Mostrar mensagens com a etiqueta Douro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Douro. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Lancha de poveiros por Raul Brandão

Só tendo a morte quase certa é que o poveiro não vai ao mar. Aqui o homem é acima de tudo pescador. Depende do mar e vive do mar: cria-se no barco e entranha-se de salitre. Desde que se mete à terra, o poveiro modifica-se: perde em agilidade e equilíbrio, hesita, balouça-se, não sabe onde há-de pôr os pés.

Barcos na praia com figuras, João Vaz.
Cabral Moncada Leilões

Conheço esses homenzarrões broncos e espessos, de cara rapada ou suíças, barrete na cabeça e calça branca de lá, desde que me conheço. Iam dormir à Foz dentro das lanchas e todas as tardes o moço passava à minha porta com o barril de água à cabeça. Dormiam no rio cobertos com a vela, e primeiro que pregassem olho era um falatório que se ouvia em toda a vila. Minha mãe, quando as criadas falavam alto na cozinha, repreendia-as sempre nestes termos: – Então isto aqui é alguma lancha de poveiros?


Porto, Barco de pesca, c. 1900.
Porto, de Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias

O poveiro não usa faca, mas é terrível e certeiro com pedras na mão. Ou porque lhe cortassem a caça, estragando-lhe as redes, ou porque andassem de rixa velha, havia às vezes no alto mar verdadeiros combates entre poveiros e sanjoaneiros. Os barcos avançavam uns para os outros à força de remo e a pedrada fervia. Os da Póvoa, que são, creio eu, os únicos pescadores que usam pedras em lugar de chumbeiras, levavam sempre a melhor. Às vezes chegavam à abordagem, de remos no ar, numa algazarra feroz, e havia feridos e até mortos.

O poveiro ignora tudo fora da sua profissão, mas essa conhece-a como nenhum outro pescador. Sabe onde está o banco da sardinha pelo voo do mascato, que lá do alto cai a prumo sobre o cardume; quando ela anda terrenha, isto é, perto da costa, e torneira ou à flor das águas. Sabe a palmos o mar da Cartola que dá a pescada, o da Ferralhuda, que dá a raia, o da Gata, que dá raia e cação, o Bianco, o Lameirão, etc. Acima de tudo está Deus, e para eles o Senhor do Mar é que dá a fome e a fartura.

Na Póvoa há o homem livre e o homem empregado, isto é, o que traz redes de outra pessoa. O homem livre leva para a pescada três cartéis, que fazem uma rede; o homem empregado leva cinco cartéis; o mestre oito a dez, sendo três para o barco, três para ele, uma rede para a lancha e outra de ferrar a bóia. A lancha leva também uma rede da Senhora, a rede de mais a mais, a rede de beber e outras. No batel de sardinha o pescador leva duas redes.

À espera dos barcos, Marques de Oliveira, 1892.
Biblioteca Nacional de Portugal

Quando o Inverno é grande, a miséria obriga-o a internar-se, em bandos, de barrete na mão, pedindo pelas armas do Purgatório. – Quem é? – o poveirinho, o probinho do pescador. – É que em todas as terras à beira-mar o homem acumula, lavrador e pescador ao mesmo tempo. O poveiro não, tem de seu o areal e o mar. E esse mesmo lho disputam. Foi sempre um eterno explorado pelo fisco, pelos regatões, pelos homens de negócio – e por último tiraram-lhe o areal, que era a única coisa em que ele fazia finca-pé para os seus varais, para as suas velas, para os seus costumes.

No mar, com a rede de arrasto, mataram a criação. Vi eu muitas vezes os vapores deitarem fora sacos de peixe por criar, que a rede de malha miúda rapava nos fundos. Conseguiu-se assim destruir uma comunidade com carácter e vida própria. O poveiro era um tipo com individualidade, como o soldado e o lavrador são tipos criados à custa de acumulações seculares. Estragámo-lo como estragámos as nossas vilas, as nossas aldeias, os nossos costumes, para os substituirmos pela fealdade e pelo incaracterístico horror.

Bairro dos pescadores (0,20x0,30), Póvoa [do Varzim], Silva Porto 1884.
Do Tempo da Outra Senhora


Todas as povoações de pescadores que conheço estão arruinadas. Façamos as contas: os de Valbom mortos, os de Esposende mortos; mortos os da Foz; os de Mira com quatro companhas em vez de quinze, e os da Póvoa, que perderam todos os seus costumes, arruinados e fugindo para o Brasil e para a África. E por toda a costa portuguesa a pesca rareia. Como temos o condão de estragar tudo, empobrecemos as populações da beira- mar, para enriquecer meia dúzia de felizes. Cultivar o mar é uma coisa – é ofício de pescadores; explorar o mar é outra coisa – é ofício de industriais..

Recanto de aldeia, Póvoa de Varzim, Marques de Oliveira c. 1882.
MNAC


Como vivem estes homens? Agrupam-se no extremo sul da povoação. Roupas a secar, interiores que são pocilgas, casebres com uma porta e uma janela, e alguns só com uma porta e um postigo aberto na porta. Trapos, velhas redes, raias escaladas ao sol enfiadas num pau. Ao lado apodrecem barcos e estende-se o sargaço.

As mulheres escorrem salmoura e por toda a parte há restos de sardinha e filharada. A vida pulula, a vida pródiga e incessante. Dentro dos casebres uma salinha com uma dependência, a camarata, onde dorme o casal, e o falso, para guardar o que ele tem de mais precioso, as redes. A caixa, alguns bancos. Debaixo da cama o berço dos filhos e panais velhos. A cozinha mete medo com caldeira de cozer a casca, o forno e os potes de ferro. De noite tudo isto é alumiado pela luz da graxa de peixe, que enfuma as paredes e cheira que tresanda.

