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sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Irmãos desavindos (I de III)

Pelo que toca aos dois irmãos, Pedro e Miguel, o capricho da má fortuna accentua-se salientemente no facto de um, o vencedor, ter morrido logo após a victoria, e o outro, o vencido, ter sobrevivido á derrota durante longos annos de exilio. (1)

Kssssse! Pédro - Ksssse! Ksssse! Miguel! 
"Ces deux capons là ne feront jamais grand mal"
Honoré Daumier, 1833
Biblioteca Nacional de Portugal

Parafraseando uma luta de galos, com a legenda: "Kssssse! Pédro - Ksssse! Ksssse! Miguel! Estes dois capões (galos castrados) nunca farão grande mal", na gravura de Daumier aparecem, D. Pedro apoiado pelo rei dos franceses, Louis-Philippe (regime parlamentar) e D. Miguel, apoiado pelo csar Nicolau I° da Russia (autocrata).

(1) Alberto Pimentel, A ultima côrte do absolutismo em Portugal, Lisboa, Liv. Férin, 1893

Ligações:
D. Pedro IV (1798-1834), Google Arts & Culture
D. Miguel I (1802-1866), Arquivo Municipal do Porto
Miguel (D.), Dicionário histórico

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Irmãos desavindos (II de III)

Comtudo, mesmo assim os realistas sustentavam o combate, e ainda depois de alguns tiros de artilheria e descargas de fusilaria mandou Telles Jordão dar uma segunda carga de cavallaria; foi porem esta mais infeliz do que a primeira, porque grande parte dos cavalleiros foram aprisionados ou se entregaram, assim como quasi toda a artilheria. Immediatamente se introduziu o panico na divisão, e principiou a desorganizar-se. Uns renderam-se, outros fugiram para o interior da Outra-Banda, e para o castello d'Almada, que se entregou no dia seguinte ás 7 horas da manhã, e o resto começou a retirar sobre Mutella.

Bailarico em Cacilhas
(possível original de A. E. Hoffman sobre a celebração da vitória liberal de 1833, c. 1835)
Alberto de Souza, Alfacinhas, Os Lisboêtas do passado e do presente, Lisboa
edição de Fernando Souza
.

Ora, proximo desta povoação, justamente d'onde parte a estrada para Almada, havia uma cortadura com artilheria. Ahi fez Telles Jordão alguma resistencia; mas sendo vencido, tomou pela estrada fóra com o grosso da columna em direcção a Cacilhas, sempre perseguido pelas tropas do duque, que o não deixavam resfolegar um só instante.

Quando isto acontecia viu-se cortarem o ar alguns 4 foguetes, cujo estrepito se confundia como tiroteio, mas que não escaparam ao gordo capitão, commandante dos voluntarios (realistas) de Cintra (major João António da Moita), que retirava no meio de uns 30 dos seus; o resto tinha ficado estirado no campo.


Ao ouvil-os, o capitão olhou para um atentado sargento que o acompanhava, o qual lhe fez um ligeiro aceno de cabeça. O capitão correspondeu-lhe com outro e disse comsigo: "É meu irmão. Ah excellente irmão!" — Ávante, bradou elle, sacudindo a cabeça, como se quizesse afastar as balas que lhe zumbiam aos ouvidos.


A retirada quasi se tornou em debandada. Telles Jordão lá ia com os restos da sua divisão, com o inimigo na rectaguarda sem lhe dar descanço, e perdendo immensa gente, até que chegando junto do poço de Cacilhas tentou fazer alto e resistir desesperadamente, para proteger o embarque que tinha começado; mas não conseguiu senão demorar o inimigo um momento.

Então outros foguetes romperam os ares, e bem os percebeu o capitão de Cintra. Telles Jordão olhou em roda de si desorientado, e de todos os seus officiaes só viu o gordo cintrão com a gola da farda de todo aberta, e cheia do sangue que lhe corria de uma leve ferida na face.

Cacilhas vista do Tejo, gravura xilográfica, João Pedroso, 1846
O Panorama, n° 18, 1847
Hemeroteca Digital de Lisboa

— General! disse-lhe o capitão baixando a voz e rodeando-o com o seu magote de realistas. Temos feito o nosso dever, mas tudo está perdido. Meu pae foi seu camarada e amigo, quero salval-o. A meio da rua de Cacilhas ha uma casa deshabitada. Meu irmão está ali e espera-me. Já duas vezes me fez signal com foguetes. Venha comigo e está salvo.
— Sr. capitão! respondeu o general. O meu dever era matal-o por me propôr que fuja; mas seria uma grande ingratidão, porque as suas intenções são de um leal amigo, que se portou hoje como bravo. Salve-se, que eu fico.
— General, venha comigo! Á noite estaremos em Lisboa. Pelo triumpho da boa causa lhe peço que me acompanhe!
— Não.
— Por Deus e pela boa sorte da sua familia!... Ao menos renda-se.
— Desgraçado! E pensa que me poupavam a vida?!...


Neste momento a multidão levou-os para junto da casa.

— Uma ultima vez lhe peço, general — disse o capitão com as lagrimas nos olhos — siga-me. Mas aquelle homem de ferro cravou os olhos no capitão e disse:
— Não, mil vezes não. Ou hei de ser o ultimo a embarcar com a minha tropa, ou hei de morrer. O capitão calou-se, deixou pender a espada do fiel e gritou — Alto! Os cintrões pararam, e enfileiram-se ao longo da parede, ficando atras d'elles o seu capitão. Então abriu-se uma porta e tomou-se logo a fechar, tendo por ella desapparecido o gordo official. — Armas no chão! disse o sargento para os seus voluntarios.


Dentro da casa, o piloto do Conceição Flôr de Maria abraçava seu irmão — Estás ferido! gritou elle assustado, vendo á luz de uma lanterna o sangue que lhe manchava todo o pescoço e gola da farda. — É uma ferida leve na face. — Toca para o esconderijo! diz (Joaquim de Jesus, por alcunha) Espanta-maridos, porque era elle quem tinha deitado as foguetes, correndo, não sem perigo de vida, pelas quintas proximas á estrada.

A casa toda fechada só era alumiada pela lanterna de Espanta-maridos. No interior havia um quarto que tinha por cima um sotão para onde se subia por escada de mão. Subiram todos tres, recolheram a escada, e deixaram cair o alçapão, ficando o tecto tão regular que não era possivel perceber que por cima havia aquelle esconderijo.

— Estamos seguros — disse Espanta-maridos. Nem o diabo aqui dava comnosco.
— E depois? perguntou o capitão limpando a ferida.
— Depois, respondeu-lhe o irmão, Espanta-maridos descerá em estando tudo acabado, irá pela estrada ao Caramujo, achará o escaler na praia, remará para uma pequena enseada proxima ao Pontal e levar-nos-ha para bordo do Flôr de Maria.
— Eia, o que lá vae fóra! Exclamou o capitão aproximando-se de uma fresta, que só podia ser vista do telhado, mas d'onde se podia ouvir distinctamente o rumor do combate.


Os cintrões tinham-se entregado. Telles Jordão continuou a marchar no meio dos fugitivos até ao cáes.

Ali, coadjuvado pelos soldados de que o forte de Cacilhas estava cheio, e que faziam fogo dos parapeitos, quiz metter em ordem os que o seguiam; mas o inimigo estava junto d'elle, de tal sorte que, alucinado, dirigiu-se a dois officiaes de caçadores contrarios, cuidando que eram dos seus, e gritando-lhes: — Que vergonha esta, srs. officiaes! Ajudem-me a formar estes miseraveis carneiros! Começava a escurecer, e os officiaes, que o não conheceram, e que estranharam a ordem, perguntaram-lhe quem era.

Infelizmente para elle, respondeu: "Sou Telles Jordão. Pois já não conhecem o seu general!..." Então um dos officiaes disparou-lhe uma pistola á queima-roupa, o outro acutilou-o, e uni cabo trespassou-o com a baioneta.


O general, ferido mortalmente, inclinou-se para trás, e caiu desamparado sobre a lage. Estava tudo acabado. O forte da praia entregou-se logo, bem como a pouca tropa que ainda resistia sobre o cáes, e alguns tiros de artilheria, dados com as proprias peças do inimigo, fizeram render os ultimos barcos cheios das suas tropas que fugiam fazendo fogo.

23 de julho de 1833 — Derrota dos Miguelistas em Cacilhas
Cartas das vitórias liberais, litografia Manuel Luiz, 1835
Biblioteca Nacional de Portugal

Já noite fechada, o corpo de Telles Jordão, todo crivado de feridas e com a cabeça horrivelmente mutilada, foi arrastado para fóra do cáes de Cacilhas, e ahi enterrado na areia. E no outro dia o Tejo mandava á praia os cadaveres de muitos soldados, que haviam caido no rio ao embarcarem, e tinham morrido afogados.

Quando Espanta-maridos chegou ao Caramujo, foi testemunha de uma dolorosa scena, que lhe causou vivissima dor, e que o demorou alguns momentos mais do que elle pensava.

A familia de Antão Diniz, acompanhada de Chrysostomo, Jeronymo, e Pedro Marques de Faria, tinha estado com o oratorio aberto, rezando porque Deus valesse a tão grande calamidade, quando para o fim do combate, uma bala perdida, partindo um vidro da janella, entrou no quarto, e foi atravessar o peito ao Faria, que encostado a uma cadeira espreitava para a rua.

Tocando-lhe a bala o coração, a morte foi instantanea; e effectivamente a casa do oratorio de Antão Diniz encontrou-a Espanta-maridos convertida em camara funebre, não para o duque da Terceira, como um official miguelista tão desastradamente dissera, mas para um pobre velho completamente inoffensivo, e que nada tinha com as coisas da guerra. (1)


(1)  António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Irmãos desavindos (III de III)

No tempo da guerra civil, das lutas entre liberais e miguelistas, o avô materno (Antonio Feliciano Telles de Castro Aparício van Odyck), partidário de D. Miguel, e o irmão daquele, o tio José Dionísio (Telles de Castro Aparício van Odyck), fiel a D. Pedro IV, haviam gasto rios de dinheiro pelas respectivas causas, vendendo aqui, hipotecando além, fanáticos, apaixonados, adorando-se como irmãos, odiando-se como adversários políticos.

Em casa de Maria Maurícia Telles de Castro e Silva/Liberato Telles, c. 1910.
Fotografia de Ramon Bayó
cf. Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, freguesia de Cacilhas, 1987

Alternadamente no exílio, a caminho da América ou da Inglaterra o avô António Feliciano fizera as campanhas do Rio da Prata, o tio José Dionísio estivera em Plymouth com Palmela e daí embarcara clandestinamente para os Açores — haviam sido forçados a trocar vinho e cortiça por bolsas de libras que a mãe, a avó Ana Francisca (Telles de Castro Rolim van Odick), lhes mandava às escondidas por emissários embuçados e fiéis.

Uma vez, contava-o com orgulho, chegara mesmo a ir a bordo, disfarçada de vendedeira de ovos, levar dinheiro ao filho mais novo, passageiro clandestino de um veleiro, que, aclamado D. Miguel, ia esconder nos nevoeiros de Londres a sua amarga desilusão.

Depois, quando tudo serenara, quando, assinada a Convenção de Évora-Monte, D. Miguel embarcara para Génova, quando, por morte de D. Pedro IV, subira ao trono D. Maria II, amnistiando os presos políticos, pondo fim às lutas fratricidas, o avô António Feliciano enterrara-se na Quinta e procurava salvar os destroços do naufrágio.

O irmão, desiludido de uma liberdade que permitia desmandos e abusos de toda a espécie, declinou honras e favores a que tinha direito e refugiou-se igualmente na velha casa familiar.

Os dois irmãos, morta a paixão política, abraçaram-se e fizeram as pazes. Trataram então de desenterrar as pratas, de vender aqui para resgatar além, de percorrer a cavalo matas e olivais, de afirmar direitos sobre velhos foros, de visitar rendeiros e feitores.

A casa, desmantelada, começou a reviver, como árvore doente a que o sacrifício dalgumas ramadas restitui o vigor. Sem tornar a ser o que fora nos tempos de oiro da avó Ana Francisca, senhora de extensas matas de cortiça, a fortuna da casa parecera equilibrar-se, permitindo à família um desafogo, um bem-estar que havia muito não conhecia.

A casa cor-de-rosa, ilustração de Manuel Lapa, 1945, para o livro de Fernanda de Castro,
Maria da Lua, história de uma casa, 3.a edição, 1960, Livraria Tavares Martins
prémio Ricardo Malheiros, 1945

Voltaram então a ter carruagem, criados, mesa posta para amigos e parentes. Depois, a morte levara a avó Ana Francisca, e a fortuna, ainda mal refeita do abalo que sofrera, não resistira a desequilíbrio provocado pelas partilhas.

O tio José Dionísio, liquidada a herança, fora viver para a Beira, one a administração das propriedades da mulher exigia a sua presença. E o avô António Feliciano, que estava longe de possuir as qualidades de administrador do irmão — a prudência, a moderação, o equilíbrio — vira-se forçado a consentir o casamento da filha com o cunhado (Francisco Liberato e Silva), trinta anos mais velho, a fim de assegurar a educação dos quatro filhos varões, que destinara à carreira das armas.

Sem deixar de lamentar a mãe, casada aos dezasseis anos com um homem de quase cinquenta que nunca deixou de tratar por «tio», a tia Emiliana admirava secretamente aquele avò autoritário que, para salvar a casa, o prestígio do nome, não hesitara em sacrificar a filha.

No íntimo do seu coração, o avô era o seu modelo, o seu conselheiro invisível. «Que faria o avô, se fosse vivo?». E o avò, do fundo do seu silêncio, do alto do seu orgulho, não deixava nunca de lhe responder.

Naquela manhã, emoldurado de talha dourada, com o seu belo fardamento de lanceiros, olhou-a com uns olhos agudos e disse-lhe: — «Na nossa família nunca ninguém vendeu nada. Não comece a menina por vender o que não tem preço: a dignidade, o orgulho...» (...)

ooOoo

A sala onde se encontravam era a mais espaçosa da casa. Tinha duas janelas de peito e duas sacadas com grades verdes e cortinas de renda nas vidraças. Um piano de cauda, de camurças gastas, ocupava um dos cantos da sala. Uma alcatifa cobria o chão e abafava o ruído dos passos. Reposteiros de seda verde, puídos e desbotados, escondiam as portas.

Em casa de Maria Maurícia Telles de Castro e Silva/Liberato Telles, c. 1910.
Fotografia de Ramon Bayó
cf. Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, freguesia de Cacilhas, 1987

Sobre as mesas, as consoles, as étagères, álbuns de retratos, jarras com flores de seda, miniaturas, bibelots de Saxe. A mobilia Império, hirta e rebarbativa, alternava com esses sofás, essas cadeiras, essas mesas sem estilo que o tempo nobilita, parentes pobres da casa, adoptados pelo hábito. Numa das paredes, um fogão de sala ladeado por duas poltronas de peluche verde. Na parede oposta, um espelho com a sua moldura de talha dourada.

Sobre a chaminé, um brasão bordado a oiro e a vermelho, caprichosa mistura de dragões e de flores de lis, e dois retratos a óleo: o trisavò Marechal e o avô miguelista que, no tempo do Senhor D. Pedro IV, andara a monte e tivera de emigrar para Inglaterra.

E, finalmente, junto de uma das sacadas, o «canto da avó», com a sua poltrona de molas cansadas e a sua mesa de profundas gavetas. (1)


(1) Fernanda de Castro, Maria da Lua, Lisboa, 1945

Artigos relacionados:
Maria da Lua (Conceição Lamosa)
Ao fim da memória
Liberato Teles
Ofélia

Leitura adicional:
Fernanda de Castro, Ao fim da memória,  Memórias (1906-1939), Porto, Verbo, 1986
Paula Morão, "'Ao Fim da Memória / Memórias' de Fernanda de Castro", Colóquio/Letras, n.º 181, Set. 2012, p. 102-116
Voies du paysage: représentations du monde lusophone cf. Fernanda de Castro, Ao fim da memória, Porto, Verbo, 1986

Informação adicional:
Antonio Feliciano Telles de Castro Aparício (Google search)
José Dionísio Telles de Castro Aparício (Google search)
Fernanda de Castro (Fundação António Quadros))
Revista Colóquio/Letras n° 98 (julho 1987)
Atlântico n.º 5, 1944, Maria da Lua, por Fernanda de Castro, duas ilustrações de Ofélia Marques



Fernanda de Castro (1900-1994) descreve-nos a casa pombalina da sua bisavó, Maria Maurícia Telles de Castro e Silva casada com Francisco Liberato e Silva [ref. no Arquivo Distrital de Setúbal], 2.° comandante da Guarda Municipal, pais de Francisco Liberato Telles de Castro e Silva (1842-1902), nascido em Cacilhas [v. artigo dedicado].

A autora nasce do casamento de Ana Isaura Codina Teles de Castro da Silva (1879-1914), filha de Liberato Telles, com João Filipe das Dores de Quadros (1874-1943), Capitão-Tenente da Marinha e Comendador da Ordem Militar de Avis.

Do casamento de Fernanda de Castro em 1922 com António Ferro, nasceram António Quadros, filósofo e ensaísta, e Fernando Manuel de Quadros Ferro. A escritora Rita Ferro é sua neta.

sexta-feira, 31 de março de 2023

Nau Rainha de Portugal (1791-1848)

Um dos dois quadros que representa a entrada da esquadra comandada por Napier após a Batalha do Cabo de São Vicente. Embora a legenda de ambas mencione o facto de Napier estar embarcado na nau Rainha de Portugal, na realidade ele estava na nau D. João VI. Ambos os navios integravam a esquadra miguelista antes da batalha.

Almirante Napier a bordo da nau Rainha de Portugal no Tejo, depois da sua vitória sobre a esquadra de D. Miguel em 1833. 
Museu de Marinha

Tanto a nau D. João VI como a nau Rainha de Portugal, se renderam à fragata homónima desta última, na qual se encontrava Napier. Após a batalha, a fragata Rainha de Portugal ficou em Lagos a reparar os estragos sofridos na batalha e Napier dirigiu-se para Lisboa, comandando uma esquadra que incluía as duas naus acima referidas.

Almirante Parker da Armada Real prestando honras ao Almirante Napier,
Comandante Chefe português, a bordo da Rainha de Portugal, no Tejo em 1833
Museu de Marinha

Ele veio embarcado na D. João VI, que anteriormente era o navio chefe da esquadra miguelista. (1)

A náo Rainha de Portugal, fabricada ern 1790, foi huma das mais bellas obras deste Constructor (v. Torquato José Clavina), tanto pelo seu grande andamento, como por sua elegante fôrma, e por outras boas qualidades que muitas vezes attrahirão a admiração dos estrangeiros.

Por duas vezes que esta náo foi aos portos da Grã-Bretanha, os constructores Inglezes lhe tiravão o risco, e as dimensões.

Scale: 1:48. Plan showing the body plan, stern board outline, sheer lines with inboard detail, and longitudinal half-breadth for 'Rainha de Portugal' (circa 1791), a Portuguese 74-gun Third Rate, two-decker, as taken off at Portsmouth Dockyard. Note that this ship was one of the Portuguese warships to escort the Portuguese Royal Family and Government to Brazil in 1807. Signed by Henry Canham [Assistant to the Master Shipwright, Portsmouth Dockyard, 1801-1813].
cf. Royal Museums Greenwich

A Rainha Senhora D. Maria I attendeo o merecimento deste Artista, concedendo-lhe o lugar e ordenado do seu antecessor, e condecorando-o com o habito da Ordem de N. S. J. Christo, Falleceo pelos annos de 1800. (2)

"Rainha de Portugal" (1791-1848) — Nau de 74 peças que foi lançada à água em Lisboa em 28 de Setembro de 1791. Entrou nas esquadras de socorro à Inglaterra em 1793,1794 e 1798-1800. Pertenceu a várias esquadras de guarda-costa. Era navio da esquadra que transportou ao Brasil a família real em 1807. Entrou no combate do cabo de S. Vicente em 5 de Julho de 1833, depois do que mudou o nome para Cabo de S. Vicente.

Sketch of Napier's glorious triumph over the Miguelite Squadron, George Philip Reinagle, 1833.
Biblioteca Nacional de Portugal

Em 1848 foi mandada desmanchar por inútil. (3)


(1) Museu de Marinha
(2) Bispo Conde D. Francisco, Lista de alguns artistas portuguezes..., Lisboa, 1839
(3) Cmdt. António Marques Esparteiro, Catálogo dos navios brigantinos (1640 - 1910)

Artigos relacionados:
Torquato José Clavina, constructor naval (I de II)
Nau D. João VI (1816-1852)
Batalha do Cabo de S. Vicente (5 de julho de 1833)

Leitura relacionada:
Os navios da Armada Real portuguesa em 1807, Revista da Armada n.° 413, novembro de 2007
O fim das naus e a Marinha da transição. Um Inquérito da Câmara dos Deputados (1853-1856)

Informação relacionada:
Modelos de navios existentes na Escola naval que pertenceram ao Museu de marinha, Lisboa, 1896
Cmdt. António Marques Esparteiro, Catálogo dos navios brigantinos (1640 - 1910)
O Recreio, jornal das familias vol. II, 1836
Royal Museums Greenwich: Rainha de Portugal' (circa 1791)
Nau "Rainha de Portugal", Revista da Armada n.° 14, novembro de 1972
Arquivo Histórico de Marinha: Nau Rainha de Portugal
Arquivo Histórico da Marinha: (pesquisa) Torcato José Clavina
A revolução industrial, Lisboa marítima e Marinha de Guerra, na obra de João Pedroso (1825-1890)
A marinha de guerra portuguesa desde o regresso de D. João VI a Portugal...

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Polacos da Serra

Finalmente um pouco de paz! Bem fez o Póvoas, que foi para as Caldas da Rainha tomar águas sulfurosas para restabelecer-se do susto que lhe mete o tal punhado de rotos que veio das ilhas!

Ah, não sabe ele a têmpera da nossa genica, nem tão-pouco do que é capaz a populaça do Porto e de Villa-Nova! Acho que os corcundas andam desvairados à nossa volta, instigados por um bando de fidalguetes de dois dias e convencidos pelos tratantes dos frades, que só desejam beber-nos o sangue...

Perspetiva do Convento da Serra do Pilar (detalhe), no dia 14 de outubro de 1832,
Joaquim Vitorino Ribeiro.

Museu Militar do Porto (fb)

E tantos infelizes por essas terras afora, de espingarda às costas e um saco com alguns cartuchos, seguidos por guerrilhas maltrapilhas de mulheres descalças que, de gigas à cabeça, esperam avidamente arrebatar o produto do saque… Felizmente, muitos vão sendo os soldados de 1ª linha que vêm das bandeiras da usurpação para o nosso exército, e garanto que todos eles são bem recebidos pelo Senhor Duque.

Os ataques às nossas baterias têm sido constantes, e não há dia em que D. Pedro não faça a ronda a todas elas, para ver os andamentos e garantir a perfeição das obras de defesa.

