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domingo, 26 de março de 2017

Meme de Bulhão Pato no Leão d'Ouro

Uma vez por semana, parece-nos que ás quintas-feiras, [Bulhão Pato,] saía para Lisboa com a senhora, muito bonita com as suas mangas de presunto e os seus grandes laços de tule á volta do pescoço.

Meme Ribeiro Cristino, Columbano, José Campas, Malhoa, Girão, António Ramalho, M. A. Bordalo Pinheiro.
Cervejaria Leão d'Ouro (1905)
Imagem: Rui Granadeiro

O Joaquim do Fidalgo vinha buscá-los, com o seu velho trem puxado por dois cavalinhos velhotes e eles aí iam a caminho de Lisboa, para almoçar não nos lembra se no Leão de Ouro se no Estrela de Ouro... 

Meme Ribeiro Cristino, Columbano.
Cervejaria Leão d'Ouro (1885)
Imagem: Rui Granadeiro

O carrinho, claro, ficava do lado de cá em Cacilhas. Nesse tempo, os barcos já eram movidos por vapor mas ainda não transportavam carros, como hoje. (1)


(1) Diário de Lisboa, 24 de agosto de 1956

Mais informação:
(1) As meninas da Torre

Artigos relacionados:
Leão d'Ouro (1939) o leilão dos quadros
Leão d'Ouro (1905) nova sala
Leão d'Ouro (1885) cervejaria museu
Paradoxo da Arte dita Contemporânea de Exposição não Permanente

sexta-feira, 17 de março de 2017

Leão d'Ouro (1885) cervejaria museu

Em boa hora d'enthusiasmo innovador os fantasistas pintores, que compõem o triumphante "grupo do Leão", — tão celebrado já e estabelecido e applaudido n'esta capital formosa, que é de marmore e de fabuloso granito sobretudo para as esturdias manifestações artisticas,— se lembraram de decorar originalmente as paredes da escolhida cervejaria onde passam as noites em alegre convívio amigo, e que, depois de certa mudança, se investiu do titulo colorido de "Leão d'ouro", como que evocando a tradição lentamente apagada das velhas estalagens, que se vão esborrondando e sumindo na poeira tenebrosa e bafienta do esquecimento, numa sepulchral subversão de romantisados cardanhos ramalhetados com verde loureiro, rubicundas e roliças Maritornes, maus lençoes povoados de pulguedo, guisados frustes d'aldeia, vinhos azêdos, nao esquecendo os celebres assaltos feitos, ás horas caladas da noite, por barbudos homens de fera catadura reforçada pelo trabuco das lendas.

Azulejos fingidos, Raphael Bordallo Pinheiro (detalhe), editado com desenho de João Ribeiro Cristino, 1885.
Imagem: Provocando uma teima & O Occidente n.° 229, 1 de maio de 1885

Pois, vivamente impulsionados pelo seu capricho, e com um absoluto desinteresse quasi nababico, conseguiram em pouco tempo transfor-mar uma loja acachapada de tosca estructura, n'uma especie d'interessante museu-livre, faustosa-mente forrado com pinturas opulentas, de caracter vario, nas quaes cada um pôz sem duvida o melhor do seu talento, atiçado pelo esforço nobre d'emulação n'este pittoresco, saudavel, e fecundo concurso.

E creio que d'ora em diante muito forasteiro ha de ir no Leão d'ouro examinar attentamente os quadros que o ornamentam, se lhe convier saber qual o cothurno e o pulso d'alguns modernos artistas portuguezes, que ainda não acharam nas galerias nacionaes, albergadas sob a negra aza madrasta do peco estado, um pobre modesto logar para uni só quadrinho bem pequenino. 

Entra-se, e olhando para a direita por uma supersticiosa precaução d'enguiço, admira-se logo a tela ampla onde Malhoa pintou um effeito ridente, vermelho e radiante d'alvorada, desabrochando luminosamente sobre um deserto brejo, n'uma suprema explosão d'ouro e sangue transparentemente fundidos, com alguns farrapos isolados de nuvem que parecem coagulados, escurecidos e avéssos á serena festa musicante da mocidade do dia, gorgeiada pelos passaros.

Paul da Outra banda, Pântano, Vista do Alfeite, Charco de Corroios, José Malhoa, 1885.
Imagem: Blog do Noblat

Debaixo do ceu resplandecente a paysagem plana e verdosa desdobra-se ainda confusamente, empastada de sombras, acreamente velada pela fulva luz diaphana que vem amarellecer as aguas baças do primeiro plano, onde umas tufadas tabúas se ramificam n'uma disparatada mancha japoneza, emquanto que, do outro lado, um barco escavacado emerge a prôa limosa e podre, lembrando a cabeça informe d'um monstro habitante da soalheira laguna.

Evidentemente o artista apaixonou-se pelo seu assumpto, que lhe pediu urna verdadeira pyrotechnia de cor; foi sincero e exuberante, surprehendendo o flammame espectaculo da natureza acordando festivalmente; e com o pincel soube fazer obra de poeta. É tambem de Malhôa uma tira ao alto, trabalho de pequeno (alego, em que, por traz diurnas enroscadas ramarias dc macieira em flór, se vê uma torre de negro aspecto perfilada no ar e cercada pelo vôo torneante e brincalhão das andorinhas, repatriadas no cortejo da primavera.

Em seguida, encontra-se um destes quadros magistraes de Silva Porto, uma paysagem repousada feita com a sua experiente superioridade, que sempre nos faz a impressão de que cada tom e cada toque por elle empregados sabem perfeitamente o togar que occupam, na obra d'arte, compenetrados e orgulhosos.

Enche o lado esquerdo da tela uma cerrada massa verdenegra d'altas oliveiras, com as espessas folhagens duras esburacadas dc sombras, os grossos troncos pardos e retorcidos sahindo do solo como convulsos braços de gigantes mal enterrados; algumas cabras pretas trituram hem pacificamente, no primeiro plano; depois, sob a aunosphera azul manchada largamente dc branquejantes nuvens, estende-se o campo vestido d uma verduira intensa, saciada de humidades, pondo em destaque algumas esqueletaes arvores nuas e outras já toucadas d'uma florente brancura primaveral. O conjuncto é d'uma tranquilla harmonia, simples e forte como a natureza. 

O quinteiro (Carriche), Silva Porto, 1885.
Imagem: Veritas

João Vaz tem uma marinha, d'um encantador effeito decorativo. O sol pôe-se, atravessando um dourado luzeiro translucido por cima d'uma lingua de casaria lisboeta, que se acinzenta na sombra; e nas aguas mansas do Tejo, onde o ceu esfumadamente brumoso se reflecte, uns barcos tapam o alvacento horisonte com o vulto escurentado das suas velas em calmaria, escorridas.

Ha um socego em todo o quadro, illuminado d'uma tepida claridade vaporosa e como coada, e executado sobriamente n'uma tonalidade quente e doce, alourada por vezes, que o torna um bello pedaço de pintura risonha, e ao mesmo tempo caractenstica n'esta cidade de beira-mar.

Monteiro Ramalho. (1)

Naturalmente, Raphael Bordallo descobriu e executou, com a sua graça incessante, cousa que destacasse, risse áparte pela sua barulhenta novidade foliã.

N'um painel de azulejos, — porque estão imitados, realisados tão enganadoramente, que ninguem se atreve a farejar sequer a existencia de uma recondita e suterrada tela, — Bordallo tracejou espirituosamente as divertidas caricaturas de todos os bons companheiros do grupo, mostrando cada qual pelo mais saliente e typico lado da sua individualidade ou da sua pessoa.

Azulejos fingidos (detalhe), Raphael Bordallo Pinheiro, 1885.
Imagem: Provocando uma teima

Assim, o Alberto de Oliveira, esgrouviado e louro, com a jubosa cabelleira esvoaçate, procura amavelmente trespassar um catalogo ao refestelado e sceptico leão, que o acolhe com um riso marôto, emquanto saboreia a sua cachimbada fumosa; o pacato, brando e quedo Silva Porto cavalga turbulentamente um touro, agarrando-lhe os agudos cornos n'um jubilo de animalista;

Silva Porto, Ribeiro Christino e Alberto Oliveira
Azulejos fingidos, Raphael Bordallo Pinheiro, 1885.
Imagem: Provocando uma teima

Vaz anda escarranchado n'uma canõa virada; Malhôa, não contente com o seu vezeiro costume de furtar arvores para as suas paysagens, arrancou uma algures e lá vae com ella ao hombro;

José Malhoa
Azulejos fingidos, Raphael Bordallo Pinheiro, 1885.
Imagem: Provocando uma teima

Vieira, com a sua gorducha cara alegrada pela sempiterna risada, avança hilariantemente a cabeça d'entre as folhas d'uma rosa; o Columbano, baixinho e ironico, empunha vigorosamente a sua enorme paleta carregada de tintas, tendo perto o sorridente Martins que prepara os seus pinceis; Antonio Ramalho, pequenino e rotundo, faz o oficio de rir, pousado nas alturas como um gordo pardal bigodoso;

emquanto que o Gyrão, com uma cabeça expressiva de inspirado, ala-se montado n'um allo fantasmagorico, seguido de um comico bando de coelhos armados de lapis, e precedido por uma ranchada corredora de patos a quem o Pinto abre caminho, calvo e agitando as suas curtas azas batentes de joven gallinaceo.

