domingo, 28 de junho de 2020

Fado VIII, Alfredo Marceneiro e outros (com o moinho por tema)

(quadras soltas)

Junto ao moinho cantando 
Lavam roupa as lavadeiras 
Os patos brincam nadando 
Arrulham pombos nas eiras

Às vezes contemplo o moinho 
Que além de velho, não cai 
Formado no casalinho 
Que era do pai do meu pai

Variações sobre o fado, Panorama n.° 25-26, 1945.
O natal do moleiro (Henrique Rego/Alfredo Marceneiro)

Que noite de Natal tristonha, agreste 
De neve amortalhava-se o caminho 
O vento sibilava do nordeste 
Nas frinchas das porta do moinho 

Sentada à velha mó já carcomida 
Onde incidia a luz duma candeia 
O moleiro de barba encanecida 
Com a mulher comia a parca ceia

Próximo do moinho, ouviu-se em breve 
Uma voz, e o moleiro abrindo a porta 
Viu um velhinho todo envolto em neve 
Vergado ao peso duma esperança morta

Entrai, meu peregrino da desgraça 
Disse o moleiro ao pálido ancião 
Aqui não há dinheiro, existe a graça 
De haver carinho, piedade e pão 

Vinde comer, agasalhar-se ao lume 
Festejar o nascer do Deus Menino 
Porque a vida somente se resume 
Na escravidão imposta pelo destino

E então o velhinho, numa voz sonora 
Pronunciou, levando as mãos ao peito 
Abençoado seja a toda a hora 
Este moinho que é por Deus eleito 

Moinho desmantelado (Henrique Rego/Alfredo Marceneiro)

Moinho desmantelado 
Pelo tempo derroído 
Tu representas a dor 
Deste meu peito dorido 

É grande a tua desgraça 
Ao dizê-lo sinto pejo 
Porque em ti apenas vejo 
A miseranda carcaça 
Perdeste de todo a graça 
Heróica do teu passado 
Hoje ao ver-te assim mudado 
Minh’alma cora e descrê 
Quem te viu, e quem te vê 
Moinho desmantelado 

Moinho pombo da serra
Que triste fim tu tiveste 
Alvas farinhas moeste 
Pró povo da tua terra 
Hoje a dor em ti se encerra F
oste votado ao olvido 
Foi-se o constante gemido 
Dessas mós trabalhadoras 
Doce amante das lavouras 
Pelo tempo derroído 

Finalizas tua vida 
Em fundas melancolias 
Às tristes aves sombrias 
Hoje serves de dormida 
No teu seio das guarida 
Ao horrendo malfeitor 
Tudo em ti causa pavor 
É bem triste a tua sorte 
Sombria estátua da morte 
Tu representas a dor

Junto de ti eu nasci 
Oh meu saudoso moinho 
E do meu terno avozinho 
Quantas histórias ouvi 
Agora tudo perdi 
Sou pela dor evadido 
Vivo no mundo esquecido 
Moinho que crueldade 
És o espelho da saudade 
Deste meu peito dorido. 

Lembro-me de ti (Joao Linhares Barbosa/Alfredo Marceneiro)

Eu lembro-me de ti 
Chamavas-te Saudade 
Vivias num moinho 
Tamanquinha no pé 
Lenço posto à vontade 
Nesse tempo eras tu 
A filha do moleiro. 

Eu lembro-me de ti 
Passavas para a fonte 
Pousando num quadril 
O cântaro de barro 
Imitavas em graça 
A cotovia insonte 
E mugias o gado 
Até encheres o tarro. 

Eu lembro-me de ti 
E às vezes a farinha 
Vestia-te de branco 
E parecias então 
Uma virgem gentil 
Que fosse à capelinha 
Um dia de manhã 
Fazer a comunhão. 

Eu lembro-me de ti 
E fico-me aturdido 
Ao ver-te pela rua 
Em gargalhadas francas 
Pretendo confundir 
A pele do teu vestido 
Com a sedosa lã 
Das ovelhinhas brancas. 

Eu lembro-me de ti 
Ao ver-te num casino 
Descarada a fumar 
Luxuoso cigarro 
Fecho os olhos e vejo 
O teu busto franzino 
Com o avental da cor 
Do cantaro de barro 

Eu lembro-me de ti 
Quando no torvelinho 
Da dança sensual 
Passas louca rolando 
Eu sonho eu fantazio 
E vejo o teu moinho 
Que bailava tambem 
Ao vento assobiando 

Eu lembro-me de ti 
E fico-me a cismar 
Que o nome de Lucy 
Que tens não é verdade 
Que saudades eu tenho 
E leio no teu olhar 
A saudade que tens 
De quando eras Saudade.


Outras referências:
Amaro de Almeida, Reflexões sobre a origem do fado, Olisipo n.° 25, 1944
Variações sobre o fado, Panorama n.° 25-26, 1945

O fado segundo Maurice Mariaud:
Instituto Camões, O Fado (1923)
CINEPT: O Fado (1923)



A Severa segundo Júlio Dantas:
Júlio Dantas, A Severa
Esperas de touros, Serões n.° 37, 1908
A Severa (peça teatral), Illustração Portugueza n.° 156, 1909
Restos de Colecção, A Severa, Primeiro Filme Sonoro-(Fonofilme)
A Severa da lenda... literatura... realidade, Reporter X n.° 95, 1932
Dina Teresa, Cine-Jornal n.° 16, 1936



terça-feira, 9 de junho de 2020

Fado VII, Alfredo Marceneiro (1888-1982)

O fado tem tido muitas mulheres, algumas, mesmo, heroínas da canção doente e bonita. Homens — só um: Alfredo Marceneiro. Ligou o passado ao presente, e com a sua alma errante, luminosa e ingénua, colocou o fado num plano de "Auto do Povo", que ficará na história do nosso tempo. (1)

Alfredo Marceneiro.
Mundo Grafico n.° 60, 31 de março de 1943

Nasceu em Lisboa este popular e apreciado cantador de Fado que, como seu irmão Julio Duarte, o começou cantando desde muito novo, em várias casas particulares e festas de beneficência, nas quais era convidado a tomar parte por outros cantadores da velha guarda que muito apreciavam a sua voz e começavam a vêr nôle um genuíno fadista de alma e coração.

Agradando sempre, Alfredo Duarte nunca faltava então a êsses benefícios, ao tempo chamados "Veladas sociais", e assim começou a impôr-se como cantador dos mais apreciados, bastando o seu nome no programa de qualquer festa de Fado para atrair o público.

É curioso registar porque lhe chamam, geralmente, Alfredo "Marceneiro", sendo o seu verdadeiro nome Alfredo Rodrigo Duarte.

De facto, o nosso biografado exerce a profissão de marceneiro, e foi em 1930, numa festa promovida pelo cantador e poeta popular Manuel Soares (do Intendente), no Club Montanha e em homenagem aos cantadores Alfredo dos Santos "Correeiro" e José "Bacalhau" que éle se tornou conhecido por Alfredo "Marceneiro". Convidado a tomar parte nessa festa e não sabendo a comissão organizadora como havia de anunciá-lo, pois sómente sabia que éle era Alfredo e marceneiro, Manuel Soares remediou o caso, lembrando que o anunciassem Alfredo "Marceneiro", o que não pareceria estranho numa festa em que também cantava um Alfredo "Correeiro"...

E assim Alfredo Duarte, agradando extraordinariamente nessa festa como já havia acontecido em tantas outras, ficou sendo conhecido por Alfredo "Marceneiro".

Alfredo Marceneiro.
A. Victor Machado, Ídolos do fado, Lisboa, 1937

Levado pelo velho fadista Monteiro ou na companhia de outros cantadores da velha guarda, Alfredo Duarte cantou muita vez nos retiros do Caliça, Bacalhau, José dos Pacatos e no Romualdo, acompanhado à guitarra pelo dr. Borges de Sousa e Carlos da Maia, com a assistência da melhor sociedade. Foi ali que cantou pela primeira vez a sua "marcha", acompanhado à guitarra por aquele ilustre médico. 

Cantou no Teatro de S. Luiz, no Teatro Avenida, no Coliseu dos Recreios (na peça "História do Fado", do distinto poeta Avelino de Sousa), Apolo, Eden-Teatro (numa festa organizada pelo actor Almeida Cruz), no Capitólio, Politeama, Maria Vitória, Clube Olímpia e outros, tendo cantado ultimamente no Retiro da Severa, Solar da Alegria, Café Mondego e em várias festas de homenagem a colegas seus e récitas de beneficência.

Tem nove discos gravados e é autor das seguintes músicas : "Marcha Alfredo Marceneiro", "Fado do Cravo", "Fado do Louco", "Fado Alexandrino", "Lembro-me de ti", "Fado Pierrot", "Fado Maria dos Anjos", "Fado Bailarico", "Fado da minha guitarra" e "Fado Pagem". O Fado da opereta "Pão de Ló", conhecido por "Fado do Soldado", foi inspirado num dos seus fados. Alfredo Duarte conhece todas as nossas províncias, tendo feito uma digressão artística com Ercília Costa [v. artigo dedicado], Alberto Costa e Rosa Costa [v. artigo dedicado].

Troupe Guitarra de Portugal.
Em pé: João Fernandes, Rosa Costa e Santos Moreira.
Sentados: Alfredo D. Marceneiro, Ercília Costa e Alberto Costa.
Fadoteca

Em 1922, com Alfredo dos Santos "Correeiro", cantou uma noite no "João das Velhas", a pedido da notável actriz Vera Vergani que ali se encontrava a cear com a actriz Loiza Satanela, o ilustre poeta Silva Tavares, os actores Estevam Amarante, Nascimento Fernandes e Manuel Santos Carvalho, tendo sido, como aquele seu colega, delirantemente aplaudido.

Em 1924, tomando parte num concurso de fados organizado no Coliseu dos Recreios pelo emprezário Artur Emauz, e no qual o seu colega João Maria dos Anjos ganhou uma medalha de ouro, foi contractado por um mês para cantar o Fado no Chiado-Terrasse.

Alfredo Duarte possue também uma medalha de ouro ganha num concurso de fados realizado há anos, no Sul-America, na rua da Palma; e uma taça de prata que lhe foi Conferida por votação do público, numa festa de homenagem ao pugilista Francisco de Brito (Britinho), realizada no Teatro Joaquim de Almeida, em 1929.

Cantou em diversