de folha, no regaço das varinas, que apregoavam: "Quentinhas de erva doce!"

Isto sem falar nas castanhas assadas que se vendem à porta das tabernas, como aperitivo, o assador de barro a fumegar, e nas castanhas piladas que se vendem nas mercearias. 

Lembram-se do vendedor de pasteis, que os trazia de bracado numa condessa forrada de oleado, e gritava: "vá lá pastelinhos"? Contava-se que, por 10 reis, preço de cada pastel, deixava aos rapazes lamber os que estavam por cima.

E o "queijo saloio"? E a "amora da horta"? que os garotos vendiam em cabazes muito lambuzados de roxo, com um garfo de três dentes? E o "burrié cosido", o marisco saboroso de que se faz uma rica salada com alho, pimenta e môlho de vilão?

E, entre os petiscos "puxavantes" à morraça, os rissoes, os pasteis de folhado e de massa tenra, os "pregos", ou pequenos bifes dentro de um "papo sêco", com presunto; o ovo cosido e machucado em sal e pimenta; os passarinhos fritos, rivais dos aperitivos com que dantes se bebiam os penachos, vasos esguios de vinho branco, numa adega subterrânea do Chiado; o "Champagne Saloio", feito com vinho branco, assúcar e soda; o vinho do Alto Douro, em uma tenda da rua do Príncipe; o Pôrto, na loja da Vinícola, aos Restauradores; o "abafado" e o "moscatel" nas tabernas; o Carcavelos e o Madeira nas confeitarias.

E que bem me sabiam, nos meus tempos de estudante, os pãesinhos com chouriço que o "Oportuno", antigo oficial de ourives, que depois deu em droga e passava as noites nas Duas Igrejas, sucessor do "Mangerico", envolvido em missões suspeitas, vendia no liceu!

Já notaram uma coisa, as pessoas que são viajadas? Nos restaurantes de Paris tudo o que leva pimentos é à espanhola e tudo o que leva tomates é a portuguesa. Talvez por essa razão, dantes, no Entrudo, quem ia cear ao "Barracão", da Rua da Trindade, tinha de comer tudo com môlho de tomate.

Ainda lhes quero falar da açorda, que essa é verdadeiramente um petisco de Lisboa, a boa açorda de alho, fervida, à portuguesa, petisco que há anos não provo por causa da dieta. E as sardinhas, sardas e carapaus de conserva e as ostras que, com o "sobriquet de portugaises", tão abundantes são em França, escasseando entre nós! E a carne de cavalo e de baleia que, em tempos, esteve à venda em Lisboa e de que tanta gente gostava, tendo-se actualizado a primeira!

Mais uma coisa a recordar tempos idos, para os que frequentam agora a cervejaria de Trindade e a "Portugália": a cerveja fermentada, que vinha numa botija de barro refractário, cuja rôlha rebentava com grande estrépito, o que fez dizer ao saloio, ao levar o copo à boca, carregando com a sinistra na moleirinha:

— Bem! Seja o que Deus quizer! 

E, agora, para a socega, depois de se ter saboreado uma castanha do Maranhão ou uma roda de banana, com bom queijo, vá lá um café num estabelecimento "chic", contraste dos velhos botequlns da cidade, tão modestos e tão populares.

Há, porém, que pedir o café numa gíria especial, ou seja um "carioca", ou um "garoto", ou um "galão", ou um "abatanado", ou um "pingado", ou um "negus", ou uma "mosca", para meter também aguardente.

O café vende-se modernamente, moído e pronto, em estabelecimentos próprios, como a "Mariasinha", a "Moreninha", o "Moinho de Oiro", ou a "Africanista".

De um dêles há-de ter vindo certamente aqueles que vocelênclas vão ingerir depois da palestra ou ceia que eu, com esta minha pantagruélica pançada, tão demorada e meudamente lhes impingi, para um dos quais — há-de haver Mecenas no auditório — desde já me convido.

Não me obriguem a ter de ir toma-lo a casa do Esculápio.

Minhas senhoras e meus senhores, muito bom apetite.

Lisboa, 16 de Fevreiro de 1941 (1)


(1)  Olisipo n.° 17, janeiro de 1942

Artigos relacionados:
Chanfana (1 de 2)
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Leitura relacionada:
Alberto Pimentel, O lobo da Mandragôa, romance original illustrado... 1904
As Iscas com Elas ou Iscas à Portuguesa...
No tempo dos francezes
Lisboa d'outros tempos Vol. II
Historia do fado
A triste canção do sul
Lisboa na rua
Lisboa Illustrada
etc.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Petiscos de Lisboa por Eduardo Fernandes, o Esculápio (2 de 3)

[Tabenas de galegos]

Dos "armazéns das iscas" passarei às "tabernas dos galegos", também muito populares em tempos idos e instituídas na cidade pelos cidadãos de Tuy que nela enxameavam, uns abrindo e servindo êsses estabelecimentos, donde passavam mais tarde para as casas de pasto e cafés, e outros carregando com as nossas mobílias, enchendo barris de água nos chafarizes para no-la venderem a vintem cada barril, ou encarregando-se dos recados e da transmissão de missivas amorosas.