Moura Girão Manuel e Henrique Pinto
Azulejos fingidos, Raphael Bordallo Pinheiro, 1885.
Imagem: Provocando uma teima

Emtanto Christino abre alvoroçadamente o seu indispensavel guarda-sol, como que precavendo-se contra o vento de loucura que saccode freneticamente os seus camaradas; e o proprio Raphael parece fugir á tempestade ruidosa que semeou, rindo rasgadamente, pansudo e elegante como um sileno mundano, ás cavalleiras no seu corpulento e nervoso gato assanhado, que não tarda a desabar estouvadamente em cima do nosso amigo Manuel e do seu consolado patrão.

Eu cá, francamente, acho que esta extravagante comeostção bohemia é uma das mais fulgurantes fantasias, que tem produzido a verbo endiabrada do brilhante satyristo. Que o dono da casa lambem apanhou o seu retrato, collocado justamente sobre o reposteiro luxuoso em que a sr.a D. Maria Augusta Bordallo maravilhosamente bordou um chimerico leão batalhante.

Pintou-o Columbano, que lhe quiz dar um curioso aspecto archaico, parodiando certas obras-primas ingenuas e trabalhadas de Alberto Durer.

É magnifica a esguia tela em que Vieira aninhou perfumosamente algumas rosas sensuaes emmolhadas com begonias, debaixo d'uma fófa cortina amarella com prégas quebradas, por onde a sombra negreja.

Este fino colorista, cuja rica paleta rutila promessas, nunca por certo nos mostrou, como neste quadro delicioso e d'um solido valor, uma felicidade d'execução tio segura, fresca, espontanea, e cheia de luz. 

Com um attrahente assumpto muita vez usado — e reusado — e renovado, dilecto ao seu pincel que lhe sabe aproveitar habilmente a variada abundando, Gyrãoo fez um quadro de primeira ordem, onde uns bonitos coelhos em sucia róem folhas de couve vorazmente, dentro de uma capoeira espaçosa, emquanto que um altivo gallo, duma naturalidade admirava!, olha d'alto empoleirado numas grades, tendo ao lado a passiva gallinha aninhada e uma pequena cascata de hervas pendentes, salpicadas de floritas. 

Uma capoeira, Moura Girão, 1885.
Imagem: Provocando uma teima

Por seu lado, Christino deu uma vistosa e agradavel paysagem, com um curvo riacho de aguas verdoengas e lisas, sobre que se debruçam os choupos reverdecidos da tenra folhagem recem-aberta, deixando desafogado o primeiro plano onde umas atarefadas lavadeiras esfregam a sua roupa suja laboriosamente.

E estamos em frente da obra, que soberbamente tem provocado o mais pertinente interesse. É um vasto quadro pintado por Columbano, no qual reapparecem os do "grupo do Leão" reunidos familiarmente em torno de urna longa mesa onde pouco pantagruelicamente figuram reluzentes copos com restos de cerveja ou de vinho, preferido pelos rapazes mais abertamente meridionaes, com uma airosa basofia de raça.

As figuras são de tamanho natural, postas n'uma pittoresca desordem, em altitudes desalinhadas e á vontade de quem está abandonadamente n'um facil cavaco intimo, chalaceando e rindo, ou escutando n'uma indifferença; — e é extraordinaria a pujança brusca, impetuosa, fluente, como agitada de uma febre de observação feliz, com que o valente pintor brochou todos estes corpos bem animados da real vida, colhidos, transplantados victoriosamcnte da sua existencia de cada dia.

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel Henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: MNAC

É um trabalho de mestre, com proporções quasi athleticas, que indubitavelmente lhe veem da facunda e poderosa factura; nem mesmo se repara na carestia da côr: tamborila-nos insistentemente na lembrança um Franz Halls, um Rembrandt, e, numa vaporisaglio de reminiscencia, as figuras surgem-nos vagamente com largos chapeus cavalleiros ou górros farfalhudos de plumas, negros gibões avivados dc rendas, espadas, pedrarias. Ha profundos defeitos, que diabo, palpavets, graúdos, inexoraveis; mas se o grande talento rebelde do Columbano não encerra o dom da pachôrra, e descuida portanto os lados mais materiaes da arte, na presença d'uma obra d'este alcance temos decididamente que lhe perdoar isso, e sem nos fazermos rogados, porque ahi está o grão mestre pintor Rubens que não é positivamente o que se diz perfeito.

Columbano.
Azulejos fingidos, Raphael Bordallo Pinheiro, 1885.
Imagem: Provocando uma teima

Bofé, amigos meus, que não sei se esta afortunada casa é uma cervejaria, ou "restaurant" ou café, ou botequim, ou o quê; sómente me quer antes parecer que é um benefico e hospitaleiro museu, onde uma pessoa que se preze dc bom gosto póde digerir extasiadamente, n'uma capitosa contemplação d'obras d'arte.

Monteiro Ramalho. (2)


(1) O Occidente n.° 229, 1 de maio de 1885
(2) O Occidente n.° 230, 11 de maio de 1885

Leitura relacionada:
Os quadros do "Leão d'Ouro", Diário de Lisboa, 7 de abril de 1939
Nuno Saldanha, Artistas e Espaços de Sociabilidade no século XIX, O “Leão d’Ouro”... (1885-1905)
Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra (v. p. 55)
Provocando uma teima
Margarida Elias, o Grupo do Leão de Columbano Bordalo Pinheiro...
Clara Moura Soares, A Galeria de Pintura do Restaurante "Leão de Ouro":
Percursos de uma Colecção, ARTIS,
Revista do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras de Lisboa, nº 6, 2007
Restos de Colecção

segunda-feira, 6 de março de 2017

Paradoxo da Arte dita Contemporânea de Exposição não Permanente

A pequena mas bella exposição presentemente aberta, ao publico nas salas da Sociedade de Geographla tem attrahido as attenções do dilettantismo e da critica para os expositores, a que algumas folhas chamam o grupo dos dissidentes.

Meme Hopper Columbano
Nighthawks de Edward Hopper (1942) com O Grupo do Leão de Columbano (1885)
Imagem: Rui Granadeiro

Temos procurado achar o sentido d'essa designação, e não o conseguimos. Comprebonde-se que haja dissidencla unicamente onde ha opiniões. Na pintura franceza, por exemplo, o sr. Cabanel e o sr. Monet dissidem, porque o sr. Monet é a heresia de que o sr. Cabanel é o dogma. 

Mas em Lisboa — meu Deus ! — do quem é que podem dissidir estes espirituosos artistas?... A não ser um grito de revolta que elles queiram agora levantar contra o Grão Vasco ou contra a Josepha d'Obidos, não sabemos realmente contra quem é que cales se insurjam. 

A verdade é que os expositores da rua do Alecrim estão sós na arte da pintura. O conspícuo o talentoso sr. Luppi é já mais que um simples artista, é um oficial maior da secretaria da natureza, é um chefe do repartição do quadro historico, jubilado.

Como escola official resta-nos apenas o esclarecido sr. Delphim Guedes, mas este cavalheiro consta-nos que se acha presentemente fechado. Dizem-nos que s. exa. continha ainda a receber dos cabidos, das confrarias o das irmandades sertanejas, todos os tocheiros velhos e todas as galhetas duplicadas, de mais ou menos recente seculo XVI, que se lhe remettem para a arte ornamental; mas, pelo que respeita a discípulos, o seio desse varão recusa-se por emquanto a receber e a ensinar mais ninguem. Vedam-lh'o os seus affazeres.

O sr. Delphim deixou portanto de ser na pintura um portico, para ser unicamente uma tranca. O sr. Porto, o sr. Ramalho, o sr. Malhôa, o sr. Girão, o sr. Christino, o sr. Pinto, o sr. Vaz, o sr. Martins, são agora os pintores paizagistas unicos em Lisboa. 

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel Henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: MNAC

Elles são os que amam e os que interrogam a natureza, os que arregaçam as calças e deitam a mochila ás costas para ir de madrugada, com um pão e um cachimbo na algibeira, saltar os vallados, descer a azinhaga, atolar os pés na terra lavrada, atravessar o ribeiro, subir a encosta, o plantar o cavalete em frente da amendoeira em flor e da cancela rustica do quinteiro, onde as alfazemas desabrocham, onde as abelhas zumbem o onde as galinhas se espanejam ao sol, debicando a leira.

São elles os que entendem o primeiro dos prazeres que, depois da terrivel dôr sublime d'amar o ser amado, o Papá Deus deu á criança homem na festa do grande natal : — o prazer que teem, certas naturezas em casar aos phenomenos da vida exterior a sensibilidade pessoal, o de fazer d'essa conjunção o quadro, o poema ou a melodia, que são a consolação eterna da pobre alma da humanidade. 

Os artistas são eles. (1)


(1) O António Maria n.° 134, 22 de dezembro de 1881

Leitura Relacionada:
Raquel Henriques da Silva, MNAC/Museu do Chiado...
Mónica Queiroga, Projecto Arte e Educação no Espaço Museológico...

domingo, 9 de outubro de 2016

Grupo do Leão (5.ª exposição, 1885)

Comprehende se que no "Grupo do Leão" predominem os pintores de paysagem,— e perceber-se-ia até que n'este paiz, que em cada rugosidade de terreno, ao dobrar de cada monte, depara incomparavels elícitos de natureza, surgisse um povo inteiro de paysagistas.

