Mostrar mensagens com a etiqueta 1844. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 1844. Mostrar todas as mensagens

domingo, 19 de junho de 2016

O veterano da bandeira

I


Ouvindo o troar da artilheria, que annuncia á família liberal uma grande festa; e vendo o desfilar do cortejo cívico, que nos aviva um notável facto da historia contemporanea, inscripto com letras de oiro nos fastos nacionaes, notamos uma falta: entre aquelles beneméritos, cujos cabellos encaneceram no serviço da pátria e da liberdade;
Este capitulo, ou trecho, foi escripto para o Diário Illustrado, de julho 1879, e agora sáe com algumas notas que para ahi não pude mandar.
entre aquelles cidadães, cujas virtudes e cuja dedicação patriótica, foram acrisoladas por infinitas provações; entre aquelles semblantes requeimados pelas insolações em numerosas marchas, pelas descargas de cem refregas e combates;

entre aquelles veteranos, exemplares de abnegação e heroismo; entre as figuras venerandas d'aquelle cortejo sympathico, que milhares dos do povo rodeiam com sinceridade e enthusiasmo, pelo que vale e pelo que symbolisa; entre aquelles homens falta um:

António Silva, o veterano da liberdade, Diário Illustrado, 24 de julho 1879.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

É o que a gravura do Diario Illustrado representa hoje, e do qual me coube a honra n'estas paginas, a quem tem dado tamanho lustre escriptores esclarecidos de deixar aqui algumas notas biográficas;

É o de um veterano, popular, que soube aliar o respeito e a amisade dos grandes e humildes, porque elle era grande pelo seu coração e pela sua inexcedível bravura; e humilde pelo seu berço e pelo seu viver chão, simples, patriachal;

É, emfim, o Silva das Barbas brancas, como o cognominava o povo, quando elle em dias duplices lançava para fóra do fino peitilho da camisa aquellas alvissimas barbas, que lhe davam o aspecto dos homens bons e de bom conselho de tempos áureos; é o Veterano da Bandeira, como depois o appellidaram quando foram inaugurados os festejos do 24 de julho.
Esta commemoração deixou de fazer-se por circumstancias politicas, que não vem para aqui referirem-se; mas a principal, no meu entender, foi a do esmorecimento na lembrança de factos, que não deviam esquecer para lição dos vindouros (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, op. cit.).

Ao comtemplar o seu retrato parece-me ainda vél-o: sadio, rosado, alegre como um moço, risonho como se o sol d'aquelle memorável dia fosse o sol do melhor dia das suas primaveras; direito como um recruta, não vergando ao peso dos annos, mas erguendo o rosto com certo desvanecimento para a bandeira, que era para elle, — e para todos nós, filhos da grande familia liberal, — a sua idéa constante, o seu symbolo, a religião da liberdade!


II


Pensava-se em outro tempo, e divulgava-se que as biografias só podiam fazer-se dos grandes embora elles não tivessem a recomendalos senão os pergaminhos e os serviços dos antepassados; e isto acreditava-se, tanto mais quanto era certoque a lisonja cortezã o traduzia em facto;

pois as idéas modernas transformaram o uso, e se se deu aos grandes, que realmente o são, por suas virtudes e qualidades, o preito sincero e condigno do respeito e admiração, tambem não se pode hoje regatear se aos humildes, que se levantaram a maior altura na cooperação para a victoria dos nobres princípios o elogio que lhes cabe pelas suas nobres acções e o lugar que lhes pertence no pantheon glorioso dos que se distinguiram em prol da pátria.

Não tiremos um desses logares a Antonio da Silva.

O venerando ancião nasceu aos 31 de julho de 1801 no logar de Adão Lobo, termo da villa do Cadaval; e veiu para Lisboa fugido com a sua familia, e a pé, não tendo ainda 7 annos de edade, quando Junot invadiu Portugal com as forças do seu commando.

Percorrendo a pé as doze léguas que o separavam da capital, e vendo já afflicta a familia porque fugia da sua terra sem recursos, e sem pão, era descer o primeiro degrau na escala da adversidade.

Chegando a Lisboa, a familia Silva teve que separar-se do seu pequeno Antonio e entregal-o ao cuidado das pessoas, que o protegeram na mocidade.

Discorreram, portanto, os primeiros annos da sua estada na capital sem incidente notavel, embora conhecessem os amigos que António da Silva roubava algumas horas ao trabalho e ao descanso para se relacionar com os homens de esphera mais elevada e tomar conhecimento das occorrencias politicas, enthusiasmando-se com o alvorecer das idéas liberaes que trouxeram, na proeminencia dos factos contemporaneos, Fernandes Thomaz, Ferreira Borges, fr. Francisco de S. Luiz e outros beneméritos, e pelos esforços destes inclitos varões, o 24 de agosto de 1820 [pronunciamento militar do Porto, que levou à formação da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino presidida pelo brigadeiro António da Silveira Pinto da Fonseca, e ao inicio do periodo conhecido como vintismo].

Porém, no meio dos seus enthusiasmos, António da Silva pagava o tributo da mocidade prendendo-se n'uns sinceros amores a uma joven de apreciáveis dotes do coração, D. Joanna Francisca da Costa e Silva, filha de um bom homem de Lamego, Manuel da Costa Telles Almas.

Em 1821 encontramol-o já casado, mas interrompida a lua de mel por uma eventualidade da politica, que o tirava dos braços affectuosissimos da esposa para o arremessar ás rudes fainas da caserna.

Tinham n'o intimado para sentar praça, e elle foi alistar-se no regimento de milícias de Lisboa Occidental [sic, i.e. Oriental (n. do e.).], mais conhecidas por milicias de D. Jorge, ficando primeiramente na 3.a companhia d'esse corpo, e depois na de granadeiros.

A agitação revolucionaria da época; a convivência com alguns homens que acreditavam religiosamente que o 24 de agosto vingaria contra as dificuldades oppostas pelo partido contrario; a vida de quartel, que dá novos hábitos, e altera essencialmente as condições da existência caseira e patriachal, — abriram-lhe um período que entregou Antonio da Silva ás oscilações e aos abysmos da politica.


III


É geralmente sabido, que os dois primeiros quarteis d'este século foram povoados de successos que davam muitos volumes e que pela maior parte estão inéditos.

Ainda mais: muitos acontecimentos passaram sem registo particular, nem publico, e seria hoje extremamente difficil reunir todas as notas para dar inteiro relevo ás paginas da historia contemporanea n'uma serie, pelo assim dizer, ininterrupta de incidentes, de acção e reacção, de estímulos, odios, perseguições, vinganças, que a liberdade protegia em seu interesse, mas offuscando o seu brilho;

e que ao mesmo tempo a liberdade repellia para tornar mais vivida a sua luz; uma época de combates, de lutas terríveis e homericas, que parecia ser impossível empreenderem-se se milhares de testemunhos não o confirmassem:

porque a 1820 succedia 1824 [Vilafrancada, insurreição liderada pelo Infante D. Miguel, em 27 de maio de 1824]; a esta data seguia-se 1828 [inicio do reinado de D. Miguel, legitimado pelas Cortes, em 11 de julho de 1828]; depois vinha 1829 [revolta cartista em Lisboa, em 9 de Janeiro de 1829, comandada pelo brigadeiro Moreira Freire, em 6 de março os revoltosos são enforcados no Cais do Sodré] e 1834 [assinatura da Convenção de Évora Monte, diploma assinado entre liberais e miguelistas, em 26 de Maio de 1834, que pôs termo à Guerra Civil Portuguesa (1828 - 1834)]; depois 1836 [revolução de Setembro, golpe de estado ocorrido em Portugal a 9 de Setembro de 1836, quando chegaram a Lisboa os deputados oposicionistas do norte; Belenzada, contra-golpe de inspiração cartista, que ocorreu na noite de 4 de novembro de 1836], 1837 [revolta dos Marechais, 12 de julho de 1837, sublevação militar fracassada contra o governo de Sá da Bandeira, de inspiração cartista contra o setembrismo, encabeçada pelos duque da Terceira, e duque de Saldanha], 1838 [revoltas de março. Juramento da nova Constituição pela Rainha em 4 de abril de 1838], 1840 [tumultos em Lisboa, no Largo da Estrela, em 11 de agosto de 1840, data do aniversário da vitória liberal na ilha Terceira], 1844 [pronunciamento militar setembrista, em 4 de fevereiro de 1844, em Torres Novas], 1846 [revolução da Maria da Fonte, sublevação popular no Minho em 15 de abril de 1946. Guerra Civil da Patuleia, iniciada a 9 de outubro e finda em 29 de junho de 1847, com a assinatura da convenção do Gramido].

Antonio da Silva, pelo seu caracter, pela sua actividade, pelo seu patriotismo que o convencerade que a felicidade para a sua nação só viria pela liberdade, achou se repetidas vezes com risco de vida própria e oi maior sacrifício da sua familia, envolvido no mais aceso das contendas dos partidos, pendendo sempre o seu trabalho e os seus esforços para o mais avançado.

Assim, na Abrilada, na proclamação do infante D. Miguel, na conspiração do brigadeiro da brigada de marinha, na revolução de Setembro, na revolta dos marechaes, na desastrada lucta da guarda nacional, na sedição de Miguel Augusto, na sublevação de Almeida, na Maria da Fonte, o veterano Silva teve o seu papel, que desempenhou como um heroe, principalmente no espantoso periodo de 1828 a 1834.

Medalha das Campanhas da Liberdade
Imagem: Wikipédia

Na conspiração de 1829, conhecida pela do brigadeiro da brigada de marinha, Antonio da Silva foi preso com outros.

N'uma occasião em que iam a perguntas, com uma forte escolta de armas carregadas, e acompanhados pelo coronel das milícias Andrade Corvo, passou D. Miguel a cavallo e seguido do piquete que o acompanhava nas suas correrias pela capital. Um dos presos, voltando-se para os companheiros, disse-lhes:

— Ahi vae o rei! Curvemo-nos deante d'elle para alcançarmos o perdão!
Antonio da Silva, vivo e prompto nas respostas, acudiu:
— Quem falla ahi em perdão? Só os criminosos é que o imploram!

Os presos calaram e a escolta seguiu o seu destino.

O coronel Corvo, que estimava muito o nosso veterano, apesar de o conhecer exaltado, tambem fingiu que não ouvira aquellas phrases, e não ocorreu outra novidade.


IV


Antonio da Silva, viveu, no Bairro Alte, em tres casas: na rua dos Calafates, onde hoje vemos a farmácia do sr. Oliveira Abreu; na travessa da Queimada, n'um prédio que em os n.os 42 e 43; e na rua da Barroca, n'um rez-de chaussée que tem o n.° 22.

O bairro Alto, de 1828 a 1833, se foi, como ainda sabem numerosas pessoas, foco de conspiradores e conspirações; foi igualmente a estação de homens, beleguins [agente policial ou judicial, esbirro] e espiões, que o povo temia e detestava.

Como centro de reunião de liberaes eram aqui apontadas, especialmente, dois locaes: o palácio do nobre marques de Ficalho, que fez todo o mal que poude ás insólitas pretensões dos partidários do infante D. Miguel, para que trumphasse a causa justa dos amigos dedicados do imperador D. Pedro IV e de sua augusta filha a sr.a D. Maria II; e a humilde casa de Antonio da Silva.

Os espiões titulares, segundo a voz do povo, não tiravam os olhos d'essas casas, e parecia que se reproduziam para as vigiar. Ás esquinas das ruas da Barroca, do Carvalho e dos Caetanos, era certo encontrar-se a cada instante ou o Manuel Quadrilheiro; ou o Matta Espião, de quem a populaça se vingou no dia 24 de julho; ou o Senhor dos Passos de Argel, ou o Segeiro, da rua dos Calafates, ou o Louceiro, do Loreto, e outros sujeitos, que tinham fama n'essa epoca pelas suas proezas; e tambem, sem duvida, com taes olheiros e espiões, não faltou na intendência da policia a nota dos passos, hora a hora, das pessoas suspeitas, o que por então nada tinha de extraordinario.

A pobre casa da rua da Barroca era, á noite, como um formigueiro de liberaes e conspiradores. Ali recebiam a Chronica constitucional, do Porto que um lia em voz alta para os demais ouvirem;

ali recebiam noticias e papeis avulsos clandestinos; ali ajustavam planos de ataque e defeza contra a vigilância da policia; ali, emfim, faziam contratos sobre a deserções para o Porto.

Entre as damas, que auxiliavam a causa liberal, figurava em primeira linha a sr.a D. Joaquina de Lencastre, depois viscondessa do Roguengo e condessa de Avilez celebrada esposa do general Jorge de Avilez. Morava na Junqueira. Todos sabiam que ninguem a dominava nas suas convicções, que ninguem podia excedel-a nos sentimentos que a impeliam para trabalhar em prol do restabelecimento do throno da sra.a D. Maria II.

Estava ella ao corrente do que se fazia em Lisboa para contrariar o governo do infante D. Miguel, a augmentar as forças dos defensores do Porto. Mandou por isso chamar o Antonio da Silva e disse-lhe:

— Conto com o sr. Silva.
— Para que, minha senhora? Valho pouco...
— Pelo contrario, sei que uma pessoa póde fiar-se na sua lealdade e no seu braço?
— Para a defender, sim, minha senhora, o meu braço valerá alguma cousa.
— Não preciso agora de defeza sr. Silva; tenho o meu coração que me resguarda de perigos; mas para defendermos uma causa...
— Dirá v. ex.a.
— É o meu trabalho todos os dias Encontramo-nos nas aspirações.
— Bem o sabia.
— Que devo fazer?
— Vou fornecer-lhe algum dinheiro. Com elle o sr. Silva alliciará soldados, paisanos, todos que queiram prestar se a ir socorrer os nossos amigos no Porto. — Prompto; corro já a executar as suas ordens, ainda que me custe a vida.
— Obrigada! Obrigada!

Dentro de alguns dias, António da Silva tinha conseguido fazer sair de Lisboa para o cerco do Porto não menos de 170 homens, alguns mantimentos, armas e roupas.

O seu processo era simples e arriscadissimo. Disfarçava-se, ora de um modo, ora de outro; e ás vezes com trajes femininos, capote e lenço, e assim acompanhava os que partiam de Lisboa até ás estancias [armazéns, ancoradouros] da Boa Vista, aproveitando as saídas d'ellas para a praia, ou para os boqueirões [aberturas, canais], onde embarcava aquelles homens em escaleres inglezes, que protegiam a fuga para bordo dos seus navios.

A estes actos audaciosos juntou elle um,, que fez com que os espias do Bairro alto, que umas vezes semostravam benévolos para com Antonio da Silva, outras o temiam, e outras precia quererem perseguil-o, fitassem a sua cabeça levantada e orgulhosa como ornamentação obrigada das forças que se erguiam para o martyrio dos liberaes.

Tinham-lhe nascido no lar, açoutado por variadas comoções, dois gemeos. A esposa mostrou-lh'os dizendo:

— Um menino e uma menina.
— Ainda bem! Terá um o nome de Pedro de Alcantara e a outra o de Maria da Gloria; e se não posso rogar ao imperador para ser meu compadre, elle saberá como baptisei estes filhos.

Toda a freguesia da Encarnação fallou deste facto. O baptisado effectuou-se na hora mais adiantada do dia. As criancinhas iam vestidas de azul e branco. Trinta convidados de gala, com laços azues e tochas acesas. Era de dar nas vistas. Foi uma cousa inacreditável. Não se podia exceder em temoridade.

N'esse dia os quadrilheiros deixaram-n'o em paz; mas em melhor occasião, assaltaram-lhe a casa, e se elle senão lembrasse de fugir para a de um vizinho, e, esconder-se no panno da chaminé, não teria saido de novo incólume das suas redes. Protegia-o boa estrella!

Na vida do nosso veterano deparam-se-me muitas d'essas acções de ousadia e temeridade; e tanto que nunca lhes faltaram os documentos mais honrosos de officiaes e superiores, durante o tempo que serviu no exercito, e na alfandega, onde esteve por muitos annos e onde se reformou.


V


Os veteranos, seus companheiros, deviam-lhe serviços de valia sendo os mais importantes a fundação da associação dos veteranos da liberdade, de que elle foi thesoureiro;

e as instancias, junto de velhos amigos seus nas duas casas do parlamento, para que o estado tirasse da miséria a que estavam condemnados alguns desses benemeritos, que derramaram o seu sangue em defensa dos princípios liberaes.

António da Silva, o Veterano da Bandeira, falleceu com 78 annos de edade em junho d'este anno, tendo ao lado seus três filhos, que lhe restavam de quatorze, e que o honravam, os srs. Francisco Emygdio da Silva , primeiro tachygrapho da camara dos deputados;
Já falleceu. Era um santo homem. Estimavam-no todos no quadro tachygraphico e respeitavam-no porque sabia muito bem da sua profissão. O que muitos ignoravam era que elle, filho devotado e obediente, educado sem alardos e com a sobriedade de um portuguez de lei, depois de emancipado e depois de exercer sem faltas e com brilhantismo a sua profissão, em que adquirira um primeiro logar, quando recebia o ordenado ia religiosamente entregá-lo aos paes para que o applicassem como entendessem nas despezas geraes da casa, reservando-lhe apenas o de que elle necessitasse para gastar com a renovação do seu vestuário. Prescindia de commodos e de modas. Exemplar filho! (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem)

Antonio Avelino Amaro da Silva, antigo capitão de navios e engenheiro civil;
Esteve no Brasil e ve-io de lá com alguns meios ganhos em serviço de engenharia, sobretudo em medição de terrenos no interior da província do Rio de Janeiro, onde se relacionira com alguns brasileiros de representação, como o fallecido Joaquim Saldanha Marinho. Também já é fallecido [falecera em 1889]. Aqui viveu modestamente e de vez em quando escrevia alguma cousa para umas memorias intimas, que não chegou a publicar. Deu ao prelo um romance histórico baseado em factos das campanhas da liberdade. Descreve com acerto e em boa linguagem o que passou, no concelho de Almada, quando as limitadas forças liberaes trouxeram á ponta de baioneta a tropa do commando de Telles Jordão até Cacilhas, onde foi morto esse famigerado official miguelista, ao qual não faltava bravura e crueza. Este trabalho foi muito bem recebido e elogiado. (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

e Christiano Gerardo da Silva , professor de musica e distincto artista.
Foi um violinista distincto e por vezes regeu orchestras em salões particulares e theatros. Está retirado da vida artistica. É proprietário em Lisboa. Vive, edoso e doente. (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

Tinha a medalha com o algarismo 5 das campanhas da liberdade e a junta do Porto, por um acto de bravura, concedera-lhe a Torre e Espada, em 1846.

Medalha da Torre e Espada
Imagem: Presidência da República Portuguesa

Comecei a conhecer e estimar este bom ancião por 1849 ou 1850. Preparava-se a regeneração. Elle auxiliava, como podia, os que conspiravam em Lisboa desde os desastres da Maria da Fonte, e exclamava:

— Se os Cabraes matam a liberdade, expulsemos os Cabraes!

Dias antes de morrer, visitei-o e abracei-o. A sua despedida foi:

— Aproxima-se o dia 24 de julho. Não vê o meu estado?... Tenho os pés na cova. O meu desejo era, sequer uma vez, poder abraçar a minha bandeira...

Bandeira nacional de Portugal de 1830 a 1910.
Bandeira usada pelos Liberais.
Imagem: Wikipédia

Parou como se estivesse cansado; mas o cérebro d'elle funcionava regularmente. Uma lagrima perdeu-se-lhe por entre as rugas do rosto. E acrescentou:

— Paciencia! Termina a minha peregrinação. Ahi ficam os meus filhos. Amei-os tanto como a liberdade...

E dizia a verdade.
O António da Silva, pela sua dedicação á causa liberal, pelo respeito á memoria do imperador e rei D. Pedro IV e do seu dilecto general Sá da Bandeira, que tantos serviços prestou com grandíssimo sacrifício do seu sangue e dos seus haveres para a consolidação do throno da rainha D. Maria II, nao se esquecera nunca dos seus companheiros, que se oppuzeram com brio e tenacidade aos desvarios e oppressões ignominiosas da usurpação miguelina, e auxiliava, dentro das suas pequenas forças monetárias, para lhes minorar a miséria.

Foi um dos que mais poderosamente contribuíram para a creação da Associação dos Veteranos da Liberdade.

Refere Simão José da Luz, na sua interessantíssima biographía do ínclito Marquez de Sá da Bandeira, quando descreve no tomo nas exéquias solemnes celebradas na parochial egreja da Encarnação, em suffragio da alma desse que foi valente e sábio militar, que á porta da mesma egreja estava um respeitável veterano a pedir que o auxiliassem na obra de caridade a favor dos companheiros daquelle general que, por doença ou indigência, nào podiam comparecer naquelle piedoso acto.

O Marquez fallecera em Lisboa no dia 7 de janeiro 1876 e o cadáver foi transportado para o cemitério de Santarém, com as honras devidas, onde ficou em campa, com o epitaphio determinado em nota testamentária do illustre finado.

As exéquias solemnes realisaram-se no dia 21 de fevereiro do citado anno, proferindo a oração fúnebre o afamado orador sagrado, rev. cónego da Sé de Braga, Alves Matheus. Na pag. 509, do mencionado tomo II, lê-se esta singela nota: "Á porta do templo pedia esmola para os pobres soldados da liberdade o fundador da Associação dos Veteranos, o sr. António da Silva, que ainda pôde realizar a quantia de 15$500 réis." (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

23 de julho, 1879.

Brito Aranha. (1)



(1) Pedro Wenceslau de Brito Aranha, Factos e homens do meu tempo, memórias de um jornalista, Lisboa, A.M. Pereira, 1908, 1042 págs.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Iconografia de Lisboa (9.ª parte)

Ainda no último quartel do século XVIII foi Lisboa visitada por vários artistas e sábios estrangeiros que vieram a Espanha e a Portugal, em viagem de recreio ou científica, para colher elementos que interessavam aos seus estudos ou aos seus espíritos.