Eduardo Fernandes (1870-1945) Esculápio.

Os galegos, com a criação da Companhia das Águas, a aparição da viação acelerada e a intromissão do telefone, deixaram de ter que fazer na cidade e já se não reunem, senão raramente, em grupos pelas esquinas, com as cordas ao ombro, a chapa de aguadeiro e a blusa de condutor da bomba de incêndios.

É uma fauna que quási desapareceu, sendo hoje substituída por homens dos termos de Goes e Arganil, e, se a imigração da Galiza para Lisboa ainda não teve o seu termo, é porque os galegos que já cá estavam e os que chegam vão povoar as casas de comidas e bebidas e os cafés onde tão necessários são ainda os seus valiosos serviços e as suas raras qualidades de gente trabalhadora.

As principais "casas de galegos" dos antigos tempos de Lisboa eram situadas no Bemformoso, na Bica, no Bairro Alto, em Alfama e em Alcântara, onde os moços de fretes e aguadeiros também viviam em colónias ou colmeias, nas suas características "casas de malta", com o seu "capataz", que era em geral quem superintendia nos serviços dos chafarizes, onde os barris faziam bicha e, nas sucessivas faltas de água, governava nos patrícios como ditador.

Tôdas essas "casas de comidas dos galegos" tinham a um canto duas ou três padiolas em que os freguezes faziam as mudanças, acompanhadas de uns trofeus constituidos pelo pau, a corda e o chinguiço que lhes serviam para acomodarem e transportarem o frete nos ombros calejados.

Os freguezes chegavam com os seus barris que lhes serviam de banco, e acomodavam-se junto do balcão onde faziam as suas refeições: carapaus fritos, fressura de porco, petiscos baratos e, por cima ou no fim do repasto, a indispensável "cunca" de caldo, uma tigela com uma caldoça negra, onde despejavam o que lhes restava de vinho no copo, saboreando, então, aquela berundanga com suspiros de íntima satisfação.

Havia menino que, regulando bem os seus "menus" e porque a "cunca" de caldo era de borla, gastava por dia um pataco, ficando-lhe o que fizera nos fretes, nos recados, na venda da água e no trabalho do rescaldo dos incêndios para acumular e comprar "fincas" na terra, onde tinha a mãi dos filhos entregue ao abade.

A antiga Carreirinha do Socorro, como então se chamava ao comêço da rua dos Cavaleiros, onde fica a porta da caixa do teatro Apolo e onde foi fundado o antigo Ginásio Clube, era povoada por essas tascas sórdidas e sombrias, de que era exemplo o "Campainhas", na mesma Carreirinha, esquina do Bemformoso, com as suas campainhas armadas em carrilhão quando se abria a porta, hoje transformado em casa de pasto, loja e l.º andar, tascas que se estendiam depois pelo Bemformoso até ao Intendente e derivavam para o sítio da Mouraria, galgando a seguir outros sítios da capital.

Assim, teve origem a famosa casa do "João do Grão", em frente de demolida praça de toiros do Campo de Santana, casa tão conhecida dos aficionados de então, que a frequentavam à compita com os galegos para saborearem as suas famosas "meias desfeitas", ou seja uma posta de bom bacalhau sueco ou inglês, mlstμrada com uma ração de grão de bico espanhol, muito bem cozido, uma mistura de cebola e salsa picada, sal, pimenta, o fio de azeite e a rega de vinagre que já descrevemos quando tratámos do môlho da conserva das iscas.

Não se calcula o apetitoso sabor dêste petisco e de lamentar é que muitos dos que me escutam não o tivessem provado "in loco", sôbre a mesa ou balcão de pinho da locanda, com o antigo garfo de ferro de três dentes e cabo sem madeira.

É caso para dizer com o meu colega Camões ao descrever os encantos da Ilha dos Amores:

Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.

O "João do Grão", demolida a praça de toiros, deixou o seu local junto do edifício onde hoje está o Instituto Câmara Pestana e passou-se para a Mouraria, donde mais tarde veiu para a travessa da Palha, a fazer concorrência ao "Gargamalo", outra casa do seu género, e ainda a outras que pela cidade houve e tendem a desaparecer.

Uma delas foi o conhecido "Café dos Anarquistas", em frente da fachada principal do teatro da Trindade, voltando de S. Roque, ou da Misericórdia, como agora chamam à rua, casa bem conhecida dos jornalistas e literatos que viviam a boémia do espírito à roda dos anos em que se proclamou a República.

