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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

História do Marechal Saldanha (1790-1876): Lutas Civis

Constituída em 1834 a liberdade da nação portugueza para nunca mais perecer, começava a pratica das instituições, imperfeita no desenvolvimento como obra humana, mas civilisadora na missão e progressista nos resultados. 

Retrato de D. Pedro IV (detalhe), John Simpson, após 1834 (MNSR).
Imagem: Parques de Sintra

Só a escravidão politica é isenta de imperfeições nos seus mechanicos movimentos, que obedecem à lei de uma só vontade, imposta a um rebanho de seres, não a uma sociedade de homens. 

Dividiu-se a gente liberal [v. A Belemzada, Lisboa 1836]. 

Retrato de D. Maria II (detalhe), John Simpson, c. 1837.
Imagem: Wikipédia

Entendiam uns que, n'aquelle tempo, a Carta Constitucional continha a totalidade das liberdades necessárias ao progresso da nação e ás regalias dos cidadãos, receiando que o ultrapassar os limites d'ella abrisse para as mesmas liberdades os perigos de 1820.

Não concordavam outros no receio, e opinavam por constituição mais larga. Estes se appellidaram setembristas, porque, logo dois annos depois, em setembro de 1836, conseguiram levantar na capital o grito da revolução que logrou a victoria [v. O partido setembrista, Lisboa 1836].

Receberam o nome de cartistas os que perfilharam a idéa contraria. D'esta divisão se originou a serie de revoluções durante quinze annos a que veiu pôr termo a regeneração em 1851 [...]

Victoriosa em Lisboa a revolução de setembro que tinha por chefe a Passos Manuel, jurada pela rainha m a constituição de 1823 com as alteraçoeg que um fur toro congresso lhe introduzisse, tentaram resistir os cartistas [v. Manoel da Silva Passos, Lisboa 1836].

Manuel da Silva Passos (1801-1862) 01.jpg
Imagem: issuu

Nenhum dos dois marechaes tinha prestado juramento á nova ordem de cousas, e Saldanha escrevendo ao ministro da guerra, declarava que assim procedia para se reservar a faculdade de a combater.

Vila da Ponte da Barca, 1864.
Imagem: Hemeroteca Digital

A 12 de julho de 1837 insurgia-se um batalhão de caçadores na villa da Barca, e em differentes pontos do reino rebentavam outros levantamentos [...] (1)

*
*     *

No dia 22 de dezembro de 1846 deu-se a batalha de Torres Vedras.

Torres Vedras.
Historical military picturesque... George Landmann.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Duque de Saldanha tomara o pulso á revolução. Era de facto uma revolução popular de sangue vivo do paiz e com homens á sua frente: Sá da Bandeira, conde das Antas, conde de Bomfim e o velho general Álvaro Xavier Coutinho da Fonseca e Póvoas, soldado portuguez de que elle, Saldanha, mais se arreceava.

Póvoas provou-lhe bem quanto valia nos desfiladeiros, valles e chapadas da Serra da Estrella.

Decorrido mais de meio século de paz podre, não se calcula hoje o que eram as paixões politicas d'aquelle tempo. Estou convencido, como já disse por vezes no percurso d'estas Memorias, que o medo d'essas paixões, que tinham rompido nos maiores ímpetos dez annos antes nos dias torvos da Revolução de Setembro e da Belemzada, é que levou os caudilhos da Maria da Fonte a ter mão n'um golpe decisivo, golpe que, sem abalar as instituições, poria em grave risco a coroa de D. Maria II.

Voltarei a este assumpto.

No dia 22 de dezembro de 1846 o duque de Saldanha achava-se porventura na situação mais difficil de toda a sua longa e brilhante carreira militar.

Na frente — Torres Vedras — estava o conde de Bomfim com a divisão onde havia soldados escolhidos, officiaes intelligentes e bravíssimos, tendo por chefe do estado maior nem mais nem menos do que Luiz Mousinho de Albuquerque [...]

Torres Vedras from the North-West.
Historical military picturesque... George Landmann.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Conde de Bomfim, comquanto a sorte nem sempre lhe fosse propicia no campo da batalha, era destemido e general illustrado.

A lenda do confessionário e da bandeira preta seria irrisória se nâo tivesse o fel da calumnia [segundo Oliveira Martins, baseado em João de Azevedo, Os dois dias de Outubro, ou a história da prerrogativa, "dizem que ao começar a batalha o pobre general sempre infeliz se escondera numa igreja, metido num confessionário, com uma bandeira preta cravada no telhado a indicar um hospital de sangue"].

Na rectaguarda, a dois passos, Saldanha tinha em Tagarro, Alcoentre, Cercal, o conde das Antas, "que o podia e devia entalar a cada momento contra as posições invencíveis de Torres Vedras".

Os rapazes da Maria da Fonte, rapazes e velhos, bateram-se com desenganada bravura. A matança foi terrível!

A batalha começou pelas onze da manhã. N'um relançar de olhos, Saldanha viu que a tomada do forte de S. Vicente era o ponto capital do assalto. O conde de Bomfim tinha lá dois mil homens da flor da sua gente.

O duque, esfregando as mãos (todos os homens de guerra teem o seu tique, o d'elle era este) bradou:

— A artilheria? 
— Ainda não chegou.
— Ximenes? 
— Marechal!
— O Sola que tome com a brigada o forte de S. Vicente á baioneta [...]

Torres Vedras, Morro do Castelo e Rio Sizandro.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Apesar da noite tormentosa, dos caminhos de Torres Vedras n'aquelle tempo, a noticia de Saldanha ter ganho a batalha chegou a Lisboa com espantosa rapidez.

Logo de manhã o aspecto da cidade tornara-se sepulcral. Nem os próprios vencedores se atreviam a manifestar as alegrias da victoria. Centenas de pessoas tinham nos dois campos parentes carnaes e amigos. Havia como que um cheiro a sangue e a morrão de enterro.

Mulheres, mães, irmãs, amantes, reviam no rosto contrahido pela anciosa incerteza alguma coisa da loucura, e, não raro, faziam perguntas desvairadas!

No crescer do dia chegavam ao hospital da Estrella os feridos, alguns moribundos.

Os grilhetas, a legião sombria d'aquelles desgraçados que andavam a dois e dois pelas ruas, atrellados como cães por grossas correntes, foram separados para serviço das macas.

Que préstito fúnebre [...]

A extrema anciedade que agitava a capital seguiu-se a apathia morna que sobrevem nas grandes catastrophes.

A chegada dos presos de Torres Vedras a Lisboa e a entrada d'elles nas presigangas [navios presídio] do Tejo augmentou ainda o tom mortuário da capital.

Uma necropole!

