sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A laguna do Vouga

dita Ria de Aveiro

Há três dias que ando metido na ria, com a barba por fazer, sujo como um ladrão de estrada e fora de toda a realidade. Afigura-se-me que vivo num país estranho — amplidão, água e sonho. Pelo areal os palheiros da Costa Nova, S. Jacinto e da Torreira... Que me importa! (1)

Companha da Costa Nova, ex-voto ao Senhor Jesus dos Navegantes, séc. xix
Offerecido ao Senr. Jesus, Por Jese Carlos Fernandes Parraxo
MMI/Centro de Religiosidade Marítima
Google Arts & Culture

A barra de Aveiro

A barra de Aveiro era extremamente móvel, tomando sempre o rumo do Sul; em apenas duas décadas, desde a tentativa da sua fixação perto da Vagueira por João Iseppi, arquitecto hidráulico italiano que dirigiu as obras no início dos anos oitenta (1780-1781), o cordão dunar tinha avançado mais de 4 km para Sul, estando a barra próxima de Mira e a cerca de 24 km da cidade de Aveiro (...)

Extracto do Mappa geral Hydrographico da embocadura do Vouga, e da Ria ou Lago do mesmo nome.
Copiado no Real, e Geral Depozito das cartas Marítimas, Militares, em 1802...
Planta do projecto que se esta executando para a nova abertura da Barra do Rio Vouga
por Ordem de SAR o Principe Regente Nosso Senhor

O Programa de Obras Públicas para o Território de Portugal Continental, 1789-1809, vol. I


Reinaldo Oudinot apresentou uma memória sobre as causas do assoreamento dos rios e da costa portuguesa e discutiu o modo de diminuir essas causas aplicadas aos portos, tendo abordado o caso mais grave de todos, o do porto e barra de Aveiro. 

António Rangel de Quadros, guarda-mor da Alfândega de Aveiro, embora não fosse membro da Sociedade, apresentou, em Março de 1801, um plano para a abertura da barra de Aveiro, ano em que D. Rodrigo de Sousa Coutinho iniciou o processo de projecto. (2)

A Costa Nova

A abertura da Barra Nova de Aveiro em 3 de Abril de 1808, barra artificial, foi, pela sua má localização, a causa do assoreamento da orla marítima da praia de São Jacinto, verdadeira calamidade que obrigou as Companhas de Ílhavo a transferir os seus assentos para as areias ao Sul do paredão da Barra, pois ali se tornava impraticável o exercício da pesca.

Mappa da Ria de Aveiro para intelligencia do plano da abertura da nova barra 
por Luiz Gomes de Carvalho, 1813
 
Biblioteca Nacional de Portugal

Desta emergência do abandono da Costa Velha pelas Companhas dos pescadores de Ílhavo surgiu, para estas, a imperiosa necessidade de procurarem sítio adequado onde pudessem trabalhar. 
ré.

Preparando as redes na Costa Nova ed. Faustino António Martins (F A Martins/FAM/Martins e Silva/MS), fotografia original de Paulo Guedes & Saraiva, Ílhavo n° 15, década de 1900.
Delcampe

O ilhavense Luís dos Santos Barreto foi o primeiro arrais a deixar a assoreada Costa do Norte e a estabelecer-se na Costa do Sul, assento da sua Companha, cujo local já tinha de antemão escolhido e que designou com o nome de Costa Nova, que, afinal, era um Enclave, pois esta zona não pertencia a Ílhavo.

Planta das Obras da Barra de Aveiro pelo Sarg.to Mor do R Corpo de Eng.os 
Luiz Gomes de Carvalho, 1876 
planta aguarelada realizada pelo engenheiro Silvério Augusto Pereira da Silva

A Barra da Laguna de Aveiro no Século XIX 
cf. AMORIM, I. (2008). Porto de Aveiro: entre a terra e o mar

Toda a orla marítima entre Ovar e Mira era pertença territorial e exclusiva do concelho de Ovar. Só em 1855, um decreto de 24 de Outubro, anexou ao domínio dos concelhos da Feira, Ovar, Estarreja, Aveiro, Ílhavo e Vagos, a faixa litoral marítima confinante com a terra firme pertencente a cada um destes seis concelhos. (3)

A Gafanha

O Padre João Vieira Rezende, na sua Monografia da Gafanha (1944), diz que Gafanha é "tôda a região arenosa dos concelhos de Ílhavo e Vagos com cêrca de 25 quilômetros de comprimento por 5 de largura, abracada do Norte ao Sul (lado poente) pelo rio Mira e do Norte ao Sul (lado nascente) pelo rio Boco, afluentes da Ria-de-Aveiro, e confinando pelo Sul com uma linha que, saindo dos Cardais de Vagos, vai fechar ao Norte do lugar do Pogo-da-Cruz, freguesia de Mira.