As "casas dos galegos" eram, em geral, pertença de dois patrícios que se revezavam na sua manutenção, seis meses um e seis meses outro, indo cada semestre um dos sócios para a terra, a tratar dos haveres dos dois, que precisavam de cultura e orientação.

Ambos êles trabalhavam como moiros e se correspondiam nas suas mútuas obrigações, obedecendo regularmente ao "roulement" que se tinham imposto.

Eram coadjuvados por cosinheiros e moços também galegos, gente sóbria e sem apetites, que se sujeitava a uma vida de bicho de cosinha, sem apuros de "toilette", vivendo exclusivamente para a locanda e não se poupando a satisfazer as exigências dos fregueses.

Com as "meias desfeitas", que custavam nêsse tempo uns três vintens, cóm o seu caldo no fim, caldo servido na clássica tigela, a que se chamava uma "rolinha", com mais ou menos "entulho", que assim se denominava o resíduo de couves, nabos e grão com que o caldo era adubado, serviam também o "meio temperado", ou seja a "desfeita" sem bacalhau, e muitos outros saborosos e originais petiscos.

Na cantilena do criado de mesa figuravam o chispe com ervas, que fazia um jantar delicioso, seu chouriço de sangue à mistura; a cabeça de porco e a orelheira, com o mesmo acompanhamento; a carne cosida à galega, com chouriço, presunto, toucinho, arroz e grão; a mão de vaca, ou "meia unha"; e os carapaus fritos, muito bem fritos, a dez réis e a vintém cada um, com a sua competente salada de alface, agriões e vários cheiros.

Claro que o aspecto da casa onde se comia, a indumentária dos galegos, o interior do balcão com as suas grandes pipas, o recheio da cosinha, e, sobretudo, o amanho do páteo, quando os saguões da Baixa tiveram fama de mal apresentados, para não descermos a minucias, não eram muito agradáveis à vista, mas o paladar suportava-os porque ofereciam prazeres que custavam pouco dinheiro e, em vez de repugnarem, eram vivamente apetecidos.

Em uma dessas casas da travessa da Palha se instituiu, por iniciativa do Leonardo, actor brasileiro que esteve algum tempo entre nós, um "Club dos Combatentes", que se reunia para estrondosas ceias numa espécie de gabinete da baiúca. Faziam parte do grupo os actores Inácio, Álvaro Cabral, Alfredo Carvalho e Henrique Alves, Vários jornalistas e escritores há muito falecidos, a quem aqui rendo o preito saudoso da minha homenagem ao seu belo espírito de camaradas e de boémios.

[Casas de Pasto]

