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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Thomaz José da Annunciação (3 de 3)

Vivia — em 1846 — em Lisboa, um artista suisso, de quem Raczynski [Les arts en Portugal, 1847] falla com louvor: chamava-se Augusto Roquemont.

Educado em Itália, compellido talvez pela fortuna adversa, veiu em 1830, estabelecer-se em Portugal onde adquiriu nomeada e clientela entre a classe mais opulenta da nossa sociedade. Citavam-se com louvor os seus retratos do conde e da condessa de Farrobo, de Mr. Woodhouse, do Porto, do coronel Sarmento, depois visconde do mesmo nome, do barão e baroneza Lemercier, e dos quatro filhos do negociante inglez Hodgson, que por esses, que eram de corpo inteiro, e por mais dois de menores dimensões, lhe deu 95 moedas — 456$000 reis. Além dos retratos Roquemont também cultivava a pintura de género — os costumes populares.


Chafariz de Guimarães, Augusto Roquemont, 1847.
Imagem: Desde o tempo do barroco

Travar conhecimento com o pintor suisso, ser admittido a visital-o, e a frequentar-lhe o atelier, foi o sonho doirado de Annunciação, que estudava entregue a si — um sonho que elle nunca poude realisar. Roquemont não queria discipulos, nem desejava crear e educar rivaes, e, portanto, defendia os seus segredos, como o dragão das Hespérides os pomos dos seus jardins! Annunciação conseguiu ser recebido em sua casa, mas nunca o viu pintar!

Um dia, um morgado Lacerda, a quem o nosso artista dera em tempo lições de desenho, e que era admittido no templo do artista forasteiro, que lhe conhecia as posses, e por isso não o temia, veiu, enthusiasmado, contar maravilhas de um novo quadro que acabava de vêr — talvez um com camponezes do Minho, cantando e dançando ao som da musica — uma scena das populares e pittorescas romarias d'aquella nossa província, e de que o erudito critico allemão, já citado, falla também com grande louvor, dizendo, no artigo "Roquemont" do seu Diccionario, que é um excellente quadro de género, e o melhor que vira d'este artista. Na opinião de Lacerda era, pois, uma jóia d'arte, e Roquemont nunca fizera nada tão perfeito. Annunciação, ouvindo isto, largou-o, e partiu direito a casa do suisso, onde, apenas chegado, trocados os cumprimentos do estylo, abordou intrepidamente a grande questão do famoso quadro.

Roquemont escutou-o, sorrindo, e disse-lhe:

— Lacerda esteve brincando com o senhor. Deixe-o fallar. O senhor vae vêr o que eu fiz — levantando-se foi ao atelier, d'onde trouxe um quadro, que poz sobre uma cadeira.

A pintura era na verdade insignificante, e indigna dos elogios que lhe haviam feito. Annunciação não acreditou, todavia, nas palavras de Roquemont, e ficou convencido de que elle lhe occultava a sua obra, e que d'alli não tinha nada a esperar.

Paisagem e Animais, Tomás da Anunciação, 1851.
Imagem: MNAC

Tempos depois Lacerda disse-lhe que tinha em casa o quadro para o copiar, e prometteu deixar-lh'o vêr; porém, quando chegou o momento de cumprir a sua palavra, o que Annunciação viu foi a detestável copia que elle fizera; — o original, esse, Roquemont prohibira formalmente a Lacerda, sob pena de rompimento, que o mostrasse, fosse a quem fosse!

Esta anecdota, que ouvimos ao próprio Annunciação, pinta bem o estado da sociedade portugueza d'aquelle tempo, no que respeita a cultura artistica : parece que nos transportámos á Edade-media, em que os segredos da arte e da sciencia se conquistavam e se defendiam, ás vezes, a golpes de punhal!

Como havemos, então, de acceitar por boas e justas, comparações disparatadas entre os nossos artistas, que luctavam com todas as difficuldades accumuladas contra elles por uma civilisação atrazada e rachitica e os estrangeiros que já possuiam todos os elementos necessários para a sua educação, escolas, collecções, museus, amadores opulentos, estadistas apreciadores das artes, uma nação illustrada para publico, e uma imprensa jornalística competente, para lhes apontar os erros e para lhes apregoar os triumphos?

Arte Pintura Tomás da Anunciação Vista da Penha de França 1857.jpg

Foi em 1867 que Annunciação sahiu pela primeira vez de Portugal e visitou, á sua custa, a Exposição Universal de Paris. Acompanhou-o n'esta excursão o seu amigo e apreciado pintor de marinhas, o snr. Luiz Tomasini.

A viagem artistica, que elle estivera para levar a eífeito trinta annos antes, quando tudo lhe sorria, o amor da arte e o amor da vida, fel-a agora, quando os annos — ia entrar nos cincoenta — os trabalhos, e os desgostos, lhe tinham já anuveado e entenebrecido o horisonte, alquebrado o corpo e o espirito, transformando-lhe n'um presente melancholico e sombrio aquelle futuro, tão illuminado de resplendores e de glorias, que elle sonhara nos já saudosos dias da sua mocidade!

Eram passados os tempos. Não lhe fora concedido a elle — artista de raça — o que outros mais felizes, embora menos bem dotados, têem conseguido, — não poderá ir frequentar as escolas estrangeiras: vira-se conderanado a uma atmosphera sem luz, n'uma sociedade sem vida, mas onde se lhe deparavam, a todo o momento, os que voltavam de França, da Inglaterra, da Allemanha, da Itália, cheios de pretenções, mas tão vasios e desacompanhados de sciencia, que alguns até vinham mendigar penna alheia, que lhes historiasse as scientificas peregrinações!

Em Paris, cercado de todas as jóias da arte antiga e moderna, nos museus e nas salas da Exposição, sentiu elle bater o coração d'esse grande povo, que se chama a França; ali, quem lhe penetrasse no intimo, havia de o vêr contorcer-se n'essa angustia dolorosissima, oue as almas cheias d'aspirações soffrem, quando se sentem condemnadas á immobilidade ; ali viu quanto tinha perdido, quantas lições, quantos conselhos, quantos incitamentos, e quanta gloria podia alcançar n'esse vasto campo, onde elle então diria, como o Correggio, deante dos grandes mestres — Anch'io sono pittore.

Retrato de Tomás José da Anunciação por João Cristino da Silva, 1860.
Imagem: MatrizNet

Apresentado no mundo artístico, Annunciação frequentou o atelier de Yvon, o pintor de batalhas, então em todo o esplendor de artista cezáreo, e do notável animalista Palizzi, onde pintou um quadro, que nos dizem pertencer hoje á familia Palha. A despedida Yvon offereceu-lhe um magnifico desenho, representando um soldado ferido, que nós vimos no atelier do nosso artista na academia.

