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domingo, 1 de novembro de 2020

George Landmann em Portugal (1808-1810)

Tendo ingressado em 16 de Abril de 1793, como cadete, na Royal Military Academy (Londres), instituição onde o seu pai, Isaac Landmann (1741-1826?), era professor de artilharia e fortificação, George Thomas Landmann embarcou para Portugal em Maio de 1808, quando havia já sido promovido a capitão dos Royal Engineers (1 de Julho de 1806), integrado nas forças do General Spencer (1760-1828), que vinham juntar-se às tropas de Sir Arthur Wellesley (1769-1852), futuro duque de Wellington [...]

Lt. Colonel George Thomas Landmann (1779–1854).
Greenwich Industrial History

Em Portugal, Landmann não só supervisionou com competência obras de engenharia militar — nomeadamente a construção de duas pontes de barcas e uma ponte provisória, respectivamente em Abrantes, Punhete, hoje Constância, e Vila Velha de Rodão, em Dezembro de 1808 —, fez reconhecimentos, inspecções, e elaborou relatórios, como comandou o pequeno corpo dos Royal Engineers durante as batalhas da Roliça e do Vimeiro, de que deixou detalhado registo, como já atrás dissemos, na segunda parte das suas memórias, que ficariam incompletas [...]

Em 1809 Landmann deixou Portugal e passou a Espanha, onde os seus bons serviços foram reconhecidos e lhe valeram comissões no exército espanhol. 

Em Dezembro de 1810, após uma estada de alguns meses em Inglaterra por motivo de doença, foi nomeado agente militar na Península e regressou uma vez mais a Lisboa, para entregar despachos a Wellington no Cartaxo. 

Seguidamente dirigiu-se para Espanha, onde viria a ser ferido em combate no dia 7 de Janeiro de 1811. Em Março do ano seguinte, muito debilitado, retornou a Inglaterra, na companhia do embaixador espanhol, para não mais voltar à Península Ibérica. (1)

É só no segundo volume de Recollections of My Military Life que encontramos o relato do que Landmann viu e sentiu em Portugal ao tempo da invasão deste país pelas tropas de Junot, pois o primeiro diz respeito ao período entre 1806 e 1808, quando o autor esteve colocado em Gibraltar. 

De notar que o estilo de narrativa adoptado poucos anos antes em Adventures and Recollections, e que fora muito bem acolhido pelo público — vivo, bem-humorado, rico em episódios acontecidos com figuras gradas do meio militar e da aristocracia ingleses, aos quais Landmann tinha acesso graças às suas origens e profissão —, se mantém, e constituiu, aliás, uma das principais razões do êxito da obra, como podemos concluir da leitura de excertos de recensões críticas favoráveis vindas a lume na imprensa periódica britânica e reproduzidos pela editora Hurst and Blackett em anúncios publicitários que inseriu noutros títulos que deu posteriormente à estampa [...]

Seguindo uma organização cronológica, Landmann oferece-nos uma narrativa que, embora centrada na vivência pessoal do memorialista, se alarga a um colectivo — o exército britânico em campanha em Portugal —, fornecendo-nos o retrato de um eu compartilhado, por assim dizer [...]

Ao contrário de muitas narrativas sobre a Guerra Peninsular escritas por compatriotas seus, não encontramos, na de Landmann, longas tiradas sobre as atrocidades cometidas pelo inimigo napoleónico. Recollections of My Military Life fala-nos, essencialmente, do oficialato inglês a que o autor pertencia, e representa, nessa medida, um contributo para o reconstituir da história geral do quotidiano do exército britânico em Portugal ao tempo da primeira invasão francesa. 

