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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Igreja das Chagas

Correndo o anno de 1493, instituiu fr. Diogo de Lisboa, religioso trino, no seu convento da Santissima Trindade d'esta corte, uma confraria intitulada das Chagas de Jesus, e composta de maritimos que andavam na carreira da lndia, e das outras nossas possessões de além mar.

Vrbivm praecipvarvm mundi theatrvm qvintvm Georg Braun  [Georgio Braúnio Agrippinate], ao centro (n° 116) a Igreja das Chagas, á esquerda (n° 115) a igreja e convento de Santa Catarina, em baixo Igreja de S. Paulo, Franz Hogenberg (detalhe), 1598.
Imagem: Wikipedia

Rica pelas muitas esmolas de seus numerosos irmãos, floreceu por largos annos esta confraria sob a protecção do instituidor, que por suas letras e virtudes occupou na ordem os cargos de ministro do convento de Lisboa, e de provincial.

Suscitando-se, porém, desintelligencias entre os frades e a irmandade das Chagas, resolveu fr. Diogo fazer edificar egreja propria para a dita confraria.

Escolheu-se para esta fundação o alto do monte sobranceiro ao Tejo, e visinho do outro chamado do Pico, ou "Belveder", onde mais tarde se erigiu a egreja parochial de Santa Catharina por devoção da rainha d'este nome, mulher dei-rei D. João III (foi erecto este templo em 1557, e dois annos depois instituida a parochia).

Caminhou ligeira a obra, porque o zeloso e activo trinitario não descançou emquanto a não viu concluida, dizendo a primeira missa  em o novo templo no dia 30 ele novembro de 1542.

Pelos muitos creditos que tinha em Roma, alcançou o fundador uma bulla do papa Paulo III, concedendo à egreja das Chagas as honras de parochia, com permissão de administrar todos os sacramentos aos maritimos, e dando faculdade á irmandade para nomear capellão, e ter contiguo um hospital para os feridos e enfermos das armadas.

Entre outros privilegios mais concedidos pelo mesmo pontifice, e confirmados por bulla de Urbano VIII, de 23 de outubro de 1623, mencionarcmos um muito honorifico, que foi ser annexada a egreja das Chagas à basifica laterancnse de Roma, com isempção do ordinario, segundo as disposições do concilio tridentino.

Igreja das Chagas Lisboa em 1650 (detalhe).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Fez-se com grande pompa a trasladação da confraria, saindo esta em procissão com mui ricos andores, e musicas, da egreja da Trindade para a das Chagas, no dia e anno acima referidos. Para que se julgue do esplendor d'esta solemnidade, e da importancia e grandeza da confraria, diremos que contava n'esse tempo, e levava n'aquella procissão uns oitocentos irmãos. (1)

Um dos encantos da nossa Lisboa são os sinos; parecem ás vezes marimbas ethéreas tangidas pela mão dos Seraphins. Pois entre os mais agradáveis e crystallinos campanários figura o das Chagas, o dos tão sonoros tão contentes sinos!

Os seus repiques e menuetes choram tristezas fúnebres a quem vai rio a baixo, dizendo adeus, sem saber por quanto tempo, ao esplendido panorama de Lisboa ; sim, mas quantas alegrias não expandiam, ao repicarem, como era seu officio, quando entravam o Tejo as naus da índia ! quando a alvoroçada Lisboa communicava a noticia de casa em casa! quando toda a população corria para a Ribeira!

O relógio é que não gosava de grande reputação, coitado, a julgal-o por um ditado plebeu: "Em mulher de Alfama, homem do mar, relógio das Chagas, não ha que fiar" [...]

P.e António Vieira (1608-1697) por Arnold van Westerhout.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Se a voz dos sinos é tão agradável nas Chagas, outra voz mais bella ressoou n'aquella abóbada: foi a do Padre Antonio Vieira em 14 de Setembro de 1642, prégando ali n'uma festa de Santo Antonio. (2)

Não sobresaía a egreja das Chagas em sumptuosidade de construcção, nem em bellezas de arcbitectura, mas sim na riqueza das alfaias e paramentos. Com as offerendas que continuamente lhe faziam os navegadores, com especialidade da India e do Brasil, foi adquiriudo muitas e custosas peças de prata, e paramentos bordados e franjados de oiro com extremada perfeição.

Igreja das Chagas, Grande Panorama de Lisboa Azulejo (detalhe), c. 1700.
Imagem: Flickr

Succedeu, porém o terremoto do 1.° de novembro de 1755, e perdeu-se quasi ludo isto. A egreja arruinou-se aos primeiros abalos, e depois ateou-se n'ella o fogo, que a reduziu a cinzas. Apenas se salvou alguma pouca prata, e quatro imagens santas.

Igreja das Chagas em Vistas panorâmicas de Lisboa antes do terramoto (detalhe), C. Lemprière, 1756.

Foi estabelecer-se provisoriamente a confraria na capella da quinta Nova, a Sete Rios, propriedade então de Bento Gonçalves Forte. Conservou-se ahi até junho de 1756, em que se passou para uma ermida, que mandára construir de madeira no sitio dos Cardaes, na Cotovia, emquanto se procedia á reedificação do seu antigo templo. Assim que este se concluiu, voltou para elle.

A egreja das Chagas está no districto da parochia da Encarnação. Como se ajuizará á vista da gravura que apresentamos, é um templo de modesta architectura no exterior, mas bem ornado interiormente, posto que com singeleza, e sobre tudo notavel pelo seu muito aceio. Os seus rendimentos estão hoje mui cerceados, porque a irmandade das Chagas de Jesus já não é numerosa, como outr'ora, nem dispende tanto com o culto divino. Todavia fazem-se n'ella os officios regullares, e algumas festividades com bastante decencia.

