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domingo, 28 de outubro de 2018

À passagem do combóio (En voyant passer le train)

Apresentado no Salão do Grémio Artístico de Lisboa em 1897, e na Exposição Universal de Paris em 1900. O quadro, foi pintado em 1896, e comprado em Dezembro, por 280 000 reis por José Relvas. O mesmo perdeu-se no naufrágio do "Saint-André" em 1901. As medidas originais eram 400 x 650 mm.

À passagem  do comboio (segunda versão), José Malhoa, c. 1905.
Provocando

Hoje conhece-se apenas por uma reprodução do quadro gravada (xilogravura) por Charles Baude para o "Le Monde Illustré" (Litogravura s/ papel seda, CMP, Invº n.º 86.154, 350 X 450 mm), e por uma gravura de A. P. Marinho, reproduzida no catálogo da 7ª Exposição do Grémio Artístico de 1897.

Reproduzido em "Branco e Negro" de 1897, p. 102. Malhoa fará depois uma segunda versão que levou a Paris em 1905 e ao Rio em 1906."  (1)

En voyant passer le train / À passagem do combóio, 1896, 40x65. Inicialmente apresentado na 7ª Exposição do Grémio Artístico, 1897, já sem preço de catálogo – sinal de haver sido vendido, ainda com o verniz a secar, a José Relvas. O mesmo que o haveria de emprestar e perder agora.

"À passagem do comboio – é uma animada scena, tão frequente, a que o pincel de Malhôa apanhou em flagrante toda a vida e intensa expressão d’alegria expontanea. O comboio foge rapidamente e o rapazio, que correu ás barreiras a vel-o passar, ainda não acabou a esfuziada de gritos e risos; teem todos o gesto animado das grandes ocasiões, um lança a perna sobre o ripado, agita-os um extremecimento de vida, só a rapariguinha que traz ao collo a irmã pequenina, conserva attitude socegada de quem, tendo um dever a cumprir, não pode deixar-se arrebatar por enthusiasmos." – assim o descrevera Ribeiro Arthur aquando da apresentação, em 1897.

Grémio Artístico, 7.ª exposição, 1897.
O Occidente N.º 665, 20 de junho de 1897

Malhoa fará uma segunda versão de À passagem do combóio, c.1905. Aparentemente menos interessante, e onde enfia o barrete ao cachopo deitado sobre a cerca. Levá-lo-á ao Brasil em 1906, ali será vendido a "Baldº Carq.ja Fuentes" [Baldomero Carqueja Fuentes], por "1:900$000 (…) em moeda brazileira".

É, muito possivelmente, este, não datado, e que entretanto terá vindo mais recentemente repatriado. Assim, a correr, é esta a história possível das seis obras que Malhoa levou à Exposição Universal de Paris, 1900.

Depois, na volta, o barco que as trazia afundou-se. Perderam-se cinco das obras de Malhoa e mais uma série de outras de outros Artistas nacionais. Foi grande a perda - como se pode calcular! A esta exposição internacional havia ido do melhor que então por cá era produzido. (2)

"Este quadro, assim descrito, ou é coisa completamente desconhecida ou, entre tudo o que hoje sabemos, só poderá ser À passagem do combóio, 1896. O que é muito provável, se olharmos bem para o que dele resta.

À passagem  do comboio, José Malhoa, 1896.
En voyant passer le train, gravura de Charles Baude, segundo o quadro perdido de Malhoa.
Provocando

A assim ser, estaríamos apenas perante uma parte dos irmãos e não «todos os filhos em forma» – o que se afigura perfeitamente natural. Por essa data, 1895/6, os três mais velhos, Saúl, Aida e Maximino – que, aliás, quase nunca aparecem nesta saga familiar a tinta d’óleo – teriam todos mais de quatorze anos e, por essa altura e naquela vida, era idade onde já se não andava na gandaia… a labuta à séria ocupá-los-ia.