A View of the PRAÇA DO COMMERCIO at LISBON, taken from the Tagus : the original Drawing by Noel in the possession of Gerard de Visme Esq.r / Drawn by Noel ; Engraved by Wells.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
Navios e barcos, num deles carregando um soldado e um padre, aproximam o porto de Lisboa no Rio Tejo. À esquerda a Praça do Comércio com a estátua equestre de D. José I. Ao centro vêem-se as torres da Sé acima dos telhados e ao fundo o castelo de S. Jorge sobre uma colina.

in British Library
Citaremos os seguintes artistas:

a) — Jean Alexandre Noël, pintor francês de marinhas e paisagens, que por várias vezes veio a Lisboa, uma das quais em 1780, onde pintou uma vista da "Torre de Belém", passada para gravura em cobre por Gaspar Fróis Machado cm 1783, como disse;

1500 Almada concelho Arte Gravura Alexandre Jean Noel Torre de Belem 02.jpg

8 quadros com diferentes vistas, das quais 5 de Lisboa, mandadas fazer por um rico inglês Gerard de Visme, e gravadas a água-tinta por J. Wells, de 1793 a 1795;

The Harbour of Lisbon, segundo Alexandre Jean Noël, 1796.

uma vista panorâmica de Lisboa e seu porto, gravada em cobre por Alix; além de vários desenhos a lápis, que se conservam num álbum no Museu de Arte Antiga.

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
Imagem: FRESS

b) — Jean Baptista Pillement, que algumas temporadas veio passar em Lisboa, a última das quais em 1780;

Vista de Lisboa, Jean Baptiste Pillement.
Imagem: Viático de Vagamundo

c) — o pintor Nicolas [Louis Albert] Delarive [Delerive] (1755-1813);

Lisboa, Feira da Ladra na Praça da Alegria, Nicolas Delarive, aspecto na década de 1810.
Imagem: MNAA

d) e) — O duque de Chatelet, que viajou por Portugal em 1777, e o arquitecto James Murphy, que aqui esteve também, deixaram nas relações impressas das suas viagens, as vistas de alguns trechos olisiponenses.

Recuperando alguns dos artigos já publicados, pela nossa parte, faremos a propósito algumas referências:

a) — Rev. William Morgan Kinsey, Portugal Illustrated in a series of letters, 1827;

Belem Castle, Rev. William Morgan Kinsey, Portugal Illustrated in a series of letters, 1827.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

b) — Robert Batty (1789 – 1848), ilustrador e topógrafo que serviu na Guerra Peninsular, 1809 - 1814, e que, como Ajudante de Campo do General William Henry Clinton, regressou a Portugal (1826 - 1827). Foi o  autor de uma série de vistas de lisboa publicadas em Select Views of some of the Principal Cities of Europe, London, Moon, Boys, and Graves, 1832.

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.

Select Views of some of the Principal Cities of Europe inclui, por esta ordem, as gravuras "Torre de Belém", "Convento de S. Jerónimo em Belém", "Lisboa vista da rua de S. Miguel",

Lisbon from the Rua de San Miguel, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

"Lisboa vista da colina da capela de N.a Senhora do Monte", "O Largo do Pelourinho" e "Lisboa vista de Almada".

Lisbon from the chapel hill of Nossa Senhora do Monte, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Como na abordagem, prévia, tratada no artigo Originais de Roberto Batty, sabemos ainda existir outras imagens, que representam, o Convento de N.a Senhora da Graça (três versões) e a Torre do Bugio.

Como consequência das agitações políticas que em Portugal perturbaram toda a sua vida nos princípios do século XIX, o renascimento artístico que com bons auspícios se havia inaugurado, decaiu consideravelmente, e, pelo que respeita a iconografia de Lisboa, apenas podemos citar as estampas que acompanham os 2 volumes do "Jornal de Bellas Artes ou Mnémosine Lusitana" (1816/17), gravuras em cobre de P. A. Cavroé e desenhos de Fonseca filho (António Manuel da Fonseca).

Mas devido à descoberta do processo litográfico e à invenção da propaganda noticiosa, política e artística, que, por meio de publicações periódicas, revistas e jornais ilustrados, cerca do ano 1830 começou em Inglaterra, França, Alemanha, Itália, etc., foram estes métodos adoptados entre nós, nos princípios do segundo quartel do dito século, surgindo, e aumentando no decorrer do mesmo, uma plêiade de artistas nacionais, especializados em cada um dos processos de reprodução de desenhos, cujo número, na representação de aspectos da cidade, de edifícios, e de outros objectos com ela relacionados, ultrapassou rapidamente em muito o dos estrangeiros que também se ocuparam dos mesmos assuntos olisiponenses, ao contrário do que acontecera anteriormente.

