segunda-feira, 17 de agosto de 2020

O Porto de Lisboa por Alexandre-Jean Noël

De acordo com o título, foi tirada "do centro do porto, entre o Monte Santa Catarina e a Villa de Almada, a bordo do navio de Guerra S. Sebastião*". 

The Harbour of Lisbon, Alexandre-Jean Noël.
British Library

Como em todas as vistas de Noël, o primeiro plano é preenchindo por detalhes anedóticos e pitorescos: marinheiros no seu trabalho num pequeno navio ao lado de um barco a bordo do qual alguns homens em trajes orientais fumam. 

The Harbour of Lisbon (detail), Alexandre-Jean Noël.
British Library

Outro grupo de marinheiros bebe e come uvas, passageiros são transportados numa embarcação e um casal dança sobre uma balsa, entre homens que tocam viola e outas pessoas que observam, incluindo uma criança. 

The Harbour of Lisbon (detail), Alexandre-Jean Noël.
British Library

Num pequeno barco amarrado à balsa, um homem dorme, possivelmente embriagado, enquanto que o seu companheiro trajando capuz [religioso] e tonsurado continua a beber de uma malga. 

The Harbour of Lisbon (detail), Alexandre-Jean Noël.
British Library

A Praça do Comércio com a estátua equestre do rei D. José I pode ser vista no fundo, à direita. Edifícios em ruínas e dois guindastes aparecem como recordações da destruição causada pelo terramoto de 1755, do qual a cidade não recuperou completamente. (1)

The Harbour of Lisbon (detail), Alexandre-Jean Noël.
British Library

Espalhadas por entre as vistas da "Topographical Collection" de George III [British Library], há três gravuras assinadas por François Allix (c. 1753-1794) que pertenceram à mesma fracassada série  de "Spanish and Portuguese ports". 

Estas vistas de Cádiz, Cartagena e Lisboa segundo desenhos de Alexandre Jean Noël (1752-1834) foram publicadas entre 1788 e 1790. Não são datadas, mas, de acordo com dois anúncios no Journal de Paris, as vistas de Cádiz e Lisboa apareceram em 20 de novembro de 1788, enquanto a vista de Cartagena não foi publicada até junho de 1790. (2)

Lisboa Arte Gravura The Harbour of Cádiz Alexandre Jean Noel 1796 British Library 01.jpg

A informação de uma pretendida "Collection des Ports d’Espagne et de Portugal" apaceu no anúncio das primeiras duas vistas publicadas no Journal de Paris em 18 de novembro de 1788.

De acordo com esta fonte, a série seria a continuação de "the collection of views of Ports of France, engraved by M.M. Cochin & le Bas, after the paintings made for the King by M. Vernet." cobrindo toda a Europa. O projecto teve a benção de Claude-Joseph Vernet (1714–1789), que tinha já recomendado o seu antigo aluno Noël para acompanhar a expedição científica de Jean Chappe d’Auteroche ao México e Baja California. Mais ainda, os trabalhos de Noël seriam riscados e gravados por François Allix, que estudara sob Jacques-Philippe Le Bas (1707–1783).

Lisboa Arte Gravura The Harbour of Cartagena Alexandre Jean Noel 1796 British Library 01

O anúncio explicava que Noël tinha viajado em Espanha e Portugal entre 1780 e 1782.

Ele, provavelmente, incluiu-se nas vistas de Cádiz e Cartagena como o desenhador acompanhado pelo cão e pelo assistente segurando um portfolio de maneira a dar ênfase aos seus trabalhos desenhados no lugar.

Lisboa Arte Gravura The Harbour of Cádiz Cartagena Alexandre Jean Noel 1796 British Library (detalhe).psd

Os "Portos" apelariam a ambos, gosto e intelecto, através do "agradavel ar de verdade" garantido pelas credenciais científicas do pintor e pela sua escolha de cenas "belas" e "pitorescas" [...]

Não foram encontradas até hoje mais vistas da série. Uma das razões possíveis para o fracasso da empresa de Noël pode ter sido a falta de tempo.

The Harbour of Lisbon (detail), Alexandre-Jean Noël.
British Library

O conde de Fernán Núñez deixou o seu posto de embaixador espanhol em Paris em 1791 como consequência da Revolução Francesa, Allix morreu durante o Terror em 1794 e Noël parece ter partido para o exílio em Portugal cerca de 1791 [v. B. Madeira, A Emigração Francesa em Portugal durante a Revolução, Lisboa, 1984, pp. 19–20]. (3)
* S. Sebastião" (1767-1832) — Nau de 64 peças que foi lançada à água no Rio de Janeiro em 8 de Fevereiro de 1767. Tomou parte na expedição a Roussillon em 1793 e na campanha do Mediterrâneo de 1798 a 1800 em socorro da Inglaterra.
Em 1832 foi desmanchada por inútil.
cf. Cmdt. António Marques Esparteiro, Catálogo dos navios brigantinos (1640 - 1910)

(1) Mercedes Cerón, Alexandre Jean Noël's collection of Spanish and Portuguese ports (1788–1790)
(2) Idem
(3) Idem, ibidem

Artigos relacionados:
em Eventualmente Lisboa e o Tejo;
em Almada virtual.

domingo, 19 de julho de 2020

Panoramas de Lisboa e Clement Lemprière

Em causa está um desenho [colecção José Manuel Conceição] de uma vista panorâmica da frente ribeirinha de Lisboa e arredores (a que nos passaremos a reportar como desenho) compreendida entre a zona da Ribeira Velha (a oriente) e a Torre de Belém (a ocidente). 

Vista Panorâmica de Lisboa (segmento central), Clement Lempriere, atribuído, c. 1709,
colecção José Manuel Conceição.
Gabinete de Estudos Olisiponenses

Desenho não assinado e não datado, sobre suporte de papel, à pena (?), tinta e aguada cinza. Com uma dimensão total de 28,1cm (alt.) por 132,6 cm (larg.), apresenta-se dividido em três segmentos que se encontram originalmente soltos, de medidas idênticas [...]

No sentido de apurar as diferenças e as semelhanças nas representações de Lisboa e no desenho em estudo, apresentamos uma montagem de pormenores a partir do corpus iconográfico, que permitem a identificação e a leitura da estrutura das construções dos seguintes edifícios: igrejas de São Paulo e Santa Catarina, fortificações da Porta do Pó, São Paulo e Remolares.  


