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segunda-feira, 3 de julho de 2017

O Grémio Artístico (8.ª exposição, 1898)

exposição extraordinária comemorativa do 4.º centenário do descobrimento do caminho marítimo para a Índia

Na exposição do Gremio Artistico figura agora este quadro. Uma obra prima, cheia do maior sentimento, amorosamente trabalhada, executada com um esmero, concluida com uma perfeição que só os grandes artistas, e não sempre, são capazes de attingir.

A volta dos barcos, Sousa Pinto, 1891.
Imagem: Douta melancolia

Um grupo encantador de tres personagens, que todos conhecemos, alguma vez havemos encontrado á beira mar: a velha enrugada pelo sol, pelo ar marinho, por muitas lagrimas choradas; O pequeno, de mão na algibeira, como um homem que ha de ser um dia, forte, lindo nos seus traços de criança reveladores; a pequenina, a mais bella do grupo, sardenta, ligeiramente albina, com os cílios muito claros, uma pennugem ruiva pelas faces, cor de sol.

E todos olham para o mesmo ponto, muito longe, indicado pelo dedo da pequena. No extremo horisonte deve apontar a vela, e todos olham. A velha espera pelo filho, as crianças pelo pae. É um drama de todos os dias por essas paias todas. Mas, porque é vulgar, não deixa de ser sentidissimo. Os olhos d'artista que o viram penetraram o fundo d'elle. É assim que deve vér-se e tão poucos sabem fazel-o!

O quadro de Sousa Pinto é dos mais perfeitos que conhecemos na arte portugueza. Esteve exposto no "Salon", de 1891 e muito ajudou a tornar conhecido o nome de Sousa Pinto, hoje tão glorioso em Portugal como lá fóra. (1)

Para commemorar o quarto centenario do descobrimento do caminho maritimo para a India, realisou a benemerita sociedade Gremio Artistico uma exposição retrospectiva e contemporanea, logrando esta sua celebração um lisongeiro exito, pelo muito apreço que tem merecido de nacionaes e estrangeiros e pelo elevado numero de trabalhos que conseguiu reunir nas seis salas que occupa a exposição. 

As festas centenarias tiveram, pois, n'este numero do programma um brilhante sucesso que gostosamente registamos nas nossas paginas, destacando de entre os muitos e valiosos trabalhos expostos dois bellos quadros, que reproduzimos nas gravuras de pag. 116 e 117.


O quadro "D. João II ante o corpo inanimado de seu filho D. Affonso", figurou com justa razão n'este importante certamen, não só porque é uma obra de grande valor como tambem o assumpto se parallelisa com o descobrimento do caminho maritimo para a India, mercê do principal personagem, esse illustre soberano que a historia appellidou de "Perfeito" e que tão infeliz foi nos seus anhelos mais queridos — a morte desastrosa do filho herdeiro e a realisação do grande feito de Vasco da Gama, e já por elle tão sonhado. 

D. João II ante o corpo inanimado de seu filho D. Affonso, Ernesto Condeixa, c. 1897.
Imagem: O Occidente N.º 698, 20 de maio de 1898

O notavel quadro é, como se sabe, original de um dos nossos artistas mais conscienciosos sr. Antonio Condeixa e pertence á Academia de Bellas-Artes, que o guarda com bem justificado apreço.



O quadro, que representa a celebre batalha do cabo Matapan, dada pelos venezianos e portuguezes contra os turcos, no seculo XVIII, pertencendo declaradamente a honra de alcançar-se a victoria á valentia dos ultimos, é um quadro de assumpto muito proprio a suscitar agora, pois nos apresenta uma das nossas mais bellas glorias navaes.

A batalha do Cabo Matapan, João Dantas, c. 1892.
Imagem: Museu de Marinha

O sr. João Dantas, o auctor laureado d'este quadro, tem n'elle uma das suas melhores marinhas, não só pelo valor artístico, mas muito especialmente pelo grande estudo que revela até no mais insignificante pormenor.

No tempo de D. João V, o apresto dos navios, que tão notavel papel representaram n'esse combate, constituiu um verdadeiro esforço e dá perfeita ideia dos tremendos gastos que se fizeram, não porque fosse fartamente equipada, mas porque para o seu armamento foi necessario empregar cabedaes que o rei destinava a uma viagem ao extrangeiro e de que foi forçado a desistir pela falta de dinheiro, quando tanto ouro vinha do Brazil. 

Nenhum historiador até hoje soube vêr no apresto destes navios a razão da desistencia de tão fallada viagem, que el-rei desejava ardentemente. chegando a affirmar alguns que á influencia da rainha e á fuga talvez combinada de seu cunhado D. Manoel, se deveu tão singular opposição a um desejo do monarcha magnanimo.

São documentos coevos, que tivemos ensejo de vêr, que nos deram a chave de tão interessante questão, e bem se comprehende que D. João V não poderia deixar de soccorrer o papa, quando n'essa viagem tencionava hospedar-se em Roma, e d'esta collisão resultou o soccorro dado, em que a nossa armada promoveu a brilhante victoria do Cabo Matapan. 

Seria ocioso querer alludir a muitos outros quadros notaveis que se encontram na actual exposição. O Catalogo, distinctamente elaborado, dá perfeita ideia do seu numero e constitue lambem um precioso documento que ficará testemunhando a importancia do certamen. (2)


Na bella exposição d'arte que o Gremio Artistico realisou este anno nas salas da Academia de Bellas artes de Lisboa, commemorando o centenario do descobrimento do caminho maritimo para a India, figura a magnifica esculptura denominada a Infancia do Artista, obra genial de Soares dos Reis, d'esse talento privilegiado, que tãocedo se acolheu á paz do tumulo, e que n'aquella esculptura revelou o artista, auctor de tantas obras-primas, que o seu cinzel foi produzindo e enriquecendo a arte portugueza.

A minha infância [A infância do artista], Soares dos Reis.
Imagem: Casa dos Patudos

A "Infancia do Artista", foi, por assim dizer, a primeira obra com que Soares dos Reis se apresentou em publico, e logo na exposição de Paris de 1878, onde a apresentou, mereceu uma mensão honrosa, premio certamente inferior ao merito da obra, mas importante dado n'um certamen onde concorria a grande arte de todos os paizes civilisados.

A minha infância [A infância do artista], Soares dos Reis.
Imagem: António Arroyo, Soares dos Reis e Teixeira Lopes...

Esta bella obra d'arte, do malogrado artista, pertence á Ex.ª Duqueza de Palmella, umaa artista tambem, cujas obras teem sido admiradas em exposições nacionaes e extrangeiras. (3)

Já dissemos em artigos anteriores que a exposição d'Arte que o Gremio Artístico realisou este anno, e que constituiu uni dos numeros mais brilhantes commemorativos do centenario, é das mais numerosas em obras e das mais completas que esta util e importante aggremiação tem levado a effeito.

Uma exposição d'arte retrospectiva e arte contemporanea o que permittiu reunir um maior numero de obras, tanto de pintura como de esculptura, das mais notaveis de artistas portuguezes. Nos quadros que reproduzimos n'este numero, encontram-se parte que já foram devidamente apreciados em exposições anteriores, e alguns que pela primeira vez apparecem em publico.

Assim encontramos quadros que recordam artistas queridos como o do "Tintoreto, retratando sua filha depois de morta", preciosa tela do faltecido professor Lupi, que deixou na arte portugueza uma falta difficil de preencher;

Tintoretto, retratando sua filha depois de morta, Miguel Ângelo Lupi.
Imagem: Claudia Feio

"O descanço do modelo", bello quadro de Henrique Pousão, outro artista que a morte arrebatou em pleno vigor dn vida, quando o seu talento mais promettia, e Christino da Silva, Metrass, Manuel Maria Bordallo Pinheiro, Soares dos Reis, Victor Bastos, Fonseca, Annunciação, Silva Porto, que de todos ali se encontram obras, memorias preciosas do muito que fizeram.

O descanso do Modelo [Esperando o sucesso], Henrique Pousão, 1882.
Imagem: Wikipédia

A exposição de quadros novos é das mais animadoras tanto de artistas, que todos concorreram, como de amadores, cujo numero se vae elevando de anno para anno, sendo para notar os progressos que tem feito.

Entre estes destaca-se o quadro "Soror Marianna" da sr.ª D. Emilia Adelaide dos Santos Braga, um dos melhores que esta senhora tem apresentado em publico,

Soror Mariana, Emilia Santos Braga.
Imagem: O Occidente N.º 702, 30 de junho de 1898

e o "Quien supiera escribir!" de M.elle Zoé Wauthelet, inspirado n'uma poesia de Campoamor, bem conhecida.

Quien supiera escribir, Zoé Wauthelet.
Imagem: O Occidente N.º 702, 30 de junho de 1898

O retrato de S. M. a Rainha Senhora D. Amelia, avulta na exposição como uma das melhores telas de Salgado.

S. M. a Rainha Senhora D. Amelia, Veloso Salgado.
Imagem: O Occidente N.º 702, 30 de junho de 1898

Columbano apresenta uma bella allegoria a Vasco da Gama inspirada nos Lusiadas canto X:

Vasco da Gama (allegoria), Columbano.
Imagem: O Occidente N.º 702, 30 de junho de 1898

Eis aqui as nove partes do Oriente,
Que vós outros agora ao mundo dais,
Abrindo a porra no vasto mar potente,
Que com tão forte peito navegais.


"Martyr do fanatismo", quadro do sr. José de Brito, da escola do Porto, é um dos quadros que mais impressiona, pelo assumpto e modo porque está realisado.

Mártir do fanatismo, José de Brito, c. 1895.
Imagem: MNAC

Antonio Ramalho expõe o quadro "O lanterneiro" [v. Grupo do Leão (3.ª exposição, 1883)], prova brilhante dos seus estudos em Paris e que foi justamente apreciado então pela critica.

Chez Mon Voisin,ou O Lanterneiro, António Ramalho, 1883
Imagem: Pinterest

"Andromeda" de [António Tomás da] Conceição Silva é um bello nú, desenhado e pintado com extrema correcção.

Andrómeda, Conceição Silva.
Imagem: O Occidente N.º 702, 30 de junho de 1898

José Malhôa tem na exposição um bom numero de quadros em que se contam alguns retratos felizes e os "Oleiros" que, apesar de já ser conhecido da ultima exposição, figura com vantagem entre os outros quadros que expõe este anno.

Outras obras
cf. Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra


"João Semana"; "Os oleiros" [a segunda versão quadro, exposta no Salon de Paris de 1900 e perdida no naufrágio do Saint-André]; "As papas"; "A convalescente"; "As Padeiras" [ou "Os Padeiros", ou "Dia de Mercado" ou "Mercado em Figueiró"];

As Padeiras [Os Padeiros, Dia de Mercado, Mercado em Figueiró], José Malhoa, 1898.
Imagem: Wikimedia, paintings by José Malhoa

"Gozando os rendimentos";

Gozando os rendimentos, José Malhoa, 1898.
Imagem: Wikimedia, paintings by José Malhoa

"Volta do trabalho"; "A picota"; "Cabanas dos pescadores"; "Rua de Gil Avô" (Tomar); "Retrato de Madame L"; "Manuel Quaresma de Oliveira"; "Sr. Conde de Proença-a-Velha".

Sr. Conde de Proença-a-Velha, José Malhoa, 1898.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

"Á espera do pintor", uma telasinha muito apreciavel de Manuel de Macedo, e que faz parte da galeria da Ajuda.

Á espera do pintor, Manuel de Macedo.
Imagem: O Occidente N.º 702, 30 de junho de 1898

"Rivaes" é o titulo de um quadro de Gyrão, representando, com toda a verdade, dois gallos que se encontram.

Rivaes [Os Rivais, O rival], Moura Gyrão, 1898.
Imagem: MutualArt

As gravuras que publicamos são dos quadros a que nos referimos; successivamente iremos apresentando aos nossos leitores mais algumas reproducções das obras d'arte que figuram n'esta exposição. (4)

É o quadro do mestre, um dos mais bellos que se destaca na exposição; é tombem um dos ultimos que elle pintou, talvez quando a morte já o andava requestando para o seu leito de somno eterno.

Conduzindo o rebanho (Arredores de Lisboa), Silva Porto, 1893.
Imagem: MNSR

Com que saudade não levantamos os olhos paro aquelle quadro, pastoril, simples, como a alma do artista; com que magua nos lembramos que Silva Porto, o pintor que melhor tem comprehendido e transportado para a tela, a paysagem do seu paiz, já não virá enriquecer com novos quadros, producto do seu talento, as exposições d'arte onde elle tanto brilhou.

Cedo subiram de valor os quadros d'este artista, porque cedo cahiu, da sua mão inane, a palheta que os produzia.

"Conduzindo o rebanho" [v. O Grémio Artístico (3.ª exposição, 1893)] é hoje uma tela preciosa, e figurando na Exposição d'Arte com que o Gremio Artistico celebrou o Centenario do descobrimento do caminho maritimo para a India, honrou bizarramente a grande festa nacional. (4)


(1) O Occidente N.º 699, 30 de maio de 1898
(2) O Occidente N.º 698, 20 de maio de 1898
(3) O Occidente N.º 701, 20 de junho de 1898
(4) O Occidente N.º 702, 30 de junho de 1898
(5) O Occidente N.º 703, 10 de julho de 1898

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segunda-feira, 1 de maio de 2017

O Grémio Artístico (non in solo pane vivit homo)

Com este título [Grémio Artístico (9 exposições anuais, de 1891 a 1899)] vae fundar-se em Lisboa uma sociedade para promover o desenvolvimento da arte nacional, por meio da aggremiação de todos os artistas portuguezes e pessoas que se interessam pelas bellas artes; fazendo exposições annuaes e estabelecendo na sua sede, uma exposição permanente; abrindo aulas de desenho, aguarella, pintura e esculptura; realisando conferencias publicas sobre assumptos d’arte e litteratura; publicando mensalmente uma revista artistica e litteraria; estabelecendo um gabinete de leitura. 

Descanso (posteriormente O atelier do artista), Malhoa, 1893 ou 1894.
Imagem: Wikipédia

A comissão organisadora d’esta sociedade é composta dos srs. Antonio Carvalho da Silva Porto, Ernesto Condeixa, João Vaz, Abel Accacio Botelho, Monteiro Ramalho e Emygdio Brito Monteiro.

Où es-tu Lili?, José de Brito, 1890.
Imagem: O Occidente N.º 524, 11 de julho de 1893

Sabemos que tem adherido a esta idéa muitos artistas e amadores de bellas-artes, tendo-se realisado já a primeira reunião para a leitura dos estatutos. A fundação d'esta sociedade será de grande beneficio para a arte portugueza que tão abandonada tem andado. (1)

Retrato de Abel Acácio Botelho, António Ramalho, 1889.
Imagem: MNAC

Annos depois de organisado o grupo do Leão, bolorencias inherentes à natureza pantanosa d'este género de sociedades, levaram alguns artistas a se separarem d'elle, e a incorporarem-se-lhe outros, e a nova confraria a alargar-se num programma mais íngreme de letras e artes, com saraus, banquetes, exposições e regalos, que, pela vida periclitante da nova milí­cia, intitulada Grémio Artístico, não chegaram a cabal execução, à parte as exposições, decaídas, que o profissional hoje evita, e que a invasão do furioso amador quasi tornou fastidiosas. (2)

Colheita ou Ceifeiras, Silva Porto, 1893.
Imagem: Wikipédia

A rotina dos salões do Grémio implicava porém a presença dos melhores "naturalistas" da primeira e da segunda geração. Catálogo após catálogo os nomes desfilam, perdidos embora num nevoeiro de amadores e discípulos, que contribuíam para o elevado número de peças de pintura espostas (de 160 a 220; mas só 81 no último salão).

NON IN SOLO PANE VIVIT HOMO
(nem só de pão vive o homem)

Nas salas da exposição Silva Porto, até morrer, Malhoa e Vaz, sem faltarem um só ano, Columbano desde 96, Ramalho, Marques de Oliveira, Condeixa, Brito, Josefa Greno, uma ou duas vezes ausentes, e outros mais novos e igualmente assíduos, como Luciano Freire, Salgado, Carlos Reis, Gameiro, Colaço, Teixeira Lopes uma ou outra vez (numa secção de escultura habitualmente pobre), o rei D. Carlos, concorrendo sempre, dão ao "Salon" português uma significação panorâmica que tem de ser considerada no estudo dos anos 90. (3)


(1) O Occidente n.° 407, 11 de abril de 1890
(2) Fialho de Almeida cf. Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (I),
Illustrações de Casanova & Ramalho, Pref. de Fialho de Almeida, Lisboa, Livraria Ferin, 1896
(3) José Augusto França, A arte em Portugal no século XIX (vol. II), Lisboa, Livraria Bertrand, 1990

1.ª exposição, 1891:
O Occidente N.º 441, 21 de março de 1891
O Occidente N.º 442, 1 de abril de 1891
O Occidente N.º 443, 11 de abril de 1891
O Occidente N.º 445, 1 de maio de 1891

2.ª exposição, 1892:
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (I), 1896
O Occidente N.º 480, 21 de abril de 1892
O Occidente N.º 481, 1 de maio de 1892
O Occidente N.º 482, 11 de maio de 1892
O Occidente N.º 483, 21 de maio de 1892

3.ª exposição, 1893:
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (I), 1896
O Occidente N.º 515, 11 de abril de 1893
O Occidente N.º 516, 21 de abril de 1893
O Occidente N.º 517, 1 de maio de 1893
O Occidente N.º 519, 21 de maio de 1893
O Occidente N.º 520, 1 de junho de 1893
O Occidente N.º 524, 11 de julho de 1893
O Occidente N.º 526, 1 de agosto de 1893
O Occidente N.º 527, 11 de agosto de 1893
O Occidente N.º 530, 11 de setembro de 1893

Silva Porto falecido a 1 de junho de 1893:
O Occidente N.º 521, 11 de junho de 1893
Serões, revista mensal ilustrada, dezembro de 1905

A exposição Columbano:
O Occidente N.º 557, 11 de junho de 1894

4.ª exposição, 1894:
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (I), 1896
O Occidente N.º 556, 1 de junho de 1894
O Occidente N.º 564, 21 de agosto de 1894
O Occidente N.º 565, 1 de setembro de 1894
Arte Portugueza N.º 2, fevereiro de 1895
Arte Portugueza N.º 3, março de 1895
Arte Portugueza N.º 4, abril de 1895

5.ª exposição, 1895:
Arte Portugueza N.º 4, abril de 1895
Arte Portugueza N.º 4, abril de 1895

6.ª exposição, 1896:
Catalogo illustrado da 6ª exposição de arte promovida pelo Grémio Artístico em 1896
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (II), 1898
O Occidente N.º 625, 5 de maio de 1896
Branco e Negro, abril de 1896

7.ª exposição, 1897:
Catalogo illustrado da 7ª exposição de arte promovida pelo Grémio Artístico em 1897
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (II), 1898
O Occidente N.º 665, 20 de junho de 1897
O Occidente N.º 666, 30 de junho de 1897
O Occidente N.º 668, 20 de julho de 1897
O Occidente N.º 671, 20 de agosto de 1897
Branco e Negro, 17 de maio de 1897

