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domingo, 9 de junho de 2019

O regresso D. Miguel

Entre 1822-1823 dois elementos da família real, a rainha e o infante D. Miguel, tornaram-se símbolos da contra-revolução portuguesa. A mulher de D. João VI, Carlota Joaquina, transformara-se em heroína da imprensa contra-revolucionária em finais de 1822, pela sua recusa firme em jurar a Constituição e em abandonar o país, corporizando a oposição às Cortes e ao governo liberais.

Lisboa vista da Quinta da Torrinha Val Pereiro, gravura de William James Bennett sobre desenho de L. B. Parlgns.
Museu de Lisboa

D. Miguel, filho segundo do rei, que voltara com a família real em 1821, ao encabeçar o golpe da Vila-Francada em 1823 ficou sendo o referente principal da contra-revolução e, dado que D. Pedro, o primogénito, se colocara à testa do movimento de independência do Brasil [...]

Lissabon von der Quinta da Torrinha - Val de Pereiro. Umgebunge von Lissabon.
Aus der Geographischen Graviranstalt des Bibliographischen Instituts zu Hildburghausen, Amsterdam, Paris u. Philadelphia.
Author: Meyer, Joseph (1796-1856) Society for the Diffusion of Useful Knowledge (Great Britain), 1844.
  Cabral Moncada Leilões

O Terreiro do Paço, palco do “humilhante” desembarque de D. João VI e da demonstração do poder das Cortes, foi evitado por D. Miguel quando regressou em Fevereiro de 1828 [...]

Vista da Praça do Comércio, Henry L'Evêque.

Vindo de Viena de Áustria, com passagem por Paris e Londres [depois de assinados os protocolos de Viena entre Portugal, Inglaterra e Áustria sobre os poderes e as condições do seu regresso a Portugal e traçado o percurso da viagem, com paragens em Paris e em Londres e não por Espanha como pretendia, o Infante sai de Viena de Áustria no dia 6 de Dezembro de 1827. Chegado a Londres em 30 de Dezembro embarca rumo a Lisboa no dia 9 de Fevereiro de 1828. No final de Dezembro a sua próxima chegada era certa], D. Miguel chegou ao Tejo na sexta feira de 22 de Fevereiro de 1828, como lugar tenente e regente do Reino, por nomeação de D. Pedro IV, a bordo da fragata Pérola, a mesma que o levara para o exílio em 1824 na sequência da Abrilada.

A reconstrução do desembarque de D. Miguel em Lisboa, escrita por Oliveira Martins pouco mais de meio século após o acontecimento, ainda que ancorada em testemunhos e memórias dos que viveram ou ouviram contar esse dia, determinou em larga medida a memória e as leituras futuras desse momento. "Portugal inteiro esperava dele a redenção", uns porque que aguardavam que cumprisse as promessas feitas em Viena, outros porque acreditavam que se mantivesse fiel aos princípios expressos em 1824 [...]

"Foi em 22 de Fevereiro (1828) que D. Miguel desembarcou. O rio era um lençol de barcos e bandeiras, uma floresta de mastros, de velas brancas, como bandos de gaivotas voando nas vésperas de temporal. Havia um entusiasmo decidido, uma aclamação espontânea, um furor desenfreado. Repetiam-se os vivas ao rei absoluto, aos Silveiras, à rainha – sem rebuço, na cara dos moderados liberais, corridos da sua fraqueza, cônscios da triste figura que faziam.

Esperava-se que o infante desembarcasse no Terreiro do Paço, e o Senado da Câmara tinha preparado grinaldas e bandeiras; mas o povo todo já corria a Belém, porque se soubera que D. Miguel desembarcaria aí subindo pela Calçada direito ao Paço, à Ajuda. A Pérola, que o trouxera, deitara ferro em frente de Belém, e estavam já a bordo a rainha e as infantas e os ministros, e Clinton o general das tropas inglesas […]. O desembarque, o trajecto até o Paço foi um triunfo: um trovão de vivas, um desespero de gritos, um dilúvio de flores, bandeiras, colchas, foguetes em girândolas!"

[cf. Oliveira Martins, Portugal Contemporâneo, I vol., Lisboa, Guimarães Editores, 8ª ed., 1976 (1ª ed., 1881)]

Desembarque do Augustissimo Senhor D. Miguel no Caes de Belem, Mauricio José do Carmo Sendim.
Museo del Romanticism

Rei chegou, Rei chegou!
Em Belém desembarcou;
Na barraca não entrou
E o papel não assinou!

A Câmara dos Pares, na resposta ao discurso da Infanta Regente pronunciado na sessão de Abertura das Cortes no início de Janeiro de 1828, depois de reafirmar os sentimentos de lealdade à Casa de Bragança, declara que os seus membros "exultam de prazer com a lisonjeira esperança de que dentro em pouco verão entre si mais um Augusto Membro de tão Excelsa Família. A presença do Sereníssimo Senhor Infante D. Miguel, chamado à Regência destes Reinos, desarmará partidos e, reunindo em torno de si todos os Portugueses, lhes afiançará, com as insignes qualidades de Sua Alteza, um próspero futuro, cheio de paz, e felicidade".