As "casas de pasto", também geridas por galegos, mas bastante mais aceadas, e apropriadas à compostura da capital, eram em grande número e aqui citarei: o "Vigia", da Avenida, perto da rua das Pretas, sucessora de outras que, como ela, desapareceram, filhas de uma célebre locanda onde pontificava "Diogo Alves", o temeroso facínora; a "Estrela de Oiro", da rua da Prata, que acabou há pouco e meteu obras não sei para quê, depois da morte do seu proprietário, o velho Agapito Serra Fernandes, galego de Mondariz, que, muito rico e muito trabalhador, construiu, à Graça, um bairro com o nome do estabelecimento e deixou boa fama de empreendedor e inteligente; a "Flôr de S. Roque" gerida por um galego gordo e anafado, sempre de boné ao lado, com um cosinheiro de suissas, côxo, muito popular no Bairro Alto, casa a que sucedeu o actual "Restaurant Roma"; o "Restaurant Paris", instalado em S. Pedro de Alcântara, esquina da Travessa da Cara, por muito tempo propriedade de um irmão do galego referido, casa onde se deram banquetes de republicanos presididos por França Borges e gente do "Mundo", e que está hoje transformado numa casa de mariscos, depois de ter sido uma "pensão"; os "Irmãos Unidos", que ainda lá estão no Rossio, com as cosinhas para a rua da Praça da Figueira, antiga propriedade dos irmãos Guisados, oriundos de uns galegos, também irmãos, que se associaram na exploração da casa; o "Tábuas"; o "Fórma" ou o "Estrela de Prata" e o "Novo Dia", nas imediações de S. Domingos; o "Valmôr", nas avenidas novas, grande centro de reunião de boémios e fadistas; a "Taberna Inglesa", com os seus célebres bifes, o "Geraldes", o "Campo Grande", o "Restaurant do Corpo Santo" e outros a S. Paulo e no Caes do Sodré; o "Friagem" na travessa da Palha; o "Barracão" ou o "Fortes", à Trindade, perto do Ginásio, hoje substituído por um "bar"; o "Alfaia" na travessa da Queimada, esquina da rua do Diário de Noticias, e o "Primeiro de Maio" na rua da Atalaia; o "Meia Noite" na travessa da Agua de Flor; o "Tacão" na travessa seguinte, onde em ceias bem regadas e famosas se reuniam o Telmo, o Cardoso, o Marcelino Franco e muitos outros actores, jornalistas e artistas; o "Bessa" da rua dos Douradores, propriedade de um minhoto, nascido na raia galega, cujo filho mais velho é hoje mordomo de um Hotel nas águas de Melgaço; o "Pessoa" da travessa de Santa Justa, onde davam, com o nome de "meia económica", um pratinho com uma pequena laranja ou uma maçãsita, nozes, amendoas e figos, meia económica que esqueceu e é hoje substituída com a mesma gíria por um prato de sopa menos avantajado; a "Argentina" na rua do Príncipe, hoje do Primeiro de Dezembro; a "Cova Funda" na rua das Pretas e a "Adega da Figueira", à Praça da Alegria; o "Alvarinho" em S. João da Praça; o "Cartaxeiro" da rua dos Douradores, com o seu "chispe migado"; as "Velhas" na rua da Conceição da Glória, onde a cosinha era manipulada por mulheres da província, que támbém serviam às mesas, casa hoje gerida por uma francesa e pelo seu companheiro, o lutador Manuel Gonçalves; o "João das Velhas", na mesma rua, casa fundada por um antigo criado das Velhas, hoje criado do Café Gêlo; a "Floresta", ainda hoje no largo de D. João da Câmara, junto ao Teatro; o "Quebra Bilhas", o "Colete Encarnado", a "Casa do António Rosa" e o "Restaurant do Campo Grande", êste sucessor da tão frequentada "Nova Cintra", à Calçada de Carriche, todos no actual Campo 28 de Maio e célebres pelos tempos das esperas de toiros, como o "Zé Azeiteiro", cerca da Praça do Campo Pequeno, vindo do páteo do Buraco, onde era freguês assiduo o velho cavaleiro Mourisca, propriedade de um toureiro que, com aquele apodo, muito brilhou na Praça do Campo de Santana e nas da província; a "Chouriça" no Campo de Santa Clara, que reunia os frequentadores e vendilhões da feira da Ladra ; o "Restaurant dos Caminhos de Ferro", a Santa Apolónia; o "Caçador", em Belém; o "Sete e Sete", em Alcântara, grande casarão onde serviam belos jantares, muito conhecido nos tempos da feira que perto se realizava; as "Casas das Geleas", onde serviam magnificas empadas à moda do Alentejo, e ostras com recheio, uma a S. Pedro de Alcântara e outra na rua do Loreto, em frente dos Verissimos, ao Camões; o "Fortes", na rua de S. Bento, na embocadura que leva ao Conde Barão; o "Paco", na rua das Gáveas, sucessor de outro do mesmo nome na rua da Rosa; a "Adega da Figueira", de que já falei, sucessora da "Padeira" da Praça da Alegria ; o "Peixe Assado", a S. Roque, rival de outro "Peixe Assado" da travessa da Palha, onde se comiam as "canôas", postas de pargo ou de pescada com o seu rico môlho e batatinhas, servidas em uns covilhetes de barro que iam ao fôrno e davam nome ao petisco; o "Mealhada", a S. Roque, perto do Largo, propriedade de Cândido Maneiro Bal, galego de nomeada que, por muito tempo dirigiu a fabricação dos pastéis de bacalhau no "Quintão", casa de vinhos de que nos ocuparemos, galego que abriu a casa com um tosco balcão e umas derrancadas mesas de pinho, vendendo aos fregueses sardinhas assadas e um vinho da Mealhada, de rachar pedras, que deu nome ao estabelecimento; o "Santareno", em frente do Teatro do Ginásio, na rua da Trindade, casa ornada de muitas pipas onde se reuniam actores e jornalistas e onde está hoje a perfumaria Robert, vinda da loja que ficava duas portas mais acima; o "Marinho", na mesma rua, esquina da travessa, onde está hoje uma casa de penhores; o "Magina", de que já falámos.

http://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt/xarqdigitalizacaocontent/PaginaDocumento.aspx?DocumentoID=255820&AplicacaoID=1&Pagina=1&Linha=1&Coluna=1

Outras casas mais somenos se abriam em outros pontos da cidade, como, na travessa da Espera, o "Farta-Brutos", baiúca instalada em uma loja para a qual se descia por dois degraus, e administrada por um galego hercúleo, antigo cosinheiro de bordo, casado com uma mulher muito franzina que servia às mesas.

— Chamam-me o "Farta Brutos", dizia o galego, para me chamarem bruto, quando, afinal, os brutos são êles... 

A casa era muito bem freqüentada por gente de jornais e de teatros. Entre os fregueses, figurava o Reinaldo, chefe da claque do teatro da Trindade e bombeiro voluntário, de quem o cenógrafo José de Almeida, com a sua mania de falar em verso, dizia:

Há um bombeiro chamado Reinaldo, 
Só chega ao fogo depois do rescaldo. 

Certa noite, estava o "Farta Brutos", que tinha o apelido de Fortes e já morreu, a dormitar, encostado ao balcão, com as mangas arregaçadas, quando entrou na locanda o Biscaia, boemio do tempo, companheiro do Reinaldo, que andava quási sempre com o seu grão na aza. Vendo-o em tal posição, começou a cofiar·lhe uma das mãos e a cantar, como na "Viúva Alegre":

Tua mão está fria...

O galego acordou, pôs-se em pé e gritou:

— Pudera! Não havia de estar fria! Eu estive "alá" dentro a "labá los" copos!

Continuando na série das casas onde se petiscava, citar·lhes-ei o "Magrinho", da rua do Telhal, célebre cosinheiro de Coimbra, muito apreciado ali pelos académicos, em cuja casa de Lisboa pontificavam a Bárbara, mulher de armas, de rara formosura e largo cadastro de desordeira, e a Júlia Florista, cantadeira de fados, que precedeu as actuais, irmã da actriz Maria de Oliveira, que foi também florista e corista do Trindade e morreu no Brasil; a "Culinária do Faustino", empresa de jantares que esteve largos anos na loja onde hoje está o "Paladium", tendo morrido há pouco tempo o Faustino, que era um cosinheiro de mão cheia; a casa do "Reinata", na rua Jardim do Regedor, sendo o "Reinata" um velho cosinheiro das feiras, rival do "Pincha", do "Carapetino", do "Machadinho" e da "Maria Botas", que confeccionava belas petisqueiras; (1)

a casa do "António das Caldeiradas", ou "António da Barbuda," em Belém, sob os arcos do prédio onde se figuravam as aldeias, na Exposição, e onde o antigo marítimo, com as suas enormes suissas negras, armado de uma colher de pau e de um tacho de cabeça, confecclonava as mais exquisitas "caldeiradas" ou "bouilhabaisses" rivais das de Marselha, que tanto deliciaram o célebre tenor Gaiarre e outros cantores de S. Carlos, ali levados pelo Rafael Bordalo, por Júlio Cesar Machado e outros artistas e escritores do tempo; a casa das "Marianas", à Escola do Exército, onde, no intervalo das aulas, ia munir-se do almôço o Paulino, um preto que era alferes aluno e foi demitido do exército pela sua vida desregrada, acabando em escrevente do tabelião Cornélio, com cartório no Rossio, junto à "loja do Povo"; a casa de uma velha, na rua da Inveja, onde os alunos da mesma escola ceiavam, por três vintens, um quarto de pão, dois pasteis de bacalhau e dois decilitros, menu que era aumentado ao domingo e custava um tostão. Esta Velha tinha um filho, que os estudantes tomaram à sua conta, porporçionando-lhe os meios e dando-lhe lições e explicações para fazer o curso dos liceus, depois do que se formou em direito.

Outras casas, que a série é interminável : e "tia Iria", a Campo de Ourique, na antiga rua de S. Lulz, onde se jantava admlràvelmente e sempre em boa companhia de artistas e literatos; a "casa dos bifes à cortador", um talho na rua das Pretas onde, por quatro vintens, forneciam um bife que se não podia tratar por tu; o "Zé Gordo", de S. Sebastião da Pedreira; o "Constante" e o "Baldanza", casas de galegos nas imediações do govêrno civil, onde eram de apetite, como nas casas congéneres, a dobrada com Vidrilhos, a fressura de porco, a "meia unha", já citada, e os pivetes, feitos das últimas vertebras do rabo do boi, de que se faz também a preciosa sopa; as lulas e os chocos, grelhados ou de caldeirada, sem o negro que os faz confeccionar à espanhola com o nome de "calamares en su tinta"; um restaurante boémio ornamentado por vários artistas que o filho do Faustino teve por uns meses num terceiro andar da rua Serpa Pinto ; o "Club dos Excentricos", casa que, na actual rua da Misericórdia, ocupada o prédio onde esteve a redacção do Mundo e hoje está a do Diário da Manhã, gerida pelo Simplicio, dos carros da carreira de Mafra, e pelo antigo "repórter" e chefe da polícia secreta Albino Sarmento, casa que fez época, com a sua enorme concorrência de boémios e boémias e com as suas ceias até altas horas, tendo sido o primeiro cabaret que se fundou em Lisboa; o "carpinteiro da travessa do Forno", onde se comiam as belas sardinhas assadas, muito frequentado por Fialho de Almeida, D. João da Câmara, o "Pinlurinhas" e outros.

