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terça-feira, 13 de março de 2018

Panorâmica de Lisboa nos finais do séc. XVIII

O local onde se postou o desenhador foi na margem sul do Tejo, em Cacilhas, a uns 200m do sítio do farol para jusante. Esse ponto fica sensivelmente normal e a meio do plano da perspectiva do panorama que ele pretendia tirar. É desconhecido o desenhador, porventura um arquitecto; mas incontestàvelmente era ele um artista de muito merecimento, observador e minucioso. (1)

Vue du port de Lisbonne, Alexandre-Jean Noel, 1796.
Imagem: British Library

Por mero acaso foi salva do extermínio a vista panorâmica de Lisboa que em fotografia acompanha o presente artigo. Estavam uns garotos preparando-se para recortar o papel segundo o perfil das casas, numa terra nos arredores de Viseu, quando acertou de o Sr. Luciano Freire ter conhecimento do facto, pelo que adquiriu aquela vista em 1914, com destino ao Conselho de Arte e Arqueologia, do qual é ilustre presidente, e onde actualmente se encontra, devidamente encaixilhada e bem guardada para a rua conservação futura.

É um desenho aguarelado a tinta da China, feito em 6 folhas de papel unidas, medindo 3m,615 de comprimento por 0m,27 de altura; mas evidentemente falta o seguimento do panorama para o lado direito, isto é, do nascente, ou porque não chegou a fazer-se, ou porque se extraviou lamentàvelmente. 

Nestas 6 folhas abrangem-se cerca de 2 km. contados ao longo da linha marginal, e para completar o panorama de Lisboa para o nascente faltariam umas 4 folhas das mesmas dimensões das que se conservam. (2)

Panorâmica de Lisboa nos finais do séc XVIII.
Imagem: Vieira da Silva, Dispersos

A perspectiva e os detalhes arquitectónicos semelham perfeitamente os obtidos pela fotografia, como é fácil verificar pelo grande número de edifícios ali representados, que ainda hoje se conservam. Atendendo à distância a que se achava, devia o desenhador estar munido com um bom óculo, e porventura uma prancheta e uma alidade.

Devido a estas apreciáveis qualidades do artista, pudemos fixar aproximadamente a data da feitura do quadro. Nele não foi desenhada a Igreja do Convento do Coração de Jesus, ou da Estrela, cuja primeira pedra foi lançada em 1779, vendo-se porém nitidamente a fachada do próximo Convento de Nossa Senhora da Estrela, onde hoje é o Hospital Militar de Lisboa.

A Capela de Nossa Senhora de Monserrate, que já se vê, por baixo de um dos arcos do Aqueduto das Aguas Livres, às Amoreiras, tem na cruz de azulejo que está nas costas do altar-mor, do lado da Rua das Amoreiras, a data de 1767; os autores que escrevem sobre este assunto dizem que foi a capela inaugurada em 1773. 

No horizonte projecta-se, na última folha dos desenhos, uma torre, que ou representa a cúpula da Igreja Patriarcal, se acaso a tinha, ou mais provàvelmente a torre dos sinos da mesma igreja; estas construções existiram no sítio onde é actualmente a Praça do Rio de Janeiro.

Ignora-se a data em que foi construída a torre, mas tendo as obras da igreja começado por 1757, devemos admitir que é posterior a este ano a data da erecção da torre, a qual, sendo de madeira, já carecia de ser escorada em 1764, por estar bastante apodrecida, tendo ardido em 1769.

Confrontando todas estas datas, deveremos colocar entre os anos de 1767 e 1769, a época da feitura do desenho, até que novos factos ou argumentos permitam fixar outra data. Vamos chamar a atenção para algumas particularidades do desenho, pelas quais se pode fazer mais ràpidamente a orientação do leitor; e para facilitar as referências designaremos pelos algarismos romanos I a V os 5 fragmentos em que foi necessário dividir a fotografia para terem cabimento nas páginas desta publicação.

Panorâmica de Lisboa nos finais do séc XVIII.
I - Desde o Palácio do Fiuza em Alcântara até ao Palácio do Conde de Óbidos.
Imagem: Elucidário Nobiliarchico, Vol. 2 n.° 10, outubro de 1929

As igrejas paroquiais que no desenho estão representadas são as seguintes: Igreja antiga da Lufia (III), na Rua da Lapa, erecta em paróquia em 1770, tendo ao lado direito o extinto convento com 11 janelas alongadas no qual está hoje instalado o Asilo da Lapa.

A paróquia foi transferida, em Junho de 1887, para a Igreja da Estrela. Igreja de Santos-o-Velho (III), cujo adro deita sobre uma elevação de terreno, na qual se rasgou mais tarde a Rampa de Santos. Vê-se uma porta abrindo sobre uma escadaria, predecessora das actuais Escadinhas da Praia, onde ela ia desembocar. 

Igreja de Santa Isabel (IV), fundada em 1742, então ainda por acabar. Falta-lhe a torre do lado oriental, estando a do lado ocidental na mesma fase de construção que ainda se vê no desenho de Luís Gonzaga Pereira, feito pelo ano de 1840 [Monumentos sacros de Lisboa].

Igreja antiga de Santa Catarina (V), no alto de Santa Catarina, reparada depois do terremoto de 1755. Aí permaneceu a paróquia até ao ano de 1835, em que se transferiu para a Igreja dos Paulistas na Calçada do Combro. A antiga igreja arruinou-se, e no seu local construiram os industriais José Pedro Colares e Tomás Pedro Colares, por 1865, o lindo palacete que lá se vê, que é actualmente do industrial Alfredo da Silva. 

