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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Lisboa e o Tejo em 1650

A armada do parlamento (ou do British Commonwealth)

Em 1650 ocorreu um grave incidente diplomático, no termo da guerra civil inglesa que opôs Carlos I ao parlamento, e que terminou com a execução do rei em Janeiro de 1649. Uma armada de parciais do rei veio refugiar-se no porto de Lisboa e o parlamento enviou outra para bloquear o Tejo. (1)

Vista geral da cidade de Lisboa capital de Portugal antes do terremoto.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

No dia 20 de outubro de 1649, o príncipe Rupert (1619-1682) saiu do porto de Kinsale no navio de comando, o Constant Reformation (40 peças), juntamente com o Convertine (40), navio de comando do príncipe Maurice, o Swallow (36) e o Blackamoor Lady (18), os quais tinham feito parte da esquadra que saíra de Helvoetsluys em janeiro.

Três navios adicionais, o Scott (30 peças), o Mary (14), e o Black Knight (14), eram navios capturados e reconvertidos. A esquadra Realista partiu do sul da Irlanda e atravessou o Golfo da Biscaia em direcção a Portugal. No início do ano, Rupert tinha recebido uma resposta favorável quando escrevera ao rei D. João IV pedindo autorização para basear os seus navios em Lisboa, no caso de ser forçado a deixar a Irlanda.

Depois de uma viagem atribulada durante a qual foram capturadas cinco embarcações os Realistas chegaram a Lisboa por volta do dia 20 de novembro de 1649. Três dos navios capturados foram vendidos e dois incorporados na esquadra como Second Charles (40 peças) e Henry (36). Rupert também comprou um navio holandês, que se tornou o Black Prince (30). O Blackamoor Lady foi vendido e o Convertine posto de parte de modo a financiar armas e tripulação para os novos navios.

Lisbone, Ville capitale du Royaume du Portugal... Pierre Aveline (1656-1722) entre 1680 e 1720.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Apesar da simpatia do rei João IV (1604-1656) por Rupert, o seu "ministro em chefe", o Conde de Miro [(?) o cargo de Secretário de Estado era ocupado por Pedro Vieira da Silva, no texto existe alguma confusão possivelmente com o Conde de Miranda], temer que um apoio aberto aos Realistas ingleses pudesse deteriorar o comércio português e também encorajar o Commonwealth a uma aliança com a Espanha, inimiga de Portugal.

De Miro era apoiado pela comunidade mercantil portuguesa. Os portugueses levantaram objeções à venda da carga de um dos navios capturados e o príncipe Maurice foi impedido de embarcar numa nova viagem para tomar futuras capturas.

Contudo, Rupert e Maurice trabalharam de modo a fortalecer as suas relações em Lisboa fazendo visitas frequentes ao rei João e juntando-se à vida social da corte portuguesa. Travaram amizades com a nobreza local e atá ganharam apoio do clero, que dissera que abandonar os príncipes aos rebeldes ingleses traria desonra a Portugal.

Lisbone, Ville capitale du Royaume du Portugal... François-Philippe Charpentier (1734-1817),
baseada em gravura precedente de Pierre Aveline (1656-1722).

Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

No início de 1650, o Conselho de Estado inglês reconheceu Rupert como pirata e encarregou Robert Blake, General-at-Sea, de destruir a esquadra Realista. Blake saiu de Portsmouth em março de 1650 com uma frota poderosa de 15 navios.

O navio de comando era o George (54 peças), o vice-almirante era Robert Moulton no Leopard (56), o contra-almirante era Richard Badiley no Entrance (46). Os outros navios de guerra eram o Bonaventure (42), o Adventure (40), o John (30), o Assurance (32), o Constant Warwick (32), o Tiger (36), o Providence (30) e o Expedition (30). A frota era suplementada pelo navio de fogo [brulote] Signet e os ketches Tenth Whelp, William and Patrick. 

Charles Vane, irmão de Sir Henry Vane, acompanhou a expedição com a responsabilidade de conduzir as negociações diplomáticas com o governo português, que então não reconheceu o Commonwealth of England.

Lisboa, Terreiro do Paço, A entrada do Embaixador Francisco de Mello e Torres, Dirck Stoop, 1662.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

A frota de Blake chegou à Baía de Cascais na foz do rio Tejo no dia 10 de Março de 1650. Blake imediatamente enviou uma mensagem ao rei João pedindo o uso do porto de Lisboa para a frota do Commonwealth e a cooperação de Portugal contra os piratas do príncipe Rupert.

No dia seguinte, apesar disso, os fortes portugueses dispararam tiros de aviso quando Blake tentou subir o rio Tejo em direcção ao lugar de ancoragem de Rupert. Blake concordou em retirar durante as negociações diplomáticas.

Charles Vane negociou uma concessão dos portugueses segundo a qual a frota do Commonwealth poderia entrar na baía de Oeiras no caso de mau tempo. Blake imediatamente aproveitou a oportunidade para ancorar a duas milhas rio abaixo dos navios de Rupert.

Torre de S Julião da Barra, João Christino, c. 1855.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Como as negociações continuaram durante as semanas seguintes, os portugueses concordaram em deixar os marinheiros do Commonwealth vir a terra, o que resultou em várias rixas de taberna entre os tripulantes das frotas rivais.

Na sequência de uma alegada emboscada e tentativa de assassínio pelos marinheiros do  Commonwealth quando Rupert e Maurice estavam numa caçada, os Realistas retaliaram enviando um barco disfarçado de venda de fruta armadilhado com uma bomba de fogo, que quase conseguiu rebentar o Leopard.

Noutro encontro, os homens de Rupert atacaram um grupo do Bonaventure que fazia aguada. Um marinheiro foi morto e três outros feitos prisioneiros. Apesar destes encontros, contudo, a situação continuou sem saída.

Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém, Dirck Stoop, c. 1660 - 1670, 1662.
Imagem: Mauristhuis Museum

D. João IV recusava deixar Blake atacar os navios de Rupert enquanto estes estivessem sob proteção portuguesa, e Rupert não podia arriscar deixar o porto de Lisboa com a poderosa frota do Commonwealth por perto.

Em meados de maio, Blake retirou do rio Tejo, na esperança de enganar a esquadra Realista. Por volta de 21 de maio, Blake apreendeu dez navios mercantes ingleses fretados a uma frota portuguesa que saía para o Brasil.

Quando Blake se ofereceu para libertar os navios se o rei João entregasse os navios do príncipe Rupert, o rei furioso ordenou a prisão de todos os súbditos ingleses em Lisboa conhecidos pela sua simpatia para com o Commonwealth e proibiu Blake de entrar no Tejo ou abastecer água em terra.

D. João, duque de Bragança, Peter Paul Rubens,  c. 1628.
Imagem: Wikipédia

Poucos dias depois, General-at-Sea, Edward Popham reforçou a frota de Blake com mais oito navios: o de 68 peças, Resolution, o Andrew (42), o Phoenix (36), o Satisfaction (26), quatro navios mercantes armados e um muito necessário navio de armazenamento. Popham trouxe ordens revistas pelo Conselho de Estado que autorizavam Blake a atacar os navios mercantes portugueses se o rei João continuasse a obstruir o Commonwealth.

Sob a pressão crescente do  Commonwealth inglês e dos seus próprios conselheiros, o rei João tentou arrajar uma solução honorável para a situação oferecendo o uso da frota portuguesa para escudar a fuga do príncipe Rupert de Lisboa.

No dia 26 de julho, quando oito dos navios de Blake foram a Cadiz reabastecer provisões. A esquadra de Rupert saiu do porto de Lisboa apoiada por dois navios franceses, treze navios de guerra portugueses, alguns barcos de fogo e embarcações mais pequenas.

Rupert em visita à corte de Charles I, Anthony van Dyck, c. 1637.
Imagem: Wikipedia

Os aliados tiveram relutância em afrontar a frota do Commonwealth e apesar de Blake estar determinado em conter a esquadra de Rupert, não quis arriscar um envolvimento total até ao regresso da esquadra de Cadiz.

Durante três dias as frotas opostas manobraram na foz do Tejo com trocas ocasionais de tiros quando Rupert tentava aproveitar as mudanças do vento e da maré para se evadir aos navios de Blake e escapar-se para o mar aberto.

Na manhã de 29 de julho, a esquadra de Cadiz tinha regressado e a frota do Commonwealth tinha de volta a sua força total. Com Blake preparado para lançar o ataque em toda a escala, a frota aliada retirou para o abrigo das armas do porto de Lisboa.

A batalha dos quatro dias (1666), novas tácticas de Rupert, Abraham Storck, c. 1670.
Imagem: Wikipedia

Nos inícios do mês setembro de 1650, o Conselho de Estado chamou Popham com o maior número de navios possível que pudesse dispensar da frota do Commonwealth. O bloqueio de Lisboa era caro a sustentar e os navios eram também precisos para apoiar a invasão da Escócia por Cromwell.

No dia 3 de setembro, Popham partiu para Inglaterra com oito navios, incluindo o poderoso Resolution, deixando Blake com nove navios para observar o príncipe Rupert. Três dias depois da partida de Popham, os realistas aproveitaram as condições do nevoeiro para fazer uma nova tentativa para escapar mas fora avistados e atacados pela frota do Commonwealth.

Durante este encontro, o navio de comando de Rupert, Constant Reformation, foi atacado pelo navio de comando de Blake, George. Uma descarga de tiros do George mandou abaixo o gurupés do  Constant Reformation, e os Realistas foram mais uma vez forçados a retirar para Lisboa.

A batalha de Texel (1673), o fim da carreira de Rupert como almirante, Willem van de Velde the Younger, 1687.
Imagem: Wikipedia

No dia 14 de setembro, Blake avistou a frota portuguesa do Brasil que regressava a Lisboa. Coma autorização do Conselho de Estado para atacar o comércio português, Blake movimentou-se para intercetar a frota. 

Depois de uma batalha de três horas, Blake no George, capturou o navio vice-almirante português, ao mesmo tempo o seu irmão, Benjamin Blake, comandando o Assurance, capturava o contra-almirante. O navio de comando português escapou com a perda do mastro grande.

Apenas nove dos vinte e três navios da frota chegaram a Lisboa; um foi a fundado e o resto capturado. A perda da frota do Brasil, com a sua valiosa carga, que incluía 4.000 arcas de açúcar, foi um sério rombo para a economia portuguesa e finalmente convenceu o rei João a insistir com o príncipe Rupert de que a sua esquadra deveria deixar Lisboa. 

Actriz Margaret Hughes, companheira de Rupert, Peter Lely, c. 1670.
Imagem: Wikipedia

Perto do final do mês de setembro, a frota de Blake foi obrigada a partir para Cadiz para reabastecer e para tratar do saque das capturas portuguesas. Com a partida de Blake, Rupert aproveitou a oportunidade para se escapar. No dia 12 de outubro saiu do rio Tejo com seis navios em direcção ao Mediterrâneo. (2)


(1) Fernando Gomes Pedrosa, A Muleta e a Tartaranha (séculos XV-XX)
(2) BCW Project Prince Rupert at Lisbon (1649-1650)

Leitura adicional:
História de Portugal Restaurado



Notas adicionais:

Os navios portugueses envolvidos no conflito

Santo António da Esperança (1644-1658) — Galeão de 600 t e 40 peças comprado ao Mercatudo em 1644. Em 1651 combateu nas águas do Tejo a armada inglesa do Parlamento. Em 1655 foi dado por incapaz na Baía, mas aparece na Índia (1657-1658). Entrou no combate contra holandeses na barra de Goa em 1657 e 1658.

N.ª S.ª da Luz (1648-1661) — Galeão de 28 peças comprado na Holanda, que era também conhecido por Fortuna e aparece como fragata e nau. Fez parte da força naval que acometeu a armada inglesa do Parlamento que bloqueava o Tejo em 1650. Em 1661, por ser velho, sugeriu-se que fosse entregue à Junta do Comércio.

N.ª S.ª da Conceição (1649-1651) — Galeão de 300 t e 24 peças da Companhia Geral do Comércio do Estado do Brasil. Em 1649 largou para o Brasil na armada do conde de Castelo Melhor. Em 1650 saiu a bater-se com a armada inglesa do Parlamento que bloqueava o Tejo.

S. Pedro de Lisboa (1649-1650) — Galeão de 400 t e 34 peças da Companhia Geral do Comércio do Estado do Brasil. Em 1649 largou para o Brasil na armada do conde de Castelo Melhor. Em 1650 saiu de armada a bater-se com a armada inglesa do Parlamento, sendo aprisionado pelo inimigo.

S. Francisco (1650) — Galeão da armada de Sequeira Varejão que em 1650 saiu a acometer a armada inglesa do Parlamento que bloqueava o Tejo.

S. João (1650) — Galeão da Companhia Geral do Comércio do Estado do Brasil que no regresso do Brasil, em 1650, sendo navio-chefe de Antão Temudo, se bateu nas águas do Tejo com a armada inglesa do Parlamento.

Santo António de Mazagão (1650-1654) — Galeão de 18 peças que também aparece como nau. Em 1650, de regresso da Índia, furou o bloqueio do Tejo da armada inglesa do Parlamento. Navio-chefe da armada aparelhada no Tejo para combater a armada do Parlamento. Ia armado de 36 peças. Em 1652 saiu de Goa para a reconquista de Mascate e em 1654 foi no socorro a Ceilão numa armada que destroçou uma esquadra de três naus holandesas. No regresso a Goa, perseguido por uma armada holandesa, encalhou e perdeu-se.

S. Pedro e S. João (1650) — Galeão que em 1650 largou numa armada a combater os ingleses do Parlamento que bloqueavam o Tejo. Combateu na segunda saída.

N.ª S.ª da Natividade (1650) — Galeão que em 1650 largou numa armada a combater os ingleses do Parlamento que bloqueavam o Tejo. Foi tomado pelos ingleses, apesar da bravura com que se houve na luta.

N.ª S.ª da Estrela (1650) — Galeão que também dava pelo nome de Santa Maria da Estrela. Em 1650 fez parte da armada que saiu a combater os ingleses do Parlamento que bloqueavam o Tejo.

S. Lourenço (1650-1658) — Galeão que em 1650 saiu numa armada a combater os ingleses do Parlamento que bloqueavam o Tejo. Em 1658, incluído na armada, combateu os holandeses que bloqueavam Goa.

Santa Cruz (1650-1656) — Nau de 500 t e 33 peças que também aparece como navio, galeão e fragata. Em 1650 saiu a acometer a armada inglesa do Parlamento que bloqueava o Tejo, incluída na força naval de Sequeira Varejão.

N.ª S.ª da Candelária (1641-1651) — Galeão de 700 t e 26 peças. Tomou parte na empresa de Cádis em 1641. Em 1644 largou para a Índia na armada de viagem do cabo Luís Velho. Tendo regressado em 1646, voltou à Índia no ano seguinte. Em 1650 bateu-se na costa com a armada inglesa do Parlamento. (a)

Sobre os navios de pesca (muletas) capturados

Esta armada do parlamento, que esteve junto à barra desde finais de março até finais de setembro de 1650, no dia 13 de junho apresou alguns barcos de pesca portugueses.

Segundo uma fonte inglesa, eram 16, dois dos quais conseguiram fugir. Numa carta do rei de Portugal ao embaixador em Londres, de 7 de agosto de 1650, eram 14, que costumavam fornecer abastecimentos aos navios ingleses na barra de Lisboa.

No dia 24 de junho o rei D. João IV enviou cartas ao governador do Algarve e ao conde da Ericeira informando que os Ingleses apresaram umas tartanas que andavam a pescar. Ficamos assim a saber que andavam a pescar perto da barra de Lisboa pelo menos 16 tartanas, as 14 apresadas e as duas que conseguiram fugir.

É a primeira vez que se tipifica a embarcação que pesca com rede tartaranha: é a tartana, tal como a tartana francesa que pesca com rede tartana. Até aí era dita barca, barco, tartaranha, chincha ou chinchorro. A muleta com rede tartaranha já aparecera em 1634 e 1645, mas como designação genérica.

Em 1672, numa postura da câmara de Lisboa, as embarcações que pescam com chinchorros são muletas: "porque as muletas de chinchorros são barcos mais pequenos que as chinchas, e não podem acomodar as redes sobre o leito com as bolas de barro, pelo muito volume que fazem, com que os barcos podem correr algum risco, se lhes permite possam usar de chumbadas nas duas paredes da rede a que chamam rede de mão, com tanto que em todo o caso usem das bolas de barro em toda a cuada, por ser esta a que arrasta toda a criação e desfaz a ova".

A bitola da malhagem que havia sido estabelecida, mais pequena, "se deve entender só para as tartaranhas, e não para as chinchas e chinchorros, porquanto antes se lhes deve dar malha com que possam tomar sardinha, que é o para que estes barcos têm a principal serventia". (b)

(a) António Marques Esparteiro, Catálogo dos navios brigantinos (1640 - 1910)
(b) Fernando Gomes Pedrosa, A Muleta e a Tartaranha (séculos XV-XX)

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Príncipe de Joinville

Em agosto de 1834, o Príncipe de Joinville (1818 -1900) passa novos exames em Brest, sob a direção de cavaleiro Préaux Locré. Recebido como aluno de primeira classe, embarca imediatamente em Lorient na fragata "La Syrene", vai a Lisboa, aos Açores, e regressa a França, após de três meses de navegação.

