quarta-feira, 22 de março de 2017

Leão d'Ouro (1905) nova sala

Já agora ficará celebre na historia da arte em Portugal pelos tempos fóra, este titulo opulento com que o sr. Antonio Monteiro baptisou a sua cervejaria ou restaurante da rua do Príncipe, ha bons vinte annos passados; e não só a cervejaria, mas ainda o grupo de artistas, que menos o ouro, tomou aquella denominação, ou antes o publico lh'a deu, por ali se reunirem todas as noites ao cavaco e a conspirarem para a grande revolução que levaram a cabo na arte nacional, com a primeira exposição de pintura moderna, tendo á frente Silva Porto, o mestre, o revolucionario... da palleta, que tão cedo havia de deixar envolta nos crepes da morte.

Poente com pombos, Moura Girão, 1905.
Imagem: Provocando uma teima

Entretanto a sua obra ficou e os sobreviventes continuaram na brécha, embora um ou outro tenha resvalado tambem para o tumulo, como Leandro Braga, Raphael Bordallo, e não nos lembra agora se mais algum.

Mas não é de mortos que vimos faltar, senão de vivos. dos que ainda restão d'esse glorioso "Grupo do Leão", cuja vitalidade se manifesta em obras e progressos que não deixarão apagar sua fama.

Agora, como ha vinte annos, são os artistas d'esse grupo, que vem decorar com seus quadros uma nova sala do restaurante "Leão d'Ouro". Ha vinte annos foram os artistas que tomaram a iniciativa de decorarem a primeira sala d'aquelle restaurante e, então offereceram os seus quadros, onde se encontra a grande tela de Columbano em que figuram todos os do grupo á mesa de lauta ceia. 

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel Henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: MNAC

Hoje foi o sr. Antonio Monteiro que bizarra e generosamente tomou a iniciativa de convidar os artistas para decorarem a nova sala, dando assim frisante prova da muita consideração por aquelles que tornaram o seu restaurante celebre fazendo ali, por assim dizer, um centro artístico. 

António Monteiro, 1905.
Imagem: Hemeroteca Digital

O sr. Antonio Monteiro manifestou o desejo que a nova sala fosse decorada com quadros pintados pelos artistas sobreviventes do "Grupo do Leão", e para esse fim pediu ao sr. João Vaz para se entender com os seus collegas sobre a melhor fórma de realisar seu proposito.

João Vaz convidou então Columbano Bordallo Pinheiro, José Malhôa, Antonio Ramalho (que ao tempo da decoração da primeira sala estava ausente no estrangeiro), Moura Gyrão, D. Maria Augusta B. Pinheiro e Ribeiro Christino a apresentarem as condições de cada trabalho de pintura: o mesmo artista projectou a divisão dos espaços a decorar que, pelas condições constructivas da sala tinham de ser de diversos formatos; os apainelados e emolduramentos em, que as pinturas seriam collocadas.

Columbano, 1905.
Imagem: Hemeroteca Digital

Foi dado como maximo praso de tempo para a execução da tarefa, seis semanas, para se poder reabrir o "Leão d'Ouro" em sabbado d'Alleluia, 22 de abril de 1905.

José Malhoa, 1905.
Imagem: Hemeroteca Digital

N'essa data foi pontualmente feita a reabertura com tudo concluído. Aproveitou-se o encerramento do restaurante, para ser renovada a primeira sala, limparem-se os antigos quadros, e renovaram-se as molduras, ficando a sala muito mais clara.

Maria Augusta Bordalo Pinheiro, 1905.
Imagem: Hemeroteca Digital

Contrasta muito a nova sala pela luminosidade e vivacidade dos quadros emoldurados a branco e oiro nos filetes; a base dos arcos da sala tem golphinhos dourados e no alto 6 grandes pratos decorativos da fabrica de faianças das Caldas da Rainha recorda Raphael Bordallo Pinheiro, o saudoso ceramista e caricaturista.

A nova sala do Leão d'Ouro — decorada pelos artistas do Grupo do Leão, Ribeiro Christino, 1905.
Imagem: Hemeroteca Digital

Os quadros ou "panneaux" decorativos são seis, divididos cada um em tryptico; as composições seguem porém como se tosse um quadro só, excepto a de Malhôa que contem tres assumptos diversos sob o titulo de apotheose da lagosta; o do meio representa, n'um rico salão iluminado tendo colgaduras e flôres, uma grande mesa de banquete sobre a qual de pé um menino de monoculo e charuto, rodeado de outras creanças, algumas com chapeus de senhora, brindam com champagne, o prato da lagosta, trazido por ares e ventos por outros bébés vestidos de cosinheiros com aventaes e barretes brancos.

Apoteose da lagosta, José Malhoa, 1905.
Imagem: Nuno Saldanha, José Vital Branco Malhoa

Na esquerda um outro garotete, feito creado, transporta iguarias. Na direita, como n'um terraço ao ar livre, de noite, um petiz dorme encostado a uma mesa redonda, emquanto outro debruçado sobre a balaustrada vae alijando para fora a demasiada refeição.

Fronteiro está o quadro de Columbano, tambem com dois pequenitos, um dos quaes com soberbo gesto levanta um rico panno de velludo carmezim descobrindo uma grande mesa com comestíveis, taes como: aboboras, limões, maçãs, um pato e cabrito já mortos.

Apoteose aos frutos, Columbano, 1905.
Imagem: Margarida Elias, Columbano e as Caldas da Rainha

A seguir a este e do mesmo lado, João Vaz representa o Lavradio cheio de sol espelhando-se no tranquilo Tejo de cristal, fragatas com velas soltas reflectem-se n'agua por sobre a qual bandos de gaivotas revôam.