"Às quatro horas da tarde “tinha já dado fundo a fragata Pérola, que o conduzia, e da qual saiu imediatamente para a galeota real que o esperava, saltando em terra no cais de Belém.

Suas augustas irmãs, que na mesma galeota se achavam, o receberam cheias de prazer, congratulando-se com ele depois de tão dilatada e penosa ausência; e, entrando na carruagem de estado, se dirigiram ao palácio chamado velho, por ser a actual habitação de sua majestade a imperatriz-rainha […] aonde sua alteza real a cumprimentou, demorando-se o tempo preciso para saciarem as recíprocas saudades […]. No fim desta entrevista passou o mesmo sereníssimo senhor a visitar sua augusta tia […] e depois se dirigiu a ocupar os quartos que lhe estavam preparados no palácio novo de Nossa Senhora da Ajuda, contíguo ao de sua augusta mãe. […]

A Ajuda vista das Necessidades, Charles Landseer, 1825.
Instituto Moreira Salles

A rapidez com que sua alteza real apareceu, entrou e foi para o palácio, não deu tempo nem a que as tropas se formassem, nem a que se pudessem praticar as cerimónias estabelecidas para a sua pomposa recepção. O Senado da Câmara, o juiz do povo e a sua casa dos vinte e quatro, a corte, o corpo diplomático, as autoridades e muitas outras pessoas de distinção, se dirigiram ao real palácio a cumprimentar o mesmo augusto senhor, que se dignou dar beija-mão real nessa ocasião" 

cf. Correio do Porto, n° extraordinário, 23 de Fevereiro de 1828

"[no dia 24 de fevereiro] não quis demorar-se em fazer patente a sua religião e pias intenções para com a mãe de Deus, debaixo da invocação de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, que se propôs visitar. Para esse fim se dirigiu desde o Palácio da Ajuda […] com suas augustas irmãs, à basílica de Santa Maria Maior [Sé], aonde assistiram ao soleníssimo Te Deum, que também ali se cantou, pelo fausto motivo da sua chegada a estes reinos [um importante significado político, prende-se com a ausência de Carlota Joaquina nesta cerimónia e nas que se lhe seguiram]" 

cf. Correio do Porto, Fevereiro de 1828

Juramento de fidelidade como regente, dois dias depois (26 de Fevereiro, pelo meio dia), a D. Pedro IV, D. Maria II e à Carta de acordo com o estabelecido em Viena entre as potências: “Juro fidelidade ao senhor D. Pedro IV e à senhora D. Maria II, legítimos reis de Portugal. […]. Juro igualmente […] observar e fazer observar a Constituição política da nação portuguesa e mais leis do país e prover ao bem geral da nação quanto em mim couber”. O juramento decorreu no palácio da Ajuda [...] A crer nos relatos de Lavradio e do visconde de Porchester, D. Miguel esteve pouco à vontade durante todo o acto e jurou em voz "sumamente baixa" [...]

nesse mesmo dia é nomeado um novo governo do qual faziam parte conhecidos inimigos do regime constitucional. D. Miguel terá dito, em resposta às objecções do embaixador inglês, que era composto "de verdadeiros homens de bem, dos quais nenhum pertencia ao partido exaltado e à revolução. Tenho toda a confiança neles, eles não sairão nunca!" [...]

nomeação de novos governadores militares entre 5 e 10 de Março. A medida foi completada em meados de Maio com a dissolução dos regimentos dos Voluntários Reais do Comércio de Lisboa, dos batalhões de caçadores e artilheiros e dos Voluntários de D Pedro e D Maria do Porto [...]

25 de Abril, dia do aniversário de Carlota Joaquina, tem lugar no Senado de Lisboa a célebre aclamação popular "Viva D. Miguel Rei Absoluto" [...] (1)

A 26 de outubro, anniversario natalício de D. Miguel, houve recita de gala em S. Carlos, com assistência do rei e das infantas. É a primeira vez, depois que chegara, que D. Miguel apparece em S. Carlos. Não lhe mereciam grande agrado os espectáculos públicos, solemnes e graves. 

Theatro de São Carlos, Legrand (1839-1847).

Sem embargo, S. Carlos funccionava. Estava ali trabalhando uma companhia de opera, que tinha como director de orchestra Xavier Mercadante. Cantavam-se Adriano na Syria, o Posto abandonado, etc. Representavam-se pantomimas: Moysés no Oréb, por exemplo. Entre as cantoras figuravam a Schiroli, e a Josephina Tuvo. 

É claro que só os realistas iam ao theatro. Os liberaes mais exaltados haviam emigrado; os moderados retraíam-se por cautella. E por mais moderado que fosse um liberal, não se atrevia a ir comprar um bilhete ao camaroteiro Grondona, que era um dos caceteiros miguelistas.

