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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Josepha Greno: flores e fructos

E agora regosigemos os olhos com variegadas flores que vivem numas deliciosas télas, pintadas pela Ex.ma Sr.a D. Josepha Garcia Greno, uma hespanhola que esposou um portuguez, o sr. Greno. 

Retrato de Josefa Greno (detalhe), Adolfo Cesár Medeiros Greno, 1887.
Imagem: DezenoveVinte

Um casal de artistas. Sem rivalidades. Casados para o amor e para a arte.

Ella cultivando as flores dos seus quadros, que nascem debaixo do seu pincel, com espontaneidade, com collorído, com viveza e graça natural, numas composições imprevistas, como "Um ninho de flores" e tantos outros quadros que reacendem o aroma das rosas e dos lilazes.

Elle cultivando o retrato com certa distincção, muito principalmente no de M.lle Nascimento, uma cabeça primorosamente pintada, com frescura, suave, destacando-se do fundo, sem dureza, muito melhor que "Las Pritaneras", urna hespanhola que, sentada nos degraus da sua porta, entre uns vasos de flores, dedilha na viola com a qual se não sente á vontade, numa posição a que mostra estar pouco habituada, e que o redondo do desenho torna ainda mais sensível, alem da prespectiva não iludir o suficiente para que a figura se despegue do fundo. (1)

Soirée chez lui ou Concerto de amadores, Columbano, 1882.
Da esquerda para a direita: Maria Augusta Bordalo Pinheiro, Adolfo Greno, um cantor italiano, Josefa Greno e Artur Loureiro ao piano.
Imagem: MNAC

Greno gosta d'aformosear os seus esmerados estudos de figura, tratados pacientemente, e retoca as faces das pessoas retratadas com uns suaves tons roseos, que eu, por desventura minha, não estou afeito a ver por essas ruas e encruzilhadas nas caras innumeraveis dos tranzeuntes; todavia, aqui lhe confesso, effusivo e grato, que o antiquado candeeiro de latão amarello, com os tres bicos no bojo e a sua alta haste bandeirolada, introduzido solitariamente n'um dos seus quadros, provocou-me uma saudade saborosa das boas noites passadas no conchego acalentado e pacifico dos serões d'aldeia. 

A sr.a Josepha Garcia Greno expõe de novo as suas composições decorativas de fructas e flores, tão vigorosamente executadas; dentre ellas, destaco uma tela magnifica, em que se desmancha ao acaso um molhe espesso d'amores perfeitos; emquanto que outra pinturinha, archaica e alegre, com um ramo de rosas brancas recortadas em fino contorno sobre o fundo dourado, tem um bonito ar byzantino. (2)

Natureza morta, Josefa Greno.
Imagem: Palácio do Correio Velho

A ex.ma Sr.a D. Josepha Greno uma das mais distinctas artistas do nosso paiz expõe um grande numero de télas, a maior parte das quaes nos revelam a grande technica, certeza e felicidade de toque, de que é possuidora a illustre artista.

Os n.os 51, 52, 59, 61 e 67 são uma grande belleza de colorido e na verdade muito decorativos. O n.° 67 "Amores perfeitos", especialmente é muito primoroso.

Jarra com flores, Josefa Greno.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Alguns ha porém que gostamos menos; o n.° 56 "Malvaiscos" por exemplo é pouco cuidado; aqueles tons verdes são demasiado falsos e desagradaveis. N'este grupo incluiremos ainda o n.° 55 "Amores perfeitos", que temos de classificar de "pochade" pouco feliz. (3)

A sr.a D. Josefa Greno, sem apresentar nenhum trabalho comparavel ao "Melão francez" do anno passado, sustenta no entanto os seus creditos de eximia pintora de flores.

Vaso com rosas, Josefa Greno.
Imagem: Palácio do Correio Velho

Dos seus quadros são especialmente notaveis os "Malvaiscos e fructos", as "Rosas e despedidas de verão" e os "Fructos", tratados com a maestria que lhe é habitual; o "Cesto de rosas", de tonalidade delicada e composição muito feliz, e as "Estrellas do Egypto", tambem muito bonito de aspecto; e ainda as "Rosas" e as "Rosas e papoulas", de factura vigorosa e quentes de cor.

Vaso com flores, Josefa Greno.
Imagem: Palácio do Correio Velho

Das paisagens expostas pela mesma senhora, bastante inferiores ás suas flores, é ainda assim muito agradavel de aspecto a "Devesa do Cumulo", numa gamma delicada e branda. (4)

A sr.ª D. Josepha Garcia Greno [(1850-1902)] é uma artista festejada, muito conhecida pelos seus bellos quadros de flôres, e se as suas paisagens que este anno expõe se podessem medir com as flores que sabe pintar, teria augmentado consideravelmente os seus creditos de pintora.

Flores, Josefa Greno.
Imagem: Palácio do Correio Velho

Infelizmente não acontece assim e os seus quadros de paizagem deixam tanto a desejar como os seus quadros de flores satisfazem perfeitamente.

Flôres, illustre artista, é que deve pintar; estas agradecem-lhe muito mais os seus cuidados, dando-lhe mais triumphos como os que tem tido em outras exposições, onde as suas flores tem sido devidamente apreciadas, ainda que n'esta não foi tão feliz, talvez porque descurasse um pouco os seus "Lilazes", "Malvaiscos e Rozas" preoccupada com as "Margens do Agueda" e as "Margens do Vouga" que afinal a não compensaram condignamente.

Lilazes, Josefa Greno.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

De todos os quadros o que mais nos agradou foi o "Rosas e malmequeres". (5)

D. Josefa Greno anima a exposição com o fresco colorido das suas bellas flores. As — Papoulas — são uma gentileza. Em alguns outros quadros os fructos têem bastante perfeição e muita verdade. As composições são sempre graciosas, o desenho, em geral, bom e em todos os seus trabalhos se encontra alguma cousa mais que o correcto. — Preparos para o festim — é uma bonita composição, animada na sua insensibilidade, que é pena ter algumas imperfeições no desenho, e estarem pouco tratados os primeiros planos.

Esta senhora, uma verdadeira artista, cultiva amorosamente o genero a que se dedicou, e as suas télas offerecem sempre uma variedade e encanto seductores. (6)

Flores [Malmequeres e papoulas], Josefa Greno.
Imagem: Veritas art auctioneers

D. Josepha Greno espalha pelas salas profusamente, rosas, lilazes, papoulas, malmequeres e amores perfeitos, depois, entrando nos dominios de Pomona, offerece-nos morangos, cerejas e outros fructos apeteciveis, mas alguns d’estes trabalhos são menos felizes do que outros, anteriores, que lhe fizeram uma merecida reputação. (7)

Peónias, Josefa Greno.
Imagem: Um percurso pela pintura...

Foi assim que um dia d'estes a cidade toda se commoveu profundamente ao ter noticia da morte de Adolpho Greno assassinado a tiro de revolver por sua propria mulher, D. Josepha Greno, tão conhecida entre todos os que frequentam exposições de bellas artes pelos seus primorosos quadros de flores. 