Zona entre a Boavista e o Cais do Sodré no corpus iconográfico
Uma vista desconhecida de Lisboa antes do Terramoto- problemáticas e possibilidades in
A IMAGEM DE LISBOA
O Tejo e as Leis Zenonianas da Vista do Mar
Gabinete de Estudos Olisiponenses

Todos estes monumentos, já desaparecidos, localizavam-se entre a Boavista e o Cais do Sodré pré-terramoto. 

A atual Igreja de São Paulo, que é uma referência nesta parte de Lisboa, foi erguida a partir de 1768 no local onde estava anteriormente o largo da primitiva Igreja de São Paulo, destruída pelo terramoto. 

Quanto à proeminente igreja quinhentista de Santa Catarina, que sofreu várias destruições e reconstruções, viria a ser abandonada no século XIX. Estava localizada onde atualmente se encontra o Museu da Farmácia. 

As fortificações que se fizeram nesta zona ribeirinha de Lisboa, erguidas durante a dinastia filipina e a Restauração, foram sendo destruídas ao longo do século XIX. Tal foi o caso de um esquecido Baluarte da Porta do Pó (a ocidente da Rua de São Paulo); do Baluarte de Remolares (Cais do Sodré) e do Forte de São Paulo (em frente da antiga igreja do mesmo nome), estruturas militares que foram reforçadas na conjuntura que marcou a intervenção portuguesa na Guerra da Sucessão de Espanha.

DIRCK STOOP 1662

Gezicht op de stad en de haven van Lissabon, Dirk Stoop, 1662.
Rijksmuseum

PIER MARIA BALDI 1669 

Viaje de Cosme de Médicis por España y Portugal (1668-1669), Pier Maria Baldi.

PIER AVELINE 1692 (?)

Lisbone, Ville capitale du Royaume du Portugal... Pierre Aveline (1656-1722) entre 1680 e 1720.

GABRIEL DEL BARCO C. 1699 

Grande Panorama de Lisboa, Gabriel del Barco, c. 1699, Museu Nacional do Azulejo.
Gabinete de Estudos Olisiponenses

CLEMENT LEMPRIERE c. 1709

Vista Panorâmica de Lisboa, Clement Lempriere, atribuído, c. 1709, colecção José Manuel Conceição.
Gabinete de Estudos Olisiponenses

FRIEDERICH SCHOENEMANN 1756 (des. ant. 1697)

Lissabon, Friederich Schoenemann, 1756.
LUNA

JOSÉ PINHÃO DE MATOS C. 1730

D. João III e o núncio apostólico da Índia, ou A partida de São Francisco Xavier em 1541,
aut. desc. José Pinhão de Mattos, c. 1730.
Imagem: Wikipédia

PETER MONAMY C. 1735

The British Fleet Sailing into Lisbon Harbour, Peter Monamy, 1735.
Charles Harrison-Wallace

CLEMENT LEMPRIERE C. 1735

A Plan of the City of LISBON Situate on the Mouth of the River TAGUS (detalhe), in A Prospect thereof, and a Representation of the British Fleet Sailing into the Harbour in the year 1735. Desenho de Clement Lempriere.
Gabinete de Estudos Olisiponenses

CLEMENT LEMPRIERE 1756 (des. 1709?) (1)

The view of the city of Lisbon, C. Lemprière, publ. 1756.
Cabral Moncada Leilões

O CONTEXTO DA PRODUÇÃO DO DESENHO

Entre a guerra da Sucessão de Espanha e a entrada da armada inglesa de Sir John Norris em Lisboa (1701-1735). (2)

Chegada da frota Holandesa-Inglesa Carlos III (Arquiduque Carlos da Áustria) a Lisboa, 7 de março de 1704.
Rijksmiuseum

A guerra da Sucessão de Espanha foi motivada pela morte sem descendência do Rei Carlos II, deixando como sucessor um membro da casa de Bourbon, o neto de Luís XIV, Filipe de Anjou [v. artigo dedicado: Jornada de Carlos III a Lisboa] [...]

A pretexto de proteger os interesses comerciais britânicos e do restabelecimento da paz na Península Ibérica, a Inglaterra anuiu enviando uma frota de guerra sob o comando do Almirante John Norris. Não chegou a haver conflito, sendo a questão solucionada pela via diplomática em 1737. O evento foi tema da planta com a Vista de Lisboa da autoria de C. Lempriere impressa talvez cerca de 1740. 

A Prospect thereof, and a Representation of the British Fleet Sailing into the Harbour in the year 1735.
Desenho de Clement Lempriere.
Gabinete de Estudos Olisiponenses

O mesmo episódio inspirou a pintura, de que também já falámos, de Peter Monamy The British Fleet Sailing into Lisbon Harbour. (3)


(1) Uma vista desconhecida de Lisboa antes do Terramoto, Gabinete de Estudos Olisiponenses
(2) Idem
(3) Idem, ibidem

Artigos relacionados:
Vistas de Lisboa (1)
Vistas de Lisboa (6)
etc.

Tema:
Vistas de Lisboa

Leitura relacionada:
Uma vista desconhecida de Lisboa antes do Terramoto, Gabinete de Estudos Olisiponenses

Leitura relacionada por Charles Harrison-Wallace:
Captain Clement Lemprière (1683-1746)
Panoramia, zooming in on Lisbon Greenwich Constantinople
Lisbon: Clement Lemprière
More on Lisbon
Lisbon, before and after 1755

Media relacionada:




domingo, 28 de junho de 2020

Fado VIII, Alfredo Marceneiro e outros (com o moinho por tema)

(quadras soltas)

Junto ao moinho cantando 
Lavam roupa as lavadeiras 
Os patos brincam nadando 
Arrulham pombos nas eiras

Às vezes contemplo o moinho 
Que além de velho, não cai 
Formado no casalinho 
Que era do pai do meu pai

Variações sobre o fado, Panorama n.° 25-26, 1945.
O natal do moleiro (Henrique Rego/Alfredo Marceneiro)