Deste modo, o retrato da «extremosa mãe, com todos os filhos em forma, quando entre as oito e as nove (…) lhes ministrava o repasto do almoço» resumir-se-á, provavelmente, aos mais novitos, aos que já com algumas obrigações familiares – cuidar dos animais e da criação, levar e trazer o gado do pasto, ir às pinhas ou aos gravetos… – ainda tinham vida livre de garotada.

O cenário não é estranho na obra figueiroense de Malhoa – já o havíamos divisado em Os ouriços, 1894, e podemos vê-lo n’ A Sesta (a dos ceifeiros), 1895, e n’ As Cócegas, a de 1894 e nas de1904, por exemplo.

O "amigo António", com oito ou nove anos, esparramado sobre o varal da vedação; o Noé, já com doze ou treze, de barrete e calças rotas nos joelhos; o Venâncio, agora com seis anitos, empoleirado na trave, "ainda não acabou a esfuziada de gritos e risos"; a Preciosa, com nove ou dez anos enfezados, subiu à pedra para ganhar altura e segura uma das cestas do almoço já tragado – certamente veio com a Mãe trazer a bucha aos catraios que andavam com as ovelhas no restolho deixado da ceifa – a mãe Tereza trouxe, além da outra cesta, o mais pequenito ao colo (não sabemos se o Adelino ou o Zé…).

Esta é uma narração perfeitamente possível deste quadro. E, a acreditar no que nos conta António, bem provável de ser real.

En voyant passer le train, d'aprés Malhoa, Charles Baude.
Galerie Napoléon

A outra, a frenética de Ribeiro Arthur, também – basta a sugestão dos paus de fio e imaginar o cavalete de Malhoa dentro duma carruagem em movimento… o título, bem engendrado por Malhoa, inspirado nas muitas viagens entre Lisboa e o Paialvo, faz o resto. (3)


(1) Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra
(2) Provocando, Paris 1900 L'Exposition Universelle
(3) http://provocando-umateima.blogspot.com/…/o-coelho-ver-pass…

Artigos relacionados:
O Grémio Artístico (7.ª exposição, 1897)
Arte portuguesa na Exposição Universal de 1900

Leitura adicional:
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (II), 1898

sábado, 5 de maio de 2018

Arte portuguesa na Exposição Universal de 1900

Entre os pintores expostos, Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929), do qual o Museu d'Orsay possui hoje uma natureza morta, recebe uma medalha de ouro pela sua "Soirée chez lui", tela realista pintada em Paris, representando um grupo de melómanos num salão burguês.

Paris, vue panoramique de l'Exposition Universelle de 1900.
Image: Sempervirens

Mas a exposição termina com uma catástrofe: todos as obras apresentadas estão reunidos no mesmo navio, o Saint-André, que naufragou no caminho de volta. Uma "meia dúzia de obras-primas", incluindo um retrato de Eça de Queiroz, por Columbano, afundaram-se assim ao largo de Sagres. (1)

Soirée chez lui ou Concerto de amadores, Columbano, 1882.
Da esquerda para a direita:
Maria Augusta Bordalo Pinheiro, Adolfo Greno, um cantor italiano, Josefa Greno e Artur Loureiro ao piano.
Imagem: MNAC

PEINTURES ET DESSINS

Dom Carlos 1°, roi de Portugal.
1. Le Lever des filets d’une Madrague; pastel.

O levantar de uma armação do atum (Algarve), D. Carlos de Bragança, 1899.
Imagem: Hemeroteca Digital

Alto Mearim (D. Maria Luisa do).
2. Fileuse du Minho; pastel.
3. Etude; pastel.

Alto Mearim (Comtesse du).
4. La Bible.
5. Poveretta.
6. Portrait de M. de V.
7. Sœur Marianne; pastel.

Soror Mariana, Condessa do Alto Mearim.
Imagem: Branco e Negro, 17 de maio de 1897

Assis (D. Branca).
8. La Mère Amélie.

A tia Aurélia, Branca Assis.
Imagem: Branco e Negro, 17 de maio de 1897

Barbosa (Albino Pinto Rodrigues) .
9 à 11. Portraits; peintures sur faïence.

Bandeira (D. Laura Sauvinet).
12. Victor Wagner, luthier portugais.