Retrato de Josefa Greno por Adolfo Greno.
Imagem: MatrizNet

Tinham por amor casado ha muitos annos, julgava-os felizes quem de perto os não conhecia. Atribue-se o crime a loucura da mulher, que, ha muito, com ciumes atormentava o marido, já tendo ha meses, disparado sobre elle um tiro de revolver. 

E elle perdoara, e tão tranquilo vivia agora que, quando novamente ella desfechou sobre elle, uma d'estas madrugadas, quatro tiros d'outro revolver que comprara, o pobre Greno, dormia socegado, refazendo forças para mais um dia de trabalho.

Julgam-a doida e assim deve estar, nem é facil por outra forma explicar o sangue frio que mostrou nos primeiros instantes que decorreram depois tio assassinato, não querendo sahir de casa sem primeiro ter almoçado placidamente.

Entre Rosas, Josefa Greno.
Imagem: Branco e Negro, 17 de maio de 1897

Adolpho Greno, que nunca pela pintura conseguira alcançar nome ilustre, dedicava-se ultimamente á restauração de quadros velhos. Maior nomeada tinha entre os artistas a Sr.a D. Josepha Greno, sua esposa assassina.

Tragico fim d'um casal de artistas! (8) 


(1) O Occidente N.º 311, 11 de agosto de 1887
(2) O Occidente N.º 349, 1 de agosto de 1888
(3) O Occidente N.º 445, 1 de maio de 1891
(4) O Occidente N.º 481, 1 de maio de 1892
(5) O Occidente N.º 526, 1 de agosto de 1893
(6) Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (I), 1896
(7) Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (II), 1898
(8) O Occidente N.º 810, 30 de junho de 1901

Artigos relacionados:
Grupo do Leão (6.ª exposição, 1886)
Grupo do Leão (7.ª exposição, 1887)
Grupo do Leão (8.ª. exposição, 1888)

Mais informação:
Cabral Moncada Leilões
Palácio do Correio Velho, leilão 166
Palácio do Correio Velho, leilão 290
Greno, Josefa Garcia Saéz (MatrizNet)
Patrimónios pouco visíveis: as pintoras Josefa Greno (1850-1902) e Fanny Munró (1846-1926)
Expresso

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Bernardo de Sá Nogueira (1795-1876), Marquês de Sá da Bandeira

Desde muito moço vivi com homens dos mais notáveis da guerra civil entre D. Pedro e D. Miguel. Os acontecimentos estavam próximos ainda; vivas e sangrando, feridas de todo o género nos contendores de ambos os campos; mas em espiritos elevados as paixões haviam serenado.

General Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo (1795-1876), Marquês de Sá da Bandeira.
Imagem: Academia Militar

Das narrativas que ouvi aos parciaes dos dois lados me veia poder firmar linhas physionomicas de personagens que representaram na scena politica de uma epocha cuja historia, apesar de haver volumes sobre ella, ainda se não escreveu.

Para mim, de todos os homens do cerco do Porto, o mais heróico é Bernardo de Sá Nogueira, marquez de Sá.

A ultima vez que o vi jantámos juntos. Foi no dia 4 de agosto de 1873, em Cintra, em casa dos duques de Palmella. Fazia annos a sr.a duqueza.

Maria Luísa de Sousa Holstein (1841-1909) 3a Duquesa de Palmela.
Imagem: Geni

O velho soldado e grande cidadão fora saudar a nobilíssima fidalga, que allia, ao talento artístico, a flor mais perfumada de educação, e o dote de captivar quantos a conhecem, pelo poder irresistível e supremo da sympathia. Marquez de Sá prezava, havia muito, as qualidades moraes de finíssima tempera de António de Sampaio, duque de Palmella.

Algumas horas antes de jantar, no parque da casa de campo dos duques, marquez de Sá, marquez de Sabugosa, e eu, conversámos, ou antes, nós dois ouvimos o deus Marte da serra do Pilar, que, apesar de manco, tantas vezes acutilado, uma vez quasi enterrado vivo, e já próximo dos 80, parecia ter o animo e vigor da mocidade. Contou algumas anecdotas engraçadas, e, como prologo, disse:

"Agora, quando vejo nos jornaes noticia de coisa triste, não leio."

Estas palavras tão simples deram-me mais uma nota das cordas d'aquelle coração.

O homem que presenceara tragedias pavorosas; que elle próprio curtira dores cruelissimas de todo o género; a dois passos do tumulo, ainda se commovia com os infortúnios alheios!

Busto em màrmore do Marquês de Sá da Bandeira (c. 1870), inaugurado na Sociedade de Geografia de LIsboa em 1909, detalhe de fotografia de Francesco Rocchini tomada no atelier da 3a Duquesa de Palmela Maria Luísa de Sousa Holstein.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Falou também do cerco do Porto, narrando grandes actos de abnegação e intrepidez, que lá se praticaram, sem por sombras alludir ao seu nome. E foi no Porto, depois do funesto desbarato da Gandra de Souto Redondo, que elle praticou uma acção, que adeante referirei, acção que não tem rival vencedora nas mais nobres da historia.

Simão José da Luz Soriano narra o facto com a sua chateza habitual. Eu ouvio-o da bôcca dos homens d'aquelle tempo, e nenhum o contava sem commoção.

O auctor do cerco do Porto, trabalhador incansável, honra lhe seja, dá a noticia exacta e impreterível para a historia d'aquella epocha; foi testemunha de muitas scenas; é sincero, mas não vê senão a superfície das coisas; desconhece os homens ou não tem olhos para os observar ou está longe dos meneios diplomáticos; não falseia, mas amesquinha actos de heroicidade, ou porque os não comprehende, ou porque lhe são antipathicos aquelles que os praticaram; respira no circulo estreito dos seus parciaes [v. História do cerco do Porto... vol. I e História do cerco do Porto... vol. II]

As Festas da Liberdade no Porto — Veteranos da Liberdade que tomaram parte no préstito in O Occidente, 1883.
Imagem: Hemeroteca Digital

A falta de recursos como escriptor, ora o leva á confusão e obscuridade, ora a infatuar, sem intenção malévola, a verdade das coisas. 

Saldanha, cujos defeitos como politico por tantas vezes temos censurado no decurso d'estas "Memorias", teve no Porto esses defeitos, que lhe estavam no sangue e o acompanharam até á morte, mas representou um papel eminente e brilhantíssimo, desde a defesa da "Frecha dos mortos", até que abateu os lauréis orgulhosos da vencedor de Argel.

Luz Soriano acurta-lhe a estatura.

De Mousinho da Silveira, alma da revolução, como não pôde encarar o minimo relâmpago d'aquelle cérebro genial, diz, inconscientemente, o que diria um gazetilheiro, d'esses a que os francezes appellidara de "fulicularios", assalariado para o insultar.

Palmella é também injustamente apreciado. Faz pena que um escriptor brilhante, que já não vive, deixasse correr, propositadamente, os juizos fúteis, acanhados, e por vezes empeçonhados, do animo miudinho e cabeça apoucada de Simão Soriano.

Varias injustiças do auctor do cerco do Porto já estão corrigidas, pela rispidez dos factos, em algumas correspondências diplomáticas, na "Historia das Côrtes Geraes", e ainda nos volumes de J. da Silva Carvalho, "O meu tempo", importantíssima collecção de documentos para a historia politica d'este século em Portugal, publicados e annotados por seu neto, A. Vianna.

Antes de narrarmos os factos mais importantes da vida do marquez de Sá, dêmos, em dois traços apenas, a biographia do aventureiro soldado.

Tinha mais seis annos do que o século (1795); aos quinze sentava praça no regimento de cavallaria 11. Até 1814 bateu-se sempre. N'esse anno (13 de março), explorando a estrada de Tarbes, é envolvido pelo inimigo, acutilado, cae por morto no campo de Vielle, passa-lhe por cima um esquadrão. Prisioneiro dos francezes, restabelece-se, mas fica surdo para o resto da vida.

Termina a guerra, embainha a espada, matricula-se em Coimbra, fórma-se em mathematica. É uma linha recta no caminho da honra, aquella vida!

De 1826 a 1827 bate-se sempre. Em 1828 continua a combater. Rejeita o camarote no Belfast, offerecido pelo duque de Palmella, para salvar da forca a cabeça de Cesar Vasconcellos e levar os seus soldados até á Galliza.

Pedro de Sousa Holstein, 1° Duque de Palmela, por Domingos Sequeira.
Imagem: Wikipédia

Essa retirada foi digna de ser escripta pelo punho de Thucydides.

Em Hespanha dá-se o celebre dialogo entre elle e o façanhoso official.

Soriano narra o facto; mas eu prefiro a versão das "Lendas de Santarém", do meu velho amigo Zeferino Brandão, por apresentar testemunha de grande valor.

Haverá bastantes leitores que não conheçam este passo.

O coronel de milícias hespanhol, D. Manuel Ignacio Pereira, á frente da sua tropa, tratou com grande rudeza Bernardo de Sá. Este, sereno, queixou-se de que tivessem feito fogo sobre o seu acampamento.

— Eso merecen ustedes, replicou o hespanhol, porque son ustedes rebeldes y criminosos.
— Rebeldes y criminosos son esos que os siguen, atalhou Sá Nogueira.
— Y se atreve v. a hablarme com esa altaneria?
— Yo le hablo a v. de la misma manera que V. me habla.
— V. me habla asi en cuanto no le cuerto la cabeza.
— Y V. me habla asi porque no tengo mi espada a mi lado.

O coronel arrancou da espada e mandou calar baioneta aos soldados. Bernardo de Sá cruzou os braços, e disse-lhe com o máximo desprezo:

— Es una cosa gloriosa el sacar la espada contra un hombre desarmado!

Os officiaes hespanhoes tiveram mão no covarde sanguinário, clamando-lhe que não deshonrasse o exercito do seu paiz com um infame assassínio.

A testemunha presencial, que o meu amigo Zeferino Brandão teve para a sua narrativa, foi, nem mais, nem menos, de que o marquez de Thomar, em cuja casa Zeferino era recebido pelo marquez e seu filho, actual conde de Thomar [vivia quando isto se escreveu].

Nas aguas dos Açores (1829) deu-se um caso com Bernardo de Sá e seu irmão José, caso que escapou á phantasia de todos os auctores de romances enredados e tenebrosos.

Ambos haviam partido de Inglaterra n'um brigue que devia deital-os na Ilha Terceira. A principal carga do barco era carvão de pedra. O commandane, excellente homem, prevendo algum mau encontro, mandou abrir no carvão uma cova, onde coubessem, a custo, dois homens. Não mentira o coração presago do solicito lobo do mar.

Quando faziam proa para a Angra, o cruzeiro miguelista cahiu sobre o brigue, julgando-o boa presa. Bernardo de Sá e o irmão foram para a sua cova. Não podiam mover-se, nem sequer levantar a cabeça. Treva profunda! Correram oito dias esplendidos para o tenebroso "Inferno" de Dante!

Ancorados em S. Miguel, o brigue ia ser descarregado. José de Sá, bravo como um cavalleiro andante, disse para o irmão:

— Se fôr descoberto atiro -me ao mar.

— O peor que te pôde succeder, observou-lhe Bernardo de Sá, é enforcarem-te. Não vejo necessidade de poupares esse trabalho ao incumbido da execução.

Estavam perdidos, quando a Providencia, encarnada n'um homem de coração, o cônsul inglez William Harding Read, pae do meu querido amigo Guilherme Read Cabral, com auxilio do bravo capitão, os salvou.

Quando comecei a gizar as feições do marquez de Sá referi-me a um acto da sua vida, dizendo que não conhecia no sangue frio e na abnegação nenhum mais elevado. Vou narral-o como o ouvi da bôcca dos homens d'aquelle tempo. O facto, em si, é notório. A noticia de Soriano, exacta no fundo, é contada a seu modo, e isso basta para lhe tirar toda a elevação.

Álvaro Xavier da Fonseca Coutinho e Povoas era um general; cabeça bem organisada e fecunda em planos. Os exaltados do partido absolutista não podiam com elle, porque em 1828, pela sua humanidade, não levara os vencidos á forca. 

Deviam de ter sido, n'esse momento, pavorosos os morticínios da vindicta sanhuda e cruel dos vencedores, que tinham como sinistra inspiradora Carlota Joaquina, mulher radicalmente má. Todavia Povoas impunha-se-Ihes, como agora se diz, a torto e a direito, quasi sempre a torto, pela sua incontestável superioridade.

Conde de Villa-Flôr, depois duque da Terceira, valente como leão, não tinha nem a prudência, nem o alcance impreteriveis nos cabos de guerra.

No dia 7 de agosto (1832) atacou o inimigo, e na primeira refrega levou-o de vencida. O coronel do 10, Pacheco, que, segundo a opinião dos homens como Saldanha, tinha capacidade para vir a ser general de primeira ordem, receando do modo por que Villa-Flôr dispuzera as coisas, poz em reserva o seu regimento. Essa previsão fez com que lograsse cobrir a retirada desordenada e medonha. 

Os constitucionaes avançaram com a intrepidez desenganada de homens que jogam a cabeça. Ás 11 da manhã o imperador recebia participação auspiciando a victoria como certa. De facto, nas primeiras arrancadas, os soldados do Mindello levavam a melhor. Povoas, porém, era homem de guerra e conseguiu attrahir os aggressores á própria Gandra de Souto Redondo.

O ataque fora desastradamente planeado. Povoas, n'um movimento acertado e rápido, mandou carregar á baioneta o regimento de infanteria de Bragança, gente escolhida, flanqueado pela cavallaria. Os constitucionaes foram como apanhados de improviso e em linha.

Começou o pânico, que o grito de alarma de um capitão de caçadores converteu em completa debandada. Então o coronel Pacheco, cobrindo a retirada, salvou o Porto, que esteve por um fio n'esse dia!

D. Pedro IV, no seu palácio dos Carrancas, depois da participação que de manhã recebera, esfregava as mãos, tendo a victoria como certa.

Bernardo de Sá estava com elle, quando o marquez de Loulé chegou de improviso. O marquez vinha extremamente pallido, e, apesar do seu caracter frio, tão commovido que nos primeiros momentos não poude proferir palavra.

Nuno J. S. de M. R. de M. Barreto (1804-1875), 1.° duque de Loulé.
Imagem: Wikipédia

D. Nuno José Severo de Mendoça Rolim de Moura Barreto, 24,° senhor da Azambuja, 3.° conde da Azambuja, 9.° conde de Valle de Reis, 2° marquez de Loulé e 1.° duque de Loulé, casara com uma irmã do imperador, a infanta D. Anna de Jesus Maria.

Na epocha a que nos referimos tinha os annos incompletos e era tal belleza de homem que na Grécia poderia servir de modelo a um estatuário genial! Quando entrou a tomar alentos, narrou o funesto desbarato. Fora completo. Povoas perseguia os fugitivos e a entrada na cidade parecia inevitável.

O imperador, incontestavelmente bravo, tremia como vara verde. Então ergueu-se Bernardo de Sá e disse para D. Pedro:

"Senhor, Povoas é um general. Basta que mande dois esquadrões carregar o inimigo para apossar-se do alto da Bandeira, tomar a vanguarda aos fugitivos e aprisionar desde o general ao ultimo soldado. No aperto em que estamos é preciso, único recurso, que Vossa Magestade, com toda a gente que temos no Porto, embarque nos navios que ahi estão. A difficuldade consiste em realisar o embarque em presença do inimigo triumphante; mas para o defender me offereço eu, dando-me Vossa Magestade trezentos homens escolhidos."

— E o Bernardo de Sá? disse o imperador enfiado.
— Isso é commigo, senhor, respondeu serenamente aquelle intrépido coração!

Era com elle, coitado, era... que o fuzilavam em 24 horas, se o não enforcassem!

O duque de Bragança, altivo, mas generoso, não poude conter as lagrimas que lhe rebentaram dos olhos aos borbotões, e, apertando a mão de Bernardo de Sá, disse-lhe:

— Obrigado, meu amigo!

D. Pedro afivelou o cinturão e, sahiu com os que tinha em volta de si. Povoas, como que não querendo acreditar na demasiada fortuna ou arreceando-se de alguma cilada, ou finalmente por outros motivos que ficaram sempre na sombra, não perseguiu os fugitivos, cuja retirada, com prudência e valor excepcionaes, ia protegendo Pacheco, á frente do 10 de infanteria, regimento que nos humbraes de pedra da porta do seu quartel da Graça tinha gravadas as gloriosas datas dos seus repetidos feitos. 

Quando já levantado o cerco, cahiu com uma bala perdida, que lhe deu na cabeça, o laureado coronel.

Desastrado e obscuro fim de tão brilhante soldado!

Vista da Serra do Pilar.Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

No dia 8 de setembro, no Alto da Bandeira, Bernardo de Sá teve o braço direito partido por uma bala. Continuou a combater. Durante a amputação não soltou um gemido. Vinte dias depois montava a cavallo, e o braço esquerdo não brandia a espada com menos valor.

Proseguiu na carreira coruscante. Por vezes applicou rigorosos castigos, sempre com a máxima justiça. Habituado desde os quinze annos ao campo das batalhas, via impassivel medonhas carnificinas. Não raro, nos arrebatamentos da sua terrível valentia, era temerário cruel como o foi na serra do Algarve; mas tinha coração profundamente humano. 

Em 1838, sendo presidente de ministros, dia de Corpo de Deus, defendia a porta de escada onde se haviam refugiado José da Silva Carvalho e António Bernardo da Costa Cabral. Um sicário atirou-lhe uma baionetada ao peito: a commenda da Torre e Espada serviu-lhe de broquel. Correram sobre o assassino, para o acabar. Sá da Bandeira acudiu-lhe, bradando:
— Larguem esse homem, que não foi elle. 

Na revolução da Maria da Fonte, em Valle Passos, Bernardo de Sá mandou entrar em fogo um regimento:

— "Passou-se para o inimigo."
Ordenou que outro carregasse: 
— "Passou-se para o inimigo." Restava o terceiro.
— "Que avance."
— "Passou-se para o inimigo."

— "Então vamo-nos embora, meus senhores."

Não sei commentar. Esta simplicidade seria para o pulso de Shakespeare dar o ultimo toque no retrato de um estóico, quando o estóico fosse um heroe!

Ao terminarem com a Regeneração as luctas civis, que foram como constante resaca dos mares da revolução liberal, os olhos do marquez de Sá — continuaremos agora a dar-lhe este titulo, comquanto o não tivesse ao tempo — voltaram-se para a Africa. 

Chamaram-lhe visionário, já se vê. A inveja, que se dá em todo o terreno, mas que feracissimo o encontra na mediocridade, appellidava-o de utopista, testudo e allucinado. A geração que lhe suecedeu saudou-lhe a profícua iniciativa, e ahi estão hoje os aventureiros das armas e os do commercio, não menos úteis e valorosos estes, a perlustrajr essas regiões, que se o nosso temperamento não levar o amor pela Africa até á cegueira, principalmente com jactâncias fumosas de dominação, nos promettem largo e prospero futuro.

Sorriam-lhe a alma e os olhos ao marquez de Sá quando lhe falavam nas colónias. Essa paixão o distrahia da triste preoccupação que lhe dava o caminho que as coisas iam levando. 

Emquanto viveu D. Pedro V, o marquez não desanimou. Votava-lhe, com a admiração, affecto paternal. O nobre e sympathico príncipe pagava-lhe com egual extremo.

Quando o marquez de Sá, sendo ministro, cahiu gravemente enfermo (1859), D. Pedro V firmou-lhe n'uma carta singular a ultima consideração que tributava áquelle que offerecera a vida para salvar seu avô. A carta é conhecida; muitos haverá, porém, que a não lessem, e tem cabido logar n'estas paginas.

"Meu caro visconde. 

— Recebi, por seu irmão, a carta em que me participa a impossibilidade absoluta de continuar a gerir os negócios das duas repartições, que lhe commetti com uma confiança que nunca foi trahida.

Transmitto-a ao marquez de Loulé, que me proporá o meio de sahir do embaraço em que vem collocal-o a declaração official de um facto que o visconde se pode honrar de que não influísse, tanto quanto era natural, na marcha dos negocios.

Ao acceitar a resignação de um poder, que eu não podia desejar em mãos nem mais fieis, nem mais votadas ao bem do paiz e á honra do soberano, seja-me permittido exprimir-lhe, e sinceramente, o dobrado pezar que tenho do facto e das causas que o determinam.

