domingo, 26 de fevereiro de 2023

A ladainha das lanchas por António Nobre

Oh as lanchas dos poveiros
A saírem a barra, entre ondas de gaivotas!
Que estranho é!
Fincam o remo na água, até que o remo torça,
À espera de maré,
Que não tarda aí, avista-se lá fora!
E quando a onda vem, fincando-a com toda a forca,
Clamam todas à urra: «Agora! agora! agora!»
E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
(Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar...)
Que vista admirável! Que lindo! Que lindo!


Póvoa do Varzim (Praia da Póvoa do Varzim), João Vaz,  1891.
Matriz.net

Içam a vela, quando já têm mar:
Dá-lhes o Vento e todas, à porfia,
Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
Rosário de velas, que o vento desfia,
A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas:


Senhora Nagonia!

Olha acolá!
Que linda vai com seu erro de ortografia...
Quem me dera ir lá!


Senhora Daguarda!

(Ao leme vai o Mestre Zé da Leonor)
Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
O caçador!


Senhora d'ajuda!
Ora pro nobis!
Caluda!
Semos probes!


Senhor dos ramos
Istrela do mar!
Cá bamos!

Parecem Nossa Senhora, a andar.

Senhora da Luz!

Parece o Farol...
Maim de Jesus!


É tal e qual ela, se lhe dá o sol!

Senhor dos Passos!
Sinhora da Ora!


Águias a voar, pelo mar dentro dos espaços
Parecem ermidas caiadas por fora...

Senhor dos Navegantes!
Senhor de Matosinhos!


Os mestres ainda são os mesmos dantes:
Lá vai o Bernardo da Silva do Mar,
A mailos quatro filhinhos,
Vasco da Gama, que andam a ensaiar...

Senhora dos aflitos!
Mártir São Sebastião!
Ouvi os nossos gritos!
Deus nos leve pela mão!
Bamos em paz!


O lanchas, Deus vos leve pela mão!
Ide em paz!


Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados,
O Jeques, o Pardal, na Nam te perdes,
E das vagas, aos ritmos cadenciados,
As lanchas vão traçando, à flor das águas verdes,
«As armas e os varões assinalados...»


Lá sai a derradeira!
Ainda agarra as que vão na dianteira,..
Como ela corre! com que força o Vento a impele:

Bamos com Deus!

Lanchas, ide com Deus! ide e voltai com Ele
Por esse mar de Cristo...

Adeus! adeus! adeus! (1)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Poveirinhos pela graça de Deus

E é curioso ver a esperteza dessas crianças. Brincam, desprecupadamente, olhando de quando em quando, a imensidão do mar a ver se descobrem o latino. Basta que um dê o sinal: «Lá vem um !», para que todos se agrupem a olhar, fixando a sua vista de lince no pontinho que lá ao longe se divisa. Começa desde logo a discussão: «É o Dibó – é o Negrinho – é o vosso – não é – conheço-o pelo pano!» – até que todos acordam: É o vosso, Zé» – e ainda ele vem a algumas milhas de distância. E o Zé, ligeiro como a andorinha, logo desata a correr os bairros, de casa em casa das mulheres da companha, a deitar o pregão anunciador: «Varar ! »

A volta dos barcos, Sousa Pinto, 1891.
O menino enverga os típicos catalim e a camisola poveira em lã.
Douta melancolia

Sucede sempre que as mulheres da companha chegam à praia primeiro que o barco abique, tal a ligeireza com que a criança se desempenha da obrigação.

É ainda a infância, nas horas de ansiedade pela tempestade no mar e quando todos no paredão ou nos fieiros esperam pelos seus, quem dá a primeira nova do barco que está à vista, porque fixa na retina os próprios contornos da velamenta e a divisa do barco da sua obrigação e de muitos outros.

O pequeno poveiro ajuda ainda os pais no fazer da rede nova, enchendo as agulhas com fio.

A par destas obrigações que o espírito da classe impõe como factores de educação marítima, a criança poveira tem as suas forgas bem características, que constituem verdadeiros desportos de agilidade e energia.

A boiada, a péla, a zocha, a forma, a entola, as vascas, a covinha, a roda, o descanso e a barra são modalidades desportivas que a entusiasmam e muito contribuem para o seu desenvolvimento físico. Algumas destas forgas estendem-se às crianças de toda a região do Minho. Mas duas há que são caracterizadamente poveiras: A boiada e a péla.

A boiada é dos primeiros e dos mais entusiásticos jogos da criança poveira. Toma aspectos violentos.

A péla é o seu último jogo, podendo bem considerar-se o jogo de despedida da sua mocidade. Tem distinção; é, comparado com os outros, a filigrana dos seus jogos. E tanto assim, que as outras classes da terra, modernizando a sua péla de pano rijo por bola de borracha, dão-se hoje a esse desporto, com entusiasmo, nas temporadas da Páscoa. A péla é, na Póvoa, digamos, o sinal da – aleluia! – porque se inicia com a festa da Ressurreição e acaba com a festa da Ascensão (...) (1)


(1)  A. Santos Graça, A infância, O poveiro, Usos, costumes, tradições, lendas Etnográfica Press

Mais informação:
Occidente n° 469, 1892
Octávio Lixa Filgueiras, O barco poveiro, Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, 1995
Carlos Carreto, Imaginários do mar, antologia crítica, 3
Francisco da Fonseca Benevides, Escola Industrial Pedro Nunes em Faro, Museu Industrial Maritimo, catalogo illustrado das collecções, 1891

Raul Brandão:
Raul Brandão, Os Pescadores, Paris, Ailland, 1923, 326 págs, 127,7 MB
Raul Brandão: Um percurso
Evocação de Raul Brandão (Vitorino Nemésio recorda a figura de Raul Brandão)
Inauguração do monumento a Raul Brandão

Archivo pittoresco:
Póvoa do Varzim n° 9, 1868 (I e II)
Póvoa do Varzim n° 22, 1868 (III e IV)
Póvoa do Varzim n° 22, 1868 (V e VI)
Póvoa do Varzim n° 25, 1868 (VII)
Póvoa do Varzim n° 29, 1868(VIII)
Póvoa do Varzim n° 30, 1868 (IX)
Póvoa do Varzim n° 33, 1868 (X)
Póvoa do Varzim n° 37, 1868 (XI)
Póvoa do Varzim n° 38, 1868 (XII e XIII)
Póvoa do Varzim n° 46, 1868 (XIV e XV)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Lancha de poveiros por Raul Brandão

Só tendo a morte quase certa é que o poveiro não vai ao mar. Aqui o homem é acima de tudo pescador. Depende do mar e vive do mar: cria-se no barco e entranha-se de salitre. Desde que se mete à terra, o poveiro modifica-se: perde em agilidade e equilíbrio, hesita, balouça-se, não sabe onde há-de pôr os pés.

Barcos na praia com figuras, João Vaz.
Cabral Moncada Leilões

Conheço esses homenzarrões broncos e espessos, de cara rapada ou suíças, barrete na cabeça e calça branca de lá, desde que me conheço. Iam dormir à Foz dentro das lanchas e todas as tardes o moço passava à minha porta com o barril de água à cabeça. Dormiam no rio cobertos com a vela, e primeiro que pregassem olho era um falatório que se ouvia em toda a vila. Minha mãe, quando as criadas falavam alto na cozinha, repreendia-as sempre nestes termos: – Então isto aqui é alguma lancha de poveiros?


Porto, Barco de pesca, c. 1900.
Porto, de Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias

O poveiro não usa faca, mas é terrível e certeiro com pedras na mão. Ou porque lhe cortassem a caça, estragando-lhe as redes, ou porque andassem de rixa velha, havia às vezes no alto mar verdadeiros combates entre poveiros e sanjoaneiros. Os barcos avançavam uns para os outros à força de remo e a pedrada fervia. Os da Póvoa, que são, creio eu, os únicos pescadores que usam pedras em lugar de chumbeiras, levavam sempre a melhor. Às vezes chegavam à abordagem, de remos no ar, numa algazarra feroz, e havia feridos e até mortos.

O poveiro ignora tudo fora da sua profissão, mas essa conhece-a como nenhum outro pescador. Sabe onde está o banco da sardinha pelo voo do mascato, que lá do alto cai a prumo sobre o cardume; quando ela anda terrenha, isto é, perto da costa, e torneira ou à flor das águas. Sabe a palmos o mar da Cartola que dá a pescada, o da Ferralhuda, que dá a raia, o da Gata, que dá raia e cação, o Bianco, o Lameirão, etc. Acima de tudo está Deus, e para eles o Senhor do Mar é que dá a fome e a fartura.

Na Póvoa há o homem livre e o homem empregado, isto é, o que traz redes de outra pessoa. O homem livre leva para a pescada três cartéis, que fazem uma rede; o homem empregado leva cinco cartéis; o mestre oito a dez, sendo três para o barco, três para ele, uma rede para a lancha e outra de ferrar a bóia. A lancha leva também uma rede da Senhora, a rede de mais a mais, a rede de beber e outras. No batel de sardinha o pescador leva duas redes.

À espera dos barcos, Marques de Oliveira, 1892.
Biblioteca Nacional de Portugal

Quando o Inverno é grande, a miséria obriga-o a internar-se, em bandos, de barrete na mão, pedindo pelas armas do Purgatório. – Quem é? – o poveirinho, o probinho do pescador. – É que em todas as terras à beira-mar o homem acumula, lavrador e pescador ao mesmo tempo. O poveiro não, tem de seu o areal e o mar. E esse mesmo lho disputam. Foi sempre um eterno explorado pelo fisco, pelos regatões, pelos homens de negócio – e por último tiraram-lhe o areal, que era a única coisa em que ele fazia finca-pé para os seus varais, para as suas velas, para os seus costumes.

No mar, com a rede de arrasto, mataram a criação. Vi eu muitas vezes os vapores deitarem fora sacos de peixe por criar, que a rede de malha miúda rapava nos fundos. Conseguiu-se assim destruir uma comunidade com carácter e vida própria. O poveiro era um tipo com individualidade, como o soldado e o lavrador são tipos criados à custa de acumulações seculares. Estragámo-lo como estragámos as nossas vilas, as nossas aldeias, os nossos costumes, para os substituirmos pela fealdade e pelo incaracterístico horror.

Bairro dos pescadores (0,20x0,30), Póvoa [do Varzim], Silva Porto 1884.
Do Tempo da Outra Senhora


Todas as povoações de pescadores que conheço estão arruinadas. Façamos as contas: os de Valbom mortos, os de Esposende mortos; mortos os da Foz; os de Mira com quatro companhas em vez de quinze, e os da Póvoa, que perderam todos os seus costumes, arruinados e fugindo para o Brasil e para a África. E por toda a costa portuguesa a pesca rareia. Como temos o condão de estragar tudo, empobrecemos as populações da beira- mar, para enriquecer meia dúzia de felizes. Cultivar o mar é uma coisa – é ofício de pescadores; explorar o mar é outra coisa – é ofício de industriais..

Recanto de aldeia, Póvoa de Varzim, Marques de Oliveira c. 1882.
MNAC


Como vivem estes homens? Agrupam-se no extremo sul da povoação. Roupas a secar, interiores que são pocilgas, casebres com uma porta e uma janela, e alguns só com uma porta e um postigo aberto na porta. Trapos, velhas redes, raias escaladas ao sol enfiadas num pau. Ao lado apodrecem barcos e estende-se o sargaço.

As mulheres escorrem salmoura e por toda a parte há restos de sardinha e filharada. A vida pulula, a vida pródiga e incessante. Dentro dos casebres uma salinha com uma dependência, a camarata, onde dorme o casal, e o falso, para guardar o que ele tem de mais precioso, as redes. A caixa, alguns bancos. Debaixo da cama o berço dos filhos e panais velhos. A cozinha mete medo com caldeira de cozer a casca, o forno e os potes de ferro. De noite tudo isto é alumiado pela luz da graxa de peixe, que enfuma as paredes e cheira que tresanda.