Quando algum raro dia d'aquelle tempestuoso inverno rutilava todo azul e oiro, faiscando na Tejo, illuminando os quintaes e as hortas da cidade, Lisboa era porventura mais triste. Ermas as ruas, desertas as praças, janellas cerradas.

Aqui e além ouviam-se as risadas crystallinas do rapazio desenfreado, com bandeiretas de farrapos, espadas de canna, divididos em dois bandos, simulando a batalha das vésperas e prenunciando as que deviam seguir-se.


As creanças a foliar no meio das grandes tragedias comprimem-nos amargamente o coração, porque nos lembram o durum genus, a ferocidade da origem humana!

Via-se a cada passo, não só a tristeza, mas a miséria impacta nas physionomias [...]

Os operários absolutamente sem trabalho, todos os géneros de primeira necessidade pela hora da morte; nenhuma transacção commercial.

Os empregados públicos, com muitos mezes de atraso, acudiam a rebater os ordenados por um desconto enorme.

Quantos d'esses empregados, que pertenciam a diversos batalhões, vi eu trazerem, em pleno dia, debaixo do braço, o pão de munição para o repartirem pela familia.

Supplemento Burlesco ao Patriota, 1847.
Imagem: Hemeroteca Digital

As notas do banco trocadas por menos de metade do seu valor; os cabos de policia deitando mão aos moços adolescentes, sem distincção de classe, para lhes sentarem praça no exercito da rainha.

Depois da batalha, como já disse, os próprios adversários não se atreviam a celebrar ruidosamente o enthusiasmo do triumpho.

Só a rainha não poude ter mão em si. Quando a guarda de honra chegou ás Necessidades, D. Maria II, abrindo com as próprias mãos a realenga sacada, na sua voz sonora e vibrante de jubilo, clamou:

— Victoria, rapazes!

Os cabellos, em saccarôlhas, fluctuavam ás refregas da quadra tempestuosa, as rosas da mocidade saltavam-lhe das faces accesas pela commoção da victoria. O que podem as paixões politicas!

Esta senhora, exemplo de esposa e de mãe, não se lembrava de tanta viuva e de tantos órfãos; de Mousinho de Albuquerque, gloria da pátria e amigo de seu pae nos dias da adversidade; do sangue fraterno que tingia a corrente arrebatada do Lisandro na força da invernia.


Torres Vedras, Rio Sizandro, Marques Abreu, c. 1900.
Imagem: Delcampe

Alguns cortezãos quizeram negar o facto, mas foram obrigados a engulir o impudor da lisonja, porque o facto teve por testemunhas centos de pessoas e uma d'ellas fui eu [...]

A inabalável dedicação á sua pessoa lh'a provaria o duque d'alli a cinco annos, na noite de 15 de maio de 1851, no theatro de S. Carlos, obrigando-a a tragar o boccado mais amargo de toda a sua vida, sacrifício que ella fez com senhoril e regia dignidade [v. A ditadura regeneradora de Saldanha ...] (2)

Marechal Saldanha, capa dos livros de Barbosa Cohen Entre duas revoluções 1848-1851, volumes I e II (detalhe).
Imagem: University of Toronto

*
*     *

Depois de 6 de outubro, Antas e Sá da Bandeira entraram na lucta, suppondo que a rainha fraqueasse vendo a altitude do paiz, e, sem o seu apoio, Costa Cabral baqueava para sempre do poder.

Com Saldanha tornava-se fácil qualquer accordo, voltivolo e malleavel como sempre foi em politica. A coisa, porém, mudava de aspecto.

O Espectro n° 49, 18 de maio de 1847.
Imagem: Hemeroteca Digital

O sangue accendeu as paixões, e a tenacidade da rainha converteu a ira dos adversários em rancor entranhado. Se os da Junta entrassem em Lisboa, a soberana, antes de abdicar, teria de refugiar-se n'uma nau ingleza.

Como todos os homens da emigração e do Porto, Sá da Bandeira e Antas amavam D. Maria II. 

Entrada apenas na adolescência, intelligente, formosa, expatriada, uma creanca quasi, fora a estrella polar, ou, direi antes, a noiva immaculada e espiritual da grande revolução. Receavam que a democracia exaltada, na sua justa cólera, lhes abatesse o idolo!

Periclitavam acaso as instituições quando a rainha abdicasse?

Quem falava n'esse tempo em Republica, não digo só em Portugal, mas em toda a Peninsula? Além dos Pirineus, a revolução de 1848, movimento imprevisto e ephemero, ainda estava longe.

Incendie du Château-d'Eau, place du Palais royal, le 24 février 1848, Eugène Hagnauer.
Imagem: Pinterest

Para mim é fora de duvida que a Maria da Fonte não triumphou pela tibieza das espadas d'esses dois homens.

Os académicos apertavam com Sá da Bandeira. Queriam combater:

Somos jovens, livres somos,
Somos de mais portuguezes,
O dever nos chama á guerra,
Affrontemos seus revezes!

Chegou o dia 1 de maio de 1847. Dia luminoso de primavera. As primeiras frechas de sol batiam nas serranias do Alto do Viso.

Vista de Setúbal, fotografia n° 18 do Album pittoresco e artistico de Portugal.
Imagem: Biblioteca Nacional Digital Brasil

Quantos veriam aquelle sol pela derradeira vez!

Os clarins tocavam a alvorada no campo inimigo, e os académicos, na guarda avançada, trepavam o monte cantando:

Quando da pátria
Soa o clarim
Ninguém nos vence,
Morremos, sim!

Tiros das avançadas, crescer do fogo, calar baionetas; cavallos á carga ; troar dos canhões. Combate rápido, mas tigrino.

Castello-Branco, uma das nossas melhores espadas, aleijado da mão direita nos assaltos do Porto, matou com um tiro de pistola o Pancada, também um valente. Pancada era do campo de Sá da Bandeira; Castello-Branco do Vinhaes.

Galamba, o guerrilheiro, o dragão, acudiu a vingar o seu camarada, e decepou a cabeça de Castello-Branco com uma tremenda cutilada.

Fernando Mousinho, commandante dos académicos, que perdera o pae em Torres Vedras, cahia ás primeiras descargas, atravessado pelos peitos, como havia dez annos tombara no Chão da Feira com egual ferimento. Joaquim Guedes de Carvalho e Menezes, da casa dos condes da Costa, teve o braço partido por uma bala de fuzil. 

Os académicos deixaram cinco dos seus camaradas no monte ensanguentado. Dois d'elles fôram assassinados depois de prisioneiros.

Nas quebradas umbrosas do Alto do Viso quem, noite cerrada, vae subindo de Setúbal para Azeitão, lá descobre uma luz como estrella pallida, luz que vem de uma ermidinha onde os dois inimigos, Pancada e Castello-Branco, descançam abraçados na paz da morte [...]