João Vaz, 1905.
Imagem: Hemeroteca Digital

O quadro produzido por Moura Gyrão [v. acima] está defronte do de João Vaz; n'um suave poente destaca-se uma cortina de alvenaria tendo estendido um belo chaile de seda amarela sobre o qual dois pombos arrulham; ao longo pinheiros, plantas no primeiro plano e á direita uma florida olaia alindam a paysagem.

Moura Girão, 1905.
Imagem: Hemeroteca Digital

A seguir a este, representa Ribeiro Christiano os campos do Liz alteando-se ao centro o imponente castello historico de Leiria, que tudo se divisa para além do choupal que emoldura o rio, cantado por Rodrigues Lobo; á esquerda braceja os ramos d'um carvalho tendo em volta lyrios, margaritas, papoilas e outras flôres campesinas; á direita, n'um monte cheio de urze florida, alveja um casal e uma seara, por detraz os pinheiros coroam o monte, ao segundo plano, uma leiriôa com uma pequenita, transporta fructas n'um pocesso á cabeça.

Ribeiro Cristino, 1905.
Imagem: Hemeroteca Digital

Em face Antonio Ramalho representa uma parte da matta do Bussaco com os altos cedros e multidão de arbustos, elevando-se no centro o grande palacio neo-manuelino; nos ares uma figura feminina alada espalha flôres sobre a matta.

António Ramalho, 1905.
Imagem: Hemeroteca Digital

Na parede do fundo em duas tiras apaineladas D. Maria Augusta Pordallo Pinheiro pintou dois delicados festões de rosas brancas e vermelhas. 

Festão de rosas, Maria Augusta Bordallo Pinheiro, 1905.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Um lambri imitando couro lavrado reveste a parte inferior da sala fazendo fundo ao mobiliario. Tal é no seu conjuncto a nova sala artistica em que, parece remoçou o "Grupo do Leão".


(1) Occidente n.° 951, 30 de maio de 1905

Leitura relacionada:
Os quadros do "Leão d'Ouro", Diário de Lisboa, 7 de abril de 1939
Catalogo Leilao 150 Palacio do Correio Velho, realizado a 7 de Junho de 2005
Nuno Saldanha, Artistas e Espaços de Sociabilidade no século XIX, O “Leão d’Ouro”... (1885-1905)
Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra
Provocando uma teima
Margarida Elias, O Grupo do Leão de Columbano Bordalo Pinheiro...
Margarida Elias, Columbano e as Caldas da Rainha
Clara Moura Soares, A Galeria de Pintura do Restaurante "Leão de Ouro":
Percursos de uma Colecção, ARTIS,
Revista do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras de Lisboa, nº 6, 2007
Restos de Colecção

sexta-feira, 17 de março de 2017

Leão d'Ouro (1885) cervejaria museu

Em boa hora d'enthusiasmo innovador os fantasistas pintores, que compõem o triumphante "grupo do Leão", — tão celebrado já e estabelecido e applaudido n'esta capital formosa, que é de marmore e de fabuloso granito sobretudo para as esturdias manifestações artisticas,— se lembraram de decorar originalmente as paredes da escolhida cervejaria onde passam as noites em alegre convívio amigo, e que, depois de certa mudança, se investiu do titulo colorido de "Leão d'ouro", como que evocando a tradição lentamente apagada das velhas estalagens, que se vão esborrondando e sumindo na poeira tenebrosa e bafienta do esquecimento, numa sepulchral subversão de romantisados cardanhos ramalhetados com verde loureiro, rubicundas e roliças Maritornes, maus lençoes povoados de pulguedo, guisados frustes d'aldeia, vinhos azêdos, nao esquecendo os celebres assaltos feitos, ás horas caladas da noite, por barbudos homens de fera catadura reforçada pelo trabuco das lendas.

Azulejos fingidos, Raphael Bordallo Pinheiro (detalhe), editado com desenho de João Ribeiro Cristino, 1885.
Imagem: Provocando uma teima & O Occidente n.° 229, 1 de maio de 1885

Pois, vivamente impulsionados pelo seu capricho, e com um absoluto desinteresse quasi nababico, conseguiram em pouco tempo transfor-mar uma loja acachapada de tosca estructura, n'uma especie d'interessante museu-livre, faustosa-mente forrado com pinturas opulentas, de caracter vario, nas quaes cada um pôz sem duvida o melhor do seu talento, atiçado pelo esforço nobre d'emulação n'este pittoresco, saudavel, e fecundo concurso.

E creio que d'ora em diante muito forasteiro ha de ir no Leão d'ouro examinar attentamente os quadros que o ornamentam, se lhe convier saber qual o cothurno e o pulso d'alguns modernos artistas portuguezes, que ainda não acharam nas galerias nacionaes, albergadas sob a negra aza madrasta do peco estado, um pobre modesto logar para uni só quadrinho bem pequenino. 

Entra-se, e olhando para a direita por uma supersticiosa precaução d'enguiço, admira-se logo a tela ampla onde Malhoa pintou um effeito ridente, vermelho e radiante d'alvorada, desabrochando luminosamente sobre um deserto brejo, n'uma suprema explosão d'ouro e sangue transparentemente fundidos, com alguns farrapos isolados de nuvem que parecem coagulados, escurecidos e avéssos á serena festa musicante da mocidade do dia, gorgeiada pelos passaros.

Paul da Outra banda, Pântano, Vista do Alfeite, Charco de Corroios, José Malhoa, 1885.
Imagem: Blog do Noblat

Debaixo do ceu resplandecente a paysagem plana e verdosa desdobra-se ainda confusamente, empastada de sombras, acreamente velada pela fulva luz diaphana que vem amarellecer as aguas baças do primeiro plano, onde umas tufadas tabúas se ramificam n'uma disparatada mancha japoneza, emquanto que, do outro lado, um barco escavacado emerge a prôa limosa e podre, lembrando a cabeça informe d'um monstro habitante da soalheira laguna.

