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segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Antigo surgidouro e Praia do Rastello

A Torre de Belém (ou de S. Vicente em memória da chegada das relíquias deste Santo a Lisboa) ficou rodeada da água do Tejo pelas quatro faces, e entre ela e a margem do lado norte podiam navegar pequenas embarcações. Do lado sul formou-se um estrangulamento do rio, a que chamavam Barra do Rastello, entre a Torre de Belém, e a Torre Velha no Almaraz (nome da encosta que se eleva desde Cacilhas à Trataria)...

The Mouth of the River Tagus
Jean Pillement, óleo sobre tela, 1785
Art & the Country House

Podemos fazer uma ideia do que restava da Praia do Rastello 200 anos depois de concluída a Torre de Belém, examinando um quadro pintado em 1786 pelo francês Jean Pillement, quando nesse ano veio a Peniche ver o local onde, em 2 de Fevereiro do mesmo ano, naufragára o galeão espanhol "São Pedro de Alcântara" (v. artigo relacionado), que vinha do Callao (Perú) para Cadiz, com 470 pessoas a bordo, das quais pereceram 300... Esse quadro ofereceu o seu autor ao conde Fernán Núñez, que foi Embaixador de Espanha em Lisboa no reinado dc Carlos III, sucessor da coroa de Castela por morte de seu irmão, Fernando VI, em 1759.

Embocadura do Tejo
Jean Pillement, 1785
MIDAS Open Edition

O assoreamento, que com o decurso dos anos, ligou a Torre de Belém à terra firme, deve ter começado nos meados do século xviii, tanto a jusante, corno a montante, da face norte da Torre, porque o convento das dominicanas irlandesas no Bom Sucesso, a pouca distância da Torre, edificado em 1638 e concluído em 1638, era banhado pela água do Rio Tejo (v. artigo relacionado), assim como as muralhas dos terraços da casa, comprada por D. João V em 1745, onde viveu o último Duque de Loulé (D. Pedro), situada perto daquele convento. Do referido assoreamento resultou a formação da Praia do Bom Sucesso a leste da Torre, e a construção do forte do Bom Sucesso, a oeste... (1)

O lugar de Belém tinha em 1712 duzentos e dez "vizinhos" (moradores); e o bairro de Belém foi criado no reinado de D. José I, depois do terramoto de 1 de Novembro de 1755. Assim na Portaria de 29 de Julho de 1864 se diz que o Médico efectivo das "visitas de saúde" aos navios no Bom Sucesso, devia residir no Bairro de Belém. Este Bairro pertencia ao Concelho de Lisboa, donde foi desanexado e elevado a Concelho pelo Decreto de 11 de Setembro de 1852, e voltou a pertencer ao de Lisboa por Decreto de 22 de Julho de 1886, para se aumentar a área da cobrança do imposto de consumo, o qual foi abolido pelo artigo 69.° da Lei n.. 1.868 de 22 de Setembro de 1922... A freguesia de Santa Maria de Belém formou-se em 1834, (desanexada da de Ajuda) com sede na igreja dos Jerónimos.

Vista do Tejo e de Belém
Jean Pillement
MNAA/Palacio Nacional de Queluz

Da antiga Praia do Restello poucos vestígios restavam antes da rectificação (ou alinhamento) da margem direita do Tejo desde a Ribeira de Alcântara (transformada em Caneiro) até à Torre de Belém, porque grande porção dela foi incluída, talvez, em 1880, no largo em frente do templo dos Jerónimos, limitado ao norte por uma alameda arborizada com amoreiras (onde os rapazes das escolas iam colher folhas para alimentar bichos da seda), e ao sul por una muralha com duas rampas, o Cais dos Jerónimos. (2)


(1) Revista Municipal n° 53, 1952
(2) Idem

Informação relacionada:
O naufrágio do San Pedro de Alcántara
O Tejo de Jean-Baptiste Pillement
Praia do Bom Sucesso por Tony de Bergue
Typos e costumes populares
etc.

A view of Castle of Belem at the entrance of the Port of Lisbon
Alexandre Jean Noel, 1793
Museu de Lisboa

sábado, 30 de agosto de 2025

Laboratorio Chimico na Margueira

Deste Laboratório-Fábrica sito na Margueira, temos notícia desde 1825, quando surgiu, pela mão de João Paulino Vergolino de Almeida, que se preparara no Curso de Física e de Química do Laboratório de Química da Casa da Moeda, trabalhando durante dois anos «debaixo das vistas e direcções do hábil Professor Luís da Silva Mousinho de Albuquerque», que pretendia avançar, nesse estabelecimento, com a obtenção em grande do óleo de vitríolo (ácido sulfúrico) que era, na altura, importado na totalidade.

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 29.
Laboratorio de Chimica no Citio da Margueira, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa


Os obstáculos encontrados no respeitante à isenção de direitos das matérias-primas – condição necessária para viabilizar economicamente essa produção – que nem mesmo as vantagens da substituição de importações pareciam ter o efeito de afastar, foram atrasando o processo de concretização desta indústria no dito estabelecimento, que entretanto foi tratando de vender outras coisas (algumas produzidos localmente, outras adquiridas no estrangeiro), como preparados de chumbo, de marfim, de mercúrio, cremor tártaro, etc.

O estabelecimento de produtos químicos da Margueira só obteve a isenção desejada em 1834, porém, na falta de elementos, não podemos precisar se a ela se seguiu, ou não, o início da produção de ácido sulfúrico - certo é, porém, que a fábrica da Verdelha do Conde do Farrobo já o produzia em 1838, e em 1849 dizia-se que era o único produtor deste género a nível nacional.

O laboratório químico da Margueira foi vendido à família Serzedello, em 1844, e a sua exploração ganhou um considerável desenvolvimento a partir de 1848, altura em que – necessariamente – se deverá ter procedido a reformas tecnológicas no referido estabelecimento.

Laboratorio Chimico de Serzedello & Ca., década de 1840.
(documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa)

É lógico pensarmos então, que o contra-mestre do estabelecimento da Margueira premiado em 1855 (premiado, portanto com competências notórias para ser distinguido), na Exposição Universal de Paris, poderá muito bem ter sido quem orientou e supervisionou as tais reformas efectuadas em finais da década de 40. Isto significa que José Alexandre Rodrigues, contra-mestre da fábrica de produtos químicos dos irmãos Serzedello já estava ao serviço da dita casa por essa altura. Como se apetrechou este homem com técnicas, conhecimentos e o know-how suficiente para o efectuar?

Serzedello & Ca., década de 1840.
Documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa

Em 1855 o laboratório da Margueira produzia ácido clorídrico e nítrico, diversos sais de chumbo e de mercúrio, dissoluções de sais (de nitrato de cobre e de cloreto de antimónio) e nitratos (de potássio, de bismuto, de prata, entre outros), os “tártaros”, a potassa cáustica (hidróxido de potássio), etc. (1)

No dia 17 de de Março de 1883, pelas 10 horas e meia, o fogo destruía uma das maiores fabricas do Reino (fábrica de cortiça Henry Bucknall & Sons.), dando trabalho a cerca de 400 pessoas. Ocupando uma grande área, sendo a parte devorada pelo fogo aproximadamente de três mil metros. Quando chegou os socorros a bomba do navio Vasco da Gama, foi impotente para controlar o fogo que consumia um grande número de pilhas de cortiça e pondo em risco a própria fábrica.

Incendio na fábrica Henry Bucknall & Sons na Margueira
Diário Illustrado, 31 de Março 1883

Desenvolveu-se um forte ataque com todas as bombas e pessoal à medida que iam chegando, com o objectivo de salvar a fabrica, todas as atenções eram para a rua principal de Cacilhas, cujos prédios do lado do nascente se encontravam em grande risco, ao ponto da igreja chegar a ser atingida pelo fogo.

Foi através dos esforços do pessoal na defesa dessas propriedades, e principalmente dos marinheiros da armada, em preservar as ruas Direita de Cacilhas e Oliveira, cujos telhados das casas foram fustigados pela força destruidora do fogo. Ás 2 horas da tarde ardiam os moinhos, vinhas, matos, arvoredo, num cenário horroroso. Pelas 4 horas da manhã a preocupação era as casas próximas do laboratório químico da Serzedello & Cia. que sofreu bastantes danos nas estruturas de madeira. (2)


(1) Isabel Cruz, Preparadores de química da Escoma Politécnica (1837-1856)
(2) Diário Illustrado, 31 de Março 1883

Artigos relacionados:
Laboratorio de Chimica no Citio da Margueira
A casa da Quinta da Oliveira
Serzedello & Ca., Laboratorio Chimico na Margueira
O laboratório químico da Margueira
Indústria química

Leitura relacionada:
RELATORIO GERAL DA EXPOSIÇÃO DE PRODUCTOS DE INDUSTRIA PORTUGUEZA, SOCIEDADE PROMOTORA DA INDUSTRIA NACIONAL, EM 22 DE JULHO DE 1838

International exhibition, 1876 at Philadelphia, Diário Illustrado

Mais informação:
"Janêllos" da História: Os Serzedello

domingo, 24 de agosto de 2025

Dom Francisco Manuel de Mello (1608-1666)

Em 19 de Novembro de 1644, quando tudo parecia sorrir-lhe, é preso como suposto instigador dum crime de homicídio. Um tal Francisco Cardoso tivera relações amorosas com a mulher dum criado de D. Francisco Manuel, chamado João Vicente, a quem o escritor havia despedido.

Dom Francisco Manuel de Mello


Cardoso é assassinado, e dois dos criminosos declararam que tinham perpetuado o crime por mandado de D. Francisco Manuel. Preso a pedido do pai do morto, foi D. Francisco encerrado no Castelo, donde depois o transferiram para a Torre de Belém, e mais tarde para a Torre Velha, na margem esquerda do Tejo.

Torre Velha ou Torre de S. Sebastião da Caparica, Francisco de Alincourt, técnica mista, 1794.
Instituto Geográfico do Exército

O juiz dos Cavaleiros condena-o a degredo perpétuo para a Africa. Na segunda instância, é condenado a degredo, mas para a Índia e com privação duma Comenda que lhe havia sido concedida. A terceira instancia mantém o degredo, mas para o Brasil (1650).

Esta sentença só foi mandada executar em 1652, mas só passados mais três anos é que D. Francisco segue para o exílio. Era em 1655, onze anos depois da prisão [...] (1)

De consoada a uma S. P. [F. P. no original]:

Que vos hei de mandar de Caparica,
de que vós, prima, não façais esgares?
Porque de graças e benções aos pares,
disso, graças a Deus, sois vós bem rica...

Uma extensa vista de Lisboa no rio Tejo com a praça do Terreiro do Paço,
a velha catedral e o castelo de S. Jorge, J
oseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
MAGNOLIA BOX


Mel e açúcar? São cousas de botica.
Coscorões? São piores que folares.
Perus? Não, que são pássaros vulgares.
Porco? Só de o dizer nojo me fica,

Mandara-vos o sol, se desta cova
m'o deixaram tomar; mas é fechada
e inda o é mais para mi a rua nova.

Pois, se há de ser de nada a consoada,
mandar-vos hei sequer, prima, esta trova,
que o mesmo vem a ser que não ser nada.

Responde a um amigo [...]:

Casinha desprezível, mal forrada,
furna lá dentro, mais que inferno escura;
fresta pequena ; grade bem segura;
porta só para entrar, logo fechada;

Torre Velha ou Torre de S. Sebastião da Caparica, Francisco de Alincourt, técnica mista, 1794.
Instituto Geográfico do Exército

cama que é potro; mesa destroncada;
pulga que por picar faz matadura;
cão só para agourar ; rato que fura;
candeia nem co'os dedos atiçada;

grilhão, que vos assusta eternamente;
negro boçal e mais boçal ratinho,
que mais vos leva que vos traz da praça;

sem amor, sem amigo, sem parente,
quem mais se doi de vós diz : — "Coutadinho"
Tal vida levo. Santo prol me faça. (2)

Desgraça, enveja de tudo:

Junto do manso Tejo, que corria
para o mar que nos braços o esperava,
jaz um pastor, que no semblante dava
mostras da dor que o coração cobria.

Embouchure de la Rivière Du Tage, Nicholas De Fer, 1710


Falava o gesto quanto n'alma havia,
que quiçá por ser muito ela o calava;
mas, vencido do mal que o atormentava,
sem licença do mal assi dizia:

Cidade e Castelo de Bellisle [Belém, ilhéu] no rio Tejo; o palácio do rei;
Lisboa está atrás deste ponto.
John Thomas Serres (desenho), Joseph Constantine Stadler (gravura), 1801.
Biblioteca Nacional de Portugal

"Corre alegre e soberbo, ó doce Tejo,
pois vives sem fortuna, de que esperes
que encaminhe teu passo a teu desejo.

Vás e tornas é irás como vieres.
Ditoso tu, que vês o que eu não vejo;
ditoso tu, que vás adonde queres" (3)


(1) Francisco Manuel de Melo, O Poeta Melodino, Porto, Companhia Portuguesa Editora, 1921

Artigos relacionados:
Líricas de Melodino
Lisboa e o Tejo em 1650 ou A armada do parlamento (ou do British Commonwealth)

Leitura adicional:
Edgar Prestage, D. Francisco Manuel de Mello... Coimbra, Imprensa  da  Uníversidade, 1914 
M. Rosário Pimentel e M. Rosário Monteiro(org.), D. Francisco Manuel de Melo, O Mundo é Comédia, isboa, ed. Colibri, Dezembro de 2011

Biblioteca Nacional de Portugal:
Obras de Francisco Manuel de Melo

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Successores de Manuel Pedro Marques & C.ª, commercio de vinhos no sitio do Caramujo

ANNUNCIO

A casa commercial sucessores de Manuel Pedro Marques & C.ª estabelecida com commercio de vinhos desde longa data no sitio do Caramujo, annuncia que annexou ao seu antigo commercio o da venda de vasilhame feito, achando-se apta a fornecer ao publico vasilhame de toda a especie á excepção de toneis,

Praia do Alfeite (junto à Quinta do Outeiro e Cais do Caramujo), 1881.
Alexandra Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004

Garante-se a qualidade da madeira empregada que é escolhida sempre com o máximo cuidado, e a segurança, solidez e acabamento da obra, em tudo perfeitamente igual á que a casa emprega para seu uso.


Caramujo, Successores de Manuel Pedro Marques & C.ª, 1886.
Tabella de preços do vasilhame.
Diário Illustrado, 16 de janeiro de 1886

Recebe-se e satisfaz-se qnalquer pedido no escriptorio, rua Augusta, 219, 2.° E. dirigido ao socio gerente Thomaz José Marques, ou nos armazéns do Caramujo a Antonio José Marques. (1)

LEILÃO (...)

No dia 22 do corrente pelas il horas da manhã com a assistência do juiz Presidente do Tribunal do Commercio de Lisboa, se ha de proceder No dia 22 do corrente com a assistência do juiz presidente do Tribunal do Commercio de Lisboa, se ha de proceder (...)

Alfeite, Manuel Henrique Pinto, c. 1882.
Leiloeiro S. Domingos

nos caes dos armazéns dos Successors de Manuel Pedro Marques & C.ª, situados no Caramujo á arrematação da fragata GERTRUDES da lotação de 70 toneladas, e com todos os seus pertences.

Esta fragata pela sua construcção é uma das melhores que actualmente estão fundeadas no Tejo, e quem a quizer ver antes da arrematação pode requisitar bilhete no escriptorio da administração da fallencia, Travessa d Assumpção, 88, 1.° (...)

Enseada da Cova da Piedade, c. 1900.
Museu da Cidade de Almada

nos armazéns dos Successors de Manuel Pedro Marques & C.ª situados na Rua Direita do Caramujo n.° 62 a 76 á arrematação de 6:078 almudes de vinho tinto, 104 ditos de vinho abafado, 941 de vinho do Porto, 964 de vinho da Madeira. 3:836 almudes de vinho branco de lote, 200 caixas de vinho da Madeira, 284 de Carcavellos. 2:131 garrafas com vinho da Madeira, 950 de vinho do Porto, 840 de vinho Malvasia e dilferentes porções de vinhos, Mançanilha, Moscatel de Setúbal e Palmella.

3:428 almudes de vinagre, e mais 4:008 nas madres.

Garrafas brancas com rolha de porcelana, garrafas pretas, capsulas para garrafas, rotulos finos, ditos ordinários, uma grande quantidade de quartollas, cascos, barris, balseiros, pipas, vinagreiras, utensílios de armazém, e muitos outros objectos que estarão patentes no acto do leilão (...)

Fragata do Tejo em frente ao cais do Ginjal.
Arquivo Municipal de Lisboa

á arrematação de 11:700 aduellas brancas, 2:757 negras, 542 ditas de marca azul. 11:300 ditas de marca branca, 2:430 ditas em bocados, 23 ditas de viga lavrada para túnel, 80 ditas lavradas, mais 384 ditas para quarlolla, mais 1:390 ditas de pipa, mais 9:388 ditas de barril, mais 1:380 ditas de anchoretc. mais 18 fundos lavrados para quartollas, mais 280 para barril de quinto, uma porção de mogno, differentes pilhas de rachões grandes e pequenos, e todos os utensílios proprios para tanoaria e muitos outros objectos que estarão patentes no acto da arrematação (...) (2)

Successores de Manuel Pedro Marques & C.ª
O administrador da fallencia
José Paes de Vasconcellos Abranches. (2)



(1) Diário Illustrado, 16 de janeiro de 1886
(2) Diário Illustrado, 14 de novembro de 1889

terça-feira, 25 de abril de 2023

O barco de Martim Affonso (Mar da Palha II)

Vendo que passar não podia por azo da frota, chegou e mandou dizer aos de Almada, que lhe dessem a villa, e que fossem seus, que lhes faria por ello mercês. Os do logar responderam entre outras razões, que elles eram portuguezes, e não entendiam fazer mudança, mas como Lisboa fizesse, que assim fariam elles.

Chroniques de Froissart,
Siege by the Spaniards of Lisbon in 1383.

GALLERIX

Estando d'esta guisa, a cabo de três ou quatro dias, que Diogo Lopes chegou (Diogo Lopes Pacheco, um dos responsáveis pela morte de Inês de Castro, já octagenário, teria regressado de Castela para servir o Mestre. Com ele vieram os seus três filhos e trinta homens), sabendo el-rei parte de sua vinda mandou de noite encubertamente passar em galés e bateis e naus muitas gentes e besteiros e cavallos, e duas galés d'ellas foram a Margueira, que é um porto acerca da villa, e estiveram quedas.

Duas ou trés galés passaram toda a noite aquelles que el-rei mandou, e foram aportar ao cabo de Martim Affonso, acima da Mutela da Ribeira (...) (1)

Terá sido em resposta ao condicionamento da circulação de embarcações no período da vazante
(no Mar da Palha) que um Martim Afonso, em data incerta, instituiu, como obra de caridade, a fundação de uma albergaria e funcionamento de uma barca que passasse, de dia e de noite, gratuitamente, todos os que necessitassem de alcançar a outro lado do rio.

A sua localização assim o indica, precisamente o entrada do golfo que banhava os territórios da Arrentela, Amora e Corroios e para onde passaram a convergir uma série de caminhos terrestres de âmbito local. Além disso, permitia ainda a ligação pelo rio a Cacilhas.

Palmela vista da estrada da Moita, Estremadura.
Historical military picturesque..., George Landmann.
Biblioteca Nacional de Portugal

A felicidade da iniciativa, e simultaneamente a sua eficácia, ficou materializada na fortuna do próprio nome do barco e do local eleito para o seu ancoradouro. Aí cresceu no início do século XVI a povoação do Seixal, que, rapidamente, se tornaria num dos principais centros piscatórios e portuários do Mar da Palha.

Barca de São Vicente, Chafariz de Andaluz, Lisboa, 1374.

Quanto ao nome, tornou-se o referente de todos os esteiros a que dava acesso — na terminologia da documentação quatrocentista: «O Mar do Barco de Martim Afonso». Quanto ao nome, tornou-se o referente de todos os esteiros a que dava acesso — na terminologia da documentação quatrocentista: «O Mar do Barco de Martim Afonso» (2)

Diz El Rey: que Gomes Martins Doutor em leis, procurador da sua coroa, lhe enviara a dizer que no termo da Villa de Almada, haviam certos esteiros e abras nas suas terras, que todos saíam do mar donde chamam o barco de Martim Affonso os quais esteiros pertenciam à sua coroa;

Selo de cera com a Barca de S. Vicente, 1233.
Mosteiro de Santos-o-Novo maço 5 n° 815.
Cristina Micael, O sal no estuario do Tejo, 2011
cf. Os Portugueses e o Mar nos mais Antigos Documentos,
Lisboa, Banco Pinto & Sotto Mayor, 1990

e que de presente o Condestável D. Nuno Álvares Pereira (v. Nun'Alvares Pereira, bibliografia) mandava fazer neles azenhas, para as quais ia juntando os materiais, não sendo os ditos esteiros seus, pelo que requeria ao juiz da coroa que julgasse por sentença serem a ela, e nao ao dito Condestável pertencentes; e que dando-se vista ao mesmo Condestável, respondera seu procurador Pedro Affonso, dizendo:


Que El Rey fizera a ele Condestável doação da dita Villa de Almada, e seu termo, com todos os direitos , e bens anexos, e que por virtude da mesma doação podia ele fazer as ditas azenhas, como em coufsa própria, porque aqueas terras lhe foram dadas sem clausula ou condição alguma (...)

Xilogravura, Crónica do Condestabre, 2.a ed., 1554.
Iconografia do Santo Condestável

Da outra banda do Tejo, no termo da Villa de Almada, tem este Convento (do Carmo de Lisboa) a propriedade em todo o salgado, que entra do barco de Martim Affonso para dentro, sítio que também se chama Ponta dos Corvos, junto ao Seixal.


Este salgado entra daquela ponta para dentro dividido em quatro braços de mar: um deles vai para Corroyos, outro para Algenoa, outro para Amora, e em fim o outro para Arrentela, e a mesma propriedade tem em todas as abras, esteiros, terras, e aguas daquela enseada.

O canal do Rio Judeu visto da Arrentela.
Vista da Amora (à esquerda da imagem), Tomás da Anunciação, 1852
  MNAC (museu do Chiado)

Nestes esteiros deixou lá o Senhor Condestável edificado o Moinho de Corroyos, primeiro em todo aquele salgado: bem que salgados da outra banda. Moinho de Corroyos,  que pelo tempo adiante se edificarão mais quatro, alguns dos quaes o convento beneficia por si, e outros tem aforado a diferentes pessoas, que lhe pagam certas quantias de trigo, com a pensão de o entregarem no seu celeiro desta cidade (...) (3)


(1)Fernão Fernão, Chronica de el-rei D. João I, Vol. I, Cap. CXVII, Lisboa, Escriptorio, Bibliotheca de clássicos portugueses, 1897-1898
(2) José Augusto Oliveira, Na Península de Setúbal, em finais da Idade Média... 2008
(3) Frei José Pereira Santa Ana, Chronica dos Carmelitas, 1745

Leitura relacionada:
Maria da Graça Filipe, O Ecomuseu Municipal do Seixal no movimento renovador da museologia contempornea em Portugal (1979-1999)
Cristina Micael, O sal no estuario do Tejo, 2011
Carlos Consiglieri e Marília Abel, Os Comeres do Mar da Palha, Colares Editora

domingo, 23 de abril de 2023

Mar da Palha (I)

Antes de entrar no Atlântico, o Tejo, como que num último esforço de resistência à fusão na imensidade do oceano, detém-se frente a Lisboa e, com a ajuda da maré-cheia, espraia-se num amplo golfo, que penetra na margem meridional, prolongando-se em diversos e irregulares esteiros.

Lisboa XXX, Maluda, 1985.

É o Mar da Palha, esse amplo receptáculo de marés, onde já não se distingue a corrente fluvial do salgado das águas que ciclicamente ultrapassam a foz, rio acima.

Durante o Quaternário, as descidas do nível marinho provocadas pelas glaciações foram acompanhadas pelo aprofundamento do leito dos rios. Ficou, assim, o Tejo entalado, no seu troço último, pelo gargalo que antecede a foz.

Bellisle looking down the Tagus (detail), John Cleveley Jnr,  1775-1776.
Bonhams

Paralelamente, à progressiva elevação das serras de Sintra e da Arrábida, correspondeu o abaixamento da dobra côncava que limita a Península de Setúbal, na sua face norte sujeita ao regime das marés, ou seja, um golfo marinho — o Mar da Palha —, onde o rio desagua, uma primeira vez, antes de se anular definitivamente no oceano.

Nesta irregular depressão que marca a banda sul do Mar da Palha recortaram-se dois conjuntos de esteiros. A montante, uma mesma abertura conduz aos amplos braços do rio que atingem Alhos Vedros, Aldeia Galega e Moita; mais a ocidente, uma segunda entrada dá acesso, simultaneamente, ao profundo sulco que fende a península até atingir o porto de Coina, término do longo trajecto da ribeira homónima, e, de forma ínvia, ao pequeno mar interior ligado ao Tejo por uma estreita embocadura entre a Ponta dos Corvos e o lugar hoje ocupado pelo Seixal.

Mar da Palha.
Mappas das provincias de Portugal novamente abertos, e estampados em Lisboa (detalhe), 1769.
Internet Archive


Esta aberta dava, por sua vez, passagem a dois recessos com diferente orientação: apontado a sul, o canal apertado entre Arrentela e Amora que recebia as águas do Rio Judeu; inclinado para Ocidente, uma diminuta baía de contornoscaprichosos encontrava o seu ponto extremo em Corroios, para onde convergiam, oriundas do interior, diferentes linhas de água.

