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quinta-feira, 7 de abril de 2022

O Terramoto de 1755 (folio/encenação de João Glama)

Existiu no Alto de Santa Catarina (antigo Monte ou Pico de Belver), exactamente no sítio onde está hoje o palacete, avançado por um pátio defendido por gradeamento, do industrial senhor Alfredo da Silva, uma Igreja de Santa Catarina do Monte Sinai, fundada em 1557 pela Rainha D. Catarina mulher de D. João III. Esta Igreja deu nome ao Alto de Santa Catarina, e á paróquia que está hoje no antigo Convento dos Paulistas, pois o templo citado — que era da irmandade dos livreiros — muito ferido pelo terramoto, reconstruído, e incendiado em 1835, foi finalmente demolido já em ruínas, entre 1856 e 1862. (1)

Alegoria ao Terremoto de 1755, João Glama Strobërle (1708–1792).
Wikipédia

Apenas um artista português é que, sobre o terremoto de Lisboa, produziu uma vista iconográfica: consiste ela num quadro a óleo, devido ao pincel de João Glama Ströberle, e representa uma cena de desolação junto às ruinas da desaparecida Igreja de Santa Catarina. Está no Museu de Arte Antiga. (2)

ARQUIVOS.RTP.PT
Pintura “O Terramoto de 1755 em Lisboa”

Jean Glamma Stroberle, Portugais, naquit en 1708. Il fut envoyé à Rome, où il s'est occupé à copier les tableaux de Raphaël, et où il a passé 18 ou 20 ans. Il a demeuré ensuite à Porto, où il a exécuté divers ouvrages.

Cena de desolação e dor com figuras de diferentes estratos socias e da iconografia clássica com aurorretrato e objectos religiosos (cruxifixo, S. Marçal?)
Alegoria ao Terremoto de 1755, João Glama Strobërle (1708–1792).
Wikipédia

Pendant le tremblement de terre, il se trouvait à Lisbonne. Très instruit et doué d'une grande facilité, il faisait d'excellens portraits. C'était un dessinateur très distingué. Il n'a pas fait d'élèves, parce qu'il n'a pas voulu en admettre dans son atelier.

Cena das vítimas com figuras da iconografia clássica (flagelação/martírio em contrapposto) e animais e, em segundo plano, aurorretrato e frades (Capucho calçado, Trino, Dominicano?)
Alegoria ao Terremoto de 1755, João Glama Strobërle (1708–1792).
Wikipédia

Dans plusieurs églises de Porto on trouva des tableaux de Glamma. On en voit notamment sur le maître-autel de S. Nicolas, à S. Jean novo et à Notre-Dame de la Victoire, ainsi qu'à Braga, dans les chapelles latérales de la cathédrale. Parmi ces tableaux, on doit citer surtout S. Jean-Baptiste, Ste. Barbe et S. Sébastien.

No adro da igreja, o frade Franciscano prega (o arrependimento?) e impõe o cruxifixo enquanto que o padre paramentado evoca o perdão e a compaixão de Deus para com as as vítimas, excepto um casal, as demais figuras são ténues, monocromáticas e quase sem contraste (os mortos?)
Alegoria ao Terremoto de 1755, João Glama Strobërle (1708–1792).
Wikipédia

Plus loin, dans la notice de Chiape, il est parlé en détail et avec éloge du tableau de Glama, représentant une scène du tremblement de terre de 1755. C'est celui dont je rends compte dans ma Lettre 18me, et qui appartient à M. François Van Zeller.


Iconografia clássica, um anjo com espada flamejante (chama divina) combate o anjo armado com adaga entre as nuvens de fumo provocadas pelos incêndios (o resgate das almas?)
Alegoria ao Terremoto de 1755, João Glama Strobërle (1708–1792).
Wikipédia

Le Patriarche dit que ce tableau a été payé aux enchères (à ce qu'il croit se rappeler) 6 contos, c'est-à-dire à peu près 36,000 fr. Je crois que la mémoire du Patriarche est en défaut; car, quoique ce tableau ne soit pas sans mérite, je trouve qu'il serait bien payé avec la dixième partie de cette somme. Voici ce que le possesseur de ce tableau, M. François Van Zeller, de Porto, m'a raconté :

O combate dos anjos (iconografia clássica) e a Cruz de Pau (com os pedintes?)
Alegoria ao Terremoto de 1755, João Glama Strobërle (1708–1792).
Wikipédia

"Après la mort de Glamma, ses héritiers en ont fait une loterie. Les billets ont été tous placés et ont produit 600,000 réis ( environ 3,900 fr. ). C'est M. Van Zeller qui, il y a à peu près 28 ans, a eu la bonne fortune de le gagner, et qui ensuite fit encore un présent à la famille. Glama, à ce que dit M. Van Zeller, estimait ce tableau le double de la somme que la loterie a produite."