Ainda na terça-feira passada, dia 4, soube que Sua Majestade Imperial tinha ido ao Convento da Serra, bem cedinho, com o Sá Nogueira, o Pimentel e o Batista Lopes, examinar as baterias, as fortificações e os entrincheiramentos. E, graças ao Céu, tudo estava já bem adiantado.

Recordaçoes e uniformes do exercito liberal 1832-1834 (detalhe), AHM.
Portuguese Civil Wars (fb)

Foi a Providência divina... É que, logo depois, no sábado, começou um ribombar do arco da velha por aquelas bandas! Irra! Foram três dias a malhar o ar! Vou ficar mouco de tantos estouros de artilharia, homessa!

Tudo começou no dia 8, pouco depois das 8 da manhã, quando apareceu o inimigo que, do lado de Grijó, pela estrada da Bandeira, se dirigia em força sobre Villa-Nova.

Bernardo de Sá, seguindo ordens, foi para o Alto da Bandeira, onde já se encontrava um fogo muito vivo.

O nosso Batalhão 6º de Infanteria começou a sua retirada, tendo o Major Marcelli ficado gravemente ferido.

Minutos depois, o Governador Bernardo de Sá Nogueira foi atingido por uma bala de fuzil que lhe quebrou o braço direito. Aqui se viu o sangue-frio e a coragem deste homem, pois, sustentando com o braço são o que acabara de ser ferido, continuou impassivelmente a conduzir, a pé, a coluna, na melhor ordem, e na presença do inimigo que a seguia, por espaço de meia-légua, indicando os pontos que deviam ser ocupados, de maneira a flanquear a sua marcha, até que passou a Ponte das Barcas, a qual foi imediatamente levantada.

General Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo (1795-1876), Marquês de Sá da Bandeira.
Academia Militar

Mas os ataques continuaram.

Eu, que estava na bateria da Vitória, por volta das 10 horas da manhã, vi chegar o Senhor D. Pedro com o Estado-Maior e, logo ali, foram-nos ordenados diversos tiros sobre o inimigo da outra parte do rio, onde uma corja de 4 a 5 mil miguelistas vinham tentar ocupar o Convento da Serra.

Isto durou horas a fio! A verdade é que os corcundas conseguiram entrar pelo sítio da Eira, precipitando-se sobre as trincheiras. Pelos vistos, o nosso Major Fontoura, que conduzia o Batalhão de Voluntários de Villa-Nova, deixou que o inimigo entrasse com confiança e, depois, zás… rompeu o seu fogo, à queima-roupa, sobre eles.

Foi ajudado pela conduta briosa do Major Bravo (Comandante do Posto da Serra), do Major Moreira e do Tenente Santos. Eu nem queria acreditar que tal vitória tinha sido possível, já que eramos muito menos.

Modelos dos fardamentos militares dos voluntários
(Batalhão Móvel da Serra do Pilar),
António Cunha, 1835.
RTP Arquivos
Acho que é para sempre memorável o sangue-frio e a valentia com que neste ataque se conduziu o tal Batalhão de Voluntários de Villa-Nova (apesar de ser composto por mancebos que jamais tinham ido ao fogo…), bem como o nobre patriotismo que, por esta ocasião, se desenvolveu nos heroicos habitantes de Villa-Nova, os quais, abandonando as suas casas e famílias, correram ao Convento a pedir armas e, em número de trezentos valentes, foram ajudar a combater os inimigos.

E os oficiais e os marinheiros do Açor, — um brigue-escuna ancorado junto à Praia de Villa-Nova —, foram igualmente muito importantes, ao impedir que o inimigo entrasse nas casas daquela vila.

Até as nossas mulheres já não receiam o estampido dos tiros, nem estremecem com o assobio das balas, antes acodem às trincheiras a distribuir alimento aos soldados, a animá-los e a enchê-los de bênçãos e elogios!

Ontem, domingo, dia 9, voltou a haver tiroteio no Convento. O Bernardo de Sá Nogueira ficou internado no Quartel da Batalha, mas sempre a dar ordens e a despachar editais...

Disseram-me que lhe amputaram o braço! Um homem daqueles não merecia isto! Tem ele uma alma a que não perturbam os padecimentos do corpo!


E, ainda durante o dia de hoje, não deram os rebeldes descanso à Serra do Pilar. Mas acabaram por desistir da empresa. E logo os nossos mandaram tocar os sinos a anunciar a vitória… Sei que, do lado de Villa-Nova, os miguelistas lançaram algumas bombas, das quais só três atingiram o Porto. E, curioso é que, a única que fez estragos foi cair precisamente na casa da filha do grande miguelista Visconde de Peso da Régua, ali para os lado da Sé...
 
As Festas da Liberdade no Porto — Veteranos da Liberdade que tomaram parte no préstito in O Occidente, 1883.
Hemeroteca Digital

Outra, atingiu de raspão a mais formosa das madres de Santa Clara, quando todas elas vieram à janela para melhor ouvir os sinos da Serra, que pensavam tocar a anunciar a vitória dos corcundas…Terá sido castigo? Já não escrevo mais hoje, pois ainda caio de sono...

Mas antes de dormir, ainda vou demolhar o bico em vinho fino e regalar-me com um queijo Chester que comprei há dias na Rua das Hortas...


João Pataco, soldado liberal (1)

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Museu Militar de Lisboa: Sala Campanhas da Liberdade

Ao centro do tecto, alegoria às Campanhas da Liberdade; é trabalho de Columbano; aos lados os retratos de Saldanha, Terceira, Sá da Bandeira e D. Pedro IV. Uma das paredes é quase toda revestida por uma primorosa tela de Veloso Salgado: A Pátria coroando os heróis da Liberdade.

Pátria coroando os seus heróis ou Apoteose dos Heróis da Liberdade, Veloso Salgado, 1904.
Museu Militar de Lisboa, Sala das Lutas Liberais
(ex Sala das Campanhas da Liberdade, ex Sala D. Pedro IV).
No primeiro grupo à esquerda, vê-se D. Pedro IV, o Duque de Saldanha, o Duque da Terceira, Sá da Bandeira, Conde das Antas, José Jorge Loureiro e o Marquês de Fronteira, em gloriosa cavalgada, avançando imponentes, marciais, enérgicos. Um marinheiro da Armada destaca-se da multidão ovante, sem receio de ser atropelado e corre alçando a bandeira bicolor desfraldada. No segundo grupo, ao centro do quadro, Mouzinho da Silveira, em atitude reverente de pôr aos pés da Pátria as suas providências legislativas, tem por companheiros o Duque de Palmela, José da Silva Carvalho, Almeida Garret e outros eminentes, que contribuíram para a implantação do regime constitucional. Tomam parte no cortejo deslumbrante, um soldado do Batalhão de Voluntários da Rainha, com a bandeira oferecida pela Senhora D. Maria II ao Batalhão, um soldado de Caçadores 5 e outro de Infantaria 18. À direita está a figura da Pátria, sentada, de tronco ereto, estendendo uma coroa aos Libertadores e junto dela a figura da História, escrevendo com letras de ouro, em um quadro de bronze, os nomes dos principais heróis.
Museu Militar de Lisboa (fb)

Enfeitam as restantes paredes os retratos de José Jorge Loureiro, por Matoso da Fonseca; Conde das Antas, pelo artista Ribeiro Júnior, e Saldanha, oferecido pelo falecido comendador Guilherme João Carlos Henriques, conhecido por Guilherme João Carlos Henriques, da Carnota.

Dentre os objectos patentes há a salientar, ao centro da sala, o busto em mármore do marquês de Sá da Bandeira, primoroso trabalho executado e oferecido ao Museu pela Duquesa de Palmela.