Que noite de Natal tristonha, agreste 
De neve amortalhava-se o caminho 
O vento sibilava do nordeste 
Nas frinchas das porta do moinho 

Sentada à velha mó já carcomida 
Onde incidia a luz duma candeia 
O moleiro de barba encanecida 
Com a mulher comia a parca ceia

Próximo do moinho, ouviu-se em breve 
Uma voz, e o moleiro abrindo a porta 
Viu um velhinho todo envolto em neve 
Vergado ao peso duma esperança morta

Entrai, meu peregrino da desgraça 
Disse o moleiro ao pálido ancião 
Aqui não há dinheiro, existe a graça 
De haver carinho, piedade e pão 

Vinde comer, agasalhar-se ao lume 
Festejar o nascer do Deus Menino 
Porque a vida somente se resume 
Na escravidão imposta pelo destino

E então o velhinho, numa voz sonora 
Pronunciou, levando as mãos ao peito 
Abençoado seja a toda a hora 
Este moinho que é por Deus eleito 

Moinho desmantelado (Henrique Rego/Alfredo Marceneiro)

Moinho desmantelado 
Pelo tempo derroído 
Tu representas a dor 
Deste meu peito dorido 

É grande a tua desgraça 
Ao dizê-lo sinto pejo 
Porque em ti apenas vejo 
A miseranda carcaça 
Perdeste de todo a graça 
Heróica do teu passado 
Hoje ao ver-te assim mudado 
Minh’alma cora e descrê 
Quem te viu, e quem te vê 
Moinho desmantelado 

Moinho pombo da serra
Que triste fim tu tiveste 
Alvas farinhas moeste 
Pró povo da tua terra 
Hoje a dor em ti se encerra F
oste votado ao olvido 
Foi-se o constante gemido 
Dessas mós trabalhadoras 
Doce amante das lavouras 
Pelo tempo derroído 

Finalizas tua vida 
Em fundas melancolias 
Às tristes aves sombrias 
Hoje serves de dormida 
No teu seio das guarida 
Ao horrendo malfeitor 
Tudo em ti causa pavor 
É bem triste a tua sorte 
Sombria estátua da morte 
Tu representas a dor

Junto de ti eu nasci 
Oh meu saudoso moinho 
E do meu terno avozinho 
Quantas histórias ouvi 
Agora tudo perdi 
Sou pela dor evadido 
Vivo no mundo esquecido 
Moinho que crueldade 
És o espelho da saudade 
Deste meu peito dorido. 

Lembro-me de ti (Joao Linhares Barbosa/Alfredo Marceneiro)

Eu lembro-me de ti 
Chamavas-te Saudade 
Vivias num moinho 
Tamanquinha no pé 
Lenço posto à vontade 
Nesse tempo eras tu 
A filha do moleiro. 

Eu lembro-me de ti 
Passavas para a fonte 
Pousando num quadril 
O cântaro de barro 
Imitavas em graça 
A cotovia insonte 
E mugias o gado 
Até encheres o tarro. 

Eu lembro-me de ti 
E às vezes a farinha 
Vestia-te de branco 
E parecias então 
Uma virgem gentil 
Que fosse à capelinha 
Um dia de manhã 
Fazer a comunhão. 

Eu lembro-me de ti 
E fico-me aturdido 
Ao ver-te pela rua 
Em gargalhadas francas 
Pretendo confundir 
A pele do teu vestido 
Com a sedosa lã 
Das ovelhinhas brancas. 

Eu lembro-me de ti 
Ao ver-te num casino 
Descarada a fumar 
Luxuoso cigarro 
Fecho os olhos e vejo 
O teu busto franzino 
Com o avental da cor 
Do cantaro de barro 

Eu lembro-me de ti 
Quando no torvelinho 
Da dança sensual 
Passas louca rolando 
Eu sonho eu fantazio 
E vejo o teu moinho 
Que bailava tambem 
Ao vento assobiando 

Eu lembro-me de ti 
E fico-me a cismar 
Que o nome de Lucy 
Que tens não é verdade 
Que saudades eu tenho 
E leio no teu olhar 
A saudade que tens 
De quando eras Saudade.


Outras referências:
Amaro de Almeida, Reflexões sobre a origem do fado, Olisipo n.° 25, 1944
Variações sobre o fado, Panorama n.° 25-26, 1945

O fado segundo Maurice Mariaud:
Instituto Camões, O Fado (1923)
CINEPT: O Fado (1923)



A Severa segundo Júlio Dantas:
Júlio Dantas, A Severa
Esperas de touros, Serões n.° 37, 1908
A Severa (peça teatral), Illustração Portugueza n.° 156, 1909
Restos de Colecção, A Severa, Primeiro Filme Sonoro-(Fonofilme)
A Severa da lenda... literatura... realidade, Reporter X n.° 95, 1932
Dina Teresa, Cine-Jornal n.° 16, 1936



terça-feira, 9 de junho de 2020

Fado VII, Alfredo Marceneiro (1888-1982)

O fado tem tido muitas mulheres, algumas, mesmo, heroínas da canção doente e bonita. Homens — só um: Alfredo Marceneiro. Ligou o passado ao presente, e com a sua alma errante, luminosa e ingénua, colocou o fado num plano de "Auto do Povo", que ficará na história do nosso tempo. (1)

Alfredo Marceneiro.
Mundo Grafico n.° 60, 31 de março de 1943

Nasceu em Lisboa este popular e apreciado cantador de Fado que, como seu irmão Julio Duarte, o começou cantando desde muito novo, em várias casas particulares e festas de beneficência, nas quais era convidado a tomar parte por outros cantadores da velha guarda que muito apreciavam a sua voz e começavam a vêr nôle um genuíno fadista de alma e coração.

Agradando sempre, Alfredo Duarte nunca faltava então a êsses benefícios, ao tempo chamados "Veladas sociais", e assim começou a impôr-se como cantador dos mais apreciados, bastando o seu nome no programa de qualquer festa de Fado para atrair o público.

É curioso registar porque lhe chamam, geralmente, Alfredo "Marceneiro", sendo o seu verdadeiro nome Alfredo Rodrigo Duarte.