Ao registar pela escrita, para além de cenas que tocaram a sua sensibilidade, os grandes momentos vividos, especialmente os rememorados com particular satisfação pessoal — o facto de Arthur Wellesley ter seguido as suas sugestões quanto à estratégia a adoptar para atacar as forças francesas na Roliça, o sabor das vitórias alcançadas sobre o inimigo, o reconhecimento do valor dos mapas que desenhou, o jantar com o futuro duque de Wellington em Santo António do Tojal, a participação num grandioso pequeno-almoço público oferecido por Junot em Lisboa em Setembro de 1808 —, George Landmann procura também, claro está, autopromover-se, subtrair-se ao esquecimento e inscrever o seu nome nesse período crucial da história da Europa. (2)


(1) Maria Zulmira Castanheira, A primeira campanha do exército britânico em Portugal ao tempo da Guerra Peninsular, recordada pelo militar inglês George Thomas Landmann... Revista de estudos anglo-portugueses n.° 18, 2009
(2) Idem

George Landmann:
Historical, military and picturesque observations on Portugal v. 1, 1818
Historical, military and picturesque observations on Portugal v. 2, 1818
Recollections of My Military Life v. 2. 1854

RTP Arquivo:
Destaque para a obra do General e engenheiro britânico que esteve em Portugal na altura da Guerra Peninsular no século XIX...

Leitura relacionada:
Guerra Peninsular – 200 anos
A guerra peninsular : perspectivas multidisciplinares ; Congresso Internacional e Interdisciplinar Evocativo da Guerra Peninsular, integrando o XVII Colóquio de História Militar nos 200 Anos das Invasões Napoleónicas em Portugal, Actas

Revista de estudos anglo-portugueses:
Arquivo

sábado, 27 de abril de 2019

Vista de Lisboa, 2 de setembro de 1808

Excelentíssimo Senhor:

Enquanto General do Exército do Sul, postado na margem do Tejo, e enquanto membro da Regência estabelecida pelo Príncipe Regente de Portugal, meu Senhor, para dirigir e sustentar os direitos da nação, em nome do dito Senhor requeiro a Vossa Excelência, em consequência da eterna aliança que durante tantos anos reinou entre as duas nações, que se possam embargar todas as embarcações utilizadas para levar as tropas francesas, tendo em conta os seus roubos e atrocidades, até que Sua Majestade Britânica ou Sua Alteza Real resolvam o que é melhor para a glória e interesses das duas nações, obrigando que Comissários portugueses e ingleses façam um inventário rigoroso das bagagens dos franceses, que não podem levar consigo as riquezas que se apropriaram, o que muito receamos devido à maldade destes opressores da humanidade.

A View of Lisbon and the Harbour.
With the entrance of the British fleet, on the 2 September 1808... to Admiral Sir Charles Cotton...
Anna Sophia Wagner.
British Museum

Fico convencido de que Vossa Excelência terá em conta esta requisição, que é de tal natureza que não pode admitir qualquer recusa, tanto pela sua justiça como pelo carácter generoso dum Ministro inglês, cuja posição Vossa Excelência sustenta tão gloriosamente.

The Embarcation of Gen. Junot after the convention of Cintra at Quai Sodre.
Biblioteca Nacional de Portugal

Tenho a honra de declarar a Vossa Excelência os sentimentos do maior respeito e veneração. Deus guarde Vossa Excelência,

The Convention of Cintra, a Portuguese Gambol for the amusement of John Bull, John Woodward, 1809.
Biblioteca Nacional de Portugal

Conde Monteiro Mor (1)


(1) Carta do Conde Monteiro Mor ao Almirante Charles Cotton (9 de Setembro de 1808)

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

História do Marechal Saldanha (1790-1876): na Guerra Peninsular

No dia 27 de novembro de 1807, decorridos três mezes depois de João Carlos de Saldanha ter sido despachado capitão effectivo, o príncipe regente, acompanhado da família real e de parte da corte, saia a barra de Lisboa, fugindo aos francezes commandados por Junot, deixava em seu logar uma regência, e recommendava à nação que recebesse o exercito invasor como verdadeiro amigo, amigo porém ao qual sua alteza fazia as honras da pátria, abandonando-a para o não ver. 

Departure of H.R.H. the Prince Regent of Portugal for the Brazils, Henry L Evêque, F. Bartollozzi.
(Campaigns of the British Army in Portugal, London, 1812)
Imagem: Wikipédia

O reinante fugido, a nobreza dispersa, o commercio paralysado, exhausto o erário, a esquadra singrando para os mares americanos e deixando na orphandade o Tejo em perigo, a invasão irrompendo, com duas calamidades, a amisade fingida e a assolação desrebuçada: eis o quadro lastimoso. 