8.ª exposição, 1898:
A 8.ª Exposição do Grémio assumiu carácter extraordinário, por se incluir nas comemorações do Centenário da Índia; e marcante foi também a contribuição do rei...
cf.
Críticos e crítica de arte em torno da obra de D. Carlos de Bragança

9.ª exposição, 1899:
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (III), 1903
O Occidente N.º 732, 30 de abril de 1899
Branco e Negro, 26 de março de 1899
Fialho de Almeida, À esquina (diário de um vagabundo), Coimbra, F. França Amado, 1903

Informação relacionada:
Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra

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quarta-feira, 22 de junho de 2016

Príncipe de Joinville

Em agosto de 1834, o Príncipe de Joinville (1818 -1900) passa novos exames em Brest, sob a direção de cavaleiro Préaux Locré. Recebido como aluno de primeira classe, embarca imediatamente em Lorient na fragata "La Syrene", vai a Lisboa, aos Açores, e regressa a França, após de três meses de navegação.

François d'Orléans, príncipe de Joinville (detalhe).
Chateau de Versailles, Franz Xavier Winterhalter, 1843.
Imagem: REPRO TABLEAUX

Em 1840 [...] participa na transladação dos restos mortais do imperador Napoleão. 

Transbordement des cendres de Napoléon, Morel-Fatio, 1841.
Imagem: L'HISTOIRE PAR L'IMAGE

Em maio de 1841, [...] embarcado na "Belle Poule", vai visitar Amesterdão e todos os portos ou instalações marítimas da Holanda. Seguidamente viaja para a América, visita o Cap-Rouge, Halifax, Filadélfia, Washington e regressa à Europa, por Lisboa, onde é recebido pela rainha Dona Maria, e regressa a França em janeiro 1842. (1)

Lisbonne vue du vieux port, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: LMT no Facebook

Após uma rápida travessia chegámos a Lisboa. É certo que o Tejo é um rio bonito, mas o panorama tão falado de Lisboa não merece, segundo eu, a sua reputação. Apenas a Torre de Belém charma os olhos com sua arquitetura original, e desde que aí desembarcámos o encantamento continua diante da igreja atrás dela, mas isso é tudo. O resto é feio.

Torre Velha, Lisbonne, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: Sotheby's

Nós descemos a terra na chalupa ( falua ) [sic, i.e. galeota] Real, uma embarcação guarnecida de esculturas douradas com dossel de seda à ré, cuja tripulação se compunha de em homens do Algarve de tez morena , vestidos de calções curtos, jaqueta de veludo amaranto [vermelho escuro] e envergando boinas venezianas. Remavam em pé cadenciando os movimentos do remo com uma espécie de ladainha, em homenagem à rainha, que cantavam em coro.

Não era a primeira vez que eu vinha a Lisboa; aí reencontrei com alegria a rainha D. Maria, uma amiga de infância da qual viria a ser, não sei quantas vezes, cunhado; aí reencontrei também o seu marido, o rei Fernando, que eu conhecia menos. Artista até à ponta das unhas, musico, aguarelista, aguafortista, ceramista notável, o rei Fernando detestava a política; esses e outros pequenos defeitos, que nos eram comuns, ligar-nos-iam intimamente, e essa amizade duraria até ao seu final prematuro.

Vue de Lisbonne, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: artnet


Regressei com frequência a Portugal; sempre aí recebi um acolhimento do qual guardo a recordação mais reconhecida. Aí encontrei homens distintos, mulhers amáveis, instruídas, charmosas; também dediquei a Portugal e aos portugueses sentimentos de uma afeição sincera e desejo que todos os meus votos sejam por eles seguidos sobre a terra e sobre o mar, mas não entrarei na mais pequena reflexão sobre a sua vida política.