De facto, o nosso biografado exerce a profissão de marceneiro, e foi em 1930, numa festa promovida pelo cantador e poeta popular Manuel Soares (do Intendente), no Club Montanha e em homenagem aos cantadores Alfredo dos Santos "Correeiro" e José "Bacalhau" que éle se tornou conhecido por Alfredo "Marceneiro". Convidado a tomar parte nessa festa e não sabendo a comissão organizadora como havia de anunciá-lo, pois sómente sabia que éle era Alfredo e marceneiro, Manuel Soares remediou o caso, lembrando que o anunciassem Alfredo "Marceneiro", o que não pareceria estranho numa festa em que também cantava um Alfredo "Correeiro"...

E assim Alfredo Duarte, agradando extraordinariamente nessa festa como já havia acontecido em tantas outras, ficou sendo conhecido por Alfredo "Marceneiro".

Alfredo Marceneiro.
A. Victor Machado, Ídolos do fado, Lisboa, 1937

Levado pelo velho fadista Monteiro ou na companhia de outros cantadores da velha guarda, Alfredo Duarte cantou muita vez nos retiros do Caliça, Bacalhau, José dos Pacatos e no Romualdo, acompanhado à guitarra pelo dr. Borges de Sousa e Carlos da Maia, com a assistência da melhor sociedade. Foi ali que cantou pela primeira vez a sua "marcha", acompanhado à guitarra por aquele ilustre médico. 

Cantou no Teatro de S. Luiz, no Teatro Avenida, no Coliseu dos Recreios (na peça "História do Fado", do distinto poeta Avelino de Sousa), Apolo, Eden-Teatro (numa festa organizada pelo actor Almeida Cruz), no Capitólio, Politeama, Maria Vitória, Clube Olímpia e outros, tendo cantado ultimamente no Retiro da Severa, Solar da Alegria, Café Mondego e em várias festas de homenagem a colegas seus e récitas de beneficência.

Tem nove discos gravados e é autor das seguintes músicas : "Marcha Alfredo Marceneiro", "Fado do Cravo", "Fado do Louco", "Fado Alexandrino", "Lembro-me de ti", "Fado Pierrot", "Fado Maria dos Anjos", "Fado Bailarico", "Fado da minha guitarra" e "Fado Pagem". O Fado da opereta "Pão de Ló", conhecido por "Fado do Soldado", foi inspirado num dos seus fados. Alfredo Duarte conhece todas as nossas províncias, tendo feito uma digressão artística com Ercília Costa [v. artigo dedicado], Alberto Costa e Rosa Costa [v. artigo dedicado].

Troupe Guitarra de Portugal.
Em pé: João Fernandes, Rosa Costa e Santos Moreira.
Sentados: Alfredo D. Marceneiro, Ercília Costa e Alberto Costa.
Fadoteca

Em 1922, com Alfredo dos Santos "Correeiro", cantou uma noite no "João das Velhas", a pedido da notável actriz Vera Vergani que ali se encontrava a cear com a actriz Loiza Satanela, o ilustre poeta Silva Tavares, os actores Estevam Amarante, Nascimento Fernandes e Manuel Santos Carvalho, tendo sido, como aquele seu colega, delirantemente aplaudido.

Em 1924, tomando parte num concurso de fados organizado no Coliseu dos Recreios pelo emprezário Artur Emauz, e no qual o seu colega João Maria dos Anjos ganhou uma medalha de ouro, foi contractado por um mês para cantar o Fado no Chiado-Terrasse.

Alfredo Duarte possue também uma medalha de ouro ganha num concurso de fados realizado há anos, no Sul-America, na rua da Palma; e uma taça de prata que lhe foi Conferida por votação do público, numa festa de homenagem ao pugilista Francisco de Brito (Britinho), realizada no Teatro Joaquim de Almeida, em 1929.

Cantou em diversas festas organizadas pelo Clube Tauromáquico, num passeio fluvial e numa jornada ao Tamariz e ao Casino Estoril, promovidos por um dos sócios daquele Clube, e numa festa oferecida pelo banqueiro Ricardo Espirito Santo à embaixada alemã, na qual cantaram também os seus colegas Ercília Costa, Filipe Pinto e Jaime Duarte, acompanhados pelo guitarrista Armando Augusto Freire ("Armandinho") e pelo violisla Martinho de Assunção.

Há duas passagens interessantes na vida fadista do nosso biografado, que não deixamos de relatar: Quando a popular e aplaudida cantadeira Ercília Costa eslava no Hospital de Santo António dos Capuchos onde sofrera uma operação cirúrgica, Alfredo Duarte, regressando altas horas da noite duma festa de beneficência na Escola 1, na companhia duns amigos, não obstante já ser proibido terminantemente cantar o Fado em serenatas, não resistiu à tentação e, pedindo aos seus amigos que vigiassem as embocaduras das ruas, não surgisse algum policia ou guarda nocturno, cantou um dos seus mais enternecidos fados, em homenagem àquela sua colega.

Uma outra ocasião, estando a cantar o Fado no Clube Olímpia, varreu-se-lhe da memória os versos finais da última décima. Enervado, parou subitamente de cantar e desculpou-se, indo sentar-se, aborrecido, a um canto da sala. 

Minutos depois, recebia de Silva Tavares, Amadeu do Vale e Carlos Dubini, que se encontravam a uma mesa, um cartão com a seguinte quadra que ele conserva como recordação dessa noite:

Alfredo, a lua memória, 
Falha-te, embora resistas, 
Mas has-de ficar na História 
Como o maior dos fadistas.

Também como noite memorável entre tantas que marcam na sua carreira de cantador, Alfredo Duarte descreve-nos a que mais o impressionara:

Já havia terminado uma festa de Fado em que ele e alguns dos mais aplaudidos cantadores haviam tomado parte, no Parque Mayer, quando ali apareceram o dr. António Menano e o cavaleiro D. Ruy da Camara, que iam propositádamente para ouvir a sua colega Maria Emilia Ferreira. Uma parte do público já havia saído, e Alfredo Duarte conversava à porta com alguns amigos, refugiado na sua caracleristica modéstia. Acedendo ao pedido daqueles, Maria Emilia Ferreira cantou primorosamente como sempre um dos seus fados castiços, e logo o dr. António Menano retribuiu, deliciando a assistência com a sua linda voz num dos seus notáveis fados-canções. Quando acabou, alguém lhe disse e a D. Ruy da Câmara, que o Alfredo "Marceneiro" ainda se encontrava ali. Solicitado imediatamente por êles, Alfredo Duarte acedeu, cantando num fado da sua autoria "O pintor", letra do poeta popular Henrique Rêgo. Ao terminar, alvo duma carinhosa ovação, ouviu o dr. António Menano dizer, aplaudindo-o ainda entusiásticamente:

— O que êste homem cantou com tanto sentimento estava eu a vêr! É um grande fadista!