O Moinho Gigante [de Alburrica, Barreiro] (O gigante, ao pôr do sol, Barreiro, 1885?), Silva Porto, 1887.
Imagem: Memórias e Imagens

Mas porque seguirão todos os artistas, como combinados, o panurgismo da moda villegiatureira, sahindo ao campo unicamente no verão,

O Grupo do Leão in O Contemporaneo n.° 147, Lisboa, 1885.
1 Silva Porto. 2 Alberto d'Oliveira. 3 Columbano.
4 Ramalho Junior. 5 José Malhos. 6 João Vaz. 7 João Vieira.
8 Gyrão. 9 Pinto. 10 Christino.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

e enchendo sempre as suas telas com as monotonas verduras estivaes, ingloriamente esquecidos dos ouropeis ferrujentos do outono, quando as folhas revoando como leves aves desamparadas despem os troncos, e das radiosas floraçoes primaveraes, e da nudez sagrada do inverno, quando as arvores levantam para o ceu gravemente os seus ramos intrincados, como braços que supplicam, e que a neve sudarial uma vez por outra vem forrar d'um rede, e fofo velludo branco? (1)

O Grupo do Leão (gravura no Museu do Chiado), Francisco Pastor, 1885.
Da esquerda para a direita e de cima para baixo: João Rodrigues Vieira, José Malhoa, Columbano Bordalo Pinheiro, António Carvalho da Silva Porto, António Ramalho, José de Moura Sousa Girão, J. J. Cipriano Martins, Berta Ramalho Ortigão, Maria Augusta Bordalo Pinheiro, Helena Gomes, Manuel Henrique Pinto, Rafael Bordalo Pinheiro, José Maria Moreira Rato Júnior, Alberto de Oliveira, José Júlio de Sousa Pinto, e João Ribeiro Cristino da Silva.
Imagem: MatrizNet

O grupo chamou-se do Leão, por causa de um café da rua do Principe...

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel Henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: MNAC

5.° Salão, Exposição d'Arte Moderna, 1885


Exposições de Quadros e d'Arte Moderna (1881-1889)
Catálogos Illustrados
Publicados por Alberto d'Oliveira
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BORDALLO PINHEIRO (D. M. A.) Pateo do Martel, 2.
(Maria Augusta Bordalo Pinheiro, pesquisa google)

1 — Rosas de maio.
[cf. Catálogo da exposição

2 — Rosas de Chá.

3 — Malvaíscos.
[cf. Catálogo da exposição

Malvaíscos,
Maria Augusta Bordalo Pinheiro 1885.
Imagem: MatrizNet

4 — Gira-soes.
[cf. Catálogo da exposição

5 — Velludo e rosas.

6 — Jarro com malvaíscos.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

7 — Malvaíscos, azulejos.

8 — Cesto com rosas.

9 — Rosas, porcelana.

10 — Amores perfeitos, faiança.

11 — Amores perfeitos, faiança.

12 — Amores perfeitos, faiança.

13 — Malvaiscos.

14 — Cabeça, desenho á penna.

BORDALLO PINHEIRO [Raphael] (R.) Largo da Abegoaria, 28, 2.°
(Rafael Bordalo Pinheiro, 1885, pesquisa Google

15 — Um accordo.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

16 — Dessidentes.

CHRISTINO DA SiLVA (J. R.) Rua da Graça, 47, 3.°
(Ribeiro Cristino, pesquisa google)

17 — Os freixiaes.
[cf. Catálogo da exposição

18 — A Merceana.
[cf. Catálogo da exposição
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

19 — A sésta.

20 — Azinhaga.

21 — Doka da Ribeira Velha.
[cf. Catálogo da exposição

22 — Provas de gravura em madeira.

COLUMBANO B. PINHEIRO, Pateo do Martel, 2.
(Columbano, pesquisa google)

23 — O mendigo.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

24 — Trecho difficil

25 — Cabeça.

26 — Cabeça.

27 — Retrato do sr. dr. Eduardo Burnay.

28 — Retrato do sr. José Pinto Sacavem.

29 — Retrato do sr. José Pessanha.

Retrato de D. José Pessanha, Columbano, 1885.
Imagem: MNAC

30 — Retrato do sr. José Queiroz.

31 — Retrato do sr. Mauricio Gomes.

32 — Retrato de Ramalho Ortigâo.

33 — Retrato de Arthur Loureiro.

34 — Retrato de Augusto Rosa.

35 — Esbocetos para decoração, carvôes.

GOMES (D. Helena) Rua Fresca, 6.

36 — Testemunhas d’accusaçào.

37 — Senhores da praça.

38 — Papoulas e begônias.
[cf. Catálogo da exposição

39 — Flores de campo.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

40 — Brincos de princeza.

41 — Flores.

