Esta panorâmica, representando a capital lusitana oito anos após o terramoto de 1755, é dedicada a Carlos Alberto Guilherme de Colson, conselheiro da corte do Conde de Lippe [...]
A cidade aqui representada estende-se desde a Torre do Bugio até ao Palácio do Patriarca [Palácio da Mitra] e evidencia as marcas de destruição deixadas pelo terramoto [...]
O seu autor, Bernardo de Caula, de origem francesa, ingressou no exército português, como primeiro-tenente da Companhia de Mineiros e Sapadores do Regimento de Artilharia de Lagos, em 7 de Novembro de 1763. Nesse ano terminara a campanha militar — que decorreu de 30 de Abril de 1762 a 10 de Fevereiro de 1763 — como consequência do Pacto de Família (celebrado entre os soberanos de França, Espanha e Nápoles, todos pertencentes à família Bourbon) que pretendia forçar Portugal a fechar os seus portos a navios ingleses.
Nesse conflito, o Exército português foi dirigido pelo Conde de Schaumbourg-Lippe, nomeado seu comandante-chefe com a patente de Marechal General, o qual permaneceria em Portugal até 20 de Setembro de 1764. (1)
1
Torre de Bogio
2
Torre de sam Julian da Barra
3
Carcavellas
4
Forte S.to Amaro
105
Grande Caxope da Barra
Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 1/9), Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
5
Forte S. João da Mayo
6
Villa e Condado de Oeyras
7
Paço d'Arcos
8
Forte de Caxias
9
Caxias e os Cartuchos
Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 2/9), Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
10
N.a S.a de Boa Viagem
11
Ponte de S.ta Catharina
12
Convento de S.ta Catharina
13
Forte arruinado de S. Jozé
14
Convento de Sam Jozé
Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 3/9), Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
15
Quinta de Dom Luiz de Portugal
16
Forte d'Argels
17
Gurita do Duque de Cadaval
18
Aldeia d'Argels
19
Quinta do Duque de Cadaval
20
Cazas do lettrado
21
Pedrooza
22
Cazas de Dona inés
Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 4/9), Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
23
Quinta velha do Conde S'Jago
— occupada pelo Conde R. de la Lippe
24
Caza da Saude
25
Torre de Belem
26
Ermida de S.o Jeronimo
27
Cazas do Marques de Tancos
28
Bom Socefso
29
Cazas do Conde Barão
30
Cazas do Marques de Marialva
31
Convento de Belem
32
Alculena
33
N.a S.ra do livramento
34
Paço Real de N.a S.ra da Ajuda
35
Calçada da Ajuda e Cazas do Conde D'oeyras
Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 5/9), Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
36
Cazas da Duqueza d'Abrantes
37
N.a S.ra da Boa Hora
38
Villa de Belem
39
quais de Belem e Paço Real
40
Quinta Real de Belem
41
Cazas de Descanfo da tapada
42
Cazas de Gaspar D de Saldanha
43
Cazas e Pateo D de Saldanha
44
Junqueira e q.ta da Condeça da Ega
45
Forte da Junqueira
46
Palacio do Cardeal Patriarcha
47
Sam Amaro
48
Quinta do Conde Daponte
49
N.a S.ra de Bona morte
50
Q.ta e Palacio das necefsidades
Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 6/9), Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
51
O Con.to do livramento
52
arrebaldo e Porta d'alcantara
53
Buenas Ayres
54
Pampouilla e S. F.a de Paula
55
Jannellas verdas
56
N.a S.ra da Lapaz
57
N.a S.ra dos Navegantes
58
As Tercenas B.ro do Mocambo
59
Fraiguezia de Santos
60
os Barbadinhos francezes
61
os apostolos Caza da aula
62
Bazilica Patriarchal
63
Bairro Alto e os Paulistas
64
Fraiguezia de Sta Catharina
65
Bairro da Bica Grande e as xagas
66
Cazas da India
67
quais de Boa vista
68
Fraiguezia de Sam Roque
69
N.a S.ra de Loretta dos italianos
70
Fraiguezia de N.a S.ra da anunciada
71
Palacio de Bragança
72
Fraiguezia do Corpus Satus
73
Convento da Trinidade
Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 7/9), Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
74
Convento S Francisco da Cidade
75
Convento dos Carmos
76
Ruinas e Convento do Spiritu Santo e do paço Real
77
Arcenal Novo
78
Rocio e Collegio S. Antão
79
Convento de N.a S.ra da Graça
80
Castel Sam George
81
Cazas do Marques de Tancos
82
Fraiguezia de Sta Moniqua
83
See velha e S antonio
84
Terreiro do Paço
85
Cazas da ribeira e Ruinas da misericodia
86
Ribeira do peixe
87
Convento de S. vicente De fora
88
Cazas do Marques de lavradio e Sta Ingracia
89
Alfandega
90
Aercenal da fondiçam
91
Campo Santa Clara
92
Quais dos Soldados
93
Convento dos barbadinhos italianos
Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 8/9), Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
94
Convento da S.ta appolonia
95
Convento de Santos novo
96
Porta do arrebaldo da madre de Deos
97
N.a S.ra da madre de Deos
98
Cazas do Conde de unhão
99
S Francisco de Xabregas
100
Convento dos Grelos
101
Convento do Beat antonio
102
Palacio do Patriarcha
103
Campo dos olivaes
104
Rio Tejo
Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe 9/9), Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
Na segunda metade do século XVIII quatro factos em Lisboa atraíram a atenção de artistas, para assunto das suas estampas. Foram eles:
Aqueduto das águas livres, vista a montante dos arcos, século XIX.
