quarta-feira, 11 de setembro de 2019

A ultima entrevista com o Marquez de Pombal

O duque de Chatelet achava-se em Londres, quando concebeu o desejo de visitar Portugal. Embarcou em Falniouth, a 8 de maio de 1777, a bordo do Embden. Depois d'uma viagem de seis dias chegou a Lisboa.

Cerimónia de Aclamação de Maria I de Portugal, na Praça do Comércio, em 1777.
Feata, Pompa e Ritual. A aclamação de D. Maria I
Wikipédia

"Na época de minha chegada achava-se Lisboa em agitação impossível de descrever. Era véspera da celebração da coroação da rainha. O povo corria por aqui e por acolá cantando e dançando a 'foffa' [sossa?], espécie de dança nacional que se executa aos pares com accompanhamento d'uma guitarra e d'outro qualquer instrumento: dança lasciva a tal ponto, que o pudor cora ao ser testemunha d'ella, e não ousaria eu emprehender descrevel-a. Atravessei pela multidão, e fui alojar-me n'uma hospedaria ingleza, situada em Buenos Ayres: sitio agradável, e ao abrigo de cheiros fétidos, com os quaes a cidade está infectada durante o estio, e das chuvas, de que está innundada durante o inverno."

"Tinham escolhido a praça do Commercio, como o logar mais appropriado á ceremonia da coroação. Fez-se esta com grande magnificência, ao som da artilheria, e das acclamações d'um povo immenso, que concorrera de todas as partes para assistir a ella. Só a rainha pareceu não participar do jubilo geral. Achava-se dolorosamente affectada. Os principaes senhores da corte tinham resolvido mandar-lhe pedir pelo povo a cabeça de Pombal: a rainha achava-se informada do desígnio d'aquelle, e receiava o perigo d'uma recusa; porém, apesar de não gostar do marquez, respeitava-o como amigo de seu pai."


Documentário sobre Sebastião José de Carvalho e Melo, 1.° Marquês de Pombal...
RTP Arquivos

"Eu estava egualmente informado de quanto se tramava: quiz ser de perto testemunha da agitação, que d'isto havia de resultar. Percorri as ruas com um francez versado na lingua portugueza, e introduzi-me na multidão. Por toda a parte nada mais se ouvia, que o nome de Pombal: os espíritos azedavam-se: o motim estava prestes a romper, quando de repente sobreveiu uma patrulha de cavallaria, com um official á frente, o qual dirigindo-se ás pessoas, que formavam este grupo, prohibiu-lhes debaixo das mais rigorosas penas de fallarem no marquez de Pombal."

"Dentro em pouco dispersou a multidão; as ruas acharam-se n'um instante cheias de soldados a pé e a cavallo; e com tanta constância se entretiveram na dispersão dos grupos na occasião em que parecia formarem-se, que o povo se dirigiu para a praça antes de ter podido decidir alguma cousa."

"Todos os fidalgos pareciam muito espantados, e no extremo da agitação. Viamol-os ir, vir, mandar emissários do alto da galeria, onde se achavam, lançar para o povo olhares, nos quaes se pintavam a cólera e a impaciência. Tinha havido a prudente cautella de dividir este povo, mandando construir na praça uma estacada de distancia a distancia, de forma que se achou separado, e por assim dizer preso sem ter dado por isso. Percebeu-se todavia uma espécie de rumor, e sete ou oito vozes gritaram : Pombal, Pombal, porém foram no mesmo instante abafadas pelos gritos de Viva a rainha, que os partidários do marquez levantaram. Uma grande quantidade de espectadores se tinha introduzido no interior da galeria depois de ter derribado os guardas, a rainha mandou que os deixassem alli estar. Não se podendo as carruagens approximar, ella mesma se viu obrigada a passar por entre a multidão com o fim de se dirigir para seu coche: foi este para ella o mais doce momento de sua vida: uns deitavam-se a seus pés, outros beijavam-lhe a ponta do vestido, e com isto se enterneceu a ponto de lhe marejarem os olhos."



"Foram brilhantes as illuminações: a ceremonia celebrou-so com tanto de pompa, quanto de tranquillidade: a colónia ingleza deu á noite um sumptuoso baile aos principaes habitantes da cidade, sem duvida em testemunho de seu reconhecimento, porque era ella nação ingleza a verdadeira soberana de Portugal que tinha sido coroada na pessoa da rainha. No dia seguinte tomaram outra vez o lucto, que na véspera se tinha largado. No meio da alegria geral produzido pela queda de Pombal, tudo tornou a tomar um aspecto lúgubre, e sairam do baile para correrem para as egrejas."

"A rainha assignalou sua elevação ao throno por actos de bondade e clemência. Mandou abrir as prisões, e soltar lodosos desgraçados, que alli estavam detidos, alguns havia mais de vinte annos. Vi duas raparigas, que para alli tinham entrado ainda de mama na companhia de seus pães e mães: teem uma dezenove annos, e a outra vinte, e parecem ter quarenta. São as filhas do desditoso conde de Alorna, compromettido na conspiração. Seu unico crime era o ter emprestado, pela manhã do dia do assassinato, uma espingarda ao joven Aveiro, um dos conjurados, que lh'a pediu para ir á caça: pagou este favor, bem como sua mulher e filhos com vinte e um annos de prisão. É verdade que o marquez da Pombal linha lançado mão da conjuração para abater a arrogância dos fidalgos portuguezes, e reprimir as atrocidades até então impunes, das quaes se tornavam culpados frequentemente. Tinha-se visto alguns d'elles matar um seu criado, ou um particular d'uma classe inferior, quando tinha a desgraça de lhes cair em desagrado, ou praticar alguma falta. A severidade de Pombal tinha posto freio a excessos tão terríveis."

"N'uma das digressões, que fiz em Portugal com o fim de visitar o interior d'este reino, fui ver o marquez de Pombal. Eu lhe era recommendado d'um modo particular, motivo pelo qual me recebeu com todas as attenções possíveis. Conhecia este ministro de fama, e não se podia exprimir o desejo, que eu tinha de conhecel-o pessoalmente."

A Villa de Pombal, António Ramalho (dsenho do natural), 1882.
O Occidente n.° 122, 8 de maio de 1882

"Cheguei pois á villa de seu nome, e, da minha hospedaria lhe escrevi com o fim de saber a hora, em que lhe poderia entregar as cartas, que tinha para elle. Alli me dirigi pelas dez horas da manhã, e fui introduzido na habitação d'este grande homem. Actualmente está algum tanto melhor alojado, mas na época, era que o vi, estava n'uma pobríssima casa, e dormia n'um quarto, cujas paredes tinham sido estucadas de novo."

Casa onde falleceu o Marquez na Villa de Pombal, António Ramalho (dsenho do natural), 1882.
O Occidente n.° 122, 8 de maio de 1882

"As maneiras do marquez de Pombal são agradáveis e attenciosas em extremo. Fez-me mil perguntas; affectou ignorar completamente o que se passava pela Europa. Pediu-me que o informasse dos acontecimentos. Até me fez perguntas relativas a Portugal, e sobre o estado em que se achava Lisboa, quiz saber que motivo, ou acaso me conduzia áquelle logar tão affastado. — Costumado, lhe disse eu, a viajar desde minha mocidade, visito sempre o interior dos paizes, que percorro, não me limitando ás cidades principaes, e portos de mar, nos quaes nada ha de novo a estudar. Mas além d'isto desejava conhecer quem tanto tinha beneficiado seu paiz. Entramos pouco a pouco era conversa: convidou-me a passar com elle oito dias, e fez-me ficar para jantar e ceiar n'aquelle dia. Exprimi lhe meu espanto sobre o estado, em que tinha achado Lisboa, attendendo ao pouco tempo decorrido depois de sua catastrophe. Respondeu-me que presentemente não cuidava em nada d'isso; achava-se velho, e pensava em descansar; porém que, se a providencia lhe tivesse conservado seu amo por mais tempo, ter-se-hia esforçado em continuar com o mesmo zelo a empreza, cuja execução apenas pudera esboçar; e que, sem duvida, teria lançado os alicerces d'um palácio para o rei. Patenteou-me o magnifico plano, que tinha adoptado para este edifício. Situado n'uma pequena eminência, perto de Belém, teria dominado o mar e a cidade, seria construído no centro d'um grande jardim, cercado de altos muros, aos quaes estariam de distancia em distancia contíguos os palácios dos principaes senhores da corte, e aposentadas as pessoas, que n'elles fossem obrigadas a residir por causa de seus cargos."

Casa onde falleceu o grande ministro.
Hemeroteca Digital

"O marquez de Pombal trouxe comsigo muitos livros: ou lê, ou manda ler continuamente: os livros são todos francezes. Falla nossa língua tão facilmente, como nós mesmos: sabe egualmente bem o allemão, inglez, e italiano. Não pronunciava sem grande ternura o nome de seu respeitável amo. 'Honrava- me, dizia elle, com sua confiança. Perder seu rei e seu amigo! É uma prova forte de mais para eu poder resistir a ella ! Por isso o sol para mira perdeu o brilho de seus raios! Nada, nada me pôde indemnísar da perda, que padeci!' A isto algumas lagrimas cabiam de seus olhos. Em vão procurava eu desviar a conversa para um outro assumpto, para este me levava sempre. — 'Ao menos, continuava elle, aqui serei feliz. Vedes esta choupana? Não é minha: to'mo-a de aluguer. Aquelle homem accusado de não ter pensado mais que em si, nem mesmo na sua terra mandou construir um aposento' — Depois mostrando-me um grande edifício novo. 'É um armazém pertencente á villa. Mandei-o construir para n'elle se guardarem os cereaes, dos quaes está cheio. Emfim, á maneira de Sully, viverei mais afortunado em meu retiro, que no meio dos grandes e da corte. Duixaram-me trazer meus livros, e por isso pouco me resta a desejar.'"

Vista exterior do quarto em que falleceu o Marquez de Pombal.
Hemeroteca Digital

"Acabava, quando a marqueza de Pombal, sua mulher, chegou: teve a bondade de me appresentar a ella. Conserva ainda uma parte de seus dotes pessoaes; e veste-se cora muita arte e gosto. É discreta, sem duvida; porém não possue a força, nem o valor de seu marido para tolerar sua situação. No tempo da prosperidade do marquez de Pombal tinha a seus pés os grandes e o povo: sua casa era uma espécie de corte. Quando os homens a iam visitar, punham-se de joelhos para lhe beijarem a mão, segundo o costume do paiz."

"Sua vaidade lisonjeada por tantas adulações não se pôde acostumar ao isolamento, a que foi condemnada pela desgraça de seu marido."

"Desamparada de toda a gente, solitária, n'uma villa desviada de povoações, a única satisfação que tem, é de ver seus filhos, que algumas vezes vão passar com ella quinze dias. Nascida allemã tem o orgulho das grandes famílias de sua nação, e, depois de ter tido tanto de que lisonjear-se, geme em segredo sua expiação." 

"Tentou disfarçar suas maguas, mas não o poude conseguir por muito tempo. Passados dez minutos de conversação, achavam-se seus olhos arraza dos de lagrimas."

"Aquillo é próprio de seu sexo, me dizia o marquez; consolal-a é para mim uma outra occupação, mas seguindo meu exemplo, bem depressa apprenderá a supportar nosso infortúnio."

"Um instante depois vieram participar, que o jantar estava na mesa. 'Vinde disse-me elle, tomar parte na comida frugal d'um eremita.' Em vez de comida frugal, que me annunciava, encontrei uma mesa bem servida, e na qual nada se resentia de sua desventura, nem mostrava o sainete da desgraça. Ao todo não passávamos de três. A conversa foi muito longa. Entrei a fallar com a marqueza a respeito de Allelmanha, e por algum tempo fallamos na sua lingua. Foi breve o jantar, ou pelo menos assim me pareceu: o calor era excessivo."

"Depois de nos levantarmos da mesa, cada um foi descançar por alguns momentos. Approveitei me d'este tempo para ir percorrer o logar habitado pelo illustre par. Não é tão desagradável, como em Lisboa m'o tinham pintado. N'uma altura estão as ruinas d'um velho castello, offerecendo uma vista bastante pittoresca; as aguas são excellentes."

Casa onde morreu o Marquêz de Pombal, postal fotográfico da Rua Conde de Castelo Melhor em Pombal.
Arquivo Municipal do Pombal

"Ao sair de casa do marquez encontrei á sua porta mais de duzentas pessoas, a quem se distribuía pão e caldo. D'este modo é que elle tem adquirido um grande numero de partidários, que o exaltam mesmo com sua desgraça: pareceu-me ser bem quisto de todos habitantes do logar. Finalmente depois d'um passeio de cerca de duas horas, voltei para casa do marquez, a quem encontrei no meio de seus livros. Continuámos a conversa. Perguntou- me se tinha visto a ceremonia da coroação da rainha. Advinhei onde queria chegar, respondi-lhe que sim, e que me parecia ter-se celebrado com muita pompa e magestade."

"Quiz saber se eu tinha reparado em todos os incommodos, a que seus inimigos se tinhara entregado para o perderem, e até me pediu alguns pormenores. Quiz saber a maneira como o povo tinha procedido. Disse-lhe quanto sabia, e accrescentei que esta circumstancia era mais um triumpho para elle, porque demonstrava não só a impotência de seus adversários, mas até sua animosidade. A estas palavras disse-me com a maior vivacidade, a qual lhe ficam muito bem."