Igreja dos Paulistas (V), paroquial da freguesia de Santa Catarina desde 1835, como acabamos de dizer; desta igreja avistam-se apenas as duas torres sineiras e o frontão, por sobre os telhados de dois palacetes do começo da Rua de Santa Catarina, que ainda se conservam sensivelmente com o mesmo aspecto.

Os conventos e mosteiros então existentes que o desenhador representou no seu quadro, e que se vêm mais nitidamente, são os seguintes:

Convento de Nossa Senhora das Necessidades, dos congregados do Oratório de S. Filipe Neri (I), em Alcântara, do qua1,se avistam duas fachadas, uma com 6 e outra com 8 janelas em cada andar. Nele é hoje a sede do Governo Militar de Lisboa.

Mosteiro do Sacramento, de Religiosas Dominicanas, na Rua do Sacramento, a Alcântara, assentando sobre um terrapleno junto ao baluarte de Alcântara. 

A fachada que se ergue sobre a muralha da Rua Tenente Valadim, com 2 janelas grandes em cima e 2 pequenas por baixo, era o refeitório das freiras; a frente voltada para o nascente tinha, entre 3 janelas, um corpo um pouco saliente, com uma cruz, provàvelmente de azulejo, que já foi tirada; contígua fica a igreja, com a capela-mor oitavada, e uma cúpula quadrada; as celas do convento vêm-se à esquerda. 

O edifício está hoje servindo de Depósito Geral de Material de Aquartelamento, e numa pequena parte funciona o Registo Civil do 4.° Bairro de Lisboa. 

Convento de S. Francisco de Paula (I), de Religiosos Mínimos, na Rua Presidente Arriaga, antigamente Rua de S. Francisco de Paula, fazendo esquina para a Rua Ribeiro Sanches. A igreja, que ainda se conserva com a mesma invocação, vê-se do lado direito do convento. 

Convento de S. João de Deus (I), de Religiosos Hospitalários, quase fronteiro à igreja antecedente, e que actualmente é quartel do 2.° Batalhão da Guarda Nacional Republicana; mostra uma esplanada ou terraço avanqando sobre o rio, que ainda existe; a igreja é o corpo do edifício em cuja empena se vêm duas janelas em quarto de círculo. 

Mosteiro de Santo Alberto ou das Albertas, de Religiosas Carmelitas Descalças (II), com 14 janelas para a banda do rio, e uma extensa cerca ao poente; esta foi transformada no jardim chamado das Albertas, que é um dos miradouros sobre o mar, mais interessantes da nossa Lisboa.

A igreja, que não foi demolida, fica contígua ao palácio do Museu de Arte Antiga, e o convento foi arrazado para a construção de novas dependências do mesmo museu.

Panorâmica de Lisboa nos finais do séc XVIII.
II - Desde a cerca do Convento das Albertas (hoje jardim) até à travessa de José António Pereira.
Imagem: Elucidário Nobiliarchico, Vol. 2 n.° 10, outubro de 1929

Convento de Nossa Senhora dos Remédios ou dos Marianos, de Religiosos Carmelitas Descalços (III), no começo da Rua das Janelas Verdes; construção muito extensa, mostrando no desenho, no andar superior, além de 11 janelas, uma arcada com 5 vãos, que já não existe.

Da igreja apenas se avista a janela superior da fachada, o frontão com um óculo circular, e os 2 remates esféricos que o ladeiam. O convento pertence actualmente a particulares, estando instalada no 1.° andar uma pensão "York House"; a igreja foi adaptada a templo protestante.

Mosteiro de Nossa Senhora da Soledade, ou das Trinas, de Religioças Trinas Recoletas (III); é a enorme construção, que se observa por cima da Igreja de Santos, com vários andares, e 16 janelas em cada um. Estão actualmente nele instalados o Arquivo de Identificaqão de Lisboa e o Laboratório Electro-Técnico da Administração Geral dos Correios e Telégrafos; e além disso serve de moradia a viúvas de oficiais, e a muita gente pobre. 

Mosteiro de Nossa Senhora da Nazaré, ou das Bernardas, (IV), de Religiosas Recoletas de S. Bernardo; vê-se quase completamente reduzido a ruinas, como provàvelmente o deixou o terremoto de 1755. Foi reconstruído, assim como a sua igreja, depois da época em que se desenhou o quadro, sendo habitado actualmente por numerosas famílias proletárias. 

Convento de Nossa Senhora da Estrela, no Largo da Estrela, de frades Beneditinos (III); nele se acha instalado o Hospital Militar Principal de Lisboa, e a delegação n.° 2 da Farmácia Central do Exército; no mesmo funcionou, em seus começos, a Real Academia de Desenho, de História e de Arquitectura, a que se anexou a Aula de Escultura; a igreja, actualmente profanada, está situada ao meio da ala voltada para poente, que é a que se vê no desenho. 

Panorâmica de Lisboa nos finais do séc XVIII.
III - Desde o Palácio do Marquês de Pombal, na Rua das Janelas Verdes, até ao extremo do Palácio do Marquês de Abrantes.
Imagem: Elucidário Nobiliarchico, Vol. 2 n.° 10, outubro de 1929

Convento de Nossa Senhora da Porciúncula, de Religiosos Capuchos Franceses, vulgarmente chamados Barbadinhos (IV); ficava situado na Rua da Esperança, onde funciona desde 1912 o balneário da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (números de polícia 49 a 55); vê-se no desenho à esquerda de iim prédio alto com 2 pavimentos e 11 janelas, e foi completamente remodelado, pois que não sofreu fracasso nem ruina com o fatal terremoto.

Mosteiro de Santa Brígida, de religiosas vulgarmente chamadas inglezinhas (IV), situado na Rua do Quelhas; em 1864 foi adquirido pelos jesuítas para sua residência em Lisboa, onde estiveram até à sua expulsão em 1910; hoje serve de arquivo, biblioteca e museu das congregações. 

Mosteiro do Santo Crucifixo, de Religiosas Capuchas chamadas Francesas da Primeira Regra de Santa Clara, vulgarmente conhecidas por Francesinhas (IV), no antigo Caminho Novo, à esquina para a Calçada da Estrela.

O convento foi arrazado logo depois da revolução de 1910, e a igreja está actualmente (Fevereiro de 1930) a ser demolida, para regularização das vias públicas que naquele sítio convergem. O desenho mostra a fachada, com o seu grande portal em arco, com baixos relevos, que se guardam no Museu Arqueológico do Carmo.

Mosteiro de Nossa Senhora da Esperaqa, de Religiosas Franciscanas, no Largo da Esperança (IV); a igreja está representada no desenho por baixo do mosteiro anterior; vê-se o muro da cerca, com um grande portal que deitava sobre a Calçada da Estrela. 

No local da cerca e do convento abriu-se a Avenida de D. Carlos, inaugurada em 1889, hoje denominada Presidente Wilson, a Rua dos Industriais, e, além de vários prédios de particulares, construiu-se nele a sede do comando e Quartel do Corpo de Bombeiros Municipais. 

Mosteiro de Nossa Senhora dos Remédios, de Religiosas Trinitárias no Largo do Rato (IV); vê-se a sua extensa frontaria por baixo do Reservatório da Mãe-d'Agua; a empena da igreja tem 2 janelas, sendo as laterais em quarto de círculo. No edifício funciona actualmente a Direccão-Geral da Assistência, e o Asilo José Estêvão, para raparigas. 

Convento de S. Bento da Saúde (IV); mostra a fachada corno era antes das grandes transformayões que tem sofrido, para adaptação do edifício a palácio do Parlamento ou das Cortes; vê-se o adro que era fechado com muros, e nos quais existiam 2 portas, conforme diz o Padre Carvalho da Costa.

Convento de Nossa Senhora de Jesus, de Religiosas da Terceira Ordem de S. Francisco (V); no meio do casario avulta a igreja, com a extensa fachada do convento ao seu lado direito, e a Capela e o Hospital dos Terceiros, do lado esquerdo. 

A igreja é desde 1835 a paroquial das Mercês, e no convento está instalada, como se sabe, a Academia das Ciências de Lisboa, e a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 

Hospício de S. João Nepomuceno e Sant'Ana, de Religiosos Carmelitas Descalqos (V), no Largo de S. João Nepomuceno; avista-se num pequeno terreiro, inferiormente à Igreja dos Paulistas; nele está instalado o Asilo de Santa Catarina, fundado em 1858.

Dos palácios e casas nobres que estão representados no desenho mencionaremos, como mais salientes, os seguintes:

Palácio do Fiuza (I), em Alcântara, na extrema esquerda do desenho, mostrando, voltada para o observador, uma fachada com 5 janelas de sacadas. 

Palácio das Necessidades (I), que foi a residência real até à queda da monarquia, e onde funciona actualmente o Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Panorâmica de Lisboa nos finais do séc XVIII.
Imagem: Vieira da Silva, Dispersos

Palácio na Rua do Pau de Bandeira (II). Na vertical da cerca do ex-convento das Albertas vê-se, no penúltimo plano, um palácio que ficava situado no local da actual Rua do Sacramento, à esquina para a Rua do Pau de Bandeira, que é o antecessor do palácio que foi dos Condes dos Olivais e Penha Longa e onde está hoje a legação da Alemanha; reconhece-se que foi completamente remodelado.

Palácio do Conde de Óbidos (I), contíguo ao extinto convento de S. João de Deus, onde, no 1.° andar, está instalada a sede da Cruz Vermelha Portuguesa, e no rés-do-chão, que para o lado do rio tem a altura de um 2.° andar, mora o ilustrc director desta publicação, Afonso de Dornelas. 

Palácio da Imperatriz (II), ou dos Marqueses de Pombal, hoje do Estado, e onde é actualmente o Museu de Arte Antiga, contíguo, do lado esquerdo ou do poente, à igreja do extinto Convento das Albertas. 

Palácio na Rua do Sacramento (II); por cima do palácio antecedente vê-se uma quinta e prédio da Rua do Sacramento, que foi de Francisco Lima Mayer, e hoje é do dr. D. S.t H. Horgan. 

O palacete tem 10 janelas de sacada no 1.° andar, e entre a 3.a e 4.a distingue-se, embebido na fachada, um painel de azulejo, de grandes dimensões, que ainda se conserva, contendo a imagem de Nossa Senhora da Conceição e uma cercadura com vários santos; tem a legenda seguinte: 

SANCTUS DEUS
SANCTUS FORTIS SAN-
TUS IMMORTALIS
MISERERE NOBIS

No rés-do-chão funciona a secretaria da Embaixada Inglesa, e no 1.° andar está instalada a Legação da República da China. 

