domingo, 11 de novembro de 2018

D. Francisca Carolina de Bragança, la bella Chica ou la belle Françoise, princesa de Joinville

Francisca de Bragança (Rio de Janeiro, 2 de agosto de 1824 — Paris, 27 de março de 1898), foi uma princesa do Brasil por nascimento e princesa de Joinville por casamento. Era a quarta filha  [do rei D. Pedro IV de Portugal e] Imperador D. Pedro I do Brasil e da imperatriz D. Leopoldina, sendo assim, irmã de D. Maria II de Portugal, e de D. Pedro II do Brasil.

Retrato da princesa Francisca do Brasil (detalhe),
segundo Winterhalter, 1846.
Wikipedia

Nascida no Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, D. Francisca cresceu ao lado dos irmãos D. Pedro de Alcântara (posteriormente imperador D. Pedro II do Brasil), Paula Mariana e D. Januária. Seu nome foi escolhido por seu pai como forma de homenagear o rio São Francisco, importante rio do interior do Brasil.

D. Pedro II do Brasil e as suas irmãs, princesas Francisca e Januária, vestindo de luto pela morte de seu pai, 1835.
Wikimedia

Francisca perdeu sua mãe, D. Maria Leopoldina, com menos de três anos de idade. Aos sete anos, ela viu o pai, D. Pedro I do Brasil (Pedro IV de Portugal), sua madrasta (Amélia de Leuchtenberg) e sua irmã mais velha (a futura Maria II de Portugal) partirem para Lisboa. A princesa cresceu sob educação extremamente rigorosa [...] (1)

A 1 de Maio de 1843 casou, no Paço de São Cristóvão no Rio de Janeiro, com Francisco Fernando Filipe de Orléans, príncipe de Joinville, terceiro filho do "Rei-Cidadão" Luís Filipe de Orléans e da rainha Maria Amélia Bourbon Duas-Cecílias. (2)

O prùincipe a princesa de Joinville partindo do Rio de Janeiro após o seu casamento, 1 de maio 1843.
Château de Versailles

Na corte francesa, a educada e bela D. Francisca logo se tornou uma das princesas mais populares da corte. Era chamada de La Belle Françoise. Tornou-se amiga de uma fidalga brasileira casada com um nobre francês, Luísa Margarida de Barros Portugal, Condessa de Barral.

Francisca Carolina de Bragança Recepção em honra da rainha no Salon des Rois no château d'Eu em 3 de setembro de 1843.
Wikimedia

Em 1848, a monarquia foi extinta na França, e os Orléans seguiram para o exílio. Dotada de espírito combativo, D. Francisca negociou com vigor com os republicanos a fuga de sua família. Exilou-se em Claremont, Inglaterra, e manteve uma intensa troca de correspondência com seu irmão no Brasil.

Très anglophile, Louis-Philippe veut réconcilier la France et l'Angleterre.
Il invite par deux fois en 1843 et 1845, la reine Victoria au château d'Eu,
sa résidence d'été, Franz Xaver Winterhalter,
Louis-Philippe, roi des Français, recevant la Reine Victoria, 1846.
#‎laminutelouisphilippe‬ (Château de Versailles)

Com dificuldades financeiras, os príncipes de Joinville negociaram as terras catarinenses com a Companhia Colonizadora Alemã, do senador Christian Mathias Schroeder, rico comerciante e dono de alguns navios. Assim nasceu a Colônia Dona Francisca, mais tarde Joinville, atualmente a maior cidade do estado de Santa Catarina.

Retrato da princesa Francisca do Brasil (princesa de Joinville),
segundo Winterhalter, 1846.
Wikipedia

Após a Revolução de 1848, D. Francisca de Bragança viveu no exílio em Inglaterra, juntamente com outros membros da família real francesa, regressando com o marido a França em 1870. (3)

Tratada carinhosamente como "Mana Chica" por D. Pedro II, D. Francisca defendia medidas enérgicas contra o crescimento do republicanismo no Brasil. 

Em 1864, ela enviou os príncipes Gastão de Orléans, Conde d'Eu, e Luís Augusto de Saxe-Coburgo-Gota para o Brasil, onde se casariam com suas sobrinhas, D. Leopoldina e D. Isabel, respectivamente. Entretanto, os casais preferiram inverter a orientação familiar, casando-se o Conde D'Eu com a princesa Isabel, e o príncipe Luís Augusto com a princesa Leopoldina.

Após a queda da Napoleão III e do Segundo Império, a família Orléans retornou à França; Francisca morreu em Paris aos 73 anos. Seu marido sobreviveu a ela por dois anos, morrendo em Paris em 1900. (3)

Visitou por diversas vezes Portugal, a última delas para assistir ao casamento do sobrinho-neto, o duque de Bragança D. Carlos [em 28 de maio de 1886]. (4)

*
*     *

A princesa D. Francisca Carolina de Bragança, 5.a filha do imperador D. Pedro I do Brazil e de sua primeira esposa a imperatriz D. Maria Leopoldina de Áustria, casou a 1 de maio de 1843 no Rio de Janeiro com o príncipe de Joinville, Francisco Fernando [François d'Orléans], 6.° filho de Luiz Filippe de Orléans e da rainha Maria Amélia de Bourbon.

Dona Francisca de Bragança, princesa de Joinville (detalhe),
Musée de la Vie romantique, Ary Scheffer, 1844.
The Royal Forums

É para notar que, possuindo todos os Orléans um espírito muito culto e uma grande intuição artística, herdada de sua mãe que foi discípula de Angélica Kauffmann, entre eles se distinguia Joinville, porque pintava e aguarelava com talento, era um pouco escultor e desenhava constantemente, apesar da sua vida aventurosa e movimentada.

O príncipe visitara pela primeira vez o Rio de Janeiro em 1838 e da segunda, antes de partir casado com a princesa D. Francisca, permaneceu algum tempo na corte [...]

Os filhos de Luiz Filippe, mesmo casados, habitavam com seus pais e as respectivas famílias o palácio das Tulherias. Ás Vezes revezavam-se na residência campestre de Neuilly ou nos palácios nacionais, se é que algum não ficava temporariamente no Palais-Royal, anterior residência do duque de Orléans até á revolução de julho de 1850 que o colocou no trono, palácio que êle conservava mobilado e montado como habitação particular. 

Paris, les Tuileries le Louvre et la rue de Rivoli, Charles Fichot, c. 1850.
Wikipédia

É histórica a vida patriarcal que levava a real família e bem conhecida a descrição da sala das Tulherias com a mesa de serão da rainha Maria Amélia, em volta da qual se sentavam todas as princesas.

Joinville, marinheiro dedicado á sua profissão, valoroso e de génio irrequieto, fazia prolongadas ausências.

Le prince de Joinville observant le bombardement de Saint-Jean d'Uloa depuis l'arrière de son navire lors de l'expédition contre le Mexique en 1838.
Wikipedia

Promovido logo depois do seu casamento a contra-aimirante e nomeado par de França, tendo-lhe nascido os dois filhos, Francisca Maria Amélia em 14 de agosto de 1844 e Pedro Filippe, duque de Penthièvre, em 4 de novembro de 1845, já no meado deste ano assumiu o comando da esquadra de evolução, cruzou nas costas de Marrocos, bombardeou Tanger e tomou Mogador.

Retrato da princesa Francisca do Brasil (princesa de Joinville),
Franz Xaver Winterhalter, 1844.
Wikipedia

Promovido a vice-almirante e muito popular pela sua hostilidade ao ministério Guizot, a revolução de 1848 surpreendeu-o em Alger, onde estava com sua esposa servindo sob as ordens do irmão, o duque de Aumale, que era governador. 

No mesmo dia em que Luiz Filippe deposto desembarcava em Inglaterra, os príncipes saíam daquela cidade africana a caminho de Gibraltar, acompanhando assim o rei no seu exílio [...]

Lamartine devante a câmara de Paris rejeita a bandeira vermelha em 25 de fevereiro de 1848, Henri Philippoteaux.
Wikipedia

Banidos do território da França pelo decreto de 26 de maio, foram-se juntando em Inglaterra, na residência de Claremont, os príncipes de Joinville e os duques de Nemours, de Aumale e de Montpensier. 

La Révolution de 1848 contraint Louis-Philippe à abdiquer. Il s'exile en Angleterre où il meurt deux ans plus tard à Claremont, Eugène Lami, La Famille de Louis-Philippe à Claremont, 1850.
#‎laminutelouisphilippe‬ (Château de Versailles)

A duquesa viúva de Orléans, com os filhos, ficou algum tempo em Eisenach. Os duques de Montpensier pouco depois saíram de Inglaterra, estiveram na Holanda e Vieram residir para Hespanha. 

O rei faleceu em 1850. E por meados de 1852 separou se o duque de Aumale para Orléans-House, em Twickenham, que comprou a lord Kilmorey e que já de 1813 a 1815 fora residência de emigração para os pais, onde depois foi organisando um esplendido museu, hoje em Chantilly. 