Este espaço resguardado — que passaremos, por comodidade, a designar como «Golfo do Seixal» —, fronteiro a Lisboa, apenas separado do Tejo pela língua de areia proveniente do Alfeite, via, no entanto, dificultada a comunicação com o rio pelo acanhamento da sua barra, subsidiária do esteiro de Coina (...)

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 33.
Bahia do Seixal, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

A baía é hoje rodeada por uma mancha de sapal nas margens norte e oeste, aceitando algumas praias junto à Arrentela e à Amora. A vazante dá lugar a bancos de areia e impede, consequentemente, a circulação de embarcações.

Às duas reentrâncias respeitam equivalentes sistemas de linhas de água. Na ocidental, entre Amora e Arrentela, desagua o Rio Judeu, também ele destino final de diversos afluentes de caudais mais ou menos insignificantes. Em direcção a Corroios cursam vários ribeiros, que confluem na vala da Sobreda. 
 
Moinho de maré de Corroios.
Pimentel, Alberto, A Estremadura portuguesa

Esta borda, de recorte irregular, com aberturas dissemelhantes, prolonga-se para jusante, por um arco até ao pontal de Cacilhas (...)

A única ribeira que corta perpendicularmente o território, aparece já no interior, sulcando o Vale de Mourelos à procura da praia do Caramujo, já no Mar da Palha, junto ao Alfeite (...) (1)


(1) José Augusto Oliveira, Na Península de Setúbal, em finais da Idade Média... 2008


Leitura relacionada:
Carlos Consiglieri e Marília Abel, Os Comeres do Mar da Palha, Colares Editora,

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Praia de Santos

A velha praia de Santos, com toda a sua physionomia amphybia, archeologica, ainda eu a vi. O que é Espozende, Vianna, Caminha, ou Villa do Conde, e o que foram as Ribeiras de Alfama, vistas e descriptas por Villalba e Pedro de Medina, foi-o a nossa saudosa, e hoje morta, praia de Santos.

Panorâmica da Lisboa ribeirinha antes do Terramoto de 1755,
tomada a partir dos jardins do palácio do Marquês de Abrantes (onde hoje se encontra a embaixada de França).
Museu de Lisboa

Depois... veiu a gradual transformação da marinha com as machinas de vapor; e Portugal, que não podia competir com os centros manufactureiros da Inglaterra, caiu. Morreram estes nossos estaleiros tão atarefados, e ficou annos moribunda a praia de Santos.

Veiu o Aterro, acabou de a matar, e sepultou-a. Não quero mal ao Aterro, entenda-se bem. Gosto muito do passado, gosto mais d elle que do presente, mas o presente tem os seus direitos. O que é pena é que as Camaras Municipaes, antes de aniquilarem a orla marítima característica de Lisboa, não conservassem vistas photographicas d'esta praia de Santos, que era um admirável especimen do mundo antigo portuguez, e lembrava os companheiros do Gama, e cheirava á salsugem dos Lusíadas! (...)

Pelo lado do Sul, batia o Tejo aos pés da muralha do jardim, c ainda se dava esse facto em 1823. O Tejo foi fugindo, e já por 1848 a praia de Santos começava a ser habitada. O popular fogueteiro italiano José Osti tinha ahi na praia a sua fabrica de fogos de vista, designada num almanack de 1849 sob o numero municipal 117. Junto á fabrica edificou elle por esses annos a sua casa, elegante e pintadinha, com gelozias verdes; fazia então um bonito effeito aninhada á beira das aguas (note-se que a rampa de Santos não existia). Essa casa tem hoje os n.os 148 a 172 da rua de Vasco da Gama (o n.° 148 é uma escada ao ar livre).

Lisboa finais de setecentos Henri L`Éveque Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra 3200 03 cor.jpg

Moraram no seu palacio estes Lencastres, um dos ramos da descendencia do Duque D. Jorge, Condes de Figueiró, depois Condes de Villa-Nova de Portimão, e por fim Marquezes de Fontes, e depois de Abrantes, pela extineção da linha primogênita dos Almeidas Condes de Abrantes, ficando a varonia sendo Lencastre. No século passado a herdeira Condessa de Villa-Nova casou com D. Manuel de Tavora (o que esteve dezoito annos prezo, sem se saber porquê). (...)

Lisboa Vista da praia dos Santos em 1788 feita por Alberto Dufourcq.
Em primeiro plano, sobre a praia, observam-se os estaleiros navais, com intensa actividade de reparação naval e estiva. Na linha do horizonte, toda a frente ribeirinha da zona de Santos, prolongando-se até ao Cais do Sodré. No topo do Alto de Santa Catarina destaca-se a desaparecida igreja da mesma denominação, demolida em 1833, seguida do casario do bairro da Bica que preenche o vale. No lado oposto observa-se a Ermida das Chagas. Sobressai ainda o grande edifício que foi o Palácio dos Duques de Valença.
cf. Museu de Lisboa

Em duas palavras: no projecto geral de Pezerat ganhavam-se sobre o Tejo vastos terrenos, desde o Arsenal até á torre de Belem, orlavam-se com um caes em linha recta traçado a 40 metros fóra da torre, e collocava-se um porto de construcção na bocca do rio de Alcantara.

Casamento de D. Maria II com D. Fernando II em 1836.
Igreja de Santos o Velho, óleo sobre tela da autoria de Tony de Bergue, meados do século XIX.
Pertence ao Ex.mo Senhor Pedro Costa.
Arquivo Municipal de Lisboa

A medonha febre amarella de 1857 obrigou o Governo, a Municipalidade, o publico inteiro, a pensar, com maior seriedade ainda do que até ali, nas incalculáveis vantagens que á saude publica deviam provir de. se entulharem de vez os lodos mephyticos da Boa-Vista, estendendo aos pés de Lisboa, como um estrado enorme, um longo aterro, que tirasse á Capital a causa mais efficaz das epidemias, que já muita vez a tinham assolado.

Aterro da Boavista, Entrada da avenida 24 de Julho junto à Igreja de Santos, 1863.
Archivo Pittoresco


Toda a opinião dirigente se empenhou no assumpto; trabalharam os poderes do Estado; e logo em sessão da Camara Municipal de 15 de Maio de 1858 se recebia communicação de ter o Director do Instituto Industrial, que era então o honrado José Victorino Damasio, dado começo ao aterro entre o forte de S. Paulo e a praia de Santos; o illustre engenheiro sollicitava coadjuvação do Município. (...)