Eis como vivem estes homens. Como morrem dizia-o, muito melhor do que eu, o velho cemitério da Póvoa, que já não existe. Ia-se passando de túmulo em túmulo e lia- se sempre: – António Libó, morto no mar; Francisco Perneta, morto no mar; José Mouco, morto no mar... De onde a onde havia uma redoma de vidro com alguns ossos brancos e mirrados que tinham dado à costa. E depois, seguiam-se os letreiros – sempre! sempre! – Domingos Reigoiça, morto no mar; Joaquim Monco, morto no mar... Todos eles vivem no mar – e morrem no mar. (1)


(1) Raul Brandão, Os Pescadores, Paris, Ailland, 1923, 326 págs, 127,7 MB

Mais informação:
Raul Brandão: Um percurso
Evocação de Raul Brandão (Vitorino Nemésio recorda a figura de Raul Brandão)
Inauguração do monumento a Raul Brandão

Informaçao relacionada:
A. Santos Graça, O poveiro, Usos, costumes, tradições, lendas Etnográfica Press
Francisco da Fonseca Benevides, Escola Industrial Pedro Nunes em Faro, Museu Industrial Maritimo, catalogo illustrado das collecções, 1891

Archivo pittoresco:
Póvoa de Varzim n° 9, 1868 (I e II)
Póvoa de Varzim n° 22, 1868 (III e IV)
Póvoa de Varzim n° 22, 1868 (V e VI)
Póvoa de Varzim n° 25, 1868 (VII)
Póvoa de Varzim n° 29, 1868(VIII)
Póvoa de Varzim n° 30, 1868 (IX)
Póvoa de Varzim n° 33, 1868 (X)
Póvoa de Varzim n° 37, 1868 (XI)
Póvoa de Varzim n° 38, 1868 (XII e XIII)
Póvoa de Varzim n° 46, 1868 (XIV e XV)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Fado arcadiano

Encontramos por vezes nas praças de Lisboa uma trupe de cantores em torno da qual se reúne a multidão. São quase sempre pobres que, não tendo outro recurso senão a caridade do público, procuram interessá-lo em seu favor através de um pequeno concerto, que não o é de todo desagradável. Têm geralmente as vozes muito afinadas, cantam em partes com correcção tolerável, e reforçam a vocalização com acompanhamento de guitarra, o que de modo algum diminui o efeito.

Ballads singers in the place du Rocio (detail), Henri l'Évêque, c. 1800.
Henri l'Évêque, Costume of Portugal, 1814

Também em Londres há cantores de rua que param nas esquinas, mas que diferença! Às vezes fica-se tentado  pagar para permanecerem calados enquanto o prazer que os de Lisboa vos fazem sentir, involuntariamente vos predispõe a ajudá-los.

De todas as línguas derivadas do latim, o português talvez seja a que mais guarda semelhança com a língua materna. Pleno de vogais sonoras e deslumbrantes oferece ao cantor pontos de apoio que lhe permitem desdobrar a riqueza de sua garganta e fazer reverberar todas as graças de sua voz.

Os portugueses, além disso, têm um ouvido tão justo quanto delicado se essas qualidades se devem à sua organização, ou à influência do clima, visto que se encontram mesmo nas pessoas das classes mais baixas, até entre os camponeses mais rudes que, sem arte, sem estudo, sem nenhum conhecimento de música, quase todos cantam suficientemente bem.

A gravura representa um desses cantores acompanhado pela sua esposa e por uma criança pequena. Em fundo na gravura vê-se o palácio da Inquisição que continua a existir em Portugal e hoje é o único lugar do cristianismo onde não foi abolido este formidável tribunal.  (1)



(1) Henri l'Évêque, Costume of Portugal, 1814

Artigos relacionados:
Fado I (recolha em Obras poéticas de Bocage)
Fado II (recolha em Quadras glosadas, Antonio Bersane Leite, 1804)
Fado III (recolha em Flores sem fructo, Almeida Garrett)
Fado IV (recolha em Folhas cahidas, Almeida Garrett)
Fado V (recolha em História da poesia e Cancioneiro popular)
Fado VI (recolha em História do Fado)
Fado VII, Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Fado VIII, Alfredo Marceneiro e outros (com o moinho por tema)

Leitura relacionada:
Pinto de Carvalho (Tinop), História do fado
Alberto Pimentel, A triste canção do sul
Velhas canções e romances populares ...
Cancioneiro popular politico; trovas recolhidas da ...
Cancioneiro De Musicas Populares Vol 1 1895"
Lisboa d'outros tempos [por] Pinto de Carvalho ...
Memorias" - Internet Archive
Historia da revolução de Setembro" - Internet Archive
Internet archive (search...)



Pretende o termo arcadiano, no contexto, o recuo do início da história do fado ao período da Arcádia Luzitana (ou Olissiponense, 1756-1759 e anos seguintes até 1776), com maior incidência no pré-romantismo (Nova Arcádia, 1790-1794 (formalmente) e anos seguintes).

Independentemente da controvérsia, trata-se de um pressuposto pessoal para uma forma de música e canto popular com expressão de dança próxima do fandango que se desenvolveu em paralelo com o neoclassissismo das elites.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Polacos da Serra

Finalmente um pouco de paz! Bem fez o Póvoas, que foi para as Caldas da Rainha tomar águas sulfurosas para restabelecer-se do susto que lhe mete o tal punhado de rotos que veio das ilhas!

Ah, não sabe ele a têmpera da nossa genica, nem tão-pouco do que é capaz a populaça do Porto e de Villa-Nova! Acho que os corcundas andam desvairados à nossa volta, instigados por um bando de fidalguetes de dois dias e convencidos pelos tratantes dos frades, que só desejam beber-nos o sangue...

Perspetiva do Convento da Serra do Pilar (detalhe), no dia 14 de outubro de 1832,
Joaquim Vitorino Ribeiro.

Museu Militar do Porto (fb)

E tantos infelizes por essas terras afora, de espingarda às costas e um saco com alguns cartuchos, seguidos por guerrilhas maltrapilhas de mulheres descalças que, de gigas à cabeça, esperam avidamente arrebatar o produto do saque… Felizmente, muitos vão sendo os soldados de 1ª linha que vêm das bandeiras da usurpação para o nosso exército, e garanto que todos eles são bem recebidos pelo Senhor Duque.

Os ataques às nossas baterias têm sido constantes, e não há dia em que D. Pedro não faça a ronda a todas elas, para ver os andamentos e garantir a perfeição das obras de defesa.

Ainda na terça-feira passada, dia 4, soube que Sua Majestade Imperial tinha ido ao Convento da Serra, bem cedinho, com o Sá Nogueira, o Pimentel e o Batista Lopes, examinar as baterias, as fortificações e os entrincheiramentos. E, graças ao Céu, tudo estava já bem adiantado.

Recordaçoes e uniformes do exercito liberal 1832-1834 (detalhe), AHM.
Portuguese Civil Wars (fb)

Foi a Providência divina... É que, logo depois, no sábado, começou um ribombar do arco da velha por aquelas bandas! Irra! Foram três dias a malhar o ar! Vou ficar mouco de tantos estouros de artilharia, homessa!

Tudo começou no dia 8, pouco depois das 8 da manhã, quando apareceu o inimigo que, do lado de Grijó, pela estrada da Bandeira, se dirigia em força sobre Villa-Nova.

Bernardo de Sá, seguindo ordens, foi para o Alto da Bandeira, onde já se encontrava um fogo muito vivo.

O nosso Batalhão 6º de Infanteria começou a sua retirada, tendo o Major Marcelli ficado gravemente ferido.

Minutos depois, o Governador Bernardo de Sá Nogueira foi atingido por uma bala de fuzil que lhe quebrou o braço direito. Aqui se viu o sangue-frio e a coragem deste homem, pois, sustentando com o braço são o que acabara de ser ferido, continuou impassivelmente a conduzir, a pé, a coluna, na melhor ordem, e na presença do inimigo que a seguia, por espaço de meia-légua, indicando os pontos que deviam ser ocupados, de maneira a flanquear a sua marcha, até que passou a Ponte das Barcas, a qual foi imediatamente levantada.

General Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo (1795-1876), Marquês de Sá da Bandeira.
Academia Militar

Mas os ataques continuaram.

Eu, que estava na bateria da Vitória, por volta das 10 horas da manhã, vi chegar o Senhor D. Pedro com o Estado-Maior e, logo ali, foram-nos ordenados diversos tiros sobre o inimigo da outra parte do rio, onde uma corja de 4 a 5 mil miguelistas vinham tentar ocupar o Convento da Serra.

Isto durou horas a fio! A verdade é que os corcundas conseguiram entrar pelo sítio da Eira, precipitando-se sobre as trincheiras. Pelos vistos, o nosso Major Fontoura, que conduzia o Batalhão de Voluntários de Villa-Nova, deixou que o inimigo entrasse com confiança e, depois, zás… rompeu o seu fogo, à queima-roupa, sobre eles.

Foi ajudado pela conduta briosa do Major Bravo (Comandante do Posto da Serra), do Major Moreira e do Tenente Santos. Eu nem queria acreditar que tal vitória tinha sido possível, já que eramos muito menos.

Modelos dos fardamentos militares dos voluntários
(Batalhão Móvel da Serra do Pilar),
António Cunha, 1835.
RTP Arquivos
Acho que é para sempre memorável o sangue-frio e a valentia com que neste ataque se conduziu o tal Batalhão de Voluntários de Villa-Nova (apesar de ser composto por mancebos que jamais tinham ido ao fogo…), bem como o nobre patriotismo que, por esta ocasião, se desenvolveu nos heroicos habitantes de Villa-Nova, os quais, abandonando as suas casas e famílias, correram ao Convento a pedir armas e, em número de trezentos valentes, foram ajudar a combater os inimigos.

E os oficiais e os marinheiros do Açor, — um brigue-escuna ancorado junto à Praia de Villa-Nova —, foram igualmente muito importantes, ao impedir que o inimigo entrasse nas casas daquela vila.

Até as nossas mulheres já não receiam o estampido dos tiros, nem estremecem com o assobio das balas, antes acodem às trincheiras a distribuir alimento aos soldados, a animá-los e a enchê-los de bênçãos e elogios!

Ontem, domingo, dia 9, voltou a haver tiroteio no Convento. O Bernardo de Sá Nogueira ficou internado no Quartel da Batalha, mas sempre a dar ordens e a despachar editais...

Disseram-me que lhe amputaram o braço! Um homem daqueles não merecia isto! Tem ele uma alma a que não perturbam os padecimentos do corpo!


E, ainda durante o dia de hoje, não deram os rebeldes descanso à Serra do Pilar. Mas acabaram por desistir da empresa. E logo os nossos mandaram tocar os sinos a anunciar a vitória… Sei que, do lado de Villa-Nova, os miguelistas lançaram algumas bombas, das quais só três atingiram o Porto. E, curioso é que, a única que fez estragos foi cair precisamente na casa da filha do grande miguelista Visconde de Peso da Régua, ali para os lado da Sé...
 
As Festas da Liberdade no Porto — Veteranos da Liberdade que tomaram parte no préstito in O Occidente, 1883.
Hemeroteca Digital

Outra, atingiu de raspão a mais formosa das madres de Santa Clara, quando todas elas vieram à janela para melhor ouvir os sinos da Serra, que pensavam tocar a anunciar a vitória dos corcundas…Terá sido castigo? Já não escrevo mais hoje, pois ainda caio de sono...

Mas antes de dormir, ainda vou demolhar o bico em vinho fino e regalar-me com um queijo Chester que comprei há dias na Rua das Hortas...


