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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Um boné por uma cabeça

El-Rei entrou seguido da aia. A lnfanta ergueu-se e El-Rei beijou-a na testa. D. Miguel vinha vestido à paisana e com uma chibatinha na mão. Mostrava um ar satisfeito. 

Retrato de D. Miguel I, Palácio Nacional de Queluz.
Imagem: Portugal Virtual

Deu uma volta pelo quarto cantarolando, e depois sentou-se dizendo:

— Saiba V. A. que acabo de experimentar o mais soberbo cavallo que tenho visto. E não é estrangeiro, é do paiz, pura raça d'Alter. Bello bicho, bello bicho. Leve como uma penna, caminha que desapparece.

D. Miguel I (1802 - 1866), rei de Portugal (1826 - 1834),
Franz Xaver Stöber, segundo Johann Nepomuk Ender, 1826.
Imagem: Wikipédia

— Ora, senhor Rei meu irmão! Porque não anda V. M. devagar? Tomara que acabasse a moda de andarem os Reis sempre a correr. Fico muito assustada sempre que vejo partir V. M. a todo o galope.

Infanta Maria da Assunção de Portugal (1805-1834),
por Nicolas-Antoine Taunay.
Imagem: Grand Ladies

— É porque V. A. não sabe apreciar este prazer, e não gosta senão do passo de sendeiro da sua egoasinba branca. Mas vejo V. A. hoje tão risonha, fóra do seu costume. Grande novidade!

— É porque, disse a Infanta, ha oito dias que procuro fallar a V. M., e não me é possivel encontra-lo. Os politicos trazem-n'o tão occupado... Estou certa de que V. M. seria muito mais feliz, se viesse todos os dias conversar comigo aqui algum tempo, com a sua irmã que muito o estima.

— Então aqui estou. Sempre quero ver o que tem para me dizer. Ahi vae V. A., como costuma, sobrecarregar-me de pedidos para tantos desgraçados, que era preciso que a casa real tivesse as rendas do reitor Mendes para os satisfazer a todos.

— Hoje não tenho mais que um pedido a fazer-lhe, e não è de esmolas nem de pensões, é de palavras e coisa muito facil. Muito facil para V. M., dificil e impossivel para qualquer outra pessoa.

— Ah! Pensa então V. A. que eu posso muito? Os reis não podem nada, ainda mesmo os absolutos. Por exemplo, pensa V. A. que teriam morrido aquelles 18 desgraçados do 4 de infanteria se eu tivesse o poder que V. A. julga?

— Então quem è que abaixo de Deus pode mais n'esta terra do que V. M.?

— As leis, Infanta, as leis; e é necessario cumpril-as a todo o transe. Assim m'o dizem os meus ministros, os meus padres, os meus juizes, emfim toda a gente — respondeu o rei, inclinando a cabeça e cruzando as mãos sobre o peito.

— Senhor, replicou a Infanta, as leis dos homens quando mandam matar não se podem cumprir, porque são contrarias ás leis de Deus.



A.P.D.G., Sketches of Portuguese life (...).
Imagem: Internet Archive

— Vá lá dizer isso aos meus conselheiros! Gritavam logo-aqui d'el-rei! — contra mim proprio.

— Pois grite V. M. — aqui d'El-rei! — contra elles, volte-lhes as costas, e faça a sua vontade.

— V. A. não entende d'isto de governar um povo. Olhe que sempre è um grande pezo e uma grande responsabilidade. Não tenho socego. Estou ás vezes com vontade de mandar dizer a nosso irmão: "Senhor! Deixemo-nos d'estas desintelligencias e d'estes combates. Já estou farto de tantas mortes e de tanto sangue. Venha o meu irmão tomar conta d'isto, e deixe-me socegado com os meus cavallos e as minhas caçadas".

Mas que está V. A. aqui fazendo n'esto bastidor? disse D. Miguel, inclinando-se sobre o pequeno trabalho da infanta. Que bonita coisa! Um pedaço de veludo cor de rosa bordado a oiro; as armas de Portugal; cinco chagas — a religião, sete castellos — a força.

Bandeira de D. João V e nacional de Portugal de 1826 a 1830,
usada pelos miguelistas (ou absolutistas ou realistas).
Imagem: Wikipédia
— É um bonet que estou fazendo para offerecer a V. M. — disse a lnfanta.

— Obrigado, obrigado. Como ha de ficar bonito! E esta quasi prompto — disse El-Rei, continuando a examinar o trabalho.

— Pouco falta, respondeu a Infanta muito satisfeita; mas não lh'o dou se V. M. me não conceder a tal coisa muito facil de que lhe fallei.

— Pois bem, dou-lhe palavra, mas com a condição de que me hade dar o bonet— disse o rei gracejando.

— Ainda mesmo contra a vontade dos seus conselheiros?

— Seja, respondeu el-rei, continuando à ver o bordado; mas com a condição que puz.

— Palavra de rei?

— Palavra de rei, mesmo porque V. A. nunca me pediu nada que me compromettesse.

— Por esse lado não ha que receiar: longe de o comprometter, torna-me mais sua amiga, se é possivel, e receberá as bençãos de immensa gente.

— Vamos a ouvir.

A conversação foi interrompida pela voz de uma aia que disse — O sr. conde de S. Lourenço [António José de Melo Silva César e Meneses, ministro e secretário de estado da guerra do governo de D. Miguel] manda dizer a V. M. se se digna dar-lhe as suas ordens.

— É o que lhe disse ha pouco, exclamou D. Miguel, nunca me deixam.

— Mande-o entrar, disse a lnfanta!

— Vá, se V. A. assim o quer: eu aqui obedeço.

Pouco depois entrou o conde inclinando-se todo. Dirigiu-se primeiro para a Infanta, que carregou as sobrancelhas, e deu-lhe a mão a beijar, voltando-lhe quasi de todo as costas; e beijou depois a mão a El-Bei.

O conde percebeu bem os movimentos da lnfanta, fez-se muito vermelho, e ficou em pé com os olhos no chão.

— Sabe V. M. uma coisa, disse a lnfanta. Hontem foram condemnados a pena ultima mais 22 desgraçados do 4 de infanteria. Talvez V. M. ainda o ignorasse.

— De certo, disse o Rei com a voz um tanto alterada. E como acontece então que V. A. o soube primeiro?

— Peço perdão, interrompeu o conde, se V. M. o não soube ha mais tempo, é porque não teve occasião de ver os papeis d'esta pasta, que estava na sala do despacho desde hontem.

D. Miguel pegou na pasta que o conde lhe offerecia e exclamou.

— Mais sangue, sr. conde, mais sangue! Já tive occasião de lhe observar que estava aborrecido de tanta mortandade.

A.P.D.G., Sketches of Portuguese life (...).
Imagem: Internet Archive

EI-Rei dizendo isto aproximou-se da janella por entre as cortinas.A lnfanta foi para o lado d'El-Rei. Ia passando uma guarda de realistas dos Caetanos, que vinha para o paço, levando adiante da musica grande multidão de povo.

— Como são feios estes realistas! disse a Infanta. E continuou, abaixando a voz — Agora faça-me V. M. favor de despedir o Conde.


Quadros da Historia de Portugal,
Aguarela de  Alfredo Roque Gameiro.
Imagem: www.roquegameiro.org

El-Rei que estava de bom humor disse ao Conde:

— Já vou ter com v. ex.a á sala do despacho.

O conde inclinon-se e saiu. Apenas elle desappareceu, a Infanta pegou vivamente na pasta que El-Bei tinha largado, correu os papeis com a vista, e tirou um dizendo — Aqui estão os nomes dos desgraçados condemnados á morte.

Lisboa vista da Quinta da Torrinha Val Pereiro, gravura de William James Bennett sobre desenho de L. B. Parlgns.
Imagem: Museu de Lisboa

— Que faz Infanta! disse El-Rei. Era melhor que continuasse a bordar o meu bonet.

— Lembra-se V. M. do que me prometteu?

— Lembro, com tanto que V. A. se não esqueça tambem da sua promessa.

— V. M. tem o seu bonet amanhã, se salvar da morte este Luiz Franco, que está na relação dos sentenciados, e por quem eu e tanta gente lhe temos pedido.

El-Rei ticou pensativo por um momento, depois disse: 

— Concedido.

— Ah senhor! Quanto lhe agradeço! disse a Infanta com as lagrimas nos olhos abraçando El-Rei.

— Oh! Infanta, como está commovida! Venha tomar ar. Abram a janella!

Lisboa, Escola do Exercito (antigo palácio da Bemposta), ed. Martins/Martins & Silva, s/n, c. 1900.
Imagem: Delcampe

Uma aia abriu a janella. Estava-se a render a guarda do paço. A multidão que aflluia para ouvir a musica, vendo as pessoas reaes, começou a victorial-as.

— Creia V. M., disse a lnfanta, que nunca mereceu tanto aquelles vivas como agora. Se V. M. m'o permitte vou já acabar-lhe o seu bonet.

— Visto isso, disse D. Miguel rindo e afastando-se da janella, trocou V. A. um bonet por uma cabeça.

E saiu do quarto cortando o ar com a chibatinha [...] (1)


(1) António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863

Artigo relacionado:
A familia do rei Clemente

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Grupo do Leão (1.ª exposição, 1881)

O OCCIDENTE publicando hoje uma gravura que representa o aspecto geral do salão de quadros aberto no meio do mez de dezembro passado, na casa da sociedade de geographia, e propondo-se a reproduzir nos proximos numeros alguns dos quadros mais notaveis apresentados por artistas brilhantes, como Silva Porto, A. Ramalho, Malhôa, além duma pagina composta em que figurará um grande numero de telas de todos os artistas expositores, acompanha dedicadamente o nosso movimento artistico, e ao mesmo tempo aproveita, como chronica, um acontecimento raro que provocou um interesse vivo e quasi enthusiastico, no pequeno mundo lisboeta que faz caso, caprichosamente, crestas causas futeis das bôas-artes.

Grupo do Leão, 1.° Salão de Quadros em 1881, desenho de António Ramalho.
Imagem: Hemeroteca Digital

Com effeito, ha muito tempo que uma exposição de quadros, mesmo oficial, mesmo apregoada com batedores, e hymnos, e prosas mazórras de burocratas arreliados, ministros e amanuenses, que nunca se deram ao incommodo fatigante de perceber o que vem a significar uma obra d'arte, e tendo pelos objectos dessa especie reles o mesmo desprezo soberano que pelos pretendentes sempre infelizes, não consegue attrahir tão poderosamente a attençáo publica, agitando-a em vibrações de admiração sincera? espontanea, — e, o que é mais, levando-a magicamente a depositar uma porçãosita de libras afrectuosas sobre umas quinze telas já escolhidas [...] (1)

O grupo chamou-se do Leão, por causa de um café da rua do Principe...

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel Henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: MNAC

1.° Salão, Exposição de Quadros Modernos, 1881


Exposições de Quadros e d'Arte Moderna (1881-1889)
Catálogos Illustrados
Publicados por Alberto d’Oliveira
clique para aceder



CHRISTINO DA SILVA (J. R.) L. de S.ta Marinha, 25.
(Ribeiro Cristino, pesquisa google)

1 — Caminho da fonte, estudo do natural. 
[cf. Catálogo da exposição]

Caminho da Fonte, Ribeiro Cristino, c. 1881.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

2 — Um açude, estudo do natural.

3 — Santo Antonio de Chernaes.

4 — Retrato do sr. F. J. Rocha.

5 — Retrato do sr. dr. J. S. de Lima.

X — No passeio da Estrella.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 118, 1 de abril de 1882]

GYRÃO (J. de S. M.) T. da Conceição, á Lapa, 13, atelier.
(Moura Girão, pesquisa google)

6 — Elle e ellas. 
[cf. Catálogo da exposição]

7 — Paysagem do Bussaco.
[cf. Catálogo da exposição]

8 — Quinta do marquez de Pombal (Oeiras).  
[cf. Catálogo da exposição]

9 — Luso, estudo.
[cf. Catálogo da exposição]

10 — Portinho d’Arrabida (Setúbal). 
[cf. Catálogo da exposição]

11 — Jardim, estudo.

11 — Cabeça de gato.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 118, 1 de abril de 1882]

Cabeça  de gato, Moura Girão, c. 1880.
Imagem: Pinterest

12 — Uma boa cama.

MALHOA (J. V. B.) R. da Oliveira, ao Carmo, 9.
(José Malhoa, pesquisa google)

13 — Inundação na ribeira de Santarém.
[cf. Catálogo da exposição]

Inundação da Ribeira de Santarém, José Malhoa, c. 1881.
Imagem: matriznet

14 — A minha visinha. 
[cf. Catálogo da exposição]

15 — A seara invadida.

Seara Invadida, José Malhoa, c. 1881.
Imagem: Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra

16 — Pateo dos Gatos.

17 — A serra em abril.

18 — O brejo.
[cf. Catálogo da exposição]

Grupo do Leão, 1881, O Brejo, José Malhoa.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

19 — Ao cair da tarde.

MARTINS (J. J. C.) R. do Norte,  153 , 4. 
(Cipriano Martins, pesquisa google)

20 — Costume, estudo do natural.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 118, 1 de abril de 1882]

21 — Costume, estudo do natural.
[cf. Catálogo da exposição]

22 — Retrato de A. F. Castilho, desenho a carvão.

PINTO (M. H.) T. das Monicas, 45, 1.°. 
(Manuel Henrique Pinto, pesquisa google)

23 — Estudo de paysagem, Setúbal.
[32, cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 118, 1 de abril de 1882]

24 — Quinta d'Aranguez, Setúbal.

25 — Estudo de paysagem, Setúbal.
[cf. Catálogo da exposição]

26 — Estudo de paysagem, Setúbal.
[cf. Catálogo da exposição]

27 — Convento de S. Francisco d'Arrabida.

28 — Ponte do Arco de Baulhe, Cabeceiras de Basto.

29 — Retrato do Néné.
[cf. Catálogo da exposição]

30 — Azinhaga da Esperança, Figueira da Foz.

RAMALHO JUNIOR (A. M.) R. do Loreto, 61, 2.°.
(António Ramalho, pesquisa google)

31 — Praia do Alfeite.

Grupo do Leão, 1881, Praia do Alfeite, António Ramalho (Ramalho Junior).
Imagem: YouTube

32 — O Bacharel.
[cf. Catálogo da exposição]

33 — Mesquita do Castello dos Mouros, Cintra.

34 — Pomar do Antelmo, Alfeite.

35 — Lavadeiras na Romeira, Alfeite. 
[cf. Catálogo da exposição]

Lavadeiras na Romeira, Alfeite — Quadro de Ramalho Junior comprado pelo sr. Pereira da Costa, 1882.
Imagem: Hemeroteca Digital

36 — Caminho da fonte dos Amores, Cintra.

37 — Um beserro, estudo.

38 — Ermida do Bomfim, Setúbal.

39 — Praia dos Inglezes, Foz.

40 — Entrada d'uma quinta em Cintra.
[cf. Catálogo da exposição]  

41 — Caminho na quinta do Alfeite.

42 — Canto de jardim.

43 — Costume do alto Minho.
[cf. Catálogo da exposição]

44 — Costume do alto Minho.

45 — Azinhaga de Valle de Pereiro.

46 — Ramada, Porto.

X — Convento de Santa Clara, Santarém.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 118, 1 de abril de 1882]  

SILVA PORTO (A. C.) T. da Estrella, 38, 1.°.
(Silva Porto, pesquisa google)

47 — Praia da Povoa de Varzim.

48 — Charneca, Bellas.

A Charneca de Belas, a introducção do Naturalisno em Portugal, Silva Porto, 1879.
Imagem: MNAC

49 — Barco de pesca, Setúbal.