Nos três annos que servimos juntos, divergimos algumas vezes de opinião: fizemol-o como devem fazêl-o um soberano e um ministro constitucionaes; quer dizer, discutindo livremente, e sem nos entrincheirarmos, como muitos fazem, atraz da nossa auctoridade, ou das formulas particulares da nossa diversíssima responsabilidade. Nunca abrimos, pelo menos todas as minhas lembranças me levam a crêl-o, nenhuma d'essas feridas da alma que se dissimulam e não se esquecem.

Retrato do rei D. Pedro V em 1859.
Imagem: Histórias com História

Por isso nos despedimos com eguaes sentimentos, e quer-me parecer que com pezar egual.

É que o visconde conservava no poder todas as excellencias, e, deixe-me dizer, toda a originalidade do seu caracter, toda a desprevenção da sua intelligencia. Foi ministro e nunca foi ministro. Resta-me ao lado do sentimento da perda, e da difficuldade da substituição, a confiança de que a desoneração de um trabalho, que ajudava a extenuar-lhe as forças, pode contribuir para o seu restabelecimento.

Acompanham-o na sua ausência estes votos, os quaes conto renovar-lhe pessoalmente antes da sua partida.

Creia-me, meu caro visconde, seu muito affeiçoado.

— D. Pedro V.

Lisboa, 12 de março de 1859."

Tinha 22 annos quando escrevia esta carta, que, além da elevação do pensar e sentir, tem a forma onde ha períodos que, pela concisão elegante, parecem de A. Herculano.

A 6 de janeiro de 1876 morria o marquez de Sá.

Lisboa, Praça de D. Luiz e monumento ao Marquez de Sá da Bandeira, c. 1900.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Fui incumbido pela Segunda classe da Academia Real das Sciencias de represental-a no enterro do exemplar e austero cidadão.
Em Santa Apolónia encontrei-me com o marquez de Sabugosa. Estava um dos nossos dias de inverno deslumbradores. Se podessemos vender alguns d'esses dias, por anno, á nevoenta cidade de Londres, em breve teríamos os inglezes como nossos submissos devedores!

Quando chegámos á estação de Santarém demos logo com Alexandre Herculano, que lhe transpareceu no rosto a satisfação de nos ver.

Estava commovido. Havia muitos annos era intimo do marquez de Sá.

Jardim da Praça Dom Luís e monumento ao Marquês de Sá da Bandeira, fotografia de Paulo Guedes.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Sobre a tarde, á sombra da nogueira que plantara e onde a Nympha de Ovidio soltaria dolorosos carmes, ia descançar finalmente o lidador aventureiro. Cahia o sol, atirando as frechas no occaso por aquella paizagem encantadora, onde os freixos rumorosos e frondeados são dos mais bellos da Europa, e o rio corta a campina, divertindo os seus regatos crystallinos pelas hortas e pomares.

Era já muito noite quando chegámos a Valle de Lobos. O jantar correu pouco animado. Herculano olhava pensativo para a labareda serena e azulada dos toros de oliveira que ardiam no fogão. 

Depois animou-se, e falando sobre o marquez de Sá e sobre a historia da nossa vida politica e social, no percurso dos últimos quarenta annos, esteve grandioso, porque Herculano, não tendo peito para orador nos grandes auditórios, era soberbo, e era certo género sem rival, na conversação intima.


Pouco mais de anno e meio depois, n'aquella mesma casa, o marquez de Sabugosa e eu viamos apagar-se a luz faiscante e guiadora que nos illuminara nos dias alegres e fecundos da nossa mocidade! (1)


(1) Bulhão Pato, Memórias Vol. III..., Lisboa, Typ. da Academia Real das Sciencias, 1907

Leitura relacionada:
Resenha das familias titulares do reino de Portugal, Lisboa, IN, 1838
Marquês de Sá da Bandeira e o seu Tempo
André do Canto e Castro, Marquês de Sá da Bandeira..., Lisboa, E. E. Carvalho & Cia., 1876
Luz Soriano, Vida do marquez de Sá da Bandeira... Tomo II, 1888
Luz Soriano, História do cerco do Porto... vol. I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1846
Luz Soriano, História do cerco do Porto... vol. II, Lisboa, Imprensa Nacional, 1849
Henrique Barros Gomes, O monumento do general marquez de Sá da Bandeira...,, 1884

Obra escrita pelo Marquês de Sá da Bandeira:
Visconde de Sá da Bandeira, O trafico da escravatura, e o bill de lord Palmerston, 1840
Viscount de Sá da Bandeira, The slave trade and Lord Palmerston's bill, 1840
Marquez de Sá da Bandeira, Memoria sobre as fortificações de Lisboa, Lisboa, IN, 1866

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

História do Marechal Saldanha (1790-1876): Lutas Civis

Constituída em 1834 a liberdade da nação portugueza para nunca mais perecer, começava a pratica das instituições, imperfeita no desenvolvimento como obra humana, mas civilisadora na missão e progressista nos resultados. 

Retrato de D. Pedro IV (detalhe), John Simpson, após 1834 (MNSR).
Imagem: Parques de Sintra

Só a escravidão politica é isenta de imperfeições nos seus mechanicos movimentos, que obedecem à lei de uma só vontade, imposta a um rebanho de seres, não a uma sociedade de homens. 

Dividiu-se a gente liberal [v. A Belemzada, Lisboa 1836]. 

Retrato de D. Maria II (detalhe), John Simpson, c. 1837.
Imagem: Wikipédia

Entendiam uns que, n'aquelle tempo, a Carta Constitucional continha a totalidade das liberdades necessárias ao progresso da nação e ás regalias dos cidadãos, receiando que o ultrapassar os limites d'ella abrisse para as mesmas liberdades os perigos de 1820.

Não concordavam outros no receio, e opinavam por constituição mais larga. Estes se appellidaram setembristas, porque, logo dois annos depois, em setembro de 1836, conseguiram levantar na capital o grito da revolução que logrou a victoria [v. O partido setembrista, Lisboa 1836].

Receberam o nome de cartistas os que perfilharam a idéa contraria. D'esta divisão se originou a serie de revoluções durante quinze annos a que veiu pôr termo a regeneração em 1851 [...]

Victoriosa em Lisboa a revolução de setembro que tinha por chefe a Passos Manuel, jurada pela rainha m a constituição de 1823 com as alteraçoeg que um fur toro congresso lhe introduzisse, tentaram resistir os cartistas [v. Manoel da Silva Passos, Lisboa 1836].

Manuel da Silva Passos (1801-1862) 01.jpg
Imagem: issuu

Nenhum dos dois marechaes tinha prestado juramento á nova ordem de cousas, e Saldanha escrevendo ao ministro da guerra, declarava que assim procedia para se reservar a faculdade de a combater.