Vista oriental de Lisboa tomada do jardim de S. Pedro de Alcântara, litografia Sousa e Barreto, 1844.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Cremos que as primeiras obras periódicas em que se publicaram estampas de Lisboa, depois da "Mnémosine Lusitana" (1816/17), foram principalmente as seguintes:

"O Recreio" (1835 a 1842), com litografias não assinadas;
"Jornal Encyclopedico" (1836/37), com litografias;
"O Panorama" (1837 a 1868), com gravuras em madeira.

A gravura em cobre foi abandonada quase por completo nestas publicações periódicas (jornais, como lhes chamavam, imitando a denominação francesa), e a gravura em madeira e a litografia, ao principio bastante toscas, foram-se desenvolvendo paralelamente, podendo dizer-se que as primeiras que aparecem mais correctas são: as de A Illustração (1852), e do semanário A Illustração Luso-Brazileira (1856 a 1859), pelo que respeita a gravuras em madeira, desenhadas ou feitas por Manuel Bordalo Pinheiro, Nogueira da Silva, Barbosa Lima, Caetano Alberto Nunes, Baracho, João Pedroso, Coelho pai e filho, Gomes da Silva, Flora, etc., e as da Illustração Popular (1866 a 1870), pelo que se refere a litografias, especialmente devidas aos artistas Legrand e Michellis.

Nas publicações periódicas até ao fim do século XIX a perfeição das gravuras em madeira atingiu o seu auge na ilustração do quinzenário O Occidente, que, sob a direcção de Manuel de Macedo, redador e desenhador, e de Caetano Alberto da Silva, gravador, foi entre nós, desde 1878, e durante 38 anos, o repositório mais perfeito dos principais acontecimentos nacionais e estrangeiros, adornado sempre com estampas, entre as quais são numerosas as que tratam de assuntos de Lisboa, geralmente copiadas do natural pelos desenhadores Luciano Freire, Cristino da Silva e outros, e gravadas em madeira por Caetano Alberto da Silva, Cazellas, etc.

Vista panorâmica de Lisboa tomada de Almada (recomposição), água-forte, Isaías Newton (1838-1921).
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

Muitas das revistas periódicas ilustradas nacionais tiveram uma vida pouco duradoura, devido à penúria de fundos para a sua publicação, reveladora da falta de apreço ou de preparação do público para tais leituras.

No estrangeiro, pelo contrário, as revistas ilustradas foram, no século XIX, muito numerosas, e tiveram longa existência, mas pouco se ocuparam de vistas e monumentos de Lisboa, havendo exibido principalmente vistas dos acontecimentos mais importantes sucedidos nesta cidade, daqui comunicados em esboços ou fotografias pelos artistas seus correspondentes.

Uma das aplicações mais importantes das estampas foi para ilustração de livros, quer em gravuras impressas com os textos, quer em litografias em folhas soltas intercaladas no texto.

Afora a sua inserção em livros e em revistas, foram produzidas durante o século XIX muitas estampas de Lisboa destinadas a quadros, tais como a "Vista do Convento de S.to Jerónimo de Belém e Da Barra de Lisboa" e a "Vista da Cidade de Lisboa Tomada da Junqueira", por Henrique L'Evêque [Henry], ou constituindo colecções ou albuns de vistas, acompanhadas ou não com um texto descritivo, não exclusivamente de Lisboa, mas juntamente com as de outras terras;

tal era, por exemplo, entre as nacionais, a "Collecção de Paizagens e Monumentos de Portugal", editada e litografada por João Pedro Monteiro, em que colaborou também Tomás J. d'Anunciação.

Várias medalhas se cunharam durante o século XIX, comemorativas de factos passados em Lisboa, e que por isso fazem parte da medalhística olisiponiana.

Descoberta a fotografia pelos meados do século XIX, algumas revistas e livros passaram a ser ilustrados com fotografias, ou sós, como, por exemplo, "Monumentos Nacionais" (1868), por J. da S. [José da Silva] Mendes Leal, ou conjuntamente com gravura, ou litografias, como: "Archivo de Architectura Civil" (1865). Ambas estas obras, assim oomo algumas outras mais, contêm trechos de Lisboa.

Vários fotógrafos, na 2.a metade do século XIX, tiraram [tiravam] e vendiam vistas fotográficas de terras e edifícios de Portugal, e entre elas figurava sempre Lisboa.