50 — Logar da Portella, margens do Mondego.
[cf. MatrizNet]

51 — Portinho d'Arrabida, Setúbal.

Portinho da Arrábida, Setubal (carece de melhor informação), (Recanto da Praia, MNBA), Silva Porto, c. 1881.
Imagem: Wikipédia

52 — Paysagem do Minho.

53 — Bairro dos Pescadores, Povoa de Varzim.

Bairro dos pescadores, Póvoa do Varzim, Silva Porto, c. 1881.
Imagem: Hemeroteca Digital

54 — Azinhaga, Portella,

55 — Caminho da fonte dos Amores, Cintra.

56 — O lago, Aranguez, Setubal.

57 — Convento de S. Francisco d'Arrabida.

58 — Castello da Pena, Cintra.

59 — Costume de Capri, (cabeça).

60 — Costume da campanha romana, (cabeça). 
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 118, 1 de abril de 1882]

61 — Vendedeira de laranjas, costume do Minho.

62 — Marinha, Veneza.

63 — Grande canal, Veneza.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 118, 1 de abril de 1882]

64 — San Constanzo, Capri.

65 — Cancella vermelha, Barbizon, França.

Cancela vermelha (Barbizon), Silva Porto, 1880.
Imagem: SlideShare

66 — Entrada da fazenda, Setúbal.

VAZ (J. J.) Campo do Bomfim, Setubal.
(João Vaz, pesquisa google)

67 — A benção da rede.

68 — Da janella d’Aranguez, Setúbal.

69 — O pateo d'Aranguez, Setúbal.

70 — O caminho no pinhal, Palmella.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 118, 1 de abril de 1882]
[cf. Catálogo da exposição]

71 — No caminho d'Azeitão.
[cf. Catálogo da exposição]

VIEIRA (J. R.) Leiria. 
(João Rodrigues Vieira, pesquisa google)

72 — Cedros, paysagem de Leiria.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 118, 1 de abril de 1882]
[cf. Catálogo da exposição]

73 — Retrato do sr. Ruy dos Santos. 
[cf. Catálogo da exposição]


Grupo do Leão, 1.° Salão de Quadros em 1881, algumas obras expostas.
Imagem: O Occidente Hemeroteca Digital


(1) O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 111, 21 de janeiro de 1882

Críticas publicadas:
O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 111, 21 de janeiro de 1882
O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 113, 11 de fevereiro de 1882
O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 115, 1 de março de 1882
O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 116, 11 de março de 1882
O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 118, 1 de abril de 1882
O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 119, 11 de abril de 1882

Sobre José Malhoa:
Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra 

domingo, 19 de junho de 2016

O veterano da bandeira

I


Ouvindo o troar da artilheria, que annuncia á família liberal uma grande festa; e vendo o desfilar do cortejo cívico, que nos aviva um notável facto da historia contemporanea, inscripto com letras de oiro nos fastos nacionaes, notamos uma falta: entre aquelles beneméritos, cujos cabellos encaneceram no serviço da pátria e da liberdade;
Este capitulo, ou trecho, foi escripto para o Diário Illustrado, de julho 1879, e agora sáe com algumas notas que para ahi não pude mandar.
entre aquelles cidadães, cujas virtudes e cuja dedicação patriótica, foram acrisoladas por infinitas provações; entre aquelles semblantes requeimados pelas insolações em numerosas marchas, pelas descargas de cem refregas e combates;

entre aquelles veteranos, exemplares de abnegação e heroismo; entre as figuras venerandas d'aquelle cortejo sympathico, que milhares dos do povo rodeiam com sinceridade e enthusiasmo, pelo que vale e pelo que symbolisa; entre aquelles homens falta um:

António Silva, o veterano da liberdade, Diário Illustrado, 24 de julho 1879.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

É o que a gravura do Diario Illustrado representa hoje, e do qual me coube a honra n'estas paginas, a quem tem dado tamanho lustre escriptores esclarecidos de deixar aqui algumas notas biográficas;

É o de um veterano, popular, que soube aliar o respeito e a amisade dos grandes e humildes, porque elle era grande pelo seu coração e pela sua inexcedível bravura; e humilde pelo seu berço e pelo seu viver chão, simples, patriachal;

É, emfim, o Silva das Barbas brancas, como o cognominava o povo, quando elle em dias duplices lançava para fóra do fino peitilho da camisa aquellas alvissimas barbas, que lhe davam o aspecto dos homens bons e de bom conselho de tempos áureos; é o Veterano da Bandeira, como depois o appellidaram quando foram inaugurados os festejos do 24 de julho.
Esta commemoração deixou de fazer-se por circumstancias politicas, que não vem para aqui referirem-se; mas a principal, no meu entender, foi a do esmorecimento na lembrança de factos, que não deviam esquecer para lição dos vindouros (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, op. cit.).

Ao comtemplar o seu retrato parece-me ainda vél-o: sadio, rosado, alegre como um moço, risonho como se o sol d'aquelle memorável dia fosse o sol do melhor dia das suas primaveras; direito como um recruta, não vergando ao peso dos annos, mas erguendo o rosto com certo desvanecimento para a bandeira, que era para elle, — e para todos nós, filhos da grande familia liberal, — a sua idéa constante, o seu symbolo, a religião da liberdade!