François d'Orléans, príncipe de Joinville (detalhe).
Chateau de Versailles, Franz Xavier Winterhalter, 1843.
Imagem: REPRO TABLEAUX

Em 1840 [...] participa na transladação dos restos mortais do imperador Napoleão. 

Transbordement des cendres de Napoléon, Morel-Fatio, 1841.
Imagem: L'HISTOIRE PAR L'IMAGE

Em maio de 1841, [...] embarcado na "Belle Poule", vai visitar Amesterdão e todos os portos ou instalações marítimas da Holanda. Seguidamente viaja para a América, visita o Cap-Rouge, Halifax, Filadélfia, Washington e regressa à Europa, por Lisboa, onde é recebido pela rainha Dona Maria, e regressa a França em janeiro 1842. (1)

Lisbonne vue du vieux port, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: LMT no Facebook

Após uma rápida travessia chegámos a Lisboa. É certo que o Tejo é um rio bonito, mas o panorama tão falado de Lisboa não merece, segundo eu, a sua reputação. Apenas a Torre de Belém charma os olhos com sua arquitetura original, e desde que aí desembarcámos o encantamento continua diante da igreja atrás dela, mas isso é tudo. O resto é feio.

Torre Velha, Lisbonne, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: Sotheby's

Nós descemos a terra na chalupa ( falua ) [sic, i.e. galeota] Real, uma embarcação guarnecida de esculturas douradas com dossel de seda à ré, cuja tripulação se compunha de em homens do Algarve de tez morena , vestidos de calções curtos, jaqueta de veludo amaranto [vermelho escuro] e envergando boinas venezianas. Remavam em pé cadenciando os movimentos do remo com uma espécie de ladainha, em homenagem à rainha, que cantavam em coro.

Não era a primeira vez que eu vinha a Lisboa; aí reencontrei com alegria a rainha D. Maria, uma amiga de infância da qual viria a ser, não sei quantas vezes, cunhado; aí reencontrei também o seu marido, o rei Fernando, que eu conhecia menos. Artista até à ponta das unhas, musico, aguarelista, aguafortista, ceramista notável, o rei Fernando detestava a política; esses e outros pequenos defeitos, que nos eram comuns, ligar-nos-iam intimamente, e essa amizade duraria até ao seu final prematuro.

Vue de Lisbonne, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: artnet


Regressei com frequência a Portugal; sempre aí recebi um acolhimento do qual guardo a recordação mais reconhecida. Aí encontrei homens distintos, mulhers amáveis, instruídas, charmosas; também dediquei a Portugal e aos portugueses sentimentos de uma afeição sincera e desejo que todos os meus votos sejam por eles seguidos sobre a terra e sobre o mar, mas não entrarei na mais pequena reflexão sobre a sua vida política.

Almada vue d'Alfeita [sic], François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: artnet

Na época da qual falo, este país tinha duas ilustres espadas: os marechais Saldanha e terceira, que serviam alternadamente de apoio à mudanças alternadas da Constituição, fosse na ajuda a levantamentos militares, fosse na ajuda a procedimentos mais parlamentares. Era o costume do país, o qual ia melhorando. Havia, como em França, dois partidos dinásticos; mas, coisa curiosa, o partido miguelista que fazia oposição à rainha Dona Maria, partid pouco numeroso de resto, pretendia-se o partido da legitimidade, bem que ele reivindicasse os direitos de D. Miguel, representante de um ramo mais jovem.  Que os políticos profundos arranjem isso a seu modo.

Não sei se é na ocasião desta estadia que, recebendo em Belém o corpo diplomático, o duque de Palmela, que se me apresentou como ministro dos negócios estrangeiros, me pediu de o desculpar por abreviar a cerimónia, já que a duquesa de Palmela, nesse momento, estaria prestes a dar ao mundo o se décimo quinto filho, prova palpável, dada por um ministro de negócios estrangeiros, da vitalidade da nação portuguesa.

O duque de Palmela, um diplomata da velha escola, que pleno de espírito natural e de talento, combinava a vantagem de ser próximo dos grandes diplomatas do século, os Talleyrand, os Metternich, etc., etc., convida-me para jantar alguns dias depois.

A refeição foi explêndida. À chegada, os archeiros reais, assim chamados porque estão armados com alabardas, guarneciam a escadaria; depois passamos pelos belos salões, ao fundo dos quais, à saída da mesa, uma porta ampla se abria para deixar ver, no alto de um estrado de vários degraus, uma magnífica cama de cerimónia, e nessa cama a duquesa de Palmela, que há pouco tempo dera à luz, e a quem todos os convivas se apressavam a ir apresentar as suas homenagens.

Numa revista às tropas portuguesas notei belos batalhões de caçadores e tive uma conversa bem divertida com o célebre almirante Sir Charles Napier, que assistia a essa revista, a cavalo, em uniforme de comandante de navio inglês, mas com um pequeno chapéu à Napoleão com cocar [laço] português, as calças subidas, os pés armados com gigantescas esporas de caça e um bastão enorme na mão [...] (2)


No mês de junho seguinte, [o Príncipe de Joinville] voltou para o "Belle Poule" com a esquadra às ordens do vice-almirante Hugon. Acompanha então o seu irmão mais novo, o Duque de Aumale a Nápoles, depois, a Lisboa, e dirige-se ao Brasil fazendo escala em Saint Louis, Senegal [...]

Esta viagem tem por objetivo o pedido em casamento da Princesa Dona Francisca de Bragança (1824 - 1898), filha do imperador Dom Pedro I, e irmã do futuro imperador Dom Pedro II e da Rainha de Portugal Dona Maria. 

Dona Francisca de Bragança, princesa de Joinville (detalhe),
Musée de la Vie romantique, Ary Scheffer, 1844.
Imagem: The Royal Forums

A união dos dois príncipes é celebrada no Rio de Janeiro, no dia 1º de maio de 1843. Imediatamente após, o Príncipe leva a sua esposa para França, onde brevemente nascerão os seus dois filhos. No dia 31 de julho de 1843, Joinville é nomeado contra-almirante [...] (3)


(1) Wikipédia, François d'Orléans (1818-1900)
(2) Joinville, François Ferdinand Philippe Louis Marie d'Orléans prince de, Vieux souvenirs: 1818 - 1848, Paris, Calmann Lévi, 1894
(3) Wikipédia, idem

Versão inglesa:
Joinville, François Ferdinand Philippe Louis Marie d'Orléans prince de, Memoirs (Vieux souvenirs) of the Prince de Joinville, London, William Heinemann, 1895


Leitura adicional:
Outros escritos de François d'Orléans, príncipe de Joinville

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O forçamento da barra do Tejo

O forçamento da barra do Tejo pela esquadra comandada por Roussin (1781 - 1854), ocorrido em 11 de julho de 1831, em pleno período de lutas entre liberais e miguelistas, veio revelar que o Tejo estava longe de ser invulnerável, mesmo se bem defendido, e que a defesa marítima era muito precária.

Expedição do Tejo, desenho Pierre-Julien Gilbert, gravura Chavane, 1837.

Embora o ataque fosse esperado e os miguelistas tivessem promovido apressadamente o reforço das guarnições, que principiou alguns dias antes da entrada da esquadra, a oposição das fortalezas foi fraca e ineficaz.

La flotte française force l'entrée du Tage, Horace Vernet, c. 1840.
Imagem: Joconde

Na margem norte ainda se fez fogo sobre os franceses, mas na margem sul, a única reacção activa conhecida é a da Torre de S. Lourenço [Bugio]. (1)

A frota francesa commandada por Roussin força a entrada do Tejo, Pierre-Julien Gilbert, 1837.
Imagem: Fortificações da foz do Tejo

Junto da Torre de Belém, baluarte simbólico da entrada do Porto de Lisboa, o Almirante Roussin dá ordem de "alto fogo" para poupar a emblemática fortificação histórica, que arria a bandeira em sinal de rendição [...]

A frota francesa frente à Torre de Belém, Auguste Mayer.
Imagem Wikipédia

Às 17.00 horas, a rendição estava consumada. Dia 14 de Julho de 1831, uma convenção protocolar era assinada a bordo do "Suffren", por imposição dos franceses [...] (2)

Granier, Henri, Histoires des marins français... (detalhe).
Imagem: Amazon


(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.
(2) Revista da Armada,  O forçamento do tejo em 1831 na iconografia marítima francesa, maio 2011

Leitura relacionada:
Lecomte, Jules, Expédition du Tage, La France maritime

domingo, 12 de junho de 2016

Panorâmica de Lisboa em 1763

Esta panorâmica, representando a capital lusitana oito anos após o terramoto de 1755, é dedicada a Carlos Alberto Guilherme de Colson, conselheiro da corte do Conde de Lippe [...]

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa,  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A cidade aqui representada estende-se desde a Torre do Bugio até ao Palácio do Patriarca [Palácio da Mitra] e evidencia as marcas de destruição deixadas pelo terramoto [...]

O seu autor, Bernardo de Caula, de origem francesa, ingressou no exército português, como primeiro-tenente da Companhia de Mineiros e Sapadores do Regimento de Artilharia de Lagos, em 7 de Novembro de 1763. Nesse ano terminara a campanha militar — que decorreu de 30 de Abril de 1762 a 10 de Fevereiro de 1763 — como consequência do Pacto de Família (celebrado entre os soberanos de França, Espanha e Nápoles, todos pertencentes à família Bourbon) que pretendia forçar Portugal a fechar os seus portos a navios ingleses.

Nesse conflito, o Exército português foi dirigido pelo Conde de Schaumbourg-Lippe, nomeado seu comandante-chefe com a patente de Marechal General, o qual permaneceria em Portugal até 20 de Setembro de 1764. (1) 

1 Torre de Bogio
2 Torre de sam Julian da Barra
3 Carcavellas
4 Forte S.to Amaro
105 Grande Caxope da Barra

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 1/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

  5 Forte S. João da Mayo
6 Villa e Condado de Oeyras
7 Paço d'Arcos
8 Forte de Caxias
9 Caxias e os Cartuchos

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 2/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 10 N.a S.a de Boa Viagem
11 Ponte de S.ta Catharina
12 Convento de S.ta Catharina
13 Forte arruinado de S. Jozé
14 Convento de Sam Jozé

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 3/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 15 Quinta de Dom Luiz de Portugal
16 Forte d'Argels
17 Gurita do Duque de Cadaval
18 Aldeia d'Argels
19 Quinta do Duque de Cadaval
20 Cazas do lettrado
21 Pedrooza
22 Cazas de Dona inés

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 4/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 23 Quinta velha do Conde S'Jago
— occupada pelo Conde R. de la Lippe
24 Caza da Saude
25 Torre de Belem
26 Ermida de S.o Jeronimo
27 Cazas do Marques de Tancos
28 Bom Socefso
29 Cazas do Conde Barão
30 Cazas do Marques de Marialva
31 Convento de Belem
32 Alculena
33 N.a S.ra do livramento
34 Paço Real de N.a S.ra da Ajuda
35 Calçada da Ajuda e Cazas do Conde D'oeyras