Le musée de Porto possède de lui un portrait de moine que j'ai trouvé bien saisi et plein de caractère. (3)

A Cruz de Pau (já em pedra) após a quase imediata reedificação da igreja de Santa Catarina (o pedinte, representação clássica) numa tela do pintor barroco Joaquim Manuel Rocha, contemporâneo de João Glama
Incêndio da Fragata Graça Divina S. João Baptista, Joaquim Manuel Rocha (1727 - 1786), 1781.
Palácio do Correio Velho


(1) Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, volume v
(2) Augusto Vieira da Silva, Iconografia de Lisboa, Revista Municipal n.° 32, Câmara Municipal de Lisboa, 1947
(3) Dictionnaire historico-artistique du Portugal pour faire suite à l'ouvrage ayant pour titre : Les arts en Portugal

Leitura adicional:
The sketchbooks of a Disciple of Marco Benefial and Agostino Masucci: Apprenticeship and Invention in the Work of João Glama Ströberle (1708-92)", Getty Research Journal, n° 10 2018 p. 83-104
População não identificada relacionada com o Terramoto de Lisboa de 1755

sábado, 11 de janeiro de 2020

O pintor Joaquim Marques (1755-1822)

Nasceo em Lisboa pelo tempo do terremoto: depois dos primeiros estudos nas Aulas, applicou-se á Pintura na Fabrica das caixas, ramo de que era director José Francisco del Cusco. 

Paisagem com animais e figuras, Joaquim Marques.
Veritas Art Auctioneers

Depois de passar os 5 annos de aprendizagem, continuou mais dez, até o de 1784, a empregar-se alli mesmo como ajudante para pintar seges, bandejas, &c. 

Paisaje bucólico con familia de pastores descansando cerca de un río con puente, atribuido a Joaquim Marques.
Abalarte Subastas


Por aqueles tempos achava-se Pillement em Lisboa, e era seu visinho; fez amizade com elle, e entrou no empenho de o imitar nas paisagens, e naquelles agradáveis caprichos, a que elle chamava a sua botânica imaginaria, porque se compunhão de flores, e plantas ideaes: cousa que pareceo muito bonita em quanto era rara. 

A southern landscape with figures beside a stream by Joaquim Marques.
Sotheby's

O nosso Marques soube imitar tão bem aquellas galantarias, que todos os curiosos quizerão ter alguma cousa da sua mão, ou fosse em tectos, ou em paredes, ou em painéis, ou em carruagens; nem seria fácil fazer menção de todas: seu Mestre José Francisco, se valia delle quando tinha a fazer cousas de maior empenho. 

Pormenor da casa de jantar do Palacete Pombal, à maneira "pillementina".
Pintura realizada, eventualmente, por Joaquim Marques.
Helena Sofia Braga

José Francisco del Cusco era Napolitano, foi Pintor de esmalte, e pintou em Madrid, para Carlos 3.° alguma loiça esmaltada. Casualmente veio depois a Lisboa por 1763 hum certo LaCroix fabricante de pentes, tinha achado o modo de dissolver o copal, e queria estabelecer huma fabrica de caixas, fez sociedade em 66, ou 67, estabeleceo-se a fábrica aos Aciprestes, e teve vários discípulos, que forão:

Miguel Francisco del Cusco, filho de José Francisco, que succedeo a seu pae na administração da fábrica. Florindo, que morreo moço. João Lopes, Sebastião Clemente Schiapapietra, Manoel dos Santos Freitas, José Pereira, e Luiz António. 

Cena campestre descanso no caminho, Joaquim Marques, MNAA.
Rocha Madaíl

Manoel dos Santos Freitas foi hum dos de maior habilidade, e era bastante empregado; mas dando-lhe a mania para ser admirador enthusiasta dos Francezes que invadirão este Reino, esteve prezo, e na cadêa com as saúdes que fez a Napoleão, escandalizou de tal modo os mesmos facinorosos, que hum delles o ferio gravemente no rosto com a navalha que lhe hia deitar ao pescoço. Foi por tanto degradado para hum presidio da Africa.