Egreja das Chagas, gravura de João Pedroso, 1863.
Imagem: Hemeroteca Digital

Possue esta egreja o corpo de Santo Urbano, que d'antes se achava depositado na capella da casa visinha, de que é proprietario o sr. Casal Ribeiro, e que este cavalheiro fez transferir, ha alguns annos, para aquelle templo.

A egreja tem o frontispicio voltado para oeste. Como está edificada na crista do monte, o seu adro é pequeno, porém mui lindo pelas arvores que o assombram para o lado do sul, e principalmente pelo delicioso painel que os olhos d'alli relanceiam.

A cidade, descendo por valles e subindo por encostas até Belem; o Tejo espraiando-se magestosamente, como um golfo, até se ir confundir com o Oceano por entre as fortalezas que lhe defendem a foz; os mo montes de além com suas quintas e povoações guarnecendo-lhes as faldas, ou surgindo das quebradas, ou coroando-lhes as alturas, e mais longe a serrania da Arrabida: tal é esse painel encantador. (3)

*
*     *

Em 1898, se não me engano, consentiu a Camara, por motivos de certo muito transcendentes, mas que ficaram desconhecidos, um roubo artistico feito a um dos mais bellos miradoiros de Lisboa: permittiu o alteamento de um grande prédio do pateo do Pimenta, por forma que interceptou a vista para sueste.

Panorâmica de Lisboa e do rio Tejo vendo-se a igreja das Chagas de Cristo, 1905.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Não creio que andasse bem, nem o proprietário pedindo e acceitando a licença, nem a Camara concedendo ao interesse financeiro de um influente politico, o sr. Conselheiro José Dias Ferreira, submetteram-se considerações de ordem mais nobre: os direitos do Bello. Emfim, se o publico perdeu uma parte do espectáculo, o inquelino do dito proprietário ganhou-a. E uma compensação.

Igreja das Chagas de Cristo, Mário Novais, 1949.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Como chronista e procurador officioso da Cidade, cabe-me o direito de dizer n'isto o que penso. A lettra redonda tem os seus fóros. Uma coisa é usar da imprensa; outra muito diversa é abusar.

Hoje, que tanto se fala da Arte, hoje que ha um Conselho superior de monumentos, hoje que bellissimas escolas industriaes e artísticas florescem em toda a parte, espalhando nas classes populares conhecimentos que ellas d' antes não possuíam, hoje que tanto se pensa no aformoseamento e saneamento da Capital, pergunta o imparcial bom senso: deveria o Município ter consentido aquelle biombo, aquelle empacho, num dos sítios mais desafogados e pittorescos da Cidade? e deveria um cidadão do mérito do sr. José Dias Ferreira, antigo Lente de Direito publico, antigo Ministro, Presidente do Conselho, legislador, pedir (ou acceitar sequer) aquella concessão?

Lisboa, zona da Bica, Artur Pastor, década de 1960.
A igreja das Chagas de Cristo e as torres da igreja de São Paulo.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Francamente respondo: não devia acceital-a o particular, e não devia a Camara concedel-a. Para dar vista a meia dúzia de janellas do prédio de um só individuo, permittiu-se que fosse vilipendiado o direito de nós todos. Foi-nos expropriada, sem vantagem nossa, e contra todos os dictames do bom senso, da justiça, e da equidade, uma vasta propriedade que disfructavamos desde séculos.

E entendo mais: entendo logicamente que, de ora em diante, não ha considerações que impeçam os outros donos dos terrenos da vertente de construírem para leste e sul, afogando o largo das Chagas em edificações de mestre de obras, e acabando de vez com os restos do prospecto que ainda d'ali se gosa.

Do Alto das Chagas Lado S., c 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O sr. Conselheiro José Dias Ferreira, proprietário opulento, não precisava da migalha que lhe rende o andar que levantou, para augmentar os seus haveres; e, como homem de talento laureado e indiscutível, não precisava d'esse monumento para sua gloria. (4)


(1) Ignacio de Vilhena Barbosa, Archivo Pittoresco, Tomo IV n.° 6, 1863
(2) Julio de Castilho, Lisboa Antiga Vol. II
(3) Ignacio de Vilhena Barbosa, Idem
(4) Julio de Castilho, Idem

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Obras maiores de João Pedroso Gomes da Silva (1825 - 1890)

Os principais navios desse programa [programas navais dos ministros Sá da Bandeira e Mendes Leal, a partir de 1858]: as corvetas mistas Bartolomeu Dias, Sagres e Estefânia, construídos em Inglaterra, foram todos "retratados" em pintura e em gravura, por João Pedroso. As corvetas, Duque de Palmela e Sá da Bandeira, dois dos navios desse programa, construídos no Arsenal da Marinha de Lisboa, também foram alvo da atenção do artista.

Chegada a Lisboa de S.M. Maria Pia de Sabóia, João Pedroso, 1862.
Imagem: As corvetas mistas na obra de João Pedroso, Revista da Armada

Este quadro retrata a “Chegada a Lisboa de S.M. Maria Pia de Saboia” a 5 de Outubro de 1862 duma frota portuguesa (constituída pelas corvetas Bartolomeu Dias, Sagres e Estefânia, após uma viagem realizada desde Génova em companhia de navios de guerra italianos.

Aliás, esta pintura constitui uma das três obras monumentais de João Pedroso que se encontram no Palácio da Ajuda,

Chegada a Lisboa da Rainha Dona Estefânia a bordo da corveta Bartolomeu Dias, João Pedroso, 1862.
Imagem: Revista da Armada, Agosto de 2008

As duas outras obras, igualmente de grandes dimensões têm por temas, respectivamente: "A Chegada a Lisboa da Rainha Dona Estefânia" (quadro pintado retrospectivamente) e a "Partida para França da Família Real em 1865". Nesses dois quadros são também reconhecíveis as corvetas Bartolomeu Dias, Estefânia e Sagres. 

Partida para França da Família Real, João Pedroso, 1865.
Imagem: Revista da Armada, Abril de 2014

A pintura desses três acontecimentos históricos marcantes (vulgo "pintura histórica") foi encomendada a Pedroso pelo Rei Dom Luís. O conjunto destas obras contribuiu seguramente para confortar o successo e a carreira comercial do pintor, nomeadamente nos Salões da Sociedade Promotora de Belas Artes de Lisboa, onde expunha. (1)


(1) Paulo da Silva Santos, A revolução industrial, Lisboa marítima e a Marinha de Guerra na obra de João Pedroso, 2014

Tema:
João Pedroso

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Os festejos de 24 de julho de 1874

Para ampliar a commemoração histórica, que se comprehende no capitulo antecedente, darei em seguida o programma da primeira grande commissão organisada em Lisboa para os festejos de 24 de julho e a relação d'esses festejos, relativa a 1874, e copiada de Diário de Noticias n.° 3:037, do dito anno. 

Sede do Diário de Noticias, fundado em 1864, na antiga rua dos Calafates no edifício da Typographia Universal in Edição comemorativa do cincoentenário do Diario de Notícias
Imagem: Hemeroteca Digital

Á falta de informação mais minuciosa e completa, quando menos far-se-ha idéa do modo como o povo liberal relembra tamanho facto histórico, e aqui ficará tal registo.

Programma dos festejos do dia 24 de julho, anniversario da entrada do exercito libertador em Lisboa

1.° No dia 23 de julho, celebrar-se-ha na egreja dos Martyres, pelas 11 horas da manhã, uma missa commemorativa, por aquelles portuguezes que succumbiram nas lactas politicas, travadas no paiz, e que terminaram em 1834.

2.° Ao romper da aurora no dia 24 de julho, subirão ao ar 6 girandolas de foguetes em cada uma das freguezias da captal, içando-se a bandeira nacional por essa occasião nas torres das respectivas egrejas.

Estandarte Liberal, Bandeira nacional de Portugal de 1830 a 1910.
Imagem: Wikipédia

3.° A uma hora da tarde haverá um solemne Te-Deum na egreja de Santa Justa e Rufina (S. Domingos) findo o qual, a grande commissào encamínhar-se-ha ao tumulo do duque da Terceira, e sobre elle deporá uma coroa.

4.° Convidar-se-hão as philarmonicas de Lisboa para ao romper do dia 24, tocarem o hymno nacional na praça de D. Pedro, junto da estatua, percorrerem as ruas da cidade, e fixarem-se nas primeiras praças e largos mais importantes, durante a noite.

5.° O passeio do Rocio será gratuitamente franquiado nessa noite, onde tocarão 3 bandas de musica.

Illuminação do Passeio Publico, litografia A. S. Castro, 1851.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

6.° Dar-se-ha no dia 24 um jantar aos presos das cadeias civis de Lisboa.

7.° Serão convidados todos os habitantes da capital a illuminarem exteriormente as suas casas na noite de 24 de julho.

8.° Solicitar-se-ha da empresa dos theatros espectáculos gratuitos na mesma noite.

Antigo Circo Price, demolido para a abertura da avenida da Liberdade, desenho do natural por Casellas in O Occidente 1883.
Imagem: Hemeroteca Digital

9.° Pedir-se ha ao governo de sua magestade que declare de grande gala o dia 24 de julho para sempre.

10.° O ex.mo duque de Loulé, presidente da grande commissão eleita em reunião popular de 14 do corrente mez, será encarregado de dar conhecimento do presente programma a sua magestade el-rei, significando-lhe o desejo que a commissâo tem de que o chefe augusto do Estado e e toda a família real assistam ás solemnidades religiosas dos dias 23 e 24 de julho.

Nuno J. S. de M. R. de M. Barreto (1804-1875), 1.° duque de Loulé.
Imagem: Wikipédia

11.° Rogar-se-ha ao em.mo patriarcha, que presida aos actos religiosos dos dias 23 e 24.

12.° Serão convidados pela imprensa o ministério, os membros do corpo legislativo, os veteranos da liberdade, os ajudantes do imperador e do duque da Terceira, os tribunaes, a imprensa, a ex.a camara municipal de Lisboa, todas as auctoridades, as corporações e as associações, para assistirem ás solemnidades dos dias 23 e 24, ou fazerem-se n'ellas representar.

13.° A commissão dará conhecimento d'este programma aos ex.o presidente do conselho de ministros e ministro do reino.

Lisboa, 17 de julho de 1872. — João António dos Santos e Silva, Joaquim Possidonio Narciso da Silva, José Ribeiro da Cunha, João Manuel Gonçalves, António de Nascimento Rozendo, Visconde dos Olivaes, Manuel José Mendes, Manuel Patricio Alvares, José Baptista d'Andrade.

Palacete Ribeiro da Cunha, em estilo neomourisco desenhado por Carlos Affonso, 1877.
Imagem: Olhai Lisboa

Começaram e terminaram os festejos commemorativoa de 24 de julho mais concorridos e mais brilhantes que nunca, sem que occorressem desordens, nem desaguisados em tão numerosos ajuntamentos como os que se viram; nem que cousa alguma viesse empanar-lhes o vivo esplendor.

O povo demonstrou, nas suas manifestações espontâneas, pacificas e enthusiasticas, que ama a liberdade e a deseja manter: e um povo assim, é digno d'ella. Registaremos aqui, pois, mais esta pagina de affirmação aos sentimentos liberaes que tão enraizados estão na capital, como em todo o reino.

Apesar de se haver combinado que só se lançariam ao ar foguetes quando desse a salva no castello de S. Jorge, durante a noite de 23 para 24, e em diversos pontos da cidade, se ouviram vivas á liberdade e o estalar amiudado, e quasi sem interrupção, do fogo festival, principalmente no Rocio, onde alguns grupos queimaram fogo de sala.

Ao romper da aurora, deu o castello a salva costumada e de todos os largos e praças subiram aos ares girandolas sem conta, tocando as philarmonicas em algumas praças e por diíterentes ruas, e as bandas regimentaes ás portas dos respectivos quartéis.

Vista oriental de Lisboa tomada do jardim de S. Pedro de Alcântara, 1844.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Muito antes de nascer o dia, já estavam na praça de D. Pedro IV, e em volta do monumento, onde tinham accendido os fogachos de gaz, milhares e milhares de pessoas. Tinham vindo alli, para a alvorada as musicas de infanteria 11 e de caçadores 6, depois vieram a dos bombeiros e da viuva Roxo.

Inauguração da estátua de D Pedro IV em 1870.
Imagem: Wikipédia

A sociedade Recreio Artístico, que tinha concedido um baile campestre a favor dos veteranos da liberdade, aliás muito concorrido, cumpriu o que promettera. Foi tocar a alvorada para o campo de Sant'Anna, onde vimos reunidas mais de 1:000 pessoas.

Acabado o toque a sociedade seguiu para o Rocio, executando hymnos nacionaes, acompanhando a aquella multidão, onde se notavam muitos veteranos.

No caes de Sodré e Corpo Santo, fizeram a alvorada a banda de ex alumnos da casa pia e a philarmonica Seixalense e outra, que percorreram todo o Aterro, comprimentando-se, e eram também seguidas de numeroso povo, que dava vivas e lançava foguetes.

Pode-se dizer que, pelo movimento das ruas, uma parte importante da população viera saudar jubilosa o despontar do dia em que se commemorava uma grande data.

Desde as oito horas da manhã até ás 11 distribuiu-se, em varias freguezias, bodo aos pobres, constando de pão, carne, arroz, toucinho e esmolas de 100, 200 e 500 réis ; e notaremos os das commissôes voluntariamente organisadas em S. Paulo, S. João da Praça, Mercês, S. José, Pena, Esperança, calçada de Santa Anna, Anjos e Soccorro.

N'esta ultima freguezia havia duas commissôes. Na Encarnação havia também duas, uma da freguezia que deu esmola de 1:000 réis a 41 veteranos e outra na Rua dos Calafates. Os bodos foram distribuidos na presença das respectivas commissôes, por damas ou por meninas, tocando durante o acto as philarmonicas, que obsequiosamente se prestaram a isso.

Em algumas freguezias a abundância dos donativos deu logar a augmentar o bodo. Durante a distribuição do bodo na rua dos Calafates tocou uma orchestra, composta de professores e organisada por influencia de um dos membros da commissão.

Eram quasi três horas da tarde quando chegou á ponte dos vapores do Terreiro do Paço, a bordo do Lusitano a grande commissão de Almada com a camara municipal d'aquelle concelho, e muitos cidadãos liberaes que a acompanhavam. 

Praça do Comércio e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Na ponte esperavam estes cidadãos a grande commissão de Lisboa, representada pelo seu presidente e muitos de seus membros, vereadores do municipio de Lisboa, veteranos da liberdade, e outras pessoas, levando a bandeira da commissão lisbonense o vogal Francisco de Almeida e da associação dos veteranos o sr. Silva, empregado na alfandega e fundador da mesma associação.

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António da Silva, o veterano da bandeira, fundador da associação.
Imagem: Archive.org

Logo que a commissão desembarcou, subiram ao ar algumas girandolas de foguetes, tanto de bordo do "Lusitano", como da praça, onde se tinham agglomerado milhares de pessoas. 

As duas commissôes, levando na frente duas philarmonicas a dos bombeiros e Primeiro de Dezembro e logo após as bandeiras indicadas, seguiram pela rua do Ouro em direcção do Rocio, onde pararam para fazer continencia á estatua do imperador D. Pedro IV.

D'ahi seguiram para a egreja de Santa Justa, entre os repetidos vivas á liberdade, e aos veteranos, que se soltavam durante o transito.

Os veteranos, parte uniformisados, parte á paizana, mas todos sob a direcção do seu presidente, não seriam menos de 200.

O vasto templo de Santa Justa, preparado para o Te-Deum pela solicitude dos procuradores e andador da irmandade do Santíssimo, sob a direcção do sr. Rosa Araújo, ostentava as suas melhores e sumptuosas galas, com superabundância de armações de custo, numero admirável de luzes e profusão de flores naturaes.

No throno e nos altares viam-se mais de 700 lumes. O templo estava completamente cheio. Vimos alli representadas todas as classes.

A imprensa também teve a condigna representação, achando-se alguns jornalistas juntos com a grande commissão, e outros no corpo da egreja.

As associações operarias e algumas escolas egualmente tinham alli delegados seus, como o grémio popular, que era representado pelo seu presidente o sr. Silva e Albuquerque.

A commissão da Pena mandou áquella solemne ceremonia as 33 meninas, que vestira de manhã, e que, durante o acto, estiveram de velas accesas e com ramos de perpetuas e laço azul e branco.

Por volta das três horas e meia chegaram, um após outro, el-rei D. Luiz e D. Fernando, os quaes foram recebidos, á porta da egreja, pelo ministério, membros da grande commissâo e veteranos, com as respectivas bandeiras, arcebispo de Mytelene, collegiada, irmandade do Santíssimo, altos funccionarios militares e civis.

As Festas da Liberdade no Porto — Veteranos da Liberdade que tomaram parte no préstito in O Occidente, 1883.
Imagem: Hemeroteca Digital

El-rei trajava o uniforme de general. Sua magestade a rainha não pôde concorrer a Lisboa por incommodo de saúde. Logo que suas magestades tomaram assento nas cadeiras de espaldar, que lhes estavam proparadas no altar-mór, lado do Evangelho, debaixo de riquíssimo docel, entoou o Te-Deum o sr. arcebispo a grande instrumental.

D. Luis I (1838-1889), rei de Portugal de 1861 a 1889.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

Em frente da egreja, fazia a guarda de honra uma força de 100 homens da municipal, com capitão e dois subalternos e a musica.

A policia do largo e das ruas circumvisinhas era feita por uma força de cavallaria municipal commandada por um subalterno e guardas civis.

A entrada e saida de el-rei estalaram muitas girandolas de foguetes. O Te-Deum que era o de Marcos de Portugal, sob a regência do sr. Monteiro de Almeida, com 21 vozes e 42 instrumentistas, terminou ás 4 horas e 20 minutos.

Depois da ceremonia religiosa, el-rei dirigiu-se, em carruagem que o conduzira ao arsenal da marinha, onde o esperava o estado maior, e ahi montou a cavallo para a revista.

El-rei D. Fernando voltou para as Necessidades e em seguida regressou a Cintra, d'onde viera de propósito na véspera.

As quatro e meia, sua magestade o generalissimo do exercito, saía do arsenal em direcção á praça do Commercio, montando um soberbo cavallo baio e era seguido por um luzido estado maior, do qual faziam parte os ajudantes de campo, generaes (Jaula e D. Luiz de Mascarenhas; coronéis Folque e Cunha, e officiaes ás ordens, D. Francisco de Almeida, D. Manuel de Mello e Vito Moreira, e dos generaes Barreiros, Palmeirim, barão de Rio Zêzere, Mancos de Faria, Luiz Maldonado, Moraes Rego, Tavares de Almeida e Castello Branco e respectivos ajudantes de campo.

A divisão achava-se formada na praça do Commercio. O aspecto de todos os corpos em parada e o quadro que offerecia toda a divisão formada em columnas era deveras brilhante. Ao entrar elrei na praça as tropas apresentaram armas e as bandas tocaram o hymno real.

Finda a revista o generalissimo tomou pela rua do Oiro, seguido por toda a divisão para fazer a continência á estatua do imperador. El-rei e o seu estado maior collocaram-se sob as tribunas que se levantaram no theatro de D. Maria, para ver o desfilar de todas as tropas.

Na tribuna do centro não havia pessoa alguma da família real, e nas lateraes viam-se o ministério, parte do corpo diplomático estrangeiro, camará municipal, a grande commissão dos festejos, muitas damas, etc.

A força da guarda municipal que estivera ás portas do templo de S. Domingos, veio postar se em linha em frente de el rei, abrindo assim largo caminho para o desfilar das tropas.

A divisão passou em continência, como dissemos ; a artilheria e infanteria em columnas de divisões e a cavallaria a três. A marcha na continência em geral foi boa, havendo apenas um incidente que alterou o bom andamento da artilheria, por lhe ter caído uma parelha de muares na rua do Oiro.

Algumas divisões de caçadores e infanteria não tinham sufficiente espaço para estenderem bem em linha, indo algumas filas á rectaguarda por causa da grande massa de povo que se agglomerava em todos os pontos.

A divisão retirou pela rua Augusta e alguns corpos não seguiram para quartéis pelo itinerário indicado, por ter o sr. general commandante ordenado, á ultima hora, que seguissem o que lhes fosse mais conveniente.

A divisão compunha-se do regimento de artilheria n.° 1, com 6 metralhadoras, 36 canhões Krupps e 6 pecas de montanha, uma brigada de cavallaria com 6 esquadrões, commandada pelo sr. infante D. Augusto, levando ás suas ordens os srs. D. João de Mello e visconde de Seisal, e duas brigadas de infanteria.

A força de toda a divisão era de 5:210 praças, 567 cavallos, 388 muares e 48 bocas de fogo. Artilheria n.° 1 levava 510 homens, lanceiros da rainha 280 cavallos, e cavallaria n.° 4, 287; caçadores n.° 2, 430 homens; caçadores n.° 5, 578; infanteria n.° 1, 590; infanteria n.° 2, 600; infanteria n.° 5, 680; infanteria n.° 7, 625 e infanteria n.° 16, 630.

D. Carlos I em visita ao regimento de Lanceiros 2, foto de Joshua Benoliel, 1907.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

Estes corpos não apresentaram maior força por terem alguns destacamentos e grande numero de praças licenciadas.

O estado de asseio de todos os corpos, e a maneira como elles se apresentaram em parada, magnificamente armados e equipados, satisfez todos os espectadores e até os mais escrupulosos em cousas militares.

A força de artilheria ia imponente. Quarenta e oito bocas de fogo, como as que nós apresentámos, é força respeitável em qualquer parte da Europa.

A cavallaria ia toda bem montada e em força quasi completa. Parte do corpo diplomático estrangeiro finda a passagem das tropas foi felicitar o sr. ministro da guerra pela maneira brilhante como se apresentou a divisão.

Os corpos da guarnição de Belém chegaram á noite a quartéis, e a banda de caçadores da rainha, depois da parada, marchou em seguida para Queluz, indo em char-á-bancs a expensas de sua magestade.