Palácio na Rua das Janelas Verdes (II). Continuando para a direita do Museu de Arte Antiga, o prédio que se vê com 2 andares, 9 janelas em cada andar, e 4 águas furtadas, é o que forma a esquina ocidental da Rua das Janelas Verdes para a Rua de S. Domingos à Lapa. 

Palácio do Marquês de Pombal (III). Prosseguindo ao longo da Rua das Janelas Verdes, encontra-se o palacete do Marquês de Pombal; apresenta na fachada voltada ao sul, 2 andares com 8 janelas em cada um, e uma janela acima do telhado; esta fachada está hoje um pouco modificada. 

Palácio dos Viscondes de Asseca (III). Na mesma rua, e passado o Convento dos Marianos, vê-se o palácio que foi dos Viscondes de Asseca, tendo do lado esquerdo a capela, com uma cruz no remate da fachada, O primeiro andar e a cave tinham galerias com 5 arcos, na fachada que olhava para o rio. O palácio foi demolido por 1882, e no seu local construiu-se a fábrica de Pregaria e Serraria da Companhia Vitória. 

Palácio dos Condes de Murça (III). O palácio antecedente sobrepõe-se em parte, no desenho, a outro que lhe fica fronteiro no lado oposto da Rua das Janelas Verdes, que é dos Condes de Murça e de Sabugosa. Do palácio vêem-se ainda 7 janelas de sacada do 1.° andar, além de mais 2 do corpo lateral que faz esquina para a Rua de S. João da Mata. Neste edifício está instalada no 1.° andar a Escola Industrial Fonseca Benevides.

Palácio do Marquês de Abrantes (III). A Igreja de Santos segue-se este palácio, que hoje é ocupado pela Legação da República Francesa, e pelo Consulado de França. Possuia uma extensa quinta, ao longo da actual Calçada do Marquês de Abrantes, suportada por uma alta muralha, que serve de parede do fundo às casas do lado norte da Rua Vasco da Gaina, e do Jardim de Santos.

Nos princípios da monarquia existiu no local do palácio um convento de cavaleiros da Ordem de Santiago, mais tarde ocupado por freiras da mesma Ordem, até se transferirem, no ano de 1490, para o Mosteiro de Santos-o-Novo, que para elas mandou edificar D. João II. O convento foi extinto, e no seu local construiram-se uns paços reais, chamados de Santos, predecessores do actual palácio. 

Palácio da Condessa de Sarmento (III). Entre o edifício do Convento das Trinas e o de Nossa Senhora da Estrela vê-se um palacete com 7 janelas de frente, e 2 na empena; fica situado na Rua do Quelhas; nele foi em tempos a sede da Nunciatura e actualmente está aí instalado o Liceu D. Filipa de Lencastre.

Prédio na Calçada do Marquês de Abrantes (IV). O prédio que, seguindo para a direita, se vê com 3 andares e 11 vãos de portas ou de janelas em cada um, é o que tem na Calçada do Marquês de Abrantes os números de polícia 42 a 56; pertence hoje a D. Maria Augusta Martins David. 

Este prédio foi propriedade do armador de navios João António da Cruz Robim Borges, que consta que nele fez melhoramentos e ampliações, tendo também mandado construir o que actualmente lhe fica contíguo para poente, com os n.os 58 a 68, e o da Rua da Esperança, que faz esquina para a Travessa dos Barbadinhos os números de polícia 57 a 67. 

Estes dois últimos prédios foram levantados no local do extinto convento e cerca dos frades barbadinhos franceses, a que já nos referimos, tendo ficado excluída a igreja, que é actualmente o balneário da Santa Casa. 

Palácio dos Duques de Aveiro (?) (IV). O prédio que no desenho se segue ao anterior, por baixo dos Conventos das Francesinhas e da Esperança, com 2 andares, e 6 vãos de janela de sacada no 1.° andar, deve ser o palácio dos Duques de Aveiro, transformado actualmente no enorme casarão que faz a esquina sul da rua e do Largo da Esperança. 

Panorâmica de Lisboa nos finais do séc XVIII.
IV - Desde o começo inferior da actual rampa de Santos até ao Palácio do Conde barão de Alvito.
Imagem: Elucidário Nobiliarchico, Vol. 2 n.° 10, outubro de 1929

Palácios do Conde-Barão e dos Almadas. Os palácios dos Condes-Barões de Alvito (IV), e dos Almadas, Provedores da Casa da fndia (V), o primeiro fazendo esquina para a Rua dos Mastros, e o segundo para a Rua das Gaivotas, vêem-se com toda a nitidez no primeiro plano do desenho; a praia em frente deles era então varadouro e estaleiro de construção de barcos. 

No 2.° daqueles palácios está actualmente instalada uma oficina tipográfica "Otosgráfica, Ltd.a", e serve de armazéns da livraria Aillaud e Bertrand.

Palácio dos Soares da Cotovia (V). Na linha do horizonte, superiormente a estes palacetes, projectam-se duas fachadas, sul e oriental, do palácio de D. Rodrigo, ou dos Soares da Cotovia, onde está instalada desde 1768 a Imprensa do Estado, hoje denominada Imprensa Nacional.

Ao lado esquerdo avista-se urn extenso telhado que deve ser do palácio que foi dos Condes de Ceia, e hoje é de D. Vasco Bramão. 

Colégio dos Nobres (V). Um pouco para a direita, por cima da Igreja e Convento de Jesus, vê-se o edifício do Noviciado da Cotovia, depois mudado em Colégio dos Nobres (em 1761), que ardeu em 1843. Reconstruído segundo um novo plano, é hoje a Faculdade de Cièncias da Universidade de Lisboa. 

Palácios na Travessa da Condessa do Rio (V). Entre a Igreja dos Paulistas e terreiro do Convento de S. João Nepo- inuceno vêem-se dois palácios que formam as esquinas da Travessa da Condessa do Rio (Grande); o da esquerda é propriedade actualmente de José Mateus de Almeida Mendia, e o da direita de Guilherme Ferreira Pinto Basto, que nele fez grandes obras que, na fachada, lhe modificaram um pouco o aspecto. 

Igreja Patriarcal de Lisboa (V). No céu projecta-se uma torre com ventanas, sobrepujada por uma cruz, que é, como já dissemos, a torre sineira da Patriarcal, incendiada, como a igreja em 1769. 

Por baixo da torre vê-se o envasamento da fachada da Patriarcal, com cunhais e membros de cantaria refendida, semelhantes aos que mostram dois quadros que ainda se conservam. Um pouco mais abaixo nota-se a linha extensa de um barracão, caserna dos soldados do Regimento da Praça de Peniche, que vieram para Lisboa fazer o policiamento da cidade depois do terremoto de 1755, e a que deve o nome a Rua do Abarracamento de Peniche.

O horizonte do panorama é limitado pelas linhas de cumeada que se avistam de Cacilhas. 

A esquerda do quadro tem por fundo a Serra de Monsanto, com alguns casebres e moinhos isolados; distingue-se uma fuma das pedreiras de Monsanto. 

Ao longe campeia uma ermida isolada, que é a da quinta dos Prazeres, onde se fez o cemitério da mesma denominação. Daí, a renque de casas mais afastadas é da Rua do Sacramento, e em seguida a da Rua de Buenos Aires. Entre as empenas de dois altos prédios fica a terminação superior da Rua das Trinas do Mocambo (III), hoje Rua Sara de Matos; é precisamente neste sítio que deveriam projectar-se a cúpula e as torres da Igreja da Estrela, se nessa época já existissem. 

Daí por diante desenham-se edifícios de várias encostas e cumiadas, conforme as disposições orográficas da região de Lisboa que se avista de Cacilhas. 

Com a maior nitidez vêem-se o Aqueduto e o Arco da Rua das Amoreiras, e o reservatório conhecido por Mãe-d'Agua (IV); debaixo do 5.° arco do aqueduto está alojada a Capela de Nossa Senhora de Monserrate, contígua, no desenho, à igreja do Mosteiro do Rato. 

Na Rua de S. Bento, próximo e à direita do edifício do convento (IV), distingue-se o frontão do arco da canalização das Aguas Livres que conduz ao chafariz da Esperança. 

O monte de Santa Catarina (V) apresenta-se ainda desprovido da sua muralha de suporte, e com uma cruz no adro da igreja, porventura a cruz de pau que deu origem ao nome da rua, hoje Rua do Marechal Saldanha, que segue daquele adro para o Largo do Calhariz, e que, segundo a tradição, servia para orientação dos marítimos até à barra do Tejo. 

Panorâmica de Lisboa nos finais do séc XVIII.
V - Desde o Palácio dos Almada, provedores da Casa da Índia, até ao começo inferior da Calçada de S. João Nepomuceno.
Imagem: Elucidário Nobiliarchico, Vol. 2 n.° 10, outubro de 1929

Extensos tratos de terreno existiam cntáo sem edificações, especialmente para o lado da parte mais ocidental da cidade, vendo-se ainda, nos campos entre a Rua das Janelas Verdes e a do Sacramento, duas quintas muradas, à inferior das quais, chamada Quinta da Arriaga (II), pertencia o prédio com 2 andares e 6 janelas em cada andar e 3 trapeiras; estas propriedades pertenceram a D. Mariana de Vilhena Coutinho Arriaga, camareira da Rainha D. Maria I, e são hoje da condessa de Seisal.

Ao longo do muro desta quinta abriu-se a Rua da Arriaga, e contígua ao muro superior de vedação da outra quinta rasgou-se a Rua do Prior. Em parte dos terrenos desta última quinta são hoje o palácio e os jardins da Embaixada Inglesa. 

A parte marginal da cidade, que se banhava nas águas do Tejo, foi desde então até ao presente completamente transformada. Naquele tempo ainda as tercenas ou armazéns, e os estaleiros, predominavam em toda a parte que foi abrangida no desenho.

Em Alcântara vê-se o baluarte (I), onde é a parada do Quartel do Corpo de Marinheiros, construído em 1862-65, e a cortina da quadrela imediata, sobre que se levanta uma fachada do refeitório do ex-convento do Sacramento; em seguida estão uma furna e fomos de cal (I), pelo sítio da Fábrica de Bolachas da Pampulha; a encosta onde está construído o Convento de S. João de Deus e o Palácio do Conde de Obidos (I) apresenta ainda o aspecto selvático primitivo.

Em Santos, encostadas à muralha de suporte da quinta do Marquês de Abrantes, está uma renque de barracas, com uma bandeira portuguesa e outra inglesa, no topo de umas bancadas, naturalmente de madeira (IV); deviam ser ou barracas de banhos, ou mais provàvelmente de alguma associação de recreio náutico, para o que o desenhador representou, junto à margem em frente delas,. uma canoa de recreio, também embandeirada.

Vê-se depois uma ponte-cais de estacas (IV), e na margem uma fila de cavalos a caminho de um barco atracado à ponte; são naturalmente os veiculos usados então para o transporte dos lixos da cidade para as faluas ou caiques.