Eis como vivem estes homens. Como morrem dizia-o, muito melhor do que eu, o velho cemitério da Póvoa, que já não existe. Ia-se passando de túmulo em túmulo e lia- se sempre: – António Libó, morto no mar; Francisco Perneta, morto no mar; José Mouco, morto no mar... De onde a onde havia uma redoma de vidro com alguns ossos brancos e mirrados que tinham dado à costa. E depois, seguiam-se os letreiros – sempre! sempre! – Domingos Reigoiça, morto no mar; Joaquim Monco, morto no mar... Todos eles vivem no mar – e morrem no mar. (1)


(1) Raul Brandão, Os Pescadores, Paris, Ailland, 1923, 326 págs, 127,7 MB

Mais informação:
Raul Brandão: Um percurso
Evocação de Raul Brandão (Vitorino Nemésio recorda a figura de Raul Brandão)
Inauguração do monumento a Raul Brandão

Informaçao relacionada:
A. Santos Graça, O poveiro, Usos, costumes, tradições, lendas Etnográfica Press
Francisco da Fonseca Benevides, Escola Industrial Pedro Nunes em Faro, Museu Industrial Maritimo, catalogo illustrado das collecções, 1891

Archivo pittoresco:
Póvoa de Varzim n° 9, 1868 (I e II)
Póvoa de Varzim n° 22, 1868 (III e IV)
Póvoa de Varzim n° 22, 1868 (V e VI)
Póvoa de Varzim n° 25, 1868 (VII)
Póvoa de Varzim n° 29, 1868(VIII)
Póvoa de Varzim n° 30, 1868 (IX)
Póvoa de Varzim n° 33, 1868 (X)
Póvoa de Varzim n° 37, 1868 (XI)
Póvoa de Varzim n° 38, 1868 (XII e XIII)
Póvoa de Varzim n° 46, 1868 (XIV e XV)

sexta-feira, 15 de julho de 2022

São João da Foz (2 de 2)

Esta linda povoação está edificada parte no dorso de uma collina, onde as casas se entremeiam com arvoredo; parte em planicie, estendendo-se a casaria de um lado pela margem do Douro, e do outro ao longo das praias do Oceano; mas tão perto do rio e do mar, que ambos lhe servem de espelho.

Porto. São João da Foz.
A (photographia) que adorna este numero representa a povoação do lado do Douro, mostrando este rio, o monte com a egreja parochial de S. João da Foz, as casas que orlam o passeio Alegre, avultando entre estas a do sr. Bernardo Pereira Leitão, e dois lanços da muralha das projectadas e não concluirias obras do encanamento do rio.  O passeio Alegre é actualmente guarnecido de arvores, porém este melhoramento ê posterior ao tempo em que o sr. Seabra tirou a photograpbia, de que é cópia a nossa gravura. O terreno que faz o primeiro plano d'esta é a extremidade do norte do Cabedello, extenso banco de areia que aperta a barra, do qual foi tirada a dita photographia.
Archivo pittoresco n° 39, 1865

Duas boas estradas lhe dão facil communicaçâo com a cidade do Porto; uma que vae por cima dos montes, a outra que se dirige pela beira do rio.

Esta é a mais frequentada e também a mais bella. Toda plana; macadamisada; guarnecida de arvores do lado do Douro, e em alguns sitios também do lado da terra; orlado de casas na maior parte da sua extensão; com suas fontes de boa agua, e em diversos lugares com seus caes descendo para o rio, pode bem chamar-se-lhe um passeio delicioso de 4 kilometros, que tanta é a distancia que vae da porta Nova ao castello de S. João da Foz.


N'este trajecto passa a estrada por Miragaya, freguesia da cidade, que se estende por fôra da antiga cêrca de muros; por Massarelos, parochia suburbana, com um frondosa alameda junto do rio; pelo Ouro, onde sc acham um fabrica de gas, uma alameda, e os estaleiros de construcção de navios mercantes, nos quaes outr'ora se construiram embarcações de guerra, conservando-se ainda ahi o velho edificio do arsenal do estado, obra del-rei D. Manuel: e, finainteute, por Sobreiras, pequena povoação que se une com a da Foz.

Panoramas que se disfructam dos jardins do Palácio de Cristal portuense.
O Douro e a sua margem direita desde Massarellos até à Foz.
Archivo pittoresco n° 36, 1865

No seculo XVII, depois conclusão do castello, foi a parochia mudada da egreja antigo para um novo templo edificado a meia encosta da collina, por onde sobe a povoação, à qual chamam simplesmente Monte. É um templo grande, de architectura singela e desengraçada, mas com as suas capellas bem ornadas de obras de talha doirada.

Em diiversas partes do lugar existem as seguintes ermidas: Santa Anastácia, Nossa Senhora da Lapa, e Nossa Senhora da Conceição, antigamente intitulada S. Sebastião. Outr'ora contava mais duas, S. Miguel o Anjo, que serve agora de casa das conferencias dos pilotos, e cujo edificio ainda se conserva em fôrma de torre quadrangular, coberto cem sua cúpula, e construido sobre nm pontal de rochedos que enfia pelo rio; e Nossa Senhora da Luz, onde ao presente se acham estabelecidos um pharol e um telegrapho maritimo.

O castello está menos mal conservado. Depois da guerra civil de 1846 e 1847, o governo mandou recolher a arlilheria a Lisboa, deixando-lhe apenas dois velhos canhões de pequeno calibre. para fazer signaes aos navios que demandam a barra. Porém foi este anno reparado e novamente artilhado. Tem por governolor um coronel, e por guarnicao uma campanhia de veteranos. Servem de casa do governador e de capella da fortaleza o antigo hospicio e egreja dos frades bentos.

Durante a citada guerra civil estiverarn presos n'este castello, primeiramente o celebre tribuno José da Silva Passos, e depois o marechal do exercito duque da Terceira, os generais conde da Ponte de Santa Maria, conde de Campanhã, visconde de Vallongo e outros homens noataveis. Tambem alli esteve preso o general hespanbol Zurbano.

Na praia contigua no castello, a pouca distancia d'este, está situada a casa chamada Salva-vidas. É um edificio de solida construção, que tem por base rochas batidas incessantemenle das ondas. Foi mandado edificar à custa do estado pelos annos de 1830, para alli se ministrarem promptos socorros aos naufragos. Houve, porém, um ministro que se lembrou um dia de reduzir a dinheiro o edificio do Salva-vidas, haverâ uns trinta annos! E, com effeito, foi vendido pela insignificante quantia de 800$000 réis, e por alguns annos serviu de residencia particular durante a estação dos banhos do mar.

Uma grande catastrophe o restituiu ao seu primeiro destioo. O naufragio do vapor Porto (v. Tragédia do Vapor Porto), em que falleceram tantos infelises mesmo junto d'quelle local, sem haver meios do se lhes prestar soccorro, deu origem instituição da Real Sociedade Humanitaria, em 1852, e obrigou o governo a expropriar a casa do Salva-vidas por 5:000$000 réis, convertendo-a em hospital de naufragos, cuja administração é exercida por aquella benemerita sociedade, conjunctamente com o governador civil e outras auctoridades. Acha-se hoje este hospital no melhor estado possivel de organisação e aceio. Tem bastantes camas sempre promptas, botica, e todos os utensilios precisos para salvação e tratamento das naufragos, possuindo barcos salva-vidas, boias de salvação, apparelhos de electricidade, cabos, etc.

A alfandega do Porto tem um posto fiscal na Foz, eatabeleeido em uma casa para esse fim construida ha uns quatorze annos, no sitio chamado a Cantareira, junto á amiga cappella de S. Miguel o Anjo, onde fica o caes principal da povoação.

D'esta casa devia seguir uma muralha até ao castello, segundo um plano de encanamento do rio e melhoramento da barra, traçado e começado a executar nos principioa d'este seculo, chegando-se a concluir alguns lanços de muralha, que ainda existem. Modernamente, dando-se um pequeno impulso a esses trabalhos, fez-um um muro e aterro junto à casa da alfandega, plantando.ae unia alameda de arvores com assentos de pedra, que pela sua situação, sobranceira ao rio e ao desembarcadoiro geral, é um passeio muito agradavel. Não o é menos o que, com o nome do Passeio Alegre, se estende d'alli até ao castello.

A enseada de São João da Foz antes de 1870.
(Edição comemorativa do Centenário do Passeio Alegre. 1888-1988)
Arquivo Municipal do Porto

A praia dos banhos, no Oceano, não é boa pelos muitos rochedos que a obstruem, e pelas continuas alteraçave qtie o mar lhe faz. Quem não conhecer o nosso proverbial desleixo, admirar-se-ha de que, concorrendo alli diariamente para tomar banho, durante o mes de setembro e outubro, de duas a tres mil pessoas, ainda até hoje, se não tenham emprehendido os trabalhos para melhoramento d'aquella praia, de modo a que pudesse ofrereeer banhos em melhores sondições de segurança, e commodidade. Ha dois para tres annos construiu-se uma bonita rua guarnecida de muro, com assentos para o lado da praia, que facilitou a communicação com esta, aformoseando aquelle local.

Ha na Foz varios estabelecimentos de banhos quentes, porém nenhum com as commodidadm e aceio que se requerem. O melhor d'esses estabelecimentos esta encorporado em uma soffrivel hospedaria, situada sobre a praia dos banhos.

Quanto a hospedarias contam-se na Foz umas quatro. A de M. Mary Castro está bem organisada e bem servida.

Não ha na Foz uma casa de reuniões publica, nem um botequim decente. É um facto bem notavel, em uma povoação tão visinha da cidade, e que durante uma boa parte do verão, e todo o outomno, é o unico logar de reunião das classes abastadas do Porto e de muitas terras do interior da provincia. Ha bastantes annos edificou-se una rasa de assembleia, tão modesta gque apenas tem uma grande sala, varios quartos pequenos para serviço de copa e cosinha. Floreceu esta em diversas epochas, dando-se n'ella alguns bailes, e havendo concurrencia todas as noites, nas quaes se jogava o bilhar, ou jogo das cartas, ou se liam varios jornaes. Porém logo no anno seguinte ficava abandonada e esquecida, ou por mui pouca gente frequentada. Actualmente conserva-se n'este ultimo es.tado, isto é, com bilhar, alguns jornaes, mal servdo botequim, e diminuta concurrencia.

Celebram-se annualmente na Foz duas festividades religiosas, que se podem contar em o numero das festas mais populares de toda a provincia. Uma é a de S. Bartholomeu, a 24 de agosto; a outra, a de Nossa Senhora da Luz, a 8 de setembro. Concorrem alli n'estes dias, de muitas legoas em derredor do Porto, muitas romagens, e milhares de camponeses, ávidos de folgarem e de se banharem nas aguas do Oceano, a cujos banhos attribucm muitas virtudes n'aquelles dois dias do anno, principalmente no primeiro.

Trabalha-se no presente na abertura de uma estrada macadamisada que ha de unir a Foz a Leça da Palmeira, correndo sempre pela margem do Oceano, em terreno um poco elevado, mas plano, na extensão de uns quatro kilometros. A parte qne essa concluida do lado da Foz, com perto de dois kilometros de comprimento, é um lindissimo passeio. Da parte do mar faz, orla á estrada um renque de arvores, e da parte de terra vae-se guarnecendo de casas de bom prospecto, que já chegam quasi ao quebra-mar de Carreiros (actualmente ditos Molhe e Avenida do brasil), de modo que possa muito além do pharol de Nossa Senhora da Luz, que ainda ha meia duzia de annos ficava muito afastado da povoação.

Presentemente é o passeio predilecto, e esta circunstancia o vae tornando incommodo pela affluencia dos passeiantes, e sobre tudo pelas corridas das carruagens e mais vehiclos, que levantam e entretem no ar uma densa nuvem de poeira.

A Foz tem linsdos passeios nas suas visinhanças; tão amenos e formosos tomo talvez os não possua nenhuma outra povoação do beira mar do nosso pais, se exceptuarmos Leça da Palmeira. Na distancia de 500 metros até 1 kilometro para o interior, encontram-se copados bosques de carvalhos e castanheiros, a cuja sombra o terreno cobre de musgos e fina relva. Aqui toldam collinas, deixando ver através do ramagem prados sempre verdes, com suas cercaduras de arvores e ribeiros a correr por entre os vimes. Alli assombram valles ou algares pouco profundos, onde uma espessa abobada de verdura, occultando por todos os lados o hiorisonte, dá ao sitio um aspeto suavemente mysterioso. A devesa de Passos é de todos esses bosques, não o mais ameno, porém o mais pittoresco pelo accidentado do terreno, e pelos graciosos panoramas que dos logares mais altos os olhos relanceiam por entre a ramagem buliçosa.

Os nossos leitores que desconhecem a Foz presumirão, talvez, que n'esses logares encantadores se agita de quando em quando a multidão dos passeiantes, avidos de quebrar a monotonia das praias do mar com a sombra dos arvoredos, com a frescura e verde dos campos. Pois enganam-se. Raras vezes é pertubado por vozes humanas o silencio d'aquellees retiros, tal é o poder da imitação e a força dos habitos, que todos áquelle gozo campestre verem-se e mostrarem-se uns aos outros nos logares onde a novidade ou moda os chama, embora sejam obrigados a sorver continuamente poeira junto do ar que respiram, e andarem sempre cautelosos para não serem pisados pelos vehiculos qie incessantemente se cruzam nas estrada.

A Foz tem muitas casas grandes e de apprencia regular, mas todas, com raras excepções, contruidas segundo o mau gosto nacional, que assimilha as casas de campo ás das cidades. Duas casas apenas saem fora d'esta regra geral: uma edificada pelos annos de 1808 no alto do monte por um negociante inglez de appelido Nassau; outra contruida modernamente no passeio Alegre, perto da castello, pelo fallecido capitão Domingos de Oliveira Maya.

Foz do Douro, Enrique Casanova, 1880/1890.
Biblioteca Nacional de Portugal

A primeira é uma bella casa de campo de gosto inglez, cercada pelo jardim e por um frondoso bosque. Pertence hoje ao sr. Fladgate, subdito britannico. A segunda com a fachada principal toda de cantaria, coroada de ameias, e com as janellas ogivaes, é de uma architectura pesada, e mal proporcionada. Ao presente é propriedade do sr. Bernardo Pereira Leitão.

Ha na Foz varias fontes. A da Senhora da Luz, a pouca distancia do pharol, é notavel pela excellencia e frecura da agua. O pharol da Nossa Senhora da Luz não merece descripção, tanto pela mesquinhez do edificio como pelo seu mau arranjo. Tve outr'ora luz de eclipse e de côres; hoje porém é fixa, mas deficiente. Projecta o governo reformal-o.

Encerra na actualidade o lugar de S. João da Foz 1:200 fogos, e 3:500 almas, do povoaçâo permanente.

Entre a cidade e a Foz andam em continuo transito durante o dia, e até certa hora da noite consideravel numero de carros com bancos, que são puxados commummente por tres cavallos, e transporlom, cada um, de 8 a 11 pessoas. Fazem o trajecto em 20 minutos, pelo preço de 120 a 160 cada pessoa, conforme o ponto da cidade d'oude o carro parte.

As duas gravuras que publicámos foram copiadas de duas photographias da colleeção do sr. (Antero) Seabra. Na que acompanha a primeira parte deste artigo, a pag. 261 (v. São João da Foz (1 de 2)), vê-se o castelo de S. João da Foz, e casa do Salva-vidas, e parte do passeio Alegre.

A que adorna este numero representa a povoação do lado do Douro, mostrando este rio, o monte com a egreja parochial de S. João da Foz, as casas que orlam o passeio Alegre, avultando entre estas a do sr. Bernardo Pereira Leitão, e dois lanços da muralha das projectadas e não concluirias obras do encanamento do rio.

O passeio Alegre é actualmente guarnecido de arvores, porém este melhoramento ê posterior ao tempo em que o sr. Seabra tirou a photograpbia, de que é cópia a nossa gravura. O terreno que faz o primeiro plano d'esta é a extremidade do norte do Cabedello, extenso banco de areia que aperta a barra, do qual foi tirada a dita photographia.

I. de Vilhena Barbosa (1)


(1) Archivo pittoresco n° 39, 1865

Leitura relacionada:
Archivo pittoresco n° 33, 1865
Revista Universal Lisbonense n° 18, 21 de novembro, 1845
A Barra do Douro, O panorama n° 29, 18 de julho, 1857
Torres, castillos y fortalezas
Maria Inês Freitas Sousa, Foz do Douro Na fronteira entre cidade e mar...

Nuno Moura, A Foz do Douro: evolução urbana, 2009

Artigos relacionados:
São João da Foz (1 de 2)
Na Cantareira com Maria Angelina e Raul Brandão
Na Cantareira com Raul Brandão em abril de 1920
Na Cantareira com as memórias de Raul Brandão

RTP Arquivos:
Foz Velha

Mais informação:
Ramalho Ortigão, A Foz, As praias de Portugal, 1876
Arquivo Municipal do Porto (postais antigos da Foz)
Porto, de Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias
Gravuras da Foz do Douro (Google search)
Foto-porto no Facebook
Porto desaparecido no Facebook

segunda-feira, 11 de julho de 2022

São João da Foz (1 de 2)

Há quatro seculos, pelo menos, já existia uma pequena povoação de pescadores na margem direita do Douro, junto á foz d'este rio. Aquellc territorio constituia então um couto pertencente ao mosteiro beneditino de Santo Thyrso.

Porto. São João da Foz.
As duas gravuras que publicámos foram copiadas de duas photographias da colleeção do ar. Seabra. Na que acompanha a primeira parte deste artigo, vé-se o castelo de S. João da Foz, e casa do Salva-vidas, e parte do passeio Alegre.
Archivo pittoresco n° 33, 1865

Vendo os religiosos que a aldeiasinha crescia de anno para anno, mandaram edificar no pontal, onde o Douro mistura as suas aguas com as do Oceano, um hospicio com sua egreja, para o qual foram víver dois frades, cncarregados de ministrar ao s pobres pescadores o pasto espiritual.

Foi o templo consagrado a S. João, e pela sua visinhança da barra, ou porque a aldeia já a esse tempo se chamasse da Foz, começou o poro a denominal-o S. João da Foz, nome que em breve se tornou commum á egreja e á povoação.

Apesar das diversas guerras que Portugal tinha tido com Castela, nunca pensaram os nossos monarchas em fortificar a barra do Porto, confiados nos perigos e difficuldades que elle oppõe aos que a demandam, julgaram bastante essa defesa natural.

Quiz, porem a nossa má estrella que o temerario rei Sebastião fosse sepultar nos areiais de Africa a sua coroa real e a independencia desta nação.

Os leões do Castella facilmente fizeram preza deste pobre paiz, quebrado das forças moraes e physicas, atraiçoado e vendido por muitos dos seus proprios filhos.

Carta de Portugal (detalle de Porto y la desembocadura del Duero). Atlas del Rey Planeta, Pedro Teixeira, 1634.
Torres, castillos y fortalezas

Entre os muitos males e vexames que nos trouxe a usurpação de Filipe II, avulta como um dos maiores ver-se de improviso Portugal e suas vastas posessões de além-mar alvo dos ataques de todas as nações inimigas de Castella.

Pouco se importavam as nossos oppressores que os ingleses, os franceses e os bollandeses, que tanto nos respeitaram em quanto soubemos manter a nossa independereis, nos affrontassem, e nos expulsassem da Africa, da Africa e da America.

Antes se regozijavam, porque assim se ia abatendo de dia para dia, cada vez mais, o espirito publico desta nação, que, por mui alio subir, admitiu sobre si as invejas de todo o mundo, não viam, porém, do mesmo modo o que se passa n'esta orla do terra do extremo occidental da Europa.