O rei não apparecia em S. Carlos, nem no theatro do Bairro Alto, que dava O surdo na estalagem, o Medico por força, a Izabel 1.a da Rússia. A falta de concorrência, devida aos sobresaltos políticos e ao abandono em que o rei deixava os theatros, apesar d'elle próprio gostar de representar, fez com que os melhores artistas nacionaes emigrassem para o Brazil. 

Para lá foram a Ludovina e alguns collegas, lodos de primeira plana. O Theodorico, para poder viver, metteu-se de gorra com D. Miguel, lisonjeava-o fazendo-se amante de toiros, e na praça do Salitre soltava piadas aos malhados. As infantas gostariam certamente de poder ir ao theatro, de exhibir as toilcttes talhadas pela Levaillant, que morava na rua de S. Francisco da Cidade, e pela Burnay, que tinha atelier na rua do Alecrim [Madame Burnay, avó do actual conde do mesmo titulo, annunciava-se como modista de sua alteza a sereníssima senhora infanta D. Maria d' Assumpção].

Lisbon ,Largo do Pelourinho, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, c. 1830.
Biblioteca Nacional de Portugal

Mas, decididamente, D. Miguel não queria constranger-se a ter que estar aprumado no camarote real durante algumas horas. Preferia aos espectáculos de gala as serenatas no Paço, que o não obrigavam á immobilidade de um autómato, para que não tinha génio. 

Lisbon from the chapel hill of Nossa Senhora do Monte, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Biblioteca Nacional de Portugal

Em 29 de setembro, dia do santo do seu nome, houve beijamâo na Ajuda, e á noite serenata nas Necessidades. A 9 de novembro desse anno, D. Miguel fazia trotar as mulas que puxavam o seu carrinho de passeio em caminho de Caxias. Acompanhavam-n'o as duas irmãs. As mulas espantaram-se, o carrinho voltou-se. 

O rei fracturou o fémur da perna direita, D. Izabel Maria ficou ferida na região frontal, e D. Maria da Assumpção contusa na coixa esquerda. Foi D. Miguel conduzido em maca para Queluz.

Retrato de D. Miguel I, Johann Ender, Palácio Nacional de Queluz.
  Portugal Virtual

Assistiram-lhe durante a enfermidade o seu amigo barão de Queluz, e os outros cirurgiões da real camara, Jacintho José Vieira, António Joaquim Farto e Manuel Lopes de Carvalho. As infantas restabeleceram-se de pressa, mas o concerto da real perna foi demorado.

Durante o tratamento, a corte cahiu em maior monotonia. Interromperam-se as toiradas e as caçadas no Alfeite ou em Mafra. Não havia divertimento nenhum, o rei estava de perninha, como dizem os lisboetas. Começou então uma longa serie de Te-Deums pela saúde do rei, tantos, pouco mais ou menos, como tinha havido pela sua acclamação. Dois dias antes do Natal, o rei poude levantar-se. Os médicos assistentes deram-lhe alta. Os miguelistas cantavam:

D. Miguel é bonito, 
é bonito e bem feito. 
Quebrou as pernas, 
Ficou sem defeito! (2)

D. Miguel I e suas irmãs dando graças a Nossa Senhora da Conceição da Rocha, 29 de janeiro de 1829.
Cabral Moncada Leilões
*
*     *

Em julho de 1833, a expedição commandada pelo conde de Villa Flor, depois duque da Terceira, desembarca no Algarve, a esquadra liberal, sob as ordens de Napier, destroça no cabo de S. Vicente a esquadra miguelista, e Villa Flor, marchando sobre Lisboa, vai apossar-se da capital.

O duque do. Cadaval, sacrificando a sua opinião ao conselho dos chefes militares, aterrados, não oppozera resistência, abandonara Lisboa, como já se tinha abandonado o Porto um anno antes, retirara para o Campo Grande, marchara para Coimbra, a procurar apoio nas forças que D. Miguel, com Bourmont, trouxera do norte. 

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia

Á approximação do exercito de D. Pedro, o terror domina em Lisboa o espirito de todos os miguelistas, que se sentem desamparados com a retirada do duque do Cadaval. Verdadeiramente desorientados, reunem-se no Rocio, na noite de 23 para 24 de julho, e, no meio de uma grande confusão de terror, resolvem fugir para onde podem, especialmente para Santarém, n'um êxodo precipitado, em que o cansaço, o medo e a colera-morbus os vão dizimando. (3)


(1) Maria Alexandre Lousada, A contra-revolução e os lugares da luta política. Lisboa em 1828.
(2) Alberto Pimentel, A ultima côrte do absolutismo em Portugal, Lisboa, Liv. Férin, 1893
(3) Idem

Mais informação:
Documentos com referência a Miguel I (1802-1866), rei de Portugal

Leitura relacionada:
Os reis da casa de Braganca na Decadencia e na Queda da Monarquia Portuguesa no Ultimo Seculo, 1810-1910
Miguel I, King of Portugal, 1802-1866 (Internet Archive)
Histórias com História
Nossa Senhora da Rocha de Carnaxide: uma devoção do miguelismo

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Maria da Glória, jovem rainha em Inglaterra (1828-1829)

A impressão que este inesperado acontecimento ocasionou na capital da Gran-Bretanha foi de uma ordem tal, que o proprio duque de Wellington e lord Beresford, tendo ambos elles commandado tropas portuguezas durante a guerra da península, e vencendo ambos elles, como taes, avultadas pensões, pagas pelo tesouro portuguez, não hesitaram em ir lambem n'esta solemne ocasião comprimentar a jovem rainha D. Maria II em grande uniforme, e ornados com as differentes ordens militares de Portugal. 

D. Maria II, rainha de Portugal durante o seu exílio em Londres (1826 1828-1829), por Thomas Lawrence (detalhe).
A pintura, no verso datada de 1827 [?], foi encomendada por George IV e representa a jovem rainha em 1829, .
Royal Collection Trust

Ao duque disse ella muito graciosamente: "sei que vós n'outro tempo salvastes meu avô, espero portanto que tambem agora salvareis sua neta". 

Majesty & Grace, William Heath, 1828.
The British Museum

Baldado empenho; o duque durante todo o seu ministerio só cuidou em proteger quanto pôde os interesses de D. Miguel, cuja usurpação teve para elle mais attractivos, por ser mais conforme com a política, que se propozera abraçar durante a sua gerencia ministerial. 

Retrato do rei D. Miguel, Johann Nepomuk Ender.
Cabral Moncada Leilões

George IV achava-se muito incommodado, quando a rainha chegou a Inglaterra, e só em 22 de dezembro pelas duas horas da tarde a pôde receber no seu palacio de Windsor Castle, onde não poupou honras, nem distincções, feitas á sua jovem hospeda, como se já estivesse reinando em Portugal. 

The promenade or a sketch for Windsor, William Heath, 1827-1829.
The British Museum

Ornado lambem com as ordens militares portuguezas, elle a veio esperar ao alto da escadaria, por não poder descer ao fundo d'ella, em consequencia dos seus padecimentos, e ali lhe offerecen o braço, e a conduziu depois á sala principal, onde a assentou n'um canapé ao seu lado, e lhe pediu licença para que as outras senhoras podassem fazer o mesmo, tendo-lho antes disso apresentado as pessoas da sua familia e a côrte.

O brinde que lhe dirigiu ao "toast", durante o almoço que lhe offereceu, foi: "á minha joven amiga e amada, a rainha de Portugal". 

The feast near eateon or master George and his little visitor, William Heath, 1827-1829.
The British Museum

George IV não teve duvida de exprimir os puros e fervorosos votos que fazia, tanto por ella, como pelo triumpho da legitimidade portugueza.

The high and mighty queen recieving an address from the most loyal subjects in the world, 1827-1829.
The British Museum

Não admira pois que no meio de uma tal recepção a chegada da rainha a Inglaterra fosse tida como um feliz pressagio para o triumpho da causa liberal e que os emigrados do deposito de Plymouth manifestassem por todos os modos ao seu alcance o jubilo que lhes causara similhante chegada. (1)


(1) Luz Soriano, História da Guerra Civil... Terceira Ephoca Tomo III Parte I.

domingo, 19 de junho de 2016

O veterano da bandeira

I


Ouvindo o troar da artilheria, que annuncia á família liberal uma grande festa; e vendo o desfilar do cortejo cívico, que nos aviva um notável facto da historia contemporanea, inscripto com letras de oiro nos fastos nacionaes, notamos uma falta: entre aquelles beneméritos, cujos cabellos encaneceram no serviço da pátria e da liberdade;
Este capitulo, ou trecho, foi escripto para o Diário Illustrado, de julho 1879, e agora sáe com algumas notas que para ahi não pude mandar.
entre aquelles cidadães, cujas virtudes e cuja dedicação patriótica, foram acrisoladas por infinitas provações; entre aquelles semblantes requeimados pelas insolações em numerosas marchas, pelas descargas de cem refregas e combates;

entre aquelles veteranos, exemplares de abnegação e heroismo; entre as figuras venerandas d'aquelle cortejo sympathico, que milhares dos do povo rodeiam com sinceridade e enthusiasmo, pelo que vale e pelo que symbolisa; entre aquelles homens falta um:

António Silva, o veterano da liberdade, Diário Illustrado, 24 de julho 1879.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

É o que a gravura do Diario Illustrado representa hoje, e do qual me coube a honra n'estas paginas, a quem tem dado tamanho lustre escriptores esclarecidos de deixar aqui algumas notas biográficas;

É o de um veterano, popular, que soube aliar o respeito e a amisade dos grandes e humildes, porque elle era grande pelo seu coração e pela sua inexcedível bravura; e humilde pelo seu berço e pelo seu viver chão, simples, patriachal;

É, emfim, o Silva das Barbas brancas, como o cognominava o povo, quando elle em dias duplices lançava para fóra do fino peitilho da camisa aquellas alvissimas barbas, que lhe davam o aspecto dos homens bons e de bom conselho de tempos áureos; é o Veterano da Bandeira, como depois o appellidaram quando foram inaugurados os festejos do 24 de julho.
Esta commemoração deixou de fazer-se por circumstancias politicas, que não vem para aqui referirem-se; mas a principal, no meu entender, foi a do esmorecimento na lembrança de factos, que não deviam esquecer para lição dos vindouros (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, op. cit.).

