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sexta-feira, 20 de julho de 2018

Os Cachopos

Se o Conde de Bolonha D. Affonso, Infante de Portugal, teve filhos de sua primcira mulher a Condessa Mathilde (1202 -1259), he hum dos pontos, em que com mayor vigor se tem contendido, e disputado.

A map of the mouth of the famous river Tagus or the harbour of the city of Lisbon (detalhe), William Burgess (1729-1746).
Biblioteca Nacional de Portugal

Em quanto Portugal se conservou separado [de Hespanha], nunca esta materia teve mais fundamento do que a tradição pueril de alguns Historiadores, de quem se pode dizer, que a escreverão para gastarem tempo, e papel com a sua narração, mas depois, que o imprudente valor del Rey D. Sebastião condenou ás masrnorras de Africa no,campo de Alcacere toda a gloria Portugueza, e depoia que a indesculpavel irresolução do Cardeal D. Henrique, que quasi na sepultura cingio a Coroa, deo lugar a que se occupasse o Throno Porruguez pela violencia das armas, e não pela desarmada força do Direito, então he que começou a soar pelo mundo com mayor estrondo a injustiça, que El Rey D. Alfonso III usou com os filhos, que houve de sua primeira mulher a Condessa Mathilde de Bolonha [...]

Vista do Tejo e do palácio da Ajuda, Charles Landseer, 1825.
Instituto Moreira Salles

Diz pois a tradição, como referem estes Authores, que sabendo em França a Condessa Mathilde, que seu marido o Infante D. Affonso estava casado em Portugal com D. Brites, filha bastarda de D. Alfonso X Rey de Castella, levada da impaciencia de caso tão feyo e doendolhe vivamente o desprezo da sua pessoa, e do seu amor, viera acompanhada de huma frota a este Reyno, e que chegando a Cascaes, soubera que o infante estava em Frielas, e que por huns criados de grande estimação, e confiança, que consigo trazia, lhe escrevera, representandolhe a indignissima acção, que usava com ella, e pedindolhe, que desse satisfação ao escandalo de toda a Europa.

Descripção da boqua do Tejo, Vincenzo Casale, 1590.
Fortificações da foz do Tejo

Diz mais a tradição, que o Infante sem fazer caso dos seus rogos, nem das suas justificadas representações, lhe respondera com aspereza tão pouco esperada, que desconfiando de conseguir o que pretendia, entre a dor, e a desesperação expuzera os os filhos, que comsigo trazia, na foz do Tejo, donde teve principio o nome de Cachopos que na nossa linguegem antiga he o mesmo que Meninos, e que voltando outra vez para França, se valera do respeito de S. Luiz, que então reynava gloriosamente naquella Monarchia, para que a grande authoridade desse Principe fosse o remedio da sua injuria, o não chegou a ter effeito [...]

A map of the mouth of the famous river Tagus or the harbour of the city of Lisbon (detalhe), William Burgess 1729 - 1746.
Biblioteca Nacional de Portugal

Quem se não ha de rir vendo que escreverão huns homens, que se prezavão de eruditos, que desta acção se derivou o nome de Cachopos, por se exporem naquelle lugar estes reos innocentes? Que mayor argumento da ignorancia desta nova tradição? Os Cachopos he huma corrupção da palavra Latina Scopulm, com que se explicão os baixos, que se fizerão infames no escandalo dos navegantes pelos naufragios, que causarão, e nunca se derivarão dos meninos, que nelles deixou o desconfiado amor da Condessa Mathilde.

18
Moleta
Batiment qui pêche dans le Tage et en dehors

Só huma circunstancia tem faltado a este conto de velhas, que foy o como se salvarão daquelle liquido patibulo. Não appareceo atégora algum compadecido pescador, que vendo-os em tão evidente perigo, os salvasse na sua molleta, ou no seu barco do alto [...] (1)

13
Lanchas do Alto
Batiments pecheurs qui vont en haute Mer

A entrada do Tejo fica situada entre as torres de S. Julião e do Bugio, que distam 2:750 metros uma da outra, e entre o Bugio e o Bico da Calha, ou ponta do cabedelo do S. Dois grandes bancos se prolongam para o mar na direcção geral de NE. - SW., que se denominam Cachopo do N. e Cachopo do S., ou Alpeidão. Formam estes cachopos dois canaes, o do N., ou corredor do N., que fica entre o cachopo do N. e a torre de S. Julião da Barra, e o do S., ou Barra Grande, que fica entre os dois cachopos indicados. Alem d'estes canaes ha um outro, estreito, pouco fundo e variável em planta, chamado Golada, entre a torre do Bugio e a terra.

Vista do estuário do Tejo, tomada da Estação Espacial Internacional, Samantha Cristoforetti, 2015.
Samantha Cristoforetti no Facebook

O cachopo do N. estende-se naquelle rumo por 5:500 a 6:500 metros. O do S. é formado da cabeça do Pato, das coroas de Santa Catharina e do cachopo propriamente dito.