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 5/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 36 Cazas da Duqueza d'Abrantes
37 N.a S.ra da Boa Hora
38 Villa de Belem
39 quais de Belem e Paço Real
40 Quinta Real de Belem
41 Cazas de Descanfo da tapada
42 Cazas de Gaspar D de Saldanha
43 Cazas e Pateo D de Saldanha
44 Junqueira e q.ta da Condeça da Ega
45 Forte da Junqueira
46 Palacio do Cardeal Patriarcha
47 Sam Amaro
48 Quinta do Conde Daponte
49 N.a S.ra de Bona morte
50 Q.ta e Palacio das necefsidades

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 6/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 51 O Con.to do livramento
52 arrebaldo e Porta d'alcantara
53 Buenas Ayres
54 Pampouilla e S. F.a de Paula
55 Jannellas verdas
56 N.a S.ra da Lapaz
57 N.a S.ra dos Navegantes
58 As Tercenas B.ro do Mocambo
59 Fraiguezia de Santos
60 os Barbadinhos francezes
61 os apostolos Caza da aula
62 Bazilica Patriarchal
63 Bairro Alto e os Paulistas
64 Fraiguezia de Sta Catharina
65 Bairro da Bica Grande e as xagas
66 Cazas da India
67 quais de Boa vista
68 Fraiguezia de Sam Roque
69 N.a S.ra de Loretta dos italianos
70 Fraiguezia de N.a S.ra da anunciada
71 Palacio de Bragança
72 Fraiguezia do Corpus Satus
73 Convento da Trinidade

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 7/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 74 Convento S Francisco da Cidade
75 Convento dos Carmos
76 Ruinas e Convento do Spiritu Santo e do paço Real
77 Arcenal Novo
78 Rocio e Collegio S. Antão
79 Convento de N.a S.ra da Graça
80 Castel Sam George
81 Cazas do Marques de Tancos
82 Fraiguezia de Sta Moniqua
83 See velha e S antonio
84 Terreiro do Paço
85 Cazas da ribeira e Ruinas da misericodia
86 Ribeira do peixe
87 Convento de S. vicente De fora
88 Cazas do Marques de lavradio e Sta Ingracia
89 Alfandega
90 Aercenal da fondiçam
91 Campo Santa Clara
92 Quais dos Soldados
93 Convento dos barbadinhos italianos

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 8/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

94 Convento da S.ta appolonia
95 Convento de Santos novo
96 Porta do arrebaldo da madre de Deos
97 N.a S.ra da madre de Deos
98 Cazas do Conde de unhão
99 S Francisco de Xabregas
100 Convento dos Grelos
101 Convento do Beat antonio
102 Palacio do Patriarcha
103 Campo dos olivaes
104 Rio Tejo

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 9/9),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


(1) Biblioteca Nacional de Portugal

Graça Divina

Fragata Graça Divina, S. João Baptista (1779-1781)

Fragata de 50 peças e 400 t que foi adquirida pelo Estado em 1779 na Baía.

Incêndio da Fragata Graça Divina S. João Baptista, Joaquim Manuel Rocha (1727 - 1786), 1781.
Imagem: Palácio do Correio Velho

Em 1781 ardeu completamente no Tejo. (1)


(1) Esparteiro, Cmdt. António Marques, Catálogo dos navios brigantinos (1640 - 1910).

Informação adicional:
História Nautica, As fragatas à vela
Marinha de Guerra Portuguesa: Arsenal Real da Marinha de Lisboa

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Foz do rio Tejo em 1800

Thomas Buttersworth (1768 – 1842)

Thomas Buttersworth nasceu na ilha de Wight, descendendo de uma família marítima, em 1795 alistou-se na Royal Navy e combateu nas Guerras Napoleonicas.

HMS Ville de Paris posto à capa ou ao través, Thomas Buttersworth (1768 – 1842).
Imagem: Bonhams

Depois de servir com distinção no HMS Caroline foi dado como inválido em Minorca e deixa a Royal Navy em 1800.

H.M.S. Victory (?) na embocadura do Tejo, Thomas Buttersworth (1768 - 1842).
Imagem: Bonhams

A sua experiência de mar permite-lhe adaptar a sua carreira, tornando-se um célebre e importante pintor de marinhas do século XIX. (1)

Uma chalupa armada emergindo da foz do Tejo passado o Bugio, Thomas Buttersworth (1768 – 1842).
Imagem: Bonhams

[...] o grande número de pinturas de Buttersworth, aquarelas e óleos, que existem desde o período 1797 - 1800 confirmam uma produção significativa, apesar de servir na marinha.

Uma fragata inglesa e uma chalupa armada calmamente no Tejo ao largo da Torre de Belém, Thomas Buttersworth (1768 – 1842).
Imagem: Bonhams

Os seus multiplos pontos de vista da batalha do Cabo de São Vicente (14 de fevereiro de 1797), o bloqueio da esquadra britânica ao largo de Cadiz e a actividade naval britânica no Tejo sugerem que ele testemunhou pessoalmente esses eventos.

Foz do Tejo, Thomas Buttersworth (1768 – 1842).
Imagem: Bonhams

Os seus anos com a frota marítima deram-lhe um entendimento gráfico do navios e da guerra no mar ao ponto de se tornar um artista profissional [...] (2)


(1) The dictionary of Nautical Literacy, McGraw Hill, 2003, mencionado em Jerome, Fine Arts
(2) Bonhams

Informação relacionada:
BBC YOUR PAINTINGS: Thomas Buttersworth 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Marinha do Tejo

Começàmos hoje a publicar a serie dos barcos de transporte que navegam no Tejo, desde o catraio até á fragata, desenhados do natural, com toda a exacção, pelo sr. Pedroso, e por elle mesmo gravados.

João Pedroso, Revista Illustrada, anno 1, n° 17, 1890.
Imagem: O Archivo Pittoresco e a evolução da Gravura de Madeira em Portugal

É mui variada, no casco e no apparelho, esta serie de embarcações, a que chamaremos "marinha do Tejo", se é que lhe não deviamos antes chamar marinha pequena, já que não temos marinha grande...

