quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O Livro do Desassossego

Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido — sem saber porquê. 

E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus.

Almada, vista de [Alfama, sé patriarcal?] Lisboa, James Holland, 1837.
Imagem: Walker Art Gallery

Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem veem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade [...]

O céu negro ao fundo do sul do Tejo era sinistramente negro contra as asas, por contraste, vividamente brancas das gaivotas em voo inquieto. O dia, porém, não estava tempestuoso já. Toda a massa da ameaça da chuva passara para por sobre a outra margem, e a cidade baixa, úmida ainda do pouco que chovera, sorria do chão a um céu cujo Norte se azulava ainda um pouco brancamente. O fresco da Primavera era levemente frio.

Ramalhete de Lisboa, Carlos Botelho, 1935.
Imagem: Wikipédia

Numa hora como esta, vazia e imponderável, apraz-me conduzir voluntariamente o pensamento para uma meditação que nada seja, mas que retenha, na sua limpidez de nula, qualquer coisa da frieza erma do dia esclarecido, com o fundo negro ao longe, e certas intuições, como gaivotas, evocando por contraste o mistério de tudo em grande negrume.

Mas, de repente, em contrário do meu propósito literário íntimo, o fundo negro do céu do Sul evoca-me, por lembrança verdadeira ou falsa, outro céu, talvez visto em outra vida, em um Norte de rio menor, com juncais tristes e sem cidade nenhuma. Sem que eu saiba como, uma paisagem para patos bravos alastra-se-me pela imaginação e é com a nitidez de um sonho raro que me sinto próximo da extensão que imagino.

Praça do Comércio e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Terra de juncais à beira de rios, terreno para caçadores e angústias, as margens irregulares entram, como pequenos cabos sujos, nas águas cor de chumbo amarelo, e reentram em baías limosas, para barcos de quase brinquedo, em ribeiras que têm água a luzir à tona de lama oculta entre as hastes verde-negras dos juncos, por onde se não pode andar.

A desolação é de um céu cinzento morto, aqui e ali arrepanhando-se em nuvens mais negras que o tom do céu. Não sinto vento, mas há-o, e a outra margem, afinal, é uma ilha longa, por detrás da qual se divisa — grande e abandonado rio! — a outra margem verdadeira, deitada na distância sem relevo.

Ninguém ali chega, nem chegará. Ainda que, por uma fuga contraditória do tempo e do espaço, eu pudesse evadir-me do mundo para essa paisagem, ninguém ali chegaria nunca. Esperaria em vão o que não saberia que esperava, nem haveria senão, no fim de tudo, um cair lento da noite, tornando-se todo o espaço, lentamente, da cor das nuvens mais negras, que pouco a pouco se mergiam [sic] no conjunto abolido do céu.

Retrato de Fernando Pessoa, Almada Negreiros , 1956.
Imagem: Lisboa Desaparecida

E, de repente, sinto aqui o frio de ali. Toca-me no corpo, vindo dos ossos. Respiro alto e desperto. O homem, que cruza comigo sob a Arcada ao pé da Bolsa, olha-me com uma desconfiança de quem não sabe explicar. 

O céu negro, apertando-se, desceu mais baixo sobre o Sul [...]

Cada vez que assim contemplo uma extensão larga, e me abandono do metro e setenta de altura, e sessenta e um quilos de peso, em que fisicamente consisto, tenho um sorriso grandemente metafísico para os que sonham que o sonho é sonho, e amo a verdade do exterior absoluto com uma virtude nobre do entendimento.

Lisboa, Maluda.
Imagem: maluda.eu

O Tejo ao fundo é um lago azul, e os montes da Outra Banda são de uma Suíça achatada. Sai um navio pequeno — vapor de carga preto — dos lados do Poço do Bispo para a barra que não vejo  [...]

A ideia de viajar nauseia-me.

Já vi tudo que nunca tinha visto.

Já vi tudo que ainda não vi.

O tédio do constantemente novo, o tédio de descobrir, sob a falsa diferença das coisas e das ideias, a perene identidade de tudo, a semelhança absoluta entre a mesquita, o templo e a igreja, a igualdade da cabana e do castelo, o mesmo corpo estrutural a ser rei vestido e selvagem nu, a eterna concordância da vida consigo mesma, a estagnação de tudo que vivo só de mexer-se está passando.

Paisagens são repetições. Numa simples viagem de comboio divido-me inútil e angustiadamente entre a inatenção à paisagem e a inatenção ao livro que me entreteria se eu fosse outro. Tenho da vida uma náusea vaga, e o movimento acentua-ma.

Só não há tédio nas paisagens que não existem, nos livros que nunca lerei. A vida, para mim, é uma sonolência que não chega ao cérebro. Esse conservo eu livre para que nele possa ser triste.

Ah, viajem os que não existem! Para quem não é nada, como um rio, o correr deve ser vida. Mas aos que pensam e sentem, aos que estão despertos, a horrorosa histeria dos comboios, dos automóveis, dos navios não os deixa dormir nem acordar.

De qualquer viagem, ainda que pequena, regresso como de um sono cheio de sonhos — uma confusão tórpida, com as sensações coladas umas às outras, bêbado do que vi.

Para o repouso falta-me a saúde da alma. Para o movimento falta-me qualquer coisa que há entre a alma e o corpo; negam-se-me, não os movimentos, mas o desejo de os ter.

Muita vez me tem sucedido querer atravessar o rio, estes dez minutos do Terreiro do Paço a Cacilhas. E quase sempre tive como que a timidez de tanta gente, de mim mesmo e do meu propósito.