Para aqui estavam sempre voltados os seus olhos attentos, ciosos e vigilantes, como os do abutre, que seguem um a um todos os movimentos de sua preza, e de quem pretende arrebatar-lhe. Assim, procuravam com diligente assiduidade pôr os portos do Portugal ao abrigo de qualquer tentativa inimiga, menos pela defesa do reino, que para obstar a que viessem os inimigos de Castella auxiliar-nos como amigos na resteuração da nossa liberdade.

Portanto, depois de tratarem do augmento das fortificações da barra de Lisboa, e ao mesmo tempo que ee levantavam novas fortalezas para defeso de outros portos, ordenou Filipe III que se construisse um castello na foz do rio Douro.

Fez-se, com effeito, a fundaçao. O logar para ella escolhido não podia deixar de ser o mesmo em que se achava o hospicio e templo de S. João, e assim ficaram estes no interior da fortaleza.

Apesar de ter a jeito estas e outras obras de egual natureza, a hespanha andava n'esse tempo tão Mo afadigada e preoccupada tom as guerras da Hollanda e de Italia, que todos os trabalhos publicos em Portugal deixava caminhar vagarosamente.

Pressa só a sabia ter quando se tratava de extorquir a este pobre paiz dinheiro, armas e gente para ir engrossar as fileiras dos seus exército, que se rareavam debalde, sem poder segurar as partes da monarchia hespanhola que se iam separando.

D'est'arte se achavam muito atrasadas as obras do castello da Foz, quando rebentou em Lisboa, no 1.° de dezembro de 1640, o grito de liberdade, que, ressoando instantaneamente por todo o reino, nos restituiu a independencia e rei portuguez na pessoa do oitavo duque de Bragança.

Logo que el-rei D. João IV cingiu a coroa, foi seu primeiro cuidado armar o reino para a defesa contra tão poderoso inimigo. Deste modo se activaram os trabalhos no castello da barra do Douro, até que em breve se concluiram, ficando com quatro baluartes, um reveliin, e largos e profundos fossos do lado da terra.

Areal do Cabedelo Barra do Douro S João da Foz etc., Teodoro de Sousa Maldonado, 1789,
cf. Descripção topografica, e historica da Cidade do Porto..., Agostinho Rebello da Costa
Biblioteca Nacional de Portugal

Guarnecera-n'o com dezoito peças de artilheria, doze de bronze e seis de ferro; e do orago da egreja recebeu a invocação de castello de "S. João da Foz".

Os marqueses de Fontes, titulo que depois foi mudado no de Abrantes, gozavam da regalia de nomear, com approvaçâo del-rei, os governadores desta fortaleza, a cujo cargo correspondiam grandes proventos, pois que todos os navios nacionaes e estrangeiros, e embarcações costeiras, que entravam ou saiam a barra do Douro, pagavam certa quantia ao governador, segundo a naturalidade e lotação dos mesmos navios e embarcações.

Perspectiva da entrada da barra da cidade do Porto, Manuel Marques de Aguilar, 1791.
Arquivo Municipal do Porto

Até os barcos de pesca de quaesquer portos do reino, que fossem ao Douro pescar ou vender peixe, impavam os emolumentos em especie, entregando os pobres pescadores ao governador as melhores peças de pescado que tinham no barco.

Com o correr do tempo, e pela visinhança de um grande centro de população foi como já era a cidade do Porto, foi crescendo o logar de S. João da Foz, de sorte queno principio do seculo passado coutava 730 fogos e 1:508 moradores.

Todavia, não obstante este desenvolvimento, não pesava de uma terra de pescadores, com as suas casas todas de pedra e cal, porém terreas, salvas poucas excepções e estas lambem de modesta apparencia.

O engrandecimento e belleza que hoje apresenta deve-os aos banhos do mar; e datam, por conseguinte, d'este seculo, em que similhante uso se tem generalisado pouco a pouco, ate se converter em moda.

Durante o memoravel cerco do Porto, em 1832 e 1833, padeceu grandes vexaçães o lugar de S. João da Foz. A importando d'este ponto para a segurança da cidade, cuja subsisteneia lhe vinha do mar, desembarcando furtivamente de noite, e debaixo de um vivo fogo de artilharia, essa importancia, dizemos, fazia alvo tanto o castello de de S. João da Foz como toda a povoaçáo do fogo incessante das baterias inimigas, collocadas no cabedello, e na margem do sul do Douro.

Plano topographico da cidade do Porto impresso em Londres em 1813, e continuado aos seus suburbios em 1832 (detalhe).
Biblioteca Nacional de Portugal

E, finalmente, no dia 4 de março de 1833, foi accommettida por forças consideraveis do exercito sitiador do Porto, pelejando-se ahi uma das mais rijas e mortiferas batalhas d'aquelle cerco, da qual sairam vencedoras as armas coustitudonaes.

Acabada a lucta, o logar de S. João da Foz mostrava, como a visinha cidade, aspecto geral de ruina e desolação. Em breve porém ambas as povoações se restaheleceram das feridas da guerra no regaço da paz e da liberdade. Ambas surgiram d'entre as suas ruinas muito mais bellas que d'antes.

Castello de S. João da Foz, Cesário Augusto Pinto, 1848.
Arquivo Municipal do Porto

S. João da Foz viu desde essa epocha levantarem-se todos os annos muitas casas de bom prospecto, melhorarem-se e illuminarem-se as suas ruas, arborisarem-se passeios, abrir-se uma communicação com a cidade junto á margem do Douro, fazendo-se recuar para esse fim, á força de fogo, a serra da Arrabida, que se entranhava no rio; e outros diversos melhoramentos que a constituem boje em dia um a das mais lindas, commodas e concorridas estações dos banhos do mar de todo o reino.

I. de Vilhena Barbosa (1)


(1) Archivo pittoresco n° 33, 1865

Leitura relacionada:
Archivo pittoresco n° 39, 1865
Revista Universal Lisbonense n° 18, 21 de novembro, 1845
A Barra do Douro, O panorama n° 29, 18 de julho, 1857
Torres, castillos y fortalezas
Maria Inês Freitas Sousa, Foz do Douro Na fronteira entre cidade e mar...

Nuno Moura, A Foz do Douro: evolução urbana, 2009

Artigos relacionados:
Na Cantareira com Maria Angelina e Raul Brandão
Na Cantareira com Raul Brandão em abril de 1920
Na Cantareira com as memórias de Raul Brandão

Mais informação:
Ramalho Ortigão, A Foz, As praias de Portugal, 1876
Arquivo Municipal do Porto (postais antigos da Foz)
Porto, de Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias
Gravuras da Foz do Douro (Google search)

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Na Cantareira com Raul Brandão em abril de 1920

A Foz é para mim a Corguinha, o Castelo e o Monte com o rio da vila a atravessá-lo, e a rua da Cerca até ao Farol. O que está para lá não existe... Só me interessa a vila de pescadores e marítimos que cresceu naturalmente como um ser, adaptando-se pouco e pouco à vida do mar largo.

