quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Henri l`Évêque, Lisboa e panorâmica do Tejo na década de 1800

Como se transformou um pintor retratista de miniaturas e paisagista num repórter de actualidades aproximando-se da arte da gravura? A metamorfose vocacional de L'Évèque registada no seu período de estadia em Portugal deriva das oportunidades que encontrou no pais.

Vista de Lisboa e panorâmica do Tejo na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Aqui encontraria radicados dois gravadores de craveira internacional, o veterano figurista Francesco Bartolozzi, em Lisboa desde 1802, e o paisagista Benjamin Comte, contratado em Londres em 1804 pelo governo português. 

Vista de Lisboa e panorâmica do Tejo na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

A chegada de L'Evéque terá acontecido seguramente antes da partida da corte para o Brasil que documentada visualmente.

Vista de Lisboa e panorâmica do Tejo na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Sem que tenhamos elementos que liguem directamente os dois mestres gravadores às suas expectativas nessa viagem a Portugal, do seu encontro em Lisboa resultariam parcerias frutuosas encontrando neste convivia o necessário complemento ao seu desenho fácil.

Vista de Lisboa e panorâmica do Tejo na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Em termos cronológicos as primeiras obras nacionais são em concordância realizadas em colaboração com Bartolozzi e Comte. Com o primeiro assinaria a referida partida do Principe Regente para o Brasil — e mais tarde a retirada de Junot depois do fracasso da primeira invasão francesa — debutando nas imagens de actualidade.

Vista de Lisboa e panorâmica do Tejo na década de 1800 por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Com o segundo, note-se também de origem suíça, a colaboração convergiu inicialmente para um par de vistas (mosteiro da Batalha e aqueduto das Águas Livres), em que se conjugam três aspectos: o desenho topográfico que recria as arquitecturas dos monumentos e as contextualiza; a moldura naturalista que concede à imagem o cunho paisagista e, finalmente, a omnipresença de figurantes espalhados pela composição, bem caracterizados social e etnograficamente pelos seus trajes e atitudes. 


Vista do Convento da Batalha, Henri l'Évêque, 1812.
Biblioteca Nacional de Portugal

Em síntese, o rigor da topografia e do estudo dos costumes associado ao pitoresco da paisagem define o essencial desta parceria.

A receita seguia as preferências do público britânico não só pela lugar central dado ao património arquitectónico, mas igualmente pelo uso do paisagismo como cenário e não como tema dominante, ainda equilibrado com a repetida presença humana.

As duas referidas vistas, seriam respectivamente dedicadas a dois chefes militares britânicos: John Earl, com uma extensa legenda explicativa em inglês sobre a construção do aqueduto, e a Wellington.

Lisboa Aqueduto Rabicha Henri l Eveque 1809.
Cabral Moncada Leilões

A primeira impressa em Lisboa e a segunda já pelos habituais Colnaghi & Ca em Londres mudança que nos anuncia o processo de transição em curso nas prioridades comerciais estabelecidas pelo genebrino. Se por um momento parece haver alguma expectativa na procura nacional, com a saída da corte em finais de 1807 a atenção de L'Évéque concentrar-se-ia no mercado inglês. 

A frase inscrita na correspondência com António de Araújo e Azevedo, então já no Rio de Janeiro, ilustra convenientemente a nova situação: "(...) Car que faire ici les artistas et les arts y pleurent depuis que S.n Ex.ce n'y est plus".

Embarque do principe regente de Portugal com toda a Familia Real em 27 de novembro às 11 horas da manhã [1807],
des. Henri L' Évêque (1769-1832), grav. Francesco Bartolozzi (1728-1815).
Biblioteca Nacional de Portugal

O conhecimento que Comte e, sobretudo, Bartolozzi possuiam sobre a organização do mercado da gravura e da edição ilustrada londrinas pode ter sido a ponte identificada por L'Évéque para esse mercado em expansão. (1) aqui


(1) Miguel de Faria, Henry L'Eveque e outros reporteres, III. Dados biográficos, 2015

Bibliografia:
Agostinho Araújo, Experiência da natureza e sensibilidade pré-romântica em Portugal : temas de pintura e seu consumo : 1780-1825, 1991
Agostinho Araújo, Foteini Vlachou, Miguel Figueira de Faria, Henri L’Évêque: artista viajante (1769-1832), Lisboa, Scribe, 2018

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Henri l`Évêque, Cacilhas no início da década de 1800 (I de II)
Henri l`Évêque, Cacilhas no início da década de 1800 (II de II)
Nicolas Delerive (1755-1818)
Alexandre-Jean Noël (1752-1834), no Museu de Artes Decorativas de Lisboa
O Tejo de Jean-Baptiste Pillement
etc.

sábado, 2 de novembro de 2019

Henri l’Évêque, artista viajante, primeiras impressões

Chegou-nos ontem pelo correio. Papel de qualidade, cor correcta, bem encadernado. Folheamos-lo, observando as imagens, lendo o título dos capítulos. Fizemos-lo novamente do fim para o princípio lendo algumas legendas e parágrafos. Lemos as primeiras, diremos, quinze páginas. No dia seguinte escrevemos este apontamento.

Henri l’Évêque: artista viajante (1769-1832), detalhe da cobertura.
Scribe

Agostinho Araújo, Foteini Vlachou, Miguel Figueira de Faria,
Henri L’Évêque: artista viajante (1769-1832),
Lisboa, Scribe, 2018


São três os autores e é notório o conhecimento de causa de cada um deles. Um dos autores introduz, contextualiza, descreve e referência em vários capítulos (Miguel Figueira de Faria). Parte importante do livro está escrito em inglês (Foteini Vlachou), outra são um conjunto de apontamentos, que referenciam um contexto temporal alargado (Agostinho Araújo). Aqui fica um avant-goût alargado: Miguel de Faria, Henri l'Eveque e outros repórteres, 2015

Nas primeiras impressões, posicionamos Henri l’Évêque e a sua obra em Portugal e no estrangeiro, no contexto do pré-romantismo, relacionando-o com outras partes e actores, Pillement, Noël, Delerive etc.

Aguardamos a ocasião para ler a totalidade de Henri l’Évêque, artista viajante. A próxima vez, muito em breve, que olharmos um desenho, aguarela, gravura, água-tinta, será com mais detalhe e entendimento. Nesta breve passagem, conhecemos variantes daquilo que pensávamos único no trabalho de L'Évêque e da sua originalidade, em relação Delerive, por exemplo.

The reflector, Henri l'Évêque e O acendedor de lampiões, Nicolas Delerive.
Bayerische Staatsbibliothek e Arquivo Municipal de Lisboa

Anotado, bem anotado, irrepreensível. Quanto à apresentação seria da nossa preferência as notas à l'ancienne, en bas de page

Diremos que faltou analisar e referenciar duas obras maiores de Henri l’Évêque, cremos que pelo desconhecimento dos autores da sua existência. São obras maiores em expressão e dimensão. Tratam-se de duas vistas panorâmicas, verdadeiras raridades iconográficas praticamente inéditas.

A primeira, que descreveríamos como "Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 por Henri l`Évêque", foi apresentada ao público na exposição integrada nas Festas da Cidade de Lisboa de junho de 1978 e é referenciada, sem reprodução de imagem, no catálogo de 1979 dessa exposição, O povo de Lisboa", tipos, modos de vida, ambiente, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade, da autoria de Irisalva Moita, então conservadora-chefe dos Museus Municipais de Lisboa.  

Foi a recente publicação do professor Alexandre Flores, A via fluvial do Tejo entre Almada e Lisboa na Idade Média — vicissitudes da falta de segurança no transporte marítimo dos animais de carga de mercadorias, dos almocreves, mercadores e outros..., na qual a aguarela é parcialmente reproduzida, que nos chamou a atenção para a sua existência, e para a exposição de grata memória.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

A imagem da Praia de Cacilhas, que em breve tentaremos detalhar num apontamento dedicado, apresenta diversos elementos, nomeadamente costumes, que L'Évêque retomará noutros trabalhos.

A segunda imagem,"Vista de Lisboa e panorâmica do Tejo na década de 1800 por Henri l`Évêque", descobrimo-la no processo de procura da primeira. Mostra a frente nascente de Lisboa compreendida entre Santos-o-Velho e Ajuda antes do início da construção do palácio.

Vista de Lisboa e panorâmica do Tejo na década de 1800 por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Ambas as aguarelas são propriedade da Administração do Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra que o Centro de Documentação dessa instituição por cortesia nos cedeu em cópia digital.

Concluimos, esperando um dia saber o que pensam os autores do livro aqui trazido sobre estas duas panorâmicas e a sua integração na obra de Henri l’Évêque, de preferência com outros novos elementos que possam entretanto aparecer.


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etc.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Francisco José Resende (1825-1893)

No leilão dos quadros da herança do rei D. Fernando, no Real Palacio das Necessidades, no dia 2 de Março de 1893, e seguintes até ao fim de Abril, foram apresentados seis quadros de (Francisco José) Rezende.

Auto-retrato (detalhe), Francisco José Resende, 1860.
Museu Nacional de Soares dos Reis

Numerados, descritos, datados, com dimensões e valor base de licitação:

10 — À miséria. Ao centro uma mulher sentada dando o seio a uma creança, â direita sentada e encostada á mulher outra creança, no primeiro plano deitada no chão com a cabeça junto aos pés da mulher uma outra creança. Pintado sobre tella, assignado Rezende Porto 1855, escola portugueza, largura 1,18 altura 1,50 — 60$500.

18 — Retratos de Rezende (auctor) e Pinto da Costa (meias figuras), assignado Rezende 1851, escola portugueza, largura 0,83 altura 1,08 — 27$000.

27 — Ovarina tendo o braço direito apoiado a um cesto. Pintado sobre tella, assignado F. Rezende 1860, escola portugueza, largura 0,98 altura 1,30 — 60$000.

28 — Lavadeira (arredores do Porto) fundo paysagem. Pintado sobre tella, assignado F. Rezende 1852, escola portugueza, largura 1,06 altura 1,48 — 60$000.

29 — Ovarina tendo um cesto com sardinhas descançado sobre a perna. Pintado sobre tella, escola portugueza, assignado F. Rezende 1851, largura 1,01 altura 1 ,30 — 60$000.  

372 — Lagrimas de mãe. Pintado sobre tella, escola portugueza, assignado F. J. Rezende 1881, largura 0,53 altura 0,67 — 13$500.

ooOoo

Francisco Jose Resende nasceu na cidade do Porto, em 9 de dezembro de 1825. Entrou para a Academia de Belas Artes com dezasseis anos incompletos e frequentou este estabelecimento de ensino ate finais da década de quarenta. 

Teve como Professores de Pintura, Joaquim Rodrigues Braga e Domingos Pereira de Carvalho e de Desenho, Tadeu Maria de Almeida Furtado e Francisco Antonio da Silva Oeirense. Porem, os ensinamentos que o levaram a tornar-se numa das principals flguras da pintura portuense do século XIX, obteve-os fora da Academia. 

Na verdade, foi no atelier do suíço Augusto Roquemont que Resende aprendeu a compor com imaginação, modelar com vigor e a derramar sobre a paleta a magia das tonalidades quentes. Foi tambem Roquemont que incutiu a Resende o mais desvairado entusiasmo pela temática dos costumes populares. 

A caminho do mercado, Francisco José Resende, 1859.
Cabral Moncada Leilões

O quadro "Vareira vendendo sardinhas" que Resende expos na trienal da Academia de Belas Artes de 1851 [com outras nove telas] e o exemplo mais perfeito da influencia que sobre si exerceu o mestre suiço. Resende obteria com esta tela o seu primeiro grande exito publico. (1)

No início de 1852, após a morte de Roquemont, Resende fez-se representar de joelhos, junto à sua campa, chorando. Não obstante, a perda do seu mentor não o fez descurar a carreira. Aproveitando a passagem da família real pelo Porto, foi apresentado a D. Fernando II no dia 4 de maio, no Palácio das Carrancas, conhecido mecenas e colecionador de arte. Nessa ocasião ofereceu-lhe várias obras, entre as quais se contava a "Vareira", e do rei português recebeu elogios sobre o seu talento e a promessa de apadrinhar a continuação dos seus estudos no estrangeiro.

Efetivamente, depois da exibição pública de "Camponesa dos Carvalhos" no Museu Allen [Museu da Restauração], em setembro daquele ano, o rei cumpriu a sua promessa ao conceder ao pintor a tão desejada pensão.

Em 1853, Resende regeu ainda as cadeiras de Modelo Vivo e de Pintura Histórica (fevereiro a Junho), pintou o retrato de José Vitorino Damásio, fundador da Associação Industrial Portuense a pedido desta instituição e, finalmente, a 12 de Julho partiu para Paris.

Durante a viagem visitou o Museu de Marselha. À chegada a Paris procurou um bom professor de Pintura, tendo optado por Adolphe Yvon (1817-1893), reputado pintor que o aceitou como discípulo. Infelizmente, a estadia na capital francesa foi de curta duração pois uma nevralgia cerebral obrigou-o a regressar ao Porto em novembro de 1853.


Restabelecida a saúde voltou a Paris, a 11 de maio de 1854. Durante esta segunda estada parisiense prosseguiu as aulas de desenho com Yvon, copiou quadros do Louvre, em particular do pintor flamengo Rubens, e viajou até Londres.

Em setembro de 1855 regressou ao Porto, para retomar o seu lugar na APBA e continuar a pintar. Porém, o seu estilo mudara e o pintor parecia sem rumo. Sem a orientação de um mestre, entregou-se a duvidosas experiências pictóricas.

Durante o ano de 1857 regeu a Aula do Nu na APBA e voltou a expor pinturas na trienal da APBA e, pela primeira vez, esculturas ("Mendigo" e "Auto-retrato").

Auto-retrato, Francisco José Resende, 1860.
Museu Nacional de Soares dos Reis

Em abril de 1858 partiu para Lisboa. Na bagagem levava os quadros "Miséria" e "Tasso no Hospital", para o seu mecenas. D. Fernando, imune à polémica gerada em torno de algumas obras do pintor, recebeu-o efusivamente e ofereceu-lhe um botão de camisa com um brilhante.

No ano seguinte, Francisco José Resende pintou os retratos do Conde de Ferreira, de D. Pedro V e de D. Fernando e publicou a sua primeira crítica de arte na edição de 25 de julho do "Eco Popular".

Durante os anos sessenta participou em diversos certames artísticos, como na Exposição Industrial Portuense (1861), nas exposições trienais da APBA (1860, 1863 e 1866), no Salão da Promotora (1866 e 1868) e na Exposição Internacional do Porto (1865) e esteve representado na Exposição Universal de Paris de 1876.

Visitou Lisboa no primeiro trimestre de 1861, onde expôs "Castanheira do Reimão", obra destinada a D. Pedro V, e a "Vareira", a D. Fernando. Este, ao receber a pintura, felicitou o artista, afirmando tratar-se do seu melhor trabalho, e beijou a sua filha Claire, que o acompanhava.

Varina e pescador, Francisco José Resende, 1859.
Cabral Moncada Leilões

Francisco José Resende viajou por Londres, pela Alemanha, França e Bélgica durante o ano de 1862. Regeu a Aula de Pintura (1869), pintou, entre outros, o elogiado retrato de D. Luís I, para a Tribuna do Teatro de S. João, e a "Lavradeira dos Carvalhos", que ofereceu ao príncipe Humberto de Saboia, em 1862. Escreveu sobre as exposições que visitou e nas quais participou e para os jornais "Comércio do Porto" e "Diário Mercantil".

Apesar de ser um artista algo controverso, Resende era indiscutivelmente uma figura popular, distinta pelo seu aspeto romântico e que, estranhamente, se assumia como um abnegado pai solteiro, muito bem cotado, sobretudo na cena artística do Porto. (2)

Entretanto, no final dos anos setenta, com a eclosão do Naturalismo, a pintura de Resende começa a passar de moda. Em 1882, o artista deixa o professorado e viaja regularmente pela Europa, apesar do agravamento do seu estado de saude. Sobram dessas aventuras, muitos desenhos e esquissos, onde a vivacidade do trago, quase explosiva, encanta por aliar a síntese gráfica, uma poderosa segurança descritiva.

Em 1891 procura atenuar os seus padecimentos com uma cura termal no Geres. As melhoras, porem, são efémeras. Dois anos mais tarde, num dia triste de Outono, Resende deixa o mundo para sempre. (3)

Francisco José Resende havia sido um pintor popular e conservador, sempre fiel à pintura romântica, e que, ironicamente, apesar de não gostar de pintar retratos, o fez com muita frequência durante toda a sua carreira para encomendadores privados e instituições religiosas e públicas (misericórdias, irmandades, escolas e paços dos concelhos). 

A sua preferência recaíra sempre em quadros de costumes, mais prestigiantes, mas muito menos rentáveis.

Amai-vos uns aos outros, Francisco José Resende (MNSR).
Arquivo Municipal do Porto

Seis anos após a morte do artista, Claire, sua filha, doou a tela "Amai-vos uns aos outros" à Academia Portuense de Belas Artes, quadro que hoje integra o acervo do Museu Nacional de Soares dos Reis. (4)


(1) Natália Marinho Ferreira-Alves, Dicionario de Artistas e Arti­fices do Norte de Portugal
(2) Francisco José Resende, Antigos Estudantes Ilustres da Universidade do Porto
(3) Natália Marinho Ferreira-Alves, Idem
(4) Francisco José Resende, Idem

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Augusto Roquemont (1804-1852)
A dispersão dos quadros da herança do rei D. Fernando

Informção relacionada:
MatrizNet
CeROArt

Leitura relacionada:
António Mourato, Arco-íris sobre o Sena
António Mourato, Francisco José Resende (1825-1893). Figura do Porto romântico, Porto Afrontamento, 2007
Francisco José Rezende, Fallecido em 30 de Novembro de 1893, O Occidente n.° 541, 1 de janeiro de 1894

sábado, 26 de outubro de 2019

Retrato de menina por Emilia Santos Braga

São de facto pelo menos dois retratos. O primeiro, assinado, encontramo-lo na leiloeira Cabral Moncada, em 2013. O segundo, assinado e datado de 1904, no catálogo da 6.ª exposição da Sociedade Nacional de Bellas-Artes, em 1906.

Retrato de menina (detalhe), Emilia Santos Braga.
Cabral Moncada Leilões
Gosto dos quadros Emilia Santos Braga, simples, representativos, banais. Mulher independente, "suffragette", inovadora, inconvencionada, anti-clerical, discípula de Malhoa, expôs em 1912 em Madrid o quadro Fumadora de ópio, "propuesto para condecoracion", e como há pouco referimos (ou quase) um rasgão na tela manifestou um protesto.

Não entendo porque foi a sua obra votada ao maior desinteresse, pelas calhas da ignorância talvez. Hoje, se quiser ver uma obra de Emilia Santos Braga não saberei onde a encontrar. Comparo-a a Paula Rego, que não gosto. Em Emilia Santos Braga o desespero não existe, e a arte para despertar consciencias e mudar mentalidades passa-me ao lado. A arte para mim tem que ser bela; "bella anche se brutta".

Mily Possoz (1888-1968), artista, agradável de ver, aqui e ali, e no meu livro de leitura da segunda classe, mas não me move. Mily Possoz, 16 anos, modelo de retrato, discípula de Emilia dos Santos Braga.

oooOooo

Filha de cidadãos belgas radicados em Portugal, Emília Possoz fez estudos regulares no Colégio Alemão, complementados com aulas particulares de piano, pintura e desenho — nestes últimos casos, respectivamente com a pintora portuguesa Emília Santos Braga (1867-1949) e o aguarelista espanhol Enrique Casanova (1850-1913).

Retrato de menina, Emilia Santos Braga.
Cabral Moncada Leilões

Com o incentivo paterno, continua a formação artística em Paris, em 1906, na Académie de La Grande Chaumière, estudando com o pintor e gravador Emile-René Ménard (1861-1930) e com o pintor Lucien Simon (1861-1945).

Retrato de Mademoiselle J. [Jane] Possoz (1904), Emilia Santos Braga.
6.ª exposição da Sociedade Nacional de Bellas-Artes, 1906

Prossegue depois estudos na Bélgica, Alemanha — em Düsseldorf tem aulas particulares com o gravador Willy Spatz (1861-1931) — e Holanda.

Retrato de menina e Retrato de Mademoiselle J. [Jane] Possoz (1904), Emilia Santos Braga.
Cabral Moncada Leilões e catálogo da 6.ª exposição da Sociedade Nacional de Bellas-Artes, 1906

De regresso a Portugal, em 1909, participa desde logo nas exposições colectivas dos modernistas [...] (1)


(1) Emilia Ferreira, MNAC

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Emilia Santos Braga (1867-1950) [II de IV]
Emilia Santos Braga (1867-1950) [III de IV]
Emilia Santos Braga (1867-1950) [IV de IV]

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Retrato de Passos Manuel no exílio

O quadro da Corringe's que foi a leilão em 2013 não está identificado, nem assinado, nem datado. É assim descrito: retrato de cavalheiro sentado, a sua mão sobre um mapa de Portugal. No entanto, como se fora ontem, reconhecemos imediatamente o retratado, Manoel da Silva Passos.

Retrato de Passos Manuel durante o exílio.
Corringe's

Para nós que compreendemos as razões do segundo exílio de Passos Manuel em Santarém, basta-nos tê-lo reencontrado no primeiro, e enquanto jovem, para ficarmos agradados. Quanto ao mapa, pensamos tratar-se antes de uma publicação para os emigrados.

Retrato de Passos Manuel durante o exílio.
Corringe's

Não obstante as dificuldades por que passou a maioria dos emigrados em Plymouth, houve alguns liberais exilados que puderam usufruir das comodidades que a região oferecia. Passos Manuel e Passos José, inicialmente exilados em Plymouth, contaram com as quantias enviadas pela mãe, a partir do Porto, por intermédio de uma casa comercial. No exílio em Inglaterra, os irmãos Passos receberam três libras por mês, o equivalente à categoria de advogado, para além de subsídios alimentares (Pinheiro 1996: 52).

Early 19th century, English School, Portrait of a seated gentleman, his hand resting on a map of Portugal.
Manuel Manoel da Silva Passos por João Baptista Ribeiro, imp. 1837, Porto, Lith. de Ribeiro.
Corringe's e Biblioteca Nacional de Portugal

Passado pouco tempo, Manuel e José abandonariam Inglaterra com destino a França, a partir de onde passariam a fazer oposição à fação política chefiada por Palmela. (1)


(1) Fábio Alexandre Faria, O exílio liberal português de 1828-1832, um fenómeno multidimensional: práticas sociais e culturais

Passos Manoel, por L. A. Rebelo da Silva, Vol. IV n.° 5
Passos Manoel, por L. A. Rebelo da Silva, Vol. IV n.° 6
Passos Manoel, por L. A. Rebelo da Silva, Vol. IV n.° 7

Artigos relacionados:
O partido setembrista, Lisboa 1836
Manoel da Silva Passos, Lisboa 1836
A Belemzada, Lisboa 1836

Leitura relacionada:
Magda Pinheiro, Passos Manuel, o patriota e o seu tempo, Matosinhos, Afrontamento, 1996
Magda Pinheiro, Uma viagem à casa de Passos Manuel As viagens na minha terra em perspectiva histórica

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

A ultima entrevista com o Marquez de Pombal

O duque de Chatelet achava-se em Londres, quando concebeu o desejo de visitar Portugal. Embarcou em Falniouth, a 8 de maio de 1777, a bordo do Embden. Depois d'uma viagem de seis dias chegou a Lisboa.

Cerimónia de Aclamação de Maria I de Portugal, na Praça do Comércio, em 1777.
Feata, Pompa e Ritual. A aclamação de D. Maria I
Wikipédia

"Na época de minha chegada achava-se Lisboa em agitação impossível de descrever. Era véspera da celebração da coroação da rainha. O povo corria por aqui e por acolá cantando e dançando a 'foffa' [sossa?], espécie de dança nacional que se executa aos pares com accompanhamento d'uma guitarra e d'outro qualquer instrumento: dança lasciva a tal ponto, que o pudor cora ao ser testemunha d'ella, e não ousaria eu emprehender descrevel-a. Atravessei pela multidão, e fui alojar-me n'uma hospedaria ingleza, situada em Buenos Ayres: sitio agradável, e ao abrigo de cheiros fétidos, com os quaes a cidade está infectada durante o estio, e das chuvas, de que está innundada durante o inverno."

"Tinham escolhido a praça do Commercio, como o logar mais appropriado á ceremonia da coroação. Fez-se esta com grande magnificência, ao som da artilheria, e das acclamações d'um povo immenso, que concorrera de todas as partes para assistir a ella. Só a rainha pareceu não participar do jubilo geral. Achava-se dolorosamente affectada. Os principaes senhores da corte tinham resolvido mandar-lhe pedir pelo povo a cabeça de Pombal: a rainha achava-se informada do desígnio d'aquelle, e receiava o perigo d'uma recusa; porém, apesar de não gostar do marquez, respeitava-o como amigo de seu pai."


Documentário sobre Sebastião José de Carvalho e Melo, 1.° Marquês de Pombal...
RTP Arquivos

"Eu estava egualmente informado de quanto se tramava: quiz ser de perto testemunha da agitação, que d'isto havia de resultar. Percorri as ruas com um francez versado na lingua portugueza, e introduzi-me na multidão. Por toda a parte nada mais se ouvia, que o nome de Pombal: os espíritos azedavam-se: o motim estava prestes a romper, quando de repente sobreveiu uma patrulha de cavallaria, com um official á frente, o qual dirigindo-se ás pessoas, que formavam este grupo, prohibiu-lhes debaixo das mais rigorosas penas de fallarem no marquez de Pombal."

"Dentro em pouco dispersou a multidão; as ruas acharam-se n'um instante cheias de soldados a pé e a cavallo; e com tanta constância se entretiveram na dispersão dos grupos na occasião em que parecia formarem-se, que o povo se dirigiu para a praça antes de ter podido decidir alguma cousa."

"Todos os fidalgos pareciam muito espantados, e no extremo da agitação. Viamol-os ir, vir, mandar emissários do alto da galeria, onde se achavam, lançar para o povo olhares, nos quaes se pintavam a cólera e a impaciência. Tinha havido a prudente cautella de dividir este povo, mandando construir na praça uma estacada de distancia a distancia, de forma que se achou separado, e por assim dizer preso sem ter dado por isso. Percebeu-se todavia uma espécie de rumor, e sete ou oito vozes gritaram : Pombal, Pombal, porém foram no mesmo instante abafadas pelos gritos de Viva a rainha, que os partidários do marquez levantaram. Uma grande quantidade de espectadores se tinha introduzido no interior da galeria depois de ter derribado os guardas, a rainha mandou que os deixassem alli estar. Não se podendo as carruagens approximar, ella mesma se viu obrigada a passar por entre a multidão com o fim de se dirigir para seu coche: foi este para ella o mais doce momento de sua vida: uns deitavam-se a seus pés, outros beijavam-lhe a ponta do vestido, e com isto se enterneceu a ponto de lhe marejarem os olhos."



"Foram brilhantes as illuminações: a ceremonia celebrou-so com tanto de pompa, quanto de tranquillidade: a colónia ingleza deu á noite um sumptuoso baile aos principaes habitantes da cidade, sem duvida em testemunho de seu reconhecimento, porque era ella nação ingleza a verdadeira soberana de Portugal que tinha sido coroada na pessoa da rainha. No dia seguinte tomaram outra vez o lucto, que na véspera se tinha largado. No meio da alegria geral produzido pela queda de Pombal, tudo tornou a tomar um aspecto lúgubre, e sairam do baile para correrem para as egrejas."

"A rainha assignalou sua elevação ao throno por actos de bondade e clemência. Mandou abrir as prisões, e soltar lodosos desgraçados, que alli estavam detidos, alguns havia mais de vinte annos. Vi duas raparigas, que para alli tinham entrado ainda de mama na companhia de seus pães e mães: teem uma dezenove annos, e a outra vinte, e parecem ter quarenta. São as filhas do desditoso conde de Alorna, compromettido na conspiração. Seu unico crime era o ter emprestado, pela manhã do dia do assassinato, uma espingarda ao joven Aveiro, um dos conjurados, que lh'a pediu para ir á caça: pagou este favor, bem como sua mulher e filhos com vinte e um annos de prisão. É verdade que o marquez da Pombal linha lançado mão da conjuração para abater a arrogância dos fidalgos portuguezes, e reprimir as atrocidades até então impunes, das quaes se tornavam culpados frequentemente. Tinha-se visto alguns d'elles matar um seu criado, ou um particular d'uma classe inferior, quando tinha a desgraça de lhes cair em desagrado, ou praticar alguma falta. A severidade de Pombal tinha posto freio a excessos tão terríveis."

"N'uma das digressões, que fiz em Portugal com o fim de visitar o interior d'este reino, fui ver o marquez de Pombal. Eu lhe era recommendado d'um modo particular, motivo pelo qual me recebeu com todas as attenções possíveis. Conhecia este ministro de fama, e não se podia exprimir o desejo, que eu tinha de conhecel-o pessoalmente."

A Villa de Pombal, António Ramalho (dsenho do natural), 1882.
O Occidente n.° 122, 8 de maio de 1882

"Cheguei pois á villa de seu nome, e, da minha hospedaria lhe escrevi com o fim de saber a hora, em que lhe poderia entregar as cartas, que tinha para elle. Alli me dirigi pelas dez horas da manhã, e fui introduzido na habitação d'este grande homem. Actualmente está algum tanto melhor alojado, mas na época, era que o vi, estava n'uma pobríssima casa, e dormia n'um quarto, cujas paredes tinham sido estucadas de novo."

Casa onde falleceu o Marquez na Villa de Pombal, António Ramalho (dsenho do natural), 1882.
O Occidente n.° 122, 8 de maio de 1882

"As maneiras do marquez de Pombal são agradáveis e attenciosas em extremo. Fez-me mil perguntas; affectou ignorar completamente o que se passava pela Europa. Pediu-me que o informasse dos acontecimentos. Até me fez perguntas relativas a Portugal, e sobre o estado em que se achava Lisboa, quiz saber que motivo, ou acaso me conduzia áquelle logar tão affastado. — Costumado, lhe disse eu, a viajar desde minha mocidade, visito sempre o interior dos paizes, que percorro, não me limitando ás cidades principaes, e portos de mar, nos quaes nada ha de novo a estudar. Mas além d'isto desejava conhecer quem tanto tinha beneficiado seu paiz. Entramos pouco a pouco era conversa: convidou-me a passar com elle oito dias, e fez-me ficar para jantar e ceiar n'aquelle dia. Exprimi lhe meu espanto sobre o estado, em que tinha achado Lisboa, attendendo ao pouco tempo decorrido depois de sua catastrophe. Respondeu-me que presentemente não cuidava em nada d'isso; achava-se velho, e pensava em descansar; porém que, se a providencia lhe tivesse conservado seu amo por mais tempo, ter-se-hia esforçado em continuar com o mesmo zelo a empreza, cuja execução apenas pudera esboçar; e que, sem duvida, teria lançado os alicerces d'um palácio para o rei. Patenteou-me o magnifico plano, que tinha adoptado para este edifício. Situado n'uma pequena eminência, perto de Belém, teria dominado o mar e a cidade, seria construído no centro d'um grande jardim, cercado de altos muros, aos quaes estariam de distancia em distancia contíguos os palácios dos principaes senhores da corte, e aposentadas as pessoas, que n'elles fossem obrigadas a residir por causa de seus cargos."