Henri L'Évêque, Vista do Convento de Sto Jerónimo de Belém e da Barra de Lisboa.
Imagem: ComJeitoeArte

Em tão densas trevas só uma luz entreluzia esmorecida ás vistas geraes, mas concentrando em si toda a força do brilho que na propicia occasião lançaria em jorros: era o povo [...]

oooOooo

Acabámos de ver o moço João Carlos demittido, em 1807, a pedido seu, e aguardando o ensejo de tudo sacrificar pela salvaçao da pátria.

Meses depois, quando, meiado anno de 1808, se levanta a nação, corre logo às armas João Carlos, sendo reintegrado por decreto de 30 de setembro no posto de capitão, encorporando-se, com o bravo regimento 1 , na divisão do general Bernardim Freire de Andrade.

Marcha para o campo da batalha em julho de 1809, commandando a oitava companhia do seu regimento [...]

Decorrem cinco mezes. Fora chamado a Thomar, temporariamente, para ajudante de campo do brigadeiro Miranda Henriques, depois visconde de Souzel. 

 Tomar.
Views in Spain and Portugal taking during the campaigns..., George Cumberland
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Beresford, nomeado commandante em chefe do exercito portuguez, acabava de o organisar, estatuindo que a táctica ingleza fosse applicada á nossa tropa. Que era difficil a transformação pratica, sem tempo sufficiente, salta á vista menos perspicaz. 

O capitão João Carlos de Saldanha lançou-se a estudar, praticamente, por acto espontâneo e com todo o ardor, os exercidos de brigada conforme a táctica novíssima, e quando Beresford, chegando a Thomar, passa revista á divisão do general Blunt, este general apresenta a Beresford o capitão João Carlos, "como o único official já completamente habilitado para commandar pela táctica referida", como o provou, commandando ali um regimento. 

Beresford, enthusiasmado, promove a major por distincção militar, em 2 de dezembro de 1809, o moço João Carlos, com dezenove annos de idade, preteridos por aquelle comportamento especial de Saldanha quasi todos os Capitães do exercito, e manda-o desde logo encorporar no seu regimento 1, "por querer nas fileiras o major mais distincto do reino" [...]

Desenrola-se a monumental campanha peninsular.

Succede-se brilhantemente a serie das batalhas que foram assombro do mundo.

Na celebre batalha do Bussaco (27 de setembro de 1810) vê-se o major João Carlos de Saldanha, no meio de um fogo infernal reunir as duas companhias de granadeiros dos regimentos 1 e 16, e no sitio fronteiro ao quartel general de Wellington, á frente do novo e por elle improvisado batalhão, repellir denodadamente o inimigo.

A view of the sierra de Bussaco at St. António de Cantaro, 27 Sep. 1810.
A series of views of the Principal Occurrences..., Major St. Clair.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O comportamento do batalhão mereceu o titulo de bizarro, e o joven Saldanha tomava-se, por aquelles brilhantes feitos, digno de elogios especiaes.

The Battle of Bussaco.
Campaigns of the British Army, Henry l'Evêque.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

De 7 a 19 de janeiro de 1812 tomava parte com o seu regimento 1 no assedio e assalto de Giudad-Rodrigo, que ficaram immortaes. 

A brigada de Pack (de que o regimento 1 de Saldanha era o primeiro corpo de infanteria), uma das destinadas ao assalto, convertendo espontaneamente o ataque simulado n'um ataque verdadeiro, e no impeto fazendo prisioneiros a quantos se lhe oppunham, comportou-se de tal modo, que lord Wellington declarava officialmente no dia seguinte haver mesmo excedido as suas esperanças; e entre os regimentos que especialmente se distingiuram recommendava o regimento 1. 

A distant view of Ciudad Rodrigo.
A series of views of the Principal Occurrences..., Major St. Clair.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Na batalha dos Arapiles (Salamanca) a 22 de julho o seu regimento na brigada de Pack foi um dos que investiram aquelles montes, conseguindo arrojadamente apoderar-se da altura, e pelejando as tronas quasi braço a braço. 

The Battle of Salamanca.
Campaigns of the British Army, Henry l'Evêque.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Com a distincção costumada combateu na acção do Carrião a 23 de outubro, na dereza da passagem do [rio] Thormes de 8 a 14 de novembro, no combate de S. Munhoz a 27. 