Panorama da Foz do Douro,
vendo-se o Castelo de São João da Foz, a Estação Salva-vidas e parte da Rua do Passeio Alegre.
Archivo Pittoresco (33 e 39), 1865 cf. Porto Desaparecido

E ainda essa Foz se reduz cada vez mais na minha alma a um cantinho — a meia dúzia de casas e de tipos que conheci em pequeno, e que retenho na memória com raízes cada vez mais fundas na saudade, e mais vivas à medida que me entranho na morte.

O mundo que não existe é o meu verdadeiro mundo. Esta vila adormecida estava a cem léguas do Porto e da vida. Ali moravam alguns pescadores e marítimos, o António Luís, a Poveira, as senhoras Ferreiras, a D. Ana da Botica e as Capazorias.

E, na Foz e na pensativa Leça, uma gente desaparecida com os navios de vela, os embarcadiços que iam ao Brasil em longas viagens de três meses. As casas, limpas como o convés de um navio, espreitavam para o mar, umas por cima das outras.

A Cantareira, Cesário Augusto Pinto, 1848.
Arquivo Municipal do Porto

Todas tinham um grande óculo de engonços, para ver o iate ou a barca que partia, ou para procurar ansiosamente, lá no fundo, o navio que trazia a bordo o marido ou o filho ausente, e um mastro no quintal para lhes acenar pela derradeira vez.

Meu avô materno partiu um dia no seu lugre; minha avó Margarida esperou-o desde os vinte anos até à morte, desde os cabelos loiros que lhe chegavam aos pés, até aos cabelos brancos com que foi para o túmulo.

Quando os rolos de espuma rebramiam no Cabedelo, apertavam-se os corações no peito, e à luz da candeia rezavam horas esquecidas «pelos que andam sobre as águas do mar». Conheço ainda, tão bem como ontem, todos os cantos da casa de minha avó: as escadas com um cabo de navio a servir de corrimão, a sala da frente com dois painéis escuros nas paredes, Jesus crucificado e S. João Baptista, e o estrado onde ela e a tia Iria, todo o dia sentadas, trabalhavam nas almofadas de bilros.

Areal do Cabedelo Barra do Douro S João da Foz etc., Teodoro de Sousa Maldonado, 1789,
cf. Descripção topografica, e historica da Cidade do Porto..., Agostinho Rebello da Costa
Biblioteca Nacional de Portugal

A renda de bilros é uma indústria da beira-mar, destas mulheres loiras, de olhos azuis e rosto comprido — as da Foz, as de Leça e as de Vila do Conde — que passavam a vida à espera dos homens, enquanto as mãos ágeis iam tecendo ternura e espuma do mar...

Nesta sala abriam-se duas portas, uma para os quartos interiores, e outra para o corredor onde os rapazes dormiam num armário com beliches. Ao lado da casa, que subia em socalcos pelo monte, subia também uma escada de pedra em patamares até lá acima.

Do quintal, mais alto que os telhados, via-se o mundo. Era dali, saltando o muro, que eu partia para excursões maravilhosas através do pinheiral do Lage... Costumes muito simples, muito outros. Uma pescada custava seis vinténs, e minha avó gemia da carestia da vida, falando com saudade «do tempo do arroz de quinze».

Perspectiva da entrada da barra da cidade do Porto, Manuel Marques de Aguilar, 1791.
Arquivo Municipal do Porto

Tinham-se calado as marteladas nos estaleiros de Miragaia e do Ouro, onde os calafates, os ferreiros e os carpinteiros de machado, erguiam outrora, entre clarões de forja e cheiro a pinho descascado, as carcassas dos palhabotes, das barcas e dos iates, — mas eu ainda conheci alguns tipos curiosos de capitães aposentados, no americano que se inaugurara e que levava a gente ao Porto numa hora, alumiado à noite por uma luzinha de petróleo, e com reforço de mulas em Massarelos.

Nesses carros andava sempre a mesma meia dúzia de pessoas para baixo e para cima, e o serviço era dirigido com ferocidade por um major de pêra pintada com esmero, que mantinha a disciplina numa gaiola do Ouro.

Vista da entrada da barra da cidade do Porto , Manuel Marques de Aguilar, 1791.
 Arquivo Municipal do Porto

Ora, entre as pessoas que faziam comigo a travessia, quando a Aninhas do Jeremias me levava pela mão ao colégio, nunca mais esquecerei o capitão Bernardes, um do Carvalho que chegou a almirante, o tio Bento, o irascível capitão Sena de quem se contava com terror que fora apanhado no mar alto por uma trovoada — as faíscas como chuva — levando os porões carregados de pólvora, o alegre capitão Serrabulho, casado com uma mulher fantasmática: homem prodigioso, com uma grande barriga sacudida de risadas: — Acaba- se aqui o mundo com uma ceia de peixe! — e que fez andar num corrupio até à morte a Foz do Douro e a Baía, e entre todos eles, principalmente, o capitão Celestino, que tendo começado a vida como pirata a acabou como um santo, cultivando com esmero um quintal de que ainda hoje me não lembro sem inveja. (1)


(1) Raul Brandão, Os Pescadores, Paris, Ailland, 1923, 326 págs, 127,7 MB

Mais informação:
Raul Brandão: Um percurso
Evocação de Raul Brandão (Vitorino Nemésio recorda a figura de Raul Brandão)
Inauguração do monumento a Raul Brandão

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Descripção topographica de Villa Nova de Gaya

Foi sim, fundador desta Villa, que é situada na província do Douro, o Senhor Rei D. Affonso 3.° Conde de Bolonha que lhe deu o nome de Villa Nova, para a distinguir da Villa Velha ou Gaya a Velha, que lhe fica próxima. 

Viaje de Cosme de Médicis por España y Portugal (1668-1669), Pier Maria Baldi.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Além de ser o seu fundador, deu-lhe também carta de foral, enriquecendo-a com muitos privilegios e isempções, e aos seus habitantes; pois tinha esta Villa em muita estimação e apreço: e mandou que se fizesse n’ella a descarga e despacho de todas as mercadorias e fazendas que entrassem pela barra, ou viessem de cima do Douro, para cujo fim poz aqui officiaes seus: e tudo isto para auferir os rendimentos que d’ahi provinham ao Bispo e Cabido da Cidade do Porto, com o qual contendia por causa da jurísdicçâo temporal, que o Bispo então fruia, porque tinha o senhorio da Cidade em virtude d’antigas doações, como se deixa vêr do catalogo dos Bispos do Porto — Parte 2. a pag. 58 e 65. 