"Avançam um paradoxo, fazendo-se interpretes do povo: mandam-lhe dizer que me deteste! Mas isso é impossivel : minhas acções, meu procedimento, tudo me assegura do contrario. O povo portuguez não me pôde odiar, e vós ides ouvir a rasão. Que é o portuguez hoje ? Que era elle ha quarenta annos? Não o puz eu em estado de já não ter necessidade de seus visinhos? Não estabeleci eu por toda a parte as artes, as offlcinas, o ensino? Não fiz além d'isso reedificar um terço da cidade de Lisboa? Não propaguei a actividade, e não derramei o bem estar por entre os operários? Por todos os direitos, que eu creio ter ao reconhecimento d'esse povo, tenho-o por assaz justo, para me querer devorar: e até não o fez. Vou dizer-vos quaes os auctores de quanto podereis ter ouvido e percebido no tempo da coroação. Os fidalgos, que se obstinavam em suas insolentes pretensões, as quaes eu quiz anniquilar, empregaram todos os meios possíveis para me perderem. Elles não podiam decentemente mostrar-se à frente do partido perseguidor. Que fizeram? Escolheram algumas de suas creaturas, que disfarçadas em barbeiros, cosinheiros, marinheiros, etc. divagavam pelos logares públicos, desacreditando-me e pintando-me com as mais horríveis cores. O povo, que facilmente é seduzido, secundou um resentimento, ao qual lhe faziam crer ser um dever associar-se. Aborrecia-se, porque lhe diziam qie assim era mister. Varias pessoas, que vós conheceis, accrescentou elle, com o fim de malquistar-me, andaram por alguns dias debaixo d'um tal disfarce, confundiram-se cora a ralé, e inventaram calumnias, que lhe appresentaram como verdades incontestáveis. Finalmente quanto obrei, foi por ordem de meu amo, e nada tenho de que arrepender-me. Accusam-me principalmente de ter sido cruel; mas obrigaram-me a ser rigoroso. Quando eu annunciava as ordens do rei, e não faziam caso d'ellas, era indispensável recorrer á força: as prisões e os cárceres foram os únicos meios, que encontrei para domar esse povo cego e ignorante."

Ilustração Portugueza n.° 899, 12 de maio de 1923

"D'esta forma passei em casa d'este ministro cinco dias nas conversas as mais interessantes. Teve a bondade de eommunicar-me a respeito de Portugal varias noções e reflexões, de que fiz uso no decurso de minha obra."* (1)


(1)  Branco, Manuel Bernardes, Portugal eos estrangeiros..., Lisboa, Livraria de A. M. Pereira, 1879
cf. Cormatin, Pierre Dezoteux (1753-1812 ; dit baron de), Voyage du ci-devant duc du Chatelet, en Portugal. Tome 1 / , ou se trouvent des détails interessans sur ses colonies, sur le tremblement de terre de Lisbonne, sur M. de Pombal et la cour ; revu, corrigé sur le manuscrit, et augmenté de notes... par J. Fr. Bourgoing... Tome premier

Artigo relacionado:
O estadista

Leitura adicional:
O Occidente n.° 122, 8 de maio de 1882
Homenagem ao Marquez de Pombal, Clube de Regatas Guanabarense, 1882
Terra Portuguêsa, janeiro de 1922
Ilustração Portugueza n.° 899, 12 de maio de 1923

A Lisboa de Pombal, Lisboa Revista Municipal n.° 13, 1985

Mais leituras:
Marquez de Pombal (HathiTrust)
José Augusto França, A reconstrução de Lisboa e a arquitectura pombalina, Lisboa, Livraria Bertrand, 1977 (1.ª edição)
O plano de Lisboa de 1758
João Lúcio d'Azevedo, O Marquez de Pombal e a sua epoca, ...,1922
Historia de reinado de el-rei D. José e da administração do marquez de Pombal
D. António da Costa, A reforma do Marquez de Pombal, O Académico, 1878



* O 2.° volume das Viagens de Chatelet (que nada appresenta digno de especial menção) termina cora um Supplemento composto por Bourgoing, no qual se corrigem algumas inexactidões inseridas n'esta obra. 

O duque de Chatelet, de quem nos temos oecupado n'este artigo, parece ter sido filho da celebre marqueza de Chatelet, amante de Voltaire, e o qual morreu no cadafalso revolucionário, em 1794 depois de ter sido embaixador na Áustria e em Portugal, e coronel do regimento das guardas francezas em 1722 e 1729.

Porém o que no duque de Chalelet nada tem de agradável é a pintura, que nos faz do caracter dos portuguezes no tempo do raarquez de Pombal.

"O povo portuguez é naturalmente orgulhoso, soberbo e animoso, e detesta em geral qualquer outro povo: crê sinceramente que não existe no universo nação mais esclarecida e perfeita, que a sua. Seu ódio contra os hespanhoes é inexprimível: até mesmo tem aversão aos inglezes, aos quaes olham como seus mais temíveis inimigos. Não sei se é prevenção nacional, mas julguei descobrir em Lisboa que ali não se viam os francezes com maus olhos."

"Seus habitantes nos consideram como intrépidos: estimam nossos militaes, dos quaes concebem a mais elevada idéa: além d'isto, nossa vivacidade sympathisa com a d'elles. São (o que todavia custa a accreditar) propensos aos prazeres, e entregam-se a elles, quando o podem fazer commodamente. Ha, segundo julgo, poucos povos mais feios, que os portuguezes. São baixos, morenos, mal conformados: o interior corresponde bastante, em geral, a este repugnante invólucro, principalmente em Lisboa, onde os homens parecem agglomerar todos os vícios da alma e do corpo." 

"Ha, todavia, entre a capital e o norte d'este reino uma differença notável. Nas províncias septentrionaes os homens não são tão trigueiros, nem tão feios; são mais francos, mais tratáveis na sociedade, muito mais valentes, e mais laboriosos; porém, se é possível ainda mais escravisados pelos preconceitos. Esta differença dáse egualmente nas mulheres: são muito mais brancas, que as do sul."

"Os portuguezes considerados no geral são vingativos, vis, soberbos, escarnecedores, presumpçosos excessivamente, ciosos e ignorantes. Depois de ter descripto os vícios, que julgo descobrir n' elles, seria injusto calando suas boas qualidades. São affeiçoados a sua pátria, amigos generosos, leaes, sóbrios e caritativos. Seriara bons chrístãos, se não estivessem cegos pelo fanatismo. Acham-se tão acostumados ás praticas religiosas, que são mais supersticiosos, que devotos. Os fidalgos ou grandes de Portugal teem uma educação muito escassa; orgulhosos e insolentes, vivendo na mais crassa ignorância, quasí nunca saem de seu paiz para verem outros povos."