42 — Flores e fructas.

GYRÃO (J. de S. M.) T. da Conçeiçâo á Lapa, 13.
(Moura Girão, pesquisa google)

43 — Boa refeição.
[cf. Catálogo da exposição

44 —-Pato.

45 — Gallo da ilha.

Galo da ilha, Moura Girão, 1885.
Imagem: Jornal das Caldas

46 — Gallo saloio.
[cf. Catálogo da exposição
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

47 — Uma capoeira.

48 — Em familia.

49 — Uma familia.

MALHOA (José) Pateo do Martel.
(José Malhoa, pesquisa google)
(Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra - GL5)


50 — Aldeia dos Escallos.

51 — Aldeia do Gravito.
[cf. Catálogo da exposição

52 — Ao cair da tarde.

53 — Ao nascer do sol.

54 — Interior da egreja de Pedrogào Grande.

55 — Valle de Gois.

56 — Costume do Minho.

57 — Costume do Porto.

58 — A fiandeira, Minho.

59 — O primeiro cigarro.

60 — Viatico ao Termo, Beira Baixa.

61 — Retrato do sr. João Vaz.

62 — Retrato do sr. C.

67 — Retrato do sr. Epiphanio J. David.

64 — Retrato da sr.ª D. J. M. David.

65 — João Rosa na Arlesiana, desenho.

66 — Do Pateo do Martel.

67 — Os moinhos.

68 — Ribeira do Gravito.

69 — Rua Dourada, Pedrogào Grande.

70 — Uma rua nos Escallos.

71 — Costume do Minho.

72 — Costume do Minho.

MARTINS (J. J. C.) Thomar.

73 — Fructos.

74 — Rua da Varzea Pequena, Thomar.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

75 — Estrada da Barquinha, Thomar.
[cf. Catálogo da exposição

76 — Castello dc Gualdim Paes, Thomar.
[cf. Catálogo da exposição

77 — Egreja da Conceição, Thomar.

78 — O descanço, costume.

79 — Margens do Nabâo, desenho.

PINTO (M. H.) Portalegre.
(Manuel Henrique Pinto, pesquisa google)

80 — Um pegulhal.
[cf. Catálogo da exposição

81 — Senhora da Esperança, Portalegre.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

82 — Um carril no matto, Portalegre.

83 — Pedra alçada, Portalegre.

84 — Cabeça do Mouro, Portalegre.

85 — Fonte dos Fornos, Portalegre.

86 — Bemposta, Portalegre.

87 — Bomfim, Portalegre.

88 — Pedra alçada, Portalegre.

89 — Pedra alçada, Portalegre.

90 — Bomfim, quinta do conde de Mello.

91 — Na ribeira.

ORTÍGÃO (D. B. R.) — C. dos Caetanos, 30, 3.°

92 — Recanto d’horta.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

93 — Costume de Vianna do Castello.

94 — Cabeça d’estudo.

95 — Um pandeiro.

RAMALHO (A. M.) Rue Gay Lussac, 45, Paris.
(António Ramalho, pesquisa google)
http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosListar.aspx?TipoPesq=4&NumPag=1&RegPag=50&Modo=1&IdAutor=68175

96 — Cabeça d’estudo.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

97 — Menino Gil Guedes Cabral, desenho.

98 — Menina Margarida G. Cabral, desenho.

SILVA PORTO (A. C.) Escola de Bellas-artes.
(Silva Porto, pesquisa google)
(Silva Porto, pesquisa MatrizNet)

99 — Campinos.
[cf. Catálogo da exposição

100 — Na arribana.

101 — Penedos, margens do Vizella.

102 — A manhã, Cascalheira.
[cf. Catálogo da exposição

103 — Praia de Valbom, Douro.

104 — Gollegã.
[cf. Catálogo da exposição
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

105 — Capella da Senhora do Valle, Cette.

106 — Logar da Estalagem, Vizella.
[cf. Catálogo da exposição

107 — Praia dos pescadores, Povoa do Varzim.

108 — O album.

109 — Azinhaga em Telheiras.

110 — Nas margens do Vizella.

111 — Caminho do Alfageme, Santarém.

112 — Caminho em Vizella.

113 — Praia da Foz.

114 — Mulher na fonte.

115 — Em Villa Franca.
[cf. Catálogo da exposição

116 — Fabrica de papel, Vizella.

117 — Mosteiro de Leça do Bailio.

118 — Moinhos, Barreiro.

119 — Estrada dc Bemfica.

120 — Logar de Coimbrões, arredores do Porto.

121 — Carvalheiras, Vizella.

122 — Caminho em Camarate.

123 — Ermida de S. Sebastião, Lumiar.

124 — O gigante, ao pôr do sol. Barreiro.

125 — Olival, Lumiar.

126 — Macieiras em flôr.

127 — Para a dcscascci.

128 — Bairro dos pescadores, Povoa.

129 — Costume hespanhol.

130 — Avintes, margeas do Douro.

SOUSA PINTO (J. J.) Paris.

131 — Colheita de batatas.

132 — Depois da penitencia.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

133 - Cabeça de camponez.

VAZ (J.) Calçada de Grillo, Xabregas.
(João Vaz, pesquisa google)

134 — Outomno.

135 — Castello d’Obidos.

136 — Na praia.
[cf. Catálogo da exposição

137 — Egreja da Graça, Santarém.
[cf. Catálogo da exposição

138 — O cypreste.
[cf. Catálogo da exposição

139 — Um fragmento gothico.

140 — Baixa-mar.

141 — Torre das Cabaças, Santarém.

Torre das Cabaças, Santarém, João Vaz, 1885.
Imagem: MNAC

143 — Praia-mar, Sado.
[cf. Catálogo da exposição
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

143 — Um dia chuvoso.

144 — Crepúsculo, Setúbal.

145 — Pateo de Toledo

146 — Convento de Christo, Thomar, carvão.

147 — Jorge, retrato a carvão.

VIEIRA (J. R.) Leiria.
(João Rodrigues Vieira, pesquisa google)

148 — Na janella do Alcaçar.

149 — Na toilette.
[cf. Catálogo da exposição
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

130 — Rosas.
[cf. Catálogo da exposição

151 — Flores e fructos.
[cf. Catálogo da exposição

152 — Sobeco, Nazareth.
[cf. Catálogo da exposição

153 — Flores.

154 — Seteaes, Cintra.

155 — Rapariga do Alemtejo.

156 — Pinhal, estudo.

157 — Flores.

158 — Aldeia da Telha.

159 — Flores.

160 — Pena, Cintra.

161 — Seteaes, Cintra.

163 — Rosas.

VILLAÇA (F.) Rue Gay-Lussac, 45 , Paris.

163 — Ultimo beijo do dia.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

164 — Retrato do sr. dr. Trigeiros de Martel.

Esculptura

MOREIRA RATO (J. M.) R. N. da Alegria, 47, 2.°

165 — Cain, estatua em gesso.

166 — Ovarina, estatua em gesso; em mármore.

167 — Flaneur, estatueta em barro cosido.
[cf. Catálogo da exposição

??? — A infância.
[cf. Catálogo da exposição
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]


Grupo do Leão, o 5.° Salão (de Arte Moderna), 1885.
Imagem: Hemeroteca Digital


(1) O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 1 de fevereiro de 1886

Críticas publicadas:
O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 1 de fevereiro de 1886

sábado, 10 de setembro de 2016

Chamar-lhe-ei o Grupo do Leão...

Chamar-lhe-ei o Grupo do "Leão", a este grupo do artistas distinctos, rapazes ainda todos, cheios de enthusiasmo e de talento, que resolveram ha um mez, entre boks e fumaças de cachimbo, organisar uma exposição de bellas artes, uma exposição essencialmente moderna, onde ha algumas telas preciosas, reveladoras de bôas intelligencias.

O Grupo do Leão (detalhe), Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Imagem: MNAC

É nesse grupo que se destaca a bôa physionomia sympathica de Silva Porto, o notavel paizagista que entre nós foi quem nos mostrou mais profundamente a largueza e a elevação da forma naturalista applicada á paisagem.

Ha na cervejaria Leão, da rua do Principe, uma meza mesmo á esquerda, mesmo no extremo da parede que volta para a sala dos bilhares. É n'essa mesa que o grupo se costuma reunir — o grupo dos pintores.

Ás 8 horas a mesa está cheia. A cervejaria está em actividade, na sua balburdia enorme de gente que entra e sae a cada instante, sentindo-se as portas baterem com ruidos sêccos, suffocados. No ar anda o brouhaha estranho e pezado que nasce do pisar das solas na areia do lagedo; das conversas trocadas em todas as mesas n'uma confusão desordenada de línguas; do bater agudo das pedras dos dominós nos marmores das mezas; do arrastar dos bancos na areia; dos sons finos, sonoros, das facas percutindo nas bordas dos pratos de porcelana; dos gritos dos criados pedindo bebidas; de toda esta confusão ruidosa d'uma brasserie, na hora da sua maior vida, quando não ha uma meza vaga e quando se enche pela segunda vez o cachimbo tendo já bebido tres canecas de cerveja...

Cervejaria Leão de Ouro, 1885.
Imagem: Hemeroteca Digital

A essa hora o grupo está completo. Ha ali typos certos, que nunca faltam uma noite, para quem aquelle cavaco constitue uma parte tão integrante da vida, que não deixam de comparecer cada 24 horas passadas, como não deixam um dia de almoçar e de jantar!