Ao comtemplar o seu retrato parece-me ainda vél-o: sadio, rosado, alegre como um moço, risonho como se o sol d'aquelle memorável dia fosse o sol do melhor dia das suas primaveras; direito como um recruta, não vergando ao peso dos annos, mas erguendo o rosto com certo desvanecimento para a bandeira, que era para elle, — e para todos nós, filhos da grande familia liberal, — a sua idéa constante, o seu symbolo, a religião da liberdade!


II


Pensava-se em outro tempo, e divulgava-se que as biografias só podiam fazer-se dos grandes embora elles não tivessem a recomendalos senão os pergaminhos e os serviços dos antepassados; e isto acreditava-se, tanto mais quanto era certoque a lisonja cortezã o traduzia em facto;

pois as idéas modernas transformaram o uso, e se se deu aos grandes, que realmente o são, por suas virtudes e qualidades, o preito sincero e condigno do respeito e admiração, tambem não se pode hoje regatear se aos humildes, que se levantaram a maior altura na cooperação para a victoria dos nobres princípios o elogio que lhes cabe pelas suas nobres acções e o lugar que lhes pertence no pantheon glorioso dos que se distinguiram em prol da pátria.

Não tiremos um desses logares a Antonio da Silva.

O venerando ancião nasceu aos 31 de julho de 1801 no logar de Adão Lobo, termo da villa do Cadaval; e veiu para Lisboa fugido com a sua familia, e a pé, não tendo ainda 7 annos de edade, quando Junot invadiu Portugal com as forças do seu commando.

Percorrendo a pé as doze léguas que o separavam da capital, e vendo já afflicta a familia porque fugia da sua terra sem recursos, e sem pão, era descer o primeiro degrau na escala da adversidade.

Chegando a Lisboa, a familia Silva teve que separar-se do seu pequeno Antonio e entregal-o ao cuidado das pessoas, que o protegeram na mocidade.

Discorreram, portanto, os primeiros annos da sua estada na capital sem incidente notavel, embora conhecessem os amigos que António da Silva roubava algumas horas ao trabalho e ao descanso para se relacionar com os homens de esphera mais elevada e tomar conhecimento das occorrencias politicas, enthusiasmando-se com o alvorecer das idéas liberaes que trouxeram, na proeminencia dos factos contemporaneos, Fernandes Thomaz, Ferreira Borges, fr. Francisco de S. Luiz e outros beneméritos, e pelos esforços destes inclitos varões, o 24 de agosto de 1820 [pronunciamento militar do Porto, que levou à formação da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino presidida pelo brigadeiro António da Silveira Pinto da Fonseca, e ao inicio do periodo conhecido como vintismo].

Porém, no meio dos seus enthusiasmos, António da Silva pagava o tributo da mocidade prendendo-se n'uns sinceros amores a uma joven de apreciáveis dotes do coração, D. Joanna Francisca da Costa e Silva, filha de um bom homem de Lamego, Manuel da Costa Telles Almas.

Em 1821 encontramol-o já casado, mas interrompida a lua de mel por uma eventualidade da politica, que o tirava dos braços affectuosissimos da esposa para o arremessar ás rudes fainas da caserna.

Tinham n'o intimado para sentar praça, e elle foi alistar-se no regimento de milícias de Lisboa Occidental [sic, i.e. Oriental (n. do e.).], mais conhecidas por milicias de D. Jorge, ficando primeiramente na 3.a companhia d'esse corpo, e depois na de granadeiros.

A agitação revolucionaria da época; a convivência com alguns homens que acreditavam religiosamente que o 24 de agosto vingaria contra as dificuldades oppostas pelo partido contrario; a vida de quartel, que dá novos hábitos, e altera essencialmente as condições da existência caseira e patriachal, — abriram-lhe um período que entregou Antonio da Silva ás oscilações e aos abysmos da politica.


III


É geralmente sabido, que os dois primeiros quarteis d'este século foram povoados de successos que davam muitos volumes e que pela maior parte estão inéditos.

Ainda mais: muitos acontecimentos passaram sem registo particular, nem publico, e seria hoje extremamente difficil reunir todas as notas para dar inteiro relevo ás paginas da historia contemporanea n'uma serie, pelo assim dizer, ininterrupta de incidentes, de acção e reacção, de estímulos, odios, perseguições, vinganças, que a liberdade protegia em seu interesse, mas offuscando o seu brilho;

e que ao mesmo tempo a liberdade repellia para tornar mais vivida a sua luz; uma época de combates, de lutas terríveis e homericas, que parecia ser impossível empreenderem-se se milhares de testemunhos não o confirmassem:

porque a 1820 succedia 1824 [Vilafrancada, insurreição liderada pelo Infante D. Miguel, em 27 de maio de 1824]; a esta data seguia-se 1828 [inicio do reinado de D. Miguel, legitimado pelas Cortes, em 11 de julho de 1828]; depois vinha 1829 [revolta cartista em Lisboa, em 9 de Janeiro de 1829, comandada pelo brigadeiro Moreira Freire, em 6 de março os revoltosos são enforcados no Cais do Sodré] e 1834 [assinatura da Convenção de Évora Monte, diploma assinado entre liberais e miguelistas, em 26 de Maio de 1834, que pôs termo à Guerra Civil Portuguesa (1828 - 1834)]; depois 1836 [revolução de Setembro, golpe de estado ocorrido em Portugal a 9 de Setembro de 1836, quando chegaram a Lisboa os deputados oposicionistas do norte; Belenzada, contra-golpe de inspiração cartista, que ocorreu na noite de 4 de novembro de 1836], 1837 [revolta dos Marechais, 12 de julho de 1837, sublevação militar fracassada contra o governo de Sá da Bandeira, de inspiração cartista contra o setembrismo, encabeçada pelos duque da Terceira, e duque de Saldanha], 1838 [revoltas de março. Juramento da nova Constituição pela Rainha em 4 de abril de 1838], 1840 [tumultos em Lisboa, no Largo da Estrela, em 11 de agosto de 1840, data do aniversário da vitória liberal na ilha Terceira], 1844 [pronunciamento militar setembrista, em 4 de fevereiro de 1844, em Torres Novas], 1846 [revolução da Maria da Fonte, sublevação popular no Minho em 15 de abril de 1946. Guerra Civil da Patuleia, iniciada a 9 de outubro e finda em 29 de junho de 1847, com a assinatura da convenção do Gramido].

Antonio da Silva, pelo seu caracter, pela sua actividade, pelo seu patriotismo que o convencerade que a felicidade para a sua nação só viria pela liberdade, achou se repetidas vezes com risco de vida própria e oi maior sacrifício da sua familia, envolvido no mais aceso das contendas dos partidos, pendendo sempre o seu trabalho e os seus esforços para o mais avançado.

Assim, na Abrilada, na proclamação do infante D. Miguel, na conspiração do brigadeiro da brigada de marinha, na revolução de Setembro, na revolta dos marechaes, na desastrada lucta da guarda nacional, na sedição de Miguel Augusto, na sublevação de Almeida, na Maria da Fonte, o veterano Silva teve o seu papel, que desempenhou como um heroe, principalmente no espantoso periodo de 1828 a 1834.

Medalha das Campanhas da Liberdade
Imagem: Wikipédia

Na conspiração de 1829, conhecida pela do brigadeiro da brigada de marinha, Antonio da Silva foi preso com outros.

N'uma occasião em que iam a perguntas, com uma forte escolta de armas carregadas, e acompanhados pelo coronel das milícias Andrade Corvo, passou D. Miguel a cavallo e seguido do piquete que o acompanhava nas suas correrias pela capital. Um dos presos, voltando-se para os companheiros, disse-lhes:

— Ahi vae o rei! Curvemo-nos deante d'elle para alcançarmos o perdão!
Antonio da Silva, vivo e prompto nas respostas, acudiu:
— Quem falla ahi em perdão? Só os criminosos é que o imploram!

Os presos calaram e a escolta seguiu o seu destino.

O coronel Corvo, que estimava muito o nosso veterano, apesar de o conhecer exaltado, tambem fingiu que não ouvira aquellas phrases, e não ocorreu outra novidade.


IV


Antonio da Silva, viveu, no Bairro Alte, em tres casas: na rua dos Calafates, onde hoje vemos a farmácia do sr. Oliveira Abreu; na travessa da Queimada, n'um prédio que em os n.os 42 e 43; e na rua da Barroca, n'um rez-de chaussée que tem o n.° 22.

O bairro Alto, de 1828 a 1833, se foi, como ainda sabem numerosas pessoas, foco de conspiradores e conspirações; foi igualmente a estação de homens, beleguins [agente policial ou judicial, esbirro] e espiões, que o povo temia e detestava.

Como centro de reunião de liberaes eram aqui apontadas, especialmente, dois locaes: o palácio do nobre marques de Ficalho, que fez todo o mal que poude ás insólitas pretensões dos partidários do infante D. Miguel, para que trumphasse a causa justa dos amigos dedicados do imperador D. Pedro IV e de sua augusta filha a sr.a D. Maria II; e a humilde casa de Antonio da Silva.

Os espiões titulares, segundo a voz do povo, não tiravam os olhos d'essas casas, e parecia que se reproduziam para as vigiar. Ás esquinas das ruas da Barroca, do Carvalho e dos Caetanos, era certo encontrar-se a cada instante ou o Manuel Quadrilheiro; ou o Matta Espião, de quem a populaça se vingou no dia 24 de julho; ou o Senhor dos Passos de Argel, ou o Segeiro, da rua dos Calafates, ou o Louceiro, do Loreto, e outros sujeitos, que tinham fama n'essa epoca pelas suas proezas; e tambem, sem duvida, com taes olheiros e espiões, não faltou na intendência da policia a nota dos passos, hora a hora, das pessoas suspeitas, o que por então nada tinha de extraordinario.

A pobre casa da rua da Barroca era, á noite, como um formigueiro de liberaes e conspiradores. Ali recebiam a Chronica constitucional, do Porto que um lia em voz alta para os demais ouvirem;

ali recebiam noticias e papeis avulsos clandestinos; ali ajustavam planos de ataque e defeza contra a vigilância da policia; ali, emfim, faziam contratos sobre a deserções para o Porto.

Entre as damas, que auxiliavam a causa liberal, figurava em primeira linha a sr.a D. Joaquina de Lencastre, depois viscondessa do Roguengo e condessa de Avilez celebrada esposa do general Jorge de Avilez. Morava na Junqueira. Todos sabiam que ninguem a dominava nas suas convicções, que ninguem podia excedel-a nos sentimentos que a impeliam para trabalhar em prol do restabelecimento do throno da sra.a D. Maria II.

Estava ella ao corrente do que se fazia em Lisboa para contrariar o governo do infante D. Miguel, a augmentar as forças dos defensores do Porto. Mandou por isso chamar o Antonio da Silva e disse-lhe:

— Conto com o sr. Silva.
— Para que, minha senhora? Valho pouco...
— Pelo contrario, sei que uma pessoa póde fiar-se na sua lealdade e no seu braço?
— Para a defender, sim, minha senhora, o meu braço valerá alguma cousa.
— Não preciso agora de defeza sr. Silva; tenho o meu coração que me resguarda de perigos; mas para defendermos uma causa...
— Dirá v. ex.a.
— É o meu trabalho todos os dias Encontramo-nos nas aspirações.
— Bem o sabia.
— Que devo fazer?
— Vou fornecer-lhe algum dinheiro. Com elle o sr. Silva alliciará soldados, paisanos, todos que queiram prestar se a ir socorrer os nossos amigos no Porto. — Prompto; corro já a executar as suas ordens, ainda que me custe a vida.
— Obrigada! Obrigada!

Dentro de alguns dias, António da Silva tinha conseguido fazer sair de Lisboa para o cerco do Porto não menos de 170 homens, alguns mantimentos, armas e roupas.

O seu processo era simples e arriscadissimo. Disfarçava-se, ora de um modo, ora de outro; e ás vezes com trajes femininos, capote e lenço, e assim acompanhava os que partiam de Lisboa até ás estancias [armazéns, ancoradouros] da Boa Vista, aproveitando as saídas d'ellas para a praia, ou para os boqueirões [aberturas, canais], onde embarcava aquelles homens em escaleres inglezes, que protegiam a fuga para bordo dos seus navios.

A estes actos audaciosos juntou elle um,, que fez com que os espias do Bairro alto, que umas vezes semostravam benévolos para com Antonio da Silva, outras o temiam, e outras precia quererem perseguil-o, fitassem a sua cabeça levantada e orgulhosa como ornamentação obrigada das forças que se erguiam para o martyrio dos liberaes.

Tinham-lhe nascido no lar, açoutado por variadas comoções, dois gemeos. A esposa mostrou-lh'os dizendo:

— Um menino e uma menina.
— Ainda bem! Terá um o nome de Pedro de Alcantara e a outra o de Maria da Gloria; e se não posso rogar ao imperador para ser meu compadre, elle saberá como baptisei estes filhos.

Toda a freguesia da Encarnação fallou deste facto. O baptisado effectuou-se na hora mais adiantada do dia. As criancinhas iam vestidas de azul e branco. Trinta convidados de gala, com laços azues e tochas acesas. Era de dar nas vistas. Foi uma cousa inacreditável. Não se podia exceder em temoridade.

N'esse dia os quadrilheiros deixaram-n'o em paz; mas em melhor occasião, assaltaram-lhe a casa, e se elle senão lembrasse de fugir para a de um vizinho, e, esconder-se no panno da chaminé, não teria saido de novo incólume das suas redes. Protegia-o boa estrella!

Na vida do nosso veterano deparam-se-me muitas d'essas acções de ousadia e temeridade; e tanto que nunca lhes faltaram os documentos mais honrosos de officiaes e superiores, durante o tempo que serviu no exercito, e na alfandega, onde esteve por muitos annos e onde se reformou.


V


Os veteranos, seus companheiros, deviam-lhe serviços de valia sendo os mais importantes a fundação da associação dos veteranos da liberdade, de que elle foi thesoureiro;

e as instancias, junto de velhos amigos seus nas duas casas do parlamento, para que o estado tirasse da miséria a que estavam condemnados alguns desses benemeritos, que derramaram o seu sangue em defensa dos princípios liberaes.