II


Pensava-se em outro tempo, e divulgava-se que as biografias só podiam fazer-se dos grandes embora elles não tivessem a recomendalos senão os pergaminhos e os serviços dos antepassados; e isto acreditava-se, tanto mais quanto era certoque a lisonja cortezã o traduzia em facto;

pois as idéas modernas transformaram o uso, e se se deu aos grandes, que realmente o são, por suas virtudes e qualidades, o preito sincero e condigno do respeito e admiração, tambem não se pode hoje regatear se aos humildes, que se levantaram a maior altura na cooperação para a victoria dos nobres princípios o elogio que lhes cabe pelas suas nobres acções e o lugar que lhes pertence no pantheon glorioso dos que se distinguiram em prol da pátria.

Não tiremos um desses logares a Antonio da Silva.

O venerando ancião nasceu aos 31 de julho de 1801 no logar de Adão Lobo, termo da villa do Cadaval; e veiu para Lisboa fugido com a sua familia, e a pé, não tendo ainda 7 annos de edade, quando Junot invadiu Portugal com as forças do seu commando.

Percorrendo a pé as doze léguas que o separavam da capital, e vendo já afflicta a familia porque fugia da sua terra sem recursos, e sem pão, era descer o primeiro degrau na escala da adversidade.

Chegando a Lisboa, a familia Silva teve que separar-se do seu pequeno Antonio e entregal-o ao cuidado das pessoas, que o protegeram na mocidade.

Discorreram, portanto, os primeiros annos da sua estada na capital sem incidente notavel, embora conhecessem os amigos que António da Silva roubava algumas horas ao trabalho e ao descanso para se relacionar com os homens de esphera mais elevada e tomar conhecimento das occorrencias politicas, enthusiasmando-se com o alvorecer das idéas liberaes que trouxeram, na proeminencia dos factos contemporaneos, Fernandes Thomaz, Ferreira Borges, fr. Francisco de S. Luiz e outros beneméritos, e pelos esforços destes inclitos varões, o 24 de agosto de 1820 [pronunciamento militar do Porto, que levou à formação da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino presidida pelo brigadeiro António da Silveira Pinto da Fonseca, e ao inicio do periodo conhecido como vintismo].

Porém, no meio dos seus enthusiasmos, António da Silva pagava o tributo da mocidade prendendo-se n'uns sinceros amores a uma joven de apreciáveis dotes do coração, D. Joanna Francisca da Costa e Silva, filha de um bom homem de Lamego, Manuel da Costa Telles Almas.

Em 1821 encontramol-o já casado, mas interrompida a lua de mel por uma eventualidade da politica, que o tirava dos braços affectuosissimos da esposa para o arremessar ás rudes fainas da caserna.

Tinham n'o intimado para sentar praça, e elle foi alistar-se no regimento de milícias de Lisboa Occidental [sic, i.e. Oriental (n. do e.).], mais conhecidas por milicias de D. Jorge, ficando primeiramente na 3.a companhia d'esse corpo, e depois na de granadeiros.

A agitação revolucionaria da época; a convivência com alguns homens que acreditavam religiosamente que o 24 de agosto vingaria contra as dificuldades oppostas pelo partido contrario; a vida de quartel, que dá novos hábitos, e altera essencialmente as condições da existência caseira e patriachal, — abriram-lhe um período que entregou Antonio da Silva ás oscilações e aos abysmos da politica.


III


É geralmente sabido, que os dois primeiros quarteis d'este século foram povoados de successos que davam muitos volumes e que pela maior parte estão inéditos.

Ainda mais: muitos acontecimentos passaram sem registo particular, nem publico, e seria hoje extremamente difficil reunir todas as notas para dar inteiro relevo ás paginas da historia contemporanea n'uma serie, pelo assim dizer, ininterrupta de incidentes, de acção e reacção, de estímulos, odios, perseguições, vinganças, que a liberdade protegia em seu interesse, mas offuscando o seu brilho;

e que ao mesmo tempo a liberdade repellia para tornar mais vivida a sua luz; uma época de combates, de lutas terríveis e homericas, que parecia ser impossível empreenderem-se se milhares de testemunhos não o confirmassem:

porque a 1820 succedia 1824 [Vilafrancada, insurreição liderada pelo Infante D. Miguel, em 27 de maio de 1824]; a esta data seguia-se 1828 [inicio do reinado de D. Miguel, legitimado pelas Cortes, em 11 de julho de 1828]; depois vinha 1829 [revolta cartista em Lisboa, em 9 de Janeiro de 1829, comandada pelo brigadeiro Moreira Freire, em 6 de março os revoltosos são enforcados no Cais do Sodré] e 1834 [assinatura da Convenção de Évora Monte, diploma assinado entre liberais e miguelistas, em 26 de Maio de 1834, que pôs termo à Guerra Civil Portuguesa (1828 - 1834)]; depois 1836 [revolução de Setembro, golpe de estado ocorrido em Portugal a 9 de Setembro de 1836, quando chegaram a Lisboa os deputados oposicionistas do norte; Belenzada, contra-golpe de inspiração cartista, que ocorreu na noite de 4 de novembro de 1836], 1837 [revolta dos Marechais, 12 de julho de 1837, sublevação militar fracassada contra o governo de Sá da Bandeira, de inspiração cartista contra o setembrismo, encabeçada pelos duque da Terceira, e duque de Saldanha], 1838 [revoltas de março. Juramento da nova Constituição pela Rainha em 4 de abril de 1838], 1840 [tumultos em Lisboa, no Largo da Estrela, em 11 de agosto de 1840, data do aniversário da vitória liberal na ilha Terceira], 1844 [pronunciamento militar setembrista, em 4 de fevereiro de 1844, em Torres Novas], 1846 [revolução da Maria da Fonte, sublevação popular no Minho em 15 de abril de 1946. Guerra Civil da Patuleia, iniciada a 9 de outubro e finda em 29 de junho de 1847, com a assinatura da convenção do Gramido].