Aveiro.Vista da ria, tirada da ponte da Gafanha,
ed. Alberto Malva e Roque Sucessores (M&R/MIR) n° 764, c. 1905.
Delcampe

Pela identidade da sua origem, topografia, condigôes de vida, costumes, etc, consideramos como uma continuagão da Gafanha a duna situada naqueles dois concelhos, entre o Oceano e a Ria." (4)

A Vagueira

Em 1863 obstruiu-se a barra da (na) Vagueira, do que resultou grande vantagem para as condições do canal, deixando de haver, entre Aveiro e Mira, comunicação com o mar. Onde fôra out'rora a barra chamada da Vagueira, há hoje uma praia de banhos. (5)

Praia da Vagueira, Ponte sobre a Ria, ed. Supercor.
Aveiro e Cultura

Para o sul da Costa Nova, próximo da antiga barra da Vagueira, hoje totalmente obstruída, existe o porto de pesca do Arião (Areão) onde se exerce unicamente a pesca costeira (1886)... (6)


(1) Raul Brandão, Os Pescadores, Paris, Ailland e Bertrand, 1923
(2) O Programa de Obras Públicas para o Território de Portugal Continental, 1789-1809, vol. I
(3) Ramalheira, Como nasceu a praia da Costa Nova
(4) Henrique Souto, Comunidades de pesca artesanal na costa portuguesa... 1998
(5) Revista de Turismo n° 95 e 96, junho de 1920
(6) Arthur Baldaque da Silva, Estado actual das pescas em Portugal: comprehendendo a pesca maritima... 1886

Mais informação:
Cátia Martins, A Barra da Laguna de Aveiro no Século XIX Impactos da Ação Antrópica na Dinâmica Lagunar
Inês Amorim, Aveiro e sua provedoria no séc. xvii: 1690-1814i
Alfredo Pinheiro Marques, A arte-xávega da Beira Litoral e as suas embarcações, Revista da Armada n° 555, setembro-outubro de 2000

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Praia da Vieira

por Eça de Queiróz

Era então no começo de Setembro; a Sra. D. Maria da Assunção, que tinha uma casa na praia da Vieira, propôs levar a S. Joaneira e Amélia para a estação dos banhos, para ela espalhar, nos bons ares saudáveis, em lugar diferente, aquela dor.

Portugal, barque lune à Vieira de Leiria, 1954 par Jean Dieuzaide.
numelyo

— É uma esmola que me fazes, dissera a S. Joaneira. Sempre me lembra que era ali que ele punha o guarda-chuva... Ali que ele se sentava a ver-me costurar!

— Está bom, está bom, deixa-te disso. Come e bebe, toma os teus banhos, e o que lá vai lá vai. Olha que ele tinha bem os seus sessenta.

— Ah, minha rica! a gente é pela amizade que lhes ganha.

Praia da Vieira, Leiria.
Helena Corrêa de Barros, Arquivo Municipal de Lisboa

Amélia tinha então quinze anos, mas era já alta e de bonitas formas. Foi uma alegria para ela a estação na Vieira! Nunca vira o mar; e não se fartava de estar sentada na areia, fascinada pela vasta água azul, muito mansa, cheia de sol; às vezes no horizonte passava um fumo delgado de paquete; a monótona e gemente cadência da vaga adormentava-a; e em redor o areal faiscava, a perder de vista, sob o céu azul-ferrete.

Praia da Vieira, Leiria.
Helena Corrêa de Barros, Arquivo Municipal de Lisboa

Como se lembrava bem! Logo pela manhã estava a pé! Era a hora do banho: as barracas de lona alinhavam-se ao comprido da praia; as senhoras, sentadas em cadeirinhas de pau, de sombrinhas abertas, olhavam o mar, palrando; os homens, de sapatos brancos estendidos em esteiras, chupavam o cigarro, riscavam emblemas na areia; enquanto o poeta Carlos Alcoforado, muito fatal, muito olhado, passeava só, soturno, junto da vaga, seguido do seu Terra-Nova.

Praia da Vieira, Leiria.
Helena Corrêa de Barros, Arquivo Municipal de Lisboa

Ela saía então da barraca com o seu vestido de flanela azul, a toalha no braço, tiritando de susto e de frio: tinha- se persignado às escondidas e toda trêmula, agarrada à mão do banheiro, escorregando na areia, entrava na água, rompendo a custo a maresia esverdeada que fervia em redor.

Praia da Vieira, Leiria.
Helena Corrêa de Barros, Arquivo Municipal de Lisboa

A onda vinha espumando, ela mergulhava, e ficava aos saltos, sufocada e nervosa, cuspindo a água salgada. Mas, quando saía do mar, como vinha satisfeita! Arfava, com a toalha pela cabeça, arrastando-se para a barraca, mal podendo com o peso do vestido encharcado, risonha, cheia de reação; e em redor vozes amigas perguntavam:

— Então que tal, que tal? Mais fresquinha, hem?

Vieira de Leiria. Praia. 10, sahida das rêdes e venda de peixe.
Delcampe

Depois, de tarde, eram os passeios à beira-mar, a apanhar conchinhas; o recolher das redes, onde a sardinha toda viva ferve aos milheiros, luzidia sobre a areia molhada; e que longas perspectivas de ocasos ricamente dourados, sobre a vastidão do mar triste, que escurece e geme! (1)


(1) Eça de Queiróz, O crime do padre Amaro, 1875 (reescrito em 1878)

Mais informação:
A ARTE-XÁVEGA DA BEIRA LITORAL E AS SUAS EMBARCAÇÕES
Gazeta dos Caminhos de Ferro

Praia do Pedrógão

por Aquilino Ribeiro

A rilhar a última côdea, a hoste bárbara, esfarrapada, no meio da qual os alfacinhas rescendiam tanto em suas águas de cheiro que as varinas sentiam tonturas, avançou para a borda. Eram mais espaçadas, porém sempre alterosas, as ondas.

Praia do Pedrogão (Coimbrão, Leiria).
Delcampe


Mas já não havia medo. Treparam os dois fidalgos para a proa do barco; ocuparam os casteleiros os seus postos; plantou-se o arrais à popa, mão no roçoeiro, debaixo do pé a corda da muleta; ergueu-se no seu lugar o vareiro, mudo e roto como espantalho.