Imagem: Turismo Matemático
a) — "O Aqueduto das Águas Livres". Esta obra deu origem a uma gravura em cobre, de autor desconhecido, que representa a "Exzata Copia da formatura dos Arcos da Agua Livre", e a outras.
Aqueduto das águas livres, ponte e ribeira de Alcântara, século XIX.
Imagem: Cabral Moncada Leilões
b) — "A Catástrofe do Terremoto do Primeiro de Novembro de 1755" impressionou consideravelmente a imaginação de muitos artistas estrangeiros, que gravaram grande número de estampas, alegóricas umas, e outras representando a cidade durante o cataclismo, as quais foram decalcadas sobre vistas panorâmicas já conhecidas, em que os diferentes artistas representaram os edifícios a desconjuntarem-se e a desmoronarem-se, com o fogo a irromper por todos os lados.
Todas essas vistas dão bem a medida da fecunda imaginação e fantasia dos seus autores!
Lisboa 1755, fantasia de antes e durante o terremoto, Mateus Sautter.
Imagem: Histórias com História
Apenas dois desenhadores franceses, Paris e Pedegache, vieram a esta cidade copiar "algumas ruinas de Lisboa causadas pelo terremoto e pelo fogo do primeiro de Novembro do anno 1755", que foram gravadas em Paris por Jac. Ph. Le Bas em 1757.
Ruínas da Torre de S Roque ou Torre do Patriarca, Sé de Lisboa e Igreja de S. Paulo, Jacques-Philippe Le Bas, 1755.
Imagem: Cabral Moncada Leilões
É uma colecção de 6 gravuras. Com o respectivo frontispício, que mostram bastante fantasiosamente o estado a que ficaram reduzidos seis edifícios da cidade por efeito daquele cataclismo.
Ruínas da Praça da Patriarcal, Igreja de S. Nicolau e Ópera do Tejo, Jacques-Philippe Le Bas, 1755.
Imagem: Cabral Moncada Leilões
Além desta colecção de Le Bas, um musico de Augsburgo, Johan Michael Roth, coligiu as matrizes de cobre, e editou uma obra: "Augsburgische Sammlung derer wegen des höchstbetrübten Untergangs der Stadt Lissabon", etc. que contém, além de varios mapas e vistas das cidades de Portugal, Espanha e outras, algumas gravuras que haviam sido publicadas sobre o terremoto de 1755, sucedido em Lisboa e noutras terras.
Lisboa, Terremoto de 1755, ex voto dedicado a Nossa Senhora da Estrela.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa
A medalhística também foi enriquecida com algumas medalhas cunhadas com vistas em baixo relevo da cidade a desmoronar e a incendiar-se durante o terremoto.
Apenas um artista português é que, sobre o terremoto de Lisboa, produziu uma vista iconográfica: consiste ela num quadro a óleo, devido ao pincel de João Armando Glama Ströberle, e representa uma cena de desolação junto às ruinas da desaparecida Igreja de Santa Catarina. Está no Museu de Arte Antiga.
Alegoria ao Terremoto de 1755, João Glama Strobërle (1708–1792).