Salamanca [passagem sobre o rio Tormes].
Sketches of the Country, character, and Costume William Beckford, 1808-1809.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Em setembro d'esse anno fora promovido a tenente coronel, preteridos vinte e três majores, e entre elles majores inglezes, como também por distincção havia sido promovido a major, preterida a maior parte dos capitães [...]

Principiava a campanha de 1813. Os francezes tinham sido arremessados para fora de Portugal pelo exercito alliado, e os nossos perseguiam o inimigo por Hespanha. A brigada de Pack (infanteria 1, a que Saldanha pertencia, 16, e caçadores 4) formava a vanguarda da esquerda do exercito.

Na brilhante batalha de Victoria (21 de junho de 1813) Saldanha esteve sempre no fogo desde o meio dia até á noite [...]

The Battle of Victoria.Campaigns of the British Army, Henry l'Evêque.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Esta a immortal batalha de Victoria a 21.

D'ali a três dias a mesma brigada foi mandada tomar uma posição no caminho para Villa Franca, e tomou-a valorosamente.

Não relata Saldanha o nome da povoação. Era a aldeia de Veasayn. O general Graham participava que o ataque e a tomada de Veasayn se tinham executado da maneira mais brilhante. 

O inimigo fora expulso arrojadamente, evacuando em seguida Villa Franca, ponto de que a nossa gente se queria apossar e que logo occupou.

Villa Franca.
Sketches of the Country, character, and Costume William Beckford, 1808-1809.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Succediam-se os combates sem interrupção: o inimigo perdendo e recuando, os nossos vencendo e arremessando-os.

No dia 25 os francezes, firmando pè, esperam o nosso exercito, a distancia de uma légua antes de Tolosa. 

Deu-se a batalha. "É tal a natureza do terreno (escreve João Carlos textualmeníe), que só vendo se é que se pôde conceber; a quasi todos pareceu impossível poder desalojar d'ali o inimigo, mas o bravo sir Thomás Graham dispoz logo a batalha. 

"A minha brigada" e a de Bradford "atacaram de frente". Ás seis Horas da tarde os francezes começaram a ceder e a retirar-se para Tolosa. 

"Tolosa é murada, e os francezes tinham fechado as portas e barricado as ruas, porém o nosso segundo Wellington, que nao acha difficuldades, mandou avançar a artilheria, e com ella arrombou as portas.

Entrámos em Tolosa à noite. Hontem e hoje fizemos alto, e com effeito se este trabalho durasse mais quatro dias sem descanso, parece-me que morria de fome e de somno. Os meus comprimentos a todos, e as manas que se lembrem de pedir a Deus que eu possa ainda ter o gosto de as ver."

N'esta ultima recommendação transparecem vivamente os perigos que elle arrostou no decorrer da terrível batalha.

Mas lá vae succedendo uma scena formosíssima, que a todos impressiona e que aos próprios combatentes commoveu com lagrimas. Que é? Arrombadas as portas de Tolosa, o exercito alliado principia a tomar uma a uma as ruas barricadas. As famílias hespanholas estão todas (como è natural) encerradas nas casas, implorando o Deus da victoria a favor do exercito que principia a entrar e a combater [...]

O marechal Soult, correndo em soccorro da praça, perdeu a batalha, sendo obrigado a retirar-se, e Pamplona veiu depois a capitular.

Está sitiada a praça de S. Sebastião.

Mapa San Sebastian.
Historical military picturesque... George Landmann.Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


No primeiro assalto á praça (a 25 de julho) o seu regimento 1 foi dos escolhidos para atacarem a brecha. Em todo o tempo que marcharam fora das trincheiras e du- rante o assalto, uma chuva constante de granadas de mão, bombas, metralha, paus em braza, lhes foi verdadeiro tormento [...]

Nem de dia nem de noite cessava sobre os nossos o fogo da praça. As sortidas do inimigo eram incessantes: hífructifero â primeiro assalto à praça de S. Sebastião, é ordenado segundo assalto para o dia 31 de agosto. O que não se consegue em dia de Santa Maria, consegue-se n'outro dia  [...]