No cais do Tejo, Alfredo Keil, 1881.
MNAC
(museu do Chiado)

Em Maio de 1858 era, como disse, o sabio Director do Instituto Industrial, o Engenheiro José Victorino Damasio (velho alto, serio, grave, que ainda conheci em casa de meu Pae) encarregado de proceder sem demora ao aterro da margem desde o boqueirão da Moeda até á praia de Santos por conta da empreza Lucotte. Eram apenas uns cincoenta metros furtados ao rio, sustentados por um paredão armado de quatorze linguetas para contraforte, e planos inclinados para desembarque.

Começou-se logo com a actividade que sabia incutir a tudo o notável trabalhador, technico de primeira ordem, cujo glorioso nome ficou a uma das ruas do novo Aterro. (...)

A obra não parava; em 9 de Maio de 1859 propunha o Vereador Dr Lisboa que se obrigassem os donos de barcos varados na praia de Santos a removerem-n-os dentro de quinze dias para se dar começo ao entulhamento2; e em 28 de Novembro seguinte arrematava-se o verdugo para a construcção da muralha do aterro da velha praia.

Finalmente, depois de tantos e tão grandes trabalhos, achava-se em Agosto de 1867 concluido o Aterro desde a praia de Santos até ao Arsenal da Marinha. (1)



(1) Julio de Castilho, A ribeira de Lisboa, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893

Leitura relacionada:
Rua de Santos-o-Velho I
Idem, II
Idem, III
Idem, IV
Idem, V
Idem, VI
Idem, VII

domingo, 1 de agosto de 2021

Vista de huma parte da Cidade (no 3° quartel do século xviii)

Entre as preciosidades do Museu das Janelas Verdes existe um a interessante vista panorâmica de Lisbo a, do século XVIII, que co ntém alguns pormenores que não se encontram nas vistas idênticas, mais conhecidas, da mesma época. Tem o título seguinte, escrito e muma linha, no alto da mancha:

Vista de huma parte da Cidade que comprehende desde São Bento dos Negros thé o Largo do Corpo Santo a qual vista foi deliniada / no citio fronteiro a Santa Catharina de Monte Sinay / e tomada na parte do Sul no meyo do Tejo.

Igreja demolida de Santa Catarina, no alto do monte empinado, sem a muralha de suporte que no século passado [xviii] se construiu... Ã sua frente vê-se a cruz que deu o nome à rua da Cruz de Pau, actualmente do Marechal Saldanha cf. Vista de huma parte da Cidade que comprehende desde São Bento dos Negros thé o Largo do Corpo Santo a qual vista foi deliniada / no citio
fronteiro a Santa Catharina de Monte Sinay / e tomada na parte do Sul no
meyo do Tejo ().
Hemeroteca Digital de Lisboa

A vista é um desenho em papel, aguarelado a sépia, a verde no mar e nos sítios cultivados, e a azul no céu. 

Tem no Museu a cota «Museu N.° 86», e as suas dimensões, dentro do filete da cercadura, são: 175 cm, 4 de largo por 24 cm, 3 de altura.

A única legenda que o desenho tem é «Rio Tejo»; mas no corpo da mancha apresenta 33 números remissivos, referentes a uma legenda que desapareceu , ou que não chegou a fazer-se.

Na margem superior está escrito, ao meio , «N.° 2», o que parece indicar que a vista devia ser completada com outra que a antecedesse, que seria a «N .º 1».

A vista é manifestamente posterior ao ter remoto de 1755; vêem-se edifícios desmoronados, alguns escorados, rimas de madeira para as reedificações, e o aspecto da margem do Tejo é idêntico ao representado em outras vistas da 2.a metade do século XVIII posteriores ao terremoto.

Vista de huma parte da Cidade que comprehende desde São Bento dos Negros thé o Largo do Corpo Santo a qual vista foi deliniada / no citio
fronteiro a Santa Catharina de Monte Sinay / e tomada na parte do Sul no
meyo do Tejo.
Hemeroteca Digital de Lisboa


O panorama, que abrange um ângulo de 90 graus, foi tirado de um ponto a meio do Tejo, certamente de um barco fundeado, a cêrca de 600 metros da estátua do Duque da Terceira e de 630 metros do largo do Conde-Barão; do alto de Santa Catarina distava aproximadamente a mesma extensão.

Carta topographica de Lisboa (editado), levantamento de 1807, Duarte José Fava.
Hemeroteca Digital de Lisboa

Está o desenho feito com uma tal ou qual exactidão, como se deduz do confronto com o panorama de Lisboa existente na Academia Nacional de Belas-Artes, feito pelos anos 1767 a 1769 [v. artigo relacionado: Panorâmica de Lisboa nos finais do séc. XVIII], mais recente, mas todavia mais perfeito. Nota-se a coincidência de aspectos de muitos edifícios representados em ambos os panoramas, tendo em consideração os pontos de vista diferentes donde foram tirados.

É porém mais correcto do que a vista panorâmica de Lisboa, quási coeva (datada de 1763) [v. artigo relacionado: Panorâmica de Lisboa em 1763], que foi descrita pelo dr. G. Perry Vidal in Olisipo, Boletim do Grupo «Amigos de Lisboa», n.º 2, Abril de 1938 , a págs. 5 e seguintes. Vamos suprir, dentro do possível, a falta da legenda  explicativa dos números marcados na vista.

Para isso socorrer-nos-emos da planta de Lisboa levantada em 1807 pelo capitão-engenheiro Duarte José Fava, publicada e m l833, e de uma planta desenhada, do 3.° quartel do século XVIII, de que somos possllldores, que se conserva inédita, e que tem por título: 

Planta que rnostra os Citios da Esperança, athé o Arcenal da Marinha. A planta que acompanha o presente estudo é um extracto da citada planta de Lisboa de 1807, tendo sobreposta, a tinta encarnada, a linha que contorna o campo de visão da vista panorâmica, os números de referência que nesta existem, e as letras que julgámos conveniente co locar para referências e melhor co mpreensão da descrição.

Observaremos, porém, que a nossa interpretação fica sujeita a emendas ou rectificações, que um mais minucioso exame da vista venha a sujerir. Começaremos pelo lado esquerdo do desenho:

1- Igreja de Santa Isabel, mal perceptível.

2 - Igreja, demolida, do mosteiro de Santo Cristo, das Religiosas Capuchinhas Francesas, vulgarmente chamado das Francesinhas, no Caminho Novo, actual rua João das Regras.

3 - Convento de S. Bento das Negros, actualmente Palácio do Congresso. Vê·se nitidamente o portão de ingresso no recinto do adro do convento, que abria na calçada da Estrêla, em frente da igreja das Francesinhas.