Evidentemente o artista apaixonou-se pelo seu assumpto, que lhe pediu urna verdadeira pyrotechnia de cor; foi sincero e exuberante, surprehendendo o flammame espectaculo da natureza acordando festivalmente; e com o pincel soube fazer obra de poeta. É tambem de Malhôa uma tira ao alto, trabalho de pequeno (alego, em que, por traz diurnas enroscadas ramarias dc macieira em flór, se vê uma torre de negro aspecto perfilada no ar e cercada pelo vôo torneante e brincalhão das andorinhas, repatriadas no cortejo da primavera.

Em seguida, encontra-se um destes quadros magistraes de Silva Porto, uma paysagem repousada feita com a sua experiente superioridade, que sempre nos faz a impressão de que cada tom e cada toque por elle empregados sabem perfeitamente o togar que occupam, na obra d'arte, compenetrados e orgulhosos.

Enche o lado esquerdo da tela uma cerrada massa verdenegra d'altas oliveiras, com as espessas folhagens duras esburacadas dc sombras, os grossos troncos pardos e retorcidos sahindo do solo como convulsos braços de gigantes mal enterrados; algumas cabras pretas trituram hem pacificamente, no primeiro plano; depois, sob a aunosphera azul manchada largamente dc branquejantes nuvens, estende-se o campo vestido d uma verduira intensa, saciada de humidades, pondo em destaque algumas esqueletaes arvores nuas e outras já toucadas d'uma florente brancura primaveral. O conjuncto é d'uma tranquilla harmonia, simples e forte como a natureza. 

O quinteiro (Carriche), Silva Porto, 1885.
Imagem: Veritas

João Vaz tem uma marinha, d'um encantador effeito decorativo. O sol pôe-se, atravessando um dourado luzeiro translucido por cima d'uma lingua de casaria lisboeta, que se acinzenta na sombra; e nas aguas mansas do Tejo, onde o ceu esfumadamente brumoso se reflecte, uns barcos tapam o alvacento horisonte com o vulto escurentado das suas velas em calmaria, escorridas.

Ha um socego em todo o quadro, illuminado d'uma tepida claridade vaporosa e como coada, e executado sobriamente n'uma tonalidade quente e doce, alourada por vezes, que o torna um bello pedaço de pintura risonha, e ao mesmo tempo caractenstica n'esta cidade de beira-mar.

Monteiro Ramalho. (1)

Naturalmente, Raphael Bordallo descobriu e executou, com a sua graça incessante, cousa que destacasse, risse áparte pela sua barulhenta novidade foliã.

N'um painel de azulejos, — porque estão imitados, realisados tão enganadoramente, que ninguem se atreve a farejar sequer a existencia de uma recondita e suterrada tela, — Bordallo tracejou espirituosamente as divertidas caricaturas de todos os bons companheiros do grupo, mostrando cada qual pelo mais saliente e typico lado da sua individualidade ou da sua pessoa.

Azulejos fingidos (detalhe), Raphael Bordallo Pinheiro, 1885.
Imagem: Provocando uma teima

Assim, o Alberto de Oliveira, esgrouviado e louro, com a jubosa cabelleira esvoaçate, procura amavelmente trespassar um catalogo ao refestelado e sceptico leão, que o acolhe com um riso marôto, emquanto saboreia a sua cachimbada fumosa; o pacato, brando e quedo Silva Porto cavalga turbulentamente um touro, agarrando-lhe os agudos cornos n'um jubilo de animalista;

Silva Porto, Ribeiro Christino e Alberto Oliveira
Azulejos fingidos, Raphael Bordallo Pinheiro, 1885.
Imagem: Provocando uma teima

Vaz anda escarranchado n'uma canõa virada; Malhôa, não contente com o seu vezeiro costume de furtar arvores para as suas paysagens, arrancou uma algures e lá vae com ella ao hombro;

José Malhoa
Azulejos fingidos, Raphael Bordallo Pinheiro, 1885.
Imagem: Provocando uma teima

Vieira, com a sua gorducha cara alegrada pela sempiterna risada, avança hilariantemente a cabeça d'entre as folhas d'uma rosa; o Columbano, baixinho e ironico, empunha vigorosamente a sua enorme paleta carregada de tintas, tendo perto o sorridente Martins que prepara os seus pinceis; Antonio Ramalho, pequenino e rotundo, faz o oficio de rir, pousado nas alturas como um gordo pardal bigodoso;

emquanto que o Gyrão, com uma cabeça expressiva de inspirado, ala-se montado n'um allo fantasmagorico, seguido de um comico bando de coelhos armados de lapis, e precedido por uma ranchada corredora de patos a quem o Pinto abre caminho, calvo e agitando as suas curtas azas batentes de joven gallinaceo.

Moura Girão Manuel e Henrique Pinto
Azulejos fingidos, Raphael Bordallo Pinheiro, 1885.
Imagem: Provocando uma teima

Emtanto Christino abre alvoroçadamente o seu indispensavel guarda-sol, como que precavendo-se contra o vento de loucura que saccode freneticamente os seus camaradas; e o proprio Raphael parece fugir á tempestade ruidosa que semeou, rindo rasgadamente, pansudo e elegante como um sileno mundano, ás cavalleiras no seu corpulento e nervoso gato assanhado, que não tarda a desabar estouvadamente em cima do nosso amigo Manuel e do seu consolado patrão.

Eu cá, francamente, acho que esta extravagante comeostção bohemia é uma das mais fulgurantes fantasias, que tem produzido a verbo endiabrada do brilhante satyristo. Que o dono da casa lambem apanhou o seu retrato, collocado justamente sobre o reposteiro luxuoso em que a sr.a D. Maria Augusta Bordallo maravilhosamente bordou um chimerico leão batalhante.

Pintou-o Columbano, que lhe quiz dar um curioso aspecto archaico, parodiando certas obras-primas ingenuas e trabalhadas de Alberto Durer.

É magnifica a esguia tela em que Vieira aninhou perfumosamente algumas rosas sensuaes emmolhadas com begonias, debaixo d'uma fófa cortina amarella com prégas quebradas, por onde a sombra negreja.

Este fino colorista, cuja rica paleta rutila promessas, nunca por certo nos mostrou, como neste quadro delicioso e d'um solido valor, uma felicidade d'execução tio segura, fresca, espontanea, e cheia de luz. 

Com um attrahente assumpto muita vez usado — e reusado — e renovado, dilecto ao seu pincel que lhe sabe aproveitar habilmente a variada abundando, Gyrãoo fez um quadro de primeira ordem, onde uns bonitos coelhos em sucia róem folhas de couve vorazmente, dentro de uma capoeira espaçosa, emquanto que um altivo gallo, duma naturalidade admirava!, olha d'alto empoleirado numas grades, tendo ao lado a passiva gallinha aninhada e uma pequena cascata de hervas pendentes, salpicadas de floritas. 

Uma capoeira, Moura Girão, 1885.
Imagem: Provocando uma teima

Por seu lado, Christino deu uma vistosa e agradavel paysagem, com um curvo riacho de aguas verdoengas e lisas, sobre que se debruçam os choupos reverdecidos da tenra folhagem recem-aberta, deixando desafogado o primeiro plano onde umas atarefadas lavadeiras esfregam a sua roupa suja laboriosamente.

E estamos em frente da obra, que soberbamente tem provocado o mais pertinente interesse. É um vasto quadro pintado por Columbano, no qual reapparecem os do "grupo do Leão" reunidos familiarmente em torno de urna longa mesa onde pouco pantagruelicamente figuram reluzentes copos com restos de cerveja ou de vinho, preferido pelos rapazes mais abertamente meridionaes, com uma airosa basofia de raça.

As figuras são de tamanho natural, postas n'uma pittoresca desordem, em altitudes desalinhadas e á vontade de quem está abandonadamente n'um facil cavaco intimo, chalaceando e rindo, ou escutando n'uma indifferença; — e é extraordinaria a pujança brusca, impetuosa, fluente, como agitada de uma febre de observação feliz, com que o valente pintor brochou todos estes corpos bem animados da real vida, colhidos, transplantados victoriosamcnte da sua existencia de cada dia.

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel Henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: MNAC

É um trabalho de mestre, com proporções quasi athleticas, que indubitavelmente lhe veem da facunda e poderosa factura; nem mesmo se repara na carestia da côr: tamborila-nos insistentemente na lembrança um Franz Halls, um Rembrandt, e, numa vaporisaglio de reminiscencia, as figuras surgem-nos vagamente com largos chapeus cavalleiros ou górros farfalhudos de plumas, negros gibões avivados dc rendas, espadas, pedrarias. Ha profundos defeitos, que diabo, palpavets, graúdos, inexoraveis; mas se o grande talento rebelde do Columbano não encerra o dom da pachôrra, e descuida portanto os lados mais materiaes da arte, na presença d'uma obra d'este alcance temos decididamente que lhe perdoar isso, e sem nos fazermos rogados, porque ahi está o grão mestre pintor Rubens que não é positivamente o que se diz perfeito.

Columbano.
Azulejos fingidos, Raphael Bordallo Pinheiro, 1885.
Imagem: Provocando uma teima

Bofé, amigos meus, que não sei se esta afortunada casa é uma cervejaria, ou "restaurant" ou café, ou botequim, ou o quê; sómente me quer antes parecer que é um benefico e hospitaleiro museu, onde uma pessoa que se preze dc bom gosto póde digerir extasiadamente, n'uma capitosa contemplação d'obras d'arte.

Monteiro Ramalho. (2)


(1) O Occidente n.° 229, 1 de maio de 1885
(2) O Occidente n.° 230, 11 de maio de 1885

Leitura relacionada:
Os quadros do "Leão d'Ouro", Diário de Lisboa, 7 de abril de 1939
Nuno Saldanha, Artistas e Espaços de Sociabilidade no século XIX, O “Leão d’Ouro”... (1885-1905)
Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra (v. p. 55)
Provocando uma teima
Margarida Elias, o Grupo do Leão de Columbano Bordalo Pinheiro...
Clara Moura Soares, A Galeria de Pintura do Restaurante "Leão de Ouro":
Percursos de uma Colecção, ARTIS,
Revista do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras de Lisboa, nº 6, 2007
Restos de Colecção

quarta-feira, 15 de março de 2017

Sr. Manuel da cervejaria Leão

Emquanto á instituição que os protege, essa instituição é o sr. Manuel, moço da cervejaria Leão. 

O Grupo do Leão (detalhe), o Manuel em destaque ao centro, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Imagem: MNAC

Porque o sr. Manuel não ensina aos artistas coisa nenhuma, não lhes marca falta na pauta, nem lhes diz asneiras tossindo de papo, arrotando-lhes estethica por detraz do hombro, e gesticulando para o modelo com a bola do pão ou com o carvão em pitada entre os dedos. 

O sr. Manuel contenta-se em se lhes rir para os quadros com uma bondade espirituosa, em lhes servir á mesa nos jantares do restaurante, e, segundo nos affirmam pessoas fidedignas, — em lhes fazer credito.

A cervejaria Leão d'Ouro, inaugurada em 16 de abril de 1885, desenho do natural por João Ribeiro Cristino.
Imagem: Hemeroteca Digital

Se isto assim é, — so effectivamento tu fazes credito, ó magnanimo Manuel! Ó meço sublime! eu que estas regras escrevo, te bendigo o ti: abençôo, porque n'esta terra de falsos mecenas, de falsos mestres o do falsos criticos, tu és o verdadeiro, o unico protector das nobres artes. 

Palavriado temos ouvido muito; cruzes do lagarto quantas se queiram; de alimentos — nada!

Manuel da cervejaria Leão, Raphael Bordallo Pinheiro, 1881.
Imagem: Hemeroteca Digital

Fazendo credito simplesmente, tu prehenches os nossos votos mais caros. O que é futuro todo d'um artista Portugal senão isso: — a perspectiva d'ouro do bife com batatas ou da costeleta com hervas, affiançada por quinze dias! Podémos adormecer em paz, meus senhores. 

A arte tem de comer, Deus existe, Manuel vela! (1)

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel Henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: MNAC

Emfim é d'esta meza servida, protegida, defendida, pelo Manuel, um dos criados da "brasserie", de grandes suissas pretas, e que, á força de convivencia com umas poucas de camadas de artistas, que tem passado por aquella meza tradiccional, dá opiniões sensatas, outras vezes um tanto arrojadas — sr. Manuel! — sobre as estampas das illustraçães e acompanha, sem nunca desafinar, em todos os coros que o grupo levante, ou de indignação por algum acto que podesse rebaixar a arte, ou de applauso por algum novo trabalho revelador de merito. (2)


(1) [Ramalho Ortigão?] O António Maria n.° 134, 22 de dezembro de 1881
(2) Marianno Pina, O Grupo do Leão, Diário da Manhã, 15 de Dezembro de 1881

domingo, 12 de março de 2017

Senhor dos Passos da Graça

Aconteceu, numa noite de tempestade, que um pedinte bateu à porta do convento de S. Roque, almejando a hospitalidade dos seus residentes por alimento e alojamento. O primeiro foi-lhe concedido, mas o segundo foi-lhe negado. Tendo sido obrigado a procurar alojamento noutro sítio, dirigiu os seus passos para o convento de N. Sr.a da Graça, onde os frades o receberam sem a menor hesitação e lhe deram uma cela para passar a noite. 

Procissão do Senhor dos Passos da Graça, A.P.D.G., Sketches of Portuguese life (...).
Imagem: Internet Archive

Na manhã seguinte, como o pedinte não aparecia, alguns dos frades foram à cela procurá-lo; foi quando, em vez do pedinte, encontraram uma grande figura do nosso Salvador carregando a cruz para o Monte Calvário, dobrando-se sobre o seu peso: — a figura, em resumo, é venerada pelos portugueses como "O Senhor dos Passos da Graça".

Agora, sendo firmemente acreditado, que a figura é o próprio Nosso Senhor, e assim se deu aos frades da Graça para recompensar a sua hospitalidade, os frades de S. Roque reclamam o direito a ela também, baseando-se no facto de o pedinte ter primeiro batido à sua porta, e ter recebido comida de suas mãos. 

Esta é então a causa do litígio; e como parece não ter fim à vista, ficou acordado que, entretanto, o Senhor dos Passos deve fazer uma visita anual ao mosteiro de S. Roque durante a Quaresma e regressar nesse dia da semana ao convento da Graça.

Mas o que nesta procissão mais merece a atenção dos protestantes estrangeiros, é o grupo de pessoas, que envergando paramentos dos cavalos, vão de gatas sobre as suas mãos e joelhos, debaixo da imagem, através da lama e das poças, toda a distância entre os dois conventos. (1)


A.P.D.G., Sketches of portuguese life, manners, costume and character, London, Geo. B. Wittaker, 1826

sexta-feira, 10 de março de 2017

A Cidade Global para além das Janelas Verdes

Em finais de 2015, é editado em Londres (com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian) o livro de Annemarie Jordan Gschwend e K. J .P. Lowe, The Global City: On the Streets of Renaissance Lisbon, recentemente galardoado pela Academia da Marinha e amplamente celebrado pela crítica internacional.

Rua Nova dos Mercadores, autor desc., séc XVI.
Imagem: Julia Dudkiewicz, Dante Gabriel Rossettis' Collection of Old Masters at Kelmscott Manor...

Nele, as autoras fazem uma reconstituição do ambiente da cidade de Lisboa no ciclo longo dos Descobrimentos, a partir de dois quadros que haviam identificado como uma representação da Rua Nova dos Mercadores, a principal artéria comercial no período do Renascimento.




Pelo ineditismo da sua visão e objetiva relevância histórica, o MNAA entendeu convidar as autoras a adaptarem o livro a uma exposição: A Cidade Global. Lisboa no Renascimento, que [foi] será inaugurada a 23 de fevereiro [de 2017].

Nesta mostra, que conta ainda com o contributo de Henrique Leitão, Prémio Pessoa 2014, como consultor para a História da Ciência, a visão do livro surge ampliada, ao mesmo tempo que se reformula e amplifica o plano ilustrativo, mobilizando um conjunto, o mais diversificado possível, de acervos, públicos e privados, nacionais e internacionais, numa amostra inédita de obras, todas creditadas ou pela documentação ou pela comunidade científica.

Lisboa Arte Pintura Rua Nova dos Mercadores aut desc sec xvi 06 MNAA.
Imagem: MNNA

Foi também alargado o núcleo dedicado à evocação da Lisboa de então, onde se buscou reunir exaustivamente todas as fontes úteis para a sua compreensão.

