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sábado, 18 de novembro de 2017

Lisboa c. 1700, no traço de Jacques Martin por Luís Diferr

Quando era adolescente e lia, "absolutamente estupefacto", as aventuras de Alix desenhadas por Jacques Martin, o português Luís Diferr estava longe de imaginar que um dia, no futuro, ia assinar um álbum de uma série do universo do grande autor da banda desenhada franco-belga.

Rua Nova dos Mercadores (detalhe), As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

E ver o seu nome na capa, ao lado do do criador de álbuns clássicos como O Último Espartano ou As Legiões Perdidas, e de personagens como Alix, Lefranc, Jhen ou Loïs [...]

Capa do albúm, Portugal, Luís Diferr, edições ASA, 2010.
Imagem: Kuentro

O autor português recordou ao DN como tudo começou. "Eu encontrei-me o Jacques Martin no Festival de Banda Desenhada da Amadora em Outubro de 2002, estavam lá também o Rafael Morales, desenhador, e o editor, o Jimmy Van den Hautte. Já conhecia o Martin de um Salão da Sobreda e estive a falar com o Jimmy". 

O terraço da Torre de Belém ou Forte de S. Vicente, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Luís Diferr (no Blogger)

Mostrei-lhe o último álbum que fiz, Os Deuses de Altair, e umas fotocópias de outros trabalhos, e ele propôs-me fazer este álbum do Loïs. Na altura não percebi o que era, porque ainda não existia a série, que se passa na época do Luís XIV. Algum tempo depois, o Jimmy mandou-me algumas fotocópias do primeiro álbum, que estava em produção, eu enviei-lhe uma proposta e um desenho de base, que foi o dos Jerónimos, e foi assim que tudo arrancou".

Praia do Restelo e Mosteiro dos Jerónimos, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

Começaram então seis anos de "trabalho gigantesco", como conta Luís Diferr.

Aqueduto das Águas Livres (iniciado em 1731) sobre a Ribeira de Alcântara, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

"Quando comecei a fazer o álbum tinha um horário completo de professor. Mas quando começou a pesar, tive que pedir uma licença sem vencimento. Foi uma tarefa muito exigente, em termos gráficos como na procura e consulta de documentação. Quando me envolvi neste projecto, nunca me passou pela cabeça o trabalho que iria ter".

Praça do Rossio, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

"Tendo como referente que as histórias de Loïs se passam no reinado de Luís XIV, Diferr situou Portugal "entre meados do século XVII e do século XVIII [v. Lisboa do século XVII 'a mais deliciosa terra do mundo']. É a época de D. João V, que foi um rei absolutista à maneira de Luís XIV" .

Mercado da Ribeira junto à Casa dos Bicos, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

Diferr fez "tudo" em Portugal, "excepto a introdução, que é do Jacques Martin. Os desenhos são todos meus, bem como as fotos, excepto duas ou três.

Sé de Lisboa  ou Igreja de Santa Maria Maior, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Kuentro

Ele acompanhava o trabalho que lhe era submetido à apreciação, via os desenhos a lápis, dizia para modificar isto ou aquilo. Depois, eram passados a tinta da china e a seguir iam à cor. Mas pouco tempo depois, ele afastou-se por causa dos problemas de vista de que sofria, e a validação dos desenhos passou a ser feita por um comité da Casterman", conta.

Sé de Lisboa  ou Igreja de Santa Maria Maior, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

O autor de Alix "era muito exigente" e Diferr teve "alguns problemas, sobretudo por causa da vista dele. O Jacques Martin sabia muito bem o que queria, mas já estava com muita dificuldade em avaliar os desenhos, não os conseguia ver como um todo. Tinha que usar um aparelho que os ampliava aos bocados e depois que os reconstruir na sua cabeça".

Vista geral de Lisboa na direcção nordeste, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem:

O álbum levou a que fosse proposto ao autor luso "uma das personagens do universo do Jacques Martin, o Jhen. Também apresentei algumas propostas à Casterman, mas umas não avançaram e outras estão em espera", revela.

Segundo Luis Diferr, ela chama-se Joana. Nascida em Sintra, perto de Lisboa, o que faz que ela sempre tenha gostado de respirar o ar puro da montanha e do mar. A sua expressão doce esconde uma alma que sabe muito bem o que quer...
Imagem: AlixMag

"Este álbum vale por si mas também pelas portas que pode abrir, ali ou noutra editora. Espero que alguma coisa se resolva, até porque o mercado franco-belga é muito competitivo, ainda mais para alguém de fora. Mas pronto, a esperança é a última a morrer". (1)


(1) Diário de Notícias, 16 de junho de 2010

Informação relacionada:
Loïs au Portugal?
Les voyages de Loïs, Le Portugal, Interview de Luís Diferr
Apresentação de "As Viagens de Loïs – Portugal" de Luís Diferr (texto e desenhos)...
Jacques Martin – Luís Diferr
Ilustração por autor de BD (I) – Luís Diferr
As Viagens de Loïs – Portugal
Amadora BD – Luís Diferr

Mais informação:
Luís Diferr (no Facebook)
Luís Diferr (no Blogger)
Luís Diferr (no Sandawe)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Uma outra Lisboa...

Rui Manoel Baptista Velho de Palma Carlos (1948-2008). Pintor neofigurativo, também arquitecto, escritor, ilustrador e poeta.

Lisboa anos cinquenta, Rui Palma Carlos, 1981.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

A sua obra denota um fascínio pelos pintores do princípio do séc. XX e é especialmente dedicada a retratar fachadas de prédios antigos, casas tipicamente portuguesas, solares, etc. chamando a atenção para a sua recuperação urgente ou para a sua conservação intercalando figuras que podem entrar em diálogo, revelando um misto de humor e de nostalgia.

Em terra dos bem-casados, Rui Palma Carlos, 1981.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Rui de Palma Carlos ilustrou diversas obras, nomeadamente de Camillo Castello Branco, Eça de Queiroz, Abel Botelho, Joaquim Paço d'Arcos, etc. — e tem escrito e ilustrado livros infantis.

Lisboa, Rua Maluda, Rui Palma Carlos.
Imagem: BestNet Leilões

Expôs em diversas galerias, sobretudo no Palácio Foz (1973, 1974, 1988 e 1989) e no Casino Estoril (1977, 1981, 1983 e 1985). (1)

Rui Palma Carlos, Colecção Casas de Lisboa.
Imagem: Ilustração Antiga

Obras do Autor: "Eu Fui Ao Fim de Portugal" (1993); "Lisboética E Outros Poemas (1977); "A Casa da Carochinha" (1981); "A Carochinha Muda de Casa" (1981); "História da Família Corrente" (1993); Obras em gaveta: "Viagem Ao Centro Da Minha Terra" e "Era Uma Vez Uma Família Maluca". Obra Impressa: Serigrafias; Litografias e Colecções de Postais. (2)

*
*     *

E quanto a nós que, a seu tempo, lhe conhecemos as aguarelas, as serigrafias, as litografias e as colecções de postais, como "Casas de Lisboa", edição Margrape de 1985, vimos na posição da cor e na envoltura do traço uma ingenuidade demonstrativa e intencional, que recriava ambientes lineares, como se fosse um Cézane descomplicado ou uma "Pixel Art" recente.

Lisbon, Portugal.
Imagem: Archipics in Deviant Art

Arquitecto de formação, pressupunha isometrias, ainda alheias ao "AutoCAD" mas de onde se deduzem "renderings" que nos remetem para passagens incessantes por uma outra Lisboa que persiste.

Lisboa Lisbon by night. Tribute to this wonderful city.
Imagem: Behance


(1) Arcadja  cf. Palácio do Correio Velho
(2) Real Abranches

Informação relacionada:
Croniquetas de Lisboa

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Projecto de travessia do Tejo em 1889

Se a tivessemos já, se Portugal se podesse já orgulhar de ostentar na sua capital a maior ponte da Europa, não havíamos hontem gasto o melhor de 35 minutos para vir do Barreiro a Lisboa, nem o nosso somno de commodidade seriam perturbados mais cedo, para nos prepararmos para um trasbordo da carruagem em que chegámos á estacão do caminho de ferro, para o vapór em que tivemos de seguir, para o Terreiro do Paço.

Ponte sobre o Tejo, projecto de E. Bartissol e T. Seyrig, O Occidente n.° 380, ilustração L. Freire, 1889.
Imagem: Hemeroteca Digital

O sonho de ligar as duas margens do Tejo por meio de uma ponte vae se encaminhando para se converter em realidade, graças á iniciativa e actividade do Snr. Bartissol e á tntelligencia arrojada do distincto engenheiro Sr. Seyrig, o constructor da ponte D. Luiz no Porto.

D'este sonho é reproducção a nossa gravura d'hoje representando a ponte já construida, e vista da margem esquerda do rio.

O projecto dá á ponte a extensao de 2310 metros, completando-a com uma linha ferrea que partirá da estação do Rocio a ligar com a do Barreiro, n'um percurso de 15 kilometros e meio.



Do Rocio sahirá a linha em tunnel seguindo em curva para a esquerda, voltando assim de forma a passar quasi sob a praça do Principe Real, e indo desemhocar no valle formado pela rua de S. Bento, perto do palacio das Côrtes.

Atravessa então a rua de S. Bento em linha recta inclinando-se depois novamente para esquerda n'outra curva, e passa por detraz dos Cortes. N'esse ponto a linha será aberta em trincheira e em tunnel, e estabelecer-se-ha a estação da rua de S. Bento.

A calçada da Estrella é atravessada em subterraneo, e o seu transito não será interrompido nem pelos trabalhos nem pela exploração.

Este subterraneo prolongar-se-ha na extensão de 4oo metros, indo a trincheira, que segue, terminar acima da Rocha do Conde d'Obidos.

É facil, diz o sr. Bartissol na sua memoria publicada na "Gazeta ds Caminhos de Ferro", fazer chegar ahi uma estrada que, vindo da esquerda e a direita, communique_com a ponte, pondo d'este modo, em relação directa e facil com ella, o bairro de Buenos-Ayres e a parte baixa da cidade, inferior as Côrtes, como o Conde Barão, etc.

Projet de traversée du Tage, étude de E. Bartissol et T. Seyrig, Paris & Lisbonne, 1889.