Na tarde de 1 de maio de 1847 a aragem do sul trazia a Lisboa os echos do canhão do Sado.

Ao Terreiro do Paço, noite alta, chegavam as macas com os feridos, alguns moribundos.

Lisboa, Praça do Commercio, gravura de João Pedro Monteiro (1826-1853) c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Sangue em Torres Vedras, em Val-Passos, em Vianna do Alemtejo, nas ruas de Lisboa, no Alto do Viso! [...] (3)


(1) D. António da Costa, História do Marechal Saldanha, Tomo I, Lisboa, IN, 1879
(2) Bulhão Pato, Memórias Vol. III..., Lisboa, Typ. da Academia Real das Sciencias, 1907
(3) Bulhão Pato, Idem

Mais informação:
Marques Gomes, Luctas caseiras: Portugal de 1834 a 1851, Lisboa, Imprensa Nacional, 1894
Charles Napier, An account of the war in Portugal between don Pedro and don Miguel, 1836
John Smith Athelstane (Carnota), Memoirs of Field-Marshal the Duke de Saldanha I, 1880
John Smith Athelstane (Carnota), Memoirs of Field-Marshal the Duke de Saldanha II, 1880
Barbosa Cohen, Entre duas revoluções 1848-1851 I, Lisboa, Manuel Gomes, 1901
Barbosa Cohen, Entre duas revoluções 1848-1851 II, Lisboa, Manuel Gomes, 1902
Guerra Civil Portuguesa
Cronologia do Liberalismo

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sábado, 6 de janeiro de 2018

História do Marechal Saldanha (1790-1876): nas Guerras Liberais (2 de 2)

É agora em Lisboa. O Porto passara o encargo para a capital, que recebia com o encargo o sublime exemplo em que tinham tido olhos fitos quantos ouviam narrar os padecimentos e esforços da cidade invicta.

Lisbon from the chapel hill of Nossa Senhora do Monte, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Quando em julho abrira Lisboa as portas á divisão liberal [v. Almada Virtual Museum: Guerras Liberais], principiaram os habitantes a correr às armas, e foram-se organisando os batalhões de voluntários fixos e moveis [...]

Solicitando porém no principio de agosto auctorísação do imperador, e recebendo-a para executar o que entendesse, forçou as linhas sitiadoras do Porto a 18 de agosto, e libertando-o como o tinha salvado, pôde immediatamente realisar o complemento do seu grande plano, correndo a Lisboa, trazendo uma valorosa divisão, trazendo-se a si próprio, e chegando exactamente quando o perigo, pelos motivos expostos, ia ser tremendo.

Logo no dia immediato o imperador e elle correram os arrabaldes [...]

Lisbon, published under the superintendence of the Society for the Diffusion of Useful Knowledge.
Drawn by W B  Clarke, engraved and printed by J Henshall Published by Baldwin & Cradock 47 Paternoster Row, 1833.
Imagem: Lisboa de Antigamente

Mas eis que se approxima o exercito realista, e defronta com Lisboa no dia 3 de setembro. Estabelecida se acha a grande linha realista contra a grande linha constitucional.

Cairá Lisboa, ainda insufficientemente fortificada por falta de tempo, diante do desproporcionado exercito que a vem conquistar? [...]

Ás cinco bens e meia da madrugada n'aquelle dia 5 de setembro, onze mil homens em seis columnas saem das linhas realistas para irromperem as constitucionaes. Ameaçando o centro pelo Campo Pequeno em breve se conheceu qne era por ali um ataque falso.

Na sua direita, porém, bifurcando-se, ao deixarem Sete Rios, uma parte da força investiu pela estrada de Campolide, outra pela de Palhavã; aquella para auxiliar o movimento pelo flanco direito, esta para tomar a quinta Louriçal, e d'ella passar para a quinta do Seabra (quinta Bahia).

Linha de defesa da cidade de Lisboa, 1835.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Infelizmente para os atacantes o grande reducto da Atalaya (ponto importantíssimo das posições liberaes) dominava as estradas investidas de Campolide e Palhavã. 

A columna realista que proseguia para Campolide, nao podendo romper, deixa de auxiliar o movimento da sua companheira de Palhavã, e assiste á batalha sem intentar novos accomettimentos.

É a brigada realista e imponente do valoroso coronel Dubreuil que vem atacar em Palhavã o palácio e jardim Louriçal com a mira na quinta, e d'esta para a do Seabra [...]

Tinham sido vencidos por Saldanha os generaes seus patridos; acabavam de o ser os generaes francezes [...]

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Nao se parecia com um rio; era o Tejo um salão de crystal. Meia Lisboa se cruzava n'elle. Outra parte da população lhe bordava as margens.

Battle of Cape St. Vincent of 1833.
A squadron of Portuguese frigates commanded by British Admiral Napier on behalf of the Queen Maria Liberal faction defeated King Miguel’s Absolutist squadron, in the Portuguese Civil War
Imagem: The Westphalian Post

Esquadra portugueza, esquadras de Inglaterra e de França, embarcações mercantes, fragatas, faluas, barcos de todas as praias na extensa linha e em todas as direcções, quantas musicas tinha a cidade compondo a orchestra d'aquelle salão immenso, as senhoras de azul e branco, os homens com seus trajos de festa, o enthusiasmo em todos os corações, a curiosidade em todos os rostos, e o sol abrilhantando o espectáculo: tal corria a manhã d'aquelle dia 23 de setembro de 1833.

E o que é que, despovoando a capital sitiada, levava ao Tejo n'aquelle delírio os habitantes, desde o imperador até o cidadão mais humilde?

Barra dentro havia entrado na vespera a rainha que symbolisava a constituição dos portuguezes.

Quem era? uma menina. D'onde vinha? da proscripção. Que demandava? um sceptro que desencadeava algemas. Três coroas lhe cingiam a fronte juvenil: a inocencia, a desgraça e a emancipação dos povos. A innocencia tornava-a sympathica; a desgraça, heróica; a emancipação das gentes fazia-a adorável.

Rainha D Maria II, 1833.
Imagem: Wikipédia

Já corria pelo Tejo todo o como ella era. Gentil, como os seus quatorze annos; a pelle, setim; a côr, alva; olhos, celestes; cabellos, como o oiro; porte nobre; rosto reflexivo; no olhar, o sobresalto do que via; no sorriso, o prazer de ser ali o culto de todos.

Sobre o Tejo saudavam-na as salvas das torres, das esquadras, dos fortes. Na cidade esperavam por ella os batalhões nacionaes e a povoação. Quantas mães lhe não tinham sacrificado os filhos! [...]

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No dia 24 [de maio de 1834] quando o marechal Saldanha em Montemor o Novo (a um dia de marcha apenas) ia atacar os restos do inimigo em Évora, recebe um officio do general realista Lemos, pedindo um armistício, e mandando-o também pedir ao duque.