Antonio da Silva, pelo seu caracter, pela sua actividade, pelo seu patriotismo que o convencerade que a felicidade para a sua nação só viria pela liberdade, achou se repetidas vezes com risco de vida própria e oi maior sacrifício da sua familia, envolvido no mais aceso das contendas dos partidos, pendendo sempre o seu trabalho e os seus esforços para o mais avançado.

Assim, na Abrilada, na proclamação do infante D. Miguel, na conspiração do brigadeiro da brigada de marinha, na revolução de Setembro, na revolta dos marechaes, na desastrada lucta da guarda nacional, na sedição de Miguel Augusto, na sublevação de Almeida, na Maria da Fonte, o veterano Silva teve o seu papel, que desempenhou como um heroe, principalmente no espantoso periodo de 1828 a 1834.

Medalha das Campanhas da Liberdade
Imagem: Wikipédia

Na conspiração de 1829, conhecida pela do brigadeiro da brigada de marinha, Antonio da Silva foi preso com outros.

N'uma occasião em que iam a perguntas, com uma forte escolta de armas carregadas, e acompanhados pelo coronel das milícias Andrade Corvo, passou D. Miguel a cavallo e seguido do piquete que o acompanhava nas suas correrias pela capital. Um dos presos, voltando-se para os companheiros, disse-lhes:

— Ahi vae o rei! Curvemo-nos deante d'elle para alcançarmos o perdão!
Antonio da Silva, vivo e prompto nas respostas, acudiu:
— Quem falla ahi em perdão? Só os criminosos é que o imploram!

Os presos calaram e a escolta seguiu o seu destino.

O coronel Corvo, que estimava muito o nosso veterano, apesar de o conhecer exaltado, tambem fingiu que não ouvira aquellas phrases, e não ocorreu outra novidade.


IV


Antonio da Silva, viveu, no Bairro Alte, em tres casas: na rua dos Calafates, onde hoje vemos a farmácia do sr. Oliveira Abreu; na travessa da Queimada, n'um prédio que em os n.os 42 e 43; e na rua da Barroca, n'um rez-de chaussée que tem o n.° 22.

O bairro Alto, de 1828 a 1833, se foi, como ainda sabem numerosas pessoas, foco de conspiradores e conspirações; foi igualmente a estação de homens, beleguins [agente policial ou judicial, esbirro] e espiões, que o povo temia e detestava.

Como centro de reunião de liberaes eram aqui apontadas, especialmente, dois locaes: o palácio do nobre marques de Ficalho, que fez todo o mal que poude ás insólitas pretensões dos partidários do infante D. Miguel, para que trumphasse a causa justa dos amigos dedicados do imperador D. Pedro IV e de sua augusta filha a sr.a D. Maria II; e a humilde casa de Antonio da Silva.

Os espiões titulares, segundo a voz do povo, não tiravam os olhos d'essas casas, e parecia que se reproduziam para as vigiar. Ás esquinas das ruas da Barroca, do Carvalho e dos Caetanos, era certo encontrar-se a cada instante ou o Manuel Quadrilheiro; ou o Matta Espião, de quem a populaça se vingou no dia 24 de julho; ou o Senhor dos Passos de Argel, ou o Segeiro, da rua dos Calafates, ou o Louceiro, do Loreto, e outros sujeitos, que tinham fama n'essa epoca pelas suas proezas; e tambem, sem duvida, com taes olheiros e espiões, não faltou na intendência da policia a nota dos passos, hora a hora, das pessoas suspeitas, o que por então nada tinha de extraordinario.

A pobre casa da rua da Barroca era, á noite, como um formigueiro de liberaes e conspiradores. Ali recebiam a Chronica constitucional, do Porto que um lia em voz alta para os demais ouvirem;

ali recebiam noticias e papeis avulsos clandestinos; ali ajustavam planos de ataque e defeza contra a vigilância da policia; ali, emfim, faziam contratos sobre a deserções para o Porto.

Entre as damas, que auxiliavam a causa liberal, figurava em primeira linha a sr.a D. Joaquina de Lencastre, depois viscondessa do Roguengo e condessa de Avilez celebrada esposa do general Jorge de Avilez. Morava na Junqueira. Todos sabiam que ninguem a dominava nas suas convicções, que ninguem podia excedel-a nos sentimentos que a impeliam para trabalhar em prol do restabelecimento do throno da sra.a D. Maria II.

Estava ella ao corrente do que se fazia em Lisboa para contrariar o governo do infante D. Miguel, a augmentar as forças dos defensores do Porto. Mandou por isso chamar o Antonio da Silva e disse-lhe:

— Conto com o sr. Silva.
— Para que, minha senhora? Valho pouco...
— Pelo contrario, sei que uma pessoa póde fiar-se na sua lealdade e no seu braço?
— Para a defender, sim, minha senhora, o meu braço valerá alguma cousa.
— Não preciso agora de defeza sr. Silva; tenho o meu coração que me resguarda de perigos; mas para defendermos uma causa...
— Dirá v. ex.a.
— É o meu trabalho todos os dias Encontramo-nos nas aspirações.
— Bem o sabia.
— Que devo fazer?
— Vou fornecer-lhe algum dinheiro. Com elle o sr. Silva alliciará soldados, paisanos, todos que queiram prestar se a ir socorrer os nossos amigos no Porto. — Prompto; corro já a executar as suas ordens, ainda que me custe a vida.
— Obrigada! Obrigada!

Dentro de alguns dias, António da Silva tinha conseguido fazer sair de Lisboa para o cerco do Porto não menos de 170 homens, alguns mantimentos, armas e roupas.

O seu processo era simples e arriscadissimo. Disfarçava-se, ora de um modo, ora de outro; e ás vezes com trajes femininos, capote e lenço, e assim acompanhava os que partiam de Lisboa até ás estancias [armazéns, ancoradouros] da Boa Vista, aproveitando as saídas d'ellas para a praia, ou para os boqueirões [aberturas, canais], onde embarcava aquelles homens em escaleres inglezes, que protegiam a fuga para bordo dos seus navios.

A estes actos audaciosos juntou elle um,, que fez com que os espias do Bairro alto, que umas vezes semostravam benévolos para com Antonio da Silva, outras o temiam, e outras precia quererem perseguil-o, fitassem a sua cabeça levantada e orgulhosa como ornamentação obrigada das forças que se erguiam para o martyrio dos liberaes.

Tinham-lhe nascido no lar, açoutado por variadas comoções, dois gemeos. A esposa mostrou-lh'os dizendo:

— Um menino e uma menina.
— Ainda bem! Terá um o nome de Pedro de Alcantara e a outra o de Maria da Gloria; e se não posso rogar ao imperador para ser meu compadre, elle saberá como baptisei estes filhos.

Toda a freguesia da Encarnação fallou deste facto. O baptisado effectuou-se na hora mais adiantada do dia. As criancinhas iam vestidas de azul e branco. Trinta convidados de gala, com laços azues e tochas acesas. Era de dar nas vistas. Foi uma cousa inacreditável. Não se podia exceder em temoridade.

N'esse dia os quadrilheiros deixaram-n'o em paz; mas em melhor occasião, assaltaram-lhe a casa, e se elle senão lembrasse de fugir para a de um vizinho, e, esconder-se no panno da chaminé, não teria saido de novo incólume das suas redes. Protegia-o boa estrella!

Na vida do nosso veterano deparam-se-me muitas d'essas acções de ousadia e temeridade; e tanto que nunca lhes faltaram os documentos mais honrosos de officiaes e superiores, durante o tempo que serviu no exercito, e na alfandega, onde esteve por muitos annos e onde se reformou.


V


Os veteranos, seus companheiros, deviam-lhe serviços de valia sendo os mais importantes a fundação da associação dos veteranos da liberdade, de que elle foi thesoureiro;

e as instancias, junto de velhos amigos seus nas duas casas do parlamento, para que o estado tirasse da miséria a que estavam condemnados alguns desses benemeritos, que derramaram o seu sangue em defensa dos princípios liberaes.

António da Silva, o Veterano da Bandeira, falleceu com 78 annos de edade em junho d'este anno, tendo ao lado seus três filhos, que lhe restavam de quatorze, e que o honravam, os srs. Francisco Emygdio da Silva , primeiro tachygrapho da camara dos deputados;
Já falleceu. Era um santo homem. Estimavam-no todos no quadro tachygraphico e respeitavam-no porque sabia muito bem da sua profissão. O que muitos ignoravam era que elle, filho devotado e obediente, educado sem alardos e com a sobriedade de um portuguez de lei, depois de emancipado e depois de exercer sem faltas e com brilhantismo a sua profissão, em que adquirira um primeiro logar, quando recebia o ordenado ia religiosamente entregá-lo aos paes para que o applicassem como entendessem nas despezas geraes da casa, reservando-lhe apenas o de que elle necessitasse para gastar com a renovação do seu vestuário. Prescindia de commodos e de modas. Exemplar filho! (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem)

Antonio Avelino Amaro da Silva, antigo capitão de navios e engenheiro civil;
Esteve no Brasil e ve-io de lá com alguns meios ganhos em serviço de engenharia, sobretudo em medição de terrenos no interior da província do Rio de Janeiro, onde se relacionira com alguns brasileiros de representação, como o fallecido Joaquim Saldanha Marinho. Também já é fallecido [falecera em 1889]. Aqui viveu modestamente e de vez em quando escrevia alguma cousa para umas memorias intimas, que não chegou a publicar. Deu ao prelo um romance histórico baseado em factos das campanhas da liberdade. Descreve com acerto e em boa linguagem o que passou, no concelho de Almada, quando as limitadas forças liberaes trouxeram á ponta de baioneta a tropa do commando de Telles Jordão até Cacilhas, onde foi morto esse famigerado official miguelista, ao qual não faltava bravura e crueza. Este trabalho foi muito bem recebido e elogiado. (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

e Christiano Gerardo da Silva , professor de musica e distincto artista.
Foi um violinista distincto e por vezes regeu orchestras em salões particulares e theatros. Está retirado da vida artistica. É proprietário em Lisboa. Vive, edoso e doente. (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

Tinha a medalha com o algarismo 5 das campanhas da liberdade e a junta do Porto, por um acto de bravura, concedera-lhe a Torre e Espada, em 1846.