Sobre a primeira parte ha peio menos 10 a 12 metros de agua. As coroas de Santa Catharina ficam entre a cabeça do cachopo e a do Pato. Este cachopo do S., ou Alpeidão. na extensão proximamente de 5:500 metros, é um banco de areia, que descobre em baixa-mar em diversos logares.

Lisboa com a sua área às 10 horas, Christian Friedrich von der Heiden, 1672.
BLR

O banco, ou barra que liga os extremos dos cachopos pelo W., fica entre a cabeça do Pato e o Espigão, na máxima largura de 3:700 metros, e forma grande escarcéu com ventos do quadrante do SW., levantando ás vezes um rolo do mar, ou arrebentação, que fecha de um lado ao outro o canal da barra e offerece nessas occasiões perigo em arrostar com elle. (2)


(1) Joze Barbosa, Catalogo chronologico, historico, genealogico, e critico, das rainhas de Portugal..., Lisboa, Na Officina de Joseph Antonio da Sylva, 1727.
(2) Adolfo Loureiro, Os portos maritimos de Portugal e ilhas adjacentes, Vol III parte 1, Lisboa, Imprensa Nacional, 1906

Artigo relacionado:
A pequena tocha do mar

Leitura relacionada:
Naufrágios na foz do Tejo
Cristina Santos, Fortificações da foz do Tejo, Lisboa, Universidade Lusíada, 2014

sábado, 18 de novembro de 2017

Lisboa c. 1700, no traço de Jacques Martin por Luís Diferr

Quando era adolescente e lia, "absolutamente estupefacto", as aventuras de Alix desenhadas por Jacques Martin, o português Luís Diferr estava longe de imaginar que um dia, no futuro, ia assinar um álbum de uma série do universo do grande autor da banda desenhada franco-belga.

Rua Nova dos Mercadores (detalhe), As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

E ver o seu nome na capa, ao lado do do criador de álbuns clássicos como O Último Espartano ou As Legiões Perdidas, e de personagens como Alix, Lefranc, Jhen ou Loïs [...]

Capa do albúm, Portugal, Luís Diferr, edições ASA, 2010.
Imagem: Kuentro

O autor português recordou ao DN como tudo começou. "Eu encontrei-me o Jacques Martin no Festival de Banda Desenhada da Amadora em Outubro de 2002, estavam lá também o Rafael Morales, desenhador, e o editor, o Jimmy Van den Hautte. Já conhecia o Martin de um Salão da Sobreda e estive a falar com o Jimmy". 

O terraço da Torre de Belém ou Forte de S. Vicente, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Luís Diferr (no Blogger)

Mostrei-lhe o último álbum que fiz, Os Deuses de Altair, e umas fotocópias de outros trabalhos, e ele propôs-me fazer este álbum do Loïs. Na altura não percebi o que era, porque ainda não existia a série, que se passa na época do Luís XIV. Algum tempo depois, o Jimmy mandou-me algumas fotocópias do primeiro álbum, que estava em produção, eu enviei-lhe uma proposta e um desenho de base, que foi o dos Jerónimos, e foi assim que tudo arrancou".

Praia do Restelo e Mosteiro dos Jerónimos, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

Começaram então seis anos de "trabalho gigantesco", como conta Luís Diferr.

Aqueduto das Águas Livres (iniciado em 1731) sobre a Ribeira de Alcântara, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

"Quando comecei a fazer o álbum tinha um horário completo de professor. Mas quando começou a pesar, tive que pedir uma licença sem vencimento. Foi uma tarefa muito exigente, em termos gráficos como na procura e consulta de documentação. Quando me envolvi neste projecto, nunca me passou pela cabeça o trabalho que iria ter".

Praça do Rossio, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

"Tendo como referente que as histórias de Loïs se passam no reinado de Luís XIV, Diferr situou Portugal "entre meados do século XVII e do século XVIII [v. Lisboa do século XVII 'a mais deliciosa terra do mundo']. É a época de D. João V, que foi um rei absolutista à maneira de Luís XIV" .

Mercado da Ribeira junto à Casa dos Bicos, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

Diferr fez "tudo" em Portugal, "excepto a introdução, que é do Jacques Martin. Os desenhos são todos meus, bem como as fotos, excepto duas ou três.

Sé de Lisboa  ou Igreja de Santa Maria Maior, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Kuentro

Ele acompanhava o trabalho que lhe era submetido à apreciação, via os desenhos a lápis, dizia para modificar isto ou aquilo. Depois, eram passados a tinta da china e a seguir iam à cor. Mas pouco tempo depois, ele afastou-se por causa dos problemas de vista de que sofria, e a validação dos desenhos passou a ser feita por um comité da Casterman", conta.

Sé de Lisboa  ou Igreja de Santa Maria Maior, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

O autor de Alix "era muito exigente" e Diferr teve "alguns problemas, sobretudo por causa da vista dele. O Jacques Martin sabia muito bem o que queria, mas já estava com muita dificuldade em avaliar os desenhos, não os conseguia ver como um todo. Tinha que usar um aparelho que os ampliava aos bocados e depois que os reconstruir na sua cabeça".