— Quem é aqui o senhor D. João da Câmara? Preguntou de uma vez certo policia ao grupo citado, ao autoar um dêles por uma trangressão e ao dizer-lhe outro que não procedesse, porque estava ali o senhor D. João da Câmara e poderia ser·lhe bom.

— Somos nós todos! Respondeu o "Pinturinhas", que fôra o transgressor. E o caso acabou à gargalhada.

A propósito, contarei que êste "Pinlarinhas", o saudoso Figueiredo, tinha muita graça, referindo-se dêle entre outras, uma anecdota que não me canso de citar.

O "Pinturinhas", quando os seus fatos estavam coçados, mandava-os virar, como todos os pelintras, mas, quando, depois de virados, ainda mais coçados estavam, mandava-os voltar à primeira forma. De uma vez, apareceu no alfaiate com um sobretudo que já tinha ido duas vezes à "Outra Banda", pelo que o "sastre" depois de o examinar, exclamou:

—  Ó senhor Figueiredo, olhe que isto já foi virado duas vezes e eu, agora, não posso... — É que eu Vinha cá, ó mestre, interrompeu o Pinturinhas, a ver se você m'o punha assim... — (as duas mãos num só plano, palma contra costas, enfiando o olhar).

Continuando na enumeração das casas de comidas: temos ainda a "Adega do Maleiro", à Calçada do Sacramento, que ainda hoje existe, e a "Adega do Estucador", na Calçada do Combro, junto ao Quartel dos Paulistas, em frente à travessa da Condessa do Rio; o "Quintalinho" à Cruz do Tabuado; a "Flor da Praça", em frente ao mercado da Praça da Figueira, antiga taberna de peixe frito, que em tempos emparelhava com as das ruas dos Canos, frequentadas por mulheres do bairro e "rufias"; o "Campainhas", à Rua Fernandes da Fonseca, de que já falei; a "Casa de Pasto do Intendente"; a "Adega do Ribatejo", também denominada "Caldo Verde", que atravessa do beco do Fôrno para a rua do Jardim do Regedor; a "Provinciana", no mesmo beco, sucessora do "Carpinteiro"; o "Bomjardim", na travessa de Santo Antão, onde fazem agora as refeições a cinco escudos e vendem os "miomas", as "bifanas", ou "bifes entalados", os passarinhos fritos e outras gulodices; a "Casa do João Borges", no Parque Mayer, pertença do antigo avançado que se celebrisou na propaganda da República; o "Restaurant Internacional", a "casa Cadete" e a "Adega do Barbaças", na travessa da Palha; outro "Restaurant Internacional" e o "Café Central", ao fundo da Calçada do Carmo ; os "Cesteiros", na travessa da Palha, no largo do Regedor e em frente da praça, onde vendem petisquinhos para "fazer boca" ao vinho verde e maduro, por entre armações de cestos de vindima e pipas; o "Marinho", antiga casa de comidas na travessa da Palha; a "Adega dos Periquitos", ao Desterro; o "Vilarinho"; o "Gambrinus" e a "Casa dos Capilés", na rua Eugénio dos Santos; a "Cabeça de Toiro", na rua da Palma, hoje na rua dos Douradores, com uma cabeça negra de cornupeto ao fundo, embalsamado; o "Ano Novo"; a "Estrela" e a "Central da Mouraria" à Mouraria; a "Casa Farinha" e a "Primavera" do Bemformoso, onde, como em geral nas casas mais populares e barateiras, vendem "metades de meias doses", a preços convenientes para os comensais que vão sósinhos, comendo na última muitos refugiados estrangeiros; a "Adega dos Presuntos", no beco da Barbaleda, onde se fizeram grandes patuscadas com gente de teatro, em uma das quais até o falecido escritor Baptista Diniz, revestido de hábitos talares, prégou um sermão que ficou memorável; a "casa de pasto da Rua da Palma", em frente do Apolo, onde hoje está um depósito de tabacos; a "Flôr do Socorro"; o grande "restaurant" e casas de comidas da Estefânia; as casas de pasto dos sítios de Sapadores e do Castelo; o "azeiteiro da travessa da Queimada", esquina da rua da Atalaia, onde esteve a redacção do "Diário", o "Gibraltar", no Caes do Sodré; a "Adega dos Antónios", na rua dos Douradores, onde, ainda há pouco, um tipo entrou, comeu e não pagou pela razão de se chamar António; a "Nossa Terra"; a "Cervejaria Paris"; a "Colombo"; a "Estrêla"; o "Café Peninsular"; o "Café Amazonas"; a "Adega do Dão" e a "Adega Progresso", no Arco Bandeira; "A Rosa de Maio", ao Pote das Almas, em frente à Boa Hora, onde vão almoçar os advogados; A "Flor da Primavera" e o "Restaurant União" na rua do Crucifixo; o "Morgado dos Leitões" em frente ao Grandela; a "Casa de pasto O Galo", que havia a S. Julião; a "empresa de jantares do Franco", que esteve uns anos na rua Ivens onde eu gastei em jantares. que custavam cinco tostões, os primeiros 15.000 reis que ganhei; a "Favorita" e o "Freddys", restaurante Vienense, com petiscos feitos por um hungaro, o Violinista Trincher, no Parque Mayer, além de outras casas mais somenos; a "Tijuca", na travessa da Glória; a "Cervejaria Alemã", na rua do Alecrim, sucessora do "Chat-Noir", casa francesa onde se fizeram grandes pândegas com mulheres; o "Jansen", cervejaria entre as ruas do Alecrim e Paivla de Andrade. junto à conhecida fábrica de cerveja, onde faziam uns primoros;os bifes e instalaram depois o "Refiro da Severa", rival do "Solar da Alegria" e do "Café Luso", tão conhecidos dos cantadores e amadores do fado; a "Tia Leonarda", antiga casa de petiscos da velha rua do Carvalho, hoje de Luz Soriano, esquina da travessa das Mercês, casa instituída por uma provinciana de boas formas e simpático aspecto que atraiu à locanda escolhida freguesia de artistas e literatos e onde o caricaturista Bordalo Pinheiro, com vários redactores do Século e de outros jornais, tiveram noites inolvidáveis; o "Restaurant Familiar", ou dos "Rapazes", que são hoje uns velhos, "casa de galegos" da rua da Trindade, fundada pelos dois criados do "Café dos Anarquistas", que ainda hoje vende petiscos em conta e trata bem a freguesia, instalado nos abandonados claustros do convento da Trindade; a sucursal da "Palmeira", conhecida casa de comidas do Põrto, que se instalou. com os seus vinhos verdes e petiscos portuenses, na rua do Crucifixo.

Tôdas estas casas fôram sucedâneas do "Mal Cosinhado", de antigos séculos, e do "Talaveiras", do século XVIII, velhos "chanfaneiros" de Lisboa, quando se chamava "chanfana" à fressura de porco, e Bocage dizia num soneto:

Se eu pudesse ir de tralha, ir à surdina
Por aí! Forte sêde e forte gana
De zurrapa, de atum, de ti, chanfana,
De ti que dos pingões és gulosina!

Que tempo em que eu, com súcia, ou grossa ou fina,
Para a tia Anastácla, a tal cigana,
Ia e vinha depois co'a trabuzana
A remos, no mar rôxo, ou à bolina!

Henri L'Évêque, Vista do Convento de Sto Jerónimo de Belém e da Barra de Lisboa.
ComJeitoeArte


"Ir de tralha", explica Bocage numa nota, é andar de capote em dialecto marujal. A Anastácia, cigana, segundo uma outra nota do mesmo, era uma semi-taberneira da rua dos Algibebes, afável nos negócios, a quem o poeta invejava as postas de pescada, mais do que o carácter e a graduação.

Vieram depois casas de pasto já desaparecidas: o "Penim", que teve larga fama; o "José "Romão"; o "José das Aranhas", ao Cais do Tojo; o "Pinto Cambalhota"; a "Pomba de Oiro" e o "José Manuel", à Horta Sêca; a "Tia Rosa", que eu já não conheci, bem como o "Ferreira", da mesma Horta Sêca, onde faziam deliciosamente cabeça com feijão.

[Restaurants e Cafés]