Baixa e Rio Tejo (montagem), Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Os mais conhecidos foram Francisco [Francesco] Rocchini, que desde 1870 fotografou mais de 300 vistas panorâmicas e de edifícios e monumentos de Lisboa, coladas em cartões com os títulos impressos;

Praça do Comércio e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A. S. Fonseca, Largo de S. João da Praça, de que conhecemos 20 fotografias de Lisboa;

e Moreira, Rua da Alegria, que apresentou 42, pelo menos, igualmente coladas em cartolina, e com os títulos impressos.

Também havia, de fabricação estrangeira, álbuns com fotografias de Lisboa, assim como litografias a uma ou mais cores.

No mercado apareceram colecções de vistas fotográficas estereoscópicas, tanto de publicação nacional como estrangeira.

Descobertos, no último quartel do século XIX, os processos fotomecânicos para a feitura de matrizes para a reprodução de estampas: fotolitografia, zincogravura, fotogravura, fototipia, cromolitografia, etc. que simplificaram e embarateceram as ilustrações de livros e de publicações periódicas, fizeram eles pôr de parte, quase por completo, os antigos processos de gravura e estampagem, dando também origem ao aparecimento de muitos objectos de preço acessível às pequenas bolsas, com vistas de Lisboa e de outras terras do pais, tais como albuns de propaganda de Portugal, bilhetes postais ilustrados, caixas de fósforos, selos de propaganda, marcas industriais e comerciais, anúncios, estampas litografadas a cores destinadas para quadros, etc.

Panorama de Lisboa, ed. Tabacaria Costa, c. 1900.
Imagem: Bosspostcard

Nestes géneros tem florescido, desde o meado do século XIX, mas principalmente no último quartel, continuando-se pelo corrente [XX], uma numerosa série de brilhantes artistas, que muito têm honrado a arte nacional, e cujos nomes têm ultrapassado as nossas fronteiras, emparelhando com os dos melhores e mais afamados artistas estrangeiros.

Panorama de Lisboa, ed. A. Myre (detalhe), c. 1900.
Imagem: Delcampe

Além das vistas de Lisboa, dos seus monumentos e trechos panorâmicos, impressos ou estampados em papel, pergaminho e tecidos, muitos aspectos de Lisboa têm sido produzidos, desde o século XVI, em quadros a óleo ou aguarela, existentes em museus ou em casas de particulares, em objectos de cerâmica, em painéis de azulejo, em galvanoplastia, em artigos cunhados, etc.

Muitos são desconhecidos do público, por constituírem documentos únicos, guardados pelos seus proprietários, sendo quase impossivel obter de todos eles esclarecimentos completos.

A maioria das estampas, tanto as antigas como as modernas, não é datada, e algumas não mencionam o nome do artista que as produziu, o qual muitas vezes não é português.

Quando o citado ou o signatário é estrangeiro, nem sempre se conhecem os dados biográficos ou a época em que exerceu a sua actividade artística.
Todas estas faltas tomam muito difícil, ou mesmo impossível organizar a seriação cronológica das estampas com vistas panorâmicas ou dos monumentos de Lisboa.

Uma das outras dificuldades com que se luta entre nós para se obter uma lista ou relação iconográfica de Lisboa que se aproxime bastante da perfeição, é a falta, nas nossas bibliotecas públicas, dos livros a que pertencem muitas estampas que se encontram avulsas no mercado. 

Essa falta diligenciámos supri-la recorrendo a pedidos de informação no estrangeiro, no que nem sempre fomos bem sucedidos.

Durante o século XX a abundância de estampas de Lisboa, em livros, revistas, jornais e folhas soltas, assim como em quadros a óleo, a aguarela e a pastel, é tão grande, que a sua inventariação e classificação desafia a paciência mais beneditina, podendo sem receio de desmentido afirmar-se que seria trabalho para uma vida inteira, e a lista que se organizasse ficaria necessariamente imperfeita.

Praça do Comércio, comandante Cyrne de Castro aos comandos do seu Curtiss "Helldiver", 1955.
Imagem: Na Rota do Yankee Clipper

Essa abundância é devida não só à grande facilidade da fabricação de matrizes para tal produção, mas ao maior grau de apreço por esta manifestação artística, que o progresso da cultura geral do povo tem criado e estimulado. (1)


(1) Vieira da Siva, Augusto, Iconografia de Lisboa, Revista Municipal n.° 32, Câmara Municipal de Lisboa, 1947
 
Artigos relacionados:
Da fábrica que falece à cidade de Lisboa
Delícias ou descrições de Lisboa
Panorâmica de Lisboa em 1763

Leitura adicional:
Lisboa do século XVII "a mais deliciosa terra do mundo"