No Louvre, em Versalhes, e no palácio da Exposição, os artistas que elle mais estudou, foram os da especialidade que elle cultivava — os paizagistas ef os animalistas — Paulo Potter e todos os grandes pintores hollandezes, e os iniciadores da escola moderna — francezes e inglezes, Constable, Bonnington, Paulo Huet, Dupré, Theodoro Rousseau, Daubigny, Rosa Bonheur, Corot, Millet, não esquecendo os pintores bavaros, que tão brilhantemente se apresentaram n'aquelle certamen, onde não foram dos menos admirados.

Kaulbach com o seu grande cartão — A Época da Reforma — impressionou-o profundamente pelo grandioso da composição, e pelo desenho argo e firme das suas figuras. Ali o seduziu e prendeu o famoso Meissonier com os seus magistraes quadrinhos — umas figuras minusculas, acabadas com a largueza do toque, que se nota em todas as obras do famigerado pintor, e em frente das quaes a multidão dos visitantes se agglomerava, ávida de contemplar as maravilhas d'aquelle pincel privilegiado. Tudo elle viu, e de todos fallava, á volta, não sobranceiramente, mas, ao contrario, com grande respeito, e como excellente juiz, que era, em matéria d'arte ; mas entre todos foi Troyon o que elle mais admirou, Troyon, a quem a morte prostrara no meio da sua gloriosa carreira.

Quem conversou então com o nosso artista notou decerto que Annunciação, n'essa assembléa illustre dos reis da arte, não se achava indigno de figurar também, se melhores auras tivessem bafejado a sua vida.

Espirito progressivo foi-lhe lição o espectáculo, a que acabava de assistir, e de volta a Lisboa modificou o seu estylo, acompanhando assim a revolução, que se eífectuara em França no modo de reproduzir a natureza.

Surprehendeu a todos a rapidez com que elle operou esta transformação, e a perfeição magistral que desde logo attingiu nos seus primeiros ensaios, empregando um estylo muito mais largo, e em tudo conforme ao que observara nas obras dos primeiros pintores francezes.

Annunciação, conhecedor de todos os segredos da technica da sua arte, não precisava de tactear muito para acertar com a nova senda, e conquistar o primeiro logar entre os pintores animalistas da península. O Extraviado do rebanho, enviado á Exposição de Madrid, representa a ultima maneira do artista. As distincções com que ali o acolheram não foram de favor, foram justiça.

O Extraviado do rebanho, Tomás da Anunciação, 1871.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

O estudo que Annunciação fez para esse quadro tornámos a vêl-o, ha tempos, no atelier do nosso Raphael Bordallo Pinheiro. Que frescura e que vigor! É quasi acabado como o trabalho definitivo, tanto foi o amor, o afinco com que o artista o executou! Esta tela, uma das ultimas producções do mestre, e que alguns preferem ao próprio quadro, vale, a olhos fechados, cincoenta libras. Pois bem, Bordallo comprou-a no leilão das obras de Annunciação por... — custa-me até dizel-o — por oito libras !!

Assistimos a esse leilão. Frio — poucos amadores. — Quadros, esboços, desenhos, tudo arrastado.

Uma serie preciosa de estudos, que elle fizera na sua ultima veranagem em Caneças, e que o snr. conde de Almedina tanto ambicionava possuir, mas que o artista não quiz nunca deixar sahir do seu atelier, esses também lá foram, insultados pelo preço vilipendioso por que os venderam. Uma vergonha nacional, como o leilão de Lupi — outra vergonha também!

Ninguém sabia — dirão. Sabiam, porque o leilão fora annunciado nos jornaes, mas o artista estava morto... e os mortos ainda morrem mais depressa entre nós do que nos paizes estrangeiros! Ils vont encore plus vite! Oh! se vão!

O vitelo, Tomás da Anunciação, 1873.
Imagem: MNAC

Morto e portuguez!

— Que se quede em paz! disseram. E os ricos e as elegantes — os que o importunavam com pedidos, e os que o lisongeavam com cortezias — foram-se tomar sol, que também é grande artista, e dá os seus quadros de graça.

Este sol parece-me, ás vezes, que é o nosso maior inimigo! Se não, vejam a Inglaterra, a Allemanha, a Hollanda. Mais frio — mas incomparavelmente mais actividade, mais industria, mais riqueza, e mais amor ás artes, e casas mais confortáveis, e população mais civilisada! Tudo isto apesar, ou por causa dos nevoeiros!

Chega a gente a não gostar do sol!

Varinas com criança, Tomás da Anunciação.
Imagem: invaluable

Annunciação morreu em 1879: é, portanto, um contemporâneo nosso. Estão vivos a maior parte dos seus amigos, dos seus admiradores, dos seus discípulos; a sociedade em que elle viveu póde-se dizer que pessoalmente é ainda a mesma, e todavia é innegavel que, sob o ponto de vista artístico, ella soffreu uma transformação enorme. Se o mestre resuscitasse, veria com grande jubilo que os seus esforços e os da geração de artistas que o acompanhou, não foram perdidos; a semente lançada á terra germinou e produziu bom fructo, e o exemplo que elles deram de constância, a despeito das decepções, e muitas vezes dos aggravos, tem sido seguido pelos que os substituíram nas fileiras dos cultores e defensores da arte, tão rareadas pela morte.

Os dois capítulos da vida do illustre artista portuguez synthetisam-a, por assim dizer, porque abrangem o principio e o fim da sua carreira. Vemol-o primeiro, ávido de sciencia, procurar infructuosamente, na pratica da vida, surprehender, descobrir os segredos da arte que elle ignorava e sem os quaes não poderia progredir; e depois — passados vinte annos — já mestre respeitado, professor da primeira escola do paiz, rico da experiência adquirida com aturado estudo dos livros, das obras dos mestres que poderá aqui observar, e desse grande mestre, que se chama a natureza, vemol-o, pondo de parte vaidades estéreis, e orgulhos mal entendidos, acompanhar a escola franceza na senda em que ella se illustrou e em que conquistou com as suas obras immortaôs o primeiro logar na arte moderna.

O artista evolucionou, mas a sociedade portugueza, cujo amor á arte não tinha os mesmos finos quilates, essa não o acompanhou logo, chegando alguns a censurar o que, talvez n'elle, julgavam uma apostasia!

São passados vinte e quatro annos, e o gosto do publico, muito mais lento, também, finalmente, evolucionou. Na imprensa é raro o dia em que não se faz alguma referencia á arte e aos nossos artistas; formam-se e reformam-se associações, cujo fim é divulgar e dirigir o gosto, proteger os artistas, abrindo-lhes mercados, e convocando o publico a admirar as suas obras.

Esta renovação, esta resurreição da arte em Portugal, que oxalá seja uma data, que marque o inicio d'uma época, e se prolongue pelos séculos futuros, devemol-a aos esforços da primeira geração de artistas, que sahiu das Academias fundadas pelo grande estadista Passos Manoel em 1837, e o acto ofíicial que mais contribuiu para os resultados obtidos, foi a creação dos pensionistas, subsidiados pelo Estado em Paris e em Roma, para ahi completarem os seus estudos. Esta lei foi votada, se bem nos recordamos, quando o marquez de Sousa Holstein exercia o cargo de vice-inspector da Academia, e cremos que para a sua promulgação concorreram efficazmente as instancias e a influencia d'aquelle benemérito e illustrado funccionario. Foram esses pensionistas que nos emprazaram para os irmos encontrar nas salas da Escola de Bellas-Artes de Lisboa. Como nos antigos torneios ali achamos muitos artistas de todos os pontos do reino, e os que estavam em Paris também de lá enviaram as suas obras, para que o seu nome fosse representado n'este certamen.

Paisagem com figura e gado junto ao Castelo de Palmela, Tomás da Anunciação, 1865.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Era costume, nas justas da antiga cavallaria, que os que vinham manter o campo, e quebrar lanças pela gloria e pelo nome da sua dama, trouxessem divisas que os tornassem conhecidos. Entre os quadros que figuraram n'esta primeira exposição do Grémio Artistico, houve um onde lemos uma divisa celebre na nossa historia, divisa immortahsada pelo primeiro que entre nós a usou, e que foi o grande iniciador dos nossos descobrimentos e navegações — o infante D. Henrique. Apesar de redigida em francez, é portugueza, é nacional.

Quatro palavras apenas, que encerram um programma, uma aspiração de todos os grandes espiritos — Talent de bien faire!

Esta é, e esperamos que continue a ser a divisa da sympathica e brilhante Ala dos Namorados da arte, que já conquistou os nossos applausos, e que ha de inflorar o seu estandarte com as coroas de muitos outros triumphos! (1)


(1) Zacharias d'Aça, Lisboa moderna, Lisboa, Viuva Tavares Cardoso, 1907

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Tomás da Anunciação

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Obras digitalizadas de Anunciação, Tomás José da

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domingo, 24 de setembro de 2017

Thomaz José da Annunciação (2 de 3)

O caracter das producções de Thomaz Annunciação, a qualidade que o seu porfiado estudo tem conseguido alcançar, sobre-saliente a outras mui apreciaveis que tambem possue, está na fidelidade do gesto das suas figuras, em a naturalidade da postura dos seus gados: uma observação tenaz dos movimentos quasi invariavelmente inherentes aos actos da vida dos animaes, o tem feito tão senhor do conhecimento dos seus habitos que logo reluzem nos seus quadros as feições do natural.

Maré-baixa, Ribatejo, Tomás da Anunciação, 1865.
Imagem: Casa dos Patudos, Museu de Alpiarça

O pescador que arrasta a rede, o camponez que apparelha o carro, a ovarina que conta pela centesima vez, em conferencia com a sua companheira o producto da venda, aquelle ancião que toma vagaroso a sua pitada, para observar maliciosamente o namorico da cachopa que se derrete pelas melodias do Orpheu da viola, no quadro dos "Amores na aldêa", todas estas acções são tão perspicazmente espreitadas do natural, que se vé que o que tem de fugitivas não lhes valeu para escaparem á penetração energica do artista.

Uma verdade vem aqui a proposito dizer-se: o daguerreotypo, que é mui valioso auxiliar para o trabalho artistico, não offerece ao pintor a exacta reproducção do claro-escuro, portanto o tom e a côr tem elle de obtel-os por outra via, a da observação directa; no mais que toca á arte de nada presta o daguerreotypo porque o ageitar dos grupos, encadeal-os, distancial-os convenientemente, não se esperará das operações da machina: fixar n'um relance a expressão momentanea de um olhar do modelo, só o sabe o artista consummado.

Fiquem portanto desenganados, a superioridade na arte é hoje tão rara como era antes da invenção do daguerreotypo. Ao perfeito da execução é que o daguerreotypo com a sua tal ou qual exactidão obriga hoje o artista, o que é dependente do genio ou do entendimento ficou difficil e raro do mesmo modo que o era antes da maravilhosa descoberta da photographia.

Piquenique na Quinta do Palheiro Ferreiro, Tomás da Anunciação, 1865.
Imagem: Museu Quinta das Cruzes

Disse que a verdade do gesto era a principal, mas não a unica qualidade que revelavam os quadros do professor da paizagem; outras não menos estimaveis descobrem os seus magnificos ares em que se mostra muitas vezes arrojado, sem que o luminoso das suas massas de claro prejudique o effeito da composição; como colorista é vigoroso, sem perder a suavidade; n'alguns quadros denuncia em magestosos céos uma extensão de tons e uma riqueza de cor admiraveis, concebe tão bem o que ha de perceptivel e o que ha de indeciso nos longes que se allongam por elles os olhos com delicia.

É portanto Thomaz José da Annunciação um artista consummado, o "nora plus ultra" da sua especialidade? Não. É elle mesmo que o sente, é elle mesmo que o confessa, é elle mesmo que sof-fre por se não ver livre das prisões que o retem longe do seu mais querido, do unico pensamento de toda a vida.

Baía do Funchal vista de Santa Catarina, Tomás da Anunciação, 1865.
Imagem: Museu Quinta das Cruzes

Na Academia occupam-n'o dos regulamentos das aulas, dos toques de sineta, das horas de entrada, das horas de saída, consultam-n'o sobre os moveis da aula, sobre estrados, sobre carteiras, sobre fogões, sobre o pote da agua, examina quanto se gasta em pás do lixo!

Isto por não saberem o que é um artista. Mas dirão: as conferencias academicas occupam-se tambem de questões proprias de uma Academia, ahi os artistas vivem por algum espaço no seu elemento, ahi teem grata compensação das ninharias administrativas, ahi o debate sobre tal questão de arte occupa agradavelmente o animo dos professores, a arte progride, prospera o estabelecimento.

Nada; as conferencias academicas tratam ha vinte e tres annos do governo domestico, e até hoje nem os trastes da casa arrumaram; as graves questões do ensino, as theorias das bellas-artes tratar-se-hão quando a Academia for o modélo do arranjo regulamentar, quando sobre entradas e saídas, toques de sineta, altura de bancos, de estrados, de cadeiras, sobre chavinhas, trincos, numerações, e finalmente quando sobre todas as bagatellas importantes, que são a alma do bom governo de um estabelecimento d'estes, quando em tudo isto se tiver tocado a ultima perfeição: então se cuidará em fixar a doutrina que se deve seguir no ensino, se tratará finalmente de bellas-artes.

Um governo que tirasse d'estas miserias o artista, que lhe facultasse a observação das grandes obras da sua especialidade, que ornam os museus e galerias estrangeiras, fazia á arte e ao paiz um eminente serviço; mas ninguem seja tão visionario que espere essa fortuna a respeito d'artes: se ha meio de pôr algum embaraço aos seus cultores cream que não deixa de ser aproveitado, e se ha uma lei que favoreça a oppressão, seja ella o mais absurda possivel, mostra-se-lhe o mais edificante acatamento, embora seja evidentemente estupida não se lhe perde o respeito.

Abriu-se concurso para a substituição de paizagem em 1852, Annunciação, concorrente unico, foi provido com geral applauso, lá está na Academia o quadro que pintou n'essa occasião, uma —Vista tirada do sitio da Amora — que com outros dois enviou á exposição de Paris, onde foram todos tres muito louvados: esse quadro é uma obra primorosa.

Vista da Amora, Tomás da Anunciação, 1852
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Em 1857 trata-se de prover a propriedade da mesma cadeira, Annunciação, concorrente unico em 1852, tendo regido a aula até áquelle tempo na falta do octogenario professor, não tendo deixado de estudar um momento, Annunciação, a rogo dos seus amigos, solicita a dispensa de uma prova que se tornava caricata pelas habilitações do candidato e tyrannica por se dar na época da febre amarella.

Vista da Amora (estudo), Tomás da Anunciação, 1852.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

O director da Academia, na informação que lhe pedem evidenceia a justiça do pretendente, logica perdida? exultam os respeitadores hypocritas da lei, podia-se lá perder tão bella ,occasião de alardear virtude: o seu requerimento e a informação foram quasi que anathematisados, as auctoridades ordenam com severidade o cumprimento da lei, Annunciação soffre o flagello de uma resolução não imbecil mas hypocrita, Nicolau Poussin que fosse o candidato faziam-lhe o mesmo. 

As provas que o nosso artista se viu constrangido a dar n'este concurso, se assim querem que se chame, demonstram que nas producções d'arte se revella necessariamente o estado de espirito do auctor  tão friamente, tão materialmente as concluiu o nosso pintor, que logo passado aquella crise lamentavel da epidemia, a primeira coisa de que tratou foi de se desempenhar da especie de desar que lhe ficava da inferioridade d'aquelles amargurados trabalhos.

Thomaz José da Annunciação, é um homem probo em toda a extensão do termo, nos soffrimentos porque tem passado não se lhe manchou o caracter: seu pae foi o seu exemplar, Manoel Joaquim da Annunciação, antigo empregado da patriarchal, victima sempre mas não se desviando nunca da escrupulosa exactidão do seu serviço, não teve que legar a seus filhos mais do que um bom nome: além d'outras virtudes possuia a da limpeza de mãos, que nunca foi vulgar.

Embarcava-se a real familia, abandonando o reino, em Novembro de 1807, no caes de Belem: a desordem espantosa com que se fez o embarque perturbou a todos a cabeça, o largo de Belem estava atulhado de bahús, caixas, maltas, de uma infinidade de volumes sem dono, á mercê do primeiro que lhe deitasse a mão: preciosissimas riquezas da .Patriarchal se achavam ali envolvidas no tumulto, não ha náo que as receba, pede-se a Annunciação encarecidamente que as salve, assim o executa: voltam as pessoas reaes em 1821: onde estão as joias da Patriarchal? perguntam os que as deixaram no cáes de Belém.

Departure of H.R.H. the Prince Regent of Portugal for the Brazils, Henry L Evêque, F. Bartollozzi.
(Campaigns of the British Army in Portugal, London, 1812)
Imagem: Wikipédia

Eil-as. Muitas das coisas preciosas que ficaram cá tinham-as levado os francezes, aquellas tiveram a fortuna de escapar, ora como Manoel Joaquim da Annunciação não tinha feito mais que o seu dever, não havia pela sua acção motivo de o premiar e por isso nenhum premio lhe deram.

Toda a gente que tinha acompanhado El-rei ao Rio de Janeiro, voltára mais altamente collocada do que fóra, Annunciação parecia pequeno ao pé d'elles, e para annullar essa desegualdade perseguiram-no, para os não envergonhar: o filho não desdiz do catonismo do pae, como não solicita, não se engrandece, mas os que pedem muito e sempre, olham-no de travez, porque o seu comportamento é indirectamente uma censura, involuntaria sim mas effectiva.

Coroava mui naturalmente esta biographia, uma noticia das acções da vida privada, que recommendariam Thomaz Annunciação aos que não teem a fortuna de o conhecer no tracto intimo, mas sendo o conhecimento d'ellas privilegio dos amigos mais chegados, contentaremos todos com affiançar-lhes que o nosso artista é n'este ponto um modêlo.

Retrato de Tomás José da Anunciação por José Maria Brás Martins.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Annunciação não completou ainda a sua carreira, a parte mais brilhante da sua vida de artista começa agora, o que d'ella apontei são apenas os preliminares, a historia das nossas artes tem ainda de registar com ufania o belo futuro que lhe auguramos. (1)


(1) Revista contemporanea de Portugal e Brazil n.º 11, fevereiro de 1860

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sábado, 23 de setembro de 2017

Thomaz José da Annunciação (1 de 3)

Aos vinte e um de Outubro de 1837 se matriculou na Academia de Bellas Artes de Lisboa um rapaz de dezoito annos, inquieto, vivo, de olho scintillante: a Academia fazia um anno de idade e a sua existencia parecia-lhe a ella um sonho inexplicavel.

Vista de uma parte da feira do Campo Grande, Tomás da Anunciação, c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Manoel da Silva Passos querendo instituir o ensino da arte, colleccionou todos os que recebiam do Estado a titulo de artistas, quer o fossem quer não, pregou com elles em S. Francisco e cuidou innocentemente que na intelligencia e amor da arte, que rasoavelmente lhes suppoz, brotaria o fructo que com o seu incontestavel patriotismo antevia da sua obra.

Deixemos os academicos que não comprehenderam o fim para que os asylaram no convento e digamos o que fez o novo alumno, que pela pintura que fizemos d'elle tem já as sympathias do leitor, que certamente quer já saber quem é, e se chegou, a conseguir, apesar da Academia, alguma eminente posição artistica. 

Diremos primeiro que, segundo o costume, começou os seus estudos graphicos enchendo resmas de papel de bonecos com fórmas ideaes que se dão aos principiantes como primeiro leite da arte do desenho.

Thomaz José da Annunciação (1818-1879) correu tudo aquillo rapidamente e passou á Aula do gesso, graduação importante n'aquella altura, em que se navega cheio de fé e enthusiasmo, qualidades que ao nosso artista só uma vez faltaram.

Tomás José da Anunciação, Cinco artistas em Sintra (detalhe), João Cristino da Silva, 1855.
Imagem: MNAC

Na aula do gesso, permitiam-me a expressão, uma caqueirada informe constituia o objecto a que se devia dedicar o culto do desenhador a claro-escuro, o qual procurando conseguir á força de imitação fazer tão hedionda a copia como o original, chega ao apogéo do contentamento e começa a ser gloriosamete invejado dos menos felizes. 

Annunciação passou tudo ao papel, e como prova de que lhe não restava em pouco tempo coisa que não tivesse já desenhado por trinta fórmas, foi-lhe proposto por um dos professores que desenhasse uma triste cabeça d'Antino que lá havia, de um ponto de vista novo, nunca lembrado a nenhum artista; a cabeça era oca e do lado em que o pescoço apresentava um boraco, por onde se via o interior, é que o professor a mandou desenhar, a cabeça não, o buraco: dizia o mestre "tudo o que mostra claro e escuro é aproveitar para o estudo, seja o que for."

Vejam o caso que aquelle fazia da belleza das fórmas.

Com estes bellos estudos não seria Thomaz Annunciação professor da Academia passados quinze annos, se não possuisse uma vocação verdadeira. Conquistou o logar de que foi provido por força de talento e estudo: lástima foi não lh'o disputar ninguem, para ser mais brilhante a victoria, mas a Academia durante quinze annos não lhe tinha preparado nenhum competidor: a Academia aprendeu então na sua historia a reconhecer Annunciação como um homem superior: a Academia honra-se com ser elle seu professor. 

Apontamentos biográficos de Tomás da Anunciação por Manuel de Macedo.
Imagem: ANTT

A inclinação pelas artes do desenho não principiou a manifestar-se quando o nosso artista viu pela primeira vez o labyrintho das estampas e gessos da aula de desenho: ao começar a adolescencia tinha já um passado artistico.

Apontamentos biográficos de Tomás da Anunciação por Manuel de Macedo.
Imagem: ANTT

Thomaz Annunciação nasceu na freguezia da Ajuda, seu pae Manoel Joaquim da Annunciação, honradissimo empregado da Patriarchal, deu-lhe segundo o uso a primeira educação, mas todo o enlêvo do pequeno era pintar soldados, lavadeiras, camponezas, vaccas, burricos, etc., e tambem seu retratinho, obra mais durinha, mas que lhe grangeava seus applausos, principalmente quando eram adevinhaveis os retratados, Manoel Antonio da Silva empregado ás ordens do Dr. Brotero no Jardim Botanico era a victima marcada pelo destino.para fornecer ao joven esperançoso as tintas e pinceis cujo destino valia mais que um paraizo.

As decepções repetidas conduzem ao conhecimento da verdade, do mundo real: não o pode apreciar o que ainda não andou aos encontrões á machina social; mas a gente moça gosa da suprema ventura de viver no mundo que lhe pinta a imaginação, em harmonia com os seus desejos: essa ventura embriaga no verdor dos annos, comtudo a recordação d'ella faz depois acido o caminho do resto da vida. 

D'aquelle prazer que Thomaz gosava nasceu o desejo de o communicar, fez-se ambicioso de gloria, os mirificos bonecos iam já resplandecendo em casa dos ex.mos condes dos Arcos, onde sempre foi mui acceito.

Com que alegria não ouvia elle celebrar os seus triumphos sobre a rebeldia do natural, e sobre a teima dos pinceis em não pintar o que elle queria, quantas reminiscencias saudosas não deverá elle ainda hoje ao bom acolhimento d'essas tentativas em que o genio nascente o encaminhava a contemplar espontaneamente o natural, eterna e unica fonte dos modêlos da arte; apaixonado desde os primeiros annos da verdade nas fórmas e na expressão hoje, que o pincel lhe obedece com rapidez, trabalha violentado se não tem o modêlo á vista: os grandes mestres nunca se presaram de inventar figuras mas de reproduzil-as bem.

Retrato de Tomás José da Anunciação por Joaquim Pedro de Sousa.
Imagem: Hemeroteca Digital

Onde estará hoje a primitiva galeria do nosso artista? onde estão e bem todas as do mesmo genero. Pelo seu desinteresse fazia presente das obras, pela avidez com que procurava a perfeição desempenhava-as seriamente, estas tendencias denunciavam as feições provenientes do seu caracter e do seu talento.

Agora que o leitor viu como Thomaz Annunciação nasceu para as artes, consentiremos que a Academia tenha pretenções á paternidade artistica do seu eminente professor?

Não. Nós só diremos á Academia, se elle é filho dos vossos methodos de ensino, dos vossos exemplos mostrae-nos outro, que tenhaes creado similhantemente em vinte e tres annos, que tantos ha que tendes escola aberta.

O antecessor de Thomaz Annunciação na pintura de paizagem foi André Monteiro da Cruz, mestre dos pintores de ornato no palacio da Ajuda, homem de letras gordas e poucas, mas dotado de uma penetração e sagacidade admiraveis, tinha engenho e no palacio teve largas para estudar, attenta a espantosa prodigalidade com que se dispendia nas obras, e o vagar com que n'ellas se procedia; mas André Monteiro pouco aproveitou d'aquelle remanso e conseguindo fabricar apenas alguma paizagem toleravel, quanto a figuras e gados nem se póde occupar a critica em mencional-os; lá estão na Academia algumas, para as quaes se valeu de pessimas gravuras, que copiou sem a mínima alteração.

Este não foi de certo o que ensinou ao nosso artista os segredos da arte. A quem com justiça se deve mencionar como dando direcção aos estudos, que pelos fins de 1839 foi fazer na aula de gravura de paizagem, é ao digno professor d'ella Benjamim Comte [Benjamin], de quem foi melhor discipulo e a quem sempre mereceu particular estima.

Comte deu-lhe noções do desenho de paizagem a lapis e a sepia, mas os estudos de gados que Thomaz fez depois, sem outro mestre mais que o natural e a sua rara percepção da cor e do contorno, a que distancia ficam dos trabalhos que fez na aula de gravura.

Sem fazer offensa a nenhum dos professores da Academia, affiançamos que foi sempre de todos o mais bondoso e bemquisto Joaquim Raphael que regia a aula de desenho, Annunciação frequentou-a quatro annos, e foi em todos quatro premiado com o primeiro premio.

Tomás da Anunciação.
Desenho premiado no concurso da Aula de Desenho Histórico do ano de 1840-41.
Imagem: belas artes ulisboa

Em 1841, concluido o curso da aula, como lá lhe chamam, passou ao curso da aula de pintura historica, dirigida pelos srs. Antonio Manoel da Fonseca e Norberto José Ribeiro, homem de uma probidade escrupulosissima e o mais digno que restava dos representantes da pintura, da época da Ajuda: colorista soffrivel, pincel timido resentia-se de uma educação artistica capaz de apagar o fogo divino ao proprio Miguel Angelo, este homem (aliás respeitavel), pouco vulto fazia na aula. 

Rebanho, Arte Pintura Tomás da Anunciação, 1841.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Thomaz Annunciação, que suppunha acabado o seu curso de desenho, continuou a fazer desenhos na aula de pintura historica e ahi consumiu tres ou quatro annos, copiando cabeças e prégas dos quadros quinhentistas que possue a Academia, e pintando do gesso o claro-escuro: esta vida enfastiou o artista e no armo de 1844, considerando todos os discipulos que o tempo assim empregado era uma verdadeira dissipação; accordaram em abandonar a aula; Annunciação retirou-se com os seus collegas.

Onde o artista julgára que a sua carreira seria mais veloz ahi encontrou tropeços que não imaginava: os ímpetos de enthusiasmo pela arte foram-se-lhe amortecendo .com as contrariedades do que chamam vida real. 