Praia do Pedrogão (Coimbrão, Leiria).
Delcampe

Rolaram a nave e, ao primeiro e sério chapinhar da água, o resto da tripulação saltou os bordos. O regedor da terra, o mestre, remadores dos outros barcos, dez, quinze mulheres empurravam com a muleta. Os homens devolutos puseram ombros contra os costados, Veio uma vaga, alagou a todos; veio segunda, despegou o esquife da orla, duas remadas, e empinou-se, desapareceu por detrás dum mar.

Praia do Pedrogão, aparelhando o barco com a rede.
Delcampe

Instantaneamente rompeu na praia um alarido pavoroso. Outro man o arrais fez sinal e, quando o aríete verde ia a lançar a marrada, o barco pulou. Rema, rema a vante! - e àquela voz os remos vergastaram rijamente a onda furiosa.

Praia do Pedrogão, ed. J. J. da Silva, puxando o barco para o mar.
Delcampe

Crescia sobre eles segundo vagalhão:

Praia do Pedrogão, ed. J. J. da Silva, barco com a rede entrando para o mar.
Delcampe

Força! Força! Louvado seja, lá iam safos, entre duas campas, a salvar o contrabanco. Ainda bailava o Lírio de Jericó, mas o perigo era vencido. Na praia amainara a gritaria das mulheres. Com ar de desprezo, como se cuspisse no monte, o Savelheiro lançou-lhes:

— Cabras! Punho sempre teso na corda que o calador ia desenroscando, o arrais buscava orientar-se à boa terra de mar. Rezavam pelas almas do Purgatório, a quem são de grande lenitivo as preces anuviadas, e um cantador ergueu a voz:

Não se vê o fundo ao mar,
Assim, mulher, ao teu peito,
Se me quiser afogar,
Em qual dos dois eu me deito?!


Praia do Pedrogão, ed. J. J. da Silva, vista parcial
Delcampe

Àquela toadilha, os remos bateram a água em cadência e o meia-lua correu como galgo preto em charneca. A prumo, balouçando levemente ao embalo da onda, as bicas da proa e da ré pareciam mãos em transe, a suplicar.

Começaram a decrescer as casas do Pedrógão; tornaram-se diminutas como pedras dum jogo desmanchado; escureceu o verde nas hortas; pela praia os vultos transverteram-se para sombras fátuas. Uma cercadura de espuma envolvia o barco e, esflocando-se à popa, deixava um rabo-leva de anil e íris que não tinha fim.

O mar enrugava-se faiscando e, no balouço das suas pregas e repregas, dormiam garças e garajaus. Ao escritor afigurou-se que ia agarrado à juba dum leão.

Por deferência para com os fidalgos, o arrais andou à busca de “ensejo” até onde o alcance lhe permitiu. Ao primeiro fervedoiro de água apreciável, indício de cardume em derrota, bradou:

Orça aí! Sustaram os remos. Em tom rude, de ladário, o Savelheiro encomendou o lanço às pessoas da Santíssima Trindade. E, remando à ré, calaram a rede. Ao afundir-se o saco, com entono de desafogo, ergueu nova imprecação:

Largai saco ao mar; rezai o credo com boa fé; vá ele em louvor do Santíssimo Sacramento, para que o mal saia para fora e o bem entre para dentro.

Salvo da rede, sem os milhares de quilos que o pejavam, o barco respondeu ao espadanar dos remos pulando alegremente na superfície das águas. Içaram a bordo o pavilhão de festa. Pouco a pouco foi avultando a chanfradura da costa e, mais dentro, a laguna doirada dos areais, a mancha opaca da floresta, Pedrógão - tabuleiro de cubos negros.

Um fuminho ia-se carmeando e era a fimbria da mata. Mercê da névoa que flutuava sobre a terra, parecia tudo de pernas para o ar. Condensaram-se mais as coisas; ressaíram silhuetas; lobrigou-se o Pedrosa, plantado no chão branco, a ver o seu bem guardado pelo Anjo Custódio; à varanda do Posto, o fiscal devia assestar o óculo de ver ao longe.

Na franja clara da praia lá estavam os senhores lisboetas, estatelados na areia, a sonhar com as meninas do Chiado.

A passagem do contrabanco fez-se sem agruras nem aparato. O arrais aguardou a chapada da onda e deixou-se levar; a alçaprema formidável foi depô-lo em terra, manso, manso como as hacaneias que dobravam o joelho para as donas apearem.

Romperam logo os boizinhos de touço curto no manejo do arrasto, acicatados mais que de medida em homenagem aos forasteiros. Joaquim Lousal triunfava. À alegria que lhe era própria, com o seu tanto de pancada, aliava-se agora a satisfação de ver as coisas passarem-se a preceito do seu optimismo. Enquanto não arribava a rede, o vinho correu a rodos.

Praia do Pedrogão (Coimbrão, Leiria).
Delcampe

Emborrachou-se quem quis e o Pamplino, com vela e piela homéricas, subiu à varanda do Posto a personificar nos sete pecados mortais os sete figurões de Lisboa. (1)


(1) Aquilino Ribeiro, A batalha sem fim, 1932

Mais informação:
Aquilino Ribeiro revela-se um intérprete do mar, Ilustração n.° 17, setembro de 1932
A praia azul, Mundo Gráfico n° 47, 1944

Praia do Pedrógão (Coimbrão, Leiria), 1942.
Hemeroteca Digital de Lisboa


Leitura adicional:
Henrique Souto, Comunidades de pesca artesanal na costa portuguesa... 1998
Maria João Marques, Arte Xávega em Portugal