Mas o príncipe de Joinville, apesar da sua vida movimentada e aventurosa, fez sempre base de família em Claremont e a princesa aí se conservou com a sogra, suportando com estoicismo a vida difícil que lhe faziam as viagens e ausências do marido, atacado de surdez quasi completa, e depois as ao filho, duque de Penthièvre. 

François d'Orléans, príncipe de Joinville (detalhe).
Chateau de Versailles, Franz Xavier Winterhalter, 1843.
REPRO TABLEAUX

Em 11 de junho de 1863 casou a filha Francisca Maria Amélia com seu primo o duque de Chartres, 2.° filho da duquesa viúva de Orléans, que também falecera em Claremont em 1858. A rainha Maria Amélia só faleceu em 1866.

Os bens de Luiz Filippe e de sua família, liquidados em 1851, haviam sido confiscados por Luiz Napoleão em 1852 e só depois de 1870, pela lei de abrogação, que permitiu aos príncipes exilados o regresso a França, lhes fôram entregues, em consequência do Voto da Assembleia Nacional de 23 de dezembro de 1872.

O resto é história contemporânea. Apesar das leis de expulsão de 1883, a princesa de Joinville veio a falecer em 27 de março de 1898 e o marido em 16 de junho de 1900 em Paris, residindo com seu filho, o duque de Penthièvre, na Avenue d'Antin 65, ou na vivenda de Arc-en-Barrois (Haute-Marne). 

Os duques de Chartres habitavam na Rue Jean Goujon 27, ou na Vivenda de Saint-Firmin perto de Chantilly. (5)


(1) Wikipédia
(2) O Diário da Viagem de D. Francisca de Bragança
(3) Wikipédia
(4) O Diário da Viagem de D. Francisca de Bragança
(5) Luis Xavier da Costa A morte de Camões..., Lisboa, 1922


Artigos relacionados:
Príncipe de Joinville
Velhas lembranças, François d'Orléans, 1842 (1 de 5)
Velhas lembranças, François d'Orléans, 1842 (2 de 5)
Velhas lembranças, François d'Orléans, 1842 (3 de 5)
Velhas lembranças, François d'Orléans, 1842 (4 de 5)
Velhas lembranças, François d'Orléans, 1842 (5 de 5)
Os Joinville e A morte de Camões de Domingos Sequeira

Informação relacionada:
Diário De Um Príncipe No Rio De Janeiro
O Diário da Viagem de D. Francisca de Bragança
"Palácio dos Príncipes" - Joinville (fb)
Brasil: Una biografía
Isabel Lustosa, D. Pedro I. Um herói sem nenhum caráter, S. P., Companhia das Letras, 2006
Château de Versailles (Les collections)
#‎laminutelouisphilippe‬ (Château de Versailles)

domingo, 28 de outubro de 2018

À passagem do combóio (En voyant passer le train)

Apresentado no Salão do Grémio Artístico de Lisboa em 1897, e na Exposição Universal de Paris em 1900. O quadro, foi pintado em 1896, e comprado em Dezembro, por 280 000 reis por José Relvas. O mesmo perdeu-se no naufrágio do "Saint-André" em 1901. As medidas originais eram 400 x 650 mm.

À passagem  do comboio (segunda versão), José Malhoa, c. 1905.
Provocando

Hoje conhece-se apenas por uma reprodução do quadro gravada (xilogravura) por Charles Baude para o "Le Monde Illustré" (Litogravura s/ papel seda, CMP, Invº n.º 86.154, 350 X 450 mm), e por uma gravura de A. P. Marinho, reproduzida no catálogo da 7ª Exposição do Grémio Artístico de 1897.

Reproduzido em "Branco e Negro" de 1897, p. 102. Malhoa fará depois uma segunda versão que levou a Paris em 1905 e ao Rio em 1906."  (1)

En voyant passer le train / À passagem do combóio, 1896, 40x65. Inicialmente apresentado na 7ª Exposição do Grémio Artístico, 1897, já sem preço de catálogo – sinal de haver sido vendido, ainda com o verniz a secar, a José Relvas. O mesmo que o haveria de emprestar e perder agora.

"À passagem do comboio – é uma animada scena, tão frequente, a que o pincel de Malhôa apanhou em flagrante toda a vida e intensa expressão d’alegria expontanea. O comboio foge rapidamente e o rapazio, que correu ás barreiras a vel-o passar, ainda não acabou a esfuziada de gritos e risos; teem todos o gesto animado das grandes ocasiões, um lança a perna sobre o ripado, agita-os um extremecimento de vida, só a rapariguinha que traz ao collo a irmã pequenina, conserva attitude socegada de quem, tendo um dever a cumprir, não pode deixar-se arrebatar por enthusiasmos." – assim o descrevera Ribeiro Arthur aquando da apresentação, em 1897.

Grémio Artístico, 7.ª exposição, 1897.
O Occidente N.º 665, 20 de junho de 1897

Malhoa fará uma segunda versão de À passagem do combóio, c.1905. Aparentemente menos interessante, e onde enfia o barrete ao cachopo deitado sobre a cerca. Levá-lo-á ao Brasil em 1906, ali será vendido a "Baldº Carq.ja Fuentes" [Baldomero Carqueja Fuentes], por "1:900$000 (…) em moeda brazileira".

É, muito possivelmente, este, não datado, e que entretanto terá vindo mais recentemente repatriado. Assim, a correr, é esta a história possível das seis obras que Malhoa levou à Exposição Universal de Paris, 1900.

Depois, na volta, o barco que as trazia afundou-se. Perderam-se cinco das obras de Malhoa e mais uma série de outras de outros Artistas nacionais. Foi grande a perda - como se pode calcular! A esta exposição internacional havia ido do melhor que então por cá era produzido. (2)

"Este quadro, assim descrito, ou é coisa completamente desconhecida ou, entre tudo o que hoje sabemos, só poderá ser À passagem do combóio, 1896. O que é muito provável, se olharmos bem para o que dele resta.

À passagem  do comboio, José Malhoa, 1896.
En voyant passer le train, gravura de Charles Baude, segundo o quadro perdido de Malhoa.
Provocando

A assim ser, estaríamos apenas perante uma parte dos irmãos e não «todos os filhos em forma» – o que se afigura perfeitamente natural. Por essa data, 1895/6, os três mais velhos, Saúl, Aida e Maximino – que, aliás, quase nunca aparecem nesta saga familiar a tinta d’óleo – teriam todos mais de quatorze anos e, por essa altura e naquela vida, era idade onde já se não andava na gandaia… a labuta à séria ocupá-los-ia.

Deste modo, o retrato da «extremosa mãe, com todos os filhos em forma, quando entre as oito e as nove (…) lhes ministrava o repasto do almoço» resumir-se-á, provavelmente, aos mais novitos, aos que já com algumas obrigações familiares – cuidar dos animais e da criação, levar e trazer o gado do pasto, ir às pinhas ou aos gravetos… – ainda tinham vida livre de garotada.

O cenário não é estranho na obra figueiroense de Malhoa – já o havíamos divisado em Os ouriços, 1894, e podemos vê-lo n’ A Sesta (a dos ceifeiros), 1895, e n’ As Cócegas, a de 1894 e nas de1904, por exemplo.

O "amigo António", com oito ou nove anos, esparramado sobre o varal da vedação; o Noé, já com doze ou treze, de barrete e calças rotas nos joelhos; o Venâncio, agora com seis anitos, empoleirado na trave, "ainda não acabou a esfuziada de gritos e risos"; a Preciosa, com nove ou dez anos enfezados, subiu à pedra para ganhar altura e segura uma das cestas do almoço já tragado – certamente veio com a Mãe trazer a bucha aos catraios que andavam com as ovelhas no restolho deixado da ceifa – a mãe Tereza trouxe, além da outra cesta, o mais pequenito ao colo (não sabemos se o Adelino ou o Zé…).

Esta é uma narração perfeitamente possível deste quadro. E, a acreditar no que nos conta António, bem provável de ser real.

En voyant passer le train, d'aprés Malhoa, Charles Baude.
Galerie Napoléon

A outra, a frenética de Ribeiro Arthur, também – basta a sugestão dos paus de fio e imaginar o cavalete de Malhoa dentro duma carruagem em movimento… o título, bem engendrado por Malhoa, inspirado nas muitas viagens entre Lisboa e o Paialvo, faz o resto. (3)


(1) Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra
(2) Provocando, Paris 1900 L'Exposition Universelle
(3) http://provocando-umateima.blogspot.com/…/o-coelho-ver-pass…

Artigos relacionados:
O Grémio Artístico (7.ª exposição, 1897)
Arte portuguesa na Exposição Universal de 1900

Leitura adicional:
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (II), 1898

domingo, 21 de outubro de 2018

Almeida Garrett por Bulhão Pato: as Folhas caídas

Assomava a primavera de 1849. — N'esse tempo, em Portugal, havia primavera. — Deixou bem gratas recordações áquelles, que são hoje açoitados, em abril e maio, com as granisadas aspérrimas de dezembro! 