Lisboa c. 1500–1510, Crónica de Dom Afonso Henriques, Duarte Galvão.
Imagem: Wikipédia

Com o título "Museu de Arte Antiga abre as portas a obras suspeitas", um artigo de Miguel Cadete, com Alexandra Carita e Hugo Franco, publicado na edição do Expresso de 18 de fevereiro de 2017, alega que os historiadores João Alves Dias e Diogo Ramada Curto "consideram falsa a pintura 'A Rua Nova dos Mercadores', peça central da exposição que será inaugurada na quinta-feira, com a presença de Luís Filipe Castro Mendes, ministro da Cultura". Neste artigo, onde a matéria em questão é do foro da História da Arte, Cadete limita-se a dar voz a dois historiadores, assumidamente não especialistas nesta área científica, deixando em silêncio os da especialidade, não obstante reconhecer os seus contributos, genericamente de orientação oposta.

De acordo com Cadete, o quadro que "até então (2010), estaria esquecido no espólio do pintor inglês do século XIX Dante Gabriel Rossetti e à guarda da Society of Antiquaries de Londres, em Kelmscott Manor" é, como lhe terá garantido o historiador Alves Dias, "um quadro forjado no século XX a imitar o passado". No mesmo artigo, Cadete afirma que Ramada Curto sustenta "a impossibilidade de o quadro fazer parte do espólio de Dante Gabriel Rossetti", concluindo que "a sua autenticidade nunca foi comprovada".

Retrato de Dante Gabriel Rossetti,
William Holman Hunt, 1853.
Imagem: PubHist

A tese defendida por Jordan e Lowe, de que a obra terá feito parte da coleção de Dante Gabriel Rossetti (1828-1882), foi, no entanto, confirmada em 2015, pela investigação científica, designa - damente no artigo publicado por Julia Dudkiewicz no The British Art Journal (vol. XVI, n.º 2): "Dante Gabriel Rossetti’s collection of Old Masters at Kelmscott Manor".

Jane Morris, The Blue Silk Dress, Dante Gabriel Rossetti, 1868.
Imagem: 5 Minute History

Contrariando as alegações difundidas pelo Expresso, a historiadora refere que, ao testamento de May Morris – filha de William Morris e herdeira de Kelmscott Manor – está anexada uma lista de 220 objetos, que May doou à Universidade de Oxford, juntamente com a casa que fora do seu pai. Nessa lista, com descrições dos vários itens, que englobam proveniências e localização na casa, surgem os dois quadros representando a Rua Nova dos Mercadores: "Two pictures of scenes in a city, part of D. G. R.’s things" (dois quadros com cenas de uma cidade, parte das coisas de Dante Gabriel Rossetti). 

Retrato triplo de May Morris, Dante Gabriel Rossetti, 1874.
Imagem: 5 Minute History

Rossetti e William Morris partilharam Kelmscott Manor alguns meses, em 1871, e entre 24 de setembro de 1872 e 11 de julho de 1874. Os dois quadros, e outras obras de Rossetti, também identificadas no testamento de May Morris (Mary Morris, Memorandum, 17 June 1926, part of Will and Testament of Mary Morris, London Probate Department, HM Courts & Tribunals Service), terão ficado em Kelmscott Manor quando, após um caso amoroso atribulado, Rossetti teve de abandonar repentinamente a casa.

Kelmscott Manor,
News from Nowhere, William Morris, Kelmscott Press, 1893.
Imagem: Wandering Educators

Acabaram, mais tarde, por ser incluídos nos bens de William Morris.

No mesmo artigo, Miguel Cadete levanta ainda suspeitas em relação à pintura O Chafariz D’el Rey, pertencente à Associação de Coleções/The Berardo Collection, que surge na exposição num contexto apenas documental e ilustrativo. 

Lisboa, Chafariz d’El-Rey, óleo sobre madeira de carvalho, 93x163 cm, autor desc. (Colecção Berardo), c. 1570.
Imagem: Lisboa, cidade africana

Apesar de esta pintura não ter tido ainda um exaustivo estudo monográfico, material e iconográfico, é uma obra sobejamente conhecida. Pertenceu, pelo menos desde finais do século XIX, à coleção do conde Adanero, de Madrid. Identificada como uma cena urbana, foi fotografada cerca de 1940 pela Casa Moreno/Archivo de Arte Español (existem exemplares desta imagem na Fototeca del Património Histórico de Espanha e na Black Archive Collection, da Universidade de Harvard). Não pode, pois, também aqui tratar-se, como refere Cadete baseado em Alves Dias, de "um quadro forjado no século XX a imitar o passado". 

Foi reconhecida como representando o Chafariz d’el-Rei no antiquário madrileno, Caylus Anticuarios, e divulgada em Portugal por Vitor Serrão em 1998 (IV Jornadas de História Ibero-Americana – As Rotas Oceânicas. Sécs. XV-XVII).

Entretanto, os historiadores da arte Fernando António Baptista Pereira, Vítor Serrão, Jean Michel Massing, Annemarie Jordan e Kate Lowe descreveram, estudaram e utilizaram como referência esta pintura, cabendo a Massing a divulgação de que a obra pertencia à coleção do conde de Adanero, por volta de 1893.

Panorâmica de Lisboa c.1540-1550  (ou 1570), Leiden University Library Bodel Nijenhuis Collectie, Leyden.
Imagem: Wikimedia

Finalmente, a pintura em causa fez ainda parte de várias exposições e foi reproduzida e comentada nos respetivos catálogos: Os Negros em Portugal. Séculos XV a XIX , Lisboa, Mosteiro dos Jerónimos, 1999, com comissariado de Didier Lahon e Maria Cristina Neto; Encompassing the Globe. Portugal and the World in the 16th & 17th Centuries, Washington: Smithsonian Institution, 2007, editado por Jay A Levenson, com a colaboração de Diogo Ramada Curto e Jack Turner;



Autour du Globe. Le Portugal dans le monde aux XVIe et XVIIe siècles, Bruxelas, Palais des Beaux-Arts, 2007-8, com comissariado de Jay A. Lavenson, com a colaboração de Jean-Michel Massing, Nuno Vassallo e Silva, Regina Krahl, Diogo Ramada Curto e James Ulak; e Portugal e o Mundo nos Séculos XVI e XVII, Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 2009, com comissariado de Jay A. Levenson, Jean Michel Massing, Julian Raby, Nuno Vassallo e Silva, James Ulak e Regina Krahl.