O encontro extremo da ponte será situado na proximidade immediata d'essa embocadura, e é d'ahi que as duas vias, a via ferrea e a via publica, partirão por sobre o rio.

Estabelecer-se-ha outra estação n'este ponto, destinada a facilitar aos habitantes do bairro da Estrella as communicaçóes com a outra margem do rio.

O accesso a esta estação será feito por meio d'um ascensor vertical propriamente dito, ou por um caminho funicular inclinado, que a communique com os caes o mais directamente possivel.

É grande a importancia de tal communicacão, attendendo a que este ponto, com as novas dockas em construcção, será de futuro um dos centros de maior actividade da capital.

Desde a bocca do tunel até a beira do rio ha quatro arcos, sendo os 3 pilares, dispostos — um para cá um pouco da linha dos caes actuaes, e os outros perto da calçada do Marquez d'Abrantes, e mais acima ainda, sobre a collina. O primeiro tramo e de 115 metros, e os outros tres de 160 metros cada um.

Do 3.° pilar parte o primeiro grande arco, 300, metros de abertura: Esta disposição deixa, pois um espaço livre muito consideravel, quer nos caes, quer no rio. para que as embarcações possam manobrar e atracar desafogadamente.

A partir d`ahi, a ponte avança ser sobre o rio, indo os seus tramos alternando de imensóes. Sendo o primeiro de 3oo metros, o seguinte é de 160, o immedtato de 300 metros, o outro de 160, e assim successiramcnte. A ponte completa terá quatro tramos de 3oo metros, e 6 de 160 metros; sendo o ultimo de 15o metros, similhante a um dos de 160 em consequencia da conformação do terreno marginal nas collinas de Almada, que obrigou a encurtar este arco.

Projet de traversée du Tage, étude de E. Bartissol et T. Seyrig, Paris & Lisbonne, 1889.

A ponte vae effectivamente apoiar-se sobre essas collinas a um nivel elevado, deixando, como do lado de Lisboa, a margem do rio intacta, o que permitte de futuro a ampla liberdade de aproveitar essa margem para a eonstrueção de caes e outros estabelecimentos, em que se pensa já de ha muito.

Em Almada estabelecer-se-ba a primeira estação ao kilometro 4:450. As outras, que seguem, serão:
Piedade ao kilometro 6:460; Alfeite ao kilometro 9:300; Seixal ao kilometro 12:300; Barreiro ao kilometro 15:500.

O entroncamento com a linha do sul será feito na propria estação do Barreiro, que assim não ficará inutilisada e poderá servir de deposito e officina de reparações.

Como se vê da gravura a ponte será de um só taboleiro, metade do qual é destinado ao transito ordinario, metade á via ferrea.

Projet de traversée du Tage, étude de E. Bartissol et T. Seyrig, Paris & Lisbonne, 1889.

A largura total é de 25 metros nos pilares e 18 no taboleiro.

A altura do taboleiro para o nivel da agua é de 5o metros.

A perspectiva è elegante e digna de uma cidade como n nossa. Pena será pois, se tão grandiosa obra ficar só na gravura. (1)


(1) O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 380, julho, 1889..

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Os conjurados de 1640

El Atlas del Rey Planeta (detalhe), Pedro Teixeira, 1634.
Imagem: La descripción de España y de las costas y puertos de sus reinos

A Hespanha estava nesse tempo em guerra com a França e como desta Nação tinha apparecido huma esquadra pelas Costas de Portugal, pareceo ao Ministro ter hum pretexto favorável aos seus desígnios: era necessário que em Portugal houvesse hum General em Chefe para commandar as Tropas que se destinassem para defender os Portos, onde os Francezes podessem fazer alguma invasão;

e nestas circumstancias enviou ElRei de Hespanha ao Duque de Bragança a nomeação deste emprego com muitas distincçôes, e com huma authoridade absoluta de fazer fortificar as Praças marítimas que devia visitar, augmentando, ou dirninuindo as suas guarnições como bem lhe parecesse, o que fez murmurar altamente a Corte de Hespanha, vendo a céga confiança com que parecia entregar-se o Reino todo á discrição do Duque de Bragança.

O segredo desta Commissão tão franca estava só entre o Rei do Hespanha, e o seu primeiro Ministro: tinha este mandado huma ordem muito secreta aos Governadores das Praças marítimas, que erão quasi todos Hespanhoes, para se assegurarem da pessoa do Duque achando favorável occasião, e para o fazerem passar logo á Hespanha, para cujo fim andavão costeando Portugal algumas naos Hespanholas.

O Duque de Bragança que via muito bem quão pouco sinceras erão tantas, e tão extraordinárias distincções da parte de Hespanha, fêlla cahir nos mesmos laços que lhe armava.

Escreveo ao primeiro Ministro para que representasse a ElRei o prazer com que elle acceitava o Posto que lhe conferira e no qual esperava justificar a sua escolha.

Foi então que o Duque vio quasi chegado o momento da sua exaltação ao Throno de seus Avós.

A authoridade do emprego de Governador das Armas lhe facilitou o poder nomear moderadamente os seus amigos, nos Postos em que hum dia lhe viessem a ser mais úteis.

Fez-se acompanhar de alguns Officiaes escolhidos, e de huma equipagem magnifica y própria da sua Grandeza, de sorte que nas Praças que visitou fez perder todas as esperan ças de se attentar contra a sua Real Pessoa.

