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sábado, 1 de janeiro de 2022

Marialva por Beckford (a Quinta da Praia)

E estamos a bater à porta, digo, a passar no local onde existiu o palácio da Quinta da Praia, hoje demolido por completo, pertença que foi dos condes de S. Lourenço, dos Marialva e por fim dos Loulé, que o venderam ao Estado. A Provedoria da Casa Pia ali esteve instalada e, quando dos Centenários, algumas repartições correlativas.

The view of the city of Lisbon (detalhe), C. Lemprière, publ. 1756.
Cabral Moncada Leilões

Foi rico de recheio e com aspecto exterior interessante. Aqui se teria desenrolado a curiosa cena do regresso duma romaria da Outra Banda, nos seus tempos áureos (...) (1)

Entrada a noite, as luzes brilharam nas torrinhas, nos terraços e em todos os pontos da estranha agglomeração de edificações, que compõem este palácio amoiriscado: metade da familia recitava as ladainhas dos santos, a outra divertia-se com extravagâncias e travessuras, talvez pouco edificantes, e o staccato monótono das guitarras, acompanhado pelo murmúrio abafado e suave das vozes femininas, cantando modinhas, formava uma singular mas não desagradável harmonia.

The view of the city of Lisbon, C. Lemprière, publ. 1756.
Cabral Moncada Leilões

Estava eu escutando-a com avidez, quando o clarão dos archotes e o rumor da agua batida pelos remos nos chamou às varandas, a tempo de vermos uma procissão raras vezes egualada desde o tempo de Noé!

Duvido que a sua arca contivesse uma collecção de animaes mais heterogénea do que a que saiu dum escaler de cincoenta remadores, que acabava de pôr em terra o velho marquez de Marialva e oseu filho D. José, acompanhados duma multidão de músicos, poetas, toireiros, lacaios, macacos, anões o creanças de ambos os sexos, phantasiosamente vestidas!

William Beckford em 1782 por Joshua Reynolds.
National Portrait Gallery

Todo aquelle bando, creio eu, voltava d'uma romaria á capella dalgum santo no outro lado do Tejo. O primeiro que saltou foi um anão corcunda, que fazia uma chiadeira infernal numa gaitinha dum palmo de comprimento; seguiam-se depois dois servilôes parasitas apparentemente commandados por um velho de uniforme muito usado, e de aspecto singular e fanfarrão, que me disseram ter militado como brigadeiro numa ilha qualquer.

A Barataria que ella fosse, Sancho tel-o-ia mandado tratar da sua vida. porque, a dar credito á chronica escandalosa de Lisboa, poucas vezes se tem visto um truão, um parasita e um gatuno mais impudente do que elle! No encalço d'estes caminhavam um emproado e asselvajado monge, tão alto como Sansão, e dois frades capuchinhos, ajoujados não sei com que espécie de provisões.

Quinta da Praia em segundo plano, ao centro, em Henri L'Évêque, Vista do Convento de Sto Jerónimo de Belém e da Barra de Lisboa (detalhe).
ComJeitoeArte

Vinha em seguida um magro e pallido boticário, todo vestido de preto, correspondendo completamente no trajo e no porte á figura que imaginamos do "Señor Apuntador", do Gil Blas, e após este vinha um improvisador meio tonto, disparando-nos versos, quando passou por baixo das varandas donde estávamos vendo desfilar o cortejo.

Era quasi impossível ouvil-o por causa do confuso tropel de barqueiros e creados com gaiolas de pássaros, lanternas, cabazes de fructa e grinaldas de flores, que vinham alegres e saltando, com grande gáudio dum bando de creanças, as quaes, para parecerem mais habitantes do ceu do que a natureza as fizera, traziam umas azinhas transparentes presas aos seus hombros cor de rosa.

Alguns destes anjinhos de theatro eram extremamente formosos, e tinham o cabello garridamente disposto em armeis. O velho marquez gosta d'elles doidamente; vivem com elle noite e dia, dando-lhe tudo o que a frescura e a innocencia pode offerecer a uma organisação decadente.

Henri L'Évêque, Vista do Convento de Sto Jerónimo de Belém e da Barra de Lisboa.
ComJeitoeArte

O patriarcha dos Marialvas tem seguido este regimen ha muitos annos, e também alguns outros quasi incriveis. Dotado d'uma facilidade mais que romana de devorar uma immensa profusão de manjares, e de fazer legar a novo supprimento, janta todos os dias sósínho, ladeado por dois cangirões de prata de extraordinária grandeza.

Ninguém em Inglaterra me acreditaria, se eu descrevesse o enorme banquete que vi disposto para elle; mas deixae a vossa imaginação perder-se em tudo o que se tem imaginado em matéria de voracidade, que íí este caso ella ainda ha de ficar abaixo da realidade! Apenas o conteúdo animal e vegetal do escaler grande e de três ou quatro faluas da comitiva ficou depositado nos seus respectivos cubículos, recantos e poleiros, recebi um convite do velho marquez para merendar com elle no seu quarto.

D. Pedro, 4° Marquês de Marialva, por Domingos A. Sequeira.
Lisboa Revista Municipal n° 20, 1987

Näo eram menos, com certeza, de cincoenta, os creados que nos esperavam, e além de seis brandões de cera, que por ceremonia nos iam alumiando, mais de cem círios de differentes tamanhos ardiam nas salas, onde brazeiros de prata e cassoletas espalhavam no ar um delicioso perfume.

O senhor de todas estas magnificências pareceu-me muito cortez, affavel e insinuante. Ha uma tal urbanidade e bom humor no seu olhar, nos gestos, e no timbre da sua voz, que nos predispõem logo em seu favor e justificam a popularidade universal de que gosa, e o affectuoso nome de Pae, que lhe dá muitas vezes a Rainha e a Família Real. Os favores da coroa tèem chovido sobre elle aos montões. no presente e nos anteriores reinados -uma corrente de prosperidades não interrompidas mesmo durante o grão-visiriato de Pombal!

"— Proceda como julgar mais acertado com o resto da minha nobreza — costumava dizer o rei D. José ao seu temido ministro — mas guarde-se de se intrometter com o marquez de Marialva."

Palácio dos Marqueses de Marialva às Portas de Santa Catarina.
Não realizado, este projecto propunha reerguer o antigo palácio seiscentista dos Marqueses de Marialva, junto das Portas d Santa Catarina, que sofrera ruina e incêndio na sequência do terramoto de 1755.
A Casa Senhorial

A esta decidida predilecção deveu o palácio de Marialva tornar-se em muitos casos um ponto de reunião, um asylo dos opprimidos, e o seu senhor, em mais duma occasião um escudo contra os raios de tão poderoso ministro. Ainda parece estar viva a memoria d'esses tempos, porque era digno de se notar o respeito cordeal e a filial adoração, que vi tributar ao velho marquez.

EST.  II.
Dos potros no campo.
Manoel Carlos de Andrade, Luz da liberal, e nobre arte da cavallaria (1790)

Obedeciam aos seus mais leves acenos, e as pessoas a quem elles se dirigiam mostravam-se gratas e animadas: os seus filhos, o marquez de Tancos e D. José de Menezes, dobravam o joelho sempre que se approximavam delle para lhe offerecer alguma coisa, e o conde de Villa Verde, o herdeiro da grande casa de Angeja, tanto como o vice-rei do Algarve, faziam circulo de pé com os outros em volta d'elle, acolhendo uma palavra graciosa ou affavel com o mesmo reconhecido interesse de cortesãos pendentes dos sorrisos e do favor do seu soberano.

EST.  LXXVIII.
Do  Excellentijfimo  Marquez  de  Marialva,  formando  hum  Cavallo  na
acção  das  Garupadas  para  a  direita.
Manoel Carlos de Andrade, Luz da liberal, e nobre arte da cavallaria (1790)

Lembrar-me-hei por muilo tempo das gratas impressões que me deixou esta scena de reciproco affecto : parecia uma troca mutua de sentimentos cordeaes — beneficência distribuída sem calculo nem affectação, e protecção recebida sem malévolo ou abjecto servilismo.


Quam preferível é um governo patriarchal como este ás frias theorias que pretendem estabelecer alguns sophistas pedantes, e que, se elles conseguissem realisar os seus impios desvarios, solapariam rapidamente os melhores e mais seguros esteios da sociedade.

Panorâmica da linha de costa e Torre de Belém no início século xx.
Arquivo Municipal de Lisboa

Quando os paes deixam de ser honrados pelos seus filhos, e as édades e as condições, que carecem de protecção, desconhecem os sentimentos de grata sujeição, os reis cessarão em breve de reinar, e as republicas deixarão de ser governadas pelos conselhos da experiência; a anarchia, a rapina e a carnificina devastarão a terra, e a morada dos demónios mudar-se-ha do inferno para o nosso desgraçado planeta. (2)


(1) Olisipo n. 102, abril de 1963
(2) A côrte da rainha D. Maria I. Correspondencia de William Beckford

Mais informação:
Pedro José de Alcântara de Meneses Noronha Coutinho (1713-1799) (Wikipédia)
O Palácio que desapareceu 2 vezes
Manoel Carlos de Andrade, Luz da liberal, e nobre arte da cavallaria (1790)

Manoel Carlos de Andrade, Luz da liberal, e nobre arte da cavallaria (1790) (Wikipédia)
Manoel Carlos de Andrade, Luz da liberal, e nobre arte da cavallaria (1790) (1ª Parte das gravuras)
Manoel Carlos de Andrade, Luz da liberal, e nobre arte da cavallaria (1790) (2ª Parte das gravuras)

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

O Porto de Lisboa por Alexandre-Jean Noël

De acordo com o título, foi tirada "do centro do porto, entre o Monte Santa Catarina e a Villa de Almada, a bordo do navio de Guerra S. Sebastião*". 

The Harbour of Lisbon, Alexandre-Jean Noël.
British Library

Como em todas as vistas de Noël, o primeiro plano é preenchindo por detalhes anedóticos e pitorescos: marinheiros no seu trabalho num pequeno navio ao lado de um barco a bordo do qual alguns homens em trajes orientais fumam. 

The Harbour of Lisbon (detail), Alexandre-Jean Noël.
British Library

Outro grupo de marinheiros bebe e come uvas, passageiros são transportados numa embarcação e um casal dança sobre uma balsa, entre homens que tocam viola e outas pessoas que observam, incluindo uma criança. 

The Harbour of Lisbon (detail), Alexandre-Jean Noël.
British Library

Num pequeno barco amarrado à balsa, um homem dorme, possivelmente embriagado, enquanto que o seu companheiro trajando capuz [religioso] e tonsurado continua a beber de uma malga. 

The Harbour of Lisbon (detail), Alexandre-Jean Noël.
British Library

A Praça do Comércio com a estátua equestre do rei D. José I pode ser vista no fundo, à direita. Edifícios em ruínas e dois guindastes aparecem como recordações da destruição causada pelo terramoto de 1755, do qual a cidade não recuperou completamente. (1)

The Harbour of Lisbon (detail), Alexandre-Jean Noël.
British Library

Espalhadas por entre as vistas da "Topographical Collection" de George III [British Library], há três gravuras assinadas por François Allix (c. 1753-1794) que pertenceram à mesma fracassada série  de "Spanish and Portuguese ports". 

Estas vistas de Cádiz, Cartagena e Lisboa segundo desenhos de Alexandre Jean Noël (1752-1834) foram publicadas entre 1788 e 1790. Não são datadas, mas, de acordo com dois anúncios no Journal de Paris, as vistas de Cádiz e Lisboa apareceram em 20 de novembro de 1788, enquanto a vista de Cartagena não foi publicada até junho de 1790. (2)

Lisboa Arte Gravura The Harbour of Cádiz Alexandre Jean Noel 1796 British Library 01.jpg

A informação de uma pretendida "Collection des Ports d’Espagne et de Portugal" apaceu no anúncio das primeiras duas vistas publicadas no Journal de Paris em 18 de novembro de 1788.

De acordo com esta fonte, a série seria a continuação de "the collection of views of Ports of France, engraved by M.M. Cochin & le Bas, after the paintings made for the King by M. Vernet." cobrindo toda a Europa. O projecto teve a benção de Claude-Joseph Vernet (1714–1789), que tinha já recomendado o seu antigo aluno Noël para acompanhar a expedição científica de Jean Chappe d’Auteroche ao México e Baja California. Mais ainda, os trabalhos de Noël seriam riscados e gravados por François Allix, que estudara sob Jacques-Philippe Le Bas (1707–1783).

Lisboa Arte Gravura The Harbour of Cartagena Alexandre Jean Noel 1796 British Library 01

O anúncio explicava que Noël tinha viajado em Espanha e Portugal entre 1780 e 1782.

Ele, provavelmente, incluiu-se nas vistas de Cádiz e Cartagena como o desenhador acompanhado pelo cão e pelo assistente segurando um portfolio de maneira a dar ênfase aos seus trabalhos desenhados no lugar.

Lisboa Arte Gravura The Harbour of Cádiz Cartagena Alexandre Jean Noel 1796 British Library (detalhe).psd

Os "Portos" apelariam a ambos, gosto e intelecto, através do "agradavel ar de verdade" garantido pelas credenciais científicas do pintor e pela sua escolha de cenas "belas" e "pitorescas" [...]

Não foram encontradas até hoje mais vistas da série. Uma das razões possíveis para o fracasso da empresa de Noël pode ter sido a falta de tempo.

The Harbour of Lisbon (detail), Alexandre-Jean Noël.
British Library

O conde de Fernán Núñez deixou o seu posto de embaixador espanhol em Paris em 1791 como consequência da Revolução Francesa, Allix morreu durante o Terror em 1794 e Noël parece ter partido para o exílio em Portugal cerca de 1791 [v. B. Madeira, A Emigração Francesa em Portugal durante a Revolução, Lisboa, 1984, pp. 19–20]. (3)
* S. Sebastião" (1767-1832) — Nau de 64 peças que foi lançada à água no Rio de Janeiro em 8 de Fevereiro de 1767. Tomou parte na expedição a Roussillon em 1793 e na campanha do Mediterrâneo de 1798 a 1800 em socorro da Inglaterra.
Em 1832 foi desmanchada por inútil.
cf. Cmdt. António Marques Esparteiro, Catálogo dos navios brigantinos (1640 - 1910)

(1) Mercedes Cerón, Alexandre Jean Noël's collection of Spanish and Portuguese ports (1788–1790)
(2) Idem
(3) Idem, ibidem

Artigos relacionados:
em Eventualmente Lisboa e o Tejo;
em Almada virtual.