Almada vue d'Alfeita [sic], François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: artnet

Na época da qual falo, este país tinha duas ilustres espadas: os marechais Saldanha e terceira, que serviam alternadamente de apoio à mudanças alternadas da Constituição, fosse na ajuda a levantamentos militares, fosse na ajuda a procedimentos mais parlamentares. Era o costume do país, o qual ia melhorando. Havia, como em França, dois partidos dinásticos; mas, coisa curiosa, o partido miguelista que fazia oposição à rainha Dona Maria, partid pouco numeroso de resto, pretendia-se o partido da legitimidade, bem que ele reivindicasse os direitos de D. Miguel, representante de um ramo mais jovem.  Que os políticos profundos arranjem isso a seu modo.

Não sei se é na ocasião desta estadia que, recebendo em Belém o corpo diplomático, o duque de Palmela, que se me apresentou como ministro dos negócios estrangeiros, me pediu de o desculpar por abreviar a cerimónia, já que a duquesa de Palmela, nesse momento, estaria prestes a dar ao mundo o se décimo quinto filho, prova palpável, dada por um ministro de negócios estrangeiros, da vitalidade da nação portuguesa.

O duque de Palmela, um diplomata da velha escola, que pleno de espírito natural e de talento, combinava a vantagem de ser próximo dos grandes diplomatas do século, os Talleyrand, os Metternich, etc., etc., convida-me para jantar alguns dias depois.

A refeição foi explêndida. À chegada, os archeiros reais, assim chamados porque estão armados com alabardas, guarneciam a escadaria; depois passamos pelos belos salões, ao fundo dos quais, à saída da mesa, uma porta ampla se abria para deixar ver, no alto de um estrado de vários degraus, uma magnífica cama de cerimónia, e nessa cama a duquesa de Palmela, que há pouco tempo dera à luz, e a quem todos os convivas se apressavam a ir apresentar as suas homenagens.

Numa revista às tropas portuguesas notei belos batalhões de caçadores e tive uma conversa bem divertida com o célebre almirante Sir Charles Napier, que assistia a essa revista, a cavalo, em uniforme de comandante de navio inglês, mas com um pequeno chapéu à Napoleão com cocar [laço] português, as calças subidas, os pés armados com gigantescas esporas de caça e um bastão enorme na mão [...] (2)


No mês de junho seguinte, [o Príncipe de Joinville] voltou para o "Belle Poule" com a esquadra às ordens do vice-almirante Hugon. Acompanha então o seu irmão mais novo, o Duque de Aumale a Nápoles, depois, a Lisboa, e dirige-se ao Brasil fazendo escala em Saint Louis, Senegal [...]

Esta viagem tem por objetivo o pedido em casamento da Princesa Dona Francisca de Bragança (1824 - 1898), filha do imperador Dom Pedro I, e irmã do futuro imperador Dom Pedro II e da Rainha de Portugal Dona Maria. 

Dona Francisca de Bragança, princesa de Joinville (detalhe),
Musée de la Vie romantique, Ary Scheffer, 1844.
Imagem: The Royal Forums

A união dos dois príncipes é celebrada no Rio de Janeiro, no dia 1º de maio de 1843. Imediatamente após, o Príncipe leva a sua esposa para França, onde brevemente nascerão os seus dois filhos. No dia 31 de julho de 1843, Joinville é nomeado contra-almirante [...] (3)


(1) Wikipédia, François d'Orléans (1818-1900)
(2) Joinville, François Ferdinand Philippe Louis Marie d'Orléans prince de, Vieux souvenirs: 1818 - 1848, Paris, Calmann Lévi, 1894
(3) Wikipédia, idem

Versão inglesa:
Joinville, François Ferdinand Philippe Louis Marie d'Orléans prince de, Memoirs (Vieux souvenirs) of the Prince de Joinville, London, William Heinemann, 1895


Leitura adicional:
Outros escritos de François d'Orléans, príncipe de Joinville