A Direção (1)


(1) Museu Nacional de Arte Antiga, Comunicado à Imprensa, Lisboa, 22 de fevereiro de 2017

Artigos relacionados:
Iconografia de Lisboa (de 1 a 9 e cronologia), maio 2016

A inauguração da exposição:
Património Cultural (fb)

A exposição:
MNNA: A CIDADE GLOBAL

Outros comunicados de imprensa:
Press release (pt)
Press release (en)

Referências:
Julia Dudkiewicz, Dante Gabriel Rossettis' Collection of Old Masters at Kelmscott Manor...

Web references:
artdaily.org
Alain.R.Truong

A (rua da) polémica:
Sobre as polémicas tábuas com trechos da Lisboa antiga
05.03.2017
Vítor Serrão, historiador de arte
A autenticidade de dois quadros que servem de âncora à exposição “A Cidade Global — Lisboa no Renascimento”, inaugurada na passada quinta-feira no Museu Nacional de Arte Antiga, continua a alimentar grande polémica. Os prós e os contras de uma discussão entre especialistas
“Lisboa Global”. Uma polémica local?
24.02.2017
Ana Maria Pimentel
Na inauguração da exposição “A Cidade Global – Lisboa no Renascimento” foram poucos os que disseram dar importância à polémica e até mesmo os que sabiam do que se falava
História de uma polémica na “Cidade Global”
23.02.2017
Ana Soromenho
A exposição “A Cidade Global Lisboa no Renascimento” chega esta quinta-feira ao Museu de Arte Antiga, para nos revelar o ambiente de uma das mais cosmopolitas artérias da cidade no tempo dos Descobrimentos. O centro comercial de Lisboa era, nesse tempo, a Rua Nova dos Mercadores, reproduzida num quadro que é a obra “cabeça de cartaz” da exposição e, tal como o quadro de outra vista da cidade, tem sido alvo de polémica entre os historiadores quanto à sua autenticidade
Ministro da Cultura já pediu exame laboratorial às “obras suspeitas”
21.02.2017
Alexandra Carita
Luís Filipe Castro Mendes diz que já foi pedida autorização aos proprietários dos quadros, “Chafariz D'el Rei” e “Rua Nova dos Mercadores” para analisar em laboratório a sua datação. O ministro quer que a polémica seja esclarecida. E defende que a exposição que integram, “Cidade Global”, no Museu Nacional de Arte Antiga, não se limita a estes dois trabalhos
Hugo Crespo: a autenticidade da Rua Nova é “indesmentível”
21.02.2017
Hugo Crespo, do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e colaborador no livro “The Global City”, considera que a autenticidade do quadro Rua Nova dos Mercadores que ilustra o cartaz da exposição “A Cidade Global” está provada no memorandum de May Morris
Conservadores do Museu de Arte Antiga não se entendem
21.02.2017
Miguel Cadete
Chafariz d'El Rei, um dos quadros presentes na exposição "A Cidade Global" que abre quinta-feira, gera controvérsia. Joaquim Caetano considera o quadro verdadeiro.Mas Anísio Franco acha que se trata de uma falsificação
Lisboa era uma cidade global?
21.02.2017
Diogo Ramada Curto, historiador
Duas pinturas da exposição “A Cidade Global — Lisboa no Renascimento”, que abre quinta-feira no Museu Nacional de Arte Antiga, levantam sérias dúvidas quanto à sua autenticidade
Museu de Arte Antiga abre as portas a obras suspeitas
18.02.2017
Miguel Cadete, Alexandra Carita e Hugo Franco
Reputados historiadores portugueses consideram falsos dois quadros da exposição “A Cidade Global”

segunda-feira, 6 de março de 2017

Paradoxo da Arte dita Contemporânea de Exposição não Permanente

A pequena mas bella exposição presentemente aberta, ao publico nas salas da Sociedade de Geographla tem attrahido as attenções do dilettantismo e da critica para os expositores, a que algumas folhas chamam o grupo dos dissidentes.

Meme Hopper Columbano
Nighthawks de Edward Hopper (1942) com O Grupo do Leão de Columbano (1885)
Imagem: Rui Granadeiro

Temos procurado achar o sentido d'essa designação, e não o conseguimos. Comprebonde-se que haja dissidencla unicamente onde ha opiniões. Na pintura franceza, por exemplo, o sr. Cabanel e o sr. Monet dissidem, porque o sr. Monet é a heresia de que o sr. Cabanel é o dogma. 

Mas em Lisboa — meu Deus ! — do quem é que podem dissidir estes espirituosos artistas?... A não ser um grito de revolta que elles queiram agora levantar contra o Grão Vasco ou contra a Josepha d'Obidos, não sabemos realmente contra quem é que cales se insurjam. 

A verdade é que os expositores da rua do Alecrim estão sós na arte da pintura. O conspícuo o talentoso sr. Luppi é já mais que um simples artista, é um oficial maior da secretaria da natureza, é um chefe do repartição do quadro historico, jubilado.