Panorâmica de Lisboa nos finais do séc XVIII.
Imagem: Vieira da Silva, Dispersos

Ali perto divisa-se um chafariz ou tanque de lavagem de roupa, tendo um portão semi-circular, com 3 acroténos. Do Largo da Esperança até ao extremo direito da parte desenhada, a margem do Tejo está toda ocupada com armazéns e estaleiros de construção de barcos (IV e V); uma palissada isolava estes estaleiros da rua. 

O aspecto do local é hoje totalmente diferente, não só pela construção de edifícios, mas pela enorme superfície que tem sido conquistada ao Tejo, para as sucessivas obras da margem e melhoramentos do porto de Lisboa.

Tendo percorrido rapidamente todo o panorama desenhado, que pela primeira vez é publicado, não podemos deixar de acentuar a sua extraordinária fidelidade, e o valor quase fotográfico que possui como documentação, para conhecimento do estado de uma parte da cidade poucos anos depois do terremoto de 1755.

Bem haja o desconhecido autor que nos legou tão precioso trabalho. (3)


(1) Vieira da Silva, Dispersos  cf. Elucidário Nobiliarchico, Vol. 2 n.° 10, outubro de 1929
(2) Vieira da Silva, Idem  cf. Elucidário Nobiliarchico, Vol. 2 n.° 10, outubro de 1929
(3) Idem, Ibidem  cf. Elucidário Nobiliarchico, Vol. 2 n.° 10, outubro de 1929

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Henri l'Évêque (1769-1832)

No primeiro plano, grupos de populares, no seu dia a dia quotidiano, na praia de Belém ou "Restello", vendo-se à esquerda, um barco na descarga de lenha; ao centro uma "barraca de comidas e vinho" com vários comensais sentados à mesa, sob os olhares dum mendigo e dum Andador de Almas. 

À direita, o grandioso convento " manuelino" dos Jerónimos e Igreja de St.a Maria de Belém (inícios do séc. XVII ainda com o coroamento, em pirâmide, seiscentista da torre. 

Em plano mais recuado, várias construções hoje desaparecidas, destacando-se, junto da praia, o palácio que foi dos Marqueses de Marialva e já esbatida no horizonte, a Torre de Belém.

Henri L'Évêque, Vista do Convento de Sto Jerónimo de Belém e da Barra de Lisboa.
Imagem: ComJeitoeArte

A estampa representa a Rua Direita da Junqueira vendo-se: em primeiro plano, grupos de populares, entre os quais um "grupo de galegos dançando e tocando" e um barco em processo de descarga; em segundo plano, o palácio dos inícios do séc. XVIII, conhecido por palácio dos Patriarcas, residência dos Cardeais Patriarcas de Lisboa, depois do terramoto, mais tarde comprado por Henri Burnay, posteriormente 1.° conde do mesmo nome que nele fez obras profundas, transformando-o numa luxuosa residência dos finais do séc. XIX.  Hoje é sede do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. 

No mesmo alinhamento, mas mais recuado o palácio dos condes e depois Marqueses da Ribeira Grande, também do começo do séc. XVIII, onde nasceu viveu e morreu D. João Gonçalves Zarco da Câmara, filho do 1.° Marquês da Ribeira Grande, grande dramaturgo português. Foi depois comprado pelo Estado que nele instalou ultimamente o liceu da Rainha D. Amélia. 

No meio da praia, o Forte de S. João da Junqueira, que no tempo do rei D. José foi convertido em prisão do Estado.

Henri L'Évêque, Vista da Cidade de Lisboa tomada da Junqueira.
Imagem: ComJeitoeArte

Pintor e gravador de origem suíça [Henri l'Évêque], nascido em Génova, [Genève, pt. Genebra] casando em Inglaterra, onde fixou residência. Fez várias viagens a Portugal, tendo aqui estado nos finais do séc. XVIII e, mais tarde, incorporado no exército anglo-português durante a Guerra Peninsular.

Escreveu sobre o nosso pais a obra "Costume Of Portugal", espécie de album ilustrado com 50 água-tintas sobre tipos portugueses. É também autor de óleos e gouaches fixando costumes e aspectos populares, feiras, etc. (1)

Nascido em Genebra, Henri l'Évêque, como Delerive, percorreu a Europa após a revolução francesa para representar as consequências políticas e militares e as revoluções que estavam acontecendo na Europa, especialmente depois que Napoleão começou as suas primeiras campanhas (2).

Henry L'Évêque, Episódio das Guerras Peninsulares.
Imagem: Veritas Art Auctioners

Campaigns of the British army in Portugal under the command of general the marquis of Wellington

Marechal de Campo Arthur [Wellesley] Duque de Wellington. Duque da Ciudad Rodrigo em Espanha. Duque da Victória em Portugal etc .