Não affiaçàmos, porém, que a nomenclatura de taes embarcações sáia rigorosa, porque, se o lapis do nosso artista conseguiu roproduzir a fórma e velame dc todos estes barquinhos do Tejo, outro tanto não podêmos nós conseguir quanto á denominação e origem de alguns d'elles.

Começando pelos catraios, que são os mais pequenos, a d'onde nós chamâmos geralmente catraeiros aos barqueiros, vemos que esta denominação não é muito antiga, porque não vem similhante vocabulo nos nossos bons auctores maritimos, sendo tão copiosa a lingua portugueza em termos nauticos. O alvará do tempo do marquez de Pombal (1765), que abaixo transcreveremos, diz que os "catraios" se tinham introduzido por aquelle tempo, e em tal quantidade, que por serem mui pequenos, e governados por gente ignorante, succediam muitas desgraças e avarias no Tejo, pelo que foram mandados queimar por ordem do marquez de Pombal, determinando-se qual havia de ser a lotação dos botes que, em logar dos catraios, se podiam construir. 

Eis o que dizia o alvará:

"Eu el-rei faço saber aos que este alvará virem, que sendo-me presentes em consuIta do senado da camara os graves inconvenientes que resultam do uso das pequenas embarcaçoes chamadas botes, ou catraios, que de tempos a esta parte se tem introduzido para os transportes que se fazem no Tejo; tendo causado por uma parte frequentes perigos as vidas das pessoas que n'eIIas se transportam; não so pela pouca segurança das mesmas embarcações, mas tambem pela ignorancia das pessoas que as governam. E pela outra parte destinando-se como mais proprias para as clandestinas conducções, e descaminhos das fazendas de contrabandos. Para cessarem de uma vez os referidos inconvenientes, sou servido prohibir, da publicação d'este em diante, o uso das referidas embarcações pequenas, permittindo somente o daquellas que são necessarias para o serviço dos navios: e mando, que todas as que ficam exeptuadas, em transgressão do disposto n'este alvará, sjam logo aprehendidas, e queimadas por ordem do senado da camara da cidade de lisboa, nas praias a ellas adjacentes: e que os proprietarios das mesmas embarcações, incorram alem da pena do perdimento d'ellas, na de seis mil réis applicados para as despesas do senado, e na de prisão pelo, espaço de vinte dias pela primeira vez: aggravando-se-lhes em dobro, tresdobro, e mais á proporção das relácias, as referidas penas nos casos de reincidencia. Sou servido outro sim determinar, que as embarcações que se occuparem nos transportes que se fazem de  Lisboa para Belem, e mais portos da sua visinhança, sejam construídas na conforntidade das formas e medidas, que vão declaradas no papel que baixa com este, assignado por Francisco Xavier de Mendonça Furtado, ministro e secretario de estado dos negocios da marinha e dominios ultramarinos."

As medidas a que se refere este alvará são as seguintes:

"Devem as mais pequenas embarcações d`estes transportes ter de bocca, no menos, 7 pés. De comprimento de roda a roda, ao menos 28 pés. A popa sera larga como do falua. O rodo da fôrma sera bem redondo á proporção da bocca para poder aguentar. E não poderá trazer qualquer destas embarcações mais que uma vela e um muletim."

Em cumprimento deste alvurá, o senado publicou um edital, para que todos os botes ou catraios, incursos na queima ordenada pelo alvará, se juntassem na prata de Santos, sobre graves penas. Ahi se lançou fogo a todos, o qual durou por muitos dias.

Os botes que de novo se construiram, segundo as medidas indicadas, ficaram-se chamando "catraios", tem uma so véla, e dois remos. Véde-o na estampa, que lá vem elle pela proa de um bote cacilheiro, do qual para o seguinte artigo se dará noticia.

Catraio e cacilheiro, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Com a preciosa coadjuvação da capitania do porto, e da repartição do imposto municipal denominado "tramagalho" esperàmos poder esboçar uma historia curiosa de tantas embareaçõesinhas, quasi todas mui veleiras e airosas. (1)

Já dissemos, e se viu na gravura antecedente, que o bote de catraiar, ou catraio, como d'antes lhe chamavam, é a mais pequena embarcação de vela de quantas navegam no Tejo, apesar de os haver com capacidade para 15 passageiros, todos debaixo de toldo. Muitos d'estes botes, principalniente os do cáes do Sodré, alem da vela triangular de espicha, armam uma bojarrona á proa, e uma mezena á ré; com este panno ficam muito airosos e veleiros. Quando não tem vento armam dois, quatro, e às vezes seis remos.

Já se vê, pois, que hoje não ha botes tão pequenos e perigosos como aquelles, que por este motivo, mandou queimar o marquez de Pombal. 

Os catraeiros são por lei, tambem pombalina, obrigados a fazer exame perante o capitão do porto, sem o que a camara lhe não concede a licença necessaria para catraiar.

O bote cacilheiro, é o gigante dos catraios; rijo de borda, aguentando muito mar, e com alterosa vela triangular, não de espicha, mas içada ao tope do mastro, e engatada na proa, impina-se arrogantemente para ré. Enfunada com a grande corda de vento que apanha d'alto abaixo, arroja o bote num apice de Lisboa a Cacilhas, que é o seu porto. Antes da instituição da companhia dos vapores do Tejo, em 1838, os botes cacilheiros faziam carreiras alternadas com as faluas; hoje ha muito poucos, e nas horas desencontradas das viagens dos vapores da companhia é que fazem algumas carreiras.

Actualmente ha uns 300 botes matriculados em Lisboa.

A falúa tem duas velas, tambem triangulares ou latinas, mui altas, tendo a de ré duas escotas. É uma embarcação valentissima, e d'antes tinham quasi exclusivamente as falúas a carreira de Lisboa a Cacillias, tomando os passageiros no caes das Columnas da praça do Commercio. Com a instituição da companhia dos vapores, foram as falúas desapparecendo d'este caes, umas compradas pela propria companhia, para se desfazer d'ellas, e outras porque tomaram diverso destino, empregando-se no transporte de generos em differentes portos do Ribatejo.