Por estes tempos o ministro da Prussia conde de Rakzinsky [Les arts en Portugal, 1847], singular amador de artes, escrevia aqui, sobre a nossa historia artistica, duas obras mui conhecidas e estimadas, e animado de um vivo interesse pelas nossas coisas communicava para Allemanha o que aqui via de notavel e precioso em quadros antigos.

Não sendo facil enviar desenhos d'elles, pediu a Thomaz Annunciação que lhe desenhasse algumas das cabeças mais caracteristicas, afim de as mandar como amostra ao seu paiz: n'isto houve-se Annunciação com tal felicidade que, esta circumstancia junta a outras de não menos peso levou o conde, de accordo com dois dos mais intelligentes fidalgos de Portugal, a escolhel-o para ir estudar fóra do paiz de companhia com outro moço de não menor merecimento, hoje fallecido.

Esse projecto posto repentinamente em esquecimento, foi mais uma das dóres com que a adversidade experimentou a fortalesa do nosso artista.

Thomaz não era tão abastado que podesse proseguir desassombrado de cuidados no seu caminho: affigurou-se-lhe um descampado o terreno que tinha a andar; o encanto dos campos que sonhára conhecia que era sentido só por elle, os outros via-os andar e desandar, cuidando na vida e ignorando mesmo que haja além d'isso alguma outra coisa de que se possa cuidar; elle via n'elles uma felicidade, mas tal que o não podia seduzir.

Não espere nunca o leitor encontrar o desenganado artista ao balcão de uma casa de commercio, de penna na orelha, alliciando os freguezes com uma eloquencia meliflua, recheada de disparates e de affirmativas absurdas ou visivelmente falsas, não espere que, alcançado algum posto de oficial para o ultrámar, o encontra satisfeitíssimo com a sua nova, carreira, cheio de esperança e fé, na figura brilhante que pôde fazer um dia.

Propostas de uma e outra especie se lhe tinham feito em 1837 e a resposta a ellas foi a sua matricula na Academia das Bellas Artes de Lisboa. 

Forçava-o a buscar modo de vida a sua demissão de praticante no Museu de Historia Natural e Jardim Botanico, cujo director o dr. Francisco d'Assis, era n'essa occasião exonerado, não sei sob que pretexto, mas com o fim de se operar no establecimento uma reforma. 

Ajuda, Tomás José da Anunciação, c. 1860.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Irá pois agora o desanimado artista manejar o covado ou a espada, deixando o pincel ao abandono? não váe, não lh'o consente a indole. Dois annos lhe durou o enfado e a casa dos ex.mos condes dos Arcos lhe deu abrigo, com affeição verdadeira, e tanta que Thomaz da Annunciaçào não a esquece nunca: o seu reconhecimento aos ex.mo D. Nuno e D. Pedro d'Arcos não precisa de quem o avive.

Quem restituirá á sua musa o fugitivo pintor? haveria alguem a quem afligisse a obscuridade a que se condemnou no desalento? Thomaz terá ainda um amigo, animado da fé no futuro, na fé que lhe faltou a elle?

João Anastacio Rosa, o actor Rosa, conhece a superioridade do talento de Thomaz Annunciação e antevê a brilhante posição que elle pôde alcançar como artista, visita-o, aconselha-o, força-o a tomar os pinceis; n'estas importunações amigaveis, Rosa acompanhado do sr. Hermano Moser, grande apreciador de Bellas Artes.

Dissipa-se rapidamente a nevoa que encobria a Thomaz Annunciação os seus horisontes refulgentes, a altivez dos seus novilhos, as ovelhinhas, os regatos: parece-lhe sentir a fresquidão das madrugadas, começa a ouvir a melodia dos campos, presente já uma soberba eira, um soberbo. quadro, urna soberba exposição d'elle; Annunciação determina resolutamente ser artista, falta estudar.

Vista da ponte e da ribeira da Rabicha e do Aqueduto das Águas Livres, Tomás da Anunciação, c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O pintor não improvisa as formas dos objectos de que faz a sua composição, e uma das qualidades principaes de um quadro é sem duvida a fidelidade na imitação da natureza, n'alguns é mesmo a qualidade essencial.

Annunciação applicou-se pertinazmente ao estudo severo dos seus modélos, e com tal persistencia proseguiu n'estes exercicios que a elles devemos o ser o prefessor da Academia o melhor e o primeiro pintor de gados conhecido em Portugal: o seu modélo foi a natureza, o seu mestre a propria experiencia, guiada pelo seu genio.

Rosa, como excellente amigo, não parou vendo ateado o enthusiasmo do artista, çonstituiu-se seu corrector, lançava-lhe mão dos quadros que acabava de pintar, apregoava-lhes o merito, vendia-os; e Thomaz cuidava só do seu estudo, ignorava até estes passos de Rosa.

São as premicias d'estes novos trabalhos quatro quadrinhos representando gados, que se acham em Cintra, na galeria d'El-rei o Sr. D. Fernando: expostos na loja do dourador Margotteau por diligencias do Rosa, soou no Paço noticia d'elles, El-rei, para quem um novo elogio é hoje a repetição de alguma verdade mil vezes affirmada por todos, quiz vel-os e tendo-lhe agradado, fez d.'elles immediata acquisição. Foi isto ali por 1848, ha dose annos que a protecção do Sr. D. Fernando não desampara o artista.

Ornam as galerias de S. M. numerosas producções de Annunciação [v. A dispersão dos quadros da herança do rei D. Fernando]. 

A volta do trabalho, Arte Pintura Tomás da Anunciação.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

São notaveis — "Uma vista da praia de Pedroiços com pescadores" — Outra tirada de um ponto do jardim das Necessidades — Duas de pastagens com vaccas — Tres com patos, gallinhas, etc. — "A ida para o trabalho" — "A volta do trabalho", duas joias da collecção, "O repouso dos pastores" — e a perola das suas composições: "Os amores d'Aldeia". 

A volta do trabalho, Tomás da Anunciação, 1857.
Imagem: belas artes ulisboa

O Ex.mo Sr. Antonio Xavier de Brederode, a quem o paiz deve notaveis serviços em favor da arte, possue do nosso artista — Um interior de bellissimo efreito de luz — Duas paizagens — Um tocador de viola.

O Ill.mo Sr. Palha (João) — "Um grupo de rapazes jogando o jogo das cinco pedrinhas", o "astragalo" dos antigos.

O Ex.mo Sr. Estevão Palha possue nada menos de sete dos mais recentes — "A partida do gado" — "Uma pastagem" — Um representando uns patos — O retrato de um soberbo mastim, tamanho natural — O velho dos amores d'aldêa, repetição — "A torre e praia de Belem", longes bellissimos — Um quadro de flores e fructos, estréa de novo genero, em que se manifestam os prodigiosos recursos da sua palheta.