Field Marshal Arthur Duke of Wellington etc.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 1: A chegada do exército britânico ao Mondego [Lavos, Figueira da Foz, de 1 a 5 de agosto de 1808]

The Landing of the British Army at Mondego.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Gravura 2: O ataque aos corpos franceses comandados pelo general Laborde [Delaborde] em 17 de agosto de 1808

The attack on the French corps commanded by Gen. Laborde on the 17th of August 1808.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 3: Batalha do Vimeiro [21 de agosto de 1808]

Battle of Vimieiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 4: O embarque do general Junot, após a Convenção de Sintra [31 de agosto de 1808], no cais do Sodré [15 de setembro de 1808]

The Embarcation of Gen. Junot after the convention of Cintra at Quai Sodre.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 5: O ataque à fortaleza do Grijó em 11 de maio de 1809

The attack on the Strong Fort of Grijo, on the 11th May 1809.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 6: Travessia do Douro [12 de maio de 1809]

Passage of the Douro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 7: Travessia do Douro [Avintes, 12 de maio de 1809]

Passage of the Douro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
Gravura 8: Ponte de Nodin [sobre o rio Ave, retirada de Soult, maio de 1809]

Bridge of Nodin.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 9: O ataque da retaguarda francesa em Salamonde

The attack of the Rear Guard of French at Salamonde.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 10: A ponte de Saltadouro [retirada de Soult, 16 de maio de 1809]

Campaigns of the British Army H l Eveque 10 The Bridge of Saltador 03
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Gravura 11: Vista da ponte da Misarela, a cerca de três léguas de Salamonde [retirada de Soult, 16 de maio de 1809]

A view of the Bridge of Miserere, about three leagues from Salamonde.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 12: A batalha de Talavera [27 e 28 de julho de 1809]

The Battle of Talavera.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 13: A batalha do Bussaco [27 de setembro de 1810]

The Battle of Bussaco.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Grav. 14: Uma vista tomada no Tejo [margem esquerda] perto de Vila Franca que mostra uma parte das linhas inglesas

A view taken on the Tagus near Villa Franca which shows a part of the British Lines.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 15: O cerco de Badajoz [6 e 7 de abril de 1812]

The siege of Badajos.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 16: A batalha de Salamanca [22 de julho de 1812]

The Battle of Salamanca.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A batalha da Vitória [21 de junho de 1813]

Adicionar legenda
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A partida de Sua Magestade o Príncipe Regente de portugal para o Brasil [27 de novembro de 1807]

Departure of H.R.H. the Prince Regent of Portugal for the Brazils, Henry L Evêque, F. Bartollozzi.
(Campaigns of the British Army in Portugal, London, 1812)
Imagem: Wikipédia

Esboço da acção perto de Vigia de la Barrosa [ou Barossa] (3)

Sketch of the Action near the Vigia de la Barrosa.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


(1) Lisboa: tipos, ambiente, modos de vida, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade: exposição iconográfica, Junho/Julho 1978 - 1979, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1979. 298 p.
(2) Veritas Art Auctioners
(3) Biblioteca Nacional de Portugal




Publicações:
L'Évêque, Henri (1769-1832), Campaigns of th
Wellington
, London, Colnaghi and E. Lloyd, 1813

L'Évêque, Henri (1769-1832), Costume of Portugal, London, Colnaghi and E. Lloyd, 1814

Referências:
Henri l'Évêque (google search)
Henri l'Évêque (1755-1818) também conhecido como [aka]: Henry l'Évêque,
Henrique L'Evêque, L'Evêque etc.

sábado, 21 de maio de 2016

Iconografia de Lisboa (8.ª parte)

Na segunda metade do século XVIII quatro factos em Lisboa atraíram a atenção de artistas, para assunto das suas estampas. Foram eles:

Aqueduto das águas livres, vista a montante dos arcos, século XIX.
Imagem: Turismo Matemático

a) — "O Aqueduto das Águas Livres". Esta obra deu origem a uma gravura em cobre, de autor desconhecido, que representa a "Exzata Copia da formatura dos Arcos da Agua Livre", e a outras.

Aqueduto das águas livres, ponte e ribeira de Alcântara, século XIX.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

b) — "A Catástrofe do Terremoto do Primeiro de Novembro de 1755" impressionou consideravelmente a imaginação de muitos artistas estrangeiros, que gravaram grande número de estampas, alegóricas umas, e outras representando a cidade durante o cataclismo, as quais foram decalcadas sobre vistas panorâmicas já conhecidas, em que os diferentes artistas representaram os edifícios a desconjuntarem-se e a desmoronarem-se, com o fogo a irromper por todos os lados.

Lisboa antes do terramoto de 1755 - exibido no Museu Nacional de Arte Antiga from Lisbon Pre 1755 Earthquake on Vimeo.

Todas essas vistas dão bem a medida da fecunda imaginação e fantasia dos seus autores!

Lisboa 1755, fantasia de antes e durante o terremoto, Mateus Sautter.
Imagem: Histórias com História

Apenas dois desenhadores franceses, Paris e Pedegache, vieram a esta cidade copiar "algumas ruinas de Lisboa causadas pelo terremoto e pelo fogo do primeiro de Novembro do anno 1755", que foram gravadas em Paris por Jac. Ph. Le Bas em 1757.

Ruínas da Torre de S Roque ou Torre do Patriarca, Sé de Lisboa e Igreja de S. Paulo, Jacques-Philippe Le Bas, 1755.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

É uma colecção de 6 gravuras. Com o respectivo frontispício, que mostram bastante fantasiosamente o estado a que ficaram reduzidos seis edifícios da cidade por efeito daquele cataclismo.

Ruínas da Praça da Patriarcal, Igreja de S. Nicolau e Ópera do Tejo, Jacques-Philippe Le Bas, 1755.
Imagem: Cabral Moncada Leilões


Além desta colecção de Le Bas, um musico de Augsburgo, Johan Michael Roth, coligiu as matrizes de cobre, e editou uma obra: "Augsburgische Sammlung derer wegen des höchstbetrübten Untergangs der Stadt Lissabon", etc. que contém, além de varios mapas e vistas das cidades de Portugal, Espanha e outras, algumas gravuras que haviam sido publicadas sobre o terremoto de 1755, sucedido em Lisboa e noutras terras.