Victor Wagner no seu atelier, Laura Sauvinet Bandeira.
Imagem: Branco e Negro, 17 de maio de 1897

Bordallo Pinheiro (D. M. A.).
13 à 15. Fleurs.

Braga (D. Emilia Santos).
16. Sœur Marianna.
17. Endormi.
18. Rêverie.
19. Varina, marchande de poissons.

Brito (José).
20. Martyre du fanatisme.

Mártir do fanatismo, José de Brito, c. 1895.
Imagem: MNAC

21. La fable et la vérité.
22. Portrait de M. le comte de L.

Carneiro Junior (A. Texeira).
23. Portrait de R. C.
24. Portrait de A. C.
25. L’Amour.
26. La Source du Bien.

Columbano (Bordallo Pinheiro).
27. Vins et fruits.
28. Saint Antoine de Lisbonne.

Santo António de Lisboa, Columbano, 1898.
Imagem: do Porto e não só...

29. La Tasse de thé.

A chávena de chá, Columbano, 1898.
Imagem: MNAC

30. Portrait de l'acteur J. Rosa.

Retrato do actor João Rosa, Columbano.
Imagem: Ruas de Lisboa...

31. Portrait de l’acteur Taborda.
32. Portrait de M. Eça de Queiroz.

Arte Pintura Columbano Retrato de Eça de Queiroz 01 .jpg
Imagem: MatrizNet

33. Portrait de M. le comte d'Arnoso.
34. Portrait de M. Joao Barreira.

Professor João Barreira, Columbano Bordalo Pinheiro, 1900.
Imagem: Wikimedia

35. Portrait de M. Trindade Corelho.

Retrato de Trindade Coelho, Columbano, 1898.
Imagem: MNAC

36. Portrait de M. H. de Vasconcellos.

Condeixa (Ernesto Ferreira).
37. Vasco de Gama devant le Samorim de Galicut.
38. Portrait de M. Prosper Lasserre.
39. Portrait de l’Auteur Cunha (Antonio Candido da).
40. Dolmens.
41. Coquelicots.
42. Viatique (effet de nuit).

Gameiro (Alfredo Roque).
43 à 47. Aquarelles.

Guedes (Alfredo).
48 à 50. Aquarelles.

Keil (Alfredo).
51. Études.
52. Motifs du Nord du Portugal.

Loureiro (Arthur).
53. La Vision de saint Stanislas Costha.

Malhoa (José)
[v. O Grémio Artístico (7.ª exposição, 1897)].
[v. Provocando: Paris 1900 – L'Exposition Universelle]
54. Les Potiers.

55. A blanchir le linge.
56. Les Boulangères.

As Padeiras, Mercado em Figueiró, José Malhoa 1898.
Imagem: Wikimedia

57. Le Professeur titulaire de chaire.
58. Portrait du prieur de Constancia.
59. En voyant passer le train.

À passagem  do comboio, José Malhoa, 1896.
En voyant passer le train, gravura de Charles Baude, segundo o quadro perdido de Malhoa.
Imagem: Provocando

Mattoso da Fonseca (Joao G.).
60. Portrait de Mme. Mattoso da Fonseca.

Moura (Edouardo de).
61. Gardeuse de vaches.

Munrô (D. Fanny).
62. Marée montante.

Nogueira (D. Leonor da Silva).
63 et 64. Portraits sur porcelaine.

Pinto (Alberto).
65. Retour de la ville.
66. Gardeuse d’oies.
67. Intérieur breton.

Pinto (Manuel-Henrique).
68. Pâturage des porcs.

Pâturage des porcs, Manuel Henrique Pinto.
Imagem: Catalogue officiel illustré de l'Exposition

Prat (Arthur).
69. En songeant à lui.
70. La Pèche de la bucarde.
71. Dans un atelier de photographe.

Ramos (Julio).
72. Récolte de maïs.
73. Ecole buissonnière.
74. Crépuscule.
75. Rentrée des bateaux.
76. Effet du couchant.

Reis (Carlos).
77. Mme. M. M.