João Pataco, soldado liberal (1)

sábado, 26 de novembro de 2022

Croniques d'Engleterre

Le Recueil des Croniques et Anchiennes Istories de la Grant Bretaigne, à présent nommé Engleterre, est une chronique écrite par Jean de Wavrin, chevalier et écrivain du XVe siècle. Écrites en moyen français, elles ont pour ambition de dresser une histoire de l’Angleterre, royaume dont Wavrin déplore qu’il n’a pas d’histoire à l’époque où il écrit (...) (1)

Chronique d'Angleterre, Jean de Wavrin
English ships at Lisbon, and an audience of the English.

British Library (Wavrin)

Le volume III reste plus centré sur la guerre de Cent Ans que sur l'histoire anglaise proprement dite, même s'il s'ouvre sur l'accession au trône de Richard II dans des conditions difficiles. Très rapidement, il n'est question de la guerre qui reprend en Flandres, avec la rébellion des Gantois contre leur duc Philippe, alors que l'alliance entre la France et l'Écosse fait peur aux barons anglais, qui craignent une attaque sur deux fronts.

Chronique d'Angleterre, Jean de Wavrin
Portuguese and English armies defeating a French vanguard of the King of Castile.

British Library (Wavrin)
 

La seconde partie du volume est largement consacrée à la grande préparation de Charles VI d'un débarquement en Angleterre, une opération que son oncle Jean de Berry fait finalement annuler par son refus d'y apporter son concours. En parallèle, les aventures portugaises de Jean de Gand, prétendant au trône de Castille, sont également relatées (...) (2)

Chronique d'Angleterre, Jean de Wavrin
Chapel Ardente of the King (Fernando) of Portugal.

British Library (Wavrin)
 

Les événements de la guerre de Cent Ans sont connus de Jean de Wavrin, mais il s'est aidé des Chroniques de Jean Froissart4, la chronique la plus complète sur la guerre au XIVe siècle. Jean de Wavrin écrit également dans une atmosphère très particulière, celle de la cour de Bourgogne, où la production historique est foisonnante, notamment grâce au mécénat très actif de Philippe le Bon, qui est la figure du prince idéal pour tous ces chroniqueurs. Les liens avec les chroniques de Georges Chastelain, Enguerrand de Monstrelet et Mathieu d'Escouchy5 par exemple sont donc très importants.

Chronique d'Angleterre, Jean de Wavrin
King of Portugal (João I) fighting at Juberotes (Aljubarrota).

British Library (Wavrin)

Enfin, il ne faut pas non plus mettre de côté les apports personnels de Jean de Wavrin, qui a été un véritable acteur de la guerre de Cent Ans dans les armées françaises et bourguignonnes, prenant part à des batailles, parfois même sous l'étendard anglais (du temps où les Bourguignons étaient alliés).

Chronique d'Angleterre, Jean de Wavrin
Lancaster dining with the king of Portugal.

British Library (Wavrin)

Il a donc puisé dans sa propre expérience, et sur le témoignage de personnes qui se trouvaient sur place. Pour son récit de la guerre des Deux Roses, ont suspecte une connexion proche des cercles dirigeants de la dynastie des York, peut-être Anthony Woodville, le frère de la reine Élisabeth (...) (3)

Chronique d'Angleterre, Jean de Wavrin
Philippa of Lancaster and John of Portugal.

British Library (Wavrin)


(1) Wikipédia cf. Marchandisse A., « "Jean de Wavrin, un chroniqueur entre Bourgogne et Angleterre.., Le Moyen Âge, no 112,‎ 2006, p. 507-527
(2) Wikipédia
(3) Idem

Artigos relacionados:
Croniques de Froissart
O cerco castelhano de 1384
O Meijão Frio
A ribeira do arrabalde descontra Coina

Leitura relacionada:
British Library (Wavrin)
Froissart’s Chronicles
Chroniques (de Froissart), Book Three, about 1480–1483 (Getty)
The online Froissart

domingo, 20 de novembro de 2022

Croniques de Froissart

Les Chroniques de Jehan Froissart sont des chroniques médiévales écrites au XIVe siècle en moyen français par Jean Froissart ; elles constituent un récit en prose de la guerre de Cent Ans. Les Chroniques s'ouvrent sur les événements qui ont précédé la déposition d'Édouard II en 1326 et couvrent la période allant jusqu'à 1400 (...) (1)

Chroniques de Froissart,
Siege by the Spaniards of Lisbon in 1383.