Os navios durante o dia estiveram embandeirados em arco.

Lisboa — Vista do Tejo, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Viram-se, em todo o dia, innumeros homens com perpetuas ao peito, assim como muitas damas com ramos de egual flor.

Ao pôr do sol salvou o castello e lançaram-se mais girandolas.

A concorrência que fora extraordinária aos actos públicos do dia, e que se tornara notável á tarde, por occasião da revista e continência militares, tornou-se assombrosa á noite.

Não nos lembra vêr, em época alguma do anno, nas occasiões festivas, que dâo movimento ás massas populares, a affluencia d'este anno ás ruas de Lisboa.

A illuminação foi geral e deslumbrante em muitas partes.

A mais vistosa de todas era a da praça de D. Pedro, que se compunha de quatro grandes pyramides com 1:200 bicos de gaz, terminando com fachos, que illuminavam perfeitamente a praça e a estatua.

As pyramides pela frente e rectaguarda, estavam ligadas por festões, que tinham no centro duas estrellas, que também lançavam bastante luz por muitos bicos de gaz.

O edifício do theatro de D. Maria e os demais em volta da praça viam-se egualmente illuminados. Eram do mesmo modo brilhantes as illuminaçôes das rua dos Calafates, que, desde a travessa da Queimada até á rua das Salgadeiras, tinha um sem numero de bandeiras nas janellas e cruzando a rua bandeiras, festões, lustres e balões; a do largo do Camões, que tinha illuminação em volta do monumento com 200 lumes de gaz, afora os da estrella central; as do Corpo Santo que tinha dois arcos; cães do Sodré e Aterro, que tinha outros dois. onde se lia a data de "23 de julho de 1833", bandeiras, festões, mastros com escudos e estandartes.

Theatro D Maria II, Nogueira da Silva (desenho), Coelho Junior João Pedrozo (gravura), 1863.
Imagem: Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

Ali a illuminação era a balões em prodigiosa quantidade. Em outros largos e praças havia illuminações mais ou menos vistosas. A estação dos vapores Burnay, no Aterro, tinha grande numero de lanternas de cores, na frente da barraca. Seria difficil enumerar todos os edifícios particulares, além dos públicos, que apresentaram as suas fachadas illuminadas com lanternas ou gaz.

Entre outros, notaremos todos os hotéis do Chiado, sobresaindo o "Gibraltar", que hoje está no palácio Ouguella; os escriptorios da "Correspondência de Portugal" e de outras redacções; todo o edifício da Typographia Universal e escriptorios do "Diário de Noticias" e "Diário Popular"; companhia de vapores e outras; confeitaria na rampa de Santos; fabrica de gelo dos srs. Ferreira & C.a; as casas de vários cônsules e ministros estrangeiros, etc.

O Terreiro do Paço estava segundo o costume, mas em frente do caes das Columnas fundeara o vapor "Lynce", que illuminou graciosamente e durante a noite queimou alguns fogos de bengala.

O castello de S. Jorge exterior e interiormente tinha bonita illuminaçâo.

Nos coretos erguidos nos differentes pontos notámos: Caes do Sodré, philarmonicas Verdi, da Ponte Nova, e Capricho, do Barreiro; Corpo Santo, ex-alumnos da casa-pia; Ribeira Nova, Seixalense;
praça de D. Luiz, defronte da fabrica, fanfarra de curiosos; fim do Aterro, banda da guarda municipal; rua dos Calafates, philarmonica 24 Julho; rua do Currião, Timbre dos Artistas; largo do Camões, Alumnos de Minerva; Campo de Sant'Anna e largo do Tabellião, Recreio Artístico; largo da rua dos Canos, Xabreguense; largo da Esperança e Caes de Santarém, também philarmonicas; e no Rocio as bandas de infanteria de caçadores 6, e por vezes varias philarmonicas, sendo ali mais permanentes as Primeiro de Dezembro, de Aldeia Gallega, e dos bombeiros, que levava muitas figuras e apresentou-se bem uniformisada.


Barra de Lisboa vista do Caes do Sodré.
Imagem: Internet Archive

Repetimos: o modo como correram os festejos de 24, fazem o maior elogio do povo lisbonense. É agradável deixar isto registado. E cabe-nos, com egual satisfação, mencionar que, na ordem e organisação da commemoraçào solemne, pertence bom quinhão de louvor á boa vontade e ao zelo da grande commissão, e especialmente á sua commissão executiva.


(1) Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, Esboços e recordações, Lisboa, Typographia Universal, 1875, 246 págs.

Leitura relacionada:
Maria Isabel da Conceição João, Memória e Império, Comemorações em Portugal (1180-1960), Lisboa, Universidade Aberta, 1999
O dia de hontem na Piedade

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Marinha do Tejo

Começàmos hoje a publicar a serie dos barcos de transporte que navegam no Tejo, desde o catraio até á fragata, desenhados do natural, com toda a exacção, pelo sr. Pedroso, e por elle mesmo gravados.

João Pedroso, Revista Illustrada, anno 1, n° 17, 1890.
Imagem: O Archivo Pittoresco e a evolução da Gravura de Madeira em Portugal

É mui variada, no casco e no apparelho, esta serie de embarcações, a que chamaremos "marinha do Tejo", se é que lhe não deviamos antes chamar marinha pequena, já que não temos marinha grande...

Não affiaçàmos, porém, que a nomenclatura de taes embarcações sáia rigorosa, porque, se o lapis do nosso artista conseguiu roproduzir a fórma e velame dc todos estes barquinhos do Tejo, outro tanto não podêmos nós conseguir quanto á denominação e origem de alguns d'elles.