Mme. M. M., Carlos Reis.
Imagem: Catalogue officiel illustré de l'Exposition

78. Portrait de ma mère.

Retrato de minha mãe, Carlos Reis.
Imagem: Catalogue officiel illustré de l'Exposition

79. Portrait de ma mère.

Retrato de minha mãe, Carlos Reis.
Imagem: Hemeroteca Digital
80. Matin à Clamart.

Manhã em Clamart, Carlos Reis, 1889.
Imagem: MatrizNet

81. Dans la prairie.
82. L’Automne.
83. Coucher de soleil.

Ribeiro (Arthur B. S.).
84. Tambour d’infanterie; aquarelle.

Ribeiro (Eduardo Teixeira Pinto) .
85. Dévotion.

Rio (Jules, Vsse. de Sistello).
86. La Fin d’une ondine.
87. Rose de Noël.
88. Irène.
89. L’Anniversaire.

Rodrigues (Adolpho).
90. La Gardeuse.
91. Sabotiers bretons.
92. Paysage breton.
93. Jeunesse.
94. Portrait de Mme. la baronne do S. C.

Salgado (José Vellozo).
95. Jésus.
96. Vasco de Gama au Samorim de Calicut.

Vasco da Gama perante o Samorim de Calecute, Veloso Salgado, 1898.
Imagem: Wikipédia

97 à 102. Portraits.
103. Portrait de Mme. Mouchon.
104. Portrait du Dr. Mello Vianna.

Santos (D. Laura). 
105. Une consultation.

Santos (D. Virgina).
106. Les Sardines.

Silva (José Silva d’Almeida e).
107. Chez le bon papa.
108. Que ton nom soit béni.
109. Après le repas.

Silva Nogueira (D. A. Pinto Leite).
110 et 111. Portraits sur porcelaine.
112. Objet de fantaisie.

Souza Pinto (José-Julio de).
113. Le Chant de l’Alouette.
114. Dans l'eau.
115. Chloé enfant.

Chloé enfant, Souza Pinto.
Imagem: Catalogue officiel illustré de l'Exposition


116. Les Châtaignes.

Les chataignes [As castanhas], Souza Pinto.
Imagem: Catalogue officiel illustré de l'Exposition

117. Au coin du feu.

Au coin du feu [À lareira], Souza Pinto.
Imagem: Catalogue officiel illustré de l'Exposition

118. La Forge.
119. Le Retour des bateaux.

A volta dos barcos, Sousa Pinto, 1891.
Imagem: Douta melancolia

120. L’Été à Vizella.
121. Les Mousses.
122. Le Scorff.

Torquato Pinheiro (A. José).
123. La Récolte de maïs. 

Paris, Grand Palais, plan du rés-de chaussée, 1900.
Imagem: Internet Archive

SCULPTURE

Alves (Venancio P. M.).
1. Médailles.

Costa (Thomas F. d’Araujo).
2. Dans la Forêt.
3. La Loi chrétienne.
4. Infant D. Henrique.
5. Nymphe du Mondego.

Gouveia (F. Pereira da Silva).
6. Regret.
7. Béatrice de Portugal.
8. Portrait.
9. Médaillon.
10. La Calomnie.

Lima (Casimiro José de).
11. Médaille.

Lopes (Antonio Teixeira).
12. La Veuve.

A viúva, Teixeira Lopes, 1893.
Imagem: MNAC


13. Caïn.

Caim, Teixeira Lopes.
Imagem: Notas d'Arte, Gutenberg.org

14. Saint Isidore de Séville; bois peint.
15. La Charité.


Caridade, Teixeira Lopes, 1894.

16. Etude d’enfant.
17. La Douleur.
18. L’Histoire.
19. Portes pour l’église de Candelarra à Rio de Janeiro.
20. Tête d’étude (vieille femmê).
21. Monument Oliveira Martius.
22. Statuette.

Lopes Junior (José Teixeira).
23. Tête de gamin.

Meirelles (Joaquin Pereira).
24. Martyr.

Paris, Grand Palais, Exposition Universelle, Le Petit Journal, 1900.
Image: Artprecium

Pinto (Antonio Alves).
25. Portrait.