Como escola official resta-nos apenas o esclarecido sr. Delphim Guedes, mas este cavalheiro consta-nos que se acha presentemente fechado. Dizem-nos que s. exa. continha ainda a receber dos cabidos, das confrarias o das irmandades sertanejas, todos os tocheiros velhos e todas as galhetas duplicadas, de mais ou menos recente seculo XVI, que se lhe remettem para a arte ornamental; mas, pelo que respeita a discípulos, o seio desse varão recusa-se por emquanto a receber e a ensinar mais ninguem. Vedam-lh'o os seus affazeres.

O sr. Delphim deixou portanto de ser na pintura um portico, para ser unicamente uma tranca. O sr. Porto, o sr. Ramalho, o sr. Malhôa, o sr. Girão, o sr. Christino, o sr. Pinto, o sr. Vaz, o sr. Martins, são agora os pintores paizagistas unicos em Lisboa. 

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel Henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: MNAC

Elles são os que amam e os que interrogam a natureza, os que arregaçam as calças e deitam a mochila ás costas para ir de madrugada, com um pão e um cachimbo na algibeira, saltar os vallados, descer a azinhaga, atolar os pés na terra lavrada, atravessar o ribeiro, subir a encosta, o plantar o cavalete em frente da amendoeira em flor e da cancela rustica do quinteiro, onde as alfazemas desabrocham, onde as abelhas zumbem o onde as galinhas se espanejam ao sol, debicando a leira.

São elles os que entendem o primeiro dos prazeres que, depois da terrivel dôr sublime d'amar o ser amado, o Papá Deus deu á criança homem na festa do grande natal : — o prazer que teem, certas naturezas em casar aos phenomenos da vida exterior a sensibilidade pessoal, o de fazer d'essa conjunção o quadro, o poema ou a melodia, que são a consolação eterna da pobre alma da humanidade. 

Os artistas são eles. (1)


(1) O António Maria n.° 134, 22 de dezembro de 1881

Leitura Relacionada:
Raquel Henriques da Silva, MNAC/Museu do Chiado...
Mónica Queiroga, Projecto Arte e Educação no Espaço Museológico...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Para além do pátio da escola de Bellas-Artes

Depois, planeada a reedificação da cidade, fixou-se o novo local onde devia fazer-se a definitiva reconstrução da paróquia de S. Julião, sendo designado o chão onde estivera a antiga Igreja Patriarcal, desbaratada também pelo terremoto. e que fora antes o chamado sítio da Judiaria Nova ou Pequena. 

Lisboa, vista tomada do Largo da Academia das Belas Artes, 2017.
Imagem: Eventualmente Lisboa e o Tejo

O terreno escolhido pelos engenheiros de Pombal ficou delimitado a poente pelo largo de S. Julião, a norte pela rua do mesmo nome e do lado sul pela Rua Nova de El-Rei. 

Dirigiu as obras, o arquitecto Honorato José Correia, o mesmo que levantou a planta geral da cidade em 1785. 


Plano Geral da CIdade de Lisboa, Honorato José Correia, 1785.
Imagem: WDL

Em 1778, ainda a nova igreja, já com paredes, estava em menos de metade, assim o garante o citado frade franciscano António Sacramenco, que encerra a informação, opinando: "será preciosa, mas escura". 

Pouco tempo depois, em 1783, um relatório enviado à rainha D. Maria I deixava transparecer melhores perspectivas: "A nova Igreja está feita até à Simalha; para se acabar o que falta, segundo a avaliação dos mestres, são necessários mais de Sincoenta mil Cruzados  [...]"

Aproveitaram-se alguns materiais do demolido Convento de S. Francisco, principalmente o retábulo e as duas colunas do altar-mor, esculpidas em mármore do Tojal.

Academia de Bellas Artes e Biblioteca Pública, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

Por conter certo interesse, transcrevemos este apontamento, tomado por amor desconhecido, num canhenho manuscrito, datado de 1837: "A Estátua equestre da Praça do Commercio de Lisboa foi fundida com o bronze de um grande sino da egreja de S. Julião d'esta Cidade, o qual tinha cahido pelo Terramoto de 1755; e ainda ha memoria de um Çapateiro que estabeleceu sua loja, e trabalhava dentro deste sino."

Pela inauguração da Estatua appareceu um pasquim, que dizia:

Já Fui sino, fui badalo,
Hoje sou Rei, sou Cavallo.

Monumento a D José I, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

A tais instrumentos, de timbre mavioso, que os Anios ouvem no Céu, rendeu Júlio de Castilho [em maio de 1884] uma comovida homenagem, em verso. Aqui ficam a primeira e a última estâncias:

Não sei dizer que saudades
me acordam no coração
Aquelas vozes de prata

dos sinos de São Gião.
...

Lisboa, vista tomada do Largo da Academia das Belas Artes, 2017.
Imagem: Eventualmente Lisboa e o Tejo

Oh! campanário bendito! 
Quanto te deve a minh'alma 
ninguém o sabe, nem eu; 
mas sei que sabes falar-me 
numa linguagem do Céu; 

Pátio da Escola de Belas Artes de Lisboa, António Ramalho, 1880
(descobre-se parcialmete o cimo da torre da igreja de S. Julião).
Imagem: MNSR

e que ao vir de longes terras,
das ilhas de além do mar,
e ao subir o Tejo um dia,
debruçado na amurada,
o que eu entre tudo ouvia
era, por longe, esfumada
como as brumas da amplidão
entre o rumor da Ribeira,
e o retroar da cidade,
a voz minha companheira,
a voz toda ela saudade
a voz sabida e caseira
dos sinos de São Gião. (1)


(1) Mário Costa, A igreja de S. Julião... (II), Revista Municipal n.° 89, Lisboa, 1961

Alguma leitura relacionada:
Mário Costa, A igreja de S. Julião... (I), Revista Municipal n.° 88, Lisboa, 1961
belas-artes, ulisboa, história e fotografias