Entre os certos, os que estão sempre presentes, tendo diante de si o seu copo de cognac, ou o seu copo de genebra, ou o seu copo de cerveja, notam-se:

Silva Porto — um pouco curvado para meza, exhibindo a serenidade honesta e grave da sua cuidada barba, uma barba grave como a d'um medico;

Silva Porto, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Imagem: MNAC

Antonio Ramalho — o distincto paysagista, um baixo, rochonchudo, a bochecha gorda, trigueiro, atarracado, grande bigode preto, espesso e farto: um bom exemplar de rapaz sadio;

António Ramalho, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Imagem: MNAC

Malhoa — outro das mesmas proporções physicas, mas um pouco mais alto e mais claro, cara cheia, larga e expansiva, onde nasce uma pequena barba cerrada, cortada em baixo em duas pontas;

Manuel Henrique Pinto e José Malhoa, 1885.
Imagem: MNAC

Chrystino — gravador: um quasi imberbe, do phisiunomia risonha, pallido, sempre mettido num sobretudo;

Chrystino, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Imagem: MNAC

Pinto — o alto e magro do grupo, de bigode louro, crescendo com arrogancia; e outros que apparecern mais ou menos como Vieira, Martins, Vaz, Girão, etc.

Moura Girão, Rafael Bordalo Pinheiro e José Rodrigues Vieira, 1885.
Imagem: MNAC

E neste grupo entram tambem os amadores como Alberto d'Oliveira, — uma bella cabeça de nazareno de barba ruiva — e Monteiro Ramalho, o irmão do Antonio Ramalho, cujo nome tem já firmado alguns excellentes trabalhos litterarios.

José Malhoa, João Vaz,  Alberto de Oliveira e Silva Porto por Columbano.
Imagem: MNAC

Foi a esta mesa que eu conheci o distincto pintor Columbano Pinheiro que agora está em Paris, trabalhando n'um grande quadro para o Salon de 82; é n'esta meza que ás vezes, como que caida sem se saber d'onde, surge a cabeça sympathica d'um artista de muito merito, e d'um rapaz de muito espirito — Jose de Figueiredo — cofiando eternamente o seu orgulhoso bigode loiro...

Columbano por Columbano.
Imagem: MNAC

Emfim é d'esta meza servida, protegida, defendida, pelo Manuel, um dos criados da "brasserie", de grandes suissas pretas, e que, á força de convivencia com umas poucas de camadas de artistas, que tem passado por aquella meza tradiccional, dá opiniões sensatas, outras vezes um tanto arrojadas — sr. Manuel! — sobre as estampas das illustraçães e acompanha, sem nunca desafinar, em todos os coros que o grupo levante, ou de indignação por algum acto que podesse rebaixar a arte, ou de applauso por algum novo trabalho revelador de merito.

Criado Manuel, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Imagem: MNAC

É a esta meza que se debatem todos os assumptos artistiscoa do nosso paiz, analysados e discutidos com um enorme enthusiasmo de mocidade, e de talento; é a esta meza que com interessese veem os jornaes artísticos que o estrangeiro exporta, e onde são recebidos com alegria os trabalhos dos que luctam lá fóra por implantar definitivamente a "arte verdadeira", a escola do naturalismo em arte.

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel Henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: MNAC

É ali que os que voltam do estrangeiro vêm contar as suas aventuras e as suas horas do trabalho constante, é ali que elles veem confiar a meia duzial de rapazes, seus companheiros  da Academia, que os escutam com um silencio respeitoso, todas as suas expansões e todas as suas sympathias d'artista.

Foi ali, aquella estreita banca de marmore, que elles pensaram reunir todos os seus trabalhos, concluindo as telas que tinham em principio, para organisarem uma exposição brilhante, sem estarem subordinados a programmas, a escolhas e a catalogos de Academia, exposição exclusiva do Grupo do Leão, bello grupo na verdade, que se revelou agora ao publico como possuidor de magnificas intelligencias, todas modernas, todas de hoje, que acompanham na tela as tendencias actuaes da arte naturalista tão brilhantemente revelada já no livro e no jornal, pela nova geração litteraria.

Grupo do Leão, 1.° Salão de Quadros em 1881, desenho de António Ramalho.
Imagem: Hemeroteca Digital

Esta exposição merece ser analysada com cuidado por todos que se agrupam nas vastas fileiras da escola moderna, e devem todos saudar nestes rapazes cheios de talento e de iniciativa propria os companheiros sympathicos e audazes que pelo seu lado sabem dignamente arrostar com o preconceito academico, com a rotina, com a velharia emfim!

Z. Segredo


(1) Marianno Pina, O Grupo do Leão, Diário da Manhã, 15 de Dezembro de 1881