Ninguém se lhe atreveo.

Em toda a parte por onde passava atrahia o coração dos povos y que admiravão a sua liberalidade, ouvindo a todos benignamente, e familiarizando-se còm a Nobreza de tal modo que todos absolutamente no interior o desejavão ter por seu Soberano.

Desta sorte chegou o Duque á Villa de Almada, (proposta dos Fidalgos) onde apenas se soube da sua chegada foi a Nobreza toda visitallo.

Portogallo, Lisbona dal promontorio.
Gravura executada por Terzaghi sobre desenho de Barbieri reproduzido de um original do século XVII.

D. Miguel de Almeida, D. Antão de Almada, e Pedro de Mendonça Furtado, estando sós com elle lhe communicárão a resolução em que elles, e muitos da sua qualidade estavão de o acclamarem Rei de Portugal, representando-lhe vivamente a desgraçada situação em que se achava este Reino, e que só se podião remediar tão lamentáveis ruinas querendo elle acceitar a Coroa.

Armas de Almada chefe, livro do Armeiro-Mor.
Imagem: Wikipédia

Que elles, e hum grande número de Fidalgos lhe offerecião todas as suas faculdades para o ajudarem a subir ao Throno, sacrificando com efficacia os seus bens, e as suas vidas, para vingarem a Nação da tyrannia dos Hespanhoes.

O Duque respondeo com muita modéstia, e com mais cautela y dizendo que convinha com elles no que lhe representavão a respeito da situação de Portugal, reduzido á ultima calamidade.

Que louvava muito o zelo que mostravão ter pela bem da Pátria, e que em particular agradecia muito a toda a Nobreza o quanto se interessava por elle; porém que duvidava do bom succesfo da empreza, por lhe parecer que não era ainda tempo opportuno de a pôr em execução, sem se tomarem todas as necessárias medidas com madura prudência.

Com esta resposta que o Duque não quiz fazer mais positiva partirão os tres Fidalgos, não desanimados do bom êxito da sua resposta, e determinarão logo fazer a primeira Junta dos Confederados com muito segredo, e cautela.

Os conjuração de 1640, Manuel Lapa, c. 1936.
Imagem: almanaque silva

Passou o Duque a visitar a Vice-Rainha Duqueza de Mantua , desembarcando no Terreiro do Paço onde se achava innumeravel povo para o verem passar. Taes forao as demonstrações de prazer , e de contentamento, que motivarão novo y e decisivo ciúme aos Hespanhoes que as observavão.

Entrando no Paço a visitar a Vice-Rainha, estavão na grande sala duas cadeiras, huma debaixo do docel para a Duqueza de Mantua, outra da parte de fora para o Duque de Bragança.

Thomé de Sousa Fidalgo de grande valor, e tronco dos Condes de Redondo, inflammado em zelo da honra do Duque, que, em presença de toda a Nobreza levantou a cadeira, e a collocou debaixo do Sólio, porque o Duque não tivesse a Audiência com menos decoro.

D. João (1604 - 1656), Duque de Bragança.

Este arrojo capitulado pelos Hespanhoes como hum crime, o trouxe em tribulação com a Corte de Hespanha dalli por diante.

Passados alguns dias recolheo-se o Duque a Villa Viçosa, livre dos laços que a malícia do primeiro Ministro lhe quizera urdir.

Tinha ficado em Lisboa o Doutor João Pinto Ribeiro criado particular do Duque e seu Confidente.

Este homem era activo , e com muita instrucçáo de negócios politicòs, aquém D. Miguel de Almeida chamou para a Conferencia da primeira Junta da Nobreza por conhecer a sua capacidade, esaber o quanto elle seriamente se interessava pela exaltação do Duque.

Juntárão-se em casa do Monteiro-Mór Francisco de Mello, (primeira Junta dos Fidalgos) seu irmão Jorge de Mello, D. Miguel de Almeida, D. Antão de Almada, Pedro de Mendonça Furtado, Antonio de Saldanha, e João Pinto Ribeiro , onde depois de bem ponderadas reflexões, assentarão em escrever ao Marquez de Ferreira, D. Francisco de Mello, e a D, Affonso de Portugal, Conde de Vimioso, que assistião em Évora, para representarem ao Duque de Bragança os irreparáveis damnos, que se seguirião aos Portuguezes, se elle não aceitasse a Coroa que lhe offerecião, e que injustamente fora pelos Hespanhoes roubada a seus Avós.

D. Antão de Almada (1573 - 1644).
Imagem: Wikipédia

Que a occasião na conjunctura presente era a mais favorável, e opportuna, pois que as forças de Hespanha se achavão divididas pôr muitas partes.

Recebia o Duque estas persuasões, sem se determinar ainda a huma declaração aberta.

Pensava nas difficuldades que haviáo a vencer, e queria informar-se bem das medidas que se tomavão para emprehender huma acção que decidia da tranquilidade da Nação inteira, ou a precipitava na sua total ruina.

Tal era a sua prudência, esperando que João Pinto Ribeiro fosse de Lisboa, para lhe dar conta do que a este respeito se passava.

