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quinta-feira, 6 de julho de 2017

O Grémio Artístico (9.ª exposição, 1899)

A exposição d'este anno não foi tão numerosa em obras d'arte, comparada com as dos annos anteriores, e ainda que não se possa considerar isenta de exhibiçóes que melhor fora não figurassem n'aqulle certamen, apresentou comtudo quadros de valor, que mostram bem que os seus actores não se teem deixado adormecer sob os louros colhidos, e vão antes progredindo.

D. Eugenia Relvas e seus filhos, José Malhoa, 1899.
Imagem: Casa dos Patudos

José Malhoa

Nestas circumstancias se encontra o Sr. Malhoa que, sem concorrer com a abundancia de obras de outros annos, apresentou o retrato da ex.ma Sr.ª "D. Eugenia Relvas e seus filhos", magistralmente pintado, e mais dois quadros "As papas"

As papas, José Malhoa, 1898.
Imagem: Provocando

e "No forno" que são duas télas preciosas, a ultima de um collorido vivissimo mas sem crueza e antes harmonioso e alegre.

No forno, José Malhoa, 1897.
Imagem: A pintura de Malhoa, por Ramalho Ortigão, Serões n.° 10, 1906

Luciano Freire

O quadro do sr. Luciano Freire "Perfume dos Campos" é uma phantasia que nos dá a suavidade do campo em contraste com a vida torbolenta da cidade. Do calice do lyrio da montanha se envolta envolta no perfume, uma figura vaporosa de mulher. 

Perfume dos campos, Luciano Freire, 1899.
Imagem: MNAC

Lá em baixo e distante está a cidade com os seus palacios e fabricas com altas chaminés, donde saem rolos de fumo que se acomulam no ar envolvendo figuras como cadaveres em confuso torbilhão de uma lucta desesperada. E uma bella alegoria. 

Veloso Salgado

O sr. Salgado expôz um bello retrado do Sr. Dr. Lobo Alves e mais duas cabeças de estudo, sendo uma de um rapazinho, que dominnou "Flôr do mar", muito apreciavel.

Flor do mar (tema recorrente), Veloso Salgado, versões de 1899 e 1929.
Imagens:  Occidente N.º 732, 30 de abril de 1899 e ComJeitoeArte

António Ramalho

Um quadro "Arredores de Evora" do sr. Ramalho. sustenta bem a reputação de paizagista do seu auctor, o mesmo não diremos dos seus quadros "Apanha da azeitona" e "Os burros do sr. Doutor" que são menos cuidados e feitos, evidentemente, com precipitação.

Os burros do sr. Doutor, António Ramalho, 1899.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Carlos Reis

Uma paizagem do sr. Carlos Reis, "Dezembro", e um pedaço de tela, bem pintado e que dá perfeitamente a impressão do inverno e do frio; tem largueza e ar.

Ernesto Condeixa

Tambem figurou n'esta exposição o quadro do sr. Condeixa "Recepção feita pelo Samorim de Calicut a Vasco da Gama", feito para o concurso aberto pela Sociedade de Geographia, por occasião do Centenario da India, e que é um trabalho de grande merecimento, que representa muito estudo, masq ue se recente, talvez, do pouco tempo que o auctor teve para o executar.

O Sr. Condeixa expõe ainda mais seis quadros de paizagens, alguns felizes e bem estudados que não desmerecem dos creditos d'este artista.

João Vaz

O Cabo Tormentorio e uma grande tela do sr. Vaz, reputado pintor de marinhas.

A caravella vae correndo por sobre o mar revolto, sob um ceu azul onde pairam figuras aladas de anjos, vaporosos, guias do grande navegador e que aplacam as tormentas do Cabo que se esboça no horisonte. É este quadro, como se vê, uma allegoria.

Mais sete quadros de marinhas completam a exposição d'este artista, e em todas elles ha luz e ar, qualidades que distidguem as telas do sr. Vaz.

João Dantas

Em marinhas expõe tambern o sr. Dantas um bello quadro "Batalha Naval de Ormuz". 

Batalha naval de Ormuz [ou do Golfo Pérsico] em 1625, João Dantas.
 Imagem: Portal da Marinha

É merecedor de todo o elogio o sr. Dantas pela serie de quadros historicos que tem feito da epopea maritima portugueza, de que nenhum outro artista se tem occupado apesar de não faltarem assumptos de gloriosa recordação.

Não deixaremos de notar um quadro do sr. [José de] Almeida e Silva, de Vizeu, "Depois da refeição" pintura bem acabada, representando uni trabalhador que depois da sua parca refeição, de que ainda se voem restos sobre a mesa, acende o seu cigarro. O effeito do phosphoro aceso que illurnina parte do rosto da figura é de uma perfeita illusão, como raras vezes temos observado em pintura.

É tambem de notar uma paisagem do sr. Galhardo, assim como "O argueiro" da ex.ma sr.ª D. Sara de Vasconcellos Gonçalves, representando duas creanças do campo, em que uma ilidias esta soprando o argueiro do olho da outra. E bem observado e de boa pintura.