Começando pelos catraios, que são os mais pequenos, a d'onde nós chamâmos geralmente catraeiros aos barqueiros, vemos que esta denominação não é muito antiga, porque não vem similhante vocabulo nos nossos bons auctores maritimos, sendo tão copiosa a lingua portugueza em termos nauticos. O alvará do tempo do marquez de Pombal (1765), que abaixo transcreveremos, diz que os "catraios" se tinham introduzido por aquelle tempo, e em tal quantidade, que por serem mui pequenos, e governados por gente ignorante, succediam muitas desgraças e avarias no Tejo, pelo que foram mandados queimar por ordem do marquez de Pombal, determinando-se qual havia de ser a lotação dos botes que, em logar dos catraios, se podiam construir. 

Eis o que dizia o alvará:

"Eu el-rei faço saber aos que este alvará virem, que sendo-me presentes em consuIta do senado da camara os graves inconvenientes que resultam do uso das pequenas embarcaçoes chamadas botes, ou catraios, que de tempos a esta parte se tem introduzido para os transportes que se fazem no Tejo; tendo causado por uma parte frequentes perigos as vidas das pessoas que n'eIIas se transportam; não so pela pouca segurança das mesmas embarcações, mas tambem pela ignorancia das pessoas que as governam. E pela outra parte destinando-se como mais proprias para as clandestinas conducções, e descaminhos das fazendas de contrabandos. Para cessarem de uma vez os referidos inconvenientes, sou servido prohibir, da publicação d'este em diante, o uso das referidas embarcações pequenas, permittindo somente o daquellas que são necessarias para o serviço dos navios: e mando, que todas as que ficam exeptuadas, em transgressão do disposto n'este alvará, sjam logo aprehendidas, e queimadas por ordem do senado da camara da cidade de lisboa, nas praias a ellas adjacentes: e que os proprietarios das mesmas embarcações, incorram alem da pena do perdimento d'ellas, na de seis mil réis applicados para as despesas do senado, e na de prisão pelo, espaço de vinte dias pela primeira vez: aggravando-se-lhes em dobro, tresdobro, e mais á proporção das relácias, as referidas penas nos casos de reincidencia. Sou servido outro sim determinar, que as embarcações que se occuparem nos transportes que se fazem de  Lisboa para Belem, e mais portos da sua visinhança, sejam construídas na conforntidade das formas e medidas, que vão declaradas no papel que baixa com este, assignado por Francisco Xavier de Mendonça Furtado, ministro e secretario de estado dos negocios da marinha e dominios ultramarinos."

As medidas a que se refere este alvará são as seguintes:

"Devem as mais pequenas embarcações d`estes transportes ter de bocca, no menos, 7 pés. De comprimento de roda a roda, ao menos 28 pés. A popa sera larga como do falua. O rodo da fôrma sera bem redondo á proporção da bocca para poder aguentar. E não poderá trazer qualquer destas embarcações mais que uma vela e um muletim."

Em cumprimento deste alvurá, o senado publicou um edital, para que todos os botes ou catraios, incursos na queima ordenada pelo alvará, se juntassem na prata de Santos, sobre graves penas. Ahi se lançou fogo a todos, o qual durou por muitos dias.

Os botes que de novo se construiram, segundo as medidas indicadas, ficaram-se chamando "catraios", tem uma so véla, e dois remos. Véde-o na estampa, que lá vem elle pela proa de um bote cacilheiro, do qual para o seguinte artigo se dará noticia.

Catraio e cacilheiro, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Com a preciosa coadjuvação da capitania do porto, e da repartição do imposto municipal denominado "tramagalho" esperàmos poder esboçar uma historia curiosa de tantas embareaçõesinhas, quasi todas mui veleiras e airosas. (1)

Já dissemos, e se viu na gravura antecedente, que o bote de catraiar, ou catraio, como d'antes lhe chamavam, é a mais pequena embarcação de vela de quantas navegam no Tejo, apesar de os haver com capacidade para 15 passageiros, todos debaixo de toldo. Muitos d'estes botes, principalniente os do cáes do Sodré, alem da vela triangular de espicha, armam uma bojarrona á proa, e uma mezena á ré; com este panno ficam muito airosos e veleiros. Quando não tem vento armam dois, quatro, e às vezes seis remos.

Já se vê, pois, que hoje não ha botes tão pequenos e perigosos como aquelles, que por este motivo, mandou queimar o marquez de Pombal. 

Os catraeiros são por lei, tambem pombalina, obrigados a fazer exame perante o capitão do porto, sem o que a camara lhe não concede a licença necessaria para catraiar.

O bote cacilheiro, é o gigante dos catraios; rijo de borda, aguentando muito mar, e com alterosa vela triangular, não de espicha, mas içada ao tope do mastro, e engatada na proa, impina-se arrogantemente para ré. Enfunada com a grande corda de vento que apanha d'alto abaixo, arroja o bote num apice de Lisboa a Cacilhas, que é o seu porto. Antes da instituição da companhia dos vapores do Tejo, em 1838, os botes cacilheiros faziam carreiras alternadas com as faluas; hoje ha muito poucos, e nas horas desencontradas das viagens dos vapores da companhia é que fazem algumas carreiras.

Actualmente ha uns 300 botes matriculados em Lisboa.

A falúa tem duas velas, tambem triangulares ou latinas, mui altas, tendo a de ré duas escotas. É uma embarcação valentissima, e d'antes tinham quasi exclusivamente as falúas a carreira de Lisboa a Cacillias, tomando os passageiros no caes das Columnas da praça do Commercio. Com a instituição da companhia dos vapores, foram as falúas desapparecendo d'este caes, umas compradas pela propria companhia, para se desfazer d'ellas, e outras porque tomaram diverso destino, empregando-se no transporte de generos em differentes portos do Ribatejo.