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Praia da Leirosa

A Lourosa, nome que mais tarde evolucionou para Leirosa, foi uma pequena e antiga povoação de Lavos, como tantas outras pequenas povoações da freguesia, mas esta com a característica de ter sido quase só povoada por moleiros (...) a última das povoações da costa meridional da Figueira a desistir da exploração das grandes artes de arrastar para terra, lançados pelos belíssimos e inconfundíveis grandes barcos da arte. (1)

Praia da Leirosa (Marinha da Ondas, Figueira da Foz).
Da esquerda para a direita: Elísio Ribeiro (Mudo); João Santos Barreto; Elísio Andrade Lucas; José Silva Parracho (mais conhecido por Zé da Requeta); Valentim Jacinto Oliveira (marido da Benvinda Patinha que faleceu no naufrágio da Nova Leirosa); Marino Ventura da Silva e em cima António Borges (mais conhecido pelo Rei)... cf. Alexandra Lucas
Praia de Leirosa no facebook

Topónimo que aparecia era o de Louroza dos Moinhos, por referência aos moinhos que então havia na povoação (2)

Praia da Leirosa (detalhe).
Manuel Cintrão no facebook

Nas memórias paroquiais de 1758, respeitantes a Lavos, já não encontrámos referência à Leirosa, «diminuída ou certamente quase eliminada pela concorrência dos moinhos do interior, movidos também pela água do rego: o mapa de José Carlos Magni (1790) só nos mostra estes moinhos, com o litoral da foz do rego despido de quaisquer símbolos».

Praia da Leirosa (detalhe).
Manuel Cintrão no facebook

Mappa dos barcos rêdes a aparelhos... (Figueira da Foz, 1871 e 1875).
Portugal pittoresco, 1879

De notar que, no mapa citado, a Leirosa aparece referenciada por moinhos de Lavos, com os símbolos de povoação, como se pode verificar em fotos do mapa inseridas neste trabalho. (3)

Barra do Mondego e costa sul, José Carlos Magni, 1790
(detalhe onde a Leirosa aparece referenciada por moinhos de Lavos).

Instituto Geográfico Português cf. Manuel Cintrão no facebook

Nos fins do século XVIII vem de Ílhavo para a Figueira um calafate de nome Silva. Um seu filho, José da Silva, estabelece-se em Lavos por volta de 1815, armando uma companha na Costa, onde se instala no Verão, em barracos de estorno (já ali tinha existido uma companha, anos antes, que não vingara) (...) (4)

Praia da Leirosa (detalhe).
Manuel Cintrão no facebook


(1) Capitão João Pereira Mano, Terras do Mar Salgado, São Julião da Figueira da Foz — São Pedro da Cova-Gala — Buarcos — Costa de Lavos e Leirosa, 1997
(2) Albúm figueirense
(3) Manuel Cintrão no facebook
(4) Palheiros de Mira cf. Manuel Cintrão no facebook

Leitura recomendada:
Manuel Costa Cintrão, Terras do Sul do Mondego até à Praia do Pedrógão: ecos da história (2 volumes), Figueira da Foz, 2021
Capitão João Pereira Mano, Terras do Mar Salgado, São Julião da Figueira da Foz — São Pedro da Cova-Gala — Buarcos — Costa de Lavos e Leirosa, 1997
Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano, Palheiros do litoral central português, Instituto de Alta Cultura. Centro de Estudos de Etnologia Peninsular. Lisboa 1964

Mais informação:
A. Pinheiro Marques, A arte-xávega da Beira Litoral e as sua embarcações
Gaspar Albino, Arte de Xávega

Praia da Leirosa (detalhe).
Manuel Cintrão no facebook

Leitura adicional:
Henrique Souto, Comunidades de pesca artesanal na costa portuguesa... 1998
Maria João Marques, Arte Xávega em Portugal

domingo, 21 de dezembro de 2025

Praia da Costa de Lavos

O barco da sardinha

Minha muito querida mãe,

Aproveitei a oportunidade duns momentos vagos para lhe escrever algumas linhas a dizer-lhe que estou perfeitamente bem, embora bastante fatigado e queimado por andar constantemente exposto ao sol e pela actividade que o meu conhecimento da língua e a nossa situação torna indispensavel (...) desembarcámos no primeiro deste mês (de agosto de 1808).

O desembarque do exército inglês na baía do Mondego (praia da Costa de Lavos) em agosto de 1808.
The Landing of the British Army at Mondego Bay, Henri l'Évêque.
Campaigns of the British Army...

Foram precisos três dias para o desembarque de todo o exército, e se de terra nos tivessem feito oposição, nós positivamente nunca o conseguiríamos ter efectuado tão grande é a ressaca tanto na costa como na barra (...) graças a Deus todo o exército desembarcou sem nenhuma perda, a não ser de um ou dois cavalos e agora ocupámos uma posição neste lugar, tendo à nossa esquerda a aldeia (de Figueira da Foz) e à direita o mar... (1)

Como dissemos (v. Bateira do Mar, o elo perdido), o barco usado na Costa de Lavos para a pesca do pilado tinha a mesma forma dos grandes barcos da xávega, com o fundo chato muito arqueado, e a proa e a ré muito erguidas, mas aquela avançando e subindo num movimento forte, extremamente bem lançado; e não tinha leme. É pois um dos barcos chamados geralmente de meia-lua.

Um barco da Sardinha e Pescadores da Costa de Lavos, Figueira da Foz, Portugal.
Delcampe



O seu comprimento rondava os 8 m, com 2,40 m de largura; o barco desenhado era dos pequenos (des. 45 e 46).

Costa de Lavos, Bateira do Mar.
Actividades Agro-Marítimas em Portugal



(legenda da imagem acima)
1) Cachulo [céu da proa] ; 2) Alvaçuz [arco da proa] ; 3) Mãosinha [golfiões] ; 4) Cinta ; 5) Borda falsa ; 6) Talabardões ; 7) Verdugo; 8) Escalamão [tolete] ; 9) Draga; 10) Banco da proa; 11) Banco da ré; 12) Paneiro da proa; 13) Paneiro da ré; a) Pormenor do bico; b) corte da borda, fora dos talabardões ; c) corte da borda na altura dos talabardões.

Na proa há um espaço coberto, o cachulo, cuja boca tem, em cima, uma peça arqueada, o alvaçuz, firmada nas bordas contra um par de braços, e cujo fundo é um estrado fixo, já debaixo do cachulo ; funcionando como caverna e braços, há 2 peças largas, recortadas de modo a deixarem em cima uma abertura semicircular, e cujas pontas superiores, passando acima da cobertura, formam as mãosinhas para amarração do cabo do ferro. À ré há um pequeno banco rectangular.

Costa de Lavos, Bateira do Mar.
Actividades Agro-Marítimas em Portugal



(legenda da imagem acima)
a) Vista interior da proa; b) pormenores do remate da ré.

O barco é movido a dois remos.


Os braços do cavername têm, a quase todo o comprimento do barco, a mesma curvatura e inclinação ; apenas junto da proa e da ré estas variam. No sector em que estão os talabardões, nos quais assentam as barras que servem de chumaceiras dos remos, os braços do cavername são, em cima, cortados horizontalmente; nos restantes braços, essa parte é cortada parcialmente em bisel, o que dá origem à inclinação do interior da borda.

Tanto a roda da proa como a da ré têm secção losangular e são cuidadosamente executadas. A da proa é, no bico, talhada de modo a simular o prolongamento da cinta. A da ré é ainda mais elaborada, e a ela se adapta um remate que do mesmo modo prolonga a cinta e a borda falsa (des. 46 b).

Figueira da Foz, Lavos, Barco da sardinha (Costa de Lavos), ed. Adelino Alves Pereira.
Delcampe


Como o barco pode varar de proa ou de ré, há no exterior do costado 2 ganchos a cada lado. Cravada na roda da ré há uma peça de ferro para a alagem do barco.


Figueira da Foz (Portugal), Barco de pesca na Costa de Lavos.
Delcampe oliveira73


A bombordo, logo adiante do banco da ré, e adaptada a 3 braços do cavername, há uma tábua larga fazendo um banco a meia altura do costado. Banco semelhante mas mais pequeno está a estibordo, logo à frente da antepara da ré. (2)


(1) William Graham, Travels in Portugal, Spain, during the Peninsular war, London, Sir RichardPhillips and Co. 1820 cf. Nótulas sobre a Figueira da Foz no século xix
(2) Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira, Actividades Agro-Marítimas em Portugal

Leitura recomendada:
Manuel Costa Cintrão, Terras do Sul do Mondego até à Praia do Pedrógão: ecos da história (2 volumes), Figueira da Foz, 2021
Capitão João Pereira Mano, Terras do Mar Salgado, São Julião da Figueira da Foz — São Pedro da Cova-Gala — Buarcos — Costa de Lavos e Leirosa, 1997
Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano, Palheiros do litoral central português, Instituto de Alta Cultura. Centro de Estudos de Etnologia Peninsular. Lisboa 1964
Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira, Actividades Agro-Marítimas em Portugal

Mais informação:
Freguesia de Lavos (súmula histórica)
São Pedro Cova Gala (resenha histórica))
A. Pinheiro Marques, A arte-xávega da Beira Litoral e as sua embarcações
Gaspar Albino, Arte de Xávega

Leitura adicional:
Henrique Souto, Comunidades de pesca artesanal na costa portuguesa... 1998
Maria João Marques, Arte Xávega em Portugal

sábado, 20 de dezembro de 2025

Praia da Tocha

Palheiros da Tocha

Neste mar e nestes areais apenas uma actividade é possível (...) a pesca — e praticamente apenas o arrasto para terra, ou seja, a xávega, com exclusão de todas as outras categorias que as águas abrigadas do Norte (para lá de Espinho) consentem (e que, por outro lado, é impraticável naquele litoral de rochedos esparsos) , e um único tipo de barco o grande barco do mar ou de meia-lua (...)

Algumas fotografias dos painéis de azulejos existentes na Capela da Praia da Tocha (tiradas em Julho de 2007), que retratam cenas da antiga Arte Xávega que se praticava nesta localidade. Estes azulejos, baseados em fotografias antigas, foram pintados pelo Sr. Jorge Guerra, artista especializado neste tipo de trabalhos (...) mostra o transporte de um barco de pesca recém-construído para a Praia da Tocha. Vários dos barcos que aí se utilizaram até meados do século XX, foram construídos num estaleiro artesanal que se situava na parte Noroeste do Largo da Tocha, na zona situada entre a Igreja e a Casa Paroquial
cf. Visões da Gândara


No interior do barco, tudo bancos, estribeiras, pranchas, etc. é perfeitamente adaptado à sua função essencial, numa estrita economia de espaço, que se foi ajustando à complexa coordenação dos actos da pesca. Cada membro da tripulação tem o seu lugar, e a rede vai arrumada segundo preceitos lógicos rigorosos e sempre os mesmos; no fundo o cabo terminal e a manga, seguida do saco, que passa em volta da popa; depois a primeira manga, cortiças de um lado, chumbos do outro bem alinhados; e finalmente a outra manga e o cabo inicial de modo a permitir o seu lançamento conveniente e desembaraçado.