Lisboa, Terremoto de 1755, ex voto dedicado a Nossa Senhora da Estrela.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

A medalhística também foi enriquecida com algumas medalhas cunhadas com vistas em baixo relevo da cidade a desmoronar e a incendiar-se durante o terremoto.

Apenas um artista português é que, sobre o terremoto de Lisboa, produziu uma vista iconográfica: consiste ela num quadro a óleo, devido ao pincel de João Armando Glama Ströberle, e representa uma cena de desolação junto às ruinas da desaparecida Igreja de Santa Catarina. Está no Museu de Arte Antiga.

Alegoria ao Terremoto de 1755, João Glama Strobërle (1708–1792).
Imagem: Wikipédia

Quanto ao terremoto de 1755, e à descrição dos lugares e estragos por ele provocados, mencionaremos a Panorâmica de Lisboa em 1763 de Bernardo de Caula, conforme abordagem que fizemos em janeiro de 2015.

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe),  Bernardo de Caula, 1763.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

c) — "O atentado contra D. José e a Execução dos indigitados criminosos" foi objecto de várias gravuras em cobre, nacionais e estrangeiras.

"Desta forma morreram justiçados...", retrato simbólico do acto da execução dos Távoras.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

d) — O "Monumento de D. José e a Praça do Comércio", onde ele foi erigido, também desde antes da sua inauguração serviram de assunto para gravadores.

Alçado lateral do projecto da estátua equestre de D. José I.
Eugénio dos Santos e Carvalho.
Imagem: ComJeitoeArte

A primeira gravura do monumento foi aberta em cobre para uma estampa não assinada, que serviu de modelo para o desenho estampado nos aparelhos de louça que o Marquês de Pombal mandou fazer na China para servirem no banquete que se efectuou por ocasião da inauguração do monumento.

Pouco depois foram gravadas duas estampas da Praça com o Monumento, devidas ao buril de Gaspar Fróis Machado, que foram reproduzidas por artistas anónimos no mesmo século.

Praça do Comércio, projecto Eugénio dos Santos, gravura de Fróis Machado (?), século XVIII, reprodução anacrónica.
Imagem: Bic Laranja

A Joaquim Carneiro da Silva se deve uma gravura da "Estátua Equestre de D. José", depois reproduzida, em menor escala, por Gaspar Fróis Machado, que também gravou uma "Vista da Torre de Belém, P.° Lx.a" em 1783.

Em 1767 foi pintado pelos pintores franceses L. Michel Vanloo e C. Joseph Vernet um quadro a óleo, comemorativo dos principais actos da administração do Marquês de Pombal, com o retrato do mesmo.

Marquês de Pombal, Louis-Michel van Loo e Claude-Joseph Vernet, 1767.
Imagem: Oeiras com História

Esta excelente pintura esteve no palácio dos Marqueses de Pombal em Oeiras, e acha-se hoje numa sala da Câmara Municipal da mesma vila.

Foi objecto de uma gravura de J. Beauvarlet, sobre desenho de A. J. Padrão e J. S. Carpinetti., em 1767, mais tarde reproduzida em vários formatos e por quase todos os processos conhecidos.

Nesta segunda metade do século ainda a maioria dos artistas que tomaram a cidade de Lisboa ou os seus edifícios para assunto dos seus trabalhos eram estrangeiros, e pouco mais de meia dúzia de nomes de nacionais se podem mencionar.

No último quartel do século XVIII, ainda como consequência do impulso dado pelo Marquês de Pombal a todos os ramos de ensino, originou-se em Portugal uma nova renascença artística.

Do estrangeiro vieram artistas arquitectos, escultores, gravadores; artistas portugueses foram estudar a Itália; e deste intercâmbio resultou uma maravilhosa criação de artistas nacionais.

Os pintores Domingos António de Sequeira (1768-1837), Francisco Vieira Portuense (1765-1805) e João Glama Ströberle (1708-1792) [v. acima], os gravadores Joaquim Carneiro da Silva (1727-1818), Gaspar Fróis Machado (1759-1796) e Francisco Vieira Lusitano, o arquitecto José da Costa e Silva, os escultores Joaquim Machado de Castro e João José de Aguiar, e tantos outros, podem pôr-se em confronto com os melhores que havia no estrangeiro.

Sopa de Arroios, população portuguesa deslocada durante a Guerra Peninsular, 1813,
des. Domingos António de Sequeira,  grav. Gregório Francisco de Queiroz.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A estes artistas devemos acrescentar o nome de Francesco Bartolozzi [1728-1815], que gravou em cobre uma estampa alusiva ao epicurismo, tendo ao fundo o Aqueduto das Águas Livres. No século XIX há outras estampas deste artista sobre assuntos olisiponenses.

Embarque do principe regente de Portugal com toda a Familia Real em 27 de novembro às 11 horas da manhã [1807],
des. Henri L' Évêque (1769-1832), grav. Francesco Bartolozzi (1728-1815).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

No que respeita, porém, a estampas de Lisboa, poucas, mas excelentes, se produziram no final do referido século, tanto nacionais como estrangeiras. (1)


(1) Vieira da Siva, Augusto, Iconografia de Lisboa, Revista Municipal n.° 32, Câmara Municipal de Lisboa, 1947
 
Artigos relacionados:
Da fábrica que falece à cidade de Lisboa
Delícias ou descrições de Lisboa
Panorâmica de Lisboa em 1763

Leitura adicional:
Lisboa do século XVII "a mais deliciosa terra do mundo"