Do sr. Jorge Collaço, "Uma esquina" que representa um bom typo de moço de fretes, bem observado.

Outros quadros se viam ainda pelas salas da exposição, dignos de apreço, como os do sr. Gyrão, "A mãe", uma galinha no choco; "Carro de bois" da ex.ma sr.ª D. Emilia Lopes; "Noche buena" de Mademoiselle Benard; "A mouca dos Novellos" do sr. José de Brito; "Manhã de S. João" da ex.ma sr.ª D. Adelaide Fernandes; "Na fonte" da ex.ma sr.ª D. Elisa Lopes; "De volta a casa", da ex.ma Sr.ª D. Henriqueta Lopes; do sr. Torquato Pinheiro, um bello retrato de sua mãe e uma vista do Mosteiro de Leça do Bailio; do sr. Henrique Pinto, "As formigas no mel"; da ex.ma sr.ª D. Maria Simões, "Jogando as cristas" e "Perús"; uns estudos da ex.ma sr.ª D. Maria Trigoso, etc. 

As formigas no mel, Manuel Henrique Pinto, c. 1899.
Imagem: Provocando

Em aguarellas viam-se as do sr. Alfredo Guedes; Ribeiro Arthur, Dockery e Roldan, dignas de menção.

Em esculptura apenas se via na exposição um busto em gesso, estudo do sr. Moita e um esboço para monumento a Mousinho d'Albuquerque do sr. Queiroz Ribeiro.

Em architectura, projectos do sr. Eduardo Alves para uma capela funeraria e do sr. Antonio Couto um amphitheatro de Historia Natural.



A pastel notaremos "A mulher com os gatos" do sr. José de Brito.

Clique para abrir
Fialho de Almeida À esquina (diário de um vagabundo),
Coimbra, F. França Amado, 1903.

Se a ultima exposição não marcou um progresso notavel na arte de pintura, e se a ella não concorreram todos os artistas, como seria para desejar, não se pode considerar desanimadora. Antes  é para louvar como o Gremio Artistico vae insistindo no seu proposito de levantar a arte portuguesa. (1)

Nona exposição do Grémio Artístico, O Occidente N.º 732, 30 de abril de 1899

Encerrou-se no dia 25 do corrente a nona exposição do Gremio Artistico com a assistencia de Suas Magestades El-rei D. Carlos e Rainha a Senhora D. Amelia, pelo que teve esta cerimonia eivada significação, pois suas Magestades honraram sempre esta exposição não só com o concurso de suas obras, mas com a sua presença a estes actos solemnes.

O levantar de uma armação do atum (Algarve), D. Carlos de Bragança, 1899.
Imagem: Hemeroteca Digital

De facto entre as obras expostas figurava, sem duvida, em primeiro lugar, um desenho a pastel, "O levantar de uma armação do atum", no Algarve, do Senhor D. Carlos. (2)


(1) O Occidente N.º 732, 30 de abril de 1899
(2) Idem

Leitura adicional:
Branco e Negro, 26 de março de 1899
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (III), 1903

Informação relacionada:
Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra
A pintura de Malhoa, por Ramalho Ortigão, Serões n.° 10, 1906

Temas relacionados: Pintura, Grupo do Leão

Google search: MNAC, Matriz.net

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O Grémio Artístico (non in solo pane vivit homo)

Com este título [Grémio Artístico (9 exposições anuais, de 1891 a 1899)] vae fundar-se em Lisboa uma sociedade para promover o desenvolvimento da arte nacional, por meio da aggremiação de todos os artistas portuguezes e pessoas que se interessam pelas bellas artes; fazendo exposições annuaes e estabelecendo na sua sede, uma exposição permanente; abrindo aulas de desenho, aguarella, pintura e esculptura; realisando conferencias publicas sobre assumptos d’arte e litteratura; publicando mensalmente uma revista artistica e litteraria; estabelecendo um gabinete de leitura. 

Descanso (posteriormente O atelier do artista), Malhoa, 1893 ou 1894.
Imagem: Wikipédia

A comissão organisadora d’esta sociedade é composta dos srs. Antonio Carvalho da Silva Porto, Ernesto Condeixa, João Vaz, Abel Accacio Botelho, Monteiro Ramalho e Emygdio Brito Monteiro.