A multidão aguardando o ministro na villa de Cacilhas, Joshua Benoliel, 1911.
Imagem: Hemeroteca Digital

Uma ou outra vez tenho ido, sempre opresso, sempre pondo somente o pé em terra de quando estou de volta.

Quando se sente demais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até outro universo.

Como nos dias em que a trovoada se prepara e os ruídos da rua falam alto com uma voz solitária.

A rua franziu-se de luz intensa e pálida, e o negrume baço tremeu, de leste a oeste do mundo, com um estrondo feito de escangalhamentos ecoantes… A tristeza dura da chuva bruta piorou o ar negro de intensidade feia. Frio, morno, quente — tudo ao mesmo tempo —, o ar em toda a parte era errado. E, a seguir, pela ampla sala uma cunha de luz metálica abriu brecha nos repousos dos corpos humanos, e, com o sobressalto gelado, um pedregulho de som bateu em toda a parte, esfacelando-se com silêncio duro.

O som da chuva diminui como uma voz de menos peso. O ruído das ruas diminui angustiantemente.

Nova luz, de um amarelado rápido, tolda o negrume surdo, mas houve agora uma respiração possível antes que o punho do som trêmulo ecoasse súbito doutro ponto; como uma despedida zangada, a trovoada começava a aqui não estar com um sussurro arrastado e findo, sem luz na luz que aumentava, o tremor da trovoada acalmava nos largos longes — rodava em Almada...

Lisboa, Avenida da Liberdade, década de 1900, publ. Mala da Europa.
Imagem: FCSH +Lisboa

Uma súbita luz formidável estilhaçou-se. Tudo estacou. Os corações pararam um momento. Todos são pessoas muito sensíveis. O silêncio aterra como se houvera morte. O som da chuva que aumenta alivia como lágrimas de tudo. Há chumbo [...]

A manhã, meio fria, meio morna, alava-se pelas casas raras das encostas no extremo da cidade. Uma névoa ligeira, cheia de despertar, esfarrapava-se, sem contornos, no adormecimento das encostas. (Não fazia frio, salvo em ter que recomeçar a vida.) E tudo aquilo — toda esta frescura lenta da manhã leve, era análogo a uma alegria que ele nunca pudera ter.

O carro descia lentamente, a caminho das avenidas. À medida que se aproximava do maior aglomeramento das casas, uma sensação de perda tomava-lhe o espírito vagamente. A realidade humana começava a despontar.

Nestas horas matinais, em que a sombra já desapareceu, mas não ainda o seu peso leve, o espírito que se deixa levar pelos incitamentos da hora apetece a chegada e o porto antigo ao sol. Alegraria, não que o instante se fixasse, como nos momentos solenes da paisagem, ou no luar calmo sobre o rio, mas que a vida tivesse sido outra, de modo que este momento pudesse ter um outro sabor que se lhe reconhece mais próprio.

Retrato de Fernando Pessoa, Almada Negreiros , 1964.
Imagem: Museu Calouste Gulbenkian

Adelgaçava-se mais a névoa incerta. O sol invadia mais as coisas. Os sons da vida acentuavam-se no arredor.

Seria certo, por uma hora como estas, não chegar nunca à realidade humana para que a nossa vida se destina. Ficar suspenso, entre a névoa e a manhã, imponderavelmente, não em espírito, mas em corpo espiritualizado, em vida real alada, aprazia, mais do que outra coisa, ao nosso desejo de buscar um refúgio, mesmo sem razão para o buscar.

Sentir tudo sutilmente torna-nos indiferentes, salvo para o que se não pode obter — sensações por chegar a uma alma ainda em embrião para elas, atividades humanas congruentes com sentir profundamente, paixões e emoções perdidas entre conseguimentos de outras espécies.

As árvores, no seu alinhamento pelas avenidas, eram independentes de tudo isto.

A hora acabou na cidade, como a encosta do outro lado do rio quando o barco toca no cais. Ele trouxe consigo, enquanto não tocou na margem, a paisagem da outra banda pegada à amurada; ela despegou-se quando se deu o som da amurada a tocar nas pedras. 

Porto de Lisboa (Portugal), Caes da Ribeira Nova, ed. Martins/Martins & Silva, 60, década de 1900.
Imagem: Delcampe

O homem de calças arregaçadas sobre o joelho deitou um grampo ao cabo, e foi definitivo e concludente o seu gesto natural. Terminou metafisicamente na impossibilidade na nossa alma de continuarmos a ter a alegria de uma angústia duvidosa. 

Os garotos no cais olhavam para nós como para qualquer outra pessoa, que não tivesse aquela emoção imprópria para a parte útil dos embarques [...] (1)


(1) Fernando Pessoa (Bernardo Soares), O Livro do Desassossego

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Maria da Glória, jovem rainha em Inglaterra (1828-1829)

A impressão que este inesperado acontecimento ocasionou na capital da Gran-Bretanha foi de uma ordem tal, que o proprio duque de Wellington e lord Beresford, tendo ambos elles commandado tropas portuguezas durante a guerra da península, e vencendo ambos elles, como taes, avultadas pensões, pagas pelo tesouro portuguez, não hesitaram em ir lambem n'esta solemne ocasião comprimentar a jovem rainha D. Maria II em grande uniforme, e ornados com as differentes ordens militares de Portugal. 

D. Maria II, rainha de Portugal durante o seu exílio em Londres (1826 1828-1829), por Thomas Lawrence (detalhe).
A pintura, no verso datada de 1827 [?], foi encomendada por George IV e representa a jovem rainha em 1829, .
Royal Collection Trust

Ao duque disse ella muito graciosamente: "sei que vós n'outro tempo salvastes meu avô, espero portanto que tambem agora salvareis sua neta". 