Rato (José Moreira).
26. Dr. Cunha Belem.

Ribeiro (Aleixo de Queiroz).
27. Dernière pensée.
28. Vasco de Gama.
29. Lisbonne.

Sá (A. Fernances de).
30. Enlèvement de Ganymède.


Paris 1900 Arte Escultura António Fernandes Sá Rapto de Ganímedes 01.jpg
Imagem: Hemeroteca Digital

31. Tête d’expression.
32. Vieille Femme.
33. La Vague.

A vaga, António Fernandes Sá.
Imagem: Catalogue officiel illustré de l'Exposition


Teixeira Lopes (José Joaquin).
34. Bas-relief.
35. Médaillon.
36. Tête de jeune Fille.
37. Christ.
38. Médaillon. (2)


(1) Agnès Pellerin, Les Portugais à Paris: au fil des siècles & des arrondissements...
(2) Catalogue officiel illustré de l'Exposition décennale des beaux arts de 1889 à 1900

Mais informação:
Le Portugal à l'Exposition
Notice concernant le Portugal à la Exposition Universalle de 1900
Chefs d'oevre, Exposition universelle internationale de 1900
José de Figueiredo, Portugal na Exposição de Paris, 1901
Notas d'Arte, 1906
José-Augusto França, L'Art dans la société portugaise au XIXe siècle, 1964
L'Exposition 1900 : renseignements pratiques sur Paris et l'Exposition

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Josepha Greno: flores e fructos

E agora regosigemos os olhos com variegadas flores que vivem numas deliciosas télas, pintadas pela Ex.ma Sr.a D. Josepha Garcia Greno, uma hespanhola que esposou um portuguez, o sr. Greno. 

Retrato de Josefa Greno (detalhe), Adolfo Cesár Medeiros Greno, 1887.
Imagem: DezenoveVinte

Um casal de artistas. Sem rivalidades. Casados para o amor e para a arte.

Ella cultivando as flores dos seus quadros, que nascem debaixo do seu pincel, com espontaneidade, com collorído, com viveza e graça natural, numas composições imprevistas, como "Um ninho de flores" e tantos outros quadros que reacendem o aroma das rosas e dos lilazes.

Elle cultivando o retrato com certa distincção, muito principalmente no de M.lle Nascimento, uma cabeça primorosamente pintada, com frescura, suave, destacando-se do fundo, sem dureza, muito melhor que "Las Pritaneras", urna hespanhola que, sentada nos degraus da sua porta, entre uns vasos de flores, dedilha na viola com a qual se não sente á vontade, numa posição a que mostra estar pouco habituada, e que o redondo do desenho torna ainda mais sensível, alem da prespectiva não iludir o suficiente para que a figura se despegue do fundo. (1)

Soirée chez lui ou Concerto de amadores, Columbano, 1882.
Da esquerda para a direita: Maria Augusta Bordalo Pinheiro, Adolfo Greno, um cantor italiano, Josefa Greno e Artur Loureiro ao piano.
Imagem: MNAC

Greno gosta d'aformosear os seus esmerados estudos de figura, tratados pacientemente, e retoca as faces das pessoas retratadas com uns suaves tons roseos, que eu, por desventura minha, não estou afeito a ver por essas ruas e encruzilhadas nas caras innumeraveis dos tranzeuntes; todavia, aqui lhe confesso, effusivo e grato, que o antiquado candeeiro de latão amarello, com os tres bicos no bojo e a sua alta haste bandeirolada, introduzido solitariamente n'um dos seus quadros, provocou-me uma saudade saborosa das boas noites passadas no conchego acalentado e pacifico dos serões d'aldeia. 

A sr.a Josepha Garcia Greno expõe de novo as suas composições decorativas de fructas e flores, tão vigorosamente executadas; dentre ellas, destaco uma tela magnifica, em que se desmancha ao acaso um molhe espesso d'amores perfeitos; emquanto que outra pinturinha, archaica e alegre, com um ramo de rosas brancas recortadas em fino contorno sobre o fundo dourado, tem um bonito ar byzantino. (2)

Natureza morta, Josefa Greno.
Imagem: Palácio do Correio Velho

A ex.ma Sr.a D. Josepha Greno uma das mais distinctas artistas do nosso paiz expõe um grande numero de télas, a maior parte das quaes nos revelam a grande technica, certeza e felicidade de toque, de que é possuidora a illustre artista.