Casa onde falleceu o grande ministro.
Hemeroteca Digital

"O marquez de Pombal trouxe comsigo muitos livros: ou lê, ou manda ler continuamente: os livros são todos francezes. Falla nossa língua tão facilmente, como nós mesmos: sabe egualmente bem o allemão, inglez, e italiano. Não pronunciava sem grande ternura o nome de seu respeitável amo. 'Honrava- me, dizia elle, com sua confiança. Perder seu rei e seu amigo! É uma prova forte de mais para eu poder resistir a ella ! Por isso o sol para mira perdeu o brilho de seus raios! Nada, nada me pôde indemnísar da perda, que padeci!' A isto algumas lagrimas cabiam de seus olhos. Em vão procurava eu desviar a conversa para um outro assumpto, para este me levava sempre. — 'Ao menos, continuava elle, aqui serei feliz. Vedes esta choupana? Não é minha: to'mo-a de aluguer. Aquelle homem accusado de não ter pensado mais que em si, nem mesmo na sua terra mandou construir um aposento' — Depois mostrando-me um grande edifício novo. 'É um armazém pertencente á villa. Mandei-o construir para n'elle se guardarem os cereaes, dos quaes está cheio. Emfim, á maneira de Sully, viverei mais afortunado em meu retiro, que no meio dos grandes e da corte. Duixaram-me trazer meus livros, e por isso pouco me resta a desejar.'"

Vista exterior do quarto em que falleceu o Marquez de Pombal.
Hemeroteca Digital

"Acabava, quando a marqueza de Pombal, sua mulher, chegou: teve a bondade de me appresentar a ella. Conserva ainda uma parte de seus dotes pessoaes; e veste-se cora muita arte e gosto. É discreta, sem duvida; porém não possue a força, nem o valor de seu marido para tolerar sua situação. No tempo da prosperidade do marquez de Pombal tinha a seus pés os grandes e o povo: sua casa era uma espécie de corte. Quando os homens a iam visitar, punham-se de joelhos para lhe beijarem a mão, segundo o costume do paiz."

"Sua vaidade lisonjeada por tantas adulações não se pôde acostumar ao isolamento, a que foi condemnada pela desgraça de seu marido."

"Desamparada de toda a gente, solitária, n'uma villa desviada de povoações, a única satisfação que tem, é de ver seus filhos, que algumas vezes vão passar com ella quinze dias. Nascida allemã tem o orgulho das grandes famílias de sua nação, e, depois de ter tido tanto de que lisonjear-se, geme em segredo sua expiação." 

"Tentou disfarçar suas maguas, mas não o poude conseguir por muito tempo. Passados dez minutos de conversação, achavam-se seus olhos arraza dos de lagrimas."

"Aquillo é próprio de seu sexo, me dizia o marquez; consolal-a é para mim uma outra occupação, mas seguindo meu exemplo, bem depressa apprenderá a supportar nosso infortúnio."

"Um instante depois vieram participar, que o jantar estava na mesa. 'Vinde disse-me elle, tomar parte na comida frugal d'um eremita.' Em vez de comida frugal, que me annunciava, encontrei uma mesa bem servida, e na qual nada se resentia de sua desventura, nem mostrava o sainete da desgraça. Ao todo não passávamos de três. A conversa foi muito longa. Entrei a fallar com a marqueza a respeito de Allelmanha, e por algum tempo fallamos na sua lingua. Foi breve o jantar, ou pelo menos assim me pareceu: o calor era excessivo."

"Depois de nos levantarmos da mesa, cada um foi descançar por alguns momentos. Approveitei me d'este tempo para ir percorrer o logar habitado pelo illustre par. Não é tão desagradável, como em Lisboa m'o tinham pintado. N'uma altura estão as ruinas d'um velho castello, offerecendo uma vista bastante pittoresca; as aguas são excellentes."

Casa onde morreu o Marquêz de Pombal, postal fotográfico da Rua Conde de Castelo Melhor em Pombal.
Arquivo Municipal do Pombal

"Ao sair de casa do marquez encontrei á sua porta mais de duzentas pessoas, a quem se distribuía pão e caldo. D'este modo é que elle tem adquirido um grande numero de partidários, que o exaltam mesmo com sua desgraça: pareceu-me ser bem quisto de todos habitantes do logar. Finalmente depois d'um passeio de cerca de duas horas, voltei para casa do marquez, a quem encontrei no meio de seus livros. Continuámos a conversa. Perguntou- me se tinha visto a ceremonia da coroação da rainha. Advinhei onde queria chegar, respondi-lhe que sim, e que me parecia ter-se celebrado com muita pompa e magestade."

"Quiz saber se eu tinha reparado em todos os incommodos, a que seus inimigos se tinhara entregado para o perderem, e até me pediu alguns pormenores. Quiz saber a maneira como o povo tinha procedido. Disse-lhe quanto sabia, e accrescentei que esta circumstancia era mais um triumpho para elle, porque demonstrava não só a impotência de seus adversários, mas até sua animosidade. A estas palavras disse-me com a maior vivacidade, a qual lhe ficam muito bem."

"Avançam um paradoxo, fazendo-se interpretes do povo: mandam-lhe dizer que me deteste! Mas isso é impossivel : minhas acções, meu procedimento, tudo me assegura do contrario. O povo portuguez não me pôde odiar, e vós ides ouvir a rasão. Que é o portuguez hoje ? Que era elle ha quarenta annos? Não o puz eu em estado de já não ter necessidade de seus visinhos? Não estabeleci eu por toda a parte as artes, as offlcinas, o ensino? Não fiz além d'isso reedificar um terço da cidade de Lisboa? Não propaguei a actividade, e não derramei o bem estar por entre os operários? Por todos os direitos, que eu creio ter ao reconhecimento d'esse povo, tenho-o por assaz justo, para me querer devorar: e até não o fez. Vou dizer-vos quaes os auctores de quanto podereis ter ouvido e percebido no tempo da coroação. Os fidalgos, que se obstinavam em suas insolentes pretensões, as quaes eu quiz anniquilar, empregaram todos os meios possíveis para me perderem. Elles não podiam decentemente mostrar-se à frente do partido perseguidor. Que fizeram? Escolheram algumas de suas creaturas, que disfarçadas em barbeiros, cosinheiros, marinheiros, etc. divagavam pelos logares públicos, desacreditando-me e pintando-me com as mais horríveis cores. O povo, que facilmente é seduzido, secundou um resentimento, ao qual lhe faziam crer ser um dever associar-se. Aborrecia-se, porque lhe diziam qie assim era mister. Varias pessoas, que vós conheceis, accrescentou elle, com o fim de malquistar-me, andaram por alguns dias debaixo d'um tal disfarce, confundiram-se cora a ralé, e inventaram calumnias, que lhe appresentaram como verdades incontestáveis. Finalmente quanto obrei, foi por ordem de meu amo, e nada tenho de que arrepender-me. Accusam-me principalmente de ter sido cruel; mas obrigaram-me a ser rigoroso. Quando eu annunciava as ordens do rei, e não faziam caso d'ellas, era indispensável recorrer á força: as prisões e os cárceres foram os únicos meios, que encontrei para domar esse povo cego e ignorante."

Ilustração Portugueza n.° 899, 12 de maio de 1923

"D'esta forma passei em casa d'este ministro cinco dias nas conversas as mais interessantes. Teve a bondade de eommunicar-me a respeito de Portugal varias noções e reflexões, de que fiz uso no decurso de minha obra."* (1)


(1)  Branco, Manuel Bernardes, Portugal eos estrangeiros..., Lisboa, Livraria de A. M. Pereira, 1879
cf. Cormatin, Pierre Dezoteux (1753-1812 ; dit baron de), Voyage du ci-devant duc du Chatelet, en Portugal. Tome 1 / , ou se trouvent des détails interessans sur ses colonies, sur le tremblement de terre de Lisbonne, sur M. de Pombal et la cour ; revu, corrigé sur le manuscrit, et augmenté de notes... par J. Fr. Bourgoing... Tome premier

Artigo relacionado:
O estadista

Leitura adicional:
O Occidente n.° 122, 8 de maio de 1882
Homenagem ao Marquez de Pombal, Clube de Regatas Guanabarense, 1882
Terra Portuguêsa, janeiro de 1922
Ilustração Portugueza n.° 899, 12 de maio de 1923

A Lisboa de Pombal, Lisboa Revista Municipal n.° 13, 1985

Mais leituras:
Marquez de Pombal (HathiTrust)
José Augusto França, A reconstrução de Lisboa e a arquitectura pombalina, Lisboa, Livraria Bertrand, 1977 (1.ª edição)
O plano de Lisboa de 1758
João Lúcio d'Azevedo, O Marquez de Pombal e a sua epoca, ...,1922
Historia de reinado de el-rei D. José e da administração do marquez de Pombal
D. António da Costa, A reforma do Marquez de Pombal, O Académico, 1878



* O 2.° volume das Viagens de Chatelet (que nada appresenta digno de especial menção) termina cora um Supplemento composto por Bourgoing, no qual se corrigem algumas inexactidões inseridas n'esta obra. 

O duque de Chatelet, de quem nos temos oecupado n'este artigo, parece ter sido filho da celebre marqueza de Chatelet, amante de Voltaire, e o qual morreu no cadafalso revolucionário, em 1794 depois de ter sido embaixador na Áustria e em Portugal, e coronel do regimento das guardas francezas em 1722 e 1729.

Porém o que no duque de Chalelet nada tem de agradável é a pintura, que nos faz do caracter dos portuguezes no tempo do raarquez de Pombal.

"O povo portuguez é naturalmente orgulhoso, soberbo e animoso, e detesta em geral qualquer outro povo: crê sinceramente que não existe no universo nação mais esclarecida e perfeita, que a sua. Seu ódio contra os hespanhoes é inexprimível: até mesmo tem aversão aos inglezes, aos quaes olham como seus mais temíveis inimigos. Não sei se é prevenção nacional, mas julguei descobrir em Lisboa que ali não se viam os francezes com maus olhos."

"Seus habitantes nos consideram como intrépidos: estimam nossos militaes, dos quaes concebem a mais elevada idéa: além d'isto, nossa vivacidade sympathisa com a d'elles. São (o que todavia custa a accreditar) propensos aos prazeres, e entregam-se a elles, quando o podem fazer commodamente. Ha, segundo julgo, poucos povos mais feios, que os portuguezes. São baixos, morenos, mal conformados: o interior corresponde bastante, em geral, a este repugnante invólucro, principalmente em Lisboa, onde os homens parecem agglomerar todos os vícios da alma e do corpo." 

"Ha, todavia, entre a capital e o norte d'este reino uma differença notável. Nas províncias septentrionaes os homens não são tão trigueiros, nem tão feios; são mais francos, mais tratáveis na sociedade, muito mais valentes, e mais laboriosos; porém, se é possível ainda mais escravisados pelos preconceitos. Esta differença dáse egualmente nas mulheres: são muito mais brancas, que as do sul."

"Os portuguezes considerados no geral são vingativos, vis, soberbos, escarnecedores, presumpçosos excessivamente, ciosos e ignorantes. Depois de ter descripto os vícios, que julgo descobrir n' elles, seria injusto calando suas boas qualidades. São affeiçoados a sua pátria, amigos generosos, leaes, sóbrios e caritativos. Seriara bons chrístãos, se não estivessem cegos pelo fanatismo. Acham-se tão acostumados ás praticas religiosas, que são mais supersticiosos, que devotos. Os fidalgos ou grandes de Portugal teem uma educação muito escassa; orgulhosos e insolentes, vivendo na mais crassa ignorância, quasí nunca saem de seu paiz para verem outros povos."

"A família do marquez de Pombal, a qual frequentei muito, é quasi a única onde encontrei instrucção, e um conhecimento não superficial dos outros povos: fala nossa língua, o inglez e o italiano com facilidade; e o que n'ella me agradou infinitamente, foi o ver que pensava a respeito de seu próprio paiz mui sensatamente, e sem nenhuma preoccupação: cousa rara, mesmo nos povos os mais instruídos e eivilisados. Se algum fidalgo portuguez vir o que escrevo, ganharei títulos a seu rancor, porque votou ódio a quanto diz respeito ao nome de Pombal, Algumas outras casas se acham, mas em bem pequeno numero, nas quaes existem livrarias: porém mesmo essas casas e livrarias estão fechadas para os estranhos."

"Podemos, sem exaggeração, gabar os encantos das portuguezas. Não ha europeas, que tenham melhor carnação. Teem muito espirito, e talvez ainda mais vivacidade que as francczas. Em quanto ao galanteio excedem todas as mulheres da Europa: teem na expressão essa ternura seduclora, que desperta e prometle prazer: mas se este é fácil, é muito perigoso obtel-o, porque os maridos e parentes conhecendo a extrema fraqueza de suas mulheres, nunca as desamparam, espionando quantos rodeiam a casa, e se por acaso sae ou entra alguém, que desperta suas suspeitas, cravam-lhe no coração um punhal, de que andam sempre munidos."