Majesty & Grace, William Heath, 1828.
The British Museum

Baldado empenho; o duque durante todo o seu ministerio só cuidou em proteger quanto pôde os interesses de D. Miguel, cuja usurpação teve para elle mais attractivos, por ser mais conforme com a política, que se propozera abraçar durante a sua gerencia ministerial. 

Retrato do rei D. Miguel, Johann Nepomuk Ender.
Cabral Moncada Leilões

George IV achava-se muito incommodado, quando a rainha chegou a Inglaterra, e só em 22 de dezembro pelas duas horas da tarde a pôde receber no seu palacio de Windsor Castle, onde não poupou honras, nem distincções, feitas á sua jovem hospeda, como se já estivesse reinando em Portugal. 

The promenade or a sketch for Windsor, William Heath, 1827-1829.
The British Museum

Ornado lambem com as ordens militares portuguezas, elle a veio esperar ao alto da escadaria, por não poder descer ao fundo d'ella, em consequencia dos seus padecimentos, e ali lhe offerecen o braço, e a conduziu depois á sala principal, onde a assentou n'um canapé ao seu lado, e lhe pediu licença para que as outras senhoras podassem fazer o mesmo, tendo-lho antes disso apresentado as pessoas da sua familia e a côrte.

O brinde que lhe dirigiu ao "toast", durante o almoço que lhe offereceu, foi: "á minha joven amiga e amada, a rainha de Portugal". 

The feast near eateon or master George and his little visitor, William Heath, 1827-1829.
The British Museum

George IV não teve duvida de exprimir os puros e fervorosos votos que fazia, tanto por ella, como pelo triumpho da legitimidade portugueza.

The high and mighty queen recieving an address from the most loyal subjects in the world, 1827-1829.
The British Museum

Não admira pois que no meio de uma tal recepção a chegada da rainha a Inglaterra fosse tida como um feliz pressagio para o triumpho da causa liberal e que os emigrados do deposito de Plymouth manifestassem por todos os modos ao seu alcance o jubilo que lhes causara similhante chegada. (1)


(1) Luz Soriano, História da Guerra Civil... Terceira Ephoca Tomo III Parte I.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Caminho de Ferro de Lisboa a Cintra em 1887

É sabido que as linhas ferreas têem a particularidade de operarem a transformação das zonas que atravessam, mas uma transformação tão radical como a que esta de que nos occupamos realisou no sitio de Alcantara, é que poucas se podem gabar de conseguir.

Estação principal em Alcântara, João Ribeiro Christino.
O Occidente n° 301, 1 de maio de 1887

Onde estavam terrenos maltratados, repositorios de immundicies, vêem-se hoje espaçosos barracões elegantes; onde corria agua infecta num caneiro assassino dos pobres moradores das visinhanças, ostenta-se agora a bem lançada estação de passageiros; nas velhas margens antigamente chamadas Horta Navia assentam-se actualmente os primeiros rails da nova linha. 

Até o velho S. Pedro parece destinado a mudar de logar.

E verdadeiramente, o bondoso santo não estava ali bem; elle que tem por missão guardar as portas do ceo, não se podia sentir ã vontade ás portas da cidade, embora por essas se entre na rua do Livramento.

A nova linha é, como se sabe destinada não só a ligar a capital á fresca e poetica Cintra, como lambem á villa de Torres Vedras, região muito importante pela sua producção vinícola, e muito notavel na historia, pelos memoraveis combates que ali se feriram, n'aquelia guerra fratricida que tantas vidas custou ao nosso paiz e entre outras, a do valoroso campeão Mouzinho de Albuquerque, e ainda se destina a nova linha a ser a vanguarda da futura linha de Torres á Figueira e Alfarellos, onde se deve ligar á linha do norte. 

A extensão total actualmente em exploração é de 28 kilometros, e em breve será de mais 17, quando abrir a parte do Cacem a Torres Vedras. 

Estação do Cacém
O Occidente n° 304, 1 de junho de 1887

As estações são ao todo 11 com 3 apeadeiros. 

São muitas, e algumas importantes, as suas obras de arte, das quaes a principal é o grande tunnel de Alcantara ou dos Terramotos, nome dado águelle sitio por motivo das grandes transformações que a catastrophe de 1755 n'elle operou. O primeiro traçado nao inclina este tunnel, seguindo a falda da montanha, evitando assim o consideravel custo da obra. 

Os terrenos neste ponto, porém, não offereciam estabilidade e por isso preciso foi emprehender este trabalho que veio agravar consideravelmente os gastos da construcção. 

Tunnel dos Terremotos, João Ribeiro Christino.
O Occidente n° 301, 1 de maio de 1887

A sua extensão é de 540 metros, em recta, e a profundidade maxima 52 metros. 

Retrocedamos, porém para descrever a estação de Alcantara, representada n'uma das nossas gravuras.

Esta estação foi construida, como acima se diz em grande parte sobre o antigo caneiro, que para isso teve que ser coberto em mais de 240 metros, alterando-se-lhe tambem em grande estensão o curso das aguas, para accommodaçãoo das diversas dependencias da gare. 

Comprehende esta um edilicio para passageiros, com salas de espera, vestibulo de bagagens, escriptorios para o inspector, telegrapho, chefe da estação, etc., formando um parallelogramo de 95 metros por 10 dc fundo. 

O accesso para passageiros e bagagens faz-se pelo lado do poente, onde a entrada é coberta com uma elegante marquise. Até dentro d'este recinto de entrada vem a linha americana que a companhia Carris de ferro construiu expressamente para serviço da estação e que liga á rede geral, pela rua do Assento, (onde os vebiculos descarrilam com toda a perfeição) na rua Nova do Cries do Tojo. 

Do lado interior a estação é coberta por uma larga marquise envidraçada, que descança de um lado no editicio de passageiros, e do outro em columnas assentes n'um passeio de egual comprimento. 

Segue, do lado poente, um caes para volumes transportados por grande velocidade, com accesso especial pela antiga rua da Fabrica da Polvora e depois uma cocheira para 24 carruagens em 8 vias servidas por um charriot. 

Em frente estende-se o grande caes de mercadorias, de 90 metros de extensão, coberto cm metade, com accesso pela antiga estrada de circunwalacão da cidade, ao qual segue um outro para vehiculos e gado e outro ainda, pequeno e isolado, para materias inflamaveis. 

Em face d'este será o grande caes para carvão, que fica em frente de uma rotunda para 6 machinas, com officina de reparação annexa. 

Sahida a estação e passado o tunnel que já fica descripto, desenrola-se á vista o mais brilhante panorama. 

De um lado e do outro da linha as variegadas tintas das differentes culturas que atapetam a montanha de Campolide, á direita, e a serra de Monsanto, á esquerda, semeadas de um sem numero de casas de differentes tamanhos, desde e vasto edificío da companhia dc estamparia até as pequenas casinhas dos trabalhadores, formam um bello conjuncto que delicia a vista e torna a viagem encantadora.

Outra gravura que publicaremos no proximo numero, representa o viaduto de Sant'Anna, que é o maior da linha. A sua extensão é de 150 metros em cinco tramos metallicos de 30 metros cada um, sobre 4 pegões de pedra. 

A construcção d'este viaducto, assim como a dos demais da linha, foi incumbida á casa Eiffel que tão justa fama tem ganho pela perfeição de todas as obras que saltem das suas largas officinas, e que no nosso pais tem já vinculados os seus creditos na construcção das pontes do Porto, das da linha da Beira Alta e outras muitas.

Este viaducto atravessa a ribeira de Alcantara e o valle de Sant'Anna á altura de 12 metros e meio. 

Nos próximos numeres continuaremos dando outras vistas dos principaes pontos da interessante linha que hoje está sendo a mais frequentada do paiz, e que está destinada a um largo futuro, não só pela belleza como pela importancia das regiões que atravessa, e das que serão servidas pelas outras linhas que a ella se ligam. (1)

Quem diria aos nossos avoengos, quando viam com pasmo as arrojadas curvas d'aquelle aquedueto com que D. João V, o doutor Pinto Coelho do seu tempo, abasteceu d'agua a cidade de Lisboa, quando do alto d'aquelles arcos, que constituíam o seu passeio favorito, a sua avenida domingueira, contemplavam os campos de um e outro lado, pasmando da monumental obra em que assentavam os sapatos, admirando a pequenez das figuras que sc moviam em baixo, na velha quinta de Sant'Anna, quem lhes diria então.que por debaixo d'esse arco grande que fazia o seu enlevo, os pequeninos netos de então traçariam, com mão náo menos arrojada que a do architecto de D. Joao V, o caminho rapido e facil que os transportaria ás mais longas distancias. 

Hoje, quem subir ao alto d'aquellas arcarias, nao contemplará de lá somente os campos e as quintas proximas; verá aos pés do collosso, serpenteando como uma fita agitada pelo vento, a branca estrada de duplo traço negro, por onde a locomotiva passa triumphante, arrostando os pesados comboios cheios de gente que vae ao seu passeio favorito tambem, não a pé, como os nossos pobres avoengos, mas commodonsente recostada nas carruagens do caminho dc ferro. 

E esta passagem do arco é um dos pontos mais interessantes da nova linha ferrea.

Não só produz um bello effeito a travessia d'aquella grande obra, não só o panorama que se disfructa das differentes curvas que a linha percorre, em elegantes traços, por entre os pequenos montes, é maravilhoso, como tambem aquelle troço da via é dos mais artisticos, pelos successivos viaductos e pontões em que a tortuosa ribeira de Alcantara tem que ser atravessada. 

Destes o mais importante é o de Sant'Anna representado na gravura que hoje publicamos. D'elle já nos occupamos no nosso ultimo numero. dizendo que foi construido pela casa Eiffel, que tem 150 metros de extensão e a cota maxima de 12 metros e meio. 

Viaducto de Sant'Anna, João Ribeiro Christino.
O Occidente n° 302, 11 de maio de 1887

Podemos hoje accrescentar que o taboleiro, cuja altura é de 3 metros, é formado pelo systhema de cruzes de Santo André, do vão de 2m,50, que sustentam as vigas, de 52 centímetros de espessura.

Aos lados da via ha dois passeios forrados de madeira de carvalho, tendo a largura de 0m,54 cada um, sendo estes amparados por um parapeito de um metro de altura. 

Como tambem dissemos, são cinco os vãos, de 30 metros aproximadamente cada um, assentes em quatro elegantes pilares de cantaria, e os dois encontros.

Por debaixo do encontro do lado de Lisboa ha uma pequena passagem do caminho que conduz á quinta de Sant'Anna. Antes deste ha cambem outro viaducto mais pequeno, formado de dois, tramos de 20 metros, e de egual construcção. o chamado viaducto da Ponte Nova, e 100 metros depois d'elle fica o tunnel do mesmo nome que tem apenas a extensão de 75 metros e a cota maxima de 33 metros.