Busto em màrmore do Marquês de Sá da Bandeira (c. 1870), inaugurado na Sociedade de Geografia de LIsboa em 1909, detalhe de fotografia de Francesco Rocchini tomada no atelier da 3a Duquesa de Palmela Maria Luísa de Sousa Holstein.
Arquivo Municipal de Lisboa

Há também um painel pintado pelo general estrangeiro Hoffmann: o Combate de Ponte Ferreira, e pequena gravura representativa da Acção da Vila da Praia, na Ilha Terceira, em Agosto de 1829, oferecida pela filha do Conselheiro Luís José da Silva, que sempre acompanhou D. Pedro IV naquela ilha.

Batalha de Ponte Ferreira em 23 de Julho de 1832 por A. E. Hoffman (c. 1835).
Wikipédia

Estas as decorações da sala, em que se expõem: uma colecção de artigos que foram pertença de Saldanha; manequins com uniformes do exército de 1833; o bastão do duque da Terceira; a espada que acompanhou Saldanha na batalha de Almoster; bandeiras históricas, etc.  (1)


(1) Olisipo n.° 61, janeiro de 1953 cf. Serões n.° 60, junho de 1910

Mais informação:
Museu Militar de Lisboa (fb)
Maria João Vieira Marques, Museu Militar de Lisboa: proposta de reprogramação museológica

segunda-feira, 15 de março de 2021

Maria da Glória, jovem rainha em França (1831-1833) II de II

L'avance des armées du maréchal Gérard en Belgique, l'héroïque défense des Polonais, harcelés par les troupes du tsar, et la prise de l'île São Miguel par le général Vila Flor [combate da Ladeira da Velha a 3 de Agosto de 1831], devenu par cette victoire maître de l'archipel des Açores, étaient les principaux faits auxquels, en ce mois de septembre 1831, les journaux consacraient leurs colonnes.

Vista do porto da cidade de Ponta Delgada na ilha de S. Miguel.
Elogio Histórico do Rei D. Pedro IV, pelo Marquês de Resende, 1836.
Palácio Nacional de Queluz

Em todos os meios e em todos os países interessavam-se agora à causa da jovem rainha. A Faculdade de Filosofia de Munich propunha como tema do concurso à sucessão portuguesa, les couturières du faubourg Saint-Honoré taillaient des robes vaporeuses dans un tissu appelé "gaze dona Maria" et tous les soirs, dans la salle du Gymnase, les spectateurs venaient applaudir l'acteur Bouffé que encarnava dom Miguel na peça de Scribe et Bayard, le Luthier de Lisbonne.

D. Maria II, rainha de Portugal durante o seu exílio em Londres (1826 1828-1829), por Thomas Lawrence (detalhe).
A pintura, no verso datada de 1827 [?], foi encomendada por George IV e representa a jovem rainha em 1829, .
Royal Collection Trust

L'arrivée de dom Pedro, dûment annoncée dans la rubrique des cinq jours du Voleur où son nom figurait à côté de celui du vicomte de Chateaubriand, également attendu à Paris, mit en émoi le cour de Louis-Philippe.

Le baron Attalin, aide de camp du roi — et que les mauvaises langues disaient marié secrètement à Mine Adélaide — se rendit en personne à Meudon pour veiller aux derniers préparatifs. Le duc de Castries qui dirigeait les haras dut, séance tenante, quitter les appartements qu'il occupait et une garde d'honneur de la garnison de Versailles vint prendre ses quartiers au château.

Dans les salons tirés de leur assoupissement, les femmes de chambre époussetaient les commodes aux bronzes de Feuchères et les vases de Sèvres, les frotteurs faisaient briller les parquets qu'avaient effleurés vingt ans auparavant les cothurnes de Marie-Louise et les valets suspendaient à la hâte les miroirs et les tableaux empruntés aux magasins de la Couronne pour compléter l'ameublement.

Construit par Mansart, le château de Meudon, avec ses balcons aux balustrades de fer forgé soutenus par des cariatides, ses hautes baies et son perron, avait encore grand air.

Au xvne siècle il avait abrité les amours de Mlle Chouin et du Dauphin, puis la nostalgie du roi Stanislas, chassé de Pologne, et enfin, pendant la campagne de Russie, les jeux du petit roi de Rome. 

De la terrasse d'où l'on embrassait un panorama qui s'étendait jusqu'aux toits gris de Paris dominés par la coupole des Invalides et les tours de Notre-Dame, de larges escaliers descendaient vers le parc.

Sous la monarchie de Juillet, les bosquets, ombreux, les jets d'eau et les bassins du siècle de Le Nôtre voisinaient bourgeoisement avec les melons du potager, les ifs roides et savamment taillés avec les berceaux de rosiers et de noisetiers d'une exubérance romantique.

L'empereur avait eu le tact de déclarer qu'il ne voulait pas re-présenter une charge pour la France et tenait à payer lui-même ses dépenses d'entretien. 

Il arriva à Meudon le samedi zo août. Une pluie fine tombait sur les frondaisons des tilleuls et des f marronniers qui, de leur double haie, bordaient l'allée.

A peine descendu de voiture, il commença par visiter du bas en haut sa nouvelle demeure, la bibliothèque, la salle de billard, les salons, les chambres à coucher. Faisant office de majordome, il distribua lui-même les logements à sa suite. 

Celle-ci comprenait deux cham-bellans — le marquis de Resende et Rocha Pinto —, deux secré-taires — Gomes da Silva et le chevalier d'Almeida. —, un médecin — le Dr Tavares, mulâtre qui à ses moments de loisir faisait des vers — et le capitaine Bastos, le seul officier de l'armée brésilienne à l'avoir suivi en exil. 

La jeune reine était accompagnée de sa gouvernante, dona Leonor da Camara et de cinq domestiques, et la duchesse de Bragance de sa dame d'honneur, la baronne de Sturmfeder, d'une dame d'atours, de deux femmes de chambre et d'un valet de pied. 

Une vingtaine de personnes s'installèrent ainsi tant bien que mal dans le château et ses dépendances. 

Soucieux du confort de son hôte, Louis-Philippe mit à sa disposition un piqueur, vingt-cinq chevaux et six voitures. 

Les palefreniers eurent cependant vite la nostalgie du Palais-Royal car leur nou-veau maître inspectait sans cesse les écuries, prétendait qu'en France on ne savait pas panser les chevaux et n'hésitait pas à se coucher sous une voiture pour vérifier si elle avait été bien nettoyée (r). 

Dom Pedro sortait beaucoup. Tout l'intéressait, et ces promenades qu'il entreprenait souvent seul, allant à Saint-Cloud sous une pluie battante pour y voir les jeux des grandes eaux, ou visitant le Palais des Chambres sous l'égide du jurisconsulte Dupin, lui permettaient de satisfaire à la fois la curiosité de son esprit et son besoin d'activité physique. Les rues de Paris étaient fort mouvementées à cette époque.

Des étalagistes disposaient leurs marchandises où bon leur semblait et quand les sergents de ville voulaient les faire déguerpir, ils protestaient en disant que, depuis les barricades, le pavé de Paris appartenait à tout le monde. 

Des vendeurs criaient d'une voix tonitruante des titres de journaux, des délégations de la Société des Amis du peuple ou des Réclamants de juillet défilaient en cortège et, sur la chaussée, roulaient diligences et citadines, dans un tintamarre de grelots et de roues grinçantes. 

Si la présence de dom Pedro passa presque inaperçue dans la salle de l'Odéon où l'on donnait le Masque de Fer, il n'en fut pas de même à l'Opéra la première fois qu'il y parut.

Avant le lever du rideau, les spectatrices, coiffées de capotes à plumes et rubans froufroutants, se tournaient furtivement vers la loge royale, et les lorgnettes de leurs cavaliers servants restaient braquées sur ses occupants. 

La jeune reine, toute blonde et timide, était assise à côté de la duchesse de Bragance dont la robe de mous-seline de laine bleu suédois, à raies claires, était rehaussée par un coulant en brillants qui retenait sa mantille en dentelle. 

Cheveux drus, noirs et bouclés, favoris épais encadrant son visage aux traits mobiles, yeux un peu saillants au regard vif et domi-nateur, bouche charnue et sensuelle, teint bistreux sous le reflet des lustres — tel apparaissait dom Pedro aux habitués de l'Opéra.

Tantôt il se penchait vers sa fille, tantôt vers Amélie qui s'éventait avec grâce. Une loge d'avant-scène retenait tout particulièrement l'attention de dom Pedro: celle où venait de prendre place le dey d'Alger, les yeux cachés derrière des lunettes à lourde monture. 

La présence de deux hôtes aussi illustres frappa à tel point le chroniqueur du Mercure de France qu'il en oublia presque les fandangos et boléros de l'Orgie: "Il était bien digne d'un temps de révolutions de montrer réunis à l'Opéra de Paris, un dey d'Alger, renversé par nous-mêmes, et un empereur du Brésil, aussi détrôné, devenus l'un pour l'autre un objet de curiosité I L'ex-empereur constitutionnel d'un État nouveau d'Amérique ayant abdiqué le trône du Portugal, père d'une reine dépossédée, époux d'une Beauharnais, dont la pré-sence et le nom rappelaient des vicissitudes non moins étranges I Il y aurait à faire sur tout cela des réflexions qui nous éloigneraient singulièrement des roulades et des pirouettes dont nous avons mission de nous occuper [Castellane, Journal, II, p. 448]" (1).

Sur le plan politique, le roi de France et l'ex-empereur du Brésil observaient tous deux une attitude circonspecte et c'était avec un certain mépris que dom Pedro appelait, dans sa correspondance, le successeur de Charles X "le Citoyen".

Sur le plan mondain cependant leurs relations étaient des plus cordiales. Dom Pedro était souvent l'hôte du Palais-Royal, jouait au billard avec le roi, assistait à ses côtés aux manoeuvres dans la cour du Carrousel ou à Vin-cennes, disposait de la loge royale à l'Opéra, à la Comédie-Française.

Le destin avait d'ailleurs parsemé leur vie de maintes analogies. Tous deux se piquaient d'être des monarques constitutionnels et, accusés de flirter avec la franc-maçonnerie, se voyaient traités avec désinvolture par les dynasties régnantes, sans pour autant arriver à capter la confiance des libéraux.

Leurs caractères même n'étaient pas sans présenter des points communs. Si Mine de Genlis avait de bonne heure habitué son élève aux sports en plein air, dom Pedro, dans la lointaine cour de Rio de Janeiro s'adonnait librement à tous les exercices violents, lutte ou équitation.

Affectant la plus grande simplicité, ils cachaient tous deux sous leur bonhomie apparente des goûts aristocratiques, s'intéressaient aux arts, avaient l'esprit ouvert.  Ils partageaient ce souci un peu exagéré des biens terrestres, cette pointe d'avarice qui parfois leur faisait lésiner sur une dépense, annoter les livres de comptes, rogner sur un pourboire.

Aussi quand la Mode se lassait de railler les menus du Palais-Royal où le gigot apparaissait successivement sous sa figure naturelle, ensuite froid, puis en ragoût, et finalement en hâchis, c'était à l'ex-empereur du Brésil que la revue carliste s'en prenait, rapportant sa discussion avec un cocher, ses démêlés avec un coiffeur [...](1)


(1) Denise Dalbian, Une fin d'été à Meudon

Artigos relacionados:
Maria da Glória, jovem rainha em Inglaterra (1828-1829)
Le Luthier de Lisbonne
História do Marechal Saldanha (1790-1876): nas Guerras Liberais (2 de 2)

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Maria Antónia Lopes, Sociabilidades dinásticas oitocentistas: o rei D. Fernando II (1816-1885)...
Isabel Lustosa, Le séjour de don Pedro 1er à Paris et la presse française (1831/1832)

sexta-feira, 12 de março de 2021

Maria da Glória, jovem rainha em França (1831-1833) I de II

A notícia da abdicação de d. Pedro I ao trono do Brasil em 1831 causou certo impacto na França. O ex-imperador e sua mulher, D. Amélia, desembarcaram às quatro da tarde do dia 10 de junho de 1831, no porto de Cherbourg, na Normandia.



Alguns dias depois, a informação aparecia nos principais jornais franceses: Le Moniteur, Le Temps, Le National, Le Constitutionnel, La Gazette de France, etc.

Apesar da queda de d. Pedro I ter se dado em um contexto em que as monarquias européias estavam sofrendo um abalo sísmico quase tão fatal como o que fora provocado pela Revolução Francesa, agravado pela sedimentação dos valores, idéias e ideais difundidos desde o século XVIII, o tom das notícias publicadas era o da incredulidade diante de um fato considerado inédito, fantástico e inesperado.

S.M.I. o Senhor D Pedro restituindo sua Augusta Filha a Senhora D Maria Segunda e a Carta Constitucional aos Portugueses, Nicolas-Eustache Maurin, 1832.
Biblioteca Nacional de Portugal

Em Cherbourg, D. Pedro recebeu todas as honras devidas a um monarca no poder. Os marinheiros ingleses da fragata Volage, que o trouxera, vestindo seus uniformes de gala, deram-lhe nove vivas, ao tempo em que a fragata e todas as fortalezas de terra o saudaram com uma salva de 21 tiros de canhão.

Nos discursos de boas-vindas, ele foi saudado como um defensor da liberdade, um doador de constituições. Cinco mil homens da Guarda Nacional perfilaram-se para que ele os inspecionasse. A prefeitura da cidade ofereceu-lhe um palácio para que ele e sua corte pudessem se instalar. D. Pedro faria de Cherbourg sua primeira base na Europa, convidando seus fiéis amigos, Antônio Teles da Silva, o Marques de Resende, e Francisco Gomes, o famoso Chalaça, para com ele ali se reunirem [...]

A reportagem mais longa sobre a chegada de d. Pedro na França foi publicada pela Revue de Paris que, em matéria de três páginas, detalha o acontecimento. O repórter diz de sua surpresa ao chegar à cidade portuária de Cherbourg e tomar conhecimento do desembarque de d. Pedro. No curso de uma viagem de prazer fui a Cherbourg. Imagine minha surpresa ao encontrar, chegados na véspera do Brasil, como despojos de uma Revolução, o primeiro monarca que a América envia ao exílio na nossa velha Europa.

Após explicar as circunstâncias da chegada do navio de d. Pedro, o narrador descreve os elementos da Corte que acompanhavam o casal: "dois camareiros, alguns oficiais da guarda, e quatro negros de libré com galões com as cores do Brasil". Diz que as roupas dos recém-chegados, — "leurs modes européennes taillées à Rio-Janeiro" — se destacavam por seu ar estrangeiro e que a imperatriz usava uma capa de seda amarela, um pouco desbotada pelo sol e amarrotada pela viagem.

Mesmo assim, o casal tinha um ar de serenidade e de "bienveillance". O imperador parecia um homem honesto que, cansado da realeza, "se aposentava com a integridade de seus direitos e de sua honra", diante do "temporal dessa mesma liberdade que ele fundou sob o céu tropical em um país ainda dominado por semibárbaros costumes".

O narrador descreve a recepção oferecida por d. Pedro nos salões do palácio que lhe fora cedido pela prefeitura. "A reunião era simples, as homenagens eram oferecidas sem constrangimento e recebidas com cordialidade". Diz que os convidados se sentaram em círculo, que a própria Imperatriz sentou-se ao piano para tocar e conclui: "Voilà ce qui succédait au gala d´une cour du midi, au baise-main de Rio-Janeiro".

O texto destaca ainda a forma como d. Pedro recebeu seu velho amigo, o marques de Rezende: abraçando-o com familiaridade. Simplicidade e familiaridade serão as marcas da cortesia das pessoas da família imperial: "Elles parlent familiérement à toutes les personnes", diz o Journal des débats, (edição do dia 15 de junho de 1831).

Familiaridade por vezes excessiva para os padrões franceses. Na mesma edição, conta-se que d. Pedro estabelecera tal intimidade com um dos pilotos da marinha francesa que encontrara no porto que chegara a lhe confidenciar que a imperatriz estava grávida. (1)


(1) Isabel Lustosa, O "séjour" de D. Pedro I em Paris e a imprensa francesa...

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domingo, 9 de junho de 2019

O regresso D. Miguel

Entre 1822-1823 dois elementos da família real, a rainha e o infante D. Miguel, tornaram-se símbolos da contra-revolução portuguesa. A mulher de D. João VI, Carlota Joaquina, transformara-se em heroína da imprensa contra-revolucionária em finais de 1822, pela sua recusa firme em jurar a Constituição e em abandonar o país, corporizando a oposição às Cortes e ao governo liberais.

Lisboa vista da Quinta da Torrinha Val Pereiro, gravura de William James Bennett sobre desenho de L. B. Parlgns.
Museu de Lisboa

D. Miguel, filho segundo do rei, que voltara com a família real em 1821, ao encabeçar o golpe da Vila-Francada em 1823 ficou sendo o referente principal da contra-revolução e, dado que D. Pedro, o primogénito, se colocara à testa do movimento de independência do Brasil [...]

Lissabon von der Quinta da Torrinha - Val de Pereiro. Umgebunge von Lissabon.
Aus der Geographischen Graviranstalt des Bibliographischen Instituts zu Hildburghausen, Amsterdam, Paris u. Philadelphia.
Author: Meyer, Joseph (1796-1856) Society for the Diffusion of Useful Knowledge (Great Britain), 1844.
  Cabral Moncada Leilões

O Terreiro do Paço, palco do “humilhante” desembarque de D. João VI e da demonstração do poder das Cortes, foi evitado por D. Miguel quando regressou em Fevereiro de 1828 [...]

Vista da Praça do Comércio, Henry L'Evêque.

Vindo de Viena de Áustria, com passagem por Paris e Londres [depois de assinados os protocolos de Viena entre Portugal, Inglaterra e Áustria sobre os poderes e as condições do seu regresso a Portugal e traçado o percurso da viagem, com paragens em Paris e em Londres e não por Espanha como pretendia, o Infante sai de Viena de Áustria no dia 6 de Dezembro de 1827. Chegado a Londres em 30 de Dezembro embarca rumo a Lisboa no dia 9 de Fevereiro de 1828. No final de Dezembro a sua próxima chegada era certa], D. Miguel chegou ao Tejo na sexta feira de 22 de Fevereiro de 1828, como lugar tenente e regente do Reino, por nomeação de D. Pedro IV, a bordo da fragata Pérola, a mesma que o levara para o exílio em 1824 na sequência da Abrilada.

A reconstrução do desembarque de D. Miguel em Lisboa, escrita por Oliveira Martins pouco mais de meio século após o acontecimento, ainda que ancorada em testemunhos e memórias dos que viveram ou ouviram contar esse dia, determinou em larga medida a memória e as leituras futuras desse momento. "Portugal inteiro esperava dele a redenção", uns porque que aguardavam que cumprisse as promessas feitas em Viena, outros porque acreditavam que se mantivesse fiel aos princípios expressos em 1824 [...]

"Foi em 22 de Fevereiro (1828) que D. Miguel desembarcou. O rio era um lençol de barcos e bandeiras, uma floresta de mastros, de velas brancas, como bandos de gaivotas voando nas vésperas de temporal. Havia um entusiasmo decidido, uma aclamação espontânea, um furor desenfreado. Repetiam-se os vivas ao rei absoluto, aos Silveiras, à rainha – sem rebuço, na cara dos moderados liberais, corridos da sua fraqueza, cônscios da triste figura que faziam.

Esperava-se que o infante desembarcasse no Terreiro do Paço, e o Senado da Câmara tinha preparado grinaldas e bandeiras; mas o povo todo já corria a Belém, porque se soubera que D. Miguel desembarcaria aí subindo pela Calçada direito ao Paço, à Ajuda. A Pérola, que o trouxera, deitara ferro em frente de Belém, e estavam já a bordo a rainha e as infantas e os ministros, e Clinton o general das tropas inglesas […]. O desembarque, o trajecto até o Paço foi um triunfo: um trovão de vivas, um desespero de gritos, um dilúvio de flores, bandeiras, colchas, foguetes em girândolas!"

[cf. Oliveira Martins, Portugal Contemporâneo, I vol., Lisboa, Guimarães Editores, 8ª ed., 1976 (1ª ed., 1881)]

Desembarque do Augustissimo Senhor D. Miguel no Caes de Belem, Mauricio José do Carmo Sendim.
Museo del Romanticism

Rei chegou, Rei chegou!
Em Belém desembarcou;
Na barraca não entrou
E o papel não assinou!

A Câmara dos Pares, na resposta ao discurso da Infanta Regente pronunciado na sessão de Abertura das Cortes no início de Janeiro de 1828, depois de reafirmar os sentimentos de lealdade à Casa de Bragança, declara que os seus membros "exultam de prazer com a lisonjeira esperança de que dentro em pouco verão entre si mais um Augusto Membro de tão Excelsa Família. A presença do Sereníssimo Senhor Infante D. Miguel, chamado à Regência destes Reinos, desarmará partidos e, reunindo em torno de si todos os Portugueses, lhes afiançará, com as insignes qualidades de Sua Alteza, um próspero futuro, cheio de paz, e felicidade".

"Às quatro horas da tarde “tinha já dado fundo a fragata Pérola, que o conduzia, e da qual saiu imediatamente para a galeota real que o esperava, saltando em terra no cais de Belém.

Suas augustas irmãs, que na mesma galeota se achavam, o receberam cheias de prazer, congratulando-se com ele depois de tão dilatada e penosa ausência; e, entrando na carruagem de estado, se dirigiram ao palácio chamado velho, por ser a actual habitação de sua majestade a imperatriz-rainha […] aonde sua alteza real a cumprimentou, demorando-se o tempo preciso para saciarem as recíprocas saudades […]. No fim desta entrevista passou o mesmo sereníssimo senhor a visitar sua augusta tia […] e depois se dirigiu a ocupar os quartos que lhe estavam preparados no palácio novo de Nossa Senhora da Ajuda, contíguo ao de sua augusta mãe. […]

A Ajuda vista das Necessidades, Charles Landseer, 1825.
Instituto Moreira Salles

A rapidez com que sua alteza real apareceu, entrou e foi para o palácio, não deu tempo nem a que as tropas se formassem, nem a que se pudessem praticar as cerimónias estabelecidas para a sua pomposa recepção. O Senado da Câmara, o juiz do povo e a sua casa dos vinte e quatro, a corte, o corpo diplomático, as autoridades e muitas outras pessoas de distinção, se dirigiram ao real palácio a cumprimentar o mesmo augusto senhor, que se dignou dar beija-mão real nessa ocasião" 

cf. Correio do Porto, n° extraordinário, 23 de Fevereiro de 1828

"[no dia 24 de fevereiro] não quis demorar-se em fazer patente a sua religião e pias intenções para com a mãe de Deus, debaixo da invocação de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, que se propôs visitar. Para esse fim se dirigiu desde o Palácio da Ajuda […] com suas augustas irmãs, à basílica de Santa Maria Maior [Sé], aonde assistiram ao soleníssimo Te Deum, que também ali se cantou, pelo fausto motivo da sua chegada a estes reinos [um importante significado político, prende-se com a ausência de Carlota Joaquina nesta cerimónia e nas que se lhe seguiram]" 

cf. Correio do Porto, Fevereiro de 1828

Juramento de fidelidade como regente, dois dias depois (26 de Fevereiro, pelo meio dia), a D. Pedro IV, D. Maria II e à Carta de acordo com o estabelecido em Viena entre as potências: “Juro fidelidade ao senhor D. Pedro IV e à senhora D. Maria II, legítimos reis de Portugal. […]. Juro igualmente […] observar e fazer observar a Constituição política da nação portuguesa e mais leis do país e prover ao bem geral da nação quanto em mim couber”. O juramento decorreu no palácio da Ajuda [...] A crer nos relatos de Lavradio e do visconde de Porchester, D. Miguel esteve pouco à vontade durante todo o acto e jurou em voz "sumamente baixa" [...]

nesse mesmo dia é nomeado um novo governo do qual faziam parte conhecidos inimigos do regime constitucional. D. Miguel terá dito, em resposta às objecções do embaixador inglês, que era composto "de verdadeiros homens de bem, dos quais nenhum pertencia ao partido exaltado e à revolução. Tenho toda a confiança neles, eles não sairão nunca!" [...]

nomeação de novos governadores militares entre 5 e 10 de Março. A medida foi completada em meados de Maio com a dissolução dos regimentos dos Voluntários Reais do Comércio de Lisboa, dos batalhões de caçadores e artilheiros e dos Voluntários de D Pedro e D Maria do Porto [...]

25 de Abril, dia do aniversário de Carlota Joaquina, tem lugar no Senado de Lisboa a célebre aclamação popular "Viva D. Miguel Rei Absoluto" [...] (1)

A 26 de outubro, anniversario natalício de D. Miguel, houve recita de gala em S. Carlos, com assistência do rei e das infantas. É a primeira vez, depois que chegara, que D. Miguel apparece em S. Carlos. Não lhe mereciam grande agrado os espectáculos públicos, solemnes e graves. 

Theatro de São Carlos, Legrand (1839-1847).

Sem embargo, S. Carlos funccionava. Estava ali trabalhando uma companhia de opera, que tinha como director de orchestra Xavier Mercadante. Cantavam-se Adriano na Syria, o Posto abandonado, etc. Representavam-se pantomimas: Moysés no Oréb, por exemplo. Entre as cantoras figuravam a Schiroli, e a Josephina Tuvo. 

É claro que só os realistas iam ao theatro. Os liberaes mais exaltados haviam emigrado; os moderados retraíam-se por cautella. E por mais moderado que fosse um liberal, não se atrevia a ir comprar um bilhete ao camaroteiro Grondona, que era um dos caceteiros miguelistas.

O rei não apparecia em S. Carlos, nem no theatro do Bairro Alto, que dava O surdo na estalagem, o Medico por força, a Izabel 1.a da Rússia. A falta de concorrência, devida aos sobresaltos políticos e ao abandono em que o rei deixava os theatros, apesar d'elle próprio gostar de representar, fez com que os melhores artistas nacionaes emigrassem para o Brazil. 

Para lá foram a Ludovina e alguns collegas, lodos de primeira plana. O Theodorico, para poder viver, metteu-se de gorra com D. Miguel, lisonjeava-o fazendo-se amante de toiros, e na praça do Salitre soltava piadas aos malhados. As infantas gostariam certamente de poder ir ao theatro, de exhibir as toilcttes talhadas pela Levaillant, que morava na rua de S. Francisco da Cidade, e pela Burnay, que tinha atelier na rua do Alecrim [Madame Burnay, avó do actual conde do mesmo titulo, annunciava-se como modista de sua alteza a sereníssima senhora infanta D. Maria d' Assumpção].

Lisbon ,Largo do Pelourinho, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, c. 1830.
Biblioteca Nacional de Portugal

Mas, decididamente, D. Miguel não queria constranger-se a ter que estar aprumado no camarote real durante algumas horas. Preferia aos espectáculos de gala as serenatas no Paço, que o não obrigavam á immobilidade de um autómato, para que não tinha génio. 

Lisbon from the chapel hill of Nossa Senhora do Monte, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Biblioteca Nacional de Portugal

Em 29 de setembro, dia do santo do seu nome, houve beijamâo na Ajuda, e á noite serenata nas Necessidades. A 9 de novembro desse anno, D. Miguel fazia trotar as mulas que puxavam o seu carrinho de passeio em caminho de Caxias. Acompanhavam-n'o as duas irmãs. As mulas espantaram-se, o carrinho voltou-se. 

O rei fracturou o fémur da perna direita, D. Izabel Maria ficou ferida na região frontal, e D. Maria da Assumpção contusa na coixa esquerda. Foi D. Miguel conduzido em maca para Queluz.

Retrato de D. Miguel I, Johann Ender, Palácio Nacional de Queluz.
  Portugal Virtual

Assistiram-lhe durante a enfermidade o seu amigo barão de Queluz, e os outros cirurgiões da real camara, Jacintho José Vieira, António Joaquim Farto e Manuel Lopes de Carvalho. As infantas restabeleceram-se de pressa, mas o concerto da real perna foi demorado.

Durante o tratamento, a corte cahiu em maior monotonia. Interromperam-se as toiradas e as caçadas no Alfeite ou em Mafra. Não havia divertimento nenhum, o rei estava de perninha, como dizem os lisboetas. Começou então uma longa serie de Te-Deums pela saúde do rei, tantos, pouco mais ou menos, como tinha havido pela sua acclamação. Dois dias antes do Natal, o rei poude levantar-se. Os médicos assistentes deram-lhe alta. Os miguelistas cantavam:

D. Miguel é bonito, 
é bonito e bem feito. 
Quebrou as pernas, 
Ficou sem defeito! (2)

D. Miguel I e suas irmãs dando graças a Nossa Senhora da Conceição da Rocha, 29 de janeiro de 1829.
Cabral Moncada Leilões
*
*     *

Em julho de 1833, a expedição commandada pelo conde de Villa Flor, depois duque da Terceira, desembarca no Algarve, a esquadra liberal, sob as ordens de Napier, destroça no cabo de S. Vicente a esquadra miguelista, e Villa Flor, marchando sobre Lisboa, vai apossar-se da capital.

O duque do. Cadaval, sacrificando a sua opinião ao conselho dos chefes militares, aterrados, não oppozera resistência, abandonara Lisboa, como já se tinha abandonado o Porto um anno antes, retirara para o Campo Grande, marchara para Coimbra, a procurar apoio nas forças que D. Miguel, com Bourmont, trouxera do norte. 

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia

Á approximação do exercito de D. Pedro, o terror domina em Lisboa o espirito de todos os miguelistas, que se sentem desamparados com a retirada do duque do Cadaval. Verdadeiramente desorientados, reunem-se no Rocio, na noite de 23 para 24 de julho, e, no meio de uma grande confusão de terror, resolvem fugir para onde podem, especialmente para Santarém, n'um êxodo precipitado, em que o cansaço, o medo e a colera-morbus os vão dizimando. (3)


(1) Maria Alexandre Lousada, A contra-revolução e os lugares da luta política. Lisboa em 1828.
(2) Alberto Pimentel, A ultima côrte do absolutismo em Portugal, Lisboa, Liv. Férin, 1893
(3) Idem

Mais informação:
Documentos com referência a Miguel I (1802-1866), rei de Portugal

Leitura relacionada:
Os reis da casa de Braganca na Decadencia e na Queda da Monarquia Portuguesa no Ultimo Seculo, 1810-1910
Miguel I, King of Portugal, 1802-1866 (Internet Archive)
Histórias com História
Nossa Senhora da Rocha de Carnaxide: uma devoção do miguelismo