O exm.° sr. Luiz Augusto Rebello da Silva, possue tambem alguns quadros d'Annunciação, o nosso poeta Gomes d'Amorim, tres de gados — O sr. João Baptista Ferreira, seis: — "Uma vista da Praça da Figueira" — "Um sendeiro" — Dois de mulheres d'Ovar — Dois de gados.

Lord Seymour fez tambem acquisição de dois quadros representando o pittoresco trajar das varinas.

O negociante Jorge Hancock — alguns de pescadores, gados, trajos nacionaes, etc.

Foi um d'elles vendido em Inglaterra por preço correspondente a uma alta estima: este facto merece particular menção por se dar entre os compatriotas de Turner e Landseer.

Seria quasi impossivel e de certo fastidioso dar aqui relação de todas as producções de Annunciação, calculado o seu numero em mais de cem: o leitor que tiver a ventura de contemplar as que apontámos approvará certamente a menção que d'ellas fizemos.

A descripção minuciosa de um quadro é sempre uma coisa incompleta e quasi sempre inutil para se formar d'elle idéa.

Oliveiras em Azeitão, óleo s metal, Tomás da Anunciação, 1860.
Imagem: Diamantino Vasconcelos

Passaremos em silencio sobre os desenhos, litographias, gravuras que tem produzido, quasi todas conhecidas dos amadores. (1)


(1) Revista contemporanea de Portugal e Brazil n.º 11, fevereiro de 1860


Museu Nacional de Arte Contemporânea:
Tomás da Anunciação

Biblioteca Nacional de Portugal:
Obras digitalizadas de Anunciação, Tomás José da

museu virtual ulisboa:
ficha de autor
coleção de desenho
coleção de gravura

Artigos relacionados:
O fim do Romantismo
A dispersão dos quadros da herança do rei D. Fernando

Mais informação:
Biografia do pintor Tomás José da Anunciação

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Marinha do Tejo

Começàmos hoje a publicar a serie dos barcos de transporte que navegam no Tejo, desde o catraio até á fragata, desenhados do natural, com toda a exacção, pelo sr. Pedroso, e por elle mesmo gravados.

João Pedroso, Revista Illustrada, anno 1, n° 17, 1890.
Imagem: O Archivo Pittoresco e a evolução da Gravura de Madeira em Portugal

É mui variada, no casco e no apparelho, esta serie de embarcações, a que chamaremos "marinha do Tejo", se é que lhe não deviamos antes chamar marinha pequena, já que não temos marinha grande...

Não affiaçàmos, porém, que a nomenclatura de taes embarcações sáia rigorosa, porque, se o lapis do nosso artista conseguiu roproduzir a fórma e velame dc todos estes barquinhos do Tejo, outro tanto não podêmos nós conseguir quanto á denominação e origem de alguns d'elles.

Começando pelos catraios, que são os mais pequenos, a d'onde nós chamâmos geralmente catraeiros aos barqueiros, vemos que esta denominação não é muito antiga, porque não vem similhante vocabulo nos nossos bons auctores maritimos, sendo tão copiosa a lingua portugueza em termos nauticos. O alvará do tempo do marquez de Pombal (1765), que abaixo transcreveremos, diz que os "catraios" se tinham introduzido por aquelle tempo, e em tal quantidade, que por serem mui pequenos, e governados por gente ignorante, succediam muitas desgraças e avarias no Tejo, pelo que foram mandados queimar por ordem do marquez de Pombal, determinando-se qual havia de ser a lotação dos botes que, em logar dos catraios, se podiam construir. 

Eis o que dizia o alvará:

"Eu el-rei faço saber aos que este alvará virem, que sendo-me presentes em consuIta do senado da camara os graves inconvenientes que resultam do uso das pequenas embarcaçoes chamadas botes, ou catraios, que de tempos a esta parte se tem introduzido para os transportes que se fazem no Tejo; tendo causado por uma parte frequentes perigos as vidas das pessoas que n'eIIas se transportam; não so pela pouca segurança das mesmas embarcações, mas tambem pela ignorancia das pessoas que as governam. E pela outra parte destinando-se como mais proprias para as clandestinas conducções, e descaminhos das fazendas de contrabandos. Para cessarem de uma vez os referidos inconvenientes, sou servido prohibir, da publicação d'este em diante, o uso das referidas embarcações pequenas, permittindo somente o daquellas que são necessarias para o serviço dos navios: e mando, que todas as que ficam exeptuadas, em transgressão do disposto n'este alvará, sjam logo aprehendidas, e queimadas por ordem do senado da camara da cidade de lisboa, nas praias a ellas adjacentes: e que os proprietarios das mesmas embarcações, incorram alem da pena do perdimento d'ellas, na de seis mil réis applicados para as despesas do senado, e na de prisão pelo, espaço de vinte dias pela primeira vez: aggravando-se-lhes em dobro, tresdobro, e mais á proporção das relácias, as referidas penas nos casos de reincidencia. Sou servido outro sim determinar, que as embarcações que se occuparem nos transportes que se fazem de  Lisboa para Belem, e mais portos da sua visinhança, sejam construídas na conforntidade das formas e medidas, que vão declaradas no papel que baixa com este, assignado por Francisco Xavier de Mendonça Furtado, ministro e secretario de estado dos negocios da marinha e dominios ultramarinos."

As medidas a que se refere este alvará são as seguintes:

"Devem as mais pequenas embarcações d`estes transportes ter de bocca, no menos, 7 pés. De comprimento de roda a roda, ao menos 28 pés. A popa sera larga como do falua. O rodo da fôrma sera bem redondo á proporção da bocca para poder aguentar. E não poderá trazer qualquer destas embarcações mais que uma vela e um muletim."

Em cumprimento deste alvurá, o senado publicou um edital, para que todos os botes ou catraios, incursos na queima ordenada pelo alvará, se juntassem na prata de Santos, sobre graves penas. Ahi se lançou fogo a todos, o qual durou por muitos dias.

Os botes que de novo se construiram, segundo as medidas indicadas, ficaram-se chamando "catraios", tem uma so véla, e dois remos. Véde-o na estampa, que lá vem elle pela proa de um bote cacilheiro, do qual para o seguinte artigo se dará noticia.

Catraio e cacilheiro, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Com a preciosa coadjuvação da capitania do porto, e da repartição do imposto municipal denominado "tramagalho" esperàmos poder esboçar uma historia curiosa de tantas embareaçõesinhas, quasi todas mui veleiras e airosas. (1)

Já dissemos, e se viu na gravura antecedente, que o bote de catraiar, ou catraio, como d'antes lhe chamavam, é a mais pequena embarcação de vela de quantas navegam no Tejo, apesar de os haver com capacidade para 15 passageiros, todos debaixo de toldo. Muitos d'estes botes, principalniente os do cáes do Sodré, alem da vela triangular de espicha, armam uma bojarrona á proa, e uma mezena á ré; com este panno ficam muito airosos e veleiros. Quando não tem vento armam dois, quatro, e às vezes seis remos.

Já se vê, pois, que hoje não ha botes tão pequenos e perigosos como aquelles, que por este motivo, mandou queimar o marquez de Pombal. 

Os catraeiros são por lei, tambem pombalina, obrigados a fazer exame perante o capitão do porto, sem o que a camara lhe não concede a licença necessaria para catraiar.

O bote cacilheiro, é o gigante dos catraios; rijo de borda, aguentando muito mar, e com alterosa vela triangular, não de espicha, mas içada ao tope do mastro, e engatada na proa, impina-se arrogantemente para ré. Enfunada com a grande corda de vento que apanha d'alto abaixo, arroja o bote num apice de Lisboa a Cacilhas, que é o seu porto. Antes da instituição da companhia dos vapores do Tejo, em 1838, os botes cacilheiros faziam carreiras alternadas com as faluas; hoje ha muito poucos, e nas horas desencontradas das viagens dos vapores da companhia é que fazem algumas carreiras.

Actualmente ha uns 300 botes matriculados em Lisboa.

A falúa tem duas velas, tambem triangulares ou latinas, mui altas, tendo a de ré duas escotas. É uma embarcação valentissima, e d'antes tinham quasi exclusivamente as falúas a carreira de Lisboa a Cacillias, tomando os passageiros no caes das Columnas da praça do Commercio. Com a instituição da companhia dos vapores, foram as falúas desapparecendo d'este caes, umas compradas pela propria companhia, para se desfazer d'ellas, e outras porque tomaram diverso destino, empregando-se no transporte de generos em differentes portos do Ribatejo.

Falúa, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Para Aldêa-Gallega, Moita, Alcochete, e Barreiro, ainda ha carreiras de falúa. As que estão matriculadas sao apenas umas 20.

A falúa, além das duas velas, tem quatro remos, de que pouco se serve, por ser embarcação pesada: algumas vezes armam os remos para ajudar a vela, quando o vento não é de feição. (2)

Todos os barcos que navegam no Tejo pagam um imposto á camara municipal de Lisboa, chamado do "Tramagalho", imposição antiquissima, e tanto que se lhe perdeu já a etymologia, sem que os esmirilhadores de antiqualhas tenham até agora podido atinar com a derivação d'este nome.

A camara, em consulta de 28 de julho de 1852, propoz ao governo um formulario do que deviam pagar todas as embarcações que navegassem no rio de Lisboa, ou viessem a seus portos, o qual foi approvado pela regia resolução de 17 de setembro do mesmo anno.

Ei-lo aqui, como parte integrante da histotia d'esta marinha do Tejo.

De cada viagem que fazem a esta cidade os barcos de Villa-nova, pagam 200 rs.

De cada viagem que fazem os de Abrantes, Punhete, Tancos Barquinha, Chamusca, Azinhaga, Santarem, Escaropim, Salvaterra, Porto de Muge, Virtudes, Samora e Benavente, 150 rs.

De cada viagem que fazem os barcos de Povos, Villa-Franca, Alverca, Póvoa, Savcavem e Friellas,  100 rs.


Os barcos de Abrantes, Punhete, Tancos Barquinha, Chamusca e Azinhaga, pagam além de 150 rs. acima referidos, mais, de uma avença muito antiga, a que chamam "cabo de anno", pelas viagens que fazem aos portos do termo até Paço d'Arcos, 1:000 reis. 


Todas as embarcações dos portos acima declarados, que fazem viagens de verão, que vem a ser: conduzir palha ou fruta para esta cidade, o qual verão principia desde o dia de S. Pedro até á feira de Villa-Franca; não pagam n'este tempo por viagens, mas sim por avença que vem a ser:

Cada barco, 4:000 rs.
Cada bateira ou lancha, 3:000 rs.
Cada batel, 2:000 rs.

Os barcos do Samouco Alcochete, Aldea-Gallega, Moita, Lavradio, Alhos-Vedros, Barreiro, Aldea de Pae Pires, Seixal, Cacilhas, Porto Brandão, Trafaria, Coina, Cascaes, e Paço d'Arcos, pagam por ajuste.
As falúas, pagam 1:400 rs. por-anno.
As falúas que andam nas carreiras para Cacilhas, 2:000 rs.
Os barcos de Moios, 1:200 rs.
As fragatas, 1:000 rs.
Os botes, a 960 e 800 rs., conforme a sua grandeza.

Bote d'agua acima, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Os barcos chamados d'agua a cima, cuja forma a nossa estampa representa, pertencem ao terceiro ramo d'esta tabela. (3)

Com o nome de aveiros, e não de saveiros, são estes barcos denominados na mesa do imposto chamada do Tragamalho. Talvez seja corrupção do primitivo nome que tinham quantos barcos vem ao Tejo da cidade de Aveiro, que são muitos.

A savara tambem mostra ter a mesma procedencia, mas estes tem quilha, e vão fóra da barra ajudar as moletas na pescaria.

O alijo traz na sua denominação o destino que tem, que é alijar, descarregar os barcos que não podem atracar. Ha tambem alijos de vela.

Saveiro, alijo e savara, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital
Todas estas tres embarcações foram escrupulosamente copiadas dos onginaes, pelo nosso exímio gravador o sr. Pedroso, que é tambem um peritissimo pintor de navios. (4)

Depois dos botes são os varinos os que em maior numero sulcam o Tejo. Esta denominação que elles tem no vulgo não vem em nenhum diccionario da lingua, e tambem na repartição do imposto que elles pagam em Lisboa tal se lhes não chamam, mas aveiros, nome generico para todos os barcos que vem do districto de Aveiro. Estão actualmente registados e avençados na repartição municipal de Lisboa 431 varinos ou aveiros.

Varino e monaio, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

O monaio é uma especie de varino da mesma procedencia, mas tem diversa armação, como bem mostra o que esta desenhado na estampa, ao mar do varino.

Pela seguinte curiosa estatistica, que na citada repartição nos ministraram obsequiosamente, vemos que a marinha do Tejo se compõe ao presente de 1:143 vélas. (5)


Embarcações registadas e avençadas na repartição do Tramagalho, Lisboa, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Chamam aqui no Tejo a estes barcos, "dos moinhos" ou de "moios", porque se destinam especialmente a conduzir as farinhas do Ribatejo para Lisboa.

Os barcos dos moinhos são mais airosos que as falúas com as quaes todavia se parecem. Tem como ellas duas velas, porém mais baixas e mais largas: os mastros sao inclinados para a proa, por isso escusam de bujarrona.

Barco de moinho, gravura, João Pedroso, 1861.
Imagem: Hemeroteca Digital

Segundo a estatistica que já publicamos, ministrada pela mesa do Tragamalho, ou da imposição das embarcações, na camara municipal, ha no Tejo 34 barcos dos moinhos, e a sua amarração é no caes do Tojo, proximo ao terreiro do Trigo. (6)


(1) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 31, pág. 247
(2) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 33, pág. 261
(3) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 36, pág. 285
(4) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 41, pág. 325
(5) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1860, n° 48, pág. 380
(6) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1861, n° 9, pág. 70

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Informação relacionada:
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