Vista de huma parte da Cidade que comprehende desde São Bento dos Negros thé o Largo do Corpo Santo a qual vista foi deliniada / no citio
fronteiro a Santa Catharina de Monte Sinay / e tomada na parte do Sul no
meyo do Tejo.
Hemeroteca Digital de Lisboa

4 - Palácio do conde-barão de Alvito, propriedade actualmente dos herdeiros do conde de Pinhel, no largo do Conde-Barão, esquinando para a rua dos Mastros.

5 - Palácio dos Almadas, provedores da Casa da India, que esquina do largo do Conde-Barão par a a rua das Gaivotas, lado ocidental. Está hoje aí a Garagem Conde-Barão, a oficina Ottosgráfica, Lda. e outros estabelecimentos comerciais.

6 - Armazém da Casa da India, segundo se comprova com a planta inédita que possuímos. Ficava aproxi- madamente no sitio do prédio n.os 1 a 7 do largo do Conde-Barão, fronteiro, e sensivelmente com a mesma extensão de frente que o palácio dos Almadas.

7 - Paço da Madeira, conforme a mencionada planta. Ficava quási contíguo ao armazém (6), no leito da actual Rua da Boa-Vista, e em parte do sítio do prédio da mesma rua n.os 87 a 93, que torneja para a do lnstituto Industrial. Em 1807, como se vê na planta de Lisboa dessa data, já esta instituição alfandegária havia sido construída um pouco para nascente (em A, na planta), no local onde existiu e funcionou o Instituto Industrial e Comercial de Lisboa , actualmente em demolição.

8 - Prédio que esquina da rua da Boa-Vista, n.os 180 e 182, para o pequeno bêco da Boa-Vista. Ignoramos que interêsse apresentava para merecer uma referência ao desenhador.

9 - Palacete que foi dos condes de Sampaio, na esquina da rua da Boa-Vista, n.os 98 a 108, para a travessa do Marquês de Sampaio, antigamente bêco do Conde de Sampaio, cuja entrada se distingue bem nitidamente. Por cima, no último plano, vêem-se uns prédios do lado sul da Rua Fernandes Tomás, suportados por contra-fortes que se firmam no terreno da encosta. O da esquerda (B, na planta), com dois andares e quatro janelas grandes e três pequenas, em cada andar, está no sítio do prédio n. º' 7 a 13 da rua Fernandes Tomás, que tem o mirante; o da direita (C, na planta), com três andares e seis janelas em cada um, é o prédio n.os 1 a 5 da mesma rua; o telhado que se avista por cim a do último pzrtence ao grande prédio (D, na planta) da rua do Alcaide, n.os 1 a 18.

10 - Antiga igreja e mosteiro de S. João Nepomuceno, de Carmelitas Descalços Alemães, sito no largo de S. João Nepomuceno. Éstes edifícios foram transformados, e nêles está instala o o Asilo de Santa Catarina.

Vista de huma parte da Cidade que comprehende desde São Bento dos Negros thé o Largo do Corpo Santo a qual vista foi deliniada / no citio
fronteiro a Santa Catharina de Monte Sinay / e tomada na parte do Sul no
meyo do Tejo.
Hemeroteca Digital de Lisboa


11 - Tímpano da igreja do convento dos Paulistas, actual paroquial de Santa Catarina, na Calçada do Combro.

12 - Primeiro prédio da travessa da Condessa do Rio, n.os 1 a 11 , que esquina para a rua dos Ferreiros a Santa Catarina, n. os 2 a 4. Consta que pertenceu àquela família titular e hoje é do engenheiro-agrónomo José Mateus de Mendia.

13 - Prédio fronteiro ao anterior, com frente também para a r ua de Santa Catarina, n. 0 16 , propriedade do negociante Guilhe rme Pinto Basto. Vê-se em seguida a rua que desce pela encosta, calçada de Castelo-Branco Sar aiva, então calçada de S. J oão Ne- pomuceno, a qual vinha desembocar, como hoje, junto do p réd io n.os 8 e 10 da rua da Boa-Vista (E, na planta), que está desenhado ao lado direito do marcado n .0 17. Êste prédio n .º 3 8 e 10 , que fi ca mesmo em frente da esqu adra de polícia, é de cinco pavimentos, tendo o 1.º e 2.° andares duas janelas de sacada cada um, e o 3.° uma só, e 2 sua fachada termina superiormente em curva. Esta casa pe rmanece a inda hoje com o mesmo aspecto.

14 - Igreja demolida de Santa Catarina, no alto do monte empinado, sem a muralha de suporte que no século passado se construiu. No seu local está o prédio construído em 1862 pelo industrial José Pedro Colares, hoje pertencente à família do falecido industrial Alfredo da Silva. Ã sua frente vê-se a cruz que deu o nome à rua da Cruz de Pau, actualmente do Marechal Saldanha.

15 - Casa nobre no largo do Calhariz, que no ano do terremoto era do Principal Lázaro Leitão Aranha e depois vendida para a construção do palácio de Joaquim da Cruz Sobral, onde funciona a Caixa Geral de Depósitos. A rua que desce dêsse palácio, aguarelada de escuro (FJ na p lanta), é a rua da Bica de Duarte Belo, onde trabalha e elevador chamado da Bica. E a casa com dois andares e quatro janelas de frente em cada um (G, na planta) que fica na vertical daquela rua, é sita na rua de S. Paulo, n.os 230 e 236, e nela Sé' abre o portal de ingresso para o dito elevador. O prédio tem actualmente mais dois andares.

16 - Prédio cujo telhado se projecta no céu, no sítio do palácio do largo do Calhariz, que foi dos Sousa Holstein, e no qual tem a sede o Automóvel-Club de Portugal (interpretação duvidosa). A rua, também aguarelada de escuro, que se vê à direita e paralela à acima mencionada (H, aa planta), descendo pela encosta, é a calçada da Bica Grande, que desemboca inferiormente defronte da Casa da Moeda. Um prédio arruinado. (I, na planta) que se vê na vertical do traçado da refarida calçada, deve ser o que em 1755 pertencia aos condes de Sandomil e hoje é do negociante Carlos Silva; esquina da rua das Chagas, onde tem os n.os15 a 4 7, para o largo do Calhariz, n.os 1 a 4.

17 - Armazém da Junta do Maranhão, segundo mestra a planta inédita. Ficava aproximadamente no sítio da esquadra de policia da rua da Boa-Vista.

18 - Escritórios ou armazéns da .Junta do Maranhão. Eram situados, po uco mais ou menos, no local do prédio qu e esquina da rua de S. Paulo, n. os 91 a 107 para a rua da Moeda. Tôda a extensão que vai desde o edifício 18 até ao 6, hoje preenchida com prédios de particulares, a abegoaria e outros serviços municipais, a esquadra de polícia e a fábrica do gás, isto é desde a rua da Moeda até à do Instituto Industrial , e limitada ao norte pelo parapeito da fortificaçcio, estava, por ocasião do terremoto de 1755, tôda ocupada com estaleiros, que deixavam desafrontados, e com vista sôbre o rio, os prédios do lado norte da rua da Boa-Vista.

19 - Escritórios ou Armazéns da Junta de Pernambuco, segundo a mesma planta. Eram o corpo de edifício da Casa da Moeda, ao longo da rua da Moeda, onde estavam uns armazéns que arderam em Outubro de 1941.

20 - Continuação dos armazéns do número anterior. É possível também que fôsse o muro que fechava o recinto dos edifícios e oficinas da Casa da Moeda, à qual pertenciam as três ja-nelas e os três ou quatro telhados seguidos que o desenho mostra por cima do referido muro.

20. A Casa da Moeda foi instalada naquele local em 1720 e actualmente está sendo daí removida.

21 - Prédio sito no pátio chamado do Pimenta, encostado ao paredão sul do suporte do terreiro onde está a igreja das Chagas. No seu local, ou sôbre êle, levantou-se o grande prédio que pertence ao Dr. José Dias Ferreira. O edifício com três andares que à di-reita lhe fica contíguo (J, na planta) , é o prédio do mesmo pátio, n. º' 30 a 32, que tem também frente para a rua do Ataíde, n.os 15 a 17.

22 - Ruínas da igreja das Chagas. Nota-se o paredão ocidental do terreiro no tôpo da rua das Chagas, derrubado para a encosta . Ã direita, na línha do horizonte, avista-se o frontão da igreja do Loreto.

Vista de huma parte da Cidade que comprehende desde São Bento dos Negros thé o Largo do Corpo Santo a qual vista foi deliniada / no citio
fronteiro a Santa Catharina de Monte Sinay / e tomada na parte do Sul no
meyo do Tejo.
Hemeroteca Digital de Lisboa

23 - Tanoaria dos Armazéns ( da Junta de Pernambuco?), segundo a nossa planta inédita; na praia, como no terrapleno, vêem-se alguns barris. Devia ser uma de pendência do forte de S. Paulo, para o qual tinha escadas de acesso. Na sua parte posterior pegava com a grande arrecadação do forte, onde é hoje o armazém de ferro da firma Orey, Antunes & C. ia, para o qual também tinha portas de acesso.

24 - Forte de S. Paulo ou da Tenência. No seu terrapleno vêem-se um guidaste e balas empilhadas. Logo por cima dêle, e formando-lhe o fundo, mostra o desenho a primitiva igreja de S. Paulo, arrulnada, que ficava da banda do norte do forte.

25 - Paredão do parapeito da fortificação marginal, a que se segue uma palissada, os quais ligavam o forte de S. Paulo com o dos Remolares (L, na planta), que se vê na continuação da palissada. No sítio da muralha, e em mais terreno conquistado ao Tejo, foi construída mais tarde, em 1771, a antiga e desaparecida praça da Ribeira Nova (M, na planta), que ficava contígua ao forte.

26 - Prédio no local do quarteirão de casas que fecha pelo sul o actual largo de S. Paulo; pertenciam estas então ao marquês de Pombal; as que lá existem actualmente são de reedificação posterior ao terremoto.

27 - Palácio do marquês de Valença. A sua frente, do lado ocidental, vê-se uma grande muralha de suporte do terreno onde foi , no século XIX, construída a fábrica de cerveja Jansen. O corpo de edifício marcado 27, com cinco grandes janelas na fachada ocidental, é o antecessor do prédio pertencente à mesma fábrica, na rua António Maria Cardoso  n .os 3 a 7, em que funcionam os serviços de obras, e onde está o refeitório do pessoal das Companhias Reünidas Gás e Electricidade, que trazem o edifício de renda. Noutra parte do mesmo prédio, mais ao norte, estão instaladas a tipografia Maurício & Monteiro e vários armazéns e estabelecimentos comerciais.

28 - Paços dos Duques de Bragança, que eram situados no local do prédio que esquina da rua António Maria Cardoso, n.os 2 a 16, para a rua Vítor Córdon. Entre os edifícios 28 e 29 avístam-se, no último plano, as mura-lhas do recinto interior ou castelejo do castelo de S. Jorge, com três paus de bandeira, num dos quais, o da tôrre onde depois se instalou o observatório, flutua a bandeira com as armas reais.

29 - Paredão sul da igreja do convento de S. Francisco da Cidade, metido hoje no maciço dos prédios da rua Vítor Córdon, que tornejam para a rua Serpa Pinto.

30 - Igreja antiga dos Mártires, junta ao convento de S. Francisco, que dêsse sítio foi mudada, na reconstrução da cidade depois de 1755, para o lado sul do meio da rua Garrett.

31 - Palácio dos condes da Ribeira; por ocasião do terremoto, dependências do paço real da Ribeira; e actualmente do Dr. Pedro de Carvalho Monteiro, no tôpo superior da calçada de S. Francisco.

32 - Palácio dos Côrte-Reais, arruinado e depois demolido, que ficava no sítio das desaparecidas oficinas do Arsenal de Marinha, contíguas ao largo do Corpo Santo.

33 - Dependências do palácio anterior, picadeiro, cavalariças, palheiro e outras oficinas. no sítio da Sala do Risco do Arsenal de Marinha. A vista mostra que êste corpo de edifício resistiu ao terremoto de 1755, e que conserva exactamente a disposição arquitectónica, com janelas grandes nas fachadas e mezaninos sôbre as mesmas, sendo três na fachada voltada ao sul, que hoje ainda podemos observar na dita ala.

Pelo desenho da vista que estamos estudando reconhece-se que a arquitectura e alturas da a Sala do Risco serviram de norma e foram adaptadas, depois do terremoto de 1755, na edificação da parte restante do Arsenal até à praça do Comércio, assim corno da Alfândega.

Da conservação dêste edifício resultou a orientação oblíqua que forma a ala da Sala do Risco, relativa ment e à linha geral do corpo principal do Arsenal.

Reconhece-se que a presente vista panorâmica, que até agora se tem conservado inédita, apresenta alguns pormenores topográficos e aspectos de uma parte de Lisboa na época do ter-remoto de 1755, que eram ignorados, o que a torna preciosa para o conhecimento da cidade naquele período de transição e de urbanização que o terremoto veio provocar. (1)


(1) A. Vieira da Silva, Hemeroteca Digital de Lisboa

Artigo relacionado:
Panorâmica de Lisboa em 1763
Panorâmica de Lisboa nos finais do séc. XVIII