Arte Xávega na Praia da Tocha em 1965.
Praia da Tocha no facebook

O barco sai deixando em terra a ponta desse cabo inicial a mão-de-terra , a qual se vai desenrolando de bordo à medida que o barco se afasta, até ao ponto que ao arrais pareça conveniente para cercar, geralmente a 2 quilómetros da costa; o barco então vira, à ordem gritada do arrais; e, pelo calador ajudado por um dos remadores da ré, a primeira manga é lançada já paralelamente à costa, até que, « Com Deus ao mar ! », se atira o saco; depois segue a outra manga; depois o grito terra, e é o regresso, largando-se de modo idêntico o segundo cabo, a mão-da-barca, cuja ponta chega à praia com o barco (...)



Durante duas ou três horas, num vaivém permanente e monótono na praia deserta momentaneamente, o gado – ou o pessoal de terra – puxa os cabos, balizados por cadimes, até que se avista o saco que se aproxima e finalmente chega, palpitante de pescado, no meio de uma desordem aparente e de uma corrida confusa de gado e gente, na qual, contudo, cada um está a cumprir um lugar necessário no conjunto, perante a expectativa da companha, do fisco, dos negociantes.

O barco característico da xávega tem sido considerado de origem mourisca, e difundido a partir do Algarve tal como, de resto, o próprio nome da arte. Jaime Cortesão aproxima-o do barco que se vê nas iluminuras do manuscrito escurialense das Cantigas de Santa Maria (v. Cantigas de Santa Maria 183) que representam o milagre acontecido aos pescadores de Faro, quando essa localidade estava em poder dos Mouros; e, «da permanência do tipo de barco e da palavra que o designa», conclui pela provável existência, no século xii, de pequenos povoados de pescadores mouros e moçárabes que praticariam a xávega nos nossos litorais.


Octávio Filgueiras (Octávio Lixa Filgueiras, Barcos de Portugal, obras selecionadas) vai mais longe, atribuindo ao nosso barco do mar uma remotíssima origem mesopotâmica (pela sua comparação com a barca de prata encontrada em Ur) : introduzido entre nós pelos Árabes, na costa algarvia, ele teria irradiado daí para o Norte, com o tipo de pesca que lhe está associado (« com fortes aculturações na época dos Descobrimentos ») polarizando-se na zona central do País, onde as suas características respondem eminentemente às condições naturais da área, provavelmente em Ilhavo (e podemos supor também que em Ovar e na Murtosa
nos locais abrigados do estuário do Vouga e talvez em Vieira), donde mais tarde se expande para o Norte e para o Sul, com as andanças desses pioneiros ilhos, varinos e murtoseiros, que enxamearam toda a costa portuguesa e cujos descendentes vamos encontrar com os barcos, redes, formas de viver e até por vezes tipos de casas dos seus antepassados do Douro a Santo André.

Praia da Tocha, pequeno barco do mar junto aos palheiros.
Praia da Tocha no facebook

Até tempos muito recentes, este litoral era praticamente vazio de estabelecimentos humanos qualificados, antigos e definidos, que se encontravam apenas para lá das referidas dunas. Entre largos lanços de praia totalmente desertos, adensavam-se pequenos grupos de casario escuro, compostos então unicamente de palheiros de tabuado, dispersos no areal e mais tarde alinhados em arruamentos mais ou menos regulares, onde se instalavam, durante a época da safra, as gentes de outros lados, de entrada sobretudo de Ovar e Ílhavo, e seguidamente dos núcleos interiores próximos, que aí vinham pescar na época da safra, atraídos pela abundância da sardinha nestes mares, e que regressavam às suas casas no fim da temporada, em Novembro.

Praia da Tocha, Palheiros e habitantes locais ao pôr-do-sol, ed. Supercor.
Delcampe


Durante esse período, mas apenas durante esse período, estes locais, passados naturalmente os seus obscuros primórdios e desbravada a duna deserta, conheciam uma extraordinária animação... (1)

Saída para o mar.
Algumas fotografias dos painéis de azulejos existentes na Capela da Praia da Tocha (tiradas em Julho de 2007), que retratam cenas da antiga Arte Xávega que se praticava nesta localidade. Estes azulejos, baseados em fotografias antigas, foram pintados pelo Sr. Jorge Guerra, artista especializado neste tipo de trabalhos

cf. Visões da Gândara

Uma lenda curiosa, relacionada com a origem da povoação da Tocha, é certamente prova da baixa densidade demográfica da região no passado; segundo ela, um fidalgo galego, vendo-se um dia em situação angustiosa, prometeu a Nossa Senhora (da Atocha) elevar-lhe um templo no lugar mais ermo que encontrasse; levado nas suas andanças até à região gandaresa, não teve o fidalgo dúvida de que nenhum ponto podia ser mais próprio do que aquele para o cumprimento da sua promessa, e por isso edificou uma ermida no local onde actualmente se ergue a igreja da Tocha (...) (2)


(1) Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano, Arquitectura Tradicional Portuguesa
(2) Idem

Mais informação:
Os antigos Palheiros da Praia da Tocha!
Freguesia de Tocha (arte xávega)

Leitura adicional:
Henrique Souto, Comunidades de pesca artesanal na costa portuguesa... 1998
Maria João Marques, Arte Xávega em Portugal

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Palheiros de Mira

por Raul Brandão

Em todo o vasto areal que se estende de Espinho ao cabo Mondego, a pesca é de arrasto e a grande abundância de sardinha, grande, média e pequena ou, por outra, vareirinha, como lhe chamam no interior das terras. O areal e o mar ensinam e exigem a pesca colectiva – um grande barco, uma grande rede e uma forte companha.