Ha mais; foi exactamente pela maneira admirável por que João Carlos commandou o seu regimento na batalha de Nive que o príncipe regente de Inglaterra, alem de o condecorar com a medalha de conunando n'aquella batalha, como contemplou outros commandantes de corpos, lhe fez a elle a distincta e excepcio- nal especiaUdade de lhe enviar a placa da mesma medalha, que sua alteza mandou expressamente cunhar em Londres para lha offerecer [...]

O príncipe regente de Portugal, nao querendo reconhecer menos, nem menos galardoar os serviços do moço João Carlos, na guerra peninsular, quando este, anno e meio depois, chegou ao Brazil para a campanha de Montevideu, nomeou-o cavalleiro da Torre e Espada, condecorou-o com uma commenda da ordem de Christo, e as distincções com que o recebeu e tratou foram tantas, que (formaes palavras de Saldanha): "Com mil vidas não as pagaria" [...]

As nuvens dissipavam-se . Napoleão embarcara , depois da abdicação, para a ilha de Elba, e os soberanos alliados tinham entrado em Paris. Na manhã de 28 de abril a guarnição franceza achava-se formada na explanada de Bayonna, defronte d'ella a tropa sittiadora, também formada. Bate meio dia.

O general Thouvenel arvora na cidadella a branca bandeira das flores de lis, e toda a artilheria da praça rompe uma salva real. Corresponde-lhe a artilheria que cerca Bayonna. Estrugem os vivas aos alliados e á libertação dos reinos europeus, abrem-se as portas a exercito sitiador.

Dia verdadeiramente grande para aquellas almas, saciadas do fogo e ávidas da paz. "Acabaram-se emfim os nossos trabalhos", escrevia Saldanha dois dias depois. 

St. Sebastian.
Views in Spain and Portugal taking during the campaigns..., George Cumberland
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Sim, acabavam-se-lbe os trabalhos da que para outros podera ser uma campanha completa, quando para elle era unicamente o preludio da vida marcial. Terminava a guerra em 1814. 

O sol da independência brilhava finalmente, com todo o esplendor, no céu peninsular. (1)


(1) D. António da Costa, História do Marechal Saldanha, Tomo I, Lisboa, IN, 1879

Tema:
Guerra Peninsular (LeoT)
Guerra Peninsular (AVM)

Mais informação:
Peninsular War
Anglo-Portuguese Army

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Marechal Saldanha (1790-1876): Lutas Civis

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A banhos no Tejo, a Deusa dos Mares

A faculdade portuguesa recomenda os banhos para todos os casos de queixas e males. Os homens despem-se na parte de vante do barco, vestem calções que vão abaixo do joelho e cobrem-se com um casaco comprido, antes de se sentarem na amurada do barco para entrarem dentro de água. Quando as senhoras anunciam que estão prontas eles ajudam-nas a entrar no rio, pegando-lhes nas mãos enquanto elas descem pelas pequenas escadas. Depois, entre gritos e chapinhadas, o divertimento é geral. Uma piada comum, conta que uma senhora atarracada e gorda, uma visão habitual, quase ia virando o barco quando descia.

Banhos no Tejo, A.P.D.G., Sketches of Portuguese life (...).
Imagem: Internet Archive

Quando os barcos do banho são numerosos, ao longo da praia, não raramente vi o Regimento de Cavalaria de Alcântara receber ordem de tomar banho. Então, é vê-los entrar na água, e completamente despidos com os seus  cavalos, nadar por entre os banhistas, causando-lhes o maior desconforto [...] (1)

Regimento de Cavalaria de Alcântara, William Beckford, 1808-1809.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O Administrador dos banhos da barca do Hiate, que está defronte do Caes das Columnas, participa ao público que de manhã os banhos de 200 réis, são de 180 réis, e os de 160 réis são de 120 réis, e de tarde depois da 5 horas, são de 40 réis de menos por cada banho, sem que seja necessário esperar por companheiro para entrar no banho. 

A barca tem para melhor cómodo do público dois botes com os seus letreiros que dizem = Bote da barca dos banhos = Além destas commodidades, e de outras, que na barca se saberão, haverá bebidas e comer de todas as qualidades, por preços cómmodos. (2)

No dia 15 do corrente mez se põem a barca dos banhos, contruida sobre o hiate, defronte do Terreiro do Paço; reformada de banhos e com nova construcção para receberem toda a força da corrente. (3)

Vista do Tejo e da Praça do Comércio em 1848, gravura em madeira fotografada por Bárcia (AML).
Imagem: O cais da Praça do Comércio e as suas colunas...