Viaducto e Tunnel da Ponte Nova
O Occidente n° 303, 21 de maio de 1887

No proximo numero daremos a gravura d'estas duas obras de arte, copia de uma bela photogrophia tirada peto sr. Augusto Lamarão um dos mais distinctos amadores de Lisboa, um verdadeiro sacerdote da arte, que emprega todos os seus momentos disponíveis e todos os seus enthusiasmos de joven e de inteligente, no cultivo, no aperfeiçoamento e na propaganda d'esta delicada profissao.

Seguidamente ao vinducto que hoje reproduzimos que e o mais extenso de toda a linha dc Cintra e Torres, ha outro de 25 metros. um pontão de 6 metros e outro de 10 metros, depois do qual o linha passa n'um dos pontos que hoje não tem importancia, mas que em breve ficará sendo um dos de mais movimento da linha, porque será o de ligação entre o futuro caminho de ferro da circulação da cidade e o de Cintra a Torres.

Estação de Cintra.
O Occidente n° 306, 21 de junho de 1887

E ao kilometro 4.100 que virá a ter a linha em construeção desde Xabregas, pelo valle de Chellas, a Bemmfica; e ahi que os comboios que partirem de Alcantara receberão ainda no final deste anno, segundo se assegura, os passageiros que, de toda a rede de leste e norte, de todo o paiz, ligado por essa rede, e de todos os pontos do estrangeiro, desejarem seguir directamente a Cintra, a Torres e a outros pontos servidos pela nova linha. 

Passado este ponto seguem ainda dois viaductos, de 10 metros, e mais adiante o apeadeiro de S. Domingos, paragem mais proxiina para os logares de S. Domingos de Bemfica e Sete Rios.

Este apeadeiro não está ainda aberto á exploração, mas sel-o-ha brevemente, destinado como a ser um ponto de grande concorrencia do publico, não só porque, durante a estação calmosa, d'elle se aproveitarão as muitas familiar que váo veranear para aqueles sitios, como porque constitue um agradavei passeio para quem quizer', sem se affastar muito do centro da cidade, tomar um pouco de ar puro dos campos, indo no comboio até S. Domingos, tomando ali a bela estrada, larga e bem construida até Sete Rios e voltando d cidade pelos sitios de S. Sebastião da Pedreira e Avenida.

Não faltam naquelas immediações interessantes quintas a visitar, algumas mesmo cheias de flôres, e de deliciosas ruas de arvoredo, como a  do sr. Mattos e Silva, chamada da Atalaya, onde, mediante a apresentaçáo do nosso bilhete de visita, ha tempos passámos uma tarde deliciosamente, entre o aroma das flôres que cobrem os macissos a cada um dos lados do caminho, e a amabilidade do proprietano que não é menos apreciavel.

Aqui lhe deixamos lambem o nosso bilhete de agradecimento pela maneira porque nos recolheu ali. onde fomos attrahidos pelo convite de duas encantadoras creanças que correram pressurosas a fazer-nos as honras da... quinta. 

Antes de terminar. porem, devemos fazer uma rectificação dum erro commetido.

Huma das leituras a que nunca nos démos confesso-o, foi o do Flor Sanctorum. Por isso facilmente ao fallar da estatua que esta em Alcantara confundimos os santos e, dissemos, guiados pelo vulgo, que era um S. Pedro. 

Ponte de Alcântara, desenho de Nogueira da Silva, 1862.
Hemeroteca Digital

Hoje sabemos e com todo o arrependimento aqui estamos a penitenciar-nos, que aquella estatua, que aliaz tem um certo valor artistico, não é de S. Pedro, mas de S. João Nepomoceno, mandada ali collocar, em 1743, por D. João V, por occasião do alargamento da ponte e outros melhoramentos que o magnanimo rei realisou na cidade, e devida ao cinzel do esculptor italiano João Antonio de Padua. 

Lisboa, porta da cidade junto à ponte de Alcântara e estátua de S. João Nepomuceno.
Arquivo Municipal de Lisboa

Que nos perdoe o milagroso santo attendendo a que, afinal, não lhe fizemos mais do que o seu homonymo fez ao Christo — baptisal-o, pedindo-lhe desculpa de havermos substituido as margens do Jordào pelas... do caneiro. 

Nemo dat plusquou habet. (2)


(1) O Occidente n° 301, 1 de maio de 1887
(2) O Occidente n° 302, 11 de maio de 1887
(3) O Occidente n° 303, 21 de maio de 1887
(4) O Occidente n° 304, 1 de junho de 1887
(5) O Occidente n° 306, 21 de junho de 1887

Informação relacionada:
O Occidente n° 300, 21 de abril de 1887
Paixão por Lisboa, A Torre de Belém, e o Caminho de Ferro de Lisboa a Sintra
Caminho de Ferro monocarril sistema Larmanjat em Portugal

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Almeida Garrett, O Anno Novo

Amanhã começa o anno novo. Deus m'o dê mais venturoso que este. Vae-te em paz, anno de 23, que assás de perturbações e desgraças cá deixas em teu curso.

Warwick Castle, 1819.
The British Museum

Vê-se que os versos a que me referi, apesar de trazerem a data de Londres, foram compostos em Warwick, se effectivamente os fez ao tempo que indica. 

Pelo seu Diário sabemos que esteve em Edgbaston até quasi ao fim de janeiro de 1824; e nenhuma rasão temos para duvidar das datas d'esses apoutamentos. No dia de auno bom escrevia elle: 

1 de janeiro de 1824. O anno novo 

Edgbaston Hall drawn and engraved by T. Radclyffe,
published in A New and Complete History of the County of Warwick, 1829
Antique Prints

Melhorado venha este anno; e veja-o eu findar no socego da minha pátria. 

— Muito devo á terra hospitaleira, onde me abriguei da. tempestade de desgraças, que me ameaçavam na miaha pátria. Mas todavia, com que prazer lhe direi adeus se tão feliz fôr que á terra onde nasci me deixem ir acabar os meus dias. 

Oporto, A view of the mouth of the Douro from Massarellos, Batty, Miller, 1829.
  Arquivo Municipal do Porto

— Que trará comsigo este novo anno? Que projectos de ambição, que novos esforços de tyrannia apparecerão em seu decurso? Que novas oppressões para a raça humana? Teremos mais ainda que soffrer, ou melhorará em seus dias a triste sorte da humanidade? Assim o espero: quando não seja no velho mundo, ao menos em o novo alguns passos se andarão para a felicidade dos homens. 

— Não creio que a santa alliança consiga nada na America. A enérgica mensagem do presidente dos Estados-Unidos á assembléa alegrou-me, e me encheu de esperanças. 

— O Brazil, oh! que paiz abençoado, se o não perderem! Já eu lá estaria, se não receiasse que lhes falte o juizo para bem conservarem o que tão barato lhes custou, e tão caro ha custado a todos os povos. 

— Tenho não sei que presentimento que este anno que entra har de dar muito de si. Veremos, os que vivermos... (1) 


Bem vindo sejas, novo anno, e tragas
Melhorado teus dias mais propícios
A' minha pobre, malfadada pátria

E a meus fieis amigos.


Esse mal-agoirado que nos pêgos
Affundou hontem do Oceano, Apollo,
Não deu senão colheita de infortúnios,

Nem grannou outras messes

Mais que o joio semeado por mãos tredas
Entre os sulcos do trigo. Não mondado
A tempo, foi crescendo, e em flor ainda

Affogou a esperança

Do triste povo que a tam maus caseiros
Tam inexpertos deu suas lavoiras.
Que assim desmazellados lh'as perderam,

E quem sahe até quando?

Quem sabe quanto tempo ha de durar-lhe
O gelo d'este inverno em nossos campos,
Té que o derreta o sol, ora ennevoado.

Da amiga liberdade?

Dorme a vegetação n'essas sementes
Que á terra se lançaram. Mas eternas
As estações não são: teu dia, ó pátria.

Teu dia ha de chegar.

Londres — Janeiro. 1824 (2)



(1) Francisco Gomes de Amorim, Garrett, memórias biográficas, Tomo I, 1881
(2) Almeida Garrett, Obras completas, Vol. I

sábado, 22 de dezembro de 2018

A Lisboa de Rosa Araújo e Ressano Garcia (Avenida da Liberdade)

Lisboa, a nossa formosa capital, assento duma posição que invejam grande numero das principaes cidades da Europa, recostando-se por uma área extensa de terreno que se desdobra em valles fundos, e cabeços elevados, donde se gozam panoramas magníficos de variados aspectos; Lisboa, a cidade "que no mundo facilmente das outras é princeza", como diz o nosso Camões, debruçada sobre as aguas pujantes do formoso Tejo, onde se espelha garrida e descuidada, deve toda a sua belleza e importancia, antes á sua admiravel posição no ponto mais occidental da Europa e n'um dos melhoras portas do mundo, do que no trabalho dos seus naturaes.

Lisboa vista da Quinta da Torrinha Val Pereiro, gravura de William James Bennett sobre desenho de L. B. Parlgns.
Museu de Lisboa

Ha poucos annos ainda a desigualdade e descommodo das suas ruas, era proverbial na Europa, e as novas idades, nada mais tinham corrigido á sua antiga irregularidade, senão os grandes melhoramentos e reformas que o terremoto de 1755 fez romper do genio poderoso do Marquez de Pombal. 

Desde o grande homem para cá, em cem annos apenas ao fez o aterro da Boavista, importante melhoramento mas incompleto o acanhado e uma ou outro rua ou largo.

Em 1870, sendo ministro das obras publicas o sr. Joaquim Thomaz Lobo d'Avilla (conde do Valbom) foi por elle iniciado um projecto grandioso de um boulevard do Passeio Publico do Rocio ao Campo Grande, o que determinaria outras obras importantes aos lados d'aquella grande arteria.

D. Fernando II, Uma vista do Passeio Público, Leonel Marques Pereira, 1856.

Infelizmente as alteraçõea políticas quo promoveram a queda do gabinete do que fazia parte aquelle estadista, impediram a realisaçao d'aquelle projecto. 

Pede porém a Justiça que se faça remontar áquelle ministro a idéa inicial deste melhoramento.

Tudo ficou em projecto e ninguem mais tivera o arrojo de dar á execução aquelle plano, quando em 1879 o sr. José Gregorio da Rosa Araujo, presidente da Camara Municipal, propoz á municipalidado a abertura de uma via pouco mais ou menos na direcção indicada no plano d'aquelle estadista, mas em menores proporções.

Feito o projecto e aprovado o plano. foram inaugurados os trabalhou a 24 de agosto d'aquelle anno, pela demolição do antigo theatro do Salitre (Variedades), como ao pode ver a pag. 138 e 140 do nosso 2.° volume, começando os trabalhos de movimentos de terra a 22 de outubro immediato.

Teatro do Salitre (Variedades), 1879.
O Occidente n° 99, 15 de setembro de 1879

Deu-se a essa nova via, que como se ver da planta a pag. 216 começa no antigo passeio do Rocio, o nome de Avenida da Liberdade. Com de largura 89m,50 terminando numa rotunda de 100m de raio, junto ao quartel de Valle do Pereiro. 

Planta da futura Avenida da Liberdade sobre o traçado de aguns arruamentos existentes,1881.
O Occidente n° 99, 21 de setembro de 1881

D'essa rotunda partem symetricamente quatro ruas, sendo uma d'ellas a Avenida do Campo Grande.

Varias outras ruas preiteias ou perpendicular« á avenida completarão essa rede de communicações como a planta indica. 

As linhas ponteadas mostram as antigas ruas e travessas, que hão de deaapparecer quando as construcções estiverem concluidas. Como ainda o não estão, não deixaremos de dizer com Victor Rogo alguma cousa contra os angulos rectos. 

Estes são muito convenientes para a construcção e belleza das obras, mas para as comunicações mais rapidas o perfeitas não se devem desprezar as diagonaes, o que lembramos, porque só quem anda muito a pé sabe dar o valor a essa necessidade.

A obra da Avenida foi orçada em 475 contos de réis, excluidas as expropriações. D'estas, as que se acham já contractadas o realisadas, todas amigavelmente, importaram em 101 contos do réis, e as que devem realizar-se importarão em 200 contos, pouco mais ou menos.

Entre as obras complementares d'esse novo bairro avulta um mercado vasto e proprio de urna grande capitai, o qual embora hoje fique fóra do fóco da povoação mais densa, deve em futuro pouco remoto assumir toda a sua importancia, attenta a sua posição no ponto mais central da cidade, e em terreno onde se lhe podem dar á vontade todas as condições o vantagens quo a moderna scioncia exige. 

A nossa opinião é que em projectos trama ordem se deve olhar ao futuro e não ao presente.

Os trabalhos já hoje executados em demolições, atterros, muros de supporte e de vedação, tem importado em 30 contos de réis, e estão sendo dirigidos pelo engenheiro o sr. Antonio Maria d'Avellar.

Obras da Avenida da Liberdade, António Ramalho, 1881.
O Occidente n° 99, 21 de setembro de 1881

Deve-se pois ao sr. Rosa Araujo, e ás municipalidades que tem gerido os negocios municipaes desde 1879, uma das obras mais importantes da capital que ao completará com o Bairro Camões anexo, inaugurado a 11 de junho do 1880 por occasião dos festejos do centenário do nosso épico e a que nos referimos no nosso n.° 62 d'esse anno [v. O Occidente n° 62, 15 de julho de 1880]. (1)

Obras da Avenida da Liberdade, António Ramalho, 1881.
O Occidente n° 99, 21 de setembro de 1881

Quando em 1879 a camara municipal de Lisboa inaugurava as obras da avenida da Liberdade pela demolição do velho theatro e praça do Salitre, houve muito quem duvidasse que essa obra se tornasse uma realidade e que tivesse um andamento regular, intendendo as grandes despezas que demandava, pelas expropriações que era preciso fazer-se e pelo grande numero de braços que era mister empregar-se, para a terraplanagem d'aquella enorme estrada.

Effectivamente a obra era tão arrojada para os recursos relativamente escassos do municipio, que se receiava muito pelo seu andamento e, ainda mais, pela sua conclusão.

Lissabon von der Quinta da Torrinha - Val de Pereiro. Umgebunge von Lissabon.
Aus der Geographischen Graviranstalt des Bibliographischen Instituts zu Hildburghausen, Amsterdam, Paris u. Philadelphia.
Author: Meyer, Joseph (1796-1856) Society for the Diffusion of Useful Knowledge (Great Britain), 1844.
  Cabral Moncada Leilões

Uma grande vontade estava, porem, empenhada n'esta empreza, e é de justiça que se diga que essa vontade de ferro, que vencia todas as ditliculdades, com uma idea fixa: a de promover todos os melhoramentos da capital tanto quanto fosse possível, era a do sr. Rosa Araujo, presidente da camara municipal, a quem Lisboa muito deve pelos melhoramentos que sob a sua administração licita se tem realisado.

A avenida da Liberdade, que assustava toda a gente, é já hoje um facto consummado, apesar de ainda não estar concluida.

As expropriações mais importantes já de ha muito se fizeram, e o grande quarteirão de predios que formava a praça da Alegria de baixo e o principio da rua do Salitre e a travessa das Vaccas, lai desappareceram, deixando em seu logar uma ampla arca, por onde já proseguem os trabalhos de terraplanagem, como se pode ver no primeiro plano da nossa gravura.

Vale do Pereiro), estado actual das obras na Avenida da Liberdade, Ribeiro Cristino em O Occidente, julho de 1885.
O Occidente nº 235, 1 de julho de 1885

O Passeio Publico do Rocio, que por tanto tempo resistiu ao cammartelo municipal, tambem desappareceu, deixando lugar á entrada triumphante da avenida com toda a sua amplidão, onde ha ar e luz e onde a população dc Lisboa já principia a gosar os seus belos effeitos.

As obras alli por conta da camara estão tomando mais desenvolvimento e a iniciativa particular vai completando o resto, com a construcção de grande numero de predios, alguns dos quaes já esperam pela avenida nas proximidades de Val-do-Pereiro.

A gravura que publicamos dá uma idea do estado das obras, mostrando a grande perspectiva que a avenida já apresenta olhando do norte para o sul. (2)


(1) O Occidente n° 99, 21 de setembro de 1881
(2) O Occidente nº 235, 1 de julho de 1885

Artigo relacionado:
Val de Pereira

Informação relacionada:
Frederico Ressano Gaecia (Lisboa, 1847-1911), biografia
Ressano Garcia (1847-1911): no Centenário da sua Morte
Ressano Garcia na colecção da Hemeroteca de Lisboa
Avenida da Liberdad'e, O António Maria, 28 de agosto de 1879
Uma grande figura desaparecida, Illustração Portugueza n.º 292, 25 de Setembro de 1911
Ruas de Lisboa com alguma história

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Le Luthier de Lisbonne

A nova peça que está neste momento em voga no Gymnasium, o "Luthier* de Lisbonne", faz as delícias do público. O cartaz anuncia um personagem desconhecido; mas assim que este entra em cena, toda a gente ri e aplaude, e todos compreendem que o actor imita D. Miguel nas suas vestes, na sua fantasia e em os seus ares; ele dá a entender por mais de um sinal que é rei, e eis a peça.

Le Luthier de Lisbonne, Scribe et Bayard, 1831.
Gallica

Quanto mais o desconhecido se comporta de maneira estúpida, ignóbil e bárbara, maior é a alegria do público que não perde nem um gesto. nem uma palavra. Um motim forçou-o a refugiar-se na casa deste luthier, que é o realista mais devotado do mundo, mas que tem a infelicidade de ser o marido de uma mulher muito bonita.

Um dos favoritos de D. Miguel forçou esta ultima a marcar um encontro para a noite seguinte, e pede ao rei, que chega entretanto, a ajudá-lo e a cortar o pescoço do marido."De bom grado", D. Miguel responde, e enquanto o luthier, que o reconheceu e transborda de alegria, se prosta a seus pés, ele assina a sentença de morte deste infeliz, assim como a de seu favorito, ao qual ele quer tomar o lugar junto da bonita mulher.

A cada nova crueldade que ele comete, nós aplaudimos, nós rimos, e esse estúpido D. Miguel de Teatro dá-nos o maior dos prazeres. Assim termina o primeiro acto.

Le Luthier de Lisbonne, Scribe et Bayard, 1831.
Gallica

No segundo, é meia-noite; a mulher bonita está só, muito inquieta; D. Miguel introduz-se na sua casa pela da janela e dá-se a todos os trabalhos do mundo para ganhar, em pleno teatro, o seu amor.

Ele fá-la dançar, cantar perante si; mas ela não o pode suportá-lo, implora-lhe de joelhos para poupá-la, ao que D. Miguel a agarra e arrasta por diversas vezes de uma extremidade da cena à outra. Se ela não pegasse numa faca e se ao mesmo tempo não batessem à porta, tudo isto poderia ter acabado mal para ela.

Le luthier de Lisbonne, vaudeville de Scribe et Bayard, costume de Léontine Fay.
Gallica

No final, o bom luthier ainda salva o rei das mãos dos soldados franceses que acabaram de chegar, e dos quais este último, tem um medo terrível por causa de sua bravura e amor pela liberdade. 

Assim termina a peça para a satisfação geral. (1)

A semana foi dura para D. Miguel, em Londres um lugar no discurso da coroa, em Paris um vaudeville contra si de M. Scribe.

Este vaudeville, de M. Scribe, contra D. Miguel é do mais insípido felizmznte; os amadores de panfletos sem espírito, sem gosto e sem coragem, ligarão o Luthier de Lisboa, com a Epístola às mulas de D. Miguel... (2)



(1) Felix Mendelssohn Bartholdy, Lettres inédites de Mendelssohn
(2) Revue des Deux Mondes, tome 4, 1831

Leitura relacionada:
Le luthier de Lisbonne, anecdote comtemporaine en deux actes, mêlée de vaudevilles, Scribe et Bayard, Paris, Pollet, 1831
Épitre aux mules de Don Miguel, J.P.G. Viennet. Viennet, Jean-Pons-Guillaume, 1829

Gallica:
Le luthier de Lisbonne


*Luthier (Liutaio pt.) - Aquele que fabrica ou repara instrumentos de corda com caixa de ressonância.  

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

A partida do príncipe de Joinville para a marinha

Na primavera de 1831, com a idade de 12 anos, o príncipe de Joinville [François d'Orléans] prepara-se para partir como piloto voluntário na fragata Artémise com o propósito de fazer carreira na Marinha.

A partida do príncipe de Joinville para a marinha, Raymond Auguste Quinsac Monvoisin.
Sotheby's

Capitão de fragata aos vinte anos, contra-almirante aos vinte e cinco, revela-se um excelente marinheiro e contribuiu para o triunfo do uso da máquina a vapor na marinha francesa.

Monvoisin representa o momento em que Joinville se despede de sua família, que nunca tinha deixado antes, na presença de seu tutor, o sr. Trognon, encarregado de velar pelo príncipe. (1)


(1) Sotheby's

Artigos relacionados:
Príncipe de Joinville
D. Francisca Carolina de Bragança, la bella Chica ou la belle Françoise, princesa de Joinville
Velhas lembranças, François d'Orléans, 1842 (1 de 5)
Velhas lembranças, François d'Orléans, 1842 (2 de 5)
Velhas lembranças, François d'Orléans, 1842 (3 de 5)
Velhas lembranças, François d'Orléans, 1842 (4 de 5)
Velhas lembranças, François d'Orléans, 1842 (5 de 5)
Os Joinville e A morte de Camões de Domingos Sequeira

Informação relacionada:
Diário De Um Príncipe No Rio De Janeiro
O Diário da Viagem de D. Francisca de Bragança
"Palácio dos Príncipes" - Joinville (fb)
Brasil: Una biografía
Isabel Lustosa, D. Pedro I. Um herói sem nenhum caráter, S. P., Companhia das Letras, 2006
Château de Versailles (Les collections)
#‎laminutelouisphilippe‬ (Château de Versailles)