Os n.os 51, 52, 59, 61 e 67 são uma grande belleza de colorido e na verdade muito decorativos. O n.° 67 "Amores perfeitos", especialmente é muito primoroso.

Jarra com flores, Josefa Greno.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Alguns ha porém que gostamos menos; o n.° 56 "Malvaiscos" por exemplo é pouco cuidado; aqueles tons verdes são demasiado falsos e desagradaveis. N'este grupo incluiremos ainda o n.° 55 "Amores perfeitos", que temos de classificar de "pochade" pouco feliz. (3)

A sr.a D. Josefa Greno, sem apresentar nenhum trabalho comparavel ao "Melão francez" do anno passado, sustenta no entanto os seus creditos de eximia pintora de flores.

Vaso com rosas, Josefa Greno.
Imagem: Palácio do Correio Velho

Dos seus quadros são especialmente notaveis os "Malvaiscos e fructos", as "Rosas e despedidas de verão" e os "Fructos", tratados com a maestria que lhe é habitual; o "Cesto de rosas", de tonalidade delicada e composição muito feliz, e as "Estrellas do Egypto", tambem muito bonito de aspecto; e ainda as "Rosas" e as "Rosas e papoulas", de factura vigorosa e quentes de cor.

Vaso com flores, Josefa Greno.
Imagem: Palácio do Correio Velho

Das paisagens expostas pela mesma senhora, bastante inferiores ás suas flores, é ainda assim muito agradavel de aspecto a "Devesa do Cumulo", numa gamma delicada e branda. (4)

A sr.ª D. Josepha Garcia Greno [(1850-1902)] é uma artista festejada, muito conhecida pelos seus bellos quadros de flôres, e se as suas paisagens que este anno expõe se podessem medir com as flores que sabe pintar, teria augmentado consideravelmente os seus creditos de pintora.

Flores, Josefa Greno.
Imagem: Palácio do Correio Velho

Infelizmente não acontece assim e os seus quadros de paizagem deixam tanto a desejar como os seus quadros de flores satisfazem perfeitamente.

Flôres, illustre artista, é que deve pintar; estas agradecem-lhe muito mais os seus cuidados, dando-lhe mais triumphos como os que tem tido em outras exposições, onde as suas flores tem sido devidamente apreciadas, ainda que n'esta não foi tão feliz, talvez porque descurasse um pouco os seus "Lilazes", "Malvaiscos e Rozas" preoccupada com as "Margens do Agueda" e as "Margens do Vouga" que afinal a não compensaram condignamente.

Lilazes, Josefa Greno.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

De todos os quadros o que mais nos agradou foi o "Rosas e malmequeres". (5)

D. Josefa Greno anima a exposição com o fresco colorido das suas bellas flores. As — Papoulas — são uma gentileza. Em alguns outros quadros os fructos têem bastante perfeição e muita verdade. As composições são sempre graciosas, o desenho, em geral, bom e em todos os seus trabalhos se encontra alguma cousa mais que o correcto. — Preparos para o festim — é uma bonita composição, animada na sua insensibilidade, que é pena ter algumas imperfeições no desenho, e estarem pouco tratados os primeiros planos.

Esta senhora, uma verdadeira artista, cultiva amorosamente o genero a que se dedicou, e as suas télas offerecem sempre uma variedade e encanto seductores. (6)

Flores [Malmequeres e papoulas], Josefa Greno.
Imagem: Veritas art auctioneers

D. Josepha Greno espalha pelas salas profusamente, rosas, lilazes, papoulas, malmequeres e amores perfeitos, depois, entrando nos dominios de Pomona, offerece-nos morangos, cerejas e outros fructos apeteciveis, mas alguns d’estes trabalhos são menos felizes do que outros, anteriores, que lhe fizeram uma merecida reputação. (7)

Peónias, Josefa Greno.
Imagem: Um percurso pela pintura...