Kssssse! Pédro - Ksssse! Ksssse! Miguel! Gravura, Honoré Daumier, 1833
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Terceira continuou a marchar sobre Extremoz. Saldanha respondeu-lhe que para dar mais uma prova do horror com que tinha visto derramar o sangue portuguez fazia alto n'aquella villa, de Montemor, mandando pedir ao duque da Terceira, a quem animavam os mesmos desejos, para vir ali, a fim de o ouvirem ambos; mas impreterivelmente no dia seguinte. 

Consultado logo por Saldanha o governo, sobre o armistício, o governo recusou-o, ordenando que o exercito realista depozesse incondicionahnente as armas.

Saldanha continuou a marcha sobre a cidade de Évora, fez alto com a sua divisão, no dia 26, em Arrayolos e Évora Monte para dentro em quatro horas, de combinação com o duque da Terceira, cair definitivamente sobre o inimigo, e de todo o aniquilar, quando n'esse mesmo dia se apresentou o general Lemos, tendo dado a sua causa por vencida.

Á noite foi assignada em Évora Monte a convenção pelos dois marechaes e por aquelle general. O imperador decretava a amnistia e as estipulações da mesma convenção [v. Wikipedia (en)].

No dia 30 o marechal Saldanha entrava na cidade de Évora e perante elle depunha as armas o exercito realista. No dia 31 occupavam a praça de Elvas as forças do duque da Terceira, que, a três léguas d'aquella praça, tinha o seu quartel general na Azaruja.

S.M.I. o Senhor D. Pedro restituindo sua Augusta Filha a Senhora
D. Maria Segunda e a Carta Constitucional aos Portugueses,
Nicolas-Eustache Maurin,1832.
Imagem: Wikipédia

Terminara a lucta, e vencedora ficava, para nunca mais perecer, a liberdade portuguesa. (1)


(1) D. António da Costa, História do Marechal Saldanha, Tomo I, Lisboa, IN, 1879

Tema:
Guerras Liberais (LeoT)
Guerras Liberais (AVM)

Mais informação:
Guerra Civil Portuguesa
António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo..., Lisboa, Typ. Universal, 1863
Cronologia do Liberalismo
Charles Napier, An account of the war in Portugal between don Pedro and don Miguel, 1836

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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

História do Marechal Saldanha (1790-1876): nas Guerras Liberais (1 de 2)

No dia 26 de Janeiro de 1833 chegava às aguas do Porto o conde de Saldanha, com alguns companheiros da emigração, e na manha de 28 effectuava o seu desembarque.

Duque de Saldanha por John Simpson, após 1834 (MNSR).
Imagem: Parques de Sintra

Mas porque não figurava o conde de Saldanha entre os seus camaradas desde o dia 9 de julho do anno anterior em que a expedição liberal aportara á praia do Mindello?

Vista da praia da Arnosa de Pampelido onde desembarcou o senhor Dom Pedro à frente do exército libertador.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


Aprestava-se em França a expedição, quando, escolhido previamente o conde de Saldanha para chefe do estado maior do sr. D. Pedro, este, mandando-o chamar no dia 13 de janeiro de 1832, lhe communicava que o embaixador, de Hespanha promettia em nome do seu rei a neutralidade na futura guerra civil portugueza, sob a clausula de que Saldanha nao fosse à frente da expedição, e que, dado o caso contrario, Fernando VIl interviria com um exercito de quarenta mil homens [...]

E era exactamente a 24 de janeiro d'esse anno de 1833, no próprio dia em que Solignac, estreiando-se no commando salvador abandonava ao inimigo o importantíssimo monte do Crasto na Foz, que Palmella, repellindo da maneira mais nobre e mais digna certas arguições do nosso governo sobre o desempenho da sua commissão politica, declarava de Londres ao imperador ter occultado officialmente a lord Palmerston a fraqueza em que estava a causa liberal, e recordava ao mesmo imperador as suas próprias palavras dirigidas a elle Palmella: "A suspensão de armas para nos salvar deve ser dentro de trinta dias da data da minha escripta (16 de novembro)" [...]

Carta topográfica das Linhas do Porto (detalhe), 1834.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O almirante Napier, que na guerra liberal quinhoeiro foi também de louros tão gloriosos, escreve que no dia 28 de janeiro desembarcavam na Foz os generaes Saldanha, Stubbs e Cabreira, e que, apesar de estar a causa já sem esperança obedeceram com presteza ao chamado, tomando então Saldanha o commando da linha esquerda, e estabelecendo o seu quartel general na Foz, a posição mais arriscada de toda a linha da defeza [...]

Mostrada logo a Solignac por Saldanha a urgência de occupar o montículo do Pinhal, onde se jogava a sorte da causa, Solignac respondeu-lhe que nao seria temeridade unicamente, mas loucura o emprehender tomar o montículo nas novas condições em que se achava defendido, e ordenou positivamente a Saldanha que o não tentasse fazer [...]

Na seguinte noite o desobediente general atacava à bayoneta, com quatro companhias, o piquete realista, desalojava-o e occupava o indispensável montículo [...]

Acceita a demissão de Solignac no dia 13 [de junho de 1833], era no dia 14 nomeado chefe do estado maior imperial o conde de Saldanha [...]

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É uma hora d'aquelle dia 5. O exercito sitiador ataca a linha esquerda do Porto (sobre Lordello) em todo o semi-circulo da defeza, desde o Carvalhido até á casa da fabrica do Antunes.

Carta topográfica das Linhas do Porto, 1834.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Duas columnas realistas, saindo de seus entrincheiramentos, avançam, entre a quinta do Wanzeller e a casa do Plácido, no intento de cortarem as communicações do Porto com a Foz.

A primeira columna ataca o centro e a direita da fabrica do Antunes, o ponto visivelmente mais arremettido. O capitão Pedroso, de infantería 15, á frente da sua companhia e com parte da quinta, investe com tal denodo os realistas, de posse, no primeiro impeto, de parte da fabrica disputada, que os desaloja apesar da desproporção das forças, emquanto o valoroso brigadeiro Duvergier, seguido de algumas companhias do segundo regimento de infantería da Rainha, repelle a reserva da columna que primeiro tomara a posição; mas recebendo n'um braço o ferimento mortal que lhe ha de produzir a morte, é substituído por Zuppi, que, apesar de ver cair ferido também gravemente o bravo capitão Victoríno, sustenta a posição tenazmente [...]