Vista geral de Lisboa na direcção nordeste, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem:

O álbum levou a que fosse proposto ao autor luso "uma das personagens do universo do Jacques Martin, o Jhen. Também apresentei algumas propostas à Casterman, mas umas não avançaram e outras estão em espera", revela.

Segundo Luis Diferr, ela chama-se Joana. Nascida em Sintra, perto de Lisboa, o que faz que ela sempre tenha gostado de respirar o ar puro da montanha e do mar. A sua expressão doce esconde uma alma que sabe muito bem o que quer...
Imagem: AlixMag

"Este álbum vale por si mas também pelas portas que pode abrir, ali ou noutra editora. Espero que alguma coisa se resolva, até porque o mercado franco-belga é muito competitivo, ainda mais para alguém de fora. Mas pronto, a esperança é a última a morrer". (1)


(1) Diário de Notícias, 16 de junho de 2010

Informação relacionada:
Loïs au Portugal?
Les voyages de Loïs, Le Portugal, Interview de Luís Diferr
Apresentação de "As Viagens de Loïs – Portugal" de Luís Diferr (texto e desenhos)...
Jacques Martin – Luís Diferr
Ilustração por autor de BD (I) – Luís Diferr
As Viagens de Loïs – Portugal
Amadora BD – Luís Diferr

Mais informação:
Luís Diferr (no Facebook)
Luís Diferr (no Blogger)
Luís Diferr (no Sandawe)

domingo, 5 de novembro de 2017

Carta de Lisboa por Miguelanxo Prado

Este libro, feito en colaboración co escritor Eric Sarner, tivo ata o momento edicións soamente en francés (edición orixinal) e en edicións biligües portugués - francés/inglés/castelán co título Carta de Lisboa.

"Esperando a D. Sebastião."
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

Calquera delas é xa moi difícil de atopar.

"La luz de Lisboa, de nuevo, cruzando o Teijo"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

Tanto Eric como eu coñeciamos Lisboa desde facía tempo e acordamos unha metodoloxía de traballo simple: durante os quince días que duraría a nosa estancia percorreriamos xuntos a cidade, tomariamos notas e apuntes, pero en ningún momento os compartiriamos, de maneira que a visión do un non condicionase a do outro.

"Lisboa"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

Así o fixemos. 

"Ver a los conductores del "28" manejar esos paquidermos metálicos es todo un espectáculo"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

Só houbo dúas claras violacións do acordo.

"Lisboa, de nuevo. Ensoñada"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

A primeira, que ao cabo de dous ou tres días os dous advertimos que, imprevisiblemente, Lisboa estaba chea de sutís referencias animais.

"Lisboa, siempre Lisboa"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

Estaba claro que ese fío condutor aparecería en texto e imaxes.

"Alfama, Lisboa"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

A segunda, un fascinante suceso cunha fotografía atopada por azar nun lugar inverosímil.

"Mercadillo y rastro en Lisboa"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

Era imposible non facer comentarios e elaborar unha historia común ao redor daquel achado. (1)


(1) Une lettre trouvée à Lisbonne

Mais informação:
ActuaLitté, Miguelanxo Prado, cet immense talent de la bande dessinée espagnole
Ardalén
Miguelanxo Prado (fb)
www.miguelanxoprado.com
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Informação derivada:
Pisca de Gente
Largo da memória

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Adeus, Lisboa

Vou-me até à Outra Banda
no barquinho da carreira.
Faz que anda mas não anda;
parece de brincadeira.

Lisboa, Estação Sul e Sueste, Alberto Sousa (1880-1961), 1910.
Imagem: Museu de Arte Contemporânea

Planta-se o homem no leme.
Tudo ginga, range e treme.
Bufa o vapor na caldeira.
Um menino solta um grito;
assustou-se com o apito
do barquinho da carreira.
Todo ancho, tremelica
como um boneco de corda.
Nem sei se vai ou se fica.
Só se vê que tremelica
e oscila de borda a borda.

Lisboa, Ponte dos Vapores, estudo para leque, Veríssimos Amigos, c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Chapas de sol, coruscantes
como lâminas de espadas,
fendem as águas rolantes
esparrinhando flamejantes
lantejoulas nacaradas.
Sob o dourado chuveiro,
o barquinho terno e mole,
vai-se afastando, ronceiro,
na peugada do Sol.

Vapor da carreira de Cacilhas, 1890, Óleo, Alfredo Keil
Imagem: Casario do Ginjal



A cada volta das pás
moendo as águas vizinhas,
nos remoinhos que faz,
nos salpicos que me traz
e me enchem de camarinhas,
há fagulhas rutilantes,
esquírolas de marcassites,
polimentos de pirites,
clivagens de diamantes,

Embarcação de passageiros das carreiras do rio Tejo.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Numa hipnose coletiva,
como um friso de embruxados,
ao longe os olhos cravados
em transe de expectativa,
todos juntos, na amurada,
numa sonolência de ópio,
vemos, na tarde pasmada,
Lisboa televisada
num vasto cinemascópio.
O sol e a água conspiram
num conluio de beleza,
de elixires que se evadiram
de feiticeira represa.
Fulva, no céu incendido,
em compostura de pose,
a cidade é colorido
cenário de apoteose.
Há lencinhos agitados
nos olhos de todos nós,
engulhos de namorados,
embargamentos na voz.
Nesta quermesse do ar,
neste festival de tons,
quem se atreve a acreditar
que os homens não sejam bons?