Praia de Mira, ed. Tabacaria Nilo.
Praia de Mira (postais antigos)

A saída é perigosa, e de um momento para o outro, a onda cresce e o barco não pode abicar. Daí as enormes embarcações, as redes, as cordas e os bois para as puxar. Para o sul, até Pedrogão, em Lavos, em Buarcos, a pesca é também costeira e de arrasto (...)


Julho de 1922


Manhã. Primeira ida ao mar das quatro e quarenta e cinco minutos. Um serouqueiro do sul que envolveu de bruma a noite acaba de desaparecer. Mas da névoa ficou névoa misturando-se ao azul e à frescura que dilata os pulmões e inebria. Um rapaz, no alto da duna, sopra o búzio com as bochechas cheias, chamando a companha para a pesca. O barco está pronto.

Praia de Mira, ed. Tabacaria Nilo.
Aveiro e Cultura

Uma esteira de varas, duas juntas de bois para o puxar, homens nus metidos na água e agarrados às cordas, e a onda que salpica e os alaga. Entra para dentro a companha. Refervem as ondas que o sacodem lá no alto... Os fortes rapagões agarram-se aos quatro remos, a proa alvora... É este o momento angustioso, enquanto se não safam da cova do mar.

Praia de Mira, ed. Tabacaria Nilo.
Aveiro e Cultura

– Eh arrais, carago, a maré é agora! – diz o João Custódio, revezeiro.

O arrais segura a corda, que é o único leme deste barco. Tudo consiste em saber «ferrar a volta na ré» para o livrar do vagalhão – tudo consiste em destreza e pulso, se- não o barco sacudido enche-se de água e vira. Dois homens, os caladores, ajudam-no a soltar o extenso cabo enrolado à popa, que nunca mais larga da mão. Num instante se livra da onda que quebra, mas a manobra é complicada.

O barco tem quatro remos nos quatro bancos: o do castelo da proa, o do remo da proa, o do remo da ré e o do castelo da ré. A cada um destes pesadíssimos remos se agarram quatro homens de pé nas estorveiras, que ficam nos intervalos dos bancos, seis sentados e ainda outros, os camboeiros, puxando os cambões – todos ao mesmo tempo, todos com o mesmo ritmo. O revezeiro, que ordena a saída para o mar, manda também em cada remo. Na parte mais delgada remam os caneiros, que trilham o remo e fazem a voga, ajudados pelos segundos.

Praia de Mira.
Praia de Mira (postais antigos)


O barco vai largando o grosso cabo com nós, que se chamam balizas, até ao momento em que o arrais sente o peixe mais à terra, a aguagem, pela mudança da cor, ou distingue o alcatraz que nas águas lúzias cai a pique sobre a manta da sardinha. Outras vezes é a fervença ou gorgolhido que lhe indica onde está o peixe – pequenas bolhas de ar que ascendem à superfície – ou mesmo a ardentia com que os grandes bancos de sardinha iluminam o mar.

Então o arrais de pé dá o sinal dizendo: – Em nome do Santíssimo Sacramento, saco ao mar! – Toda a companha se descobre. Larga-se a cuada de malha mais miúda, a manga, peça mais grossa, e por fim o cabo, que se desenrola até à terra.

Voltam e o momento dramático repete-se. O barco vem no alto da ressaca. – Larga! larga! – Os homens remam cantando. Inunda-os um jorro mais impetuoso. Agora, é o arrais que na pancada do mar traz a corda na mão guiando o barco.

Um vagalhão de espuma vai despedaçá-lo e arrasta-o num último impulso pelo areal acima. Dois rapazes, metidos na água, enfiam logo nas argolas do costado duas ganchorras de ferro. Salpicos. Alarido. A companha salta em terra, jungem-se os bois às cordas, lança-se o estrado de varais pela areia; sobre os varais, roletes; e puxado pelos bois e pelos homens o barco enorme sobe, de proa voltada ao mar, e pronto para nova arremetida (...)

Lá em cima, no dorso do monte doirado, os carpinteiros de machado remendam dois esqueletos de barcaças... Vêem-se agora as pandas: juntam-se os cabos e a boca da rede cada vez se aperta mais. A vida atinge o auge. – Arriba! Arriba! – Todos deitam as mãos às cordas. Corre o mulherio. Rapazes quase nus metem-se à espuma e agarram a rede.

Os bois, espicaçados, parecem compreender que o momento é decisivo: – Eixe! Eixe! – E lá em cima retesam os músculos no último esforço. Depois largam o cabo, correm ao fundo, entram na água, que esguicha, guiados pelas cachopas de aguilhada no ar e salpicados de espuma. Aí vêm os outros: desligam-nos e tornam logo arriba. Mais depressa! Mais depressa sempre! A onda enconcha, com um friso refervendo-lhe na crista a desabar – e bois, cachopas, homens quase nus, agarram o saco, inundados de espuma que os envolve.

O último esforço... Dois rapazes saltam na água e apertam a boca do saco com uma corda para o peixe não fugir. – Eh! Eh! – Mais gritos. O mar, cada vez mais impetuoso, rebenta sobre o areal, rolo atrás de rolo, e os homens e os bois saem a correr do vagalhão de espuma...

Foi diante de um quadro assim que Ferdinand Denis exclamou, assombrado: – Que estranho país é este onde os bois vão lavrar o próprio oceano?!...




As mulheres e os almocreves excitados deitam mão à rede e o saco sai da água, a rasto pela areia entre laivos verdes que escorrem (...)