Contrapondo às casas que citei, teve e tem Lisboa, além de "cabarets" várlos que todos conhecem, e levaria multo tempo ainda a citar, famosos restaurantes e cafés, como o "Suisso", o "Leão de Oiro", o "Martinho da Neve", ou o "Martinho da Arcada", no Terreiro do Paço, e o "Martinho do Largo de D. João da Câmara", o "Aurea", o "Café Chiado", as duas "Brasileiras", do Rossio e do Chiado, o "Nicola" e o "Chave de Oiro"; os cafés "Portugal", "Madrid", "Aviz", "Primeiro de Dezembro"; o "Negresco", o "Palladium", a "Abadia", a "Chic", o "Ledo Triste", o "Marrare" e o "Montanha", onde faziam belos bifes afogados em leite; o "Salão de Chá", na rua do Ouro, num primeiro andar à esquina de Santa Justa; A "Central", "restaurant chic" da mesma rua, sucessora da confeitaria "Fernandes"; o "Restaurant Rosa Araujo", sucessor da grande confeitaria da rua de S. Nicolau, do grande e obeso presidente da Câmara, que iniciou as obras da Avenida; a "Padaria Inglesa", ao Conde Barão e depois a S. Julião, onde se vende pelo Natal o "Plum Puding"; o "Restaurant Portugal" e outro" Café Madrid", na rua Paiva de Andrade, que já acabou; o "Benard", no Chiado; o "Ferrari", na rua do Almada; o "Baltresqui", na rua de El·Rel; a "Charcuterie" da rua Nova do Carmo e outras onde vendem as "galantines", os "boadins", a "lange à l'écarlate" e outros plteus de origem francesa; várias casas alemãs, onde vendem , como na da rua do Oiro, enchidos e especialidades germanlcas; o antigo "Restaurant do Augusto", na antiga travessa do Secretário da Guerra, frente ao Ginásio onde pontificava a Maria Juliana, celebrada boémia; o "Restaurant Silva", num primeiro andar da rua Serpa Pinto, perto do Casino onde se fizeram as célebres conferências, que há pouco desapareceu; o "Café da Trindade", nos baixos do teatro, onde está a Companhia dos Telefones, notável pelas ceias, que se davam por ocasião dos bailes de máscaras, onde tanto nome deixaram a Conceição Fadista, a Jacinta, cantadeira de fado, que morreu em Coimbra; o "Melo da Gaitinha" ou o "Melo da má língua", oficial superior reformado do Ministério da Instrução, hoje de provecta idade e socegado, mas, nos seus tempos, de se lhe tirar o chapeu; o "Augusto Pouca Roupa", bombeiro voluntário que vivia com uma francesa que morava em frente do Ginásio, por cima do "Santareno", mestre sala dos bailes e famoso pauliteiro, rival nas silabadas e asnelras do cavaleiro tauromáquico José Bento de Araújo; os valsistas John, velho corista da Trindade, que morreu há pouco; o "Britinho", hoje retirado, e o "Augusto Cordeiro", informador de jornais e pai da actrlz Georgina Cordeiro; o "Sena", actor e empregado da Biblioteca Nacional, velho valsista; além da Berrlnche, da Milagros, da Catalina, da Encarnacion e de outras espanholas da vida airada, que deram que falar.

A Brazileira, publicidade na revista Tiro e Sport, 25 de fevereiro de 1906.
Hemeroteca Digital


Citarei ainda o "Tavares Rico" e o "Tavares Pobre", do simpático Manuel Caldeira, desaparecidos e leiloados há pouco, cuja história está já feita por "Tinop" [v. Lisboa d'outros tempos Vol. II]; o "Aquário" e a "Clementina", ao Jardim do Regedor; a "Pastelaria Marques", no Chiado; o "Rendez-voas des Gourmets", que esteve na rua do Oiro; a "Garrett", no largo das Duas Igrejas, onde hoje está uma sucursal do "Notícias", e o "Imperial", que esteve na rua do Príncipe.

A propósito do "Tavares Rico", quero-lhes citar um caso. Há muitos anos, o rei D. Carlos foi de visita a Évora com numerosa comitiva da qual eu fazia parte como "repórter" do "Século". Fômo-nos hospedar para a vivenda do milionário Baraona, onde ofereceram ao rei uma caçada, durante a qual foram abatidos uns vinte veados que o monarca generosamente ofereceu à comitiva.

Coube-me um dos bichos e calculem o meu desapontamento quando, chegado a Lisboa, fui intimado a retirá-lo do vapor. Se chamasse uma carroça e o levasse para casa, a familia exautorava-me, pelo que decidi ir ter ao "Tavares Rico" com o Manuel Caldeira.

Em resumo: almocei e jantei, durante uma semana, à barba longa, no "Tavares" e a carne de veado foi, durante oito dias, um "petisco de Lisboa".

E agora, não lhes cito mais casos, remetendo os mais curiosos dêste meu auditório para os livros do saudoso "Tinop" [v. Lisboa d'outros tempos, Vol. II], que tão bem fez a história dos cafés de Lisboa, dêsde o "Café do Grego", do Caes do Sodré, a que sucederam o "Londres", o "Royal", o "Briths Bar" e outros, até ao "Botequim das Parras", dos tempos de Bocage, ao "Botequim do Gonzaga", no Rossio, onde está o "Gêlo", e ao "Botequim do Marcos Filipe", ao Pelourinho, citados por Luiz Augusto Palmeirim, e para o recente livro Volúpia, do talentoso publicista e meu presado amigo Albino Forjaz de Sampaio, que se ocupa do assunto. (2)


(1)  Olisipo n.° 16, outubro de 1941
(2)  Olisipo n.° 17, janeiro de 1942

Artigos relacionados:
Chanfana (1 de 2)
Chanfana (2 de 2)

Leitura relacionada:
Alberto Pimentel, O lobo da Mandragôa, romance original illustrado... 1904
As Iscas com Elas ou Iscas à Portuguesa...
No tempo dos francezes
Lisboa d'outros tempos Vol. II
Historia do fado
A triste canção do sul
Lisboa na rua
Lisboa Illustrada
etc.