As demonstrações de alegria que o povo de Lisboa fizera, quando o Duque passou de Almada a visitar a Vice-Rainha, inquietarão muito a Corte de Madrid, fazendo grande impressão ao primeiro Ministro.

Lisboa, Terreiro do Paço, Dirk Stoop, 1650.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

Começárão a haver suspeitas, de que a Nobreza de Portugal fazia particulares, e acauteladas Assembléas;

e certas vozes que se espalhavão, como presagas de grandes acontecimentos, tinhão augmcntado mais aquella inquietação.

ElRei de Hespanha convocou o seu Conselho, e para tirar aos Portuguezes a esperança de ganharem partido em alguma revolução que podessem meditar, resolveo que immediatamente fosse chamado a Madrid o Duque de Bragança, único Chéfe que em Portugal se podia temer.

Despachou-se logo hum Correio a Villa Viçosa com carta do próprio punho d'ElRei para o Duque, cheia de artificiosas promessas, na qual lhe ordenava que partisse a Madrid sem perda de tempo, para o acompanhar á expedição da Catalunha.

O mesmo Correio marchou immediatamente para Lisboa com ordem a todos os Fidalgos, para também partirem para Madrid.

Foi errado este ultimo plano do Duque de Olivares, porque sendo o seu fim tirar o Duque de Bragança deste Reino, e a Nobreza principal, aquelle tomou finalmente a resolução de acceitar a Coroa que lhe pertencia por Direito, e esta irritou-se novamente com as ordens que recebia, para ir acompanhar o Rei de Hespanha á expedição de Catalunha. [...]

Chegou finalmente o sempre memoravel, e glorioso dia de sabbado, primeiro de Dezembro de mil seiscentos e quarenta.

Armas do Rei de Portugal, livro do Armeiro-Mor.
Imagem: Wikipédia

Apenas amanheceo, todos os Fidalgos Confederados, e os seus adjuntos se armarão, (dia feliz da acclamação) ajuntando-se huma grande parte delles em casa de D. Miguel de Almeida, d'onde partirão separados huns dos outros para o Paço, e para outros lugares a occuparem os Postos, que lhes estavão já destinados, D. Filippa de Vilhena, Condeça da Atouguia, heróica, e varonilmente ajudou a armar com as suas próprias mãos a seus dois Filhos, D. Jeronymo de Ataíde y e D. Francisco Coutinho exhortando-os com todo o valor para a gloriosa empreza a que hião.

D. Filipa de Vilhena, Vieira Portuense (1765-1805), 1801.

Conta-se que o mesmo fizera D. Marianna de Lencastre a seus Filhos, Fernão Telles, e Antonio Telles da Silva. [...]

D. João da Costa, e João Rodrigues de Sá com outros Fidalgos, e Pessoas Gonfidentes, forão a bordo dos dois Galeões de Hespanha que se achavão surtos no Tejo, armados em guerra, que sem mais resistência se renderão, a pezar de terem toda a guarnição de Infanteria Hespanhola, e estarem promptos a a fazer-se á vela.

Forão outros ao Castello, e mandarão a D, Luiz del Campo a Ordem da Duqueza, para que o entregasse; e duvidando este da Ordem, por não ir com a formalidade que elle queria, Mathias de Albuquerque, que alli se achava prezo, e que nada sabia com certeza da Acclamação, aconselhou ao Governador, que ou sahisse com o presidio que guarnecia o Castello, ou se puzesse em defensa, se o rumor que se ouvia pela Cidade passasse a mais.

Com effeito fechárão-se as portas, e prevenio-se a artilheria.

Requererão os Governadores á Duqueza segunda Ordem, para que se não fortificasse o Castello, a que D. Luiz del Campo obedeceo, e já Mathias de Albuquerque que nada lhe disse a este respeito, por ter noticias certas da Acclamação;

e como não houve tempo para se entregar com a solemnidade que o Governador queria, ficou naquella noite rodeado o Castello de todas as Companhias das Ordenaraças.

No dia seguinte foi D. Alvaro de Abranches, Thomé de Sousa, e D. Francisco de Faro com ordem definitiva para D. Luiz del Campo entregar o Castello.

Immediatamente mandou abrir as portas, entrou dentro D. Alvaro de Abranches, e tomou posse finalmente do Castello, em quanto não vinha ElRei y ou não chegava D. Alvaro Pires de Castro, Conde de Monsanto, e Aicaide-Mór de Lisboa.


Soltou Mathias de Albuquerque, e a Rodrigo Botelho, Conselheiro da Fazenda, que também se achava prezo.

Sahírão os Hespanhoes com a sua Equipagem, e com as honras militares por privilegio da Capitulação que fizerão, e forão conduzidos por D. Antonio Luiz de Menezes até ás Tercenas, onde se alojarão, e onde tiverão depois Passaportes d'ElRei com ajudas de custo, para que divididos passassem para Hespanha.

Rendido o Castello se entregarão nesse dia as Torres de Belém, Cabeça secca, Torre velha, Santo Antonio da Barra, e o Castello de Almada.

A barra do Tejo baseada no Regimento de Pilotos de António de Mariz Carneiro de 1642, reprodução de 1673.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Tanto pôde o exemplo e tanto pôde o medo. [...] (1)


(1) Roque Ferreira Lobo, Historia da feliz acclamação do Senhor Rei D. João o Quarto..., Lisboa, Na Officina de Simão Taddeo Ferreira, 1803.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Marinha do Tejo

Começàmos hoje a publicar a serie dos barcos de transporte que navegam no Tejo, desde o catraio até á fragata, desenhados do natural, com toda a exacção, pelo sr. Pedroso, e por elle mesmo gravados.

João Pedroso, Revista Illustrada, anno 1, n° 17, 1890.
Imagem: O Archivo Pittoresco e a evolução da Gravura de Madeira em Portugal

É mui variada, no casco e no apparelho, esta serie de embarcações, a que chamaremos "marinha do Tejo", se é que lhe não deviamos antes chamar marinha pequena, já que não temos marinha grande...

Não affiaçàmos, porém, que a nomenclatura de taes embarcações sáia rigorosa, porque, se o lapis do nosso artista conseguiu roproduzir a fórma e velame dc todos estes barquinhos do Tejo, outro tanto não podêmos nós conseguir quanto á denominação e origem de alguns d'elles.

Começando pelos catraios, que são os mais pequenos, a d'onde nós chamâmos geralmente catraeiros aos barqueiros, vemos que esta denominação não é muito antiga, porque não vem similhante vocabulo nos nossos bons auctores maritimos, sendo tão copiosa a lingua portugueza em termos nauticos. O alvará do tempo do marquez de Pombal (1765), que abaixo transcreveremos, diz que os "catraios" se tinham introduzido por aquelle tempo, e em tal quantidade, que por serem mui pequenos, e governados por gente ignorante, succediam muitas desgraças e avarias no Tejo, pelo que foram mandados queimar por ordem do marquez de Pombal, determinando-se qual havia de ser a lotação dos botes que, em logar dos catraios, se podiam construir. 

Eis o que dizia o alvará:

"Eu el-rei faço saber aos que este alvará virem, que sendo-me presentes em consuIta do senado da camara os graves inconvenientes que resultam do uso das pequenas embarcaçoes chamadas botes, ou catraios, que de tempos a esta parte se tem introduzido para os transportes que se fazem no Tejo; tendo causado por uma parte frequentes perigos as vidas das pessoas que n'eIIas se transportam; não so pela pouca segurança das mesmas embarcações, mas tambem pela ignorancia das pessoas que as governam. E pela outra parte destinando-se como mais proprias para as clandestinas conducções, e descaminhos das fazendas de contrabandos. Para cessarem de uma vez os referidos inconvenientes, sou servido prohibir, da publicação d'este em diante, o uso das referidas embarcações pequenas, permittindo somente o daquellas que são necessarias para o serviço dos navios: e mando, que todas as que ficam exeptuadas, em transgressão do disposto n'este alvará, sjam logo aprehendidas, e queimadas por ordem do senado da camara da cidade de lisboa, nas praias a ellas adjacentes: e que os proprietarios das mesmas embarcações, incorram alem da pena do perdimento d'ellas, na de seis mil réis applicados para as despesas do senado, e na de prisão pelo, espaço de vinte dias pela primeira vez: aggravando-se-lhes em dobro, tresdobro, e mais á proporção das relácias, as referidas penas nos casos de reincidencia. Sou servido outro sim determinar, que as embarcações que se occuparem nos transportes que se fazem de  Lisboa para Belem, e mais portos da sua visinhança, sejam construídas na conforntidade das formas e medidas, que vão declaradas no papel que baixa com este, assignado por Francisco Xavier de Mendonça Furtado, ministro e secretario de estado dos negocios da marinha e dominios ultramarinos."

As medidas a que se refere este alvará são as seguintes:

"Devem as mais pequenas embarcações d`estes transportes ter de bocca, no menos, 7 pés. De comprimento de roda a roda, ao menos 28 pés. A popa sera larga como do falua. O rodo da fôrma sera bem redondo á proporção da bocca para poder aguentar. E não poderá trazer qualquer destas embarcações mais que uma vela e um muletim."

Em cumprimento deste alvurá, o senado publicou um edital, para que todos os botes ou catraios, incursos na queima ordenada pelo alvará, se juntassem na prata de Santos, sobre graves penas. Ahi se lançou fogo a todos, o qual durou por muitos dias.

Os botes que de novo se construiram, segundo as medidas indicadas, ficaram-se chamando "catraios", tem uma so véla, e dois remos. Véde-o na estampa, que lá vem elle pela proa de um bote cacilheiro, do qual para o seguinte artigo se dará noticia.

Catraio e cacilheiro, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Com a preciosa coadjuvação da capitania do porto, e da repartição do imposto municipal denominado "tramagalho" esperàmos poder esboçar uma historia curiosa de tantas embareaçõesinhas, quasi todas mui veleiras e airosas. (1)

Já dissemos, e se viu na gravura antecedente, que o bote de catraiar, ou catraio, como d'antes lhe chamavam, é a mais pequena embarcação de vela de quantas navegam no Tejo, apesar de os haver com capacidade para 15 passageiros, todos debaixo de toldo. Muitos d'estes botes, principalniente os do cáes do Sodré, alem da vela triangular de espicha, armam uma bojarrona á proa, e uma mezena á ré; com este panno ficam muito airosos e veleiros. Quando não tem vento armam dois, quatro, e às vezes seis remos.