Foi esta, segundo Alfredo Duarte nos diz, a noite que, até hoje, melhor gravou no seu espirito. Por ser aquela letra, do seu vasto e escolhido repertório, uma das que Alfredo Duarte mais aprecia, com a sua transcrição vamos concluir os dados biográficos dêste popular e aplaudido cantador.

O pintor 
Mote 

Encostado sem brio ao balcão da taberna, 
De nauseabunda côr e tábua carcomida, 
O bêbado pintor co'o lápis desenhou 
O retrato fiel duma mulher perdida.

Glosas 

Era noite invernosa e o tento desabrido 
Num louco galopar ferozmente rugia, 
Vergastando os pinhais, pelos campos corria, 
Como um triste grilheta ao degredo fugido. 
Num antro pestilento, infame e corrompido, 
Imagem de bordel, cenário de caverna, 
Vendia-se veneno à luz duma lanterna 
À turba que se mata, ingerindo aguardente, 
Estava um jovem pintor, atrofiando a mente, 
Encostado sem brio ao balcão da taberna.

Rameiras das banais, num doido desafio, 
Exploravam do artista a sua magra féria, 
E êle na embriaguês do vinho e da miséria, 
Cedia ás tentações daquele mulherio. 
Nem mesmo a própria luz, nem mesmo o próprio frio, 
Daquele vasadouro onde se queima a vida, 
Faziam incutir à corja pervertida. 
Um sentimento, bom d'amor e compaixão, 
P'lo ébrio que encostava a fronte ao vil balcão, 
De nauseabunda côr e tábua carcomida. 

Impudica mulher, perante o vil bulício 
De copos telintando e de boçais gracejos, 
Agarrou-se ao rapaz, cobrindo-o de beijos, 
Perguntando a sorrir qual era o seu oficio; 
Ele a cambalear, fazendo um sacrifício, 
Lhe diz a profissão em que se iniciou, 
Ela escutando tal, pedindo-lhe, alcançou 
Que então lhe desenhasse o rosto provocante, 
E num sujo papel, o rosto da bacante 
O bêbado pintor com um lápis desenhou. 

Retocou o perfil e por baixo escreveu, 
Numa legível letra o seu modesto nome, 
Que um ébrio esfarrapado, com o rosto cheio de fome. 
Com voz rascante e rouca à desgraçada leu. 
Esta, louca de dor, para o jovem correu, 
E beijando-lhe o rosto, abraça-o de seguida... 
Era a mãi do pintor, e a turba comovida, 
Pasma ante aquele quadro original, estranho, 
Enquanto o pobre artista amarfanha o desenho: 
O retrato fiel duma mulher perdida. (2)


(1) Norberto de Araújo cf. Alfredo Marceneiro, aqui mora o fado
(2) A Victor Machado, Ídolos do fado, Lisboa, Tip. Gonçalves, 1937

Leitura relacionada:
Alfredo Marceneiro, aqui mora o fado
Lisboa no Guiness

Redes sociais:
Alfredo Marceneiro 'aqui mora o fado' (fb)
Valdemar Marceneiro 'aqui mora o FADO' (YouTube)
Alfredo Marceneiro (flicker)



Outras referências (em actualização)

O pregão é só um! O artigo é que muda... 

Alfredo Marceneiro cf. Alfredo é só fado, RTP 1969

* * *

Os fados de expressão lírica e romântica na discografia de Alfredo Marceneiro (em actualização) :

The Fabulous Marceneiro (1961)
Senhora do monte, Gabriel de Oliveira (1891-1953), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Lembro-me de ti, Linhares Barbosa (1893-1965), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
O amor é água que corre, Augusto de Sousa, Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Mocita dos caracóis, Linhares Barbosa (1893-1965)
A viela, Guilherme Pereira da Rosa, Fado cravo, Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Ironia, Armando Neves (1899-1944), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
A casa da Mariquinhas, Silva Tavares (1893-1964),  Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Amor De Mãe, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
A Menina Do Mirante, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Andrade Ferreira, José Maria de, Revista contemporanea de Portugal e Brazil, n° 4, Vol. III, 1861
O lenço, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
O bêbedo pintor, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
O Leilão, Linhares Barbosa (1893-1965)
Bairros de Lisboa (v. 2006), Carlos Conde (1901-1981), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Antes e depois (v. 2006)
A camponesa e o pescador (v. 2006), Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Antes e depois (v. 2006)
A minha freguesia (v. 2006)
Antes e depois (versão alternativa, v. 2006)

Há Festa Na Mouraria (1965)
Há festa na Mouraria, Gabriel de Oliveira (1891-1953), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Fado balada, Silva Tavares (1893-1964), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Orfãzita
Despedida, Carlos Conde (1901-1981), Fado cravo, Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Os velhinhos, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Colchetes d'oiro , Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
O Marceneiro
Fado laranjeira, Júlio César Valente, Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Empate dois a dois
Bailado das folhas, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
O Natal do moleiro, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
As fontes da minha aldeia, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)

Alfredo Marceneiro e o Fado (1971) [Os Melhores Da Música Portuguesa (2006)] 
O pagem
Rainha Santa
Sonho Dourado
Sinais Sinas, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Cabaré, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Moinho desmantelado, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Avózinha
Quadras Soltas, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Remorso, Linhares Barbosa (1893-1965)

Nos Tempos Em Que Eu Cantava (1972)
Foi na velha Mouraria, Fernando Teles (1891-1958), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Domingo d'agosto
Tricana, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Oh águia, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Depois do Carnaval
Nos tempos em que eu cantava
Café das camareiras, Gabriel de Oliveira (1891-1953), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
A minha freguesia
O Pierrot, Linhares Barbosa (1893-1965)
Três tabuletas, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)

Outros (sem referência discográfica) 
Cabelo branco, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Antes que queira não posso, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
A Lucinda camareira, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Fado bailado, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
O louco, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Marcha do Alfredo, Gabriel de Oliveira (1891-1953), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Fado cravo, Fernando Teles (1891-1958), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
É tão bom ser pequenino, Linhares Barbosa (1893-1965)
Janela da vida, Carlos Conde (1901-1981), (1888-1982)

cf. Alfredo Marceneiro, DiscogsTrês grandes compositores do fado tradicional


* * *

Poetas populares do fado tradicional

Carlos Harrington (1870-1916)
Avelino de Sousa (1880-1946)
Gabriel de Oliveira (1891-1953)
Fernando Teles (1891-1958)
Silva Tavares (1893-1964)
Linhares Barbosa (1893-1965)
Henrique Rego (1893-1963)
Frederico de Brito (1894-1977)
António Amargo (1895-1933)
Amadeu do Vale (1898-1963)
Armando Neves (1899-1944)
Carlos Conde (1901-1981)
Clemente Pereira (1903-1986)
João da Mata (1906-1947)
Radamanto (1908-1972)
Conde de Sobral (1910-1969)
Domingos Gonçalves Costa (1913-1984)
Artur Soares Pereira (1921-2011)
Maria Manuel Cid (1922-1994)
Lopes Victor (N. 1922)
Moita Girão (1923-2013)
António Vilar da Costa (1924-1988)
Artur Ribeiro (1924-1988)
João Dias (1926-1979)
Jorge Rosa (1930-2001)
Isidoro d’Oliveira (1934-2013)
Manuel Andrade (1944-1966)


cf. Poetas populares do fado tradicional

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Fado VI (recolha em História do Fado)

Os lisboetas de 1792 — principalmente a caixeirada de mercadores e capellistas — acompanhados de rascòas, batiam de sege para os festins bem pagodeados na casa de pasto de Bellas e para as bambochatas nos retiros de Sete Rios e das Larangeiras, onde se batoteava forte, principalmente com os "ofliciaes de gaveta" conforme os arrieiros alcunhavam os caixeiros que sizavam os patrões.

O fado, José Malhoa, 1910.
Wikipédia

Mas a guitarra não tinha logar n'essas pandegas descabelladas. 

Os lisboetas de 1807 continuaram a tradição das patuscadas em Bellas; e os de 1820 limitavam as suas diversões campestres ás batidas de tipóia para esta localidade — que frequentavam em com panhia das michelas de jozésinho de baetão verde, vestido de chita riscada e leuço branco na cabeça e ás burricadas na Oulra-Banda ou para Loures e Lumiar, onde iam vêr a quinta do marquez de Angeja, (hoje propiiedade dos duques de Palmella). 

A guitarra, porém, continuava a brilhar pela ausência. Nas frescatas e nas hortas dos arredores da Lisboa de 1833, guilarreavam-se modinhas [...]

Repetimos que, entre o fadista de 1848, o de 1860 e o de hoje. ha apenas differenças superficiaes, porque a sua fadislite aguda, o seu nervosismo feroz, têem resistido obstinadamente ás investidas tenazes da civilisação. E se o falante de 1848 cantava todo ancho:

O fadista que é fadista,
A geito o ferro manobra,
Mettendo mào aos arames
Dá facada como cobra,

o da actualidade ainda nos vem dizer com uma insondável expressão de guapice: 

Tenho sina de morrer
Na ponta d'uma navalha,
Toda a vida ouvi dizer:
— Morra o homem na batalha!

...

Entre as quadras attribuidas ao estro da Severa, havia as seguintes: 

A Chicória do Sarmento, 
Que bate o fado tão bem, 
Quando "toureia" o Sedvem, 
Chora de contentamento.

Ó D. José cavalleiro, 
Toma sentido na bolla! 
Pode fazer te em patola 
Qualquer fino boi matreiro! 

P'ra mim, o supiemo gozo 
É bater o fado liró, 
E vêr combater c'um boi só 
O conde do Vimioso.

...

N'este manuscripto lia uma decima anonyma dirigida a versas personalidades da epocha.

Voluntária ao Voluntário 
A Ratinha se apegou, 
Dircea aos esses tornou 
Do seu antigo fadario.
A Sal ma ao Secretario 
Deixa pelo Picador, 
D. Izabel, seu amor,
Muda do Papinha ao Papa,
D. Ritta os olhos tapa, 
Villanova faz furor.

...

O Fado (detalhe), José Malhoa, 1910.
Le Portugais, Georges Braque, 1911.
Wikipédia; WikiArt
A guitarra, dizem os methodos de ensino, admitte cinco afinações: a afinação natural, a afinação natural com quarta (muito empregada para acompanhamentos), a afinação do fado, a afinação transportada (afinação mais baixa meio tom) e a afinação do violão. 

Mas as afinações que propriamente lhe competem são a natural e a do fado, sendo preferivel a ultima. Os tocadores antigos, os tocadores do lidimo fado, executavam-n'o em ré menor. E, circumstancia a notar, antigamente o cantador não se acompanhava a si mesmo, mas fazia se sempre acompanhar de um guitarrista. 

Os dedos ágeis do tocador corriam rapidamente sobre as cardas da guitarra e davam vôo ao pensamento harmonioso dos auctores dos fados, emquanto as rimas do cantador batiam azas. Hoje, quasi sempre o cantador se acompanha a si proprio.

A voz para cantar o fado é uma voz inclassificável, sui generis, com modulações e inflexões não sujeitas ao jugo lyrannico dos methodos de canto, uma voz que não se subordina aos dietames cathedraticos dos professores do Conservatório. 

E ahi está o motivo porque o Tamagno ou a Palli poderiam fazer fiasco cantando o fado ao pé do Serrano ou da Albertina. E eis ahi a razão por que um interprete de uma partitura deliquescente de Puccini ou de uma partitura descriptiva de Wagner pregaria um estenderete raso, se quizesse antar o fado da Severa ou o fado do João Black.