Foi assim que um dia d'estes a cidade toda se commoveu profundamente ao ter noticia da morte de Adolpho Greno assassinado a tiro de revolver por sua propria mulher, D. Josepha Greno, tão conhecida entre todos os que frequentam exposições de bellas artes pelos seus primorosos quadros de flores. 

Retrato de Josefa Greno por Adolfo Greno.
Imagem: MatrizNet

Tinham por amor casado ha muitos annos, julgava-os felizes quem de perto os não conhecia. Atribue-se o crime a loucura da mulher, que, ha muito, com ciumes atormentava o marido, já tendo ha meses, disparado sobre elle um tiro de revolver. 

E elle perdoara, e tão tranquilo vivia agora que, quando novamente ella desfechou sobre elle, uma d'estas madrugadas, quatro tiros d'outro revolver que comprara, o pobre Greno, dormia socegado, refazendo forças para mais um dia de trabalho.

Julgam-a doida e assim deve estar, nem é facil por outra forma explicar o sangue frio que mostrou nos primeiros instantes que decorreram depois tio assassinato, não querendo sahir de casa sem primeiro ter almoçado placidamente.

Entre Rosas, Josefa Greno.
Imagem: Branco e Negro, 17 de maio de 1897

Adolpho Greno, que nunca pela pintura conseguira alcançar nome ilustre, dedicava-se ultimamente á restauração de quadros velhos. Maior nomeada tinha entre os artistas a Sr.a D. Josepha Greno, sua esposa assassina.

Tragico fim d'um casal de artistas! (8) 


(1) O Occidente N.º 311, 11 de agosto de 1887
(2) O Occidente N.º 349, 1 de agosto de 1888
(3) O Occidente N.º 445, 1 de maio de 1891
(4) O Occidente N.º 481, 1 de maio de 1892
(5) O Occidente N.º 526, 1 de agosto de 1893
(6) Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (I), 1896
(7) Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (II), 1898
(8) O Occidente N.º 810, 30 de junho de 1901

Artigos relacionados:
Grupo do Leão (6.ª exposição, 1886)
Grupo do Leão (7.ª exposição, 1887)
Grupo do Leão (8.ª. exposição, 1888)

Mais informação:
Cabral Moncada Leilões
Palácio do Correio Velho, leilão 166
Palácio do Correio Velho, leilão 290
Greno, Josefa Garcia Saéz (MatrizNet)
Patrimónios pouco visíveis: as pintoras Josefa Greno (1850-1902) e Fanny Munró (1846-1926)
Expresso

terça-feira, 6 de junho de 2017

Silva Porto (pequena biografia)

Antonio Carvalho da Silva Porto nasceu no Porto a 11 de novembro de 1850. De 1865 a 1873, seguiu alli com distincção os cursos de architectura civil, esculptura e pintura, na Escola de Bellas-Artes. No ultimo teve por mestre João Corrêa. Em 1873, tendo feito concurso, partiu para o extrangeiro, como pensionista do Estado, a completar a sua educação.

As Margens do Oise em Auvers, Silva Porto, 1876.
Imagem: MNSR

Dirigiu-se primeiro a Paris, onde esteve até 1877 e onde foi discipulo de Cabanel, Daubigny, Beauverie, Yvon e Groseillez [v. Silva Porto, António Carvalho de (MatrizNet)]. 

Cancela vermelha (Barbizon), Silva Porto, 1880 [?].
Imagem: SlideShare

N'esse anno [1877], foi para Roma concluir os seus estudos.

Costume de Capri, Silva Porto, 1877.
Imagem: MNSR

Costume da campanha romana, Silva Porto, 1877-1888.
Imagem: MNSR

De Italia voltou a França, realisando em seguida, á sua custa, uma viagem pelos museus da Belgica, Hollanda, Inglaterra e Hespanha.