Falúa, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Para Aldêa-Gallega, Moita, Alcochete, e Barreiro, ainda ha carreiras de falúa. As que estão matriculadas sao apenas umas 20.

A falúa, além das duas velas, tem quatro remos, de que pouco se serve, por ser embarcação pesada: algumas vezes armam os remos para ajudar a vela, quando o vento não é de feição. (2)

Todos os barcos que navegam no Tejo pagam um imposto á camara municipal de Lisboa, chamado do "Tramagalho", imposição antiquissima, e tanto que se lhe perdeu já a etymologia, sem que os esmirilhadores de antiqualhas tenham até agora podido atinar com a derivação d'este nome.

A camara, em consulta de 28 de julho de 1852, propoz ao governo um formulario do que deviam pagar todas as embarcações que navegassem no rio de Lisboa, ou viessem a seus portos, o qual foi approvado pela regia resolução de 17 de setembro do mesmo anno.

Ei-lo aqui, como parte integrante da histotia d'esta marinha do Tejo.

De cada viagem que fazem a esta cidade os barcos de Villa-nova, pagam 200 rs.

De cada viagem que fazem os de Abrantes, Punhete, Tancos Barquinha, Chamusca, Azinhaga, Santarem, Escaropim, Salvaterra, Porto de Muge, Virtudes, Samora e Benavente, 150 rs.

De cada viagem que fazem os barcos de Povos, Villa-Franca, Alverca, Póvoa, Savcavem e Friellas,  100 rs.


Os barcos de Abrantes, Punhete, Tancos Barquinha, Chamusca e Azinhaga, pagam além de 150 rs. acima referidos, mais, de uma avença muito antiga, a que chamam "cabo de anno", pelas viagens que fazem aos portos do termo até Paço d'Arcos, 1:000 reis. 


Todas as embarcações dos portos acima declarados, que fazem viagens de verão, que vem a ser: conduzir palha ou fruta para esta cidade, o qual verão principia desde o dia de S. Pedro até á feira de Villa-Franca; não pagam n'este tempo por viagens, mas sim por avença que vem a ser:

Cada barco, 4:000 rs.
Cada bateira ou lancha, 3:000 rs.
Cada batel, 2:000 rs.

Os barcos do Samouco Alcochete, Aldea-Gallega, Moita, Lavradio, Alhos-Vedros, Barreiro, Aldea de Pae Pires, Seixal, Cacilhas, Porto Brandão, Trafaria, Coina, Cascaes, e Paço d'Arcos, pagam por ajuste.
As falúas, pagam 1:400 rs. por-anno.
As falúas que andam nas carreiras para Cacilhas, 2:000 rs.
Os barcos de Moios, 1:200 rs.
As fragatas, 1:000 rs.
Os botes, a 960 e 800 rs., conforme a sua grandeza.

Bote d'agua acima, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Os barcos chamados d'agua a cima, cuja forma a nossa estampa representa, pertencem ao terceiro ramo d'esta tabela. (3)

Com o nome de aveiros, e não de saveiros, são estes barcos denominados na mesa do imposto chamada do Tragamalho. Talvez seja corrupção do primitivo nome que tinham quantos barcos vem ao Tejo da cidade de Aveiro, que são muitos.

A savara tambem mostra ter a mesma procedencia, mas estes tem quilha, e vão fóra da barra ajudar as moletas na pescaria.

O alijo traz na sua denominação o destino que tem, que é alijar, descarregar os barcos que não podem atracar. Ha tambem alijos de vela.

Saveiro, alijo e savara, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital
Todas estas tres embarcações foram escrupulosamente copiadas dos onginaes, pelo nosso exímio gravador o sr. Pedroso, que é tambem um peritissimo pintor de navios. (4)

Depois dos botes são os varinos os que em maior numero sulcam o Tejo. Esta denominação que elles tem no vulgo não vem em nenhum diccionario da lingua, e tambem na repartição do imposto que elles pagam em Lisboa tal se lhes não chamam, mas aveiros, nome generico para todos os barcos que vem do districto de Aveiro. Estão actualmente registados e avençados na repartição municipal de Lisboa 431 varinos ou aveiros.

Varino e monaio, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

O monaio é uma especie de varino da mesma procedencia, mas tem diversa armação, como bem mostra o que esta desenhado na estampa, ao mar do varino.

Pela seguinte curiosa estatistica, que na citada repartição nos ministraram obsequiosamente, vemos que a marinha do Tejo se compõe ao presente de 1:143 vélas. (5)


Embarcações registadas e avençadas na repartição do Tramagalho, Lisboa, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Chamam aqui no Tejo a estes barcos, "dos moinhos" ou de "moios", porque se destinam especialmente a conduzir as farinhas do Ribatejo para Lisboa.

Os barcos dos moinhos são mais airosos que as falúas com as quaes todavia se parecem. Tem como ellas duas velas, porém mais baixas e mais largas: os mastros sao inclinados para a proa, por isso escusam de bujarrona.

Barco de moinho, gravura, João Pedroso, 1861.
Imagem: Hemeroteca Digital

Segundo a estatistica que já publicamos, ministrada pela mesa do Tragamalho, ou da imposição das embarcações, na camara municipal, ha no Tejo 34 barcos dos moinhos, e a sua amarração é no caes do Tojo, proximo ao terreiro do Trigo. (6)


(1) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 31, pág. 247
(2) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 33, pág. 261
(3) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 36, pág. 285
(4) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 41, pág. 325
(5) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 48, pág. 380
(6) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1861, n° 9, pág. 70

Artigo relacionado:
Todos os barcos do Tejo


Informação relacionada:
As embarcações tradicionais do Tejo