"A família do marquez de Pombal, a qual frequentei muito, é quasi a única onde encontrei instrucção, e um conhecimento não superficial dos outros povos: fala nossa língua, o inglez e o italiano com facilidade; e o que n'ella me agradou infinitamente, foi o ver que pensava a respeito de seu próprio paiz mui sensatamente, e sem nenhuma preoccupação: cousa rara, mesmo nos povos os mais instruídos e eivilisados. Se algum fidalgo portuguez vir o que escrevo, ganharei títulos a seu rancor, porque votou ódio a quanto diz respeito ao nome de Pombal, Algumas outras casas se acham, mas em bem pequeno numero, nas quaes existem livrarias: porém mesmo essas casas e livrarias estão fechadas para os estranhos."

"Podemos, sem exaggeração, gabar os encantos das portuguezas. Não ha europeas, que tenham melhor carnação. Teem muito espirito, e talvez ainda mais vivacidade que as francczas. Em quanto ao galanteio excedem todas as mulheres da Europa: teem na expressão essa ternura seduclora, que desperta e prometle prazer: mas se este é fácil, é muito perigoso obtel-o, porque os maridos e parentes conhecendo a extrema fraqueza de suas mulheres, nunca as desamparam, espionando quantos rodeiam a casa, e se por acaso sae ou entra alguém, que desperta suas suspeitas, cravam-lhe no coração um punhal, de que andam sempre munidos."

"As damas de classe superior vestemse á francesa, exceptuando a cabeça, que enfeitam á moda do paiz com flores e diamantes collocados com muita garridice e arte. Todas ellas teem lindos olhos pretos muito expressivos."

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Emilia Santos Braga (1867-1950) [IV de IV]

No "atelier" da distinta professora de pintura, D. Emilia Santos Braga

1 — Aspêto do "atelier" vendo-se a ilustre professora com as suas discipulas á hora da lição.

Illustração Portugueza n.º 329, 10 de Junho de 1912

2 — A professora o um grupo d'alunas: 1. sr.ª D. Etelvina Lobo dos Santos o Silva; 2. D. Sára Lamarão Bramão; 3. D. Julla Tomaz da Costa; 4. D. Alda Santos e Silva; 5. D. Filomena do Freitas; 6. D. Helena Ferreira; 7. D. Alda Freire d'Andrade; 8. a distinta professora D. Emilia Santos Braga; 9. D. Camila Pinto Coelho; 10. D. Maria Eduarda Vasconcelos. (1)

Illustração Portugueza n.º 329, 10 de Junho de 1912

Cabe o primeiro logar, por merito, por ordem cronologica, e por gentileza que sempre a senhoras se deve, á exposição de oleos da sr.ª D. Emilia dos Santos Braga. Expõem tambem numerosamente discipulas suas, algumas distintas, de que não podemos falar por falta de espaço e de tempo.

Aula de pintura no atelier da professora Emília Santos Braga 1912.
Arquivo Municipal de Lisboa

D. Emilia Braga é uma artista de incontestavel merito, tecnica cuidada e conscienciosa arte, e indubitavelmente não coloca mal os desvelos de Malhôa — seu talentosíssimo Mestre. Apresenta um belo nú — Ociosidade — de bela atitude e expressiva fisionomia, que se cria em nós inefavel impressão, por vezes nos dá o desgosto d'uma carnação grossa, aspera e gelada.

A — Cigana — tem o negligé dum quadro inacabado, cheio de vida, de expressão, e intensa sensualiade.

A — Suplica — é tecnicamente perfeita. 

E a — Maria de S. João desprende uma indefinida e dulcissima emoção de calma resignada e confiante. É uma velhinha santa, de corpo inclinado á terra e alma erguida ao ceu, que resa orações íntimas, a um Deus de amôr e humildade.

Mas antes de finalisarmos as nossas breves consideraçôis acerca da pintura de D. Emilia dos Santos Braga queremos mais uma vez encarar e admirar esse mimosíssimo pastel, intitulado A minha boneca, que esta Revista reproduz, com indizivel prazer, na sua primeira pagina.

A minha boneca, Emília dos Santos Braga, 1912.
Arquivo Municipal de Lisboa

É uma fisionomia de creança encantadora, olhar risonho e caricioso, cabellos lindos caídos em desalinho. Este pastel é, na verdade, dum mimo e frescura que nos deliciam suavissimamente. (2)

O ultimo pastel da ilustre pintora, que hoje reproduzimos, intitula-se Amor de Mãe. Foi encomendado por Mrs. Thompson, ilustre escritora norte-americana que em fevereiro ultimo nos visitou. Mrs. Thompson veiu á Europa convidada pela Russia, Belgica e Espanha, para escrever impressões destes paises, e delas fazer um amplissima tiragem em New-York.

Amor de mãe, Emilia Santos Braga.
O Occidente n.° 1255, 10 de novembro de 1913

Passando por Lisboa, a caminho de Madrid, de tal modo a encantou o nosso precioso clima e a deslumbrou a nossa paisagem que Mrs. Thompson, dedicando-se ao estudo das nossas artes e belezas, aqui se demorou um mez, em vez de um dia, levando enorme bagagem de apontamentos para publicar um livro sobre Portugal, livro que a talentosa escritora já enviou ao sr. Manoel Roldan, secretario da Propaganda de Portugal, o qual, obsequiosamente a acompanhou pelo nosso pais durante a sua estada nele.

O pastel de D. Emilia Santos Braga, "Mothers Love", destina-se á grande Ilustração que Mrs. Thompson vae inaugurar agora em New York.

Acerca do talento desta notavel pintóra portugueza — algo temos dito. 

De resto, é superfiuo insistir com palavras elogiosas ao seu reconhecido, incontestado e incontestavel merecimento. O desenho a pastel — Amór de Mãe — que gostosamente publicamos em a nossa pagina de honra fala mais alto e mais significativamente que nós — humilimos admiradóres. (3)


(1) Illustração Portugueza n.º 329, 10 de Junho de 1912
(2) O Occidente n.° 1231, 10 de março de 1913
(3) O Occidente n.° 1255, 10 de novembro de 1913

Artigos relacionados:
O Grémio Artístico (2.ª exposição, 1892)
O Grémio Artístico (7.ª exposição, 1897)
Arte portuguesa na Exposição Universal de 1900

Mais informação:
Arte portugueza, 1895
La mujer intelectual, 1901
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (III), 1903
Sociedade Nacional de Bellas-Artes, Catálogos de 1902 a 1909
Serões, revista mensal illustrada n.° 48, junho de 1909
Serões, revista mensal illustrada n.° 50, agosto de 1909
Illustração Portugueza n.º 268, 10 de abril de 1911
Illustração Portugueza n.º 269, 17 de abril de 1911
O Occidente n.° 1239, 30 de maio de 1913
Folhas d'ouro, gentilmente collaborado por excriptores e artistas portuguezes, 1917


Informação relacionada:
Diário de Lisboa, 21 de agosto de 1944
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (I), 1896
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (II), 1898
William Walton, Victor Champier, Exposition universelle, 1900: the chefs-d'oeuvre
O Occidente n.° 947, 20 de abril de 1905
O Occidente n.° 1058, 20 de maio de 1908
Illustração Portugueza n.º 118, 25 de maio de 1908
Tiro e Sport n.° 384, 31 de maio de 1908
Brasil Portugal n.° 226, 16 de junho de 1908

Exposições internacionais:
William Walton, Victor Champier, Exposition universelle, 1900: the chefs-d'oeuvre
Catálogo Oficial de la Exposición Nacional de Pintura... de 1912, Madrid, pp. 77 e 174

Outros trabalhos:
Olisipo n.° 19, julho de 1942

Retrato a óleo de Rosa Araújo,
Emília dos Santos Braga.
(sala Rosa Araújo nos Paços do Concelho)
Arquivo Municipal de Lisboa

Emilia Santos Braga (1867-1950) [III de IV]

Uma exposição de pintura de D. Emilia dos Santos Braga

Esta exposição atraio, nestes ultimos dez dias, uma verdadeira romaria da melhor sociedade lisbonense ao atelier da sr.ª D. Emilia dos Santos Braga, num dos novos bairros de Lisboa, arejado e cheio de luz, em uma casinha logo á entrada da rua Pinheiro Chagas, como um ninho de arte, entre um roseiral que trepa pelas paredes e engrinalda as janélas, não mais florido do que lá dentro, onde as frescas rosas vivem tambem em formosos quadros, com encantador colorido, enlevo dos olhos, e parecendo recender suave perlfume, pela flagrante verdade com que a paléta da artista ali as fez desabrochar. 

Ociosidade, Emilia Santos Braga.
Illustração Portugueza n.º 118, 25 de maio de 1908

E como não seria assim se mãos femininas as colheram do jardim e, com amoravel sentimento lhe devassaram os segredos de sua fragrancia, para as reprodusir no quadro substituindo pela arte a propria natureza creadora.

É o coração feminimo o que melhor sente e compreende as belesas da creação, e por isso melhor sabe tradusir pela arte as impressões da sua alma contemplativa, o mesmo sentimento que vive nos quadros de flôres da sr.ª D. Virginia dos Santos Avellar, revela se no quadro A Suplica, da mesma autora, no piedoso mistissismo, que só no coração da mulher a crença depositou como em cofre de preciosas joias. 

A súplica, Emilia Santos Braga.
O Occidente n.° 1058, 20 de maio de 1908

Principiámos nossa apreciação pelos quadros de flôres que nos surpreenderam á entrada, revelando uma artista primorosa e que mostra seus varios recursos de pintura tanto no quadro a que nos referimos como na telasinha O pequeno do capuz, já nossa conhecida de uma das exposições da Sociedade de Belas Artes, e que nos faz lembrar um Velasquez. 

Mas agora atentamos na profusa exposição da sr.ª D. Emilia dos Santos Braga, que apresenta 27 quadros a oleo além de desenhos a "pastel" e a "fusain". 

É em tão copiosa coleção que se destaca pelas dimensões a famosa tela Ociosidade, um nu de tamanho natural, seguramente a obra mais importante da exposição, com aquella em que a autora afirma suas grandes qualidades de desenho e de pintura, tão corréto o primeiro como natural a segunda.

Emilia Santos Braga, retrato de Arnaldo Fonseca.
O Occidente n.° 1058, 20 de maio de 1908
Tiro e Sport n.° 384, 31 de maio de 1908

A formosa plastica do seu modelo está magistralmente reprodusida, quer na fôrma, quer na côr da péle rosada e fresca que o pincel interpretou com toda a magia dos segredos da palêta.

Um outro nu O descanso do modelo. que já figurou em exposição de Bélas Artes, onde o vimos, é, talves, menos ambicioso, mas uma promessa bem fundada que o quadro Ociosidade, realisa agora com desusada opulencia em nosso meio artistico.

O seu quadro a Cigarra, ao contrario da Cigarra de Casado del Alisal, que elle figura numa rapariga em traje paradisiaco, tão provocante como realista, D. Emitia Santos foi buscar á poesia da Fabula o fauno que em sua frauta pastoril vae cantando todo o estio; 

mas o sentimento femininoo logo se revela no quadro Anciedade que nos faz sentir a dôr intensa da mãe debruçada sobre a cabecinha loura de seu filho, que ampara entre as mãos, e contemplando o angustiada, parece querer insuflar lhe de seus labios a vida que se aparta do tenro infante.

Ansiedade (estudo), Emilia Santos Braga.
Cabral Moncada Leilões

A composição destaca-se sobre um fundo escuro qne bem se casa ao assunto, e tratado com larguesa e brio, tem toda a caracteristica da pintura moderna, que se observa nos quadros da distintissima artista.

Ansiedade, Emilia Santos Braga.
Illustração Portugueza n.º 118, 25 de maio de 1908

Varias cabeças de estudo e retratos poderia-mos ainda apreciar se o tempo e o espaço de que dispomos nol-o premitissem; não deixaremos comtudo de nos referir ás pinturas decorativas, destacando o estudo Senhora dos Anjos, destinado ao této da nova egreja desta evocação.

Depois da Virgem de Murillo difícil é perder as remenicias daquella obra prima, que se tornou classica. Pintores e esculptores nella se tem inspirado e não ha fugir-lhe sempre que se queira produzir alguma coisa de bélo. Entretanto D. Emilia Santos sahiu-se discretamente da dificuldade. Sob a roupagem leve da sua Virgem pressente-se a forma humana levemente esboçada na figura vaporosa que se eleva entre gracis anjos alados, imergindo das nuvens.

Pintura decorativa para o têto da egreja de Nossa Senhora dos Anjos (estudo), Emilia Santos Braga.
  O Occidente n.° 1058, 20 de maio de 1908

Quadros de flores e frutos, da sr.ª D. Laura Santos se distinguem nesta exposição fazendo um dos seus atrativos, além dos trabalhos apreciaveis das discipulas da sr.ª D. Emilia Santos: D. Alda Santos Silva, D. Eulalia Santos, D. Etelvina dos Santos Silva, D. Isabel Ortigão Ramos, D. Isaura Ferreira, D. Filomena Freitas, D. Rita Santos Silva e D. Sara Bramão.

Retirámo-nos do atelier sob a mais agradavel impressão, pensando quanto progresso se tem feito neste Portugal, que parecia esquecido para as cousas de arte, que não obstante vão revivendo pelo talento de tantos artistas, em que vemos contribuir com vantagem talentos femeninos como o da sr.ª D. Emilia dos Santos Braga, discipula, que foi do festejado artista Malhôa, honrando o mestre e honrando-se a si. C.A. (1)
 
Uma pintora portugueza

N'uma terra avessa ás manifestações de arte pura e em que cada verdadeiro artista é, de ordinario, um benemerito, um abnegado e quantas vezes tambem um incomprehendido, constitue caso merecedor de especial registo o haver algumas raras senhoras de talento incontestavel que cultivem com perseverante afiam as bellas-artes e se atrevam a arrostar a indifferença publica, identificando-se firmemente com o ideal que guia os seus passos e procurando attingir a perfeição na sua obra, a despeito de aridez e até da hostilidade do meio. 

A sr.ª D. Emilia dos Santos Braga.
Illustração Portugueza n.º 118, 25 de maio de 1908

Entre as artistas portuguesas da actualidade, a sr.ª D. Emitia Santos Braga occupa, mercê das suas excepcionaes aptidões, do seu estudo, constante e do seu indefesso trabalho, um togar de eleição que não duvidaremos de que, dentro em breves annos, se considere, sem exagero nen lisonja, glorioso.

A discipula iIlustre de José Malhoa, sua visínha de atelier, e que dto aproveitada foi e tantos dos singulares meritos do insignissimo pintor adquiriu no seu incomparavel convívio e com a sua admiravel lição, inaugurou ha dias uma encantadora exposição de quadros, aos quaes reuniu alguns de suas gentis irmãs D. Virginia Santos Avellar e D. Laura Santos e ainda os primeiros tentamens artisticos d'um grupo de meninas de quem madame Santos Braga é professora e cujas provas honram os nomes que as subscrevem e que são os de mesdemoiselles Alda Santos Silva, Eulalia Santos, Etelvina Santos Silva, Isabel Ortigão Ramos, Isaura Ferreira, Philomena Freitas, Rita Santos Silva e Sarah Bramão. 


Retrato de D. Alda Santos, Emilia Santos Braga.
7.ª exposição da Sociedade Nacional de Bellas-Artes, 1909
Illustração Portugueza n.º 118, 25 de maio de 1908.

Ao lindo atelier da rua Pinheiro Chagas, com o seu vestíbulo engrinaldado de formosissimas rosas, accorreu um grande numero de pessoas a admirar os lavores expostos — pintura a oleo, desenho a pastel e a fusain — e entre os quaes figuravam alguns que, sem favor, se podem classificar de obras-primas.

As rosas que enfloram a entrada do atelier de D. Emilia Santos Braga vimol-as lá dentro, em toda a sua graça e em toda a sua frescura, nos quadradinhos desse delicado temperamento artistico que é D. Virginia Santos Avellar, sendo egualmente revelações muito apreciaveis os trabalhos de D. Laura Santos e os das meninas a que nos referimos já.

Retrato de D. Virgínia Santos d'Avelar, Emilia Santos Braga.
Illustração Portugueza n.º 118, 25 de maio de 1908


Mas, como bem se comprehende, as attenções fixaram-se, de preferencia, nos trabalhos de D. Emilia Braga, alguns já conhecidos pela critica. e muitos novos, mas produzindo todos a mais viva e intensa impressão de agrado e demonstrando os complexos recursos da notavel artista. (2)

D. Emilia Santos Braga

Eis aqui um nome que está desde hontem inscripto na historia do desenvolvimento intellectual e artistico da mulher portugueza.

Emilia Santos Braga, retrato de Arnaldo Fonseca.
Brasil Portugal n.° 226, 16 de junho de 1908

Outras lhe seguirão o arrojado exemplo e proseguirão essa obra de progresso que consiste em exaltar as faculdades creadoras do nosso elemento feminino.

A exposição numerosa e valiosa dos quadros de D. Emilia Santos é um lisongeiro symptoma d'um progresso que, estamos convencidos se accentuará, não só na arte puramente esthetica como em todas as manifestações de intellectualidade que impressionem o espirito feminino.

Exposição no atelier de Emilia Santos Braga em 1908.
Tiro e Sport n.° 384, 31 de maio de 1908


O successo obtido pela exposição de D. Emilia Santos, a primeira valorisada entre nós no seu genero, reivindica para o seu nome o applauso que merece um admiravel esforço e um nobre exemplo.

Além do successo essencialmente artistico, esta notavel exposição de pintura constituiu tambem um acontecimento mundano que durante uma semana preoccupou a nossa sociedade.

O florido salão da rua Pinheiro Chagas encheu-se durante uns dias d'uma multião elegante, onde as claras toilettes de primavera substituiam a nota triste do lucto nacional. Nunca vimos entre nós uma exposição de arte tão concorrida e se-ja-nos licito previr que esse interesse ora manifestado se prolongará por futuras exposições d'outras artistas.

Exposição no atelier de Emilia Santos Braga em 1908.
Tiro e Sport n.° 384, 31 de maio de 1908

A D. Emilia Braga cabe ainda a gloria de ter convertido o publico feminino ao culto da arte pela influencia poderosa do seu grande talento notado n'esta exposição singularmente suggestiva.

Toda a imprensa se occupou dos diferentes trabalhos da illustre artista e por nossa parte seria tardia qualquer critica das obras expostas, consignando simplesmente n'estas linhas a admiração que nos merece o seu bello trabalho. (3)

Foi um sensacional acontecimento de arte a exposiçAo de pintura da sr.ª D. Emilia dos Santos Braga.

Toda Lisboa que pensa, que sente, que comprehende, desfilou pelo elegante atelier da artista e poude admirar o vastíssimo trabalho repassado de talento, a intuição da verdade, o estudo da natureza, o rigor dos pormenores, a execução perfeitissima, todo um nucleo de qualidades artisticas fixado nessa obra notavel.

A carícia, Emilia Santos Braga.
5.ª exposição da Sociedade Nacional de Bellas-Artes, 1905
Brasil Portugal n.° 226, 16 de junho de 1908

E tanto mais notavel quanto é certo ser firmada por uma senhora, e por uma senhora portugueza, o que lhe decuplica o valor! A sr.ª D. Emilia Braga foi a discipula dilecta de Malhôa, e o que aproveitou das lições do Mestre á farta se verifica nas suas telas, especialmente nos seus bellos trabalhos sobre o nú, em que não ha um pormenor anatomico que seja despresado, uma attitude plastica que não obedeça ás exigencias da impeccavel arte hellenica. 