Viaje de Cosme de Médicis por España y Portugal (1668-1669), Pier Maria Baldi.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

El-Rei D. Diniz, appellidado o Lavrador, confirmou depois em 1288 o foral, que seu Pai D. Affonso 3.° havia dado a esta Villa, e a ampliou, e erigiu também em cathegoria de Município. 

Porto, pintura no Arquivo Histórico Municipal do Porto, H. Duncalf, 1730-1733.
Imagem: do Porto e não só...

Oporto, Gravura H. Duncalf/William Henry Toms, 1736.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

Foi ullimamente confirmado por El-Rei D Manoel. Depois de uma alternativa de successos, já prosperos, já adversos, cujo detalhe demandaria um maior volume, passou com todo o Reino de Portugal para o intruso governo do usurpador da Europa pelo falar decreto do l.° de Fevereiro de 1808, e ultimamente para o do seu desejado e legitimo Soberano no faustíssimo dia 18 de Junho do mesmo anno. 

Zona ribeirinha Serra do Pilar Cidade do Porto, Teodoro de Sousa Maldonado, 1789,cf. Descripção topografica, e historica da Cidade do Porto..., Agostinho Rebello da Costa
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Succumbiu de novo ao jugo francez no infausto dia 29 de Março de 1809  mas logo no dia 12 do seguinte Maio, foi com a Cidade do Porto gloriosamente restaurada pelo exercito anglo-lusitano ás ordens do Duque da Victoria, o famoso lord Wellington. 

Areal do Cabedelo Barra do Douro S João da Foz etc., Teodoro de Sousa Maldonado, 1789,
cf. Descripção topografica, e historica da Cidade do Porto..., Agostinho Rebello da Costa
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O espolio que do Porto e Villa Nova extrahiram os francezes em numerário, joias, alfaias preciosas e em todo o genero de mercadorias, é incalculável: uns o sobem a vinte milhões de cruzados, outros a quarenta e alguns ainda a mais; sem fallar no que elles dilaceraram, e destruiram, ou incendiaram, como por exemplo porcellanas, moveis, bibliothecas, etc. etc. 

Perspectiva da entrada da barra da cidade do Porto, Manuel Marques de Aguilar, 1791.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto
Que barbaridade! Foi porém cousa notável, que apenas no nosso turvo horisonte despertou o clarão da liberdade, dissiparam-se logo todas as sombras, e á mais horrorosa borrasca succedeu a maior serenidade.

Vista da entrada da barra da cidade do Porto (grav. horiz. invertida), Manuel Marques de Aguilar, 1791.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

Baste para prova que no decurso de mez e meio , que os francezes occuparam o Porto, entraram n'elles só tres vasos, e estes ao engano; e em outro igual periodo, quero dizer, desde 25 de Junho , em que entrou um comboy inglez, até 10 d'Agosto inclusive, entraram 156, que fizeram resurgir o commercio e abandancia. 

Vista da cidade do Porto desde a Torre da Marca até às Fontainhas, Manuel Marques de Aguilar, 1791.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

Esta mesma prosperidade renascente se fez logo sentir em todos os mais ramos: sendo então o immortal Jorge 3.°, e depois seu Augusto Filho o Príncipe Regente do Reino Unido os gloriosos instrumentos de que a Providencia se serviu para completar a grande obra da nossa independencia. 

Oh! Soberanos incomparáveis e verdadeiros Numes Tutelares nossos! a minha alma extasiada ao notar vossas em prezas, vos admira, vos bemdiz, e vivamente penetrada de vossos benefícios preclaros vos tributa um holocausto, de vós sómente digno, publicando sem cessar, que se livres respiramos, a vós é que o devemos.

Limitada ao Norte pelo soberbo Douro, e ao nascente, sul, e poente pelos amenos montes de Quebrantões, Choupello e Gaya ella se dilata por um pequeno valle, que sendo ha um século sufficiente para abrangel-a, foi depois obrigado em razão dos seus progressos a permittir, que ella ultrapassasse aquellas barreiras naturaes, e se estendesse ao nascente até o Mosteiro da Serra, ao poente até o sitio do Cavaco, e ao sul alé o Senhor do Padrão, distante da praia quasi meia legoa.

Passage of the Douro [travessia do Douro em Avintes, 12 de maio de 1809].
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Attribuem-se a este Monte [Gaya] algumas antigualhas, que com razão merecem ser notadas:
— l.a que sobre elle fundaram os Romanos o antigo castello de Cale 

— 2.a que n’elle fora martyrisada Santa Liberata, ou Wilgefort, uma das nove Santas Irmãs gemeas — 3.a o rapto da Princeza Zahara, por El-Rei Ramiro 2.° de Leão. no anno de 932.

Pelo que toca á primeira, não padece duvida ser Cale do tempo dos Romanos, como se prova do itenerario de Antonino na via militar, que de Lisboa sahia para Braga, a qual segundo o padre Argote, Castro e outros, era do modo seguinte: 

Nome antigo: Jerabrica, Scalabim, Cellium, Conimbriea, Eminium, Talabrica, Langobrica, Cale, Brachara;
Nome novo:
Alemquer, Santarém, Crice, Condeixa a Velha, Agueda, Aveiro, Feira, Gaya, Braga;
Pés geométricos: 30#, 32#, 32#, 34#, 40#, 10#, 18#, 13#, 35#.


Da palavra Cale junta á de Portus se derivou depois o glorioso nome de Portugal, e o castello de que ainda ha vestígios, foi no tempo do Snr. D. João 1.° arrazado pelos Portuenses, escandalisados das depredações que a sua guarnição fazia. 

ADDITAMENTO.

Foram agora totalmente apagados os vestígios deste antiquíssimo castello [de Cale]. Depois que D. Pedro, Duque de Bragança, tendo desembarcado com o Exercito Libertador nas praias do Mindello, em 8 de Julho de 1832, e entrado na Cidade do Porto no dia 9 do mesmo, para o fim de collocar no Throno sua Filha a Senhora D. Maria 2.a , conheceu que tinha de luctar com uma resistência forte da parte das tropas de seu Irmão D. Miguel, as quaes elle tinha erradamente supposto que ao  se lhe uniriam, logo que chegasse a Portugal, cuidou sem demora em fazer levantar uma linha de fortificação á Cidade do Porto, para se refugiar n’ella, e esperar alli a sorte das armas; porque achava n'aquella Cidade as melhores e mais favoráveis disposições, o amor e dedicação dos seus habitantes, e abundancia de todos os recursos, necessários ao seu projecto de revindicar pela força os direitos que seu Irmão lhe havia usurpado.