Barcos junto à torre do Bugio, Alfredo Keil (1850 - 1907).
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Adeus, adeus, ribeirinha
cidade dos calafates,
rosicler de água-marinha,
pedra de muitos quilates.
Iça as velas, marinheiro,
com destino a Calecu.
Oh que ventinho rasteiro!
Que mar tão cheio e tão nu!
Ó da gávea! Põe-te alerta!
Tem tento nos areais.
Cá vou eu à descoberta 
das índias Orientais.
Não tenho medo de nada,
receio de coisa nenhuma.

Barco a vapor a atracar em Cacilhas.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A vida é leve e arrendada
como esta réstea de espuma.
Toda a gente é séria e é boa!
Não existem homens maus!
Adeus, Tejo! Adeus Lisboa!
Adeus, Ribeira das Naus!
Adeus! Adeus! Adeus! Adeus! (1)


(1) António Gedeão, cf. Rómulo de Carvalho, António é o meu nome

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A banhos no Tejo, a Deusa dos Mares

A faculdade portuguesa recomenda os banhos para todos os casos de queixas e males. Os homens despem-se na parte de vante do barco, vestem calções que vão abaixo do joelho e cobrem-se com um casaco comprido, antes de se sentarem na amurada do barco para entrarem dentro de água. Quando as senhoras anunciam que estão prontas eles ajudam-nas a entrar no rio, pegando-lhes nas mãos enquanto elas descem pelas pequenas escadas. Depois, entre gritos e chapinhadas, o divertimento é geral. Uma piada comum, conta que uma senhora atarracada e gorda, uma visão habitual, quase ia virando o barco quando descia.

Banhos no Tejo, A.P.D.G., Sketches of Portuguese life (...).
Imagem: Internet Archive

Quando os barcos do banho são numerosos, ao longo da praia, não raramente vi o Regimento de Cavalaria de Alcântara receber ordem de tomar banho. Então, é vê-los entrar na água, e completamente despidos com os seus  cavalos, nadar por entre os banhistas, causando-lhes o maior desconforto [...] (1)

Regimento de Cavalaria de Alcântara, William Beckford, 1808-1809.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O Administrador dos banhos da barca do Hiate, que está defronte do Caes das Columnas, participa ao público que de manhã os banhos de 200 réis, são de 180 réis, e os de 160 réis são de 120 réis, e de tarde depois da 5 horas, são de 40 réis de menos por cada banho, sem que seja necessário esperar por companheiro para entrar no banho. 

A barca tem para melhor cómodo do público dois botes com os seus letreiros que dizem = Bote da barca dos banhos = Além destas commodidades, e de outras, que na barca se saberão, haverá bebidas e comer de todas as qualidades, por preços cómmodos. (2)

No dia 15 do corrente mez se põem a barca dos banhos, contruida sobre o hiate, defronte do Terreiro do Paço; reformada de banhos e com nova construcção para receberem toda a força da corrente. (3)

Vista do Tejo e da Praça do Comércio em 1848, gravura em madeira fotografada por Bárcia (AML).
Imagem: O cais da Praça do Comércio e as suas colunas...

De toda a parte podiam partir botes e vapores que cruzassem entre os logares de recreio, onde houvesse hoteis, e restaurantes, onde pululassem a vida, a alegria, e os folguedos.

Em vez do concurso festivo de barcos empavezados, de chalupas casquilhadas e de vapores emplumados de fumo, de musicas e de orchestras casando os seus rithmos e melopéas com o marulhar das vagas; em vez dos mil rumores. de uma grande cidade a condensaram-se por algumas horas ua amplidão magestosa e poética de um dos rios mais soberbos da Europa, estamos condemnados ao supplicio de contemplar diariamente no meio das aguas azuladas do rio, que corre entre areias de ouro os estafermos fluctuantes da "Deusa dos Mares e da Flor do Tejo"!

Deusa dos mares, barca dos banhos no rio Tejo.
Imagem: Lisboa de Antigamente

Como aquelles abrutados cetáceos de pau carunchoso ostentam com a indifferençá e o egoismo da decrepidez a sua crusta encorreada, vaidosos do acolherem dentro de si tantas formosuras femininas, — que ali correm a banhar-se dentro de cells soturnas, escondidas sob o velho cavername e copiadas das penitenciárias primitivas — Amphitrites prosaicas, que parecem tripudiar naquelles churriões immoveís de Neptuno, entre algas e alforrecas!