Où es-tu Lili?, José de Brito, 1890.
Imagem: O Occidente N.º 524, 11 de julho de 1893

Sabemos que tem adherido a esta idéa muitos artistas e amadores de bellas-artes, tendo-se realisado já a primeira reunião para a leitura dos estatutos. A fundação d'esta sociedade será de grande beneficio para a arte portugueza que tão abandonada tem andado. (1)

Retrato de Abel Acácio Botelho, António Ramalho, 1889.
Imagem: MNAC

Annos depois de organisado o grupo do Leão, bolorencias inherentes à natureza pantanosa d'este género de sociedades, levaram alguns artistas a se separarem d'elle, e a incorporarem-se-lhe outros, e a nova confraria a alargar-se num programma mais íngreme de letras e artes, com saraus, banquetes, exposições e regalos, que, pela vida periclitante da nova milí­cia, intitulada Grémio Artístico, não chegaram a cabal execução, à parte as exposições, decaídas, que o profissional hoje evita, e que a invasão do furioso amador quasi tornou fastidiosas. (2)

Colheita ou Ceifeiras, Silva Porto, 1893.
Imagem: Wikipédia

A rotina dos salões do Grémio implicava porém a presença dos melhores "naturalistas" da primeira e da segunda geração. Catálogo após catálogo os nomes desfilam, perdidos embora num nevoeiro de amadores e discípulos, que contribuíam para o elevado número de peças de pintura espostas (de 160 a 220; mas só 81 no último salão).

NON IN SOLO PANE VIVIT HOMO
(nem só de pão vive o homem)

Nas salas da exposição Silva Porto, até morrer, Malhoa e Vaz, sem faltarem um só ano, Columbano desde 96, Ramalho, Marques de Oliveira, Condeixa, Brito, Josefa Greno, uma ou duas vezes ausentes, e outros mais novos e igualmente assíduos, como Luciano Freire, Salgado, Carlos Reis, Gameiro, Colaço, Teixeira Lopes uma ou outra vez (numa secção de escultura habitualmente pobre), o rei D. Carlos, concorrendo sempre, dão ao "Salon" português uma significação panorâmica que tem de ser considerada no estudo dos anos 90. (3)


(1) O Occidente n.° 407, 11 de abril de 1890
(2) Fialho de Almeida cf. Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (I),
Illustrações de Casanova & Ramalho, Pref. de Fialho de Almeida, Lisboa, Livraria Ferin, 1896
(3) José Augusto França, A arte em Portugal no século XIX (vol. II), Lisboa, Livraria Bertrand, 1990

1.ª exposição, 1891:
O Occidente N.º 441, 21 de março de 1891
O Occidente N.º 442, 1 de abril de 1891
O Occidente N.º 443, 11 de abril de 1891
O Occidente N.º 445, 1 de maio de 1891

2.ª exposição, 1892:
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (I), 1896
O Occidente N.º 480, 21 de abril de 1892
O Occidente N.º 481, 1 de maio de 1892
O Occidente N.º 482, 11 de maio de 1892
O Occidente N.º 483, 21 de maio de 1892

3.ª exposição, 1893:
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (I), 1896
O Occidente N.º 515, 11 de abril de 1893
O Occidente N.º 516, 21 de abril de 1893
O Occidente N.º 517, 1 de maio de 1893
O Occidente N.º 519, 21 de maio de 1893
O Occidente N.º 520, 1 de junho de 1893
O Occidente N.º 524, 11 de julho de 1893
O Occidente N.º 526, 1 de agosto de 1893
O Occidente N.º 527, 11 de agosto de 1893
O Occidente N.º 530, 11 de setembro de 1893

Silva Porto falecido a 1 de junho de 1893:
O Occidente N.º 521, 11 de junho de 1893
Serões, revista mensal ilustrada, dezembro de 1905

A exposição Columbano:
O Occidente N.º 557, 11 de junho de 1894

4.ª exposição, 1894:
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (I), 1896
O Occidente N.º 556, 1 de junho de 1894
O Occidente N.º 564, 21 de agosto de 1894
O Occidente N.º 565, 1 de setembro de 1894
Arte Portugueza N.º 2, fevereiro de 1895
Arte Portugueza N.º 3, março de 1895
Arte Portugueza N.º 4, abril de 1895

5.ª exposição, 1895:
Arte Portugueza N.º 4, abril de 1895
Arte Portugueza N.º 4, abril de 1895

6.ª exposição, 1896:
Catalogo illustrado da 6ª exposição de arte promovida pelo Grémio Artístico em 1896
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (II), 1898
O Occidente N.º 625, 5 de maio de 1896
Branco e Negro, abril de 1896

7.ª exposição, 1897:
Catalogo illustrado da 7ª exposição de arte promovida pelo Grémio Artístico em 1897
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (II), 1898
O Occidente N.º 665, 20 de junho de 1897
O Occidente N.º 666, 30 de junho de 1897
O Occidente N.º 668, 20 de julho de 1897
O Occidente N.º 671, 20 de agosto de 1897
Branco e Negro, 17 de maio de 1897

8.ª exposição, 1898:
A 8.ª Exposição do Grémio assumiu carácter extraordinário, por se incluir nas comemorações do Centenário da Índia; e marcante foi também a contribuição do rei...
cf.
Críticos e crítica de arte em torno da obra de D. Carlos de Bragança

9.ª exposição, 1899:
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (III), 1903
O Occidente N.º 732, 30 de abril de 1899
Branco e Negro, 26 de março de 1899
Fialho de Almeida, À esquina (diário de um vagabundo), Coimbra, F. França Amado, 1903

Informação relacionada:
Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra

Temas relacionados: Pintura, Grupo do Leão

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