Alfama, Lisboa, James Holland, 1837.
Walker Art Gallery

Os dias da estação vernal chegavam-nos sorridentes, azues, e illuminados. As roseiras nos jardins, o pomar na horta, o relvão nas chapadas, cobriam-se de botões e de flores.

O pardal nos beiraes dos telhados, as andorinhas nos ares, as tutinegras, os rouxinoes nos balsedos e nas faias sussurrantes e sombreiras, papeavam, alegres e enamorados. 

A Ajuda, n'esta epocha, era deserta e silenciosa. Ruinas a cada passo. No largo da Patriarchal, que desabara, só havia de pé a torre! O grande sino, melancholico e solemne, batia as horas e os quartos. Os echos, repetindo-se de quebrada em quebrada, expiravam no fundo do valle, lá em baixo, na margem do rio. 

Lisboa, Vista do Paço da Ajuda, Louis Lebreton, c.1850.
Biblioteca Nacional de Portugal

O silencio, quando o vento estava sul, era interrompido pelos sons vibrantes das bandas marciaes de infanteria 1 e de lanceiros 2. 

Ás vezes, de envolta com as ondas de sons, vinham gritos dilacerantes, despedaçadores; gritos que é preciso ouvir, para ter perfeita idéa d'elles! Partiam do peito de um soldado, cujas costas eram retalhadas cruelmente no supplicio da vara!

O palácio, enorme, vasio e sonoro, além de algumas velhas e pobres creadas do antigo Paço, abrigava bandadas de pombos, que tinham farto pastio nas sementeiras ferazes da Serra de Monsanto, na baga do zimbro, na flor do loureiro bravo, e sombra propicia no zambujal fechado da realenga tapada. Os subúrbios da Ajuda eram deliciosos.

Ao pé da porta o Jardim Botânico, dirigido por José Maria Grande.

Não ficava longe o amenissimo Valle das Romeiras, e, querendo alargar um pouco o passeio, tínhamos Carnaxide, Linda a Velha, e Linda a Pastora, com as suas casitas a alvejar de entre a verdura dos quintaes; e então, como pittorescas, quando as searas tenras circumjacentes ondeavam com o norte límpido, que ao mesmo tempo fazia girar, silvando, as velas brancas dos moinhos, agrupados, aqui e além, nos outeiros crespos e pelo dorso flexuoso da serra!

Rebanho, Arte Pintura Tomás da Anunciação, 1841.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Um dia Almeida Garrett escreveu uma longa carta a Alexandre Herculano. N'esse papel fazia-se uma confidencia amarga!

O poeta havia levado mais um revez, dos muitos da sua combatida e aventurosa existência. Estava n'um momento análogo áquelle, que lhe inspirara — n'umas paginas de prosa, que vêm nas "Flores sem fructo" — esta apostrophe á solidão:

"Solidão, eu te saúdo! Silencio dos bosques, salve!
A ti venho, ó natureza: abre-me o teu seio.
Venho depor n'elle o peso aborrecido da existência; venho despir as fadigas da vida."


Suppunha, illudido pela dor, que poderia prescindir do mundo, elle, o mais mundano de todos os artistas; elle, para quem os fastígios do poder, as pompas do luxo, os máximos requintes do gosto; as pérolas, as saphiras, as esmeraldas e os diamantes, rutilando no seio, nas mãos, nos cabellos negros retintos, ou loiros acendrados, da mulher apetecida — ou adorada — se tornavam impreteriveis!

Mas, no momento, a sua dor era intensa e sincera; por isso, confirmando o preceito de Horácio, ao descrevel-a, a todos nos commovia. Grandes foram as provações, porque passou aquelle desmesurado espirito! 

Para quem o lidou de perto, sobretudo nos últimos tempos, pelos seus versos — "Flores sem fructo", e "Folhas caídas" — é fácil determinar quaes foram as crises, os accessos dolorosos, no drama d'aquelle coração, que teve mais de um affecto, que facilmente se deixava seduzir, mas que tão profunda, tão arrebatadamente se apaixonava! 

Depois de grandes desgostos domésticos, que as dicacidades brutaes e malévolas de ânimos corrompidos vinham ainda envenenar, o poeta parecia succumbir aos revezes da má fortuna.


Uns versos das "Flores sem fructo" explicam o estado da alma do auctor do "Camões", n'esse periodo. Não é a dor acerba, é o desalento supremo; tédio, fastio moral, o mais requintado tormento, que pode cruciar o homem!

Quando uma luz imprevista, serena e penetrante, o veiu arrancar áquella apathia moral, o poeta disse: 

Eu caminhava só, e sem destino,
No deserto da vida;
N'alma apagada a luz, e o desatino
Na vista esmorecida:
E afastava de mim, que me impeciam
No caminhar adeante,
Os prazeres dos homens, que sorriam,
E a turba delirante
De seus empenhos vãos. — Aos que gemiam
Sorria eu de inveja...
Quem podéra gemer!... mas arredava
Esses também: não seja
Traição a sua dor! — Eu caminhava
Só, triste, só, sem luz e sem destino,
A vista esmorecida,
A alma gasta, apagada, e ao desatino.
No deserto da vida.


Quem não atravessou uma crise funesta não escreve assim. A vida do homem tem d'estes momentos psychologicos; mas é preciso ser um grande artista, para lhe acertar com a nota verdadeira, propriamente humana!

Mais adeante, appellando para o suicídio, o poeta exclama:

E sentei-me, cansado, n'um rochedo, 
Triste como eu, e só, 
No meio d'este valle de degredo, 
De lagrimas e dó. 
Caíu-me a fronte sobre as mãos pesada, 
E meditei commigo: 
— Nâo é melhor pôr fim a esta jornada, 
E poisar no jazigo?...

Do céo, morno e pesado, as nuvens rarefazem-se, e elle diz: 

Olhei... e vi o azul do firmamento 
Só, sem nenhum brilhar 
De estrellas, ou de lua...
Mas logo se inundava, n'um momento, 
De uma luz alva, doce e resplandente, 
Que me entrou toda n'alma!...

Esta luz, esta nova estrella do poeta, era de certo a singular creança de dezoito annos, cheia de talento, primorosamente educada, bella, e, sobretudo, fina, que se enamorara perdidamente do génio e da viuvez de coração de Almeida Garrett, cujo nome era saudado nos jornaes, applaudido no theatro, coroado no parlamento, e nas academias!

Elle emprestou-lhe a "Nova Heloísa" do apaixonado João Jacques [Rousseau, Jean-Jacques, Julie ou la Nouvelle Héloïse]. O livro levava, a lápis, umas notas intencionaes. 

Adelaide respondeu a ellas, e um dia, cega, arrebatada, perdida, pungido o coração que exhaurira, na anciã de amar, as derradeiras notas do prazer, deixou tudo, tudo... o enleio das suas phantasias virginaes, o ambicionado futuro de uma união santa, o mundo, e a fama e o seio materno, para refugiar-se, transportada, nos braços do genial poeta!

Quem lhe não havia de perdoar o seu erro, o seu crime — se crime foi — redimido por tamanho amor!

Pondo de parte o extraordinário Miguel Angelo, de quem se conta, que não amou em toda a sua vida senão a Victoria Colonna, e que, só depois de morta, lhe deu o primeiro beijo, os artistas são susceptíveis de diversas e desvairadas impressões.

É providencial, ás vezes! Se Garrett, já no declinar da vida, não fosse accommettido de nova leviandade, — se por tal a querem capitular — não teríamos esse livro delicioso, que se intitula "Folhas caídas" .

Estavam quasi todas escriptas as Folhas caídas, quando, em 1849, o auctor veiu para o eremitério da Ajuda. — A serenidade luminosa d'aquella casa convinha ao estado de espirito do poeta em tal momento. Não podia escolher, melhor retiro. 

Emquanto o auctor da Historia de Portugal proseguia no grandioso trabalho, Garrett, no seu quarto, cuja janella deitava para um lindíssimo panorama, tinha horas recolhidas e meditadas, — agora, corrigindo este verso, ou limando tal período de prosa, logo tirando da estante um livro, e folheando este ou aquelle auctor predilecto. 

O grande poeta, n'esse tempo, tinha cincoenta annos. Ao escrever estas linhas, tão vivo se me está retratando na memoria, que me parece vêl-o! 

Em muito rapaz, uma desastrada queda arrancara-lhe a pelle desde a nuca até á parte superior do craneo, obrigando-o a usar cabello postiço; mas com tal arte o trazia, que parecia de um desalinho natural. 

A testa ampla e não sulcada de rugas. Os olhos, rasgados, luminosos e insinuantes, eram garços. O olhar, fundo e meditativo, illuminava-se, a espaços, de luz faiscante. Não conheci mais expressivo olhar! As pálpebras pisadas. A barba em volta do queixo, ao uso do seu tempo, sem bigode; uma pequena mosca. 

A bocca um pouco grande; o beiço inferior grosso; mas a linha graciosa e finíssima. Voz não a ouvi mais harmoniosa e attrahente; voz máscula, de barítono, modelada pelo gosto e pela arte. Como lia, como recitava, e como fallava!

A estatura mediana; peito e hombros largos; mãos fortes e cabelludas. Calumniarara-o também, quando disseram que todo elle era estofos; nada tinha de empréstimo, a não ser o cabello, por um accidente, como já disse. 


Na conversação toda a sua physionomia, tão espirituosa, tão distincta, animava-se de expressão indefinível. As vezes dizia: — Vamos arripiar a penna ao Patinho. E contava me uma aventura picante, em que se occultava o nome do heroe, que era elle próprio. 

Dos homens como João Baptista, quantos primores, — maravilhas, diremos, — se não perdem para a posteridade! Quanta coisa viva, e espontânea, do colorido mais brilhante; quantos conceitos profundos, observações penetrantes, não voam na conversação dos talentos superiores, quando têem, como Garrett, a singular faculdade da palavra! 

Que não houvesse alli, na casa da Ajuda, já descoberta, essa maravilha de encerrar e conservar o som, e se abrisse agora, para ouvirmos o dono da casa e os seus dois hospedes — Garrett e Rebello da Silva — , como eu os ouvi tanta vez! 

O poeta aprendera na grande roda e nas grandes luctas a arte de guardar as apparencias, a dolorosa, mas impreterível arte da dissimulação, para escapar, quanto possivel, ás ciladas d'este mundo. Alli, porém, estava entre corações amigos, e, sem fazer confidencias, podia desafogadamente soltar um suspiro! 

A nobre alma de Alexandre Herculano, sempre disposta e sempre solicita a acudir a todas as dores humanas, com quanta singelesa, com que delicadíssima e fraterna estima tratou Garrett, durante aquella memorável temporada!

Depois da morte de Adelaide, succederam-se longos, inertes, e amargos dias para o poeta, que chorava sobre um tumulo, e velava sobre um berço! Uma vez, porém, embora:

Qual o ataúde levado
A egypcio festim...

foi, foi á festa!

Era a noite da loucura,
Da seducção, do prazer,
Que em sua mantilha escura
Costuma tanta ventura,
Tantas glorias esconder.


Revia-se a melancholia no rosto do consternado poeta:

Mas a orchestra bradou alta;
— Festa, festa! e salta, salta!

Os seus guizos delirantes
Sacode, louca, a Folia...
Adeus, requebros de amantes!
Suspiros, quem n'os ouvia?


D'alli a pouco, estava escripto que outra fascinação viria tomar-lhe a alma de assalto:

Quem é esta que mais voltas
Gira, gira, sem cessar?
Como as roupas, leves, soltas,
Aerias leva a ondular,
Em torno á forma graciosa,
Tão fina! — Agora parou,
E tranquilla se assentou.


Que rosto! Em linhas severas
Se lhe desenha o perfil;
E a cabeça tão gentil,
Como se fora deveras
A rainha d'essa gente,
Como a levanta insolente !  


O risco é inevitável; a perdição está por um fio!

Vive Deus! 
que é ella.... aquella,
A que eu vi na tal janella,
E que, triste, me sorria,
Quando, passando, me via
Tão pasmado, a ciliar para ella!


Estes e os demais versos, foram feitos ao novo idolo, ao derradeiro Ignoto Deo do poeta; mas o Adeus que os precede, e que vale por elles todos, é uma supplica encarecida, perdão implorado com lagrimas acerbas á memoria d'aquella Adelaide, que tudo sacrificou por elle, a mãe da sua única e adorada filha!

Vista da Egreja das Chagas e do pateo do Pimenta residência de Almeida Garrett e Adelaide Pastor,
gravura de João Pedroso, 1863.
Hemeroteca Digital

Nunca o poeta, quando na flor e na força da vida, escreveu nada mais realista, mais sinceramente apaixonado ! Nunca o lyrismo do amor subiu mais alto, foi mais puro e arrebatado! Parece, que as lagrimas trazem sangue espumante, que o remorso espremeu do coração!

Adeus! Para sempre adeus! Vae-te!
Oh, vae-te! Que nesta hora
Sinto a justiça dos céus
Esmagar-me a alma, que chora.
Choro, porque não te amei,
Choro o amor que me tiveste!

O que eu perco, bem n'o sei,
Mas tu ... tu nada perdeste:
Que este mau coração meu,
Nos secretos escaninhos,
Tem venenos tâo damninhos,
Que o seu poder só sei eu!


Leiam estes prodigiosos versos, versos de paixão, que poeta algum escreveu em tal edade, e hão de sentir as angustias e dores, que lhe salteavam a alma ante a mudez do tumulo, onde jazia a morta, que o idolatrou!

Fraquezas de espirito, misérias humanas, ninguém se disciplinou d'ellas com mais desenganado açoite, nem houve Job, que se cobrisse de cinza com mais humilde contricção, voltando o farpão da própria lingua contra a carne viva dos próprios vicios!

Ninguém se penitenciou tão sincera e cruelmente, como o grande poeta, n'estes singulares versos! Por millenios lhe podiam contar os peccados, que todos redimiu com o fervor de tal arrependimento!


Oiçamol-o agora, oiçamol-o, quando se despede da sombra pallida, que, ao separar-se d'elle para sempre, lhe legara, como ultima fineza do seu amor, o thesoiro d'uma filha: 

Vae, vae... para sempre, adeus!
Para sempre, aos olhos meus,
Sumido seja o clarão
De tua divina estrella!
Faltam-me olhos e razão
Para a ver, para entendel-a.


Alta está no firmamento
Demais, e demais é bella
Para o baixo pensamento
Com que, em má hora, a fitei;
Falso e vil o encantamento
Com que a luz lhe fascinei.


Que volte a sua belleza
Do azul do ceu á pureza,
E que a mim me deixe aqui
Nas trevas em que nasci;
Trevas negras, densas, feias,
Como é negro este aleijão,


D'onde me vem sangue ás veias,
Este que foi coração,
Este que amar-te não sabe,
Porque é só terra — e não cabe
N'elle uma idéa dos céus!...
Oh! vae, vae; deixa-me! Adeus!


Correram, para o apartado eremitério da Ajuda, gratos e saudosissimos os mezes do verão de 1849!

No anno seguinte, Almeida Garrett, em julho, veiu passar um dia comnosco. Rebello da Silva e o conde de Carvalhal tinham apparecido por acaso. Conde de Carvalhal, a flor da elegância, o extremo da educação, o primor do gosto, e, mais do que tudo ainda — uma alma brilhante e transparente como crystal de Bohemia!

Uma fragata inglesa a chegar ao Tejo frente à Torre de Belém, com uma fragata portuguesa ancorada ao largo pela sua popa, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Cabral Moncada Leilões

Ás duas e meia, em ponto, — hora habitual, — fomos para a mesa. Alexandre Herculano estava de bom humor, como os grandes batalhadores em tempo de guerra.

Tinha escripto "Eu e o clero" — , e esperava a força da refrega para cair, de sabre em punho, e á escala vista, no baluarte inimigo.

Garrett, que parecia de animo desanuviado, deu largas á fecunda palavra. Ao café appareceu José Maria Grande, que vinha convidar-nos a passar a tarde no Jardim Botânico, onde tinha ido ser sua hospeda uma familia da nossa primeira sociedade. 

Quando, á noite, nos reunimos na casa do Jardim Botânico, entre outras pessoas, éramos — as que havíamos jantado na Ajuda, e a mais o conde de Belmonte, e D. João e D. Gastão da Gamara. Restam vivos Carvalhal, D. Gastão e eu. 

Animando a sala havia duas senhoras; uma casada, outra solteira. Ambas também já não pertencem ao numero dos vivos! A solteira era alta, delgada ; a cinta estreita; o pé andaluz; as mãos finas; a cabeça pequena, o cabello loiro, com reflexos de fogo, e ás ondas.

Caricatura de Garrett defronte da viscondessa da Luz, A Matraca, 1848.
Por largo campo, indómita e fremente
Corre a revolução,
Da vossa Luz a rápida torrente
Me alegra o coração
Cartas de amor à viscondessa da Luz

A bocca, pequena e vermelha, sorrindo, juvenil e alegre, deixava entrever duas renques de pérolas. Os olhos azues, e via-se n'elles o azul crystalino e ethereo da sua alma angélica!

Amava cegamente, e tinha deante dos olhos aquelle, a quem, d'alli a quatro annos contados, havia de entregar o seu apaixonado coração de amante e de esposa.

Esta senhora chamava-se: Mathilde Montufar [Rosa Montufar]. Oh! que dias de luz ha no mundo! Luz intensa, scintillante, deslumbradora, que, na tre- menda e immutavel antithese da vida, tem de ser contrastada pelas sombras caliginosas e profundas! 

Rosa de Montufar, Viscondessa da Luz.
Cartas de amor à viscondessa da Luz

A meio da noite pediram, com viva instancia, versos. Recitei o Adeus das Folhas caídas, então inéditas. A disposição dos espiritos, a novidade e extraordinária belleza d'aquelles versos, a presença do auctor, tudo concorreu, para que a sensação produzida fosse grande. Garrett sabia dominar-se; porém a muito custo conteve a commoção. 

Piquenique na Quinta do Palheiro Ferreiro, Tomás da Anunciação, 1865.
D. António Leandro da Câmara Carvalhal Esmeraldo Atouguia Bettencourt de Sá Machado, 2.º Conde de Carvalhal, grande proprietário, nascido em 1834, casado em 1854 com D. Matilde Montufar Infante, filha dos Marqueses de Selva Alegre em Espanha. Desse casamento nasceram duas filhas, D. Maria da Câmara, Condessa de Resende e D. Teresa da Câmara, Condessa de Ribeiro Real
[Bulhão Pato confundo os nomes de Rosa e Matilde].
Imagem: Museu Quinta das Cruzes

N'este momento, mais do que nunca, a imagem serena e resignada, que se invocava n'aquelles versos, devia pungil-o no centro do coração, e na fibra do remorso!

Oh! vae-te, vae, longe, embora! 
Que te lembre sempre e agora 
Que não te amei nunca... 
Ai! não; E que pude, a sangue frio, 
Covarde, infame, villão, 
Gosar-te — mentir sem brio. 
Sem alma, sem dó, sem pejo, 
Commettendo em cada beijo 
Um crime... Ai! triste, não chores, 
Nâo chores, anjo do ceu, 
Que o deshonrado sou eu.
[v. o texto integral]


No resto d'essa noite, nos bellos olhos, e no rosto do poeta, serenavam, a custo, as ondas de uma tempestade!

Março 22, 1884. (1)


(1) Bulhão Pato, Memórias I, 1894

Mais informação:
Almeida Garrett, Folhas cahidas
Arquivo Municipal do Porto: Documentos com referência a Garrett, Almeida. 1799-1854, escritor
Casa onde nasceu Almeida Garrett Archivo Pittoresco, 4.º Ano, n.º 7, 1861
XXIV Anniversário da morte d'Almeida Garrett, O Occidente, 15 dezembro 1878
Centenário de Almeida Garrett, O Occidente, 30 janeiro 1899
Casas onde, em Lisboa, residiu Almeida Garrett
Almeida Garrett na Hemeroteca Digital de Lisboa

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Internet Archive (referências biográficas):
Domingos Manuel Fernandes, Biographia politico-litteraria..., 1873
Teophilo Braga, Historia do romantismo em Portugal... Garrett, Herculano, Castilho, 1880
Francisco Gomes de Amorim, Garrett, memórias biográficas, Tomo I, 1881
Francisco Gomes de Amorim, Garrett, memórias biográficas, Tomo II, 1884
Francisco Gomes de Amorim, Garrett, memórias biográficas, Tomo III, 1884
Alberto Bessa, Almeida Garrett no Pantheon dos Jeronymos, 1902
Alfredo de Pratt, O divino poeta, 1903
Latino Coelho, Garrett e Castilho, estudos biográficos, 1917

Internet Archive:(bibliografia):
Catão [1821], 2.a ed. 1830
Teophilo Braga, Obras completas de Almeida Garrett, Volume I, 1904
Teophilo Braga, Obras completas de Almeida Garrett, Volume II, 1904
...

Biblioteca Nacional de Portugal:
Bicentenário de Almeida Garrett
Roteiro bio-bibliográfico
Obras em formato digital
A Enciclopédia de Garrett Enciclopedista
Modernidade e Romantismo em Almeida Garrett
Viagens na Minha Terra: caminhos para a leitura de uma "embaraçada meada"
Modos de cooperação interpretativa na leitura escolar do Frei Luís de Sousa
A Question of Timing: Madalena's role as 'uma mulher à beira duma crise de nervos'
Catão em Plymouth
O Camões garrettiano
Um Auto de Gil Vicente and the Tradition of Comedy
Iconografia

Obras digitalizadas de Garrett, Almeida

Biblioteca Nacional de Portugal (bibliografia):
Hino Patriótico (poema), Porto 1820, folheto impresso [Recuper. por Teófilo Braga, in Garrett e os Dramas Românticos, Porto 1905]
Proclamações Académicos, Coimbra 1820, folhetos mss. [Reprod. in O Patriota, nº 67 (15 Dez.), Coimbra 1820]
Ao corpo académico (poema), in Colecção de Poesias Recitadas na Sala dos Actos Grandes da Universidade [...], Coimbra 1821 [Recuper. por Martins de Carvalho, in O Conimbricense, Ano XXVII, nº 2823 (14 Ag.), Coimbra 1874]
O Dia Vinte e Quatro de Agosto (ensaio político), Lisboa Ano I (1821)
O Retrato de Vénus (poema), Coimbra Ano I (1821) [Incl.: Ensaio sobre a História da Pintura]
Catão. Tragédia, Lisboa Ano II (1822) [Incl.: O Corcunda por Amor, farsa, co-autoria de Paulo Midosi]
Aos Mortos no Campo da Honra de Madrid. Epicédio, folheto [reprod. do Jornal da Sociedade Literária Patriótica, 2º trim., nº 18 (13 Set.), Lisboa 1822, vol. II, pp. 420-423]
Oração Fúnebre de Manuel Fernandes Tomás, Lisboa 1822, opúsculo [Colig. in Discursos e Poesias Fúnebres [...], Celebradas para Prantear a Dor e Orfandade dos Portugueses, na Morte de Manuel Fernandes Tomás, Lisboa 1823]
Camões. Poema, Paris 1825
Dona Branca, ou A Conquista do Algarve (poema), Paris 1826
Da Europa e da América e de Sua Mútua Influência na Causa da Civilização e da Liberdade (ensaio político), in O Popular, jornal político, literário e comercial, vol. IV, nº XIX (Mai.), Londres 1826, pp. 25-81
Bosquejo da História da Poesia e da Língua Portuguesa, in Parnaso Lusitano ou Poesias Selectas dos Autores Portugueses Antigos e Modernos, vol. I, Paris 1826 [Incl.: introdução A Quem Ler]
Carta de Guia para Eleitores, em Que se Trata da Opinião Pública, das Qualidades para Deputado e do Modo de as Conhecer (ensaio político), Lisboa 1826, opúsculo Adozinda. Romance (poema), Londres 1828 [Incl.: Bernal Francês]
Lírica de João Mínimo, Londres 1829
Lealdade, ou a Vitória da Terceira (canção), Londres 1829, folheto Da Educação. Livro Primeiro. Educação Doméstica ou Paternal, Londres 1829
Portugal na Balança da Europa. Do Que Tem Sido e do Que Ora Lhe Convém Ser na Nova Ordem de Coisas do Mundo Civilizado (ensaio político), Londres 1830
Elogio Fúnebre de Carlos Infante de Lacerda, Barão de Sabroso, Londres 1830, folheto Carta de M. Cévola, ao futuro editor do primeiro jornal liberal que em português se publicar (panfleto político), Londres 1830 [Pseud.: Múcio Cévola, 2ª ed. transcrita in O Pelourinho, nº V, Angra [1831?, com o título Carta de M. Cévola, oferecida à contemplação da Rainha, a senhora Dona Maria segunnda]
Relatório dos decretos nº 22, 23 e 24 [reorganização da fazenda, administração pública e justiça], Lisboa 1832, folheto [Reprod. in Colecção de Decretos e Regulamentos [...], Lisboa 1836]
Manifesto das Cortes Constituintes à Nação, Lisboa 1837, folheto [Reprod. in Diário do Governo, nº199 (24 de Ag.), Lisboa 1837]
Da Formação da Segunda Câmara das Cortes. Discursos Pronunciados nas Sessões de 9 e 12 de Outubro, Lisboa 1837
Necrologia [do conselheiro Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato], in O Constitucional, nº 272 (13 Dez.), Lisboa 1838 [Relatório ao] Projecto de lei sobre a propriedade literária e artística, in Diário da Câmara dos Deputados, Vol. II, nº 35 (18 Mai.), Lisboa 1839
Discurso do Sr. Deputado pela Terceira, J. B. de Almeida Garrett, na Discussão da Resposta ao Discurso da Coroa, Lisboa 1840 [Discurso dito do Porto Pireu, em resposta a José Estevão] Mérope, tragédia.
Um Auto de Gil Vicente, drama, Lisboa 1841.
Discurso do Sr. Deputado por Lisboa J. B. de Almeida Garrett na Discussão da Lei da Décima , Lisboa 1841, folheto
O Alfageme de Santarém, ou a Espada do Condestável, Lisboa 1842
Elogio Histórico do Sócio Barão da Ribeira de Saborosa, in Memórias do Conservatório Real de Lisboa, Tomo II (8), Lisboa 1843
Memória Histórica do Conselheiro A. M. L. Vieira de Castro, biografia, Lisboa 1843, folheto [Anón., sobre o ministro setembrista António Manuel Lopes Vieira de Castro]
Romanceiro e Cancioneiro Geral, Lisboa 1843 [Incl.: Adozinda (2ª ed.) e outros «romances reconstruídos»]
Miragaia, Lisboa 1844, folheto impresso [de Jornal das Belas Artes] Frei Luís de Sousa, drama, Lisboa 1844 [Incl.: Memória. Ao Conservatório Real, lida na representação do drama no teatro da Quinta do Pinheiro em 4 de Julho 1843]
O conselheiro J. B. de Almeida Garrett [Autobiografia], in Universo Pitoresco, nº 19-21, Lisboa 1844 [Carta sobre a origem da língua portuguesa], ensaio literário, in Opúsculo Acerca da Origem da Língua Portuguesa [...] por dois sócios do Conservatório Real de Lisboa, Lisboa 1844
O Arco de Santana. Crónica portuense, romance, vol. I, Lisboa 1845 [Anón.]
Os Exilados, À Senhora Rossi Caccia, poesia, Lisboa 1845, folheto [Reprod. in Revolução de Setembro, nº 1197 (31 Mar.), Lisboa 1845, p. 2, anónimo e título A Madame Rossi Caccia, cantando no baile de subscrição a favor dos emigrados]
Memória Histórica do Conde de Avilez, biografia, in Revolução de Setembro, nº 1210 (15 Abr.), Lisboa 1845
Flores Sem Fruto (poesia), Lisboa 1845
Da Poesia Popular em Portugal, ensaio literário, in Revista Universal Lisbonense, Tomo V, nº 37 (5 Mar.) – 41 (2 Abr.), Lisboa 1846; [cont. sob título:]
Da Antiga Poesia Portuguesa, in id., Tomo VI, nº 9 (23 Jul.), 13 (20 Ag.), Lisboa 1846
Viagens na Minha Terra, romance, 2 vols., Lisboa 1846
Filipa de Vilhena, comédia, Lisboa 1846 [incl.: Tio Simplício, comédia, e Falar Verdade a Mentir, comédia]
Parecer da Comissão sobre a Unidade Literária, in Revista Universal Lisbonense, nº 16 (10 Set.), Lisboa 1846, vol. VI, sér. II, pp. 188-189 [dito Parecer sobre a Neutralidade Literária, da Associação Protectora da Imprensa Portuguesa, assinado por Rodrigo da Fonseca Magalhães, Visconde de Juromenha, A. Herculano e João Baptista de A. Garrett]
Sermão pregado na dedicação da capela de Nª Srª da Bonança, folheto, Lisboa 1847 [raro, reproduzido com o título Dedicação da Capela dos Srs. Marqueses de Viana (...) in Escritos Diversos, Lisboa 1899,
Obras Completas, vol. XXIV, pp. 281-284, redac.: Lisboa 1846]
Memória Histórica da Excelentíssima Duquesa de Palmela, Lisboa 1848 [folheto]
Memória Histórica de J. Xavier Mouzinho da Silveira, Lisboa 1849 [separ., reprod. de A Época. Jornal de indústria, ciências, literatura, e belas-artes, nº 52, tom. II, pp. 387-394]
O Arco de Santana. Crónica Portuense, romance, vol. II, Lisboa 1850
Protesto Contra a Proposta sobre a Liberdade de Imprensa, abaixo-assinado, folheto, Lisboa 1850 [Subscrito, à cabeça, por Herculano e mais cinquenta personalidades, contra o projecto de «lei das rolhas» apresentado pelo governo]
Necrologia de D.ª Maria Teresa Midosi, in Diário do Governo, nº 221 (19 Set.), Lisboa 1950
Romanceiro, vols. II e III, Lisboa 1851
Cópia de uma Carta Dirigida ao Sr. Encarregado de Negócios da França em Lisboa, Lisboa (19 Agosto) 1852 [litogr., sobre o tratado de comércio e navegação com o governo francês, que assinou como ministro dos negócios estrangeiros]
O Camões do Rossio, comédia, Lisboa 1852 [co-autoria de Inácio Feijó]
Folhas Caídas, poesia, Lisboa 1853
Fábulas – Folhas Caídas, poesia, 2ª ed., Lisboa 1853

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Almeida Garrett por Bulhão Pato: o jantar ao poeta

A época que decorreu desde a revolução do Minho até aos primeiros dias da regeneração, foi, aparte os anmos que seguiram desda 1834 até 1840, a época de maior movimento, de mais energia e sincero enthusiasmo de Portugal, nos nossos dias. 

Lisboa, Largo do Corpo Santo, A. E. Hoffman, c. 1833.

Em Coimbra, com o "Trovador", apparecera um grupo de moços, que, dentro da escola do seu tempo, revelavam condições de subido mérito.

Coimbra, Scenery of Portugal and Spain, G. Vivian, 1839.
Biblioteca Nacional de Portugal

Aparte os poetas, entre os quaes João de Lemos tinha o primeiro logar, cursavam a universídade rapazes como A. A. Teixeira de Vasconcellos, José Vicente Barbosa du Bocage, Casal Ribeiro, Manuel Maria da Silva Bruschi, Couto Monteiro, Rodrigues Cordeiro, Angusto Lima, Gonçalves Dias, Gomes de Abreu, um dos homens do partido realista que mais tenho presado pelo seu talento, pela sua illustração e principalmente pelo seu nobilissimo caracter.

Prompta a sacudir o jugo dos villãos que deshonravam os fastos da liberdade, de que eram filhos, tentando restaurar o passado, a mocidade de Coimbra, com alguns mancebos das outras escolas do reino, uniram-se no brioso batalhão académico, não desmentindo nem na abnegação, nem na intelligencia, nem no animo temerário, as tradicções d'aquelles que haviam perpetuado a fama do seu nome na Serra do Pilar e na Frecha dos mortos. 

No dia 1 de maio, no Alto Viso, vendo cair no campo, ás primeiras descargas, o seu intrépido commandante, Fernando Mousinho, alguns pagaram, com a vida, os louros ceifados no ardor do combate.

Vista de Setúbal, fotografia n° 18 do Album pittoresco e artistico de Portugal.
Biblioteca Nacional Digital Brasil

Como já disse n'este livro, o enthusiasmo, por esses tempos, respirava-se nos ares. 

Não ha nada mais fraterno do que a igualdade das crenças politicas, sobre tudo nos dias da adversidade. Nós os "patuléas pés frescos" tinhamos o nosso santo e a nossa senha. Onde se achava um em perigo, por encanto lhe apparecia o seu camarada, e, como irmãos siameses costas com costas, repelliam os assaltos dos sicários, frequentes nas praças e ruas da capital.

As letras eram para nós um culto, como sao, diga-se a verdade, para a juventude actual; porém os tempos tinham em si mais ardor e mais fervoroso enthusiasmo.

Era um bem o enthusiasmo de então? Será um mal a friesa de hoje? Bem e mal existirá em ambas as circumstancias, como fatalmente se dá em todas as cousas d'este mundo. 

Eu pinto uma época — que me faz saudade — posto tenha havido grande reviramento no meu espirito com relação ao modo por que pensava n'esse período da mocidade.

Na Ajuda, ponto de reunião, aos sabbados, dos homens e rapazes de letras, appareceu um dia Luiz Augusto Palmeirim [v. Os excêntricos do meu tempo], ufano por haver travado relações com um moço chegado havia pouco do Brazil. 

Lisboa, Ajuda, Eduardo Portugal, 1939.
Arquivo Municipal de Lisboa

Era um poeta esse moço. Não se inspirava só no amor da mulher; cantava as amarguras e attribulações do povo a que pertencia, com ardor, verdade, força e inspiração. 

Assignava-se "Poeta operário". Conhecia as rudes provações da vida. Tinha transposto os mares até ao Novo Mundo, deixando o lar e as afeições da infância. Partira desamparado e peregrino. Fortalecera-lhe o espirito o trabalho, e engrandecera-lhe a imaginação a magestade do Amazonas, por cujas margens se embrenhara, rompendo e entranhando-se nas florestas virgens, seculares, bravias e mysteríosas.

Voltara á pátria, pobre como saira, não podendo resistir ao seu pendor litterario, e com o fim principal de apertar a mao a Almeida Garrett, de quem recebera algumas palavras animadoras em resposta a uns versos que lhe enviara — quando andava forasteiro, vagabundo e scismador por aquellas remotas paragens.

Este poeta, meu velho amigo de ha tantos annos, era Francisco Gomes de Amorim, em cuja fronte coroada com os lauréis alcançados pelo seu bello talento, nâo faltam, infelizmente, os espinhos do martyrio de uma enfermidade pertinaz e cruel! Luiz Palmeirim, animo desafrontado das emulações e invejas, que roem lentamente as entranhas de tanta gente pequena, vinha offegante de contentamento. 

Francisco Gomes de Amorim (1837-1891).
Biblioteca Municipal Rocha Peixoto

Era mais um poeta, mais um amigo, mais um correligionário politico que elle nos apresentava. 

Leram-se os versos, que eram patrióticos e revolucionários. 

N'esse mesmo dia ficou concertado, entre nós, darmos um jantar ao poeta. 

Convidámos Garrett para presidir á festa. Foi um banquete verdadeiramente fraterno.

Havia, então, no largo do Corpo Santo, a casa de um italiano [Simone Mode], que dava magnificos jantares.

Lisboa, Largo do Corpo Santo, fotografia de C. P. Symonds, 1856.
Arquivo Municipal de Lisboa

Desempenhou-se d'essa vez o vatel florentino com o esplendor próprio do nome qae alcançara na pátria e augmentava no estrangeiro. 

Homens de todos os partidos figuraram na festa.

O poeta da "Lua de Londres" [v. Cancioneiro de José de Lemos] e do "Festim de Balthasar", representante das mais puras idéas do partido realista, estava ao pé de Lopes de Mendonça, representante da democracia. Haviam-se ensarilhado as armas nos arraiaes politicos [v. Memorias de litteratura contemporanea por A.P. Lopes de Mendonça]

João de Lemos estava n'esse tempo no verdor da mocidade. Era uma bella phisionomia; peninsular legitima. 

Cabellos e olhos negros, barba espessa e annelada; boca franca, sorriso aberto e gracioso;. magnifica testa, o porte e os ademâes dos homens do seu berço, do fidalgo de raça. Faiscavam-lhe os olhos com os raios do estro de um verdadeiro poeta. João de Lemos, pelo talento, primor de educação, rasgos de animo, nobreza, de caracter, é um dos homens mais notáveis de quem me ufano de ser amigo.

João de Lemos Seixas Castelo Branco, (1819-1890).

Garrett havia annos que tinha fechadas as portas do parlamento. 

Alguns dos circumstantes nunca o tinham ouvido. 

Levantaram-se diversos brindes. 

Carlos Bento da Silva teve um improviso brilhantíssimo. 

Garrett tomou a palavra no fim de todos.

A sua voz pausada, cheia, redonda, sonora, a elegância da phrase, que parecia correr dos lábios, como da penna pareciam correr os versos e prosas, logo aos primeiros períodos nos fez bater o coração.

O auctor do "Camões" dirigia-se á mocidade, debuxava os lances por que passara Portugal desde 1820 até aquella época, mas com tal arte que não feriu a minima susceptibilidade, e apellava para a juventude, como a que devia realisar a revolução principiada pela sua geração d'elle. 

Lisboa, Praça do Rossio no dia 1 de outubro de 1820. Entrada solene da Junta Provisória do Porto.
Imagem: Histórias com História

"Todos os dias, exclamava o poeta, com os bellos olhos, garços faiscantes de luz, todos os dias, n'essas folhas sibylinas chamadas jomaes, appareceuma estreia onde por vezes scintilla o génio d'esta mocidade que me cerca!... Nós fizemos o que podemos, e foi muito o que fizemos, mas a vossa obra tem de ser maior e mais perfeita."

E tinha e devia de ser... Porém a verdade è qae até hoje não o foi. N'esse dia se estreitaram mais os laços de sympathia entre o auctor das "Folhas Caídas" e Gomes de Amorim.

Lisboa, Largo do Corpo Santo em data posterior a 1859.
Arquivo Municipal de Lisboa

No lapso do tempo decorrido desde a noite d'essa festa até ao inverno de 1854, em que o visconde de Almeida Garrett expirou, a amisade entre o moço poeta e o grande mestre da tribuna e da scena, foi a mais leal, mais sincera e mais apertada. 

Garrett, comprazia-se em frequentar o quarto de rapaz de Gomes de Amorim, dando conselhos com tacto tão fino, decorando com suas próprias mãos o modesto aposento do seu joven amigo!

Havia um tanto ou quanto da solicitude paterna na afeição que Almeida Garrett votava a Gomes de Amorim.

E tem sido essa estima o brasão que mais presa, amda hoje, a nobre e reconhecida alma do poeta!

Como era elevada a figura do auctor de "D. Branca", na simpleza do trato, esquecido das suas grandezas — , que as tinha todas, as que mais se podem ambicionar n'este mundo — n'aqúelle quarto de rapaz, cercado dos seus  actores, que elle havia creado para a arte, como para gloria da pátria creara o theatro nacional, com o Alfageme de Santarém, Gil Vicente, Frei Luiz de Sousa, Filippa de Vilhena, a Sobrinha do marquez, e as Profecias do Bandarra. Em quantas cousas era grande o visconde de Almeida Garrett!

Grande na tribuna, grande no theatro, grande nos versos, e principahnente grande na singeleza e no gosto, que parece haver morrido com elle! 

Columbano Passos Manuel, Almeida Garrett, Alexandre Herculano e José Estevão, por Columbano, 1921.
Sala dos Passos perdidos do Parlamento.
Wikipédia

Sentia já no coração os primeiros rebates da morte; mas o animo, em vez de cair e agrear-se presentindo o termo das fátuas illusôes d'este mundo, alteava-se, tomando-se mais complacente, mais ameno, mais solicito em soccorrer com o conselho a todos quantos acudiam a elle nos primeiros e incertos passos da vida, tendo na fronte, com a estrella do talento, o cunho da desventura, apanágio fatal de todos os que se elevam acima do vulgar!

Lisboa, Largo do Corpo Santo, década de 1890.
Arquivo Municipal de Lisboa

Consolar é a primeira missão dos poetas. Até na satyra, castigando a prepotência dos mandões, consolam elles os que têm fome e sede de justiça! 

São os grandes médicos moraes da humanidade. E, como os médicos, também são implacavelmente abespinhados e calumniados! 

De medicina toda a gente sabe, e desdenha, e dá sentenças.  De versos não ha ninguém que não entenda, e raros os que não escarneçam do poeta.

Mas, quando adoecem do corpo, acodem ao doutor; quando enfermam da alma, soccorrem-se ao poeta. 

No dia em que se pilham curados chasqueam ímmediatamente do medico e do poeta. 

Barra de Lisboa vista do Caes do Sodré.
Internet Archive

É tão grato este mundo! (1)


(1) Bulhão Pato, Sob os Ciprestes, 1877

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Internet Archive (referências biográficas):
Domingos Manuel Fernandes, Biographia politico-litteraria..., 1873
Teophilo Braga, Historia do romantismo em Portugal... Garrett, Herculano, Castilho, 1880
Francisco Gomes de Amorim, Garrett, memórias biográficas, Tomo I, 1881
Francisco Gomes de Amorim, Garrett, memórias biográficas, Tomo II, 1884
Francisco Gomes de Amorim, Garrett, memórias biográficas, Tomo III, 1884
Alberto Bessa, Almeida Garrett no Pantheon dos Jeronymos, 1902
Alfredo de Pratt, O divino poeta, 1903
Latino Coelho, Garrett e Castilho, estudos biográficos, 1917

Internet Archive:(bibliografia):
Catão [1821], 2.a ed. 1830
Teophilo Braga, Obras completas de Almeida Garrett, Volume I, 1904
Teophilo Braga, Obras completas de Almeida Garrett, Volume II, 1904
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Biblioteca Nacional de Portugal:
Bicentenário de Almeida Garrett
Roteiro bio-bibliográfico
Obras em formato digital
A Enciclopédia de Garrett Enciclopedista
Modernidade e Romantismo em Almeida Garrett
Viagens na Minha Terra: caminhos para a leitura de uma "embaraçada meada"
Modos de cooperação interpretativa na leitura escolar do Frei Luís de Sousa
A Question of Timing: Madalena's role as 'uma mulher à beira duma crise de nervos'
Catão em Plymouth
O Camões garrettiano
Um Auto de Gil Vicente and the Tradition of Comedy
Iconografia