Carregadores à beira-rio, e barqueiros, Joaquim Marques.
Rocha Madaíl

Luiz António pertence a huma familia oriunda da Ásia, chamada dos Chinas. Alexandre Metello tendo ido como Embaxador á China no tempo do Senhor D. João o 5.°,fez conhecimento em Macáo com Alexandre Geraldes, Chinez de Nação, e o induzio a que se baptizasse, e viesse com elle para Lisboa. Aqui teve nove filhos de ambos os sexos. António da Silva Geraldes, hum dos mais velhos, aprendeo a pintar com hum estrangeiro, e foi Mestre de seu filho João, e de seu filho Ambrósio José. Fez hum painel para a Ermida do Resgate, e pintava laminas de cobre para os devotos, teve discípulos que pintavão em vidro.

Grupo de sécias e peraltas preparando-se para um passeio no Tejo, Joaquim Marques.
Rocha Madaíl

Luiz António, que era neto de Alexandre Geraldes, e ficou sem pae em 1736, começou a estudar a Arte com hum certo Nicoláo Tolentino Botelho, homem de cor, que fora discípulo de seu tio António da Silva. Da escola do Nicoláo passou para a de José Francisco del Cusco na fábrica das caixas, e nella permaneceo constantemente apezar do partido que por intriga do dito LaCroix se levantou contra José Francisco, a favor de Monsieur Gerarde, novo Mestre de Desenho. Por estes annos veio para a fábrica mais outro Pintor estrangeiro, por appelido o Carobene, que era muito bom, mas esteve pouco tempo.

Pescadores à beira de um rio puxando as redes, Joaquim Marques, MNAA.
Rocha Madaíl

Manoel Caetano desejou, e conseguio ter inspecção sobre muitos Pintores dos que se empregavão em Queluz, e os poz, mesmo os bons, no predicamento de jornaleiros, mas em recompensa lhe fazia grandes interesses, contando ás vezes, segundo o excesso que fingia exigir, hum dia por 2, 3, 4, e mesmo 5 dias. Joaquim Marques que era como Vice-Inspector, e dirigia tudo, utilisava frequentemente 12, 16, 20 rs. cada dia. 

Alegoria ao príncipe-regente D. João, Joaquim Marques.
Rocha Madaíl

Nunca a Arte da Pintura foi tão mecânica, nem a d'Arquitectura tão liberal.

O Cais do Sodré em 1785, Joaquim Marques, MNAA.
Os africanos em Portugal

Morreo a 21 de Maio de 1822. Jaz na Igreja de S. José de Lisboa. (1)


(1) Cyrillo Volkmar Machado, Collecção de memorias... [ed. orig., 1823]

Leitura relacionada:
Rocha Madaíl, Documentação artística do pintor lisbonense Joaquim Marques (1755-1822), Revista Municipal n.° 46, 1950

Artigos relacionados:
O naufrágio do San Pedro de Alcántara
O Tejo de Jean-Baptiste Pillement

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Nicolas Delerive (1755-1818)

Pescadores fazendo comida na praia, effeito de luar. Pintado sobre cartão, escola franceza moderna [...] (1)

Nicolas Delerive (1755-1818), Paisagem, efeito de luar.
Imagem: J. Andrade

Descendia de antigos Hespanhoes, que se estabelecêrão em Lilla [Lille], aonde elle nasceo em 1755. Alli mesmo começou a estudar a Arte com Heinsius retratista Alemão, desenhando o nú na Academia; mas em 76 desejando melhores estudos sahio da Patria, e esteve dous annos, em Artois com o Conde de Neuville, cançou-se pouco julgando-se, dizia elle mesmo, bastante sábio, mas quando chegou á Paris fez de si bem diverso conceito. 

Tendo-se inclinado ao genero das batalhas, e ao das bambochatas, frequentou a escóla de Casanova, Pintor Italiano destes Objectos, e sahia ás praças, e aos campos a desenhar, e a pintar arvores, animaes, paizanos, etc: 

e Luiz Wateau Director da Academia de Lilla (Primo do famoso Antonio Wateau), o recebeu como Academico de merito em composições de combates: casou, e esteve alli até á revoluçâo de 1790 [1789].