Vila da Ponte da Barca, 1864.
Imagem: Hemeroteca Digital

A 12 de julho de 1837 insurgia-se um batalhão de caçadores na villa da Barca, e em differentes pontos do reino rebentavam outros levantamentos [...] (1)

*
*     *

No dia 22 de dezembro de 1846 deu-se a batalha de Torres Vedras.

Torres Vedras.
Historical military picturesque... George Landmann.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Duque de Saldanha tomara o pulso á revolução. Era de facto uma revolução popular de sangue vivo do paiz e com homens á sua frente: Sá da Bandeira, conde das Antas, conde de Bomfim e o velho general Álvaro Xavier Coutinho da Fonseca e Póvoas, soldado portuguez de que elle, Saldanha, mais se arreceava.

Póvoas provou-lhe bem quanto valia nos desfiladeiros, valles e chapadas da Serra da Estrella.

Decorrido mais de meio século de paz podre, não se calcula hoje o que eram as paixões politicas d'aquelle tempo. Estou convencido, como já disse por vezes no percurso d'estas Memorias, que o medo d'essas paixões, que tinham rompido nos maiores ímpetos dez annos antes nos dias torvos da Revolução de Setembro e da Belemzada, é que levou os caudilhos da Maria da Fonte a ter mão n'um golpe decisivo, golpe que, sem abalar as instituições, poria em grave risco a coroa de D. Maria II.

Voltarei a este assumpto.

No dia 22 de dezembro de 1846 o duque de Saldanha achava-se porventura na situação mais difficil de toda a sua longa e brilhante carreira militar.

Na frente — Torres Vedras — estava o conde de Bomfim com a divisão onde havia soldados escolhidos, officiaes intelligentes e bravíssimos, tendo por chefe do estado maior nem mais nem menos do que Luiz Mousinho de Albuquerque [...]

Torres Vedras from the North-West.
Historical military picturesque... George Landmann.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Conde de Bomfim, comquanto a sorte nem sempre lhe fosse propicia no campo da batalha, era destemido e general illustrado.

A lenda do confessionário e da bandeira preta seria irrisória se nâo tivesse o fel da calumnia [segundo Oliveira Martins, baseado em João de Azevedo, Os dois dias de Outubro, ou a história da prerrogativa, "dizem que ao começar a batalha o pobre general sempre infeliz se escondera numa igreja, metido num confessionário, com uma bandeira preta cravada no telhado a indicar um hospital de sangue"].

Na rectaguarda, a dois passos, Saldanha tinha em Tagarro, Alcoentre, Cercal, o conde das Antas, "que o podia e devia entalar a cada momento contra as posições invencíveis de Torres Vedras".

Os rapazes da Maria da Fonte, rapazes e velhos, bateram-se com desenganada bravura. A matança foi terrível!

A batalha começou pelas onze da manhã. N'um relançar de olhos, Saldanha viu que a tomada do forte de S. Vicente era o ponto capital do assalto. O conde de Bomfim tinha lá dois mil homens da flor da sua gente.

O duque, esfregando as mãos (todos os homens de guerra teem o seu tique, o d'elle era este) bradou:

— A artilheria? 
— Ainda não chegou.
— Ximenes? 
— Marechal!
— O Sola que tome com a brigada o forte de S. Vicente á baioneta [...]

Torres Vedras, Morro do Castelo e Rio Sizandro.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Apesar da noite tormentosa, dos caminhos de Torres Vedras n'aquelle tempo, a noticia de Saldanha ter ganho a batalha chegou a Lisboa com espantosa rapidez.

Logo de manhã o aspecto da cidade tornara-se sepulcral. Nem os próprios vencedores se atreviam a manifestar as alegrias da victoria. Centenas de pessoas tinham nos dois campos parentes carnaes e amigos. Havia como que um cheiro a sangue e a morrão de enterro.

Mulheres, mães, irmãs, amantes, reviam no rosto contrahido pela anciosa incerteza alguma coisa da loucura, e, não raro, faziam perguntas desvairadas!

No crescer do dia chegavam ao hospital da Estrella os feridos, alguns moribundos.

Os grilhetas, a legião sombria d'aquelles desgraçados que andavam a dois e dois pelas ruas, atrellados como cães por grossas correntes, foram separados para serviço das macas.

Que préstito fúnebre [...]

A extrema anciedade que agitava a capital seguiu-se a apathia morna que sobrevem nas grandes catastrophes.

A chegada dos presos de Torres Vedras a Lisboa e a entrada d'elles nas presigangas [navios presídio] do Tejo augmentou ainda o tom mortuário da capital.

Uma necropole!

Quando algum raro dia d'aquelle tempestuoso inverno rutilava todo azul e oiro, faiscando na Tejo, illuminando os quintaes e as hortas da cidade, Lisboa era porventura mais triste. Ermas as ruas, desertas as praças, janellas cerradas.

Aqui e além ouviam-se as risadas crystallinas do rapazio desenfreado, com bandeiretas de farrapos, espadas de canna, divididos em dois bandos, simulando a batalha das vésperas e prenunciando as que deviam seguir-se.


As creanças a foliar no meio das grandes tragedias comprimem-nos amargamente o coração, porque nos lembram o durum genus, a ferocidade da origem humana!

Via-se a cada passo, não só a tristeza, mas a miséria impacta nas physionomias [...]

Os operários absolutamente sem trabalho, todos os géneros de primeira necessidade pela hora da morte; nenhuma transacção commercial.

Os empregados públicos, com muitos mezes de atraso, acudiam a rebater os ordenados por um desconto enorme.

Quantos d'esses empregados, que pertenciam a diversos batalhões, vi eu trazerem, em pleno dia, debaixo do braço, o pão de munição para o repartirem pela familia.

Supplemento Burlesco ao Patriota, 1847.
Imagem: Hemeroteca Digital

As notas do banco trocadas por menos de metade do seu valor; os cabos de policia deitando mão aos moços adolescentes, sem distincção de classe, para lhes sentarem praça no exercito da rainha.

Depois da batalha, como já disse, os próprios adversários não se atreviam a celebrar ruidosamente o enthusiasmo do triumpho.

Só a rainha não poude ter mão em si. Quando a guarda de honra chegou ás Necessidades, D. Maria II, abrindo com as próprias mãos a realenga sacada, na sua voz sonora e vibrante de jubilo, clamou:

— Victoria, rapazes!

Os cabellos, em saccarôlhas, fluctuavam ás refregas da quadra tempestuosa, as rosas da mocidade saltavam-lhe das faces accesas pela commoção da victoria. O que podem as paixões politicas!

Esta senhora, exemplo de esposa e de mãe, não se lembrava de tanta viuva e de tantos órfãos; de Mousinho de Albuquerque, gloria da pátria e amigo de seu pae nos dias da adversidade; do sangue fraterno que tingia a corrente arrebatada do Lisandro na força da invernia.


Torres Vedras, Rio Sizandro, Marques Abreu, c. 1900.
Imagem: Delcampe

Alguns cortezãos quizeram negar o facto, mas foram obrigados a engulir o impudor da lisonja, porque o facto teve por testemunhas centos de pessoas e uma d'ellas fui eu [...]

A inabalável dedicação á sua pessoa lh'a provaria o duque d'alli a cinco annos, na noite de 15 de maio de 1851, no theatro de S. Carlos, obrigando-a a tragar o boccado mais amargo de toda a sua vida, sacrifício que ella fez com senhoril e regia dignidade [v. A ditadura regeneradora de Saldanha ...] (2)

Marechal Saldanha, capa dos livros de Barbosa Cohen Entre duas revoluções 1848-1851, volumes I e II (detalhe).
Imagem: University of Toronto

*
*     *

Depois de 6 de outubro, Antas e Sá da Bandeira entraram na lucta, suppondo que a rainha fraqueasse vendo a altitude do paiz, e, sem o seu apoio, Costa Cabral baqueava para sempre do poder.

Com Saldanha tornava-se fácil qualquer accordo, voltivolo e malleavel como sempre foi em politica. A coisa, porém, mudava de aspecto.

O Espectro n° 49, 18 de maio de 1847.
Imagem: Hemeroteca Digital

O sangue accendeu as paixões, e a tenacidade da rainha converteu a ira dos adversários em rancor entranhado. Se os da Junta entrassem em Lisboa, a soberana, antes de abdicar, teria de refugiar-se n'uma nau ingleza.

Como todos os homens da emigração e do Porto, Sá da Bandeira e Antas amavam D. Maria II. 

Entrada apenas na adolescência, intelligente, formosa, expatriada, uma creanca quasi, fora a estrella polar, ou, direi antes, a noiva immaculada e espiritual da grande revolução. Receavam que a democracia exaltada, na sua justa cólera, lhes abatesse o idolo!

Periclitavam acaso as instituições quando a rainha abdicasse?

Quem falava n'esse tempo em Republica, não digo só em Portugal, mas em toda a Peninsula? Além dos Pirineus, a revolução de 1848, movimento imprevisto e ephemero, ainda estava longe.

Incendie du Château-d'Eau, place du Palais royal, le 24 février 1848, Eugène Hagnauer.
Imagem: Pinterest

Para mim é fora de duvida que a Maria da Fonte não triumphou pela tibieza das espadas d'esses dois homens.

Os académicos apertavam com Sá da Bandeira. Queriam combater:

Somos jovens, livres somos,
Somos de mais portuguezes,
O dever nos chama á guerra,
Affrontemos seus revezes!

Chegou o dia 1 de maio de 1847. Dia luminoso de primavera. As primeiras frechas de sol batiam nas serranias do Alto do Viso.

Vista de Setúbal, fotografia n° 18 do Album pittoresco e artistico de Portugal.
Imagem: Biblioteca Nacional Digital Brasil

Quantos veriam aquelle sol pela derradeira vez!

Os clarins tocavam a alvorada no campo inimigo, e os académicos, na guarda avançada, trepavam o monte cantando:

Quando da pátria
Soa o clarim
Ninguém nos vence,
Morremos, sim!

Tiros das avançadas, crescer do fogo, calar baionetas; cavallos á carga ; troar dos canhões. Combate rápido, mas tigrino.

Castello-Branco, uma das nossas melhores espadas, aleijado da mão direita nos assaltos do Porto, matou com um tiro de pistola o Pancada, também um valente. Pancada era do campo de Sá da Bandeira; Castello-Branco do Vinhaes.

Galamba, o guerrilheiro, o dragão, acudiu a vingar o seu camarada, e decepou a cabeça de Castello-Branco com uma tremenda cutilada.

Fernando Mousinho, commandante dos académicos, que perdera o pae em Torres Vedras, cahia ás primeiras descargas, atravessado pelos peitos, como havia dez annos tombara no Chão da Feira com egual ferimento. Joaquim Guedes de Carvalho e Menezes, da casa dos condes da Costa, teve o braço partido por uma bala de fuzil. 

Os académicos deixaram cinco dos seus camaradas no monte ensanguentado. Dois d'elles fôram assassinados depois de prisioneiros.

Nas quebradas umbrosas do Alto do Viso quem, noite cerrada, vae subindo de Setúbal para Azeitão, lá descobre uma luz como estrella pallida, luz que vem de uma ermidinha onde os dois inimigos, Pancada e Castello-Branco, descançam abraçados na paz da morte [...]

Na tarde de 1 de maio de 1847 a aragem do sul trazia a Lisboa os echos do canhão do Sado.

Ao Terreiro do Paço, noite alta, chegavam as macas com os feridos, alguns moribundos.

Lisboa, Praça do Commercio, gravura de João Pedro Monteiro (1826-1853) c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Sangue em Torres Vedras, em Val-Passos, em Vianna do Alemtejo, nas ruas de Lisboa, no Alto do Viso! [...] (3)


(1) D. António da Costa, História do Marechal Saldanha, Tomo I, Lisboa, IN, 1879
(2) Bulhão Pato, Memórias Vol. III..., Lisboa, Typ. da Academia Real das Sciencias, 1907
(3) Bulhão Pato, Idem

Mais informação:
Marques Gomes, Luctas caseiras: Portugal de 1834 a 1851, Lisboa, Imprensa Nacional, 1894
Charles Napier, An account of the war in Portugal between don Pedro and don Miguel, 1836
John Smith Athelstane (Carnota), Memoirs of Field-Marshal the Duke de Saldanha I, 1880
John Smith Athelstane (Carnota), Memoirs of Field-Marshal the Duke de Saldanha II, 1880
Barbosa Cohen, Entre duas revoluções 1848-1851 I, Lisboa, Manuel Gomes, 1901
Barbosa Cohen, Entre duas revoluções 1848-1851 II, Lisboa, Manuel Gomes, 1902
Guerra Civil Portuguesa
Cronologia do Liberalismo

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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

História do Marechal Saldanha (1790-1876): na Campanha de Montevideu

De Lisboa se fez à vela Saldanha em 27 de julho de 1815 no navio Despique, e outros officiaes, entre elles o brigadeiro Sebastião Pinto, que viera trazer a ordem do governo para se organisar a expedição dos voluntários.

Entrada da baía e da cidade do Rio a partir do terraço do convento de Santo Antônio, Nicolas-Antoine Taunay, 1816.
Imagem: Museu Nacional de Belas Artes

Em hora propicia levantou ferro, depois, a expedição composta dos quatro mil oitocentos e trinta e um voluntários.

Ao Rio de Janeiro aportaram a cavallaria e a artilheria em princípios de novembro de 1815, e a infanteria a 4 de abril de 1816 com viagem de quarenta e quatro dias [...]

Longe nos levaria o historiar a minuciosa campanha de Montevideu, que durou cinco annos, de 1816 a 1821. Longa foi e cortada de obstáculos, por differentes circumstancias.