Nas manhãs de verão e de outomno é uma dôr d'alma contemplar as gentis caravanas,que demandam aquellas regiões sinistras, fragmentos desprendidos do "Inferno" do Dante. Tanta lida, tantas fadigas, para alcançarem o phantasma fugitivo de um banho tomado no fundo de um antro fluctuante, visitado a miúdo pela onda impura das matérias organicas, que se espanejam na corrente! Que ironia de banhos hygienicos infligida a uma povoação inteira, no bôjo d'aquellas presigangas, que são, em pleno Tejo, um arremedo das prisões marmertinas, ou dos Chambos de Veneza.

Black Horse Square (Praça do Comércio), T. W. Langton, década de 1870.
Imagem: Baixa Pombalina 250 years of images

Mas a illusão dos banhos, em taes condições, não é senão a parodia da illusão campestre que desvaira a muita gente, que emigra da cidade para buscar e gozar o campo onde não ha d'elle o menor ves- tígio! A não serem os oásis verdejantes de Cintra e de Bellas, onde ha aguas frias e crystalinas, som- bras e espessuras de arvores e de mattos, a maior parte dos retiros aldeãos correm o grave perigo de se parecerem com uma charneca árida e nua de vegetação.


Praça do Commercio vista do Tejo (fotografia de Eduardo Portugal), ed. Costa 773, c. 1900.
Imagem: Delcampe

É um campo conjectural, difficil de adivinhar-se, o que se espalha em redor da cidade. Exigem grande dispêndio de imaginação os prados e os arvoredos que não avista o olhar mais perscrutador. Apezar d'isso, os omnibus e as carruagens andam numa roda viva, atarefados no empenho de trazerem e levarem passageiros, cheios de calma e de poeira, que se incumbem benevolamente de acolher no fato e nos cabellos a caliça do mac-adam da estrada! E cháma-se a isto estar no campo! e todas estas fadigas de viaçao attrahem como outras tantas sereias os que só vêem na cidade um brazeiro ardente, um oceano de poeira! Mas quem nos salva senão a fé? (4)

(1) A.P.D.G., Sketches of portuguese life, manners, costume and character, London, Geo. B. Wittaker, 1826
(2) Gazeta de Lisboa, 22 de julho de 1809
(3) Gazeta de Lisboa, 13 de julo de 1810
(4) Visconde de Benalcanfor, Diário Illustrado, 31 de julho de 1874

Leitura relacionada:
Lisboa de Antigamente
Alexandra de Carvalho Antunes, O cais da Praça do Comércio e as suas colunas...
Mariana J. Pimentel Pires, Água e luz — o imaginário dos banhos
A. Vieira da Silva, Barcas de banhos do Tejo

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Lisboa e o Tejo em 1650

A armada do parlamento (ou do British Commonwealth)

Em 1650 ocorreu um grave incidente diplomático, no termo da guerra civil inglesa que opôs Carlos I ao parlamento, e que terminou com a execução do rei em Janeiro de 1649. Uma armada de parciais do rei veio refugiar-se no porto de Lisboa e o parlamento enviou outra para bloquear o Tejo. (1)

Vista geral da cidade de Lisboa capital de Portugal antes do terremoto.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

No dia 20 de outubro de 1649, o príncipe Rupert (1619-1682) saiu do porto de Kinsale no navio de comando, o Constant Reformation (40 peças), juntamente com o Convertine (40), navio de comando do príncipe Maurice, o Swallow (36) e o Blackamoor Lady (18), os quais tinham feito parte da esquadra que saíra de Helvoetsluys em janeiro.

Três navios adicionais, o Scott (30 peças), o Mary (14), e o Black Knight (14), eram navios capturados e reconvertidos. A esquadra Realista partiu do sul da Irlanda e atravessou o Golfo da Biscaia em direcção a Portugal. No início do ano, Rupert tinha recebido uma resposta favorável quando escrevera ao rei D. João IV pedindo autorização para basear os seus navios em Lisboa, no caso de ser forçado a deixar a Irlanda.

Depois de uma viagem atribulada durante a qual foram capturadas cinco embarcações os Realistas chegaram a Lisboa por volta do dia 20 de novembro de 1649. Três dos navios capturados foram vendidos e dois incorporados na esquadra como Second Charles (40 peças) e Henry (36). Rupert também comprou um navio holandês, que se tornou o Black Prince (30). O Blackamoor Lady foi vendido e o Convertine posto de parte de modo a financiar armas e tripulação para os novos navios.

Lisbone, Ville capitale du Royaume du Portugal... Pierre Aveline (1656-1722) entre 1680 e 1720.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Apesar da simpatia do rei João IV (1604-1656) por Rupert, o seu "ministro em chefe", o Conde de Miro [(?) o cargo de Secretário de Estado era ocupado por Pedro Vieira da Silva, no texto existe alguma confusão possivelmente com o Conde de Miranda], temer que um apoio aberto aos Realistas ingleses pudesse deteriorar o comércio português e também encorajar o Commonwealth a uma aliança com a Espanha, inimiga de Portugal.

De Miro era apoiado pela comunidade mercantil portuguesa. Os portugueses levantaram objeções à venda da carga de um dos navios capturados e o príncipe Maurice foi impedido de embarcar numa nova viagem para tomar futuras capturas.

Contudo, Rupert e Maurice trabalharam de modo a fortalecer as suas relações em Lisboa fazendo visitas frequentes ao rei João e juntando-se à vida social da corte portuguesa. Travaram amizades com a nobreza local e atá ganharam apoio do clero, que dissera que abandonar os príncipes aos rebeldes ingleses traria desonra a Portugal.

Lisbone, Ville capitale du Royaume du Portugal... François-Philippe Charpentier (1734-1817),
baseada em gravura precedente de Pierre Aveline (1656-1722).

Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

No início de 1650, o Conselho de Estado inglês reconheceu Rupert como pirata e encarregou Robert Blake, General-at-Sea, de destruir a esquadra Realista. Blake saiu de Portsmouth em março de 1650 com uma frota poderosa de 15 navios.

O navio de comando era o George (54 peças), o vice-almirante era Robert Moulton no Leopard (56), o contra-almirante era Richard Badiley no Entrance (46). Os outros navios de guerra eram o Bonaventure (42), o Adventure (40), o John (30), o Assurance (32), o Constant Warwick (32), o Tiger (36), o Providence (30) e o Expedition (30). A frota era suplementada pelo navio de fogo [brulote] Signet e os ketches Tenth Whelp, William and Patrick. 

Charles Vane, irmão de Sir Henry Vane, acompanhou a expedição com a responsabilidade de conduzir as negociações diplomáticas com o governo português, que então não reconheceu o Commonwealth of England.

Lisboa, Terreiro do Paço, A entrada do Embaixador Francisco de Mello e Torres, Dirck Stoop, 1662.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

A frota de Blake chegou à Baía de Cascais na foz do rio Tejo no dia 10 de Março de 1650. Blake imediatamente enviou uma mensagem ao rei João pedindo o uso do porto de Lisboa para a frota do Commonwealth e a cooperação de Portugal contra os piratas do príncipe Rupert.

No dia seguinte, apesar disso, os fortes portugueses dispararam tiros de aviso quando Blake tentou subir o rio Tejo em direcção ao lugar de ancoragem de Rupert. Blake concordou em retirar durante as negociações diplomáticas.

Charles Vane negociou uma concessão dos portugueses segundo a qual a frota do Commonwealth poderia entrar na baía de Oeiras no caso de mau tempo. Blake imediatamente aproveitou a oportunidade para ancorar a duas milhas rio abaixo dos navios de Rupert.

Torre de S Julião da Barra, João Christino, c. 1855.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Como as negociações continuaram durante as semanas seguintes, os portugueses concordaram em deixar os marinheiros do Commonwealth vir a terra, o que resultou em várias rixas de taberna entre os tripulantes das frotas rivais.

Na sequência de uma alegada emboscada e tentativa de assassínio pelos marinheiros do  Commonwealth quando Rupert e Maurice estavam numa caçada, os Realistas retaliaram enviando um barco disfarçado de venda de fruta armadilhado com uma bomba de fogo, que quase conseguiu rebentar o Leopard.

Noutro encontro, os homens de Rupert atacaram um grupo do Bonaventure que fazia aguada. Um marinheiro foi morto e três outros feitos prisioneiros. Apesar destes encontros, contudo, a situação continuou sem saída.

Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém, Dirck Stoop, c. 1660 - 1670, 1662.
Imagem: Mauristhuis Museum

D. João IV recusava deixar Blake atacar os navios de Rupert enquanto estes estivessem sob proteção portuguesa, e Rupert não podia arriscar deixar o porto de Lisboa com a poderosa frota do Commonwealth por perto.

Em meados de maio, Blake retirou do rio Tejo, na esperança de enganar a esquadra Realista. Por volta de 21 de maio, Blake apreendeu dez navios mercantes ingleses fretados a uma frota portuguesa que saía para o Brasil.

Quando Blake se ofereceu para libertar os navios se o rei João entregasse os navios do príncipe Rupert, o rei furioso ordenou a prisão de todos os súbditos ingleses em Lisboa conhecidos pela sua simpatia para com o Commonwealth e proibiu Blake de entrar no Tejo ou abastecer água em terra.

D. João, duque de Bragança, Peter Paul Rubens,  c. 1628.
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Poucos dias depois, General-at-Sea, Edward Popham reforçou a frota de Blake com mais oito navios: o de 68 peças, Resolution, o Andrew (42), o Phoenix (36), o Satisfaction (26), quatro navios mercantes armados e um muito necessário navio de armazenamento. Popham trouxe ordens revistas pelo Conselho de Estado que autorizavam Blake a atacar os navios mercantes portugueses se o rei João continuasse a obstruir o Commonwealth.