Falúa, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Para Aldêa-Gallega, Moita, Alcochete, e Barreiro, ainda ha carreiras de falúa. As que estão matriculadas sao apenas umas 20.

A falúa, além das duas velas, tem quatro remos, de que pouco se serve, por ser embarcação pesada: algumas vezes armam os remos para ajudar a vela, quando o vento não é de feição. (2)

Todos os barcos que navegam no Tejo pagam um imposto á camara municipal de Lisboa, chamado do "Tramagalho", imposição antiquissima, e tanto que se lhe perdeu já a etymologia, sem que os esmirilhadores de antiqualhas tenham até agora podido atinar com a derivação d'este nome.

A camara, em consulta de 28 de julho de 1852, propoz ao governo um formulario do que deviam pagar todas as embarcações que navegassem no rio de Lisboa, ou viessem a seus portos, o qual foi approvado pela regia resolução de 17 de setembro do mesmo anno.

Ei-lo aqui, como parte integrante da histotia d'esta marinha do Tejo.

De cada viagem que fazem a esta cidade os barcos de Villa-nova, pagam 200 rs.

De cada viagem que fazem os de Abrantes, Punhete, Tancos Barquinha, Chamusca, Azinhaga, Santarem, Escaropim, Salvaterra, Porto de Muge, Virtudes, Samora e Benavente, 150 rs.

De cada viagem que fazem os barcos de Povos, Villa-Franca, Alverca, Póvoa, Savcavem e Friellas,  100 rs.


Os barcos de Abrantes, Punhete, Tancos Barquinha, Chamusca e Azinhaga, pagam além de 150 rs. acima referidos, mais, de uma avença muito antiga, a que chamam "cabo de anno", pelas viagens que fazem aos portos do termo até Paço d'Arcos, 1:000 reis. 


Todas as embarcações dos portos acima declarados, que fazem viagens de verão, que vem a ser: conduzir palha ou fruta para esta cidade, o qual verão principia desde o dia de S. Pedro até á feira de Villa-Franca; não pagam n'este tempo por viagens, mas sim por avença que vem a ser:

Cada barco, 4:000 rs.
Cada bateira ou lancha, 3:000 rs.
Cada batel, 2:000 rs.

Os barcos do Samouco Alcochete, Aldea-Gallega, Moita, Lavradio, Alhos-Vedros, Barreiro, Aldea de Pae Pires, Seixal, Cacilhas, Porto Brandão, Trafaria, Coina, Cascaes, e Paço d'Arcos, pagam por ajuste.
As falúas, pagam 1:400 rs. por-anno.
As falúas que andam nas carreiras para Cacilhas, 2:000 rs.
Os barcos de Moios, 1:200 rs.
As fragatas, 1:000 rs.
Os botes, a 960 e 800 rs., conforme a sua grandeza.

Bote d'agua acima, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Os barcos chamados d'agua a cima, cuja forma a nossa estampa representa, pertencem ao terceiro ramo d'esta tabela. (3)

Com o nome de aveiros, e não de saveiros, são estes barcos denominados na mesa do imposto chamada do Tragamalho. Talvez seja corrupção do primitivo nome que tinham quantos barcos vem ao Tejo da cidade de Aveiro, que são muitos.

A savara tambem mostra ter a mesma procedencia, mas estes tem quilha, e vão fóra da barra ajudar as moletas na pescaria.

O alijo traz na sua denominação o destino que tem, que é alijar, descarregar os barcos que não podem atracar. Ha tambem alijos de vela.

Saveiro, alijo e savara, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital
Todas estas tres embarcações foram escrupulosamente copiadas dos onginaes, pelo nosso exímio gravador o sr. Pedroso, que é tambem um peritissimo pintor de navios. (4)

Depois dos botes são os varinos os que em maior numero sulcam o Tejo. Esta denominação que elles tem no vulgo não vem em nenhum diccionario da lingua, e tambem na repartição do imposto que elles pagam em Lisboa tal se lhes não chamam, mas aveiros, nome generico para todos os barcos que vem do districto de Aveiro. Estão actualmente registados e avençados na repartição municipal de Lisboa 431 varinos ou aveiros.

Varino e monaio, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

O monaio é uma especie de varino da mesma procedencia, mas tem diversa armação, como bem mostra o que esta desenhado na estampa, ao mar do varino.

Pela seguinte curiosa estatistica, que na citada repartição nos ministraram obsequiosamente, vemos que a marinha do Tejo se compõe ao presente de 1:143 vélas. (5)


Embarcações registadas e avençadas na repartição do Tramagalho, Lisboa, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Chamam aqui no Tejo a estes barcos, "dos moinhos" ou de "moios", porque se destinam especialmente a conduzir as farinhas do Ribatejo para Lisboa.

Os barcos dos moinhos são mais airosos que as falúas com as quaes todavia se parecem. Tem como ellas duas velas, porém mais baixas e mais largas: os mastros sao inclinados para a proa, por isso escusam de bujarrona.

Barco de moinho, gravura, João Pedroso, 1861.
Imagem: Hemeroteca Digital

Segundo a estatistica que já publicamos, ministrada pela mesa do Tragamalho, ou da imposição das embarcações, na camara municipal, ha no Tejo 34 barcos dos moinhos, e a sua amarração é no caes do Tojo, proximo ao terreiro do Trigo. (6)


(1) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 31, pág. 247
(2) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 33, pág. 261
(3) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 36, pág. 285
(4) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 41, pág. 325
(5) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 48, pág. 380
(6) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1861, n° 9, pág. 70

Artigo relacionado:
Todos os barcos do Tejo


Informação relacionada:
As embarcações tradicionais do Tejo