Nicolas-Louis-Albert Delerive (Lille 1755-1818 Lisbon).
Imagem: invaluable

Em 92 veio a Lisboa donde 5 annos depois voltou a Hespanha, deixando cá a mulher; alli retratou em corpos inteiros, o Duque del Infantado, e a Marqueza de Santa Cruz, que pintava com magisterio, e protegia efficazmente os Artistas. Tornou a esta Côrte em 1800.

Delerive, A Feira das Bestas (à esquerda o Passeio Público, Conv. da Encarnação e S. Luís dos Franceses), 1792.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Retratou o Principe Regente em meio, e inteiro corpo. Tres annos depois, por intervenção de João Diogo de Barros, obteve huma pensão he 600$ réis para pintar no Picadeiro Regio todos os objectos de picaria [painéis da sanca].

Museu Nacional dos Coches no antigo Picadeiro Real. Aspecto geral da sanca, painéis com pinturas de Delerive.
Imagem: congeladas no tempo

Retratou ElRei em grande a cavallo, mas o seu talento proprio era para cousas pequenas. 

Em 1809 comprou na feira por quatro moedas huma taboa da Annunciação de Pintor Portuguez antigo, imitador de Gaspar Dias. Não se sabe como este quadro passou por hum Rafael, he certo porém que hum General Inglez lhe deo por elle o equivalente de 20$ cruzados.

Nicolas Delerive: The Comte de Noviron Governor of Lisbon; Mr Petrie Commissary of Accounts; Senhor Setar, Portugese Commissary; General Brigadier general Leighton.
Imagem: the saleroom

Morreo em Lisboa em Junho de 1818. (2) 

O quadro [de Nicolas Delerive] que retrata a Feira da Ladra na Praça da Alegria será então datável de entre 1809 (introdução da feira naquela localização) a 1818 (morte do pintor). Esta pintura pertenceu aoVisconde de Chanceleiros, passando depois para a propriedade do Conde dos Olivais e Penha Longa.

Lisboa, Feira da Ladra na Praça da Alegria, Nicolas Delarive, aspecto na década de 1810.
Imagem: MNAA

Foi adquirido pelo Museu Nacional de Arte Antiga em 1931 a E. H. Moser. Esta pintura dá-nos, no entanto, um precioso testemunho da fisionomia da Praça da Alegriado início do século XIX. Nela podemos ver as várias tipologias de edifícios que ali coabitavam.

Em primeiro lugar, temos um prédio pombalino, à esquerda no quadro, feito de acordo comos desenhos fornecidos pela Inspecção-geral do Plano para a Reedificação da Cidade e talcomo é referido pela documentação que revelámos. Os prédios pombalinos na Praça da Alegria foram projectados com lojas no rés-do-chão, habitação no primeiro piso e nas águas furtadas.

Cada prédio devia ter entre seis e sete janelas no piso superior. No prédio representado no quadro foi acrescentado um terceiro piso, permitido pela quedade Pombal (1777) e consequência perda de importância da Inspecção-geral do Plano para a Reedificação da Cidade.

Esta substituição das mansardas originais por um novo piso aconteceu também na Baixa na década de 1780 e início de 1790. É provável que a alteração neste prédio da Praça da Alegria fosse coincidente com esse período.

Nicolas Delerive, Mercado da Praça da Figueira.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A segunda tipologia que se encontra retratada no quadro de Nicolas Delerive são asbarracas construídas ilegalmente pelos lisboetas que não tinham posses para arrendar um andar. 

Estão fronteiras ao prédio pombalino e apresentam apenas um piso térreo, sendo construídas com madeiras de forma desorganizada e desconexa.

Finalmente, a terceira tipologia é aquela na qual se insere o Palácio Azul. Trata-se de umedifício projectado com um alçado mais monumental que o anónimo prédio pombalino, prevendo de origem um terceiro piso, com molduras de pedra decoradas e animação na fachada comparamentos recuados.

É um edifício que se assume como um palácio numa zona destinada àpequena burguesia, algo que ia contra os ditames de Pombal que impunha o nivelamento arquitectónico e funcional dos novos bairros lisboetas.

As igrejas, palácios e conventos sequisessem permanecer nos bairros pombalinos teriam de passar despercebidos pelo exterior. A própria cor da fachada, que lhe concedeu o nome pelo qual ficou conhecido (porque era casoúnico em Lisboa), também pretendia ser um manifesto contra o ocre obrigatório das casas pombalinas.