O descanso do modelo, Emília dos Santos Braga, 1905.
Brasil Portugal n.° 226, 16 de junho de 1908

Torna-se-nos deveras agradavel fixar estas palavras justas nesta columna ao lado das reproducções pela photogravura de algumas das mais preciosas telas, fir-madas pela sr." D. Emilia dos Santos Braga, a que agradecemos a gentileza de ter permittido ao Brasil-Portugal que as suas paginas fossem enaltecidas com estes exemplares magnificos da Grande Arte. (4)


(1) O Occidente n.° 1058, 20 de maio de 1908
(2) Illustração Portugueza n.º 118, 25 de maio de 1908
(3) Tiro e Sport n.° 384, 31 de maio de 1908
(4) Brasil Portugal n.° 226, 16 de junho de 1908

Artigos relacionados:
O Grémio Artístico (2.ª exposição, 1892)
O Grémio Artístico (7.ª exposição, 1897)
Arte portuguesa na Exposição Universal de 1900

Mais informação:
Arte portugueza, 1895
La mujer intelectual, 1901
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (III), 1903
Sociedade Nacional de Bellas-Artes, Catálogos de 1902 a 1909
Serões, revista mensal illustrada n.° 48, junho de 1909
Serões, revista mensal illustrada n.° 50, agosto de 1909
Illustração Portugueza n.º 268, 10 de abril de 1911
Illustração Portugueza n.º 269, 17 de abril de 1911
O Occidente n.° 1239, 30 de maio de 1913
Folhas d'ouro, gentilmente collaborado por excriptores e artistas portuguezes, 1917

Informação relacionada:
Diário de Lisboa, 21 de agosto de 1944
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (I), 1896
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (II), 1898
William Walton, Victor Champier, Exposition universelle, 1900: the chefs-d'oeuvre
O Occidente n.° 947, 20 de abril de 1905
Illustração Portugueza n.º 329, 10 de Junho de 1912
O Occidente n.° 1231, 10 de março de 1913
O Occidente n.° 1255, 10 de novembro de 1913

Exposições internacionais:
William Walton, Victor Champier, Exposition universelle, 1900: the chefs-d'oeuvre
Catálogo Oficial de la Exposición Nacional de Pintura... de 1912, Madrid, pp. 77 e 174

Outros trabalhos:
Olisipo n.° 19, julho de 1942

Retrato a óleo de Rosa Araújo,
Emília dos Santos Braga.
(sala Rosa Araújo nos Paços do Concelho)
Arquivo Municipal de Lisboa

Emilia Santos Braga (1867-1950) [II de IV]

Fallando de senhoras, exceptuando D. Josefa Greno, artista já de ha muito consagrada, não quiz entrar na critica dos seus trabalhos, o que não quer dizer que algumas destas delicadas mãos não tenham feito obras acceitaveis; seria injustiça e para me desmentir bastaria D. Emilia dos Santos Braga, uma discipula de Malhôa, que possue um talento incontestavel.

Bolas de sabão [Fazendo bolas de sabão], Emilia Santos Braga.
  Cabral Moncada Leilões

Mas se entrasse a desfiar a meadinha que no catalogo tece uma rede de gentis nomes, quantos fios mais debeis a minha mão rude iria desastradamente despedaçar? 

Retrato de Mademoiselle J. Possoz [Mily Possoz], Emilia Santos Braga.
6.ª exposição da Sociedade Nacional de Bellas-Artes, 1906

Limito-me a pedir ás gentis amadoras que se não imponham, nem se ceguem pelas nuvens de applausos que os amigos e os aduladores hão de prodigalisar aos productos dos seus finos, mas tantas vezes inconscientes pinceis. Tenham a coragem de pedir justiça, porque benevolecia tem-na sempre certa. (1)

Retrato de menina [Mily Possoz], Emilia Santos Braga.
Cabral Moncada Leilões

D. Emilia dos Santos Braga, apresenta vários trabalhos como "Adormecida" e "Bolas de sabão" que confirmam a sua aptidão artistica. (2)

Margarida, Emilia Santos Braga.
5.ª exposição da Sociedade Nacional de Bellas-Artes, 1905

... contributed by D. Emilia Santos Braga, une of the best painted of which is the portrait of "Varina, Fishwife", in the unbecoming native headdress. (3)

Varina, Emilia Santos Braga.
Exposition universelle, 1900: the chefs-d'oeuvre

Um nu da sr.ª D. Emilia Santos Braga que se compraz n'este genero de pintura dificil. (4)


(1) Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (I), 1896
(2) Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (II), 1898
(3) William Walton, Victor Champier, Exposition universelle, 1900: the chefs-d'oeuvre
(4) O Occidente n.° 947, 20 de abril de 1905


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La mujer intelectual, 1901
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Sociedade Nacional de Bellas-Artes, Catálogos de 1902 a 1909
Serões, revista mensal illustrada n.° 48, junho de 1909
Serões, revista mensal illustrada n.° 50, agosto de 1909
Illustração Portugueza n.º 268, 10 de abril de 1911
Illustração Portugueza n.º 269, 17 de abril de 1911
O Occidente n.° 1239, 30 de maio de 1913
Folhas d'ouro, gentilmente collaborado por excriptores e artistas portuguezes, 1917
Diário de Lisboa, 21 de agosto de 1944

Informação relacionada:
Diário de Lisboa, 21 de agosto de 1944
O Occidente n.° 1058, 20 de maio de 1908
Illustração Portugueza n.º 118, 25 de maio de 1908
Tiro e Sport n.° 384, 31 de maio de 1908
Brasil Portugal n.° 226, 16 de junho de 1908
Illustração Portugueza n.º 329, 10 de Junho de 1912
O Occidente n.° 1231, 10 de março de 1913
O Occidente n.° 1255, 10 de novembro de 1913

Exposições internacionais:
William Walton, Victor Champier, Exposition universelle, 1900: the chefs-d'oeuvre
Catálogo Oficial de la Exposición Nacional de Pintura... de 1912, Madrid, pp. 77 e 174

Outros trabalhos:
Olisipo n.° 19, julho de 1942

Retrato a óleo de Rosa Araújo,
Emília dos Santos Braga.
(sala Rosa Araújo nos Paços do Concelho)
Arquivo Municipal de Lisboa

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Emilia Santos Braga (1867-1950) [I de IV]

Discípula de Malhoa... Evadida do mundo em solidão claustral depois de ter procurado todos os deslumbramentos da côr e da vida

Fumadora d'ópio, Emilia Santos Braga, exposta em Madrid em 1912.
(apensa ao quadro estava a seguinte nota: "propuesto para condecoracion", note-se a tela rasgada)
Catálogo Oficial de la Exposición Nacional de Pintura... de 1912, Madrid, pp. 77 e 174
Arquivo Municipal de Lisboa

Vai para 8 anos que ali se refugiou a ultima deusa pagã da pintura, como numa penitencia e num recolhimento. Quando a porta se cerrou sobre os seus três quartos de século teve sensação de que o mundo ficava do outro lado — distante e frio, e esquecido dela.