Já se vê, pois, que hoje não ha botes tão pequenos e perigosos como aquelles, que por este motivo, mandou queimar o marquez de Pombal. 

Os catraeiros são por lei, tambem pombalina, obrigados a fazer exame perante o capitão do porto, sem o que a camara lhe não concede a licença necessaria para catraiar.

O bote cacilheiro, é o gigante dos catraios; rijo de borda, aguentando muito mar, e com alterosa vela triangular, não de espicha, mas içada ao tope do mastro, e engatada na proa, impina-se arrogantemente para ré. Enfunada com a grande corda de vento que apanha d'alto abaixo, arroja o bote num apice de Lisboa a Cacilhas, que é o seu porto. Antes da instituição da companhia dos vapores do Tejo, em 1838, os botes cacilheiros faziam carreiras alternadas com as faluas; hoje ha muito poucos, e nas horas desencontradas das viagens dos vapores da companhia é que fazem algumas carreiras.

Actualmente ha uns 300 botes matriculados em Lisboa.

A falúa tem duas velas, tambem triangulares ou latinas, mui altas, tendo a de ré duas escotas. É uma embarcação valentissima, e d'antes tinham quasi exclusivamente as falúas a carreira de Lisboa a Cacillias, tomando os passageiros no caes das Columnas da praça do Commercio. Com a instituição da companhia dos vapores, foram as falúas desapparecendo d'este caes, umas compradas pela propria companhia, para se desfazer d'ellas, e outras porque tomaram diverso destino, empregando-se no transporte de generos em differentes portos do Ribatejo.

Falúa, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Para Aldêa-Gallega, Moita, Alcochete, e Barreiro, ainda ha carreiras de falúa. As que estão matriculadas sao apenas umas 20.

A falúa, além das duas velas, tem quatro remos, de que pouco se serve, por ser embarcação pesada: algumas vezes armam os remos para ajudar a vela, quando o vento não é de feição. (2)

Todos os barcos que navegam no Tejo pagam um imposto á camara municipal de Lisboa, chamado do "Tramagalho", imposição antiquissima, e tanto que se lhe perdeu já a etymologia, sem que os esmirilhadores de antiqualhas tenham até agora podido atinar com a derivação d'este nome.

A camara, em consulta de 28 de julho de 1852, propoz ao governo um formulario do que deviam pagar todas as embarcações que navegassem no rio de Lisboa, ou viessem a seus portos, o qual foi approvado pela regia resolução de 17 de setembro do mesmo anno.

Ei-lo aqui, como parte integrante da histotia d'esta marinha do Tejo.

De cada viagem que fazem a esta cidade os barcos de Villa-nova, pagam 200 rs.

De cada viagem que fazem os de Abrantes, Punhete, Tancos Barquinha, Chamusca, Azinhaga, Santarem, Escaropim, Salvaterra, Porto de Muge, Virtudes, Samora e Benavente, 150 rs.

De cada viagem que fazem os barcos de Povos, Villa-Franca, Alverca, Póvoa, Savcavem e Friellas,  100 rs.


Os barcos de Abrantes, Punhete, Tancos Barquinha, Chamusca e Azinhaga, pagam além de 150 rs. acima referidos, mais, de uma avença muito antiga, a que chamam "cabo de anno", pelas viagens que fazem aos portos do termo até Paço d'Arcos, 1:000 reis. 


Todas as embarcações dos portos acima declarados, que fazem viagens de verão, que vem a ser: conduzir palha ou fruta para esta cidade, o qual verão principia desde o dia de S. Pedro até á feira de Villa-Franca; não pagam n'este tempo por viagens, mas sim por avença que vem a ser:

Cada barco, 4:000 rs.
Cada bateira ou lancha, 3:000 rs.
Cada batel, 2:000 rs.

Os barcos do Samouco Alcochete, Aldea-Gallega, Moita, Lavradio, Alhos-Vedros, Barreiro, Aldea de Pae Pires, Seixal, Cacilhas, Porto Brandão, Trafaria, Coina, Cascaes, e Paço d'Arcos, pagam por ajuste.
As falúas, pagam 1:400 rs. por-anno.
As falúas que andam nas carreiras para Cacilhas, 2:000 rs.
Os barcos de Moios, 1:200 rs.
As fragatas, 1:000 rs.
Os botes, a 960 e 800 rs., conforme a sua grandeza.

Bote d'agua acima, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Os barcos chamados d'agua a cima, cuja forma a nossa estampa representa, pertencem ao terceiro ramo d'esta tabela. (3)

Com o nome de aveiros, e não de saveiros, são estes barcos denominados na mesa do imposto chamada do Tragamalho. Talvez seja corrupção do primitivo nome que tinham quantos barcos vem ao Tejo da cidade de Aveiro, que são muitos.

A savara tambem mostra ter a mesma procedencia, mas estes tem quilha, e vão fóra da barra ajudar as moletas na pescaria.

O alijo traz na sua denominação o destino que tem, que é alijar, descarregar os barcos que não podem atracar. Ha tambem alijos de vela.