De toda a parte podiam partir botes e vapores que cruzassem entre os logares de recreio, onde houvesse hoteis, e restaurantes, onde pululassem a vida, a alegria, e os folguedos.

Em vez do concurso festivo de barcos empavezados, de chalupas casquilhadas e de vapores emplumados de fumo, de musicas e de orchestras casando os seus rithmos e melopéas com o marulhar das vagas; em vez dos mil rumores. de uma grande cidade a condensaram-se por algumas horas ua amplidão magestosa e poética de um dos rios mais soberbos da Europa, estamos condemnados ao supplicio de contemplar diariamente no meio das aguas azuladas do rio, que corre entre areias de ouro os estafermos fluctuantes da "Deusa dos Mares e da Flor do Tejo"!

Deusa dos mares, barca dos banhos no rio Tejo.
Imagem: Lisboa de Antigamente

Como aquelles abrutados cetáceos de pau carunchoso ostentam com a indifferençá e o egoismo da decrepidez a sua crusta encorreada, vaidosos do acolherem dentro de si tantas formosuras femininas, — que ali correm a banhar-se dentro de cells soturnas, escondidas sob o velho cavername e copiadas das penitenciárias primitivas — Amphitrites prosaicas, que parecem tripudiar naquelles churriões immoveís de Neptuno, entre algas e alforrecas!

Nas manhãs de verão e de outomno é uma dôr d'alma contemplar as gentis caravanas,que demandam aquellas regiões sinistras, fragmentos desprendidos do "Inferno" do Dante. Tanta lida, tantas fadigas, para alcançarem o phantasma fugitivo de um banho tomado no fundo de um antro fluctuante, visitado a miúdo pela onda impura das matérias organicas, que se espanejam na corrente! Que ironia de banhos hygienicos infligida a uma povoação inteira, no bôjo d'aquellas presigangas, que são, em pleno Tejo, um arremedo das prisões marmertinas, ou dos Chambos de Veneza.

Black Horse Square (Praça do Comércio), T. W. Langton, década de 1870.
Imagem: Baixa Pombalina 250 years of images

Mas a illusão dos banhos, em taes condições, não é senão a parodia da illusão campestre que desvaira a muita gente, que emigra da cidade para buscar e gozar o campo onde não ha d'elle o menor ves- tígio! A não serem os oásis verdejantes de Cintra e de Bellas, onde ha aguas frias e crystalinas, som- bras e espessuras de arvores e de mattos, a maior parte dos retiros aldeãos correm o grave perigo de se parecerem com uma charneca árida e nua de vegetação.


Praça do Commercio vista do Tejo (fotografia de Eduardo Portugal), ed. Costa 773, c. 1900.
Imagem: Delcampe

É um campo conjectural, difficil de adivinhar-se, o que se espalha em redor da cidade. Exigem grande dispêndio de imaginação os prados e os arvoredos que não avista o olhar mais perscrutador. Apezar d'isso, os omnibus e as carruagens andam numa roda viva, atarefados no empenho de trazerem e levarem passageiros, cheios de calma e de poeira, que se incumbem benevolamente de acolher no fato e nos cabellos a caliça do mac-adam da estrada! E cháma-se a isto estar no campo! e todas estas fadigas de viaçao attrahem como outras tantas sereias os que só vêem na cidade um brazeiro ardente, um oceano de poeira! Mas quem nos salva senão a fé? (4)

(1) A.P.D.G., Sketches of portuguese life, manners, costume and character, London, Geo. B. Wittaker, 1826
(2) Gazeta de Lisboa, 22 de julho de 1809
(3) Gazeta de Lisboa, 13 de julo de 1810
(4) Visconde de Benalcanfor, Diário Illustrado, 31 de julho de 1874

Leitura relacionada:
Lisboa de Antigamente
Alexandra de Carvalho Antunes, O cais da Praça do Comércio e as suas colunas...
Mariana J. Pimentel Pires, Água e luz — o imaginário dos banhos
A. Vieira da Silva, Barcas de banhos do Tejo