As primeiras trovas do fado, devidas á mechanina espiritual do povo, eram em quadras; depois usaram-se em quadras glosadas e em decimas; e ultimamente, com o fado modernista, empregam se de novo as quadras e também as quintilhas. Ofado principiou por se cantar com versos ingenuamente populares, impro- visados à la va comme je te polisse, de que damos as amostras seguintes:

Ulysses era brejeiro,
Era o pae da brejeirada 
Era um bom sapateiro, 
Trabalhava n'uma escada. 

Encontrei Frei João
N'uma manhã de geada,
Com um instrumento na mão, 
Vinha a ser uma guitarra. 

O coelho é manhoso,
Dorme c'os olhos abertos,
Eu durmo c'os meus fechados, 
Porque tenho amores certos.

Na cabana do Zé do Sacho 
Ha uma cruz de madeira,
E n'ella um Christo pregado, 
Feito de pau de gingeira.

Muitos me chamam Antonio, 
E eu Antonio não sou,
O meu nome não é este,
Foi alguém que m'o trocou.

...

Le Portugais, Georges Braque, 1911.
O Fado (detalhe), José Malhoa, 1910.
WikiArt; Wikipédia
O fado mais antigo é o fado do marinheiro. Segue-se-lhe o fado corrido, que parece ter sido o primeiro modelado por aquelle, e que se cifra na execução do acompanhamento, sem variações. 

Quando o fado não é tocado para acompanhar o canto, os guitarristas bordam sobre elle os arabescos da sua phantasia musical, arrancam ao instrumento variações que percorrem toda a gamma chromatira dos extases amorosos, das idealidades scismadoras, dos affectos jubilatorios. 

A primeira mulher que tocou o fado corrido na guitarra foi a Manasinha, catraia da Madragòa em 1850. Foi ella que o ensinou ao cantador Paixão, o primeiro também que tocou o fado corrido na guitarra. 

Ao fado corrido segue-se o fado da Cotovia, cuja lettra desconhecemos. Depois, vem o primeiro fado de Pedrouços, original de A Branco, composto em 1849, e o fado choradinho, anterior a 1850, que serviu de modelo a outros fados. Este fado canta-se com os versos seguintes: 

Quem tiver filhas no mundo 
Não fale das desgraçadas. 
Porque as filhas da desgraça 
Também nasceram honradas. 

Não sei que quer a desgraça 
Que atraz de mim corre tanto; 
Hei de parar e mostrar-lhe 
Que de vêl-a não me espanto.

Fui encontrar a desgraça 
Onde os mais acham prazer; 
Amor, que dá vida a tantos, 
Só a mim me faz morrer. 

Das filhas da desventura 
Devemos ter compaixão, 
São mulheres como as mais, 
Filhas de Eva e de Adão. 

Eu quero bem á desgraça, 
Que sempre me acompanhou, 
Mão pcsso amar a ventura, 
Que irem cedo me deixou. 

Eu fui a mais desgraçada 
Das filhas da minha mãe, 
Todas tem a quem se cheguem,' 
Só eu não tenho ninguém. 

Debaixo do frio chão, 
Onde o sol não tem entrada, 
Abra se uma sepultura, 
Finde o fado a desgraçada. 

E Deus que tudo perdoa, 
E a VIrgem Nossa Senhora, 
Hão de ouvir a alma que implora 
Salvação á peccadora.

...

Le Portugais, Georges Braque, 1911.
WikiArt
Depois d'esles fados, apparece o fado da Severa, que remonta aos meiados do século xix, porque foi com posto em tempo da mulher que llhe deu o titulo, e que, como vimos, morreu anleriormenle a 1850. 

Attribuem a paternidade d'este fado ao Sousa do Casarão. Os collectors do Cancioneiro de musicas populares consideram-n'o como o lypo primordial dos fados populares lamentosos. 

A versão coimbrã do fado da Severa, recolhida e publicada pelo sr. Theophilo Braga a paginas 140 do seu Cancioneiro Popular, é como se segue:

Chorae, fadistas, chorae,
Que uma fadista morreu;
Hoje mesmo faz um anno,
Que a Severa falleceu.

O Conde de Vimioso
Um duro golpe soffreu,
Quando lhe foram dizer
A tua Severa morreu.

Corre á sua sepultura,
O seu corpo ainda vê:
"Adeos, oh minha Severa,
Bôa sorte Deos te dê!

Lá n’esse reino celeste,
Com tua banza na mão,
Farás dos Anjos fadistas,
Porás tudo em confusão.

Até o proprio Sam Pedro
Á porta do céo sentado,
Ao ver entrar a Severa,
Bateu e cantou o fado.

Ponde no braço da banza
Um signal de negro fumo,
Que diga por toda a parte
O fado perdeu seu rumo.

Morreu, já faz hoje um anno
Das fadistas a rainha,
Com ella o fado perdeu
O gosto que o fado tinha.

Chorae, fadistas, chorae,
Que a Severa se finou;
O gosto que tinha o fado
Tudo com ella acabou.

Mas o Cancioneiro de musicas populares insere este:

Quando lhe foram dizer: 
Maria Severa morreu! 

Chorae, fadistas, chorae, 
Que a Severa já morreu, 
Fadista como ella 
Nunca o fado couheceu! 

Conhecemos mais uma quadra com variantes, publicada pelo sr. Visconde de Castilho na Lisboa Antiga:

Ponde no braço da banza 
Um laço de negro fumo,
E este signal diga a todos: 
Que o fado perdeu o rumo!

A Severa — cuja memoria fulge atravez dos annos com o tremor luminoso de um astro — excitou a veia poética popular, ha ainda mais as dez quadras seguintes, abusivas á Severa, sendo as duas primeiras publicadas pelo sr. visconde de Castilho na Lisboa Antiga e as oito ultimas recolhidas da tradiç-ão oral:

Assim como as flores vivem 
Minha Severa viveu,
Assim eoino as flores morrem 
Minha Severa morreu.

Levantae lhe um mausoléu 
Co'um negro cypreste ao lado, 
E o epitaphio que diga: 
"Aqui jaz quem soube o fado" 

Quando a Severa falleceu,
O Vimioso adorado
Disse, vertendo lagrimas:
Morreu o mimo do fado!

Severa, linda Severa,
Foste a princeza do fado,
Foi o que Vimioso ouviu 
'ma manhã quando sergueu. 

Eu vou cantar a Severa 
N'esta bella occasião;
O seu fado é d'encantar 
Vae direito ao coração. 

O fado da Severa tem outro que o completa, o fado do Vimioso. Este pertence, evidentemente, a época posterior, mas inserimil-o aqui por ser o complemento d'aquelle. É formado de dezoito quadras: 

Quem lhe vê a fãce morena, 
Quem vê seus olhos tyrannos, 
Nada vê que mais captive, 
Ainda que viva mil annos. (1)


(1) Historia do fado

Leitura relacionada:
Cancioneiro popular colligido da tradição por Theophilo Braga

domingo, 10 de maio de 2020

Fado V (recolha em História da poesia e Cancioneiro popular)

Em Portugal é outra a causa; pobre nacionalidade morta, é a túnica sobre que pairam os dados. Triste presentimento, tristíssimo, tanto mais, quanto se apossa de uma alma ainda crente no meio da corrupção deste pequeno Baixo Império. Colligir a poesia popular portugueza agora, no momento do transe, é como a garrafa ao mar que se atirava nos naufrágios: é para que se saiba que existiu este povo que também soffreu e cantou [...]  (1)

Fado, como a xacara moderna, em que a acção senão tira da vida heróica, é uma narração detalhada e plangente dos successos vulgares, que entretecem o existir das classes mais baixas da sociedade. 

Ha o "fado do marujo", "da Severa", "do Soldado", e o "do Degradado" que se despede das moças da vida. 

Tem o fado a continuidade do descante, seguindo fielmente uma longa narrativa, entremeada de conceitos grosseiros e preceitos de moralidade com uma forma dolorosa, observação profunda na descripção dos feitos, graça despretenciosa, com uma monotonia de metro e de canto, que infunde pesar, principalmente na mudez ou no ruido da noite, quando os sons sáeim confusos do fundo das espeluncas, ou misturados com os risos dos lupanares. rythmo do canto é notado com o bater do pé e com desenvoltos requebros; a dança e a poesia auxiliam-se no que se chama bater o fado. 

Dos caracteres que temos apontado, principalmente do narrativo, é que vem o nome a esta forma, de Fado ou "facto"; a canção de gesta da edade media, acompanhando as transformações sociaes tornou-se o Fado moderno. Da côr sensível de fatallidade, que ha na poesia do povo, pareceria talvez provir o nome á forma que mais se inspira d'esse sentimento. É uma analogia falsa. 

Chama-se "fadista" ao vagabundo nocturno que anda modulando essas cantigas; nome que vem do velho francez "Fatiste", poeta, que Edelestand du Méril pretende que tivesse vindo do islandez "fata", vestir, em vez do grego phatisein, que suppõe tradição erudita de mais para se tornar popular. (2)

Caricatura do typo fadista no cortejo
com que os estudantes da Escola Polytechnica de Lisboa
celebraram a publicação do "Decreto do cuspo".
cf. Alberto Pimentel, A triste canção do Sul, 1904.
Fadistas

Tudo quanto o fado inspira
E o que só me entretem; 

Pois quem do fado se tira 
Não sabe o que é viver bem. 

Eu heide morrer no fado, 
Seguir os destinos seus; 
O chinfrim será meu brado, 
A banza será meu Deos. 

Se o padre santo soubesse 
O gosto que o fado tem, 
Viera de Roma aqui 
Bater o fado também. 

Fado da Severa 
(Versão de Coimbra) 

Chorae, fadistas, chorae, 
Que uma fadista morreu; 
Hoje mesmo faz um anno, 
Que a Severa falleceu.

O Conde de Vimioso
Um duro golpe soffreu,
Quando lhe foram dizer
A tua Severa morreu.

Corre á sua sepultura,
O seu corpo ainda vê:
"Adeos, oh minha Severa,
Bôa sorte Deos te dê!

Lá n’esse reino celeste,
Com tua banza na mão,
Farás dos Anjos fadistas,
Porás tudo em confusão.

Até o proprio Sam Pedro
Á porta do céo sentado,
Ao ver entrar a Severa,
Bateu e cantou o fado.

Ponde no braço da banza
Um signal de negro fumo,
Que diga por toda a parte
O fado perdeu seu rumo."

Morreu, já faz hoje um anno
Das fadistas a rainha,
Com ella o fado perdeu
O gosto que o fado tinha.

Chorae, fadistas, chorae,
Que a Severa se finou;
O gosto que tinha o fado
Tudo com ella acabou.

Fado do marujo
(Versão de Coimbra)

Triste vida a do marujo,
Qual d’ellas a mais cansada;
Por uma triste soldada
Passa tormentos! [Bis]

Andar á chuva e aos ventos
Quer de verão, quer de inverno;
Parecem o proprio inferno
As tempestades!

As nossas necessidades
Obrigam a navegar,
E a passar tempos no mar,
E aguaceiros.

Passam-se dias inteiros
Sem se poder cosinhar;
Nem tão pouco mal assar
Nossa comida!

Arrenego de tal vida,
Que nos dá tanta canseira!
Sem a nossa bebedeira
Nós não passamos!

Quando socegado estamos
No rancho a descansar,
Então é que ouço gritar:
Oh leva arriba!

O mestre logo se estriba,
Bradando d esta maneira :
"Moços, ferra a cevadeira
E o joanete."

Também dá o seu falsete
Não podendo mais gritar:
"Cada qual ao seu logar
Até ver isto!"

Mais me valera ser visto
Á porta de um botequim,
Do que vêr agora o tim
Da minha vida!

Quando parece comprida
A noite p’ra descançar,
Então é que ouço tocar
Certa matraca.

O somno logo se atraca,
Meu coração logo treme,
Em cuidar que heide ir ao leme
Estar duas horas.

Lembram-me certas senhoras
Com quem eu tratei em terra.
Que me estão fazendo guerra
Ao meu dinheiro.

Foi um velho marinheiro,
Que inventou esta cantiga;
Embarcado toda a vida
Sem ter dinheiro. (3)


(1) Cancioneiro popular colligido da tradição por Theophilo Braga
(2) História da poesia popular portuguesa por Theophilo Braga
(3) Cancioneiro popular colligido da tradição por Theophilo Braga