Medalha da Torre e Espada
Imagem: Presidência da República Portuguesa

Comecei a conhecer e estimar este bom ancião por 1849 ou 1850. Preparava-se a regeneração. Elle auxiliava, como podia, os que conspiravam em Lisboa desde os desastres da Maria da Fonte, e exclamava:

— Se os Cabraes matam a liberdade, expulsemos os Cabraes!

Dias antes de morrer, visitei-o e abracei-o. A sua despedida foi:

— Aproxima-se o dia 24 de julho. Não vê o meu estado?... Tenho os pés na cova. O meu desejo era, sequer uma vez, poder abraçar a minha bandeira...

Bandeira nacional de Portugal de 1830 a 1910.
Bandeira usada pelos Liberais.
Imagem: Wikipédia

Parou como se estivesse cansado; mas o cérebro d'elle funcionava regularmente. Uma lagrima perdeu-se-lhe por entre as rugas do rosto. E acrescentou:

— Paciencia! Termina a minha peregrinação. Ahi ficam os meus filhos. Amei-os tanto como a liberdade...

E dizia a verdade.
O António da Silva, pela sua dedicação á causa liberal, pelo respeito á memoria do imperador e rei D. Pedro IV e do seu dilecto general Sá da Bandeira, que tantos serviços prestou com grandíssimo sacrifício do seu sangue e dos seus haveres para a consolidação do throno da rainha D. Maria II, nao se esquecera nunca dos seus companheiros, que se oppuzeram com brio e tenacidade aos desvarios e oppressões ignominiosas da usurpação miguelina, e auxiliava, dentro das suas pequenas forças monetárias, para lhes minorar a miséria.

Foi um dos que mais poderosamente contribuíram para a creação da Associação dos Veteranos da Liberdade.

Refere Simão José da Luz, na sua interessantíssima biographía do ínclito Marquez de Sá da Bandeira, quando descreve no tomo nas exéquias solemnes celebradas na parochial egreja da Encarnação, em suffragio da alma desse que foi valente e sábio militar, que á porta da mesma egreja estava um respeitável veterano a pedir que o auxiliassem na obra de caridade a favor dos companheiros daquelle general que, por doença ou indigência, nào podiam comparecer naquelle piedoso acto.

O Marquez fallecera em Lisboa no dia 7 de janeiro 1876 e o cadáver foi transportado para o cemitério de Santarém, com as honras devidas, onde ficou em campa, com o epitaphio determinado em nota testamentária do illustre finado.

As exéquias solemnes realisaram-se no dia 21 de fevereiro do citado anno, proferindo a oração fúnebre o afamado orador sagrado, rev. cónego da Sé de Braga, Alves Matheus. Na pag. 509, do mencionado tomo II, lê-se esta singela nota: "Á porta do templo pedia esmola para os pobres soldados da liberdade o fundador da Associação dos Veteranos, o sr. António da Silva, que ainda pôde realizar a quantia de 15$500 réis." (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

23 de julho, 1879.

Brito Aranha. (1)



(1) Pedro Wenceslau de Brito Aranha, Factos e homens do meu tempo, memórias de um jornalista, Lisboa, A.M. Pereira, 1908, 1042 págs.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O forçamento da barra do Tejo

O forçamento da barra do Tejo pela esquadra comandada por Roussin (1781 - 1854), ocorrido em 11 de julho de 1831, em pleno período de lutas entre liberais e miguelistas, veio revelar que o Tejo estava longe de ser invulnerável, mesmo se bem defendido, e que a defesa marítima era muito precária.

Expedição do Tejo, desenho Pierre-Julien Gilbert, gravura Chavane, 1837.

Embora o ataque fosse esperado e os miguelistas tivessem promovido apressadamente o reforço das guarnições, que principiou alguns dias antes da entrada da esquadra, a oposição das fortalezas foi fraca e ineficaz.

La flotte française force l'entrée du Tage, Horace Vernet, c. 1840.
Imagem: Joconde

Na margem norte ainda se fez fogo sobre os franceses, mas na margem sul, a única reacção activa conhecida é a da Torre de S. Lourenço [Bugio]. (1)

A frota francesa commandada por Roussin força a entrada do Tejo, Pierre-Julien Gilbert, 1837.
Imagem: Fortificações da foz do Tejo

Junto da Torre de Belém, baluarte simbólico da entrada do Porto de Lisboa, o Almirante Roussin dá ordem de "alto fogo" para poupar a emblemática fortificação histórica, que arria a bandeira em sinal de rendição [...]

A frota francesa frente à Torre de Belém, Auguste Mayer.
Imagem Wikipédia

Às 17.00 horas, a rendição estava consumada. Dia 14 de Julho de 1831, uma convenção protocolar era assinada a bordo do "Suffren", por imposição dos franceses [...] (2)

Granier, Henri, Histoires des marins français... (detalhe).
Imagem: Amazon


(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.
(2) Revista da Armada,  O forçamento do tejo em 1831 na iconografia marítima francesa, maio 2011

Leitura relacionada:
Lecomte, Jules, Expédition du Tage, La France maritime