Revista na Praia Grande das tropas destinadas a Montevideu, Jean-Baptiste Debret.
Imagem: Google Arts & Culture

Primeiramente porque teve de ser feita em duas capitanias, dirigidas por dois generaes, e todos sabem as difficuldades que se originam do commando dividido.  Acrescia o modo diverso de peleja nos dois campos. Por ultimo, o systema das operações de Artigas, substituindo ás batalhas francas a ardilosa divisão das forças, contrariava a estrategia estabelecida [...]

A primeira brigada (de que formava parte o regimento conmiandado por Saldanha) fora encarregada dos movimentos exteriores da praça de Montevideu, pertencendo-lhe vigiar o inimigo nas circumvizinhanças da cidade, e defendel-a.

Sortidas importantes e proveitosas se realisaram. Em fins de janeiro de 1818 aguella primeira brigada foi rendida pela segunda brigada, que até ali fizera a guarnição da praça, e, em seguida, mandado Saldanha tomar o commando de uma columna importante na divisão do general Curado, ao longo do grande rio Uruguay [...]

A João Carlos de Saldanha foi entregue o commando da columna ligeira, que, em movimentos contínuos, devia sustentar, contra as forças de Artigas, o extenso território ao longo do importante rio Uruguay.

Revista na Praia Grande das tropas destinadas a Montevideu, Jean-Baptiste Debret.
Embarque da Infantaria portuguesa, na Ponta da Areia, Praia Grande, Rio de Janeiro, em 7 de Junho de 1816.
Imagem: Google Arts & Culture

Este rio era a fronteira Occidental da capitania de Montevideu, que a separava das províncias de Entre-Rios e Corrientes, pertencentes ao inimigo.

Conhecer-se-ha a importância de toda esta margem, onde Saldanha operava, se se considerar que as indicadas provindas de Entre-Rios e Corrientes eram o ponto de apoio, o vasto arsenal, por assim enunciar, onde Artigas e os seus generaes se iam refazer quando vencidos, e d'onde, por meio de novas combinações estratégicas, repassando o mesmo Uruguay, vinham intentar novos combates no grande território disputado [...]

Esta cavallaria dos feros gaúchos é que a brigada de Saldanha ia ter defronte de si durante a disputada guerra.

Contra os exércitos francezes já estavam affeitos os nossos bravos; contra aquella gente e aquella cavallaría, ainda não [...]

Para os seus soldados disse então Saldanha (com o intuito de os animar): que no dia seguinte iam combater os de Artigas, homens como elles, que n'aquella campanha tinha Portugal os olhos fitos, que lhes caberia a gloria de vencer, e que elle seria o primeiro que irromperia contra o inimigo, contra a celebre cavallaria de Artigas commandada pelo afamado Lavalléja. Se bem o disse, melhor o fez.

No dia seguinte, nas vastas planícies do Uruguay, Saldanha, á frente dos seus cavalleiros, irrompia furioso contra o furioso gaúcho. A cavallaria portugueza, qual a romana á voz de César, lançava-se intrépida contra a cavallaria oriental, invencível e medonha como a dos antigos bárbaros, seus predecessores.

A gloria coroou os nossos, nas campinas americanas, á voz do guerreiro que parecia celebrar com os triumphos o pacto da victoria. "Quando acabou o combate, narrava Saldanha, todo eu era sangue e miolos, da cabeça aos pés". — Acertara o César lusitano: a decima legião não precisava dar lições à legião de Portugal.

Só n'uma das manhãs não menos de cinco arrojadas cargas deu Saldanha á frente da sua cavallaria Pintam factos taes o arrojo d'aquellas luctas [...]

Corre o anno de 1819. Os dois capitães generaes Lecor e o conde da Figueira operam de accordo.

Lecor intenta abrir as communicações pelo rio Uruguay entre a capitania de Montevideu e os povos das Missões, situadas no alto da capitania do Rio Grande, procurando tambem evitar que as forças inimigas passem para áquem do celebre rio nos pontos acima do Salto.

Era um plano complexo e importante. A columna de Saldanha, já reunida à divisão do general Curado, é mandada apoiar a passagem do rio Negro, executada pela columna do coronel Marques, fazendo juncção logo em seguida as duas columnas. e indireitando ambas, sob o comnando de Saldanha, para a barra do Arroyo dos Curraes, estabelecendo-se em communicação com as forças do conde da Figueira.

Approximavam-se os grandes acontecimentos. Tinham já succumbido os intrépidos vice-chefes de Artigas, Verdum, Aranda, Tallier e outros. 

Vista de Montevideu desde La Aguada.
Imagem: Miscelánea

Em outubro Fructuoso Ribeiro é também destroçado. Ao Napoleão da Banda Oriental soava a hora do Waterloo americano.

Reapparecendo, com forças novas, nas nossas fronteiras, e levando tndo a ferro e fogo, Artigas conseguira pôr em debandada a columna do general Abreu até ao Passo do Rosario, mas, junta a esta columna a do general Camara, reuniram-se-lhes também as forças do conde da Figueira, que tomou o commando, cabendo-lhe dar um golpe mortal na campanha de Artigas.

Os orientaes, acampados em posição forte na margem esquerda do rio Taquarembó, esperaram os nossos.

No dia 22 de janeiro de 1820 o conde da Figueira atacou por ambos os flancos as forças do caudilho Latorre e dos seus intrépidos sub-chefes Sotello e Cahiré, destroçoa-as, salvando-se Latorre á garupa de um indio, succumbindo na peleja Sotello e muitos officiaes superiores, ficando mortos no campo oitocentos inimigos e aprisionados quatrocentos e noventa.

Artigas, em Maloojo, não se tendo podido reunir á divisão de Latorre, mas conseguindo congregar os dispersos, alcançou (por um movimento estratégico digno d'elle) passar o Uruguay para o seu território de Corrientes, no intento de se reforçar.

Restava ainda o perigo d'este sangue novo magicamente inoculado no exercito por aquelle espirito invencível, que não quebrava, e que por tantos annos logrou suster-se contra as forças que se lhe oppunham e contra os povos que o detestavam.

De janeiro a maio pacificára-se todo o interior da Banda Oriental (a capitania de Montevideu). Fructuoso Ribeiro, rendendo-se ao general Lecor, entrava ao serviço de Portugal [...]

Combate dos Portugueses contra os Hespanhóes, Montevideu 1817.
Imagem: Os voluntários reais

Terminava a campanha de Montevideu que dilatava o nosso terrítorío, conquistando toda a Banda Oriental do Rio da Prata.

Entrada dos Portugueses em Montevideu em 1821, gravura de Gilberto Bellini.
Imagem: Revisionistas

Esta recebia o titulo de provincia Cisplatina, acceitando jubilosa o encorporar-se na monarchia portugueza.

Succedia este facto glorioso no anno de 1821.


(1) D. António da Costa, História do Marechal Saldanha, Tomo I, Lisboa, IN, 1879

Mais informação:
Os voluntários reais
Uniformes do Exercito brasileiro, 1730-1922
Invasión luso-brasileña
Montevideo antiguo

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