Imagem: Wikipédia
Quanto ao terremoto de 1755, e à descrição dos lugares e estragos por ele provocados, mencionaremos a Panorâmica de Lisboa em 1763 de Bernardo de Caula, conforme abordagem que fizemos em janeiro de 2015.
Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe), Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
c) — "O atentado contra D. José e a Execução dos indigitados criminosos" foi objecto de várias gravuras em cobre, nacionais e estrangeiras.
"Desta forma morreram justiçados...", retrato simbólico do acto da execução dos Távoras.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
d) — O "Monumento de D. José e a Praça do Comércio", onde ele foi erigido, também desde antes da sua inauguração serviram de assunto para gravadores.
Alçado lateral do projecto da estátua equestre de D. José I.
Eugénio dos Santos e Carvalho.
Imagem: ComJeitoeArte
A primeira gravura do monumento foi aberta em cobre para uma estampa não assinada, que serviu de modelo para o desenho estampado nos aparelhos de louça que o Marquês de Pombal mandou fazer na China para servirem no banquete que se efectuou por ocasião da inauguração do monumento.
Pouco depois foram gravadas duas estampas da Praça com o Monumento, devidas ao buril de Gaspar Fróis Machado, que foram reproduzidas por artistas anónimos no mesmo século.
Praça do Comércio, projecto Eugénio dos Santos, gravura de Fróis Machado (?), século XVIII, reprodução anacrónica.
Imagem: Bic Laranja
A Joaquim Carneiro da Silva se deve uma gravura da "Estátua Equestre de D. José", depois reproduzida, em menor escala, por Gaspar Fróis Machado, que também gravou uma "Vista da Torre de Belém, P.° Lx.a" em 1783.
Em 1767 foi pintado pelos pintores franceses L. Michel Vanloo e C. Joseph Vernet um quadro a óleo, comemorativo dos principais actos da administração do Marquês de Pombal, com o retrato do mesmo.
Marquês de Pombal, Louis-Michel van Loo e Claude-Joseph Vernet, 1767.
Imagem: Oeiras com História
Esta excelente pintura esteve no palácio dos Marqueses de Pombal em Oeiras, e acha-se hoje numa sala da Câmara Municipal da mesma vila.
Foi objecto de uma gravura de J. Beauvarlet, sobre desenho de A. J. Padrão e J. S. Carpinetti., em 1767, mais tarde reproduzida em vários formatos e por quase todos os processos conhecidos.
Nesta segunda metade do século ainda a maioria dos artistas que tomaram a cidade de Lisboa ou os seus edifícios para assunto dos seus trabalhos eram estrangeiros, e pouco mais de meia dúzia de nomes de nacionais se podem mencionar.
No último quartel do século XVIII, ainda como consequência do impulso dado pelo Marquês de Pombal a todos os ramos de ensino, originou-se em Portugal uma nova renascença artística.
Do estrangeiro vieram artistas arquitectos, escultores, gravadores; artistas portugueses foram estudar a Itália; e deste intercâmbio resultou uma maravilhosa criação de artistas nacionais.
Os pintores Domingos António de Sequeira (1768-1837), Francisco Vieira Portuense (1765-1805) e João Glama Ströberle (1708-1792) [v. acima], os gravadores Joaquim Carneiro da Silva (1727-1818), Gaspar Fróis Machado (1759-1796) e Francisco Vieira Lusitano, o arquitecto José da Costa e Silva, os escultores Joaquim Machado de Castro e João José de Aguiar, e tantos outros, podem pôr-se em confronto com os melhores que havia no estrangeiro.
Sopa de Arroios, população portuguesa deslocada durante a Guerra Peninsular, 1813,
des. Domingos António de Sequeira, grav. Gregório Francisco de Queiroz.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
A estes artistas devemos acrescentar o nome de Francesco Bartolozzi [1728-1815], que gravou em cobre uma estampa alusiva ao epicurismo, tendo ao fundo o Aqueduto das Águas Livres. No século XIX há outras estampas deste artista sobre assuntos olisiponenses.
No que respeita, porém, a estampas de Lisboa, poucas, mas excelentes, se produziram no final do referido século, tanto nacionais como estrangeiras. (1)
(1) Vieira da Siva, Augusto, Iconografia de Lisboa, Revista Municipal n.° 32, Câmara Municipal de Lisboa, 1947