O inimigo estava sendo ali protegido por um vivíssimo fogo dos seus reductos de Serralves e das baterias da margem esquerda do Douro; mas Saldanha, que dirigia pessoalmente o fogo nos pontos atacados "com a perícia e acerto que o distinguia", manda logo collocar em fogo cruzado e nos ângulos convenientes a única peça e o obuz de que as podia dispor, e por este modo auxilia as novas cargas de infanteria pelos flancos e em frente da fabrica, tornada a atacar pelos realistas por todos os lados.

Em presença d'aquelle movimento estratégico e repentino, combinado com o arrojo da execução, vê-se desanimar a linha do inimigo, estorcer-se como longa serpente, ceder, desistir, retirar-se, e proseguindo na idéa de cortar a linha da Foz, ir flanquear pela direita a quinta do Wanzeller [...]

Carta topográfica das Linhas do Porto (detalhe), 1834.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Iam dar cinco horas quando os derradeiros tiros denunciavam o termo da batalha, começada na esquerda, seguida no centro e finalisada na extrema direita [...]

No mesmo dia 5 de julho, em que Saldanha ganhava tao brilhante victoría, estrelando o seu novo cargo de chefe do estado maior imperial, vencia também um combate naval nas aguas do cabo de S. Vicente o vice-almirante Napier, que vimos largar da barra do Porto com a expedição commandada pelo duque da Terceira.

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Clareia o crepúsculo d'aquelle dia 25 de julho, e lá está elle já, rodeado dos seus, no ponto mais fraco, e portanto mais serio, de toda a linha da defeza, junto á quinta Wanzeller, sereno o semblante, apurando o ouvido, pondo a alma nos olhos, na apparencia tranquillo como intrépido, no interior agitado como general que se desejasse multiplicar por todos os logares da lucta.

Entrance of the river Douro, Edward Belcher, 1833.
Imagem: ICGC Cartoteca Digital

Commandantes, officiaes, soldados, quantos a distancia permittia que o vissem, tinham os olhos fitos n'elle, e d'elle recebia cada combatente um dos raios que partiam d'aquelle astro da victoria; confissão de todos os que militaram debaixo do seu commando.

Batem cinco horas. Restruge nos ares a primeira descarga geral da artilhería realista dos reductos de Serralves, do Crasto, do Verdinho, da Furada e de lodos os outros de ambas as margens do Douro. "Rainha e Carta", responde nos corações toda a linha liberal á mortifera salva que annnnciava o assalto.

Dera signal o campo inimigo. Á descarga geral das baterias principiaram a sair dos entrincheirammtos realistas quatro differentes colnmnas de todas as armas, acompanhadas de dezeseis bocas de fogo [...]

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Vencedora estava após horas successivas toda a linha esquerda do exercito liberal, desde a Foz até o centro, nas quatro posições capitães, fechos do férreo cinto que apertava o Porto [...]

Vista da invicta cidade do Porto.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

"Conde de Saldanha, tenente general dos reaes exércitos, chefe do meu estado maior. Tomando em consideração a perícia com que vos houvestes no memorável dia 25 de julho, repellindo consideráveis forças inimigas em seus successivos e desesperados ataques contra as principaes posições das linhas do Porto, pondo em pratica com a maior dexteridade e coragem as minhas ordens, dando disposições tão habilmente concebidas como energicamente executadas, carregando com poucos officiaes do estado maior e vinte lanceiros a força superior, que tentando occupar os postos avançados entre o Bomfim e Guellas de Pau, nao pôde resistir ao impeto de tão grande bravura, alcançando-se em resultado de tantas proezas uma completa victoria... por estes motivos hei por bem, em remuneração de tao distincto merecimento e de tao altos serviços, elevar-vos á dignidade de gran-cruz da muito nobre ordem da Torre e Espada do valor, lealdade e mérito [cf. Chronica Constitucional de Lisboa, 28 de agosto de 1833]."

Oporto, Porto, published under the superintendence of the Society for the Diffusion of Useful Knowledge.
Drawn by W B  Clarke, engraved and printed by J Henshall Published by Baldwin & Cradock 47 Paternoster Row, 1833.
Imagem: David Rumsey

Não podera Saldanha até ali emprebender a guerra offensiva, mas fora obrigado a limitar-se á defensiva. É chegado o momento. Vae irromper. Batalha nenhuma dera ainda, em que a previdência, a estratégia, a barmonia das disposições lograssem occasião de attingir o alto ponto que vamos presencear [...] (1)


(1) D. António da Costa, História do Marechal Saldanha, Tomo I, Lisboa, IN, 1879

Tema:
Guerras Liberais (LeoT)
Guerras Liberais (AVM)

Mais informação:
Guerra Civil Portuguesa
António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo..., Lisboa, Typ. Universal, 1863
Cronologia do Liberalismo
Um Portuense, O cerco do Porto, Porto, Typ. de Faria & Silva, 1840

Iconografia Portuense:
Cabral Moncada Leilões
do Porto e não só...
Porto de Agostinho Rebelo da Costa
Porto Património Mundial

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Marechal Saldanha (1790-1876): Lutas Civis

domingo, 19 de junho de 2016

O veterano da bandeira

I


Ouvindo o troar da artilheria, que annuncia á família liberal uma grande festa; e vendo o desfilar do cortejo cívico, que nos aviva um notável facto da historia contemporanea, inscripto com letras de oiro nos fastos nacionaes, notamos uma falta: entre aquelles beneméritos, cujos cabellos encaneceram no serviço da pátria e da liberdade;
Este capitulo, ou trecho, foi escripto para o Diário Illustrado, de julho 1879, e agora sáe com algumas notas que para ahi não pude mandar.
entre aquelles cidadães, cujas virtudes e cuja dedicação patriótica, foram acrisoladas por infinitas provações; entre aquelles semblantes requeimados pelas insolações em numerosas marchas, pelas descargas de cem refregas e combates;

entre aquelles veteranos, exemplares de abnegação e heroismo; entre as figuras venerandas d'aquelle cortejo sympathico, que milhares dos do povo rodeiam com sinceridade e enthusiasmo, pelo que vale e pelo que symbolisa; entre aquelles homens falta um:

António Silva, o veterano da liberdade, Diário Illustrado, 24 de julho 1879.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

É o que a gravura do Diario Illustrado representa hoje, e do qual me coube a honra n'estas paginas, a quem tem dado tamanho lustre escriptores esclarecidos de deixar aqui algumas notas biográficas;

É o de um veterano, popular, que soube aliar o respeito e a amisade dos grandes e humildes, porque elle era grande pelo seu coração e pela sua inexcedível bravura; e humilde pelo seu berço e pelo seu viver chão, simples, patriachal;

É, emfim, o Silva das Barbas brancas, como o cognominava o povo, quando elle em dias duplices lançava para fóra do fino peitilho da camisa aquellas alvissimas barbas, que lhe davam o aspecto dos homens bons e de bom conselho de tempos áureos; é o Veterano da Bandeira, como depois o appellidaram quando foram inaugurados os festejos do 24 de julho.
Esta commemoração deixou de fazer-se por circumstancias politicas, que não vem para aqui referirem-se; mas a principal, no meu entender, foi a do esmorecimento na lembrança de factos, que não deviam esquecer para lição dos vindouros (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, op. cit.).

Ao comtemplar o seu retrato parece-me ainda vél-o: sadio, rosado, alegre como um moço, risonho como se o sol d'aquelle memorável dia fosse o sol do melhor dia das suas primaveras; direito como um recruta, não vergando ao peso dos annos, mas erguendo o rosto com certo desvanecimento para a bandeira, que era para elle, — e para todos nós, filhos da grande familia liberal, — a sua idéa constante, o seu symbolo, a religião da liberdade!


II


Pensava-se em outro tempo, e divulgava-se que as biografias só podiam fazer-se dos grandes embora elles não tivessem a recomendalos senão os pergaminhos e os serviços dos antepassados; e isto acreditava-se, tanto mais quanto era certoque a lisonja cortezã o traduzia em facto;

pois as idéas modernas transformaram o uso, e se se deu aos grandes, que realmente o são, por suas virtudes e qualidades, o preito sincero e condigno do respeito e admiração, tambem não se pode hoje regatear se aos humildes, que se levantaram a maior altura na cooperação para a victoria dos nobres princípios o elogio que lhes cabe pelas suas nobres acções e o lugar que lhes pertence no pantheon glorioso dos que se distinguiram em prol da pátria.

Não tiremos um desses logares a Antonio da Silva.

O venerando ancião nasceu aos 31 de julho de 1801 no logar de Adão Lobo, termo da villa do Cadaval; e veiu para Lisboa fugido com a sua familia, e a pé, não tendo ainda 7 annos de edade, quando Junot invadiu Portugal com as forças do seu commando.

Percorrendo a pé as doze léguas que o separavam da capital, e vendo já afflicta a familia porque fugia da sua terra sem recursos, e sem pão, era descer o primeiro degrau na escala da adversidade.

Chegando a Lisboa, a familia Silva teve que separar-se do seu pequeno Antonio e entregal-o ao cuidado das pessoas, que o protegeram na mocidade.

Discorreram, portanto, os primeiros annos da sua estada na capital sem incidente notavel, embora conhecessem os amigos que António da Silva roubava algumas horas ao trabalho e ao descanso para se relacionar com os homens de esphera mais elevada e tomar conhecimento das occorrencias politicas, enthusiasmando-se com o alvorecer das idéas liberaes que trouxeram, na proeminencia dos factos contemporaneos, Fernandes Thomaz, Ferreira Borges, fr. Francisco de S. Luiz e outros beneméritos, e pelos esforços destes inclitos varões, o 24 de agosto de 1820 [pronunciamento militar do Porto, que levou à formação da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino presidida pelo brigadeiro António da Silveira Pinto da Fonseca, e ao inicio do periodo conhecido como vintismo].

Porém, no meio dos seus enthusiasmos, António da Silva pagava o tributo da mocidade prendendo-se n'uns sinceros amores a uma joven de apreciáveis dotes do coração, D. Joanna Francisca da Costa e Silva, filha de um bom homem de Lamego, Manuel da Costa Telles Almas.

Em 1821 encontramol-o já casado, mas interrompida a lua de mel por uma eventualidade da politica, que o tirava dos braços affectuosissimos da esposa para o arremessar ás rudes fainas da caserna.

Tinham n'o intimado para sentar praça, e elle foi alistar-se no regimento de milícias de Lisboa Occidental [sic, i.e. Oriental (n. do e.).], mais conhecidas por milicias de D. Jorge, ficando primeiramente na 3.a companhia d'esse corpo, e depois na de granadeiros.

A agitação revolucionaria da época; a convivência com alguns homens que acreditavam religiosamente que o 24 de agosto vingaria contra as dificuldades oppostas pelo partido contrario; a vida de quartel, que dá novos hábitos, e altera essencialmente as condições da existência caseira e patriachal, — abriram-lhe um período que entregou Antonio da Silva ás oscilações e aos abysmos da politica.


III


É geralmente sabido, que os dois primeiros quarteis d'este século foram povoados de successos que davam muitos volumes e que pela maior parte estão inéditos.

Ainda mais: muitos acontecimentos passaram sem registo particular, nem publico, e seria hoje extremamente difficil reunir todas as notas para dar inteiro relevo ás paginas da historia contemporanea n'uma serie, pelo assim dizer, ininterrupta de incidentes, de acção e reacção, de estímulos, odios, perseguições, vinganças, que a liberdade protegia em seu interesse, mas offuscando o seu brilho;

e que ao mesmo tempo a liberdade repellia para tornar mais vivida a sua luz; uma época de combates, de lutas terríveis e homericas, que parecia ser impossível empreenderem-se se milhares de testemunhos não o confirmassem:

porque a 1820 succedia 1824 [Vilafrancada, insurreição liderada pelo Infante D. Miguel, em 27 de maio de 1824]; a esta data seguia-se 1828 [inicio do reinado de D. Miguel, legitimado pelas Cortes, em 11 de julho de 1828]; depois vinha 1829 [revolta cartista em Lisboa, em 9 de Janeiro de 1829, comandada pelo brigadeiro Moreira Freire, em 6 de março os revoltosos são enforcados no Cais do Sodré] e 1834 [assinatura da Convenção de Évora Monte, diploma assinado entre liberais e miguelistas, em 26 de Maio de 1834, que pôs termo à Guerra Civil Portuguesa (1828 - 1834)]; depois 1836 [revolução de Setembro, golpe de estado ocorrido em Portugal a 9 de Setembro de 1836, quando chegaram a Lisboa os deputados oposicionistas do norte; Belenzada, contra-golpe de inspiração cartista, que ocorreu na noite de 4 de novembro de 1836], 1837 [revolta dos Marechais, 12 de julho de 1837, sublevação militar fracassada contra o governo de Sá da Bandeira, de inspiração cartista contra o setembrismo, encabeçada pelos duque da Terceira, e duque de Saldanha], 1838 [revoltas de março. Juramento da nova Constituição pela Rainha em 4 de abril de 1838], 1840 [tumultos em Lisboa, no Largo da Estrela, em 11 de agosto de 1840, data do aniversário da vitória liberal na ilha Terceira], 1844 [pronunciamento militar setembrista, em 4 de fevereiro de 1844, em Torres Novas], 1846 [revolução da Maria da Fonte, sublevação popular no Minho em 15 de abril de 1946. Guerra Civil da Patuleia, iniciada a 9 de outubro e finda em 29 de junho de 1847, com a assinatura da convenção do Gramido].

Antonio da Silva, pelo seu caracter, pela sua actividade, pelo seu patriotismo que o convencerade que a felicidade para a sua nação só viria pela liberdade, achou se repetidas vezes com risco de vida própria e oi maior sacrifício da sua familia, envolvido no mais aceso das contendas dos partidos, pendendo sempre o seu trabalho e os seus esforços para o mais avançado.

Assim, na Abrilada, na proclamação do infante D. Miguel, na conspiração do brigadeiro da brigada de marinha, na revolução de Setembro, na revolta dos marechaes, na desastrada lucta da guarda nacional, na sedição de Miguel Augusto, na sublevação de Almeida, na Maria da Fonte, o veterano Silva teve o seu papel, que desempenhou como um heroe, principalmente no espantoso periodo de 1828 a 1834.

Medalha das Campanhas da Liberdade
Imagem: Wikipédia

Na conspiração de 1829, conhecida pela do brigadeiro da brigada de marinha, Antonio da Silva foi preso com outros.

N'uma occasião em que iam a perguntas, com uma forte escolta de armas carregadas, e acompanhados pelo coronel das milícias Andrade Corvo, passou D. Miguel a cavallo e seguido do piquete que o acompanhava nas suas correrias pela capital. Um dos presos, voltando-se para os companheiros, disse-lhes:

— Ahi vae o rei! Curvemo-nos deante d'elle para alcançarmos o perdão!
Antonio da Silva, vivo e prompto nas respostas, acudiu:
— Quem falla ahi em perdão? Só os criminosos é que o imploram!

Os presos calaram e a escolta seguiu o seu destino.

O coronel Corvo, que estimava muito o nosso veterano, apesar de o conhecer exaltado, tambem fingiu que não ouvira aquellas phrases, e não ocorreu outra novidade.


IV


Antonio da Silva, viveu, no Bairro Alte, em tres casas: na rua dos Calafates, onde hoje vemos a farmácia do sr. Oliveira Abreu; na travessa da Queimada, n'um prédio que em os n.os 42 e 43; e na rua da Barroca, n'um rez-de chaussée que tem o n.° 22.

O bairro Alto, de 1828 a 1833, se foi, como ainda sabem numerosas pessoas, foco de conspiradores e conspirações; foi igualmente a estação de homens, beleguins [agente policial ou judicial, esbirro] e espiões, que o povo temia e detestava.

Como centro de reunião de liberaes eram aqui apontadas, especialmente, dois locaes: o palácio do nobre marques de Ficalho, que fez todo o mal que poude ás insólitas pretensões dos partidários do infante D. Miguel, para que trumphasse a causa justa dos amigos dedicados do imperador D. Pedro IV e de sua augusta filha a sr.a D. Maria II; e a humilde casa de Antonio da Silva.

Os espiões titulares, segundo a voz do povo, não tiravam os olhos d'essas casas, e parecia que se reproduziam para as vigiar. Ás esquinas das ruas da Barroca, do Carvalho e dos Caetanos, era certo encontrar-se a cada instante ou o Manuel Quadrilheiro; ou o Matta Espião, de quem a populaça se vingou no dia 24 de julho; ou o Senhor dos Passos de Argel, ou o Segeiro, da rua dos Calafates, ou o Louceiro, do Loreto, e outros sujeitos, que tinham fama n'essa epoca pelas suas proezas; e tambem, sem duvida, com taes olheiros e espiões, não faltou na intendência da policia a nota dos passos, hora a hora, das pessoas suspeitas, o que por então nada tinha de extraordinario.

A pobre casa da rua da Barroca era, á noite, como um formigueiro de liberaes e conspiradores. Ali recebiam a Chronica constitucional, do Porto que um lia em voz alta para os demais ouvirem;

ali recebiam noticias e papeis avulsos clandestinos; ali ajustavam planos de ataque e defeza contra a vigilância da policia; ali, emfim, faziam contratos sobre a deserções para o Porto.

Entre as damas, que auxiliavam a causa liberal, figurava em primeira linha a sr.a D. Joaquina de Lencastre, depois viscondessa do Roguengo e condessa de Avilez celebrada esposa do general Jorge de Avilez. Morava na Junqueira. Todos sabiam que ninguem a dominava nas suas convicções, que ninguem podia excedel-a nos sentimentos que a impeliam para trabalhar em prol do restabelecimento do throno da sra.a D. Maria II.

Estava ella ao corrente do que se fazia em Lisboa para contrariar o governo do infante D. Miguel, a augmentar as forças dos defensores do Porto. Mandou por isso chamar o Antonio da Silva e disse-lhe:

— Conto com o sr. Silva.
— Para que, minha senhora? Valho pouco...
— Pelo contrario, sei que uma pessoa póde fiar-se na sua lealdade e no seu braço?
— Para a defender, sim, minha senhora, o meu braço valerá alguma cousa.
— Não preciso agora de defeza sr. Silva; tenho o meu coração que me resguarda de perigos; mas para defendermos uma causa...
— Dirá v. ex.a.
— É o meu trabalho todos os dias Encontramo-nos nas aspirações.
— Bem o sabia.
— Que devo fazer?
— Vou fornecer-lhe algum dinheiro. Com elle o sr. Silva alliciará soldados, paisanos, todos que queiram prestar se a ir socorrer os nossos amigos no Porto. — Prompto; corro já a executar as suas ordens, ainda que me custe a vida.
— Obrigada! Obrigada!

Dentro de alguns dias, António da Silva tinha conseguido fazer sair de Lisboa para o cerco do Porto não menos de 170 homens, alguns mantimentos, armas e roupas.

O seu processo era simples e arriscadissimo. Disfarçava-se, ora de um modo, ora de outro; e ás vezes com trajes femininos, capote e lenço, e assim acompanhava os que partiam de Lisboa até ás estancias [armazéns, ancoradouros] da Boa Vista, aproveitando as saídas d'ellas para a praia, ou para os boqueirões [aberturas, canais], onde embarcava aquelles homens em escaleres inglezes, que protegiam a fuga para bordo dos seus navios.

A estes actos audaciosos juntou elle um,, que fez com que os espias do Bairro alto, que umas vezes semostravam benévolos para com Antonio da Silva, outras o temiam, e outras precia quererem perseguil-o, fitassem a sua cabeça levantada e orgulhosa como ornamentação obrigada das forças que se erguiam para o martyrio dos liberaes.

Tinham-lhe nascido no lar, açoutado por variadas comoções, dois gemeos. A esposa mostrou-lh'os dizendo:

— Um menino e uma menina.
— Ainda bem! Terá um o nome de Pedro de Alcantara e a outra o de Maria da Gloria; e se não posso rogar ao imperador para ser meu compadre, elle saberá como baptisei estes filhos.

Toda a freguesia da Encarnação fallou deste facto. O baptisado effectuou-se na hora mais adiantada do dia. As criancinhas iam vestidas de azul e branco. Trinta convidados de gala, com laços azues e tochas acesas. Era de dar nas vistas. Foi uma cousa inacreditável. Não se podia exceder em temoridade.

N'esse dia os quadrilheiros deixaram-n'o em paz; mas em melhor occasião, assaltaram-lhe a casa, e se elle senão lembrasse de fugir para a de um vizinho, e, esconder-se no panno da chaminé, não teria saido de novo incólume das suas redes. Protegia-o boa estrella!

Na vida do nosso veterano deparam-se-me muitas d'essas acções de ousadia e temeridade; e tanto que nunca lhes faltaram os documentos mais honrosos de officiaes e superiores, durante o tempo que serviu no exercito, e na alfandega, onde esteve por muitos annos e onde se reformou.


V


Os veteranos, seus companheiros, deviam-lhe serviços de valia sendo os mais importantes a fundação da associação dos veteranos da liberdade, de que elle foi thesoureiro;

e as instancias, junto de velhos amigos seus nas duas casas do parlamento, para que o estado tirasse da miséria a que estavam condemnados alguns desses benemeritos, que derramaram o seu sangue em defensa dos princípios liberaes.

António da Silva, o Veterano da Bandeira, falleceu com 78 annos de edade em junho d'este anno, tendo ao lado seus três filhos, que lhe restavam de quatorze, e que o honravam, os srs. Francisco Emygdio da Silva , primeiro tachygrapho da camara dos deputados;
Já falleceu. Era um santo homem. Estimavam-no todos no quadro tachygraphico e respeitavam-no porque sabia muito bem da sua profissão. O que muitos ignoravam era que elle, filho devotado e obediente, educado sem alardos e com a sobriedade de um portuguez de lei, depois de emancipado e depois de exercer sem faltas e com brilhantismo a sua profissão, em que adquirira um primeiro logar, quando recebia o ordenado ia religiosamente entregá-lo aos paes para que o applicassem como entendessem nas despezas geraes da casa, reservando-lhe apenas o de que elle necessitasse para gastar com a renovação do seu vestuário. Prescindia de commodos e de modas. Exemplar filho! (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem)

Antonio Avelino Amaro da Silva, antigo capitão de navios e engenheiro civil;
Esteve no Brasil e ve-io de lá com alguns meios ganhos em serviço de engenharia, sobretudo em medição de terrenos no interior da província do Rio de Janeiro, onde se relacionira com alguns brasileiros de representação, como o fallecido Joaquim Saldanha Marinho. Também já é fallecido [falecera em 1889]. Aqui viveu modestamente e de vez em quando escrevia alguma cousa para umas memorias intimas, que não chegou a publicar. Deu ao prelo um romance histórico baseado em factos das campanhas da liberdade. Descreve com acerto e em boa linguagem o que passou, no concelho de Almada, quando as limitadas forças liberaes trouxeram á ponta de baioneta a tropa do commando de Telles Jordão até Cacilhas, onde foi morto esse famigerado official miguelista, ao qual não faltava bravura e crueza. Este trabalho foi muito bem recebido e elogiado. (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

e Christiano Gerardo da Silva , professor de musica e distincto artista.
Foi um violinista distincto e por vezes regeu orchestras em salões particulares e theatros. Está retirado da vida artistica. É proprietário em Lisboa. Vive, edoso e doente. (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

Tinha a medalha com o algarismo 5 das campanhas da liberdade e a junta do Porto, por um acto de bravura, concedera-lhe a Torre e Espada, em 1846.

Medalha da Torre e Espada
Imagem: Presidência da República Portuguesa

Comecei a conhecer e estimar este bom ancião por 1849 ou 1850. Preparava-se a regeneração. Elle auxiliava, como podia, os que conspiravam em Lisboa desde os desastres da Maria da Fonte, e exclamava:

— Se os Cabraes matam a liberdade, expulsemos os Cabraes!

Dias antes de morrer, visitei-o e abracei-o. A sua despedida foi:

— Aproxima-se o dia 24 de julho. Não vê o meu estado?... Tenho os pés na cova. O meu desejo era, sequer uma vez, poder abraçar a minha bandeira...

Bandeira nacional de Portugal de 1830 a 1910.
Bandeira usada pelos Liberais.
Imagem: Wikipédia

Parou como se estivesse cansado; mas o cérebro d'elle funcionava regularmente. Uma lagrima perdeu-se-lhe por entre as rugas do rosto. E acrescentou:

— Paciencia! Termina a minha peregrinação. Ahi ficam os meus filhos. Amei-os tanto como a liberdade...

E dizia a verdade.
O António da Silva, pela sua dedicação á causa liberal, pelo respeito á memoria do imperador e rei D. Pedro IV e do seu dilecto general Sá da Bandeira, que tantos serviços prestou com grandíssimo sacrifício do seu sangue e dos seus haveres para a consolidação do throno da rainha D. Maria II, nao se esquecera nunca dos seus companheiros, que se oppuzeram com brio e tenacidade aos desvarios e oppressões ignominiosas da usurpação miguelina, e auxiliava, dentro das suas pequenas forças monetárias, para lhes minorar a miséria.

Foi um dos que mais poderosamente contribuíram para a creação da Associação dos Veteranos da Liberdade.

Refere Simão José da Luz, na sua interessantíssima biographía do ínclito Marquez de Sá da Bandeira, quando descreve no tomo nas exéquias solemnes celebradas na parochial egreja da Encarnação, em suffragio da alma desse que foi valente e sábio militar, que á porta da mesma egreja estava um respeitável veterano a pedir que o auxiliassem na obra de caridade a favor dos companheiros daquelle general que, por doença ou indigência, nào podiam comparecer naquelle piedoso acto.

O Marquez fallecera em Lisboa no dia 7 de janeiro 1876 e o cadáver foi transportado para o cemitério de Santarém, com as honras devidas, onde ficou em campa, com o epitaphio determinado em nota testamentária do illustre finado.

As exéquias solemnes realisaram-se no dia 21 de fevereiro do citado anno, proferindo a oração fúnebre o afamado orador sagrado, rev. cónego da Sé de Braga, Alves Matheus. Na pag. 509, do mencionado tomo II, lê-se esta singela nota: "Á porta do templo pedia esmola para os pobres soldados da liberdade o fundador da Associação dos Veteranos, o sr. António da Silva, que ainda pôde realizar a quantia de 15$500 réis." (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

23 de julho, 1879.

Brito Aranha. (1)



(1) Pedro Wenceslau de Brito Aranha, Factos e homens do meu tempo, memórias de um jornalista, Lisboa, A.M. Pereira, 1908, 1042 págs.