Saveiro, alijo e savara, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital
Todas estas tres embarcações foram escrupulosamente copiadas dos onginaes, pelo nosso exímio gravador o sr. Pedroso, que é tambem um peritissimo pintor de navios. (4)

Depois dos botes são os varinos os que em maior numero sulcam o Tejo. Esta denominação que elles tem no vulgo não vem em nenhum diccionario da lingua, e tambem na repartição do imposto que elles pagam em Lisboa tal se lhes não chamam, mas aveiros, nome generico para todos os barcos que vem do districto de Aveiro. Estão actualmente registados e avençados na repartição municipal de Lisboa 431 varinos ou aveiros.

Varino e monaio, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

O monaio é uma especie de varino da mesma procedencia, mas tem diversa armação, como bem mostra o que esta desenhado na estampa, ao mar do varino.

Pela seguinte curiosa estatistica, que na citada repartição nos ministraram obsequiosamente, vemos que a marinha do Tejo se compõe ao presente de 1:143 vélas. (5)


Embarcações registadas e avençadas na repartição do Tramagalho, Lisboa, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Chamam aqui no Tejo a estes barcos, "dos moinhos" ou de "moios", porque se destinam especialmente a conduzir as farinhas do Ribatejo para Lisboa.

Os barcos dos moinhos são mais airosos que as falúas com as quaes todavia se parecem. Tem como ellas duas velas, porém mais baixas e mais largas: os mastros sao inclinados para a proa, por isso escusam de bujarrona.

Barco de moinho, gravura, João Pedroso, 1861.
Imagem: Hemeroteca Digital

Segundo a estatistica que já publicamos, ministrada pela mesa do Tragamalho, ou da imposição das embarcações, na camara municipal, ha no Tejo 34 barcos dos moinhos, e a sua amarração é no caes do Tojo, proximo ao terreiro do Trigo. (6)


(1) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 31, pág. 247
(2) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 33, pág. 261
(3) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 36, pág. 285
(4) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 41, pág. 325
(5) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 48, pág. 380
(6) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1861, n° 9, pág. 70

Artigo relacionado:
Todos os barcos do Tejo


Informação relacionada:
As embarcações tradicionais do Tejo

sábado, 4 de junho de 2016

Todos os barcos do Tejo

Caderno de todos os barcos do Tejo, Tanto
de Carga e Transporte como d'Pesca, por João de Souza
Lente d'Arquitectura Naval e Desenho da Companhia
de Guarda Marinha

sexta-feira, 27 de maio de 2016

A pequena tocha do mar

[...] ou o verdadeiro guia dos pilotos costeiros. 

O rochedo, distância 2 léguas, John Thomas Serres (desenho), Joseph Constantine Stadler (gravura), 1801.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Do Cabo da Roca a Cascais vão duas léguas ESE, onde se podem encontrar diversas enseadas de areia e fortalezas, onde os navios se podem proteger quando perseguidos pelos turcos.

Cascais está numa grande enseada que se retira para norte. Aí está uma boa citadela no ponto oeste que ordena a estrada e o mar para oeste.

A ancoragem é a ENE da citadela, em doze ou catorze braças, sondadas em fundo de areia. Pode apanhar aqui um piloto, se preferir, para o conduzir a Lisboa.

De Cascais a S. Julião vão duas léguas ENE.

Existem cinco fortalezas entre Cascais e S. Julião, e a costa é desimpedida até um curto quarto de légua para oeste de S. Julião, onde estão rochas encobertas por água, com doze ou treze pés na maré baixa. 

Ficam entre os Cachopos e a terra, mas mais próximo dos Cachopos que de terra.

Lisboa, o mais espaçoso e mais seguro porto do reino de Portugal. Latitude 38.42 N. Longitude 9.5 W a partir de Londres.
John Thomas Serres (desenho), Joseph Constantine Stadler (gravura), 1801.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O castelo de S. Julião está construído num ponto rochoso que avança um pouco para dentro do mar, e é uma das fortalezas mais fortes em Portugal; 

O rochedo de Lisboa, distância 4 milhas, John Thomas Serres (desenho), Joseph Constantine Stadler (gravura), 1801.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

fica a cerca de um tiro de mosquete do ponto este dos Cachopos, e quando falha entrar entre eles é necessário contornar pelo castelo tão perto quanto neccessário for para falar com as pessoas que aí estão.

O rochedo, distância 2 milhas, John Thomas Serres (desenho), Joseph Constantine Stadler (gravura), 1801.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Vindo de oeste, ou do sul, não deve aproximar a terra demasiado perto, até ter o ponto de Cascais por Cabo da Roca, depois vire ESE, até ter os dois conventos já mecionados, juntos, e percorra estas marcas, que são NE e NEN, até ao castelo S. Julião, e depois percorra junto à margem norte até ao castelo de Belém.

Cidade e Castelo de Bellisle [Belém, ilhéu] no rio Tejo; o palácio do rei; Lisboa está atrás deste ponto.
John Thomas Serres (desenho), Joseph Constantine Stadler (gravura), 1801.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

É maré alta neste rio ás três e meia ou quatro, na lua nova e cheia. (1)


(1) Bougard, R., Serres (desenho), John Thomas, Stadler (gravura), Joseph Constantine, The little sea torch : or, true guide for coasting pilots... (Le Petit flambeau de la mer, ou Le Véritable guide des pilotes côtiers), London, pub. for the author, J. Debrett, 1801, [126 MB].