O Palácio Azul ainda hoje existe, estando nele instalada a Esquadra de Polícia da Praça daAlegria. Este imóvel foi construído em 1796 por D. Álvaro de Távora, conde de São Miguel, que casou com D. Luísa de Pilar e Noronha, filha dos condes dos Arcos.

Em 1832 foi quartel do Estado Maior General e no ano seguinte sede dos Conselhos da Guerra. Em 1840, o palácio pertencia ao Barão de Almeirim, pai de Anselmo Braamcamp Freire que aí nasceu em 1845. (2)

Nicolas Delerive, algumas cenas de actividades e género: o feirante, o peditório para a sopa dos presos, o sapateiro e o barbeiro.
Imagem: artnet & the saleroom

Nicolas Delerive salienta-se como um excelente retratista da sociedade e dos costumes lisboetas como comprovam uma série de pequenos quadros sobre madeira representando algumas actividades oficinais e profissões como por exemplo "a assadora de castanhas" (inv.675/1), "o padeiro" (inv.675/2), "o amolador" (inv.776), "o garrafeiro" (inv.777) e "o feirante do mondi nuovi" (inv.788). (3)

Nicolas Delerive, algumas cenas de actividades e género: a assadora de castanhas, a lanterna mágica, vendedor de vinho e frades num bordel.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa & the saleroom

Esta pintura [Embarque de D. João, Principe Regente de Portugal, para o Brasil em 27 Novembro 1807] está directamente relacionada com uma gravura de Francesco Bartolozzi (Arquivo Histórico-Militar), segundo desenho de Henri l' Evêque, intitulada "L' Embarquement du Prince Regent de Portugal au Quai de Belem, avec toute la Famille Royale, le 27 Novembre 1807 a 11 heures du Matin".

Nicolas Delarive, Embarque [partida, fuga] de D. João, Principe Regente de Portugal, para o Brasil em 27 Novembro 1807.
Imagem: Não foi no grito

Desta última conhecem-se tanto as provas originais como a composição final, posterior à alteração da chapa. As primeiras, não assinadas e legendadas em francês, fazem parte dos espólios da Biblioteca Nacional de Lisboa, Gabinete de Estudos Olisiponenses e Museu Nacional de Arte Antiga.

Embarque do principe regente de Portugal com toda a Familia Real em 27 de novembro às 11 horas da manhã [1807],
des. Henri L' Évêque (1769-1832), grav. Francesco Bartolozzi (1728-1815).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Passada a litografia e já com a legenda traduzida para português, existem vários exemplares desta gravura, assinadas por Constantino de Fontes e pelos indecifráveis "D." e "NC". Quanto à ligação entre a citada gravura e o quadro do M.N.C.  as opiniões divergem, havendo autores que preconizam a anterioridade da obra pictórica (Augusto Cardoso Pinto), enquanto outros - caso de S. Herstal - defendem a tese oposta, segundo a qual a pintura a óleo seria uma réplica fiel da obra de Bartolozzi.

S. A. R. o Principe Regente de Portugal e toda a Familia Real, embarcando p.a o Brazil no Cáes de Belem,
Henri L' Évêque
(1769-1832), Francesco Bartolozzi (1728-1815).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Este último avança ainda a hipótese de a tela atribuída a Nicolas Delerive ser um estudo preparatório para um outro quadro a óleo, anónimo, pertencente ao Palácio Itamaraty, Brasil.

Para além do quadro em apreço, subordinadas ao mesmo tema existem outras telas igualmente atribuídas ao pintor francês, que integram as colecções do Museu de Artes Decorativas da Fundação Ricardo do Espírito Santo e Silva, Lisboa, e do Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro, sendo esta uma mera ampliação da primeira. Cite-se ainda uma quarta reprodução anónima, de acentuado cariz popular, pertencente à colecção da José Mariano de Camargo Aranha. 

Departure of H.R.H. the Prince Regent of Portugal for the Brazils, Henry L Evêque, F. Bartollozzi.
(Campaigns of the British Army in Portugal, London, 1812)
Imagem: Wikipédia

A profusão de obras alusivas à partida da Família Real para o Brasil deve ser entendida à luz dos acontecimentos da época, quando a "fuga" era ainda entendida como uma excelente estratégia nacional pois, caso a metrópole fosse loteada pelo invasor francês, poderia sobreviver do outro lado do Atlântico.

Embarque da Família Real Portuguesa para o Brasil.jpg
Imagem: Estórias da História

Do Príncipe Regente — figura querida do povo, agora elevada à categoria de herói — e da restante Família, todos queriam guardar uma grata recordação em vésperas das invasões napoleónicas, marco efectivo da abertura de um novo século.