António da Silva, o Veterano da Bandeira, falleceu com 78 annos de edade em junho d'este anno, tendo ao lado seus três filhos, que lhe restavam de quatorze, e que o honravam, os srs. Francisco Emygdio da Silva , primeiro tachygrapho da camara dos deputados;
Já falleceu. Era um santo homem. Estimavam-no todos no quadro tachygraphico e respeitavam-no porque sabia muito bem da sua profissão. O que muitos ignoravam era que elle, filho devotado e obediente, educado sem alardos e com a sobriedade de um portuguez de lei, depois de emancipado e depois de exercer sem faltas e com brilhantismo a sua profissão, em que adquirira um primeiro logar, quando recebia o ordenado ia religiosamente entregá-lo aos paes para que o applicassem como entendessem nas despezas geraes da casa, reservando-lhe apenas o de que elle necessitasse para gastar com a renovação do seu vestuário. Prescindia de commodos e de modas. Exemplar filho! (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem)

Antonio Avelino Amaro da Silva, antigo capitão de navios e engenheiro civil;
Esteve no Brasil e ve-io de lá com alguns meios ganhos em serviço de engenharia, sobretudo em medição de terrenos no interior da província do Rio de Janeiro, onde se relacionira com alguns brasileiros de representação, como o fallecido Joaquim Saldanha Marinho. Também já é fallecido [falecera em 1889]. Aqui viveu modestamente e de vez em quando escrevia alguma cousa para umas memorias intimas, que não chegou a publicar. Deu ao prelo um romance histórico baseado em factos das campanhas da liberdade. Descreve com acerto e em boa linguagem o que passou, no concelho de Almada, quando as limitadas forças liberaes trouxeram á ponta de baioneta a tropa do commando de Telles Jordão até Cacilhas, onde foi morto esse famigerado official miguelista, ao qual não faltava bravura e crueza. Este trabalho foi muito bem recebido e elogiado. (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

e Christiano Gerardo da Silva , professor de musica e distincto artista.
Foi um violinista distincto e por vezes regeu orchestras em salões particulares e theatros. Está retirado da vida artistica. É proprietário em Lisboa. Vive, edoso e doente. (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

Tinha a medalha com o algarismo 5 das campanhas da liberdade e a junta do Porto, por um acto de bravura, concedera-lhe a Torre e Espada, em 1846.

Medalha da Torre e Espada
Imagem: Presidência da República Portuguesa

Comecei a conhecer e estimar este bom ancião por 1849 ou 1850. Preparava-se a regeneração. Elle auxiliava, como podia, os que conspiravam em Lisboa desde os desastres da Maria da Fonte, e exclamava:

— Se os Cabraes matam a liberdade, expulsemos os Cabraes!

Dias antes de morrer, visitei-o e abracei-o. A sua despedida foi:

— Aproxima-se o dia 24 de julho. Não vê o meu estado?... Tenho os pés na cova. O meu desejo era, sequer uma vez, poder abraçar a minha bandeira...

Bandeira nacional de Portugal de 1830 a 1910.
Bandeira usada pelos Liberais.
Imagem: Wikipédia

Parou como se estivesse cansado; mas o cérebro d'elle funcionava regularmente. Uma lagrima perdeu-se-lhe por entre as rugas do rosto. E acrescentou:

— Paciencia! Termina a minha peregrinação. Ahi ficam os meus filhos. Amei-os tanto como a liberdade...

E dizia a verdade.
O António da Silva, pela sua dedicação á causa liberal, pelo respeito á memoria do imperador e rei D. Pedro IV e do seu dilecto general Sá da Bandeira, que tantos serviços prestou com grandíssimo sacrifício do seu sangue e dos seus haveres para a consolidação do throno da rainha D. Maria II, nao se esquecera nunca dos seus companheiros, que se oppuzeram com brio e tenacidade aos desvarios e oppressões ignominiosas da usurpação miguelina, e auxiliava, dentro das suas pequenas forças monetárias, para lhes minorar a miséria.

Foi um dos que mais poderosamente contribuíram para a creação da Associação dos Veteranos da Liberdade.

Refere Simão José da Luz, na sua interessantíssima biographía do ínclito Marquez de Sá da Bandeira, quando descreve no tomo nas exéquias solemnes celebradas na parochial egreja da Encarnação, em suffragio da alma desse que foi valente e sábio militar, que á porta da mesma egreja estava um respeitável veterano a pedir que o auxiliassem na obra de caridade a favor dos companheiros daquelle general que, por doença ou indigência, nào podiam comparecer naquelle piedoso acto.

O Marquez fallecera em Lisboa no dia 7 de janeiro 1876 e o cadáver foi transportado para o cemitério de Santarém, com as honras devidas, onde ficou em campa, com o epitaphio determinado em nota testamentária do illustre finado.

As exéquias solemnes realisaram-se no dia 21 de fevereiro do citado anno, proferindo a oração fúnebre o afamado orador sagrado, rev. cónego da Sé de Braga, Alves Matheus. Na pag. 509, do mencionado tomo II, lê-se esta singela nota: "Á porta do templo pedia esmola para os pobres soldados da liberdade o fundador da Associação dos Veteranos, o sr. António da Silva, que ainda pôde realizar a quantia de 15$500 réis." (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

23 de julho, 1879.

Brito Aranha. (1)



(1) Pedro Wenceslau de Brito Aranha, Factos e homens do meu tempo, memórias de um jornalista, Lisboa, A.M. Pereira, 1908, 1042 págs.