"As damas de classe superior vestemse á francesa, exceptuando a cabeça, que enfeitam á moda do paiz com flores e diamantes collocados com muita garridice e arte. Todas ellas teem lindos olhos pretos muito expressivos."

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Emilia Santos Braga (1867-1950) [IV de IV]

No "atelier" da distinta professora de pintura, D. Emilia Santos Braga

1 — Aspêto do "atelier" vendo-se a ilustre professora com as suas discipulas á hora da lição.

Illustração Portugueza n.º 329, 10 de Junho de 1912

2 — A professora o um grupo d'alunas: 1. sr.ª D. Etelvina Lobo dos Santos o Silva; 2. D. Sára Lamarão Bramão; 3. D. Julla Tomaz da Costa; 4. D. Alda Santos e Silva; 5. D. Filomena do Freitas; 6. D. Helena Ferreira; 7. D. Alda Freire d'Andrade; 8. a distinta professora D. Emilia Santos Braga; 9. D. Camila Pinto Coelho; 10. D. Maria Eduarda Vasconcelos. (1)

Illustração Portugueza n.º 329, 10 de Junho de 1912

Cabe o primeiro logar, por merito, por ordem cronologica, e por gentileza que sempre a senhoras se deve, á exposição de oleos da sr.ª D. Emilia dos Santos Braga. Expõem tambem numerosamente discipulas suas, algumas distintas, de que não podemos falar por falta de espaço e de tempo.

Aula de pintura no atelier da professora Emília Santos Braga 1912.
Arquivo Municipal de Lisboa

D. Emilia Braga é uma artista de incontestavel merito, tecnica cuidada e conscienciosa arte, e indubitavelmente não coloca mal os desvelos de Malhôa — seu talentosíssimo Mestre. Apresenta um belo nú — Ociosidade — de bela atitude e expressiva fisionomia, que se cria em nós inefavel impressão, por vezes nos dá o desgosto d'uma carnação grossa, aspera e gelada.

A — Cigana — tem o negligé dum quadro inacabado, cheio de vida, de expressão, e intensa sensualiade.

A — Suplica — é tecnicamente perfeita. 

E a — Maria de S. João desprende uma indefinida e dulcissima emoção de calma resignada e confiante. É uma velhinha santa, de corpo inclinado á terra e alma erguida ao ceu, que resa orações íntimas, a um Deus de amôr e humildade.

Mas antes de finalisarmos as nossas breves consideraçôis acerca da pintura de D. Emilia dos Santos Braga queremos mais uma vez encarar e admirar esse mimosíssimo pastel, intitulado A minha boneca, que esta Revista reproduz, com indizivel prazer, na sua primeira pagina.

A minha boneca, Emília dos Santos Braga, 1912.
Arquivo Municipal de Lisboa

É uma fisionomia de creança encantadora, olhar risonho e caricioso, cabellos lindos caídos em desalinho. Este pastel é, na verdade, dum mimo e frescura que nos deliciam suavissimamente. (2)

O ultimo pastel da ilustre pintora, que hoje reproduzimos, intitula-se Amor de Mãe. Foi encomendado por Mrs. Thompson, ilustre escritora norte-americana que em fevereiro ultimo nos visitou. Mrs. Thompson veiu á Europa convidada pela Russia, Belgica e Espanha, para escrever impressões destes paises, e delas fazer um amplissima tiragem em New-York.

Amor de mãe, Emilia Santos Braga.
O Occidente n.° 1255, 10 de novembro de 1913

Passando por Lisboa, a caminho de Madrid, de tal modo a encantou o nosso precioso clima e a deslumbrou a nossa paisagem que Mrs. Thompson, dedicando-se ao estudo das nossas artes e belezas, aqui se demorou um mez, em vez de um dia, levando enorme bagagem de apontamentos para publicar um livro sobre Portugal, livro que a talentosa escritora já enviou ao sr. Manoel Roldan, secretario da Propaganda de Portugal, o qual, obsequiosamente a acompanhou pelo nosso pais durante a sua estada nele.

O pastel de D. Emilia Santos Braga, "Mothers Love", destina-se á grande Ilustração que Mrs. Thompson vae inaugurar agora em New York.

Acerca do talento desta notavel pintóra portugueza — algo temos dito. 

De resto, é superfiuo insistir com palavras elogiosas ao seu reconhecido, incontestado e incontestavel merecimento. O desenho a pastel — Amór de Mãe — que gostosamente publicamos em a nossa pagina de honra fala mais alto e mais significativamente que nós — humilimos admiradóres. (3)


(1) Illustração Portugueza n.º 329, 10 de Junho de 1912
(2) O Occidente n.° 1231, 10 de março de 1913
(3) O Occidente n.° 1255, 10 de novembro de 1913

Artigos relacionados:
O Grémio Artístico (2.ª exposição, 1892)
O Grémio Artístico (7.ª exposição, 1897)
Arte portuguesa na Exposição Universal de 1900

Mais informação:
Arte portugueza, 1895
La mujer intelectual, 1901
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (III), 1903
Sociedade Nacional de Bellas-Artes, Catálogos de 1902 a 1909
Serões, revista mensal illustrada n.° 48, junho de 1909
Serões, revista mensal illustrada n.° 50, agosto de 1909
Illustração Portugueza n.º 268, 10 de abril de 1911
Illustração Portugueza n.º 269, 17 de abril de 1911
O Occidente n.° 1239, 30 de maio de 1913
Folhas d'ouro, gentilmente collaborado por excriptores e artistas portuguezes, 1917


Informação relacionada:
Diário de Lisboa, 21 de agosto de 1944
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (I), 1896
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (II), 1898
William Walton, Victor Champier, Exposition universelle, 1900: the chefs-d'oeuvre
O Occidente n.° 947, 20 de abril de 1905
O Occidente n.° 1058, 20 de maio de 1908
Illustração Portugueza n.º 118, 25 de maio de 1908
Tiro e Sport n.° 384, 31 de maio de 1908
Brasil Portugal n.° 226, 16 de junho de 1908

Exposições internacionais:
William Walton, Victor Champier, Exposition universelle, 1900: the chefs-d'oeuvre
Catálogo Oficial de la Exposición Nacional de Pintura... de 1912, Madrid, pp. 77 e 174

Outros trabalhos:
Olisipo n.° 19, julho de 1942

Retrato a óleo de Rosa Araújo,
Emília dos Santos Braga.
(sala Rosa Araújo nos Paços do Concelho)
Arquivo Municipal de Lisboa