Nicolas Delerive, Retrato equestre de D. João VI, entre 1803 e 1807.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

O quadro [Embarque de D. João, Principe Regente de Portugal, para o Brasil em 27 Novembro 1807] do M.N.C. [Museu Nacional dos Coches] foi depositado no Museu das Janelas Verdes [Museu Nacional de Arte Antiga] em 1935, tendo sido devolvido ao local de proveniência em data incerta. (4)


(1) A dispersão dos quadros da herança do rei D. Fernando [ref. 90]
(2) Cirilo Volkmar Machado, Collecção de memórias, relativas às vidas dos pintores, e escultores, architetos, e gravadores portuguezes, e dos estrangeiros, que estiverão em Portugal..., pág. 224, Lisboa, Victorino Rodrigues da Silva, 1823
(3) João Miguel Simões, A Casa das Varandas da Praça da Alegria
(4) Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva
(5) MatrizNet



Referências:
Nicolas Delerive (google search)
Nicolas Delerive (1755-1818) também conhecido como [aka]: Nicolas-Louis-Albert Delerive, Nicolas Delérive, Nicoláo Luiz Alberto de La Riva, Delarive etc.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Lisboa Arte Digital 007

A Catástrofe do Terremoto do Primeiro de Novembro de 1755 impressionou consideravelmente a imaginação de muitos artistas estrangeiros, que gravaram grande número de estampas, alegóricas umas, e outras representando a cidade durante o cataclismo, as quais foram decalcadas sobre vistas panorâmicas já conhecidas, em que os diferentes artistas representaram os edifícios a desconjuntarem-se e a desmoronarem-se, com o fogo a irromper por todos os lados.

Lisboa 1755, fantasia de antes e durante o terremoto, Mateus Sautter.
Imagem: Histórias com História

Todas essas vistas dão bem a medida da fecunda imaginação e fantasia dos seus autores! (1)

Assassin's Creed Rogue - Lisbon Earthquake



(1) Vieira da Siva, Augusto, Iconografia de Lisboa, Revista Municipal n.° 32, Câmara Municipal de Lisboa, 1947

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Lisboa Arte Digital 006

Apenas dois desenhadores franceses, Paris e Pedegache, vieram a esta cidade copiar "algumas ruinas de Lisboa causadas pelo terremoto e pelo fogo do primeiro de Novembro do anno 1755", que foram gravadas em Paris por Jac. Ph. Le Bas em 1757.

Ruínas da Torre de S Roque ou Torre do Patriarca, Sé de Lisboa e Igreja de S. Paulo, Jacques-Philippe Le Bas, 1755.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

É uma colecção de 6 gravuras. Com o respectivo frontispício, que mostram bastante fantasiosamente o estado a que ficaram reduzidos seis edifícios da cidade por efeito daquele cataclismo. (1)

Ruínas da Praça da Patriarcal, Igreja de S. Nicolau e Ópera do Tejo, Jacques-Philippe Le Bas, 1755.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

How an Earthquake, Tsunami, and Firestorm All Hit Lisbon at Once on Smithsonian Channel



(1) Vieira da Siva, Augusto, Iconografia de Lisboa, Revista Municipal n.° 32, Câmara Municipal de Lisboa, 1947
 

domingo, 12 de junho de 2016

Panorâmica de Lisboa em 1763

Esta panorâmica, representando a capital lusitana oito anos após o terramoto de 1755, é dedicada a Carlos Alberto Guilherme de Colson, conselheiro da corte do Conde de Lippe [...]

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa,  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A cidade aqui representada estende-se desde a Torre do Bugio até ao Palácio do Patriarca [Palácio da Mitra] e evidencia as marcas de destruição deixadas pelo terramoto [...]

O seu autor, Bernardo de Caula, de origem francesa, ingressou no exército português, como primeiro-tenente da Companhia de Mineiros e Sapadores do Regimento de Artilharia de Lagos, em 7 de Novembro de 1763. Nesse ano terminara a campanha militar — que decorreu de 30 de Abril de 1762 a 10 de Fevereiro de 1763 — como consequência do Pacto de Família (celebrado entre os soberanos de França, Espanha e Nápoles, todos pertencentes à família Bourbon) que pretendia forçar Portugal a fechar os seus portos a navios ingleses.