GALLERIX

Froissart entreprend en 1388 un long voyage dans le midi de la France (livre III). Il traverse des villes et villages fortifiés jusqu'à arriver à Orthez, dans le Béarn, à la cour du comte Gaston Fébus. Cette partie des chroniques, connue sous le nom du Voyage en Béarn, est beaucoup plus intime.

Chroniques de Froissart,
The Portuguese Embassy.

Getty Museum Collection

Le manuscrit met en scène le chroniqueur dialoguant, durant ce voyage, avec Espan de Lyon, un ami de Gaston Fébus. Le texte décrit également les guerres entre Portugal et Castille et leurs alliés respectifs, mais il laisse la place à des anecdotes diverses : histoires d'adultère, de revenants, de passages souterrains cachés, d'homicides tragiques et cas de possession diabolique (...) (2)


Chroniques de Froissart,
The King of Portugal and John of Gaunt Consulting.

Getty Museum Collection

Lors de mon séjour en Béarn, auprès du noble comte de Foix, j'ai été informé de plusieurs affaires concernant le Portugal et la Castille ; quelques temps plus tard, je revins en Hainaut, à Valenciennes, pour m'y reposer un peu. J'ai alors entrepris de poursuivre l'histoire que j'avais commencée à rédiger.

Chroniques de Froissart,
The Battle of Aljubarrota.

J'ai réalisé alors que je ne pouvais pas me mettre au travail, en ayant seulement à ma disposition la version des hommes du roi de Castille ; il me fallait donc entendre la version des Portugais, si je voulais des informations justes et fiables, comme j'avais eu la version des Espagnols et celle des Gascons, à l'hôtel du comte de Foix et lors de l'aller-retour accompli pour ce voyage. Je ne ménageai pas mes efforts et me rendit à Bruges, en Flandres pour voir les hommes de Lisbonne et les autres portugais (...) (3)

Chroniques de Froissart,
The Battle of Aljubarrota.
Getty Museum Collection

À son arrivée, il apprit qu’un chevalier Portugais, vaillant homme et sage, et du conseil du roy de Portugal, nommé Jean Ferrand Portelet, était depuis peu à Middelbourg en Zelande. Portelet qui allait alors en Prusse à la guerre contre les infidèles, s’était trouvé à toutes les affaires de Portugal : aussitôt Froissart se met en marche avec un Portugais ami du chevalier, va à l’Écluse, s’embarque et arrive à Middelbourg, ou son compagnon de voyage le présente à Portelet.

Chroniques de Froissart,
John of Gaunt Inviting Guests to his Daughter's Marriage to the King of Portugal.

Getty Museum Collection

Ce chevalier gracieux, amiable et acointable, lui raconta, pendant les six jours qu’ils passèrent ensemble, tout ce qui s’était fait en Portugal et en Espagne depuis la mort du roi Ferrand jusqu’à son départ de Portugal. (4)


(1) Wikipédia
(2) Wikipédia cf. Peter Ainsworth, Jean Froissart et la Guerre de Cent Ans, Art de l’enluminure, vol. 31,‎ 2009, p. 2-17
(3) Jean Froissart, Chroniques de Jean Froissart. Vol. 11. Les affaires du Portugal : 1385-1387, Paleo, 2012
(4) Mémoires sur la Vie de Jean Froissart, par M. de la Curne de Ste-Palaye, Verdière, 1829

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Froissart’s Chronicles
Chroniques (de Froissart), Book Three, about 1480–1483 (Getty)
The online Froissart