Sob a pressão crescente do  Commonwealth inglês e dos seus próprios conselheiros, o rei João tentou arrajar uma solução honorável para a situação oferecendo o uso da frota portuguesa para escudar a fuga do príncipe Rupert de Lisboa.

No dia 26 de julho, quando oito dos navios de Blake foram a Cadiz reabastecer provisões. A esquadra de Rupert saiu do porto de Lisboa apoiada por dois navios franceses, treze navios de guerra portugueses, alguns barcos de fogo e embarcações mais pequenas.

Rupert em visita à corte de Charles I, Anthony van Dyck, c. 1637.
Imagem: Wikipedia

Os aliados tiveram relutância em afrontar a frota do Commonwealth e apesar de Blake estar determinado em conter a esquadra de Rupert, não quis arriscar um envolvimento total até ao regresso da esquadra de Cadiz.

Durante três dias as frotas opostas manobraram na foz do Tejo com trocas ocasionais de tiros quando Rupert tentava aproveitar as mudanças do vento e da maré para se evadir aos navios de Blake e escapar-se para o mar aberto.

Na manhã de 29 de julho, a esquadra de Cadiz tinha regressado e a frota do Commonwealth tinha de volta a sua força total. Com Blake preparado para lançar o ataque em toda a escala, a frota aliada retirou para o abrigo das armas do porto de Lisboa.

A batalha dos quatro dias (1666), novas tácticas de Rupert, Abraham Storck, c. 1670.
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Nos inícios do mês setembro de 1650, o Conselho de Estado chamou Popham com o maior número de navios possível que pudesse dispensar da frota do Commonwealth. O bloqueio de Lisboa era caro a sustentar e os navios eram também precisos para apoiar a invasão da Escócia por Cromwell.

No dia 3 de setembro, Popham partiu para Inglaterra com oito navios, incluindo o poderoso Resolution, deixando Blake com nove navios para observar o príncipe Rupert. Três dias depois da partida de Popham, os realistas aproveitaram as condições do nevoeiro para fazer uma nova tentativa para escapar mas fora avistados e atacados pela frota do Commonwealth.

Durante este encontro, o navio de comando de Rupert, Constant Reformation, foi atacado pelo navio de comando de Blake, George. Uma descarga de tiros do George mandou abaixo o gurupés do  Constant Reformation, e os Realistas foram mais uma vez forçados a retirar para Lisboa.

A batalha de Texel (1673), o fim da carreira de Rupert como almirante, Willem van de Velde the Younger, 1687.
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No dia 14 de setembro, Blake avistou a frota portuguesa do Brasil que regressava a Lisboa. Coma autorização do Conselho de Estado para atacar o comércio português, Blake movimentou-se para intercetar a frota. 

Depois de uma batalha de três horas, Blake no George, capturou o navio vice-almirante português, ao mesmo tempo o seu irmão, Benjamin Blake, comandando o Assurance, capturava o contra-almirante. O navio de comando português escapou com a perda do mastro grande.

Apenas nove dos vinte e três navios da frota chegaram a Lisboa; um foi a fundado e o resto capturado. A perda da frota do Brasil, com a sua valiosa carga, que incluía 4.000 arcas de açúcar, foi um sério rombo para a economia portuguesa e finalmente convenceu o rei João a insistir com o príncipe Rupert de que a sua esquadra deveria deixar Lisboa. 

Actriz Margaret Hughes, companheira de Rupert, Peter Lely, c. 1670.
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Perto do final do mês de setembro, a frota de Blake foi obrigada a partir para Cadiz para reabastecer e para tratar do saque das capturas portuguesas. Com a partida de Blake, Rupert aproveitou a oportunidade para se escapar. No dia 12 de outubro saiu do rio Tejo com seis navios em direcção ao Mediterrâneo. (2)


(1) Fernando Gomes Pedrosa, A Muleta e a Tartaranha (séculos XV-XX)
(2) BCW Project Prince Rupert at Lisbon (1649-1650)

Leitura adicional:
História de Portugal Restaurado



Notas adicionais:

Os navios portugueses envolvidos no conflito

Santo António da Esperança (1644-1658) — Galeão de 600 t e 40 peças comprado ao Mercatudo em 1644. Em 1651 combateu nas águas do Tejo a armada inglesa do Parlamento. Em 1655 foi dado por incapaz na Baía, mas aparece na Índia (1657-1658). Entrou no combate contra holandeses na barra de Goa em 1657 e 1658.

N.ª S.ª da Luz (1648-1661) — Galeão de 28 peças comprado na Holanda, que era também conhecido por Fortuna e aparece como fragata e nau. Fez parte da força naval que acometeu a armada inglesa do Parlamento que bloqueava o Tejo em 1650. Em 1661, por ser velho, sugeriu-se que fosse entregue à Junta do Comércio.

N.ª S.ª da Conceição (1649-1651) — Galeão de 300 t e 24 peças da Companhia Geral do Comércio do Estado do Brasil. Em 1649 largou para o Brasil na armada do conde de Castelo Melhor. Em 1650 saiu a bater-se com a armada inglesa do Parlamento que bloqueava o Tejo.