Nesse conflito, o Exército português foi dirigido pelo Conde de Schaumbourg-Lippe, nomeado seu comandante-chefe com a patente de Marechal General, o qual permaneceria em Portugal até 20 de Setembro de 1764. (1) 

1 Torre de Bogio
2 Torre de sam Julian da Barra
3 Carcavellas
4 Forte S.to Amaro
105 Grande Caxope da Barra

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 1/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

  5 Forte S. João da Mayo
6 Villa e Condado de Oeyras
7 Paço d'Arcos
8 Forte de Caxias
9 Caxias e os Cartuchos

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 2/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 10 N.a S.a de Boa Viagem
11 Ponte de S.ta Catharina
12 Convento de S.ta Catharina
13 Forte arruinado de S. Jozé
14 Convento de Sam Jozé

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 3/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 15 Quinta de Dom Luiz de Portugal
16 Forte d'Argels
17 Gurita do Duque de Cadaval
18 Aldeia d'Argels
19 Quinta do Duque de Cadaval
20 Cazas do lettrado
21 Pedrooza
22 Cazas de Dona inés

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 4/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 23 Quinta velha do Conde S'Jago
— occupada pelo Conde R. de la Lippe
24 Caza da Saude
25 Torre de Belem
26 Ermida de S.o Jeronimo
27 Cazas do Marques de Tancos
28 Bom Socefso
29 Cazas do Conde Barão
30 Cazas do Marques de Marialva
31 Convento de Belem
32 Alculena
33 N.a S.ra do livramento
34 Paço Real de N.a S.ra da Ajuda
35 Calçada da Ajuda e Cazas do Conde D'oeyras

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 5/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 36 Cazas da Duqueza d'Abrantes
37 N.a S.ra da Boa Hora
38 Villa de Belem
39 quais de Belem e Paço Real
40 Quinta Real de Belem
41 Cazas de Descanfo da tapada
42 Cazas de Gaspar D de Saldanha
43 Cazas e Pateo D de Saldanha
44 Junqueira e q.ta da Condeça da Ega
45 Forte da Junqueira
46 Palacio do Cardeal Patriarcha
47 Sam Amaro
48 Quinta do Conde Daponte
49 N.a S.ra de Bona morte
50 Q.ta e Palacio das necefsidades

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 6/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 51 O Con.to do livramento
52 arrebaldo e Porta d'alcantara
53 Buenas Ayres
54 Pampouilla e S. F.a de Paula
55 Jannellas verdas
56 N.a S.ra da Lapaz
57 N.a S.ra dos Navegantes
58 As Tercenas B.ro do Mocambo
59 Fraiguezia de Santos
60 os Barbadinhos francezes
61 os apostolos Caza da aula
62 Bazilica Patriarchal
63 Bairro Alto e os Paulistas
64 Fraiguezia de Sta Catharina
65 Bairro da Bica Grande e as xagas
66 Cazas da India
67 quais de Boa vista
68 Fraiguezia de Sam Roque
69 N.a S.ra de Loretta dos italianos
70 Fraiguezia de N.a S.ra da anunciada
71 Palacio de Bragança
72 Fraiguezia do Corpus Satus
73 Convento da Trinidade

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 7/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 74 Convento S Francisco da Cidade
75 Convento dos Carmos
76 Ruinas e Convento do Spiritu Santo e do paço Real
77 Arcenal Novo
78 Rocio e Collegio S. Antão
79 Convento de N.a S.ra da Graça
80 Castel Sam George
81 Cazas do Marques de Tancos
82 Fraiguezia de Sta Moniqua
83 See velha e S antonio
84 Terreiro do Paço
85 Cazas da ribeira e Ruinas da misericodia
86 Ribeira do peixe
87 Convento de S. vicente De fora
88 Cazas do Marques de lavradio e Sta Ingracia
89 Alfandega
90 Aercenal da fondiçam
91 Campo Santa Clara
92 Quais dos Soldados
93 Convento dos barbadinhos italianos

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 8/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

94 Convento da S.ta appolonia
95 Convento de Santos novo
96 Porta do arrebaldo da madre de Deos
97 N.a S.ra da madre de Deos
98 Cazas do Conde de unhão
99 S Francisco de Xabregas
100 Convento dos Grelos
101 Convento do Beat antonio
102 Palacio do Patriarcha
103 Campo dos olivaes
104 Rio Tejo

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 9/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


(1) Biblioteca Nacional de Portugal