Narrative of the expedition to Portugal in 1832
under the orders of His Imperial Majesty Dom Pedro Duke of Braganza.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Por quanto D. Miguel recusando o consorcio com sua Sobrinha, pactuado no contracto de Vienna d’Austria, em virtude do qual tinha regressado do seu exilio em 22 de Fevereiro de 1828 com o titulo de Logar-Tenente e Regente do Reino, que D. Pedro lhe conferira pelo decreto de 3 de Julho de 1827, se fizera acclamar Rei, e occupava n’essa qualidade o throno de Portugal, a que o elevaram os Tres Estados do Reino — Clero, Nobreza e Povo — convocados por elle em cortes na Cidade de Lisboa, nas quaes decidiram pelo seu acto de 25 de Julho de 1828 em favor delle a questão da successão ao Reino por morte de seu pai D. João 6.°, fundando-se para isso no direito publico portuguez, estatuido nas cortes de Lamego de 1143, e nas de Lisboa de 1641.

Plano topographico da cidade do Porto impresso em Londres em 1813, e continuado aos seus suburbios em 1832 (detalhe). Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Porém como este governo se fizesse depois muito odioso pelos seus actos tyrannicos e sanguinários, tão contraditórios com as idéas do século presente, com o seuso coramum, e com o actual systema governamental da Europa, indispoz de tal modo contra elle toda a Nação Portugueza, que esta de bom grado se uniu á causa de D. Pedro, a quem anciosamente esperava, para se libertar d’aquelle jugo, e só desejava a melhor opportunidade, em que podesse dar uma demonstração publica dos seus sentimentos.

Plano topographico da cidade do Porto impresso em Londres em 1813, e continuado aos seus suburbios em 1832 (detalhe). Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


Assim, tractou-se logo de dar principio ao plano de fortificações; e para esse fim. foram escolhidas em Villa Nova de Gaya as duas eminências mais salientes de Gaya e Serra do Pilar, como pontos capitaes para a defeza da Cidade do lado do sul.

Convento da Serra do Pilar em Vila Nova de Gaia, James Holland, 1838.
Imagem: Palácio do Correio Velho

Para logo se começaram em ambas os referidos trabalhos, que continuaram com grande actividade na Serra do Pilar, que foi reputada — ponto militar de primeira ordem, ao contrario no castello de Gaya, o qual, conhecendo-se depois, que era roto, ou flanqueavel, foi abandonado, e arrazadas todas as obras alli começadas — ficando-lhe só o nome de Castello, que nunca perdeu, porque este nâo lhe vinha do facto presente, mas de outros suc- cedidos em éras muito remotas.

Gaia, Convento da Serra do Pilar visto do Aqueduto do Sardão, Gualtieri.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

No decurso deste memorável cerco, que as tropas de D. Miguel pozeram á Cidade do Porto, e que tendo começado no dia 8 de Setembro de 1832, só foi levantado em 18 d'Agosto de 1833, como ellas recebessem gravissimo damno das baterias da Serra, cuidaram em fazer um reducto no dito Castello com o duplicado fim de neutralizar os effeitos deste baluarte, e ao mesmo tempo atacar a Cidade por aquelle lado, e de um ponto mais immediato. 

Conhecido o projecto, tractou-se logo de fazer callar aquelle reducto, o que se conseguiu, assestando baterias do lado Meridional da Cidade, e nos pontos mais proximos e fronteiros do mesmo reducto; e estes foram o Paço do Bispo, o largo das Virtudes e o alto da Victoria.

Com effeito, estas dirigiram sobre o castello um fogo tão vivo, e aturado, que produziu alli a mais cruel matança, a ponto de lhes ser necessário sortear cada dia os artilheiros, de que se compunha a sua guarnição, que d'outro modo recusavam prestar-se a tal serviço: até que por fim cançados já de tanto estrago de gente e munições, e desenganados também , que debalde esperavam o supposto resultado, abandonaram aquelle ponto cornpletamente.

Gaia Panorâmica da parte marginal de Gaia, Gonne, Jennings, (1830-1831).
Imagem: Porto, de Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias

Depois da guerra, reconstruiram-se alli as casas, que ella destruiu; e edificaram-se outras: e o campo em que se tinham dado casos pró e contra a Cidade do Porto, e aonde existira aquelle celebre e antigo Castello, mais antigo que ella, foi finalmente vendido e reduzido á cultura.

Perspectiva das margens do Rio Douro subindo-se para a Cidade do Porto, G. Kopke dei. Porto, 1827.
View of the banks of the River Douro on approaching the City of Oporto C G. Hammer sculp. Dresden.
Imagem: Royal Museums Greenwich

Este campo é hoje propriedade do Illm.° José Pinto da Costa, natural d’esta Villa, seu terceiro possuidor. 

Emquanto á 2. a antigualha, ainda não se tendo por apocripho aquelle maravilhos do parto, creio que o martyrio da Santa, no dito sitio, merece tanto credito, como o que dá o padre [Daniel] Papebroquio a certa relíquia singular, que em seu tempo se mostrava na cathedral d'Antuérpia, e de que o leitor póde ver o nome (que calo por modéstia) no diccionario dos homens illustres da edição de 1804 — verbo Papebroquius. 

A courier from Lisbon to Oporto, James Murphy, 1797.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Pelo que respeita á 3.a finalmente julgo-a da mesma tempera, que a 2. a , apesar de a referirem A. A. graves, e com mais extensão, que nenhum, a nóssa celebre portuense D. Bernarda Ferreira de Lacerda, no seu poema da Espanha Libertada. T. 1. ° Cant. 6. °. (1)


(1) TOPOGRAPHIA E HISTORIA DE VILLA NOVA DE GAYA [...]
OFFERECIDA A S. A. REAL O PRÍNCIPE REGENTE N. S. POR
João Antonio Monteiro d'Azevedo
[...] agora grandemente accrescentada com extensos additamentos [...] que foi até o anno do 1832,
e o que he actualmente POR
Manoel Rodrigues dos Santos
Natural da mesma Villa
PORTO - 1861