Fumadora d'ópio, Emilia Santos Braga, exposta em Madrid em 1912.
(apensa ao quadro estava a seguinte nota: "propuesto para condecoracion")
Catálogo Oficial de la Exposición Nacional de Pintura... de 1912, Madrid, pp. 77 e 174
Arquivo Municipal de Lisboa

Lentamente, despiu os véus pesados da viuvez e foi até á janela, um retalho azul do ceu, a enxugar ao sol. Já não era o mesmo ambiente da mocidade, mas havia ainda, nas paredes, tintas voluptuosas, corpos de mulheres, discretamente rebuçados, crianças, entre flores, retratos queridos, que Emilia dos Santos Braga recolhera para a sua viagem, no ultimo quartel da existência.

Naquele quarto da Ordem de S. Francisco, que a pintora aconchegou como um ninho, alguns moveis desirmanados do "atelier", esta e aquela fotografia de saudade, velhas cartas amarelecidas e quadros que conheceram a gloria das exposições, ou correram mundo em certames internacionais — ela vive agora, com tranquilidade e resignação, aquecendo-se ás ultimas brazas, cobertas de cinza, dumas tantas amizades que persistem. 

Tem um dia para os intimos — a terça-feira, e toda a semana para pintar. A luz já não canta tão alto e vibrante. nos seus quadros, como que embaciada de melancolia. Mas assim mesmo continua a trabalhar, por habito enternecido em pequenas naturezas mortas e num ou noutro modelo ocasional. O maravilhoso cristão e o maravilhoso pagão, alternam-se, nos muros daquele "atelier" improvizado. 

A mulher formosa, Rubens louro, que assombrou Lisboa pelo seu esplendor e pelo seu talento, é hoje uma dôce velhinha, com 77 invernos nevados sobre a cabeça, de voz apagada, ligeiramente timida, que sobrevive apenas, no candido azul do olhar, agora voando sobre o passado — cortejo faustoso de que ela entrevê reflexos de equipagens, o volto de duas rainhas e a sua vida, enorme e desolada, duas vezes morta — a ultima ali mesmo, no hospital, depois duma luta, em que os seus braços nada podem, come os dos naufragos, levados pelo mar enfurecido. 

Retrato de velha, Emília dos Santos Braga, 1908.
Museu José Malhoa

— Mas tudo isso é a vida! — dizemos-lhe. 

D. Emilia dos Santos Braga, baixando a cabeça para disfarçar uma lágrima: 

— Será, mas nem todas são iguais! Tenho sofrido muitos desgostos. Faleceu aqui meu marido — e mostra-nos um retrato, com um tipo de 1910, as guias do bigode, o côco, a bengala, a atitude varonil — e nunca mais pude apartar-me destas paredes. Saio, tenho as minhas visitas, ainda pinto, mas não consigo fugir ao silencio da minha alma, nem á saudade dos mortos queridos... 

Os seus olhos procuram, na parede, um retrato a oleo. É o duma mulher, em vestido de baile. elegante e fina, duma epiderme de oiro, cujas mãos pousadas no regaço, parecem duas pombas de penugem branca. 

— Criei-a desde pequenina! Era tal qual ali está... Aquele outro, com uma miudinha de seis anos, que tem na frente um cesto de rosas. tambem morreu?... Nem netos tenho, que me chamem avó! Nem mesmo flores para pintar!...

Numa cavalgada de imagens, o passado e o presente, confundem-se na imaginação da pintora. As tintas é que são outras — esmaecidas.

— Fui eu a primeira discípula de Malhoa. O seu atelier era, então, na Escola de Belas Artes, aqui em frente. Quantas vezes o ouvi dizer: "natureza! ar livre! vida!" Faziam sensação os meus quadros. Minha familia, com errado conceito artistico da época, horrorizava-se com estes nus, de resto, castos, envoltos num véo de graça e espiritualidade! Podia ter sido cantora, cheguei mesmo a dar lições com o mestre de Regina Paccini. mas os pais não quiseram. Só meu velho avô, o Manuel Inocencio, organista distinto, que estava. ao serviço da casa real desde D. João VI, me encorajava! Foi assim que fechei as portas do palco, para abrir as da arte.

— E Malhoa?

— Um grande mestre! De todos o maior na pintura contemporanea. Recordo que um dia para pintar o rei D. Carlos, me pediu para pousar...

— É curioso esse pormenor!

— É que eu nesse tempo tinha a mesma côr de pele que o monarca. Eu tambem o pintei, como as sr.as D. Maria Pia e D. Amelia. Esses retratos estiveram, no Museu de Artilharia, mas suponho que os tiraram. 

Vejo ainda como fosse hoje o vestido branco de gala, de D. Amelia, com a banda da Ordem de Santa Isabel, uma linda nota de côr, naquela sinfonia triunfal.

Retrato da rainha D. Amélia, Emília dos Santos Braga, 1906.
RJWMB

E vá de desfiar mais recordações, trazendo á superfície fragmentos dum panado brilhante, de festas e salões, do seu "atelier", na rua Pinheiro Chagas, frequentado por literatos e artistas, e que vendeu, ficando apenas, com meia duzia de telas.

— Expuz em Paris, em Madrid, no Rio de Janeiro! Alguns triunfos, rosas a envolverem os espinhos das amargaras. Ensinei uma geração. Durante cêrca de vinte anos tive dezenas dc alunas, no meu curso particular, mas agora a arte parece que é diferente... Só tenho pena de não estar representada no Museu de Arte Contemporanea, onde há trabalhos dalgumas das minhas discipulas!... — isto sem amargura, naturalmente, numa confissão que não chega a ser queixume.

Na parede, em frente da artista, a Vaidosa, a sua obra prima, que podia, de facto, figurar numa pinacoteca do Estado, pelo seu valor intrinseco e como homenagem, á ilustre pintora. É uma maravilha aquele dorso de mulher, de urna pigmentação de oiro, coroada por uma cabeça fresca, ligeiramente inclinada. em cujos cabelos negros arde uma flôr vermelha. Parece um Madrazo.

— Podia ser aquele! E ela fica-se sentada, numa poltrona de veludo, o silencio cortado pelas notas de cristal dum canário, prisioneiro como ela, do esquecimento e da desolação da vida. Não se mexe, como se não soubesse, ou não quisesse encher os silencios desta tarde quente, junto aquela janela, alta de mais sobre a rua — tão alheada de tudo, das glorias que desaparecem, como das que sobrevivem ainda, sem que ninguem saiba. Só á saída, quando nos despedimos murmura enternecidamente:

— Obrigado por se ter lembrado de mim!

Nu, Emília dos Santos Braga, Museu José Malhoa.
MatrizPix

Não eram os labios que falavam, mas aquele triste e apagado coração — quem sabe se pela ultima vez. (1)


(1) Diário de Lisboa, 21 de agosto de 1944

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Emília dos Santos Braga.
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