À primeira vista parece uma coisa teatral, prestes a desconjuntar-se, só cenário e mais nada, com quatro patas desajeitadas de bicho, sem o alicerce da quilha a sustentá-lo, impróprio para o mar e para a terra – obra de lavradores que resolveram um dia ir à sardinha.

Os quatro remos pesadíssimos, com uma parte mais grossa e reforçada, que se chama cágado, são coevos do alfange, e estes bicos aguçados, que tão bem ficam no areal e no céu, não têm solidez nenhuma.


Praia de Mira
Aveiro e Cultura

Na realidade um barco destes, que parece inútil, é um produto de engenho secular. Como não há porto nem abrigo e a embarcação tem de passar logo do areal para a onda que escachoa, atravessando a arrebentação para sair ao largo ou para regressar à terra, era necessário oferecer à onda a menor resistência e saltar-lhe no dorso: – por isso ergueu a proa.

E como a dança das ondas se sucede durante alguns minutos, era forçoso também que, mal assentasse na água, lhe andasse ao de cima: – e a popa fugiu-lhe para o céu.

O barco tem exactamente o feitio côncavo do espaço que vai de vaga a vaga, com um pouco de espuma figurada nas duas extremidades.

Estas grandes embarcações constroem-se na Lagoa, onde só carpinteiros especiais lhes sabem dar o estaleiro necessário, e vêm em carros de bois puxados por doze juntas até à Banha. São levantadas à proa, castelo da proa, e aguçadas até à ponta, bica; e levantadas à ré com a sua bica na extremidade.


Praia de Mira.
Praia de Mira (postais antigos)

No castelo da proa têm duas mãozinhas salientes para as ligar à terra por uma corda chamada rangedeira, não as deixando descair quando o vento as impele e elas esguelham, e quatro escalamões de ferro onde entram os buracos dos quatro grandes remos.

Hoje só há em Mira quatro companhas, com os seguintes arrais: Manuel Maria Patrão, Manuel Fé, Manuel Mirão e Gabriel Janeiro; mas já houve onze, comandadas por José Patrão, Manuel Cera, Arraizinho, Tito Marrete, etc., todos mortos (...)

Como vive esta gente? Vive com simplicidade nos palheiros, casa ideal para pescadores ou para um velho filósofo como eu. É construída sobre espeques na areia, com tábuas de pinho e um forro por dentro aplainado. Duram tanto ou mais que a vida: cheiram que consolam, quando novas, a resina, a árvore descascada e a monte; ressoam como um velho búzio e são leves, agasalhadas, transparentes.

Por fora escurecem logo, e envelhecendo caem para o lado ou para a frente; por dentro conservam uma frescura extraordinária, e quando se abre uma janela, abre-se para o infinito. No chão dois tijolos para o lume, em esteiras alguns peixes a secar (...)


Praia de Mira.
Praia de Mira (postais antigos)

Donde veio esta gente para o areal? É a mesma raça prolífica da beira-mar, que nos enobrece e que eu conheço da Afurada até Leiria, os homens graves e serenos diante do perigo, e as mulheres trabalhadeiras, sempre de chapelinho redondo e xaile. Levantam-se de chapéu, trabalham de chapéu, deitam-se de chapéu e cuido que dormem com ele na cabeça. Nunca deixam a beira-mar, como se a respiração do mar lhes fosse indispensável à vida e foram-se estendendo sempre pela costa até ao Algarve, onde fundaram uma colónia em Olhão.

Estes, de Mira, vieram das proximidades, de Mira vila, de Porto-Mor, etc. Ainda há memória de só existirem aqui meia dúzia de palheiros – o do tio Soldado, o do tio Domingos Rabita e poucos mais. Na época da pesca acode gente do Seixo, Cabeça e outras povoações dos arredores.


Além dos barcos grandes, usa-se em Mira a robaleira e a manhosa, todos do mesmo feitio mas mais pequenos. A robaleira leva rede de arrasto e doze homens de companha, e a manhosa, seis homens e rede de emalhe, com três panos, os exteriores, albitanos, um de cada lado do pano de dentro. A robaleira vai também ligada à terra por um cabo, mas a manhosa não leva cabo. É para a tainha. Cerca-se e bate-se.

Praia de Mira, ed. Tabacaria Nilo.
Praia de Mira (postais antigos)

Há cinquenta anos que não lembra que morresse aqui ninguém de desastre no mar. Às vezes a onda vira o barco, envolve os homens e deixa-os sem sentidos. Quando os tiram por mortos, para fora do mar, metem-nos no sal como as sardinhas, «para lhes apertar os ossos». É grande remédio, dizem. Ano passado, houve um que, depois de estar no sal quarenta e oito horas, ainda tornou a si... (1)

Ao lado do areal onde se finca a povoação de Mira, há um resto da ria de Aveiro, que teve aqui noutros tempos uma saída para o mar e que se chama ainda hoje a Barrinha. É uma gota de água pensativa a cinquenta passos do mar. Canaviais e areias... (2)


(1) Raul Brandão, Os Pescadores, Paris, Ailland, 1923, 326 págs, 127,7 MB
(2) Idem

Leitura relacionada:
Manuel Resende, Praia de Mira aldeia de pescadores, Panorama n° 21, Junho de 1944

RTP Arquivos:
Onde os Bois Lavram o Mar

Artigos relacionados:
Barco da xávega de mestre Gadelha
Os pescadores de Raúl Brandão
etc.



Leitura adicional:
Henrique Souto, Comunidades de pesca artesanal na costa portuguesa... 1998
Maria João Marques, Arte Xávega em Portugal