Biblioteca Nacional de Portugal (bibliografia):
Hino Patriótico (poema), Porto 1820, folheto impresso [Recuper. por Teófilo Braga, in Garrett e os Dramas Românticos, Porto 1905]
Proclamações Académicos, Coimbra 1820, folhetos mss. [Reprod. in O Patriota, nº 67 (15 Dez.), Coimbra 1820]
Ao corpo académico (poema), in Colecção de Poesias Recitadas na Sala dos Actos Grandes da Universidade [...], Coimbra 1821 [Recuper. por Martins de Carvalho, in O Conimbricense, Ano XXVII, nº 2823 (14 Ag.), Coimbra 1874]
O Dia Vinte e Quatro de Agosto (ensaio político), Lisboa Ano I (1821)
O Retrato de Vénus (poema), Coimbra Ano I (1821) [Incl.: Ensaio sobre a História da Pintura]
Catão. Tragédia, Lisboa Ano II (1822) [Incl.: O Corcunda por Amor, farsa, co-autoria de Paulo Midosi]
Aos Mortos no Campo da Honra de Madrid. Epicédio, folheto [reprod. do Jornal da Sociedade Literária Patriótica, 2º trim., nº 18 (13 Set.), Lisboa 1822, vol. II, pp. 420-423]
Oração Fúnebre de Manuel Fernandes Tomás, Lisboa 1822, opúsculo [Colig. in Discursos e Poesias Fúnebres [...], Celebradas para Prantear a Dor e Orfandade dos Portugueses, na Morte de Manuel Fernandes Tomás, Lisboa 1823]
Camões. Poema, Paris 1825
Dona Branca, ou A Conquista do Algarve (poema), Paris 1826
Da Europa e da América e de Sua Mútua Influência na Causa da Civilização e da Liberdade (ensaio político), in O Popular, jornal político, literário e comercial, vol. IV, nº XIX (Mai.), Londres 1826, pp. 25-81
Bosquejo da História da Poesia e da Língua Portuguesa, in Parnaso Lusitano ou Poesias Selectas dos Autores Portugueses Antigos e Modernos, vol. I, Paris 1826 [Incl.: introdução A Quem Ler]
Carta de Guia para Eleitores, em Que se Trata da Opinião Pública, das Qualidades para Deputado e do Modo de as Conhecer (ensaio político), Lisboa 1826, opúsculo Adozinda. Romance (poema), Londres 1828 [Incl.: Bernal Francês]
Lírica de João Mínimo, Londres 1829
Lealdade, ou a Vitória da Terceira (canção), Londres 1829, folheto Da Educação. Livro Primeiro. Educação Doméstica ou Paternal, Londres 1829
Portugal na Balança da Europa. Do Que Tem Sido e do Que Ora Lhe Convém Ser na Nova Ordem de Coisas do Mundo Civilizado (ensaio político), Londres 1830
Elogio Fúnebre de Carlos Infante de Lacerda, Barão de Sabroso, Londres 1830, folheto Carta de M. Cévola, ao futuro editor do primeiro jornal liberal que em português se publicar (panfleto político), Londres 1830 [Pseud.: Múcio Cévola, 2ª ed. transcrita in O Pelourinho, nº V, Angra [1831?, com o título Carta de M. Cévola, oferecida à contemplação da Rainha, a senhora Dona Maria segunnda]
Relatório dos decretos nº 22, 23 e 24 [reorganização da fazenda, administração pública e justiça], Lisboa 1832, folheto [Reprod. in Colecção de Decretos e Regulamentos [...], Lisboa 1836]
Manifesto das Cortes Constituintes à Nação, Lisboa 1837, folheto [Reprod. in Diário do Governo, nº199 (24 de Ag.), Lisboa 1837]
Da Formação da Segunda Câmara das Cortes. Discursos Pronunciados nas Sessões de 9 e 12 de Outubro, Lisboa 1837
Necrologia [do conselheiro Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato], in O Constitucional, nº 272 (13 Dez.), Lisboa 1838 [Relatório ao] Projecto de lei sobre a propriedade literária e artística, in Diário da Câmara dos Deputados, Vol. II, nº 35 (18 Mai.), Lisboa 1839
Discurso do Sr. Deputado pela Terceira, J. B. de Almeida Garrett, na Discussão da Resposta ao Discurso da Coroa, Lisboa 1840 [Discurso dito do Porto Pireu, em resposta a José Estevão] Mérope, tragédia.
Um Auto de Gil Vicente, drama, Lisboa 1841.
Discurso do Sr. Deputado por Lisboa J. B. de Almeida Garrett na Discussão da Lei da Décima , Lisboa 1841, folheto
O Alfageme de Santarém, ou a Espada do Condestável, Lisboa 1842
Elogio Histórico do Sócio Barão da Ribeira de Saborosa, in Memórias do Conservatório Real de Lisboa, Tomo II (8), Lisboa 1843
Memória Histórica do Conselheiro A. M. L. Vieira de Castro, biografia, Lisboa 1843, folheto [Anón., sobre o ministro setembrista António Manuel Lopes Vieira de Castro]
Romanceiro e Cancioneiro Geral, Lisboa 1843 [Incl.: Adozinda (2ª ed.) e outros «romances reconstruídos»]
Miragaia, Lisboa 1844, folheto impresso [de Jornal das Belas Artes] Frei Luís de Sousa, drama, Lisboa 1844 [Incl.: Memória. Ao Conservatório Real, lida na representação do drama no teatro da Quinta do Pinheiro em 4 de Julho 1843]
O conselheiro J. B. de Almeida Garrett [Autobiografia], in Universo Pitoresco, nº 19-21, Lisboa 1844 [Carta sobre a origem da língua portuguesa], ensaio literário, in Opúsculo Acerca da Origem da Língua Portuguesa [...] por dois sócios do Conservatório Real de Lisboa, Lisboa 1844
O Arco de Santana. Crónica portuense, romance, vol. I, Lisboa 1845 [Anón.]
Os Exilados, À Senhora Rossi Caccia, poesia, Lisboa 1845, folheto [Reprod. in Revolução de Setembro, nº 1197 (31 Mar.), Lisboa 1845, p. 2, anónimo e título A Madame Rossi Caccia, cantando no baile de subscrição a favor dos emigrados]
Memória Histórica do Conde de Avilez, biografia, in Revolução de Setembro, nº 1210 (15 Abr.), Lisboa 1845
Flores Sem Fruto (poesia), Lisboa 1845
Da Poesia Popular em Portugal, ensaio literário, in Revista Universal Lisbonense, Tomo V, nº 37 (5 Mar.) – 41 (2 Abr.), Lisboa 1846; [cont. sob título:]
Da Antiga Poesia Portuguesa, in id., Tomo VI, nº 9 (23 Jul.), 13 (20 Ag.), Lisboa 1846
Viagens na Minha Terra, romance, 2 vols., Lisboa 1846
Filipa de Vilhena, comédia, Lisboa 1846 [incl.: Tio Simplício, comédia, e Falar Verdade a Mentir, comédia]
Parecer da Comissão sobre a Unidade Literária, in Revista Universal Lisbonense, nº 16 (10 Set.), Lisboa 1846, vol. VI, sér. II, pp. 188-189 [dito Parecer sobre a Neutralidade Literária, da Associação Protectora da Imprensa Portuguesa, assinado por Rodrigo da Fonseca Magalhães, Visconde de Juromenha, A. Herculano e João Baptista de A. Garrett]
Sermão pregado na dedicação da capela de Nª Srª da Bonança, folheto, Lisboa 1847 [raro, reproduzido com o título Dedicação da Capela dos Srs. Marqueses de Viana (...) in Escritos Diversos, Lisboa 1899,
Obras Completas, vol. XXIV, pp. 281-284, redac.: Lisboa 1846]
Memória Histórica da Excelentíssima Duquesa de Palmela, Lisboa 1848 [folheto]
Memória Histórica de J. Xavier Mouzinho da Silveira, Lisboa 1849 [separ., reprod. de A Época. Jornal de indústria, ciências, literatura, e belas-artes, nº 52, tom. II, pp. 387-394]
O Arco de Santana. Crónica Portuense, romance, vol. II, Lisboa 1850
Protesto Contra a Proposta sobre a Liberdade de Imprensa, abaixo-assinado, folheto, Lisboa 1850 [Subscrito, à cabeça, por Herculano e mais cinquenta personalidades, contra o projecto de «lei das rolhas» apresentado pelo governo]
Necrologia de D.ª Maria Teresa Midosi, in Diário do Governo, nº 221 (19 Set.), Lisboa 1950
Romanceiro, vols. II e III, Lisboa 1851
Cópia de uma Carta Dirigida ao Sr. Encarregado de Negócios da França em Lisboa, Lisboa (19 Agosto) 1852 [litogr., sobre o tratado de comércio e navegação com o governo francês, que assinou como ministro dos negócios estrangeiros]
O Camões do Rossio, comédia, Lisboa 1852 [co-autoria de Inácio Feijó]
Folhas Caídas, poesia, Lisboa 1853
Fábulas – Folhas Caídas, poesia, 2ª ed., Lisboa 1853