Margens do Loire [actualmente no MNGV], Silva Porto [1879].
Imagem: MatrizNet

O lago de Enghien, Silva Porto, 1879.
Imagem: MNAC

No seu regresso a Portugal em 1879, foi logo nomeado interinamente, para um dos logares de professor de pintura na Escola de Bellas-Artes de Lisboa,— togar que a morte de Annunciaçáo (em 3 de abril d'aquelle anno) deixara vago. Em 1883, passou á effectividade.

Silva Porto concorreu ás exposições do Salon, em Paris, nos annos de 1876, 1878 e 1879, merecendo as suas obras a attenção da critica.

Pequena fiandeira napolitana, Silva Porto, c. 1877.
[Salon de Paris em 1878]
Imagem: MNAC

Enviou tambem alguns quadros á exposição universal que se realisou n'aquella cidade em 1878. 

A tigela partida [Un petit malheur], Silva Porto; 1877-88.
[Exposição Universal de Paris em 1878]
Imagem: MNSR

E quando, em 1881, a Hespanha celebrou o bi-centenario de Calderon, expoz diversos trabalhos em Madrid.

Seara (Arredores de Paris) [Um campo de trigo], Silva Porto, 1878-1879.
[Exposicion General de Bellas Artes, comemorativa do Centenário de Calderon]
Imagem: porto24

Em Portugal, apresentou-se pela primeira vez em 1880, n'uma exposição organisada pela Sociedade Promotora das Bellas-Artes. 

A Charneca de Belas [a introducção do Naturalisno em Portugal], Silva Porto, 1879.
[12.ª Exposição da Sociedade Promotora de Belas Artes]
Imagem: MNAC

Depois, tomou parte nas oito exposições realisadas, de 1881 a 1888, pelo Grupo do "Leão", de que era o mestre, o chefe, — e em 1891, 1892 e 1893, nas exposições promovidas pelo Gremio Artistico, de que foi presidente e um dos fundadores [v. tema: Grupo do Leão].

Contrariada, Silva Porto, c. 1884.
[4.ª exposição de quadros modernos, 1884 (Grupo do Leão)]
Imagem: MutualArt

Figuraram ainda trabalhos seus na decima-terceira e na decima-quarta exposição da Sociedade Promotora, e no Porto repetidas vezes.

Á exposição industrial que em 1888 se realisou em Lisboa, enviou dois dos seus melhores quadros: — A Salmeja e A volta do mercado. O jury conferiu-lhe a medalha de ouro.

A Salmeja, Silva Porto, 1884.
[Exposição Industrial de Lisboa, 1888]
Imagem: Viagens Pelo Oeste

A volta do mercado, Silva Porto, 1886.
[Exposição Industrial de Lisboa, 1888]
Imagem: MNAC

Silva Porto foi um dos artistas que tomaram parte nos trabalhos da solemnisação do tricentenario de Camões. É seu o desenho do carro da guerra. 

Carro triumphal militar (detalhe) desenhado por Silva Porto, 1880.
Imagem: Hemeroteca Digital

Morreu em Lisboa no 1.° de junho de 1893. Formou-se logo uma commissão de artistas, alumnos e professores da Academia de Bellas-Artes, para promover algumas homenagens a Silva Porto.

Essa commissão organisou uma interessante exposição de quasi toda a obra do artista em junho de 1894

Pátio rural com figura (estudo), Silva Porto.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Dois annos depois, effectuava a transladação dos restos mortaes de Silva Porto para um modesto tumulo, erigido por subscripçáo publica no cemiterio oriental. Projecta tambem erguer um pequeno monumento ao grande paizagista em um dos jardins publicos de Lisboa. (1)


(1) Manuel Penteado, Silva Porto, Serões n.º 6, dezembro de 1905

Artigo relacionado:
António Carvalho da Silva Porto, breve roteiro

Temas:
Grupo do Leão
Pintura

Informação relacionada:
Silva Porto, António Carvalho de (MatrizNet)
Catalogo dos trabalhos de Silva Porto expostos na Escola de Bellas-Artes de Lisboa, em junho de 1894, Lisboa, Typ. Franco-Portugueza, 1894

Mais informação:
Silva Porto (Wikimedia Commons)