S. Pedro de Lisboa (1649-1650) — Galeão de 400 t e 34 peças da Companhia Geral do Comércio do Estado do Brasil. Em 1649 largou para o Brasil na armada do conde de Castelo Melhor. Em 1650 saiu de armada a bater-se com a armada inglesa do Parlamento, sendo aprisionado pelo inimigo.

S. Francisco (1650) — Galeão da armada de Sequeira Varejão que em 1650 saiu a acometer a armada inglesa do Parlamento que bloqueava o Tejo.

S. João (1650) — Galeão da Companhia Geral do Comércio do Estado do Brasil que no regresso do Brasil, em 1650, sendo navio-chefe de Antão Temudo, se bateu nas águas do Tejo com a armada inglesa do Parlamento.

Santo António de Mazagão (1650-1654) — Galeão de 18 peças que também aparece como nau. Em 1650, de regresso da Índia, furou o bloqueio do Tejo da armada inglesa do Parlamento. Navio-chefe da armada aparelhada no Tejo para combater a armada do Parlamento. Ia armado de 36 peças. Em 1652 saiu de Goa para a reconquista de Mascate e em 1654 foi no socorro a Ceilão numa armada que destroçou uma esquadra de três naus holandesas. No regresso a Goa, perseguido por uma armada holandesa, encalhou e perdeu-se.

S. Pedro e S. João (1650) — Galeão que em 1650 largou numa armada a combater os ingleses do Parlamento que bloqueavam o Tejo. Combateu na segunda saída.

N.ª S.ª da Natividade (1650) — Galeão que em 1650 largou numa armada a combater os ingleses do Parlamento que bloqueavam o Tejo. Foi tomado pelos ingleses, apesar da bravura com que se houve na luta.

N.ª S.ª da Estrela (1650) — Galeão que também dava pelo nome de Santa Maria da Estrela. Em 1650 fez parte da armada que saiu a combater os ingleses do Parlamento que bloqueavam o Tejo.

S. Lourenço (1650-1658) — Galeão que em 1650 saiu numa armada a combater os ingleses do Parlamento que bloqueavam o Tejo. Em 1658, incluído na armada, combateu os holandeses que bloqueavam Goa.

Santa Cruz (1650-1656) — Nau de 500 t e 33 peças que também aparece como navio, galeão e fragata. Em 1650 saiu a acometer a armada inglesa do Parlamento que bloqueava o Tejo, incluída na força naval de Sequeira Varejão.

N.ª S.ª da Candelária (1641-1651) — Galeão de 700 t e 26 peças. Tomou parte na empresa de Cádis em 1641. Em 1644 largou para a Índia na armada de viagem do cabo Luís Velho. Tendo regressado em 1646, voltou à Índia no ano seguinte. Em 1650 bateu-se na costa com a armada inglesa do Parlamento. (a)

Sobre os navios de pesca (muletas) capturados

Esta armada do parlamento, que esteve junto à barra desde finais de março até finais de setembro de 1650, no dia 13 de junho apresou alguns barcos de pesca portugueses.

Segundo uma fonte inglesa, eram 16, dois dos quais conseguiram fugir. Numa carta do rei de Portugal ao embaixador em Londres, de 7 de agosto de 1650, eram 14, que costumavam fornecer abastecimentos aos navios ingleses na barra de Lisboa.

No dia 24 de junho o rei D. João IV enviou cartas ao governador do Algarve e ao conde da Ericeira informando que os Ingleses apresaram umas tartanas que andavam a pescar. Ficamos assim a saber que andavam a pescar perto da barra de Lisboa pelo menos 16 tartanas, as 14 apresadas e as duas que conseguiram fugir.

É a primeira vez que se tipifica a embarcação que pesca com rede tartaranha: é a tartana, tal como a tartana francesa que pesca com rede tartana. Até aí era dita barca, barco, tartaranha, chincha ou chinchorro. A muleta com rede tartaranha já aparecera em 1634 e 1645, mas como designação genérica.

Em 1672, numa postura da câmara de Lisboa, as embarcações que pescam com chinchorros são muletas: "porque as muletas de chinchorros são barcos mais pequenos que as chinchas, e não podem acomodar as redes sobre o leito com as bolas de barro, pelo muito volume que fazem, com que os barcos podem correr algum risco, se lhes permite possam usar de chumbadas nas duas paredes da rede a que chamam rede de mão, com tanto que em todo o caso usem das bolas de barro em toda a cuada, por ser esta a que arrasta toda a criação e desfaz a ova".

A bitola da malhagem que havia sido estabelecida, mais pequena, "se deve entender só para as tartaranhas, e não para as chinchas e chinchorros, porquanto antes se lhes deve dar malha com que possam tomar sardinha, que é o para que estes barcos têm a principal serventia". (b)

(a) António Marques Esparteiro, Catálogo dos navios brigantinos (1640 - 1910)
(b) Fernando Gomes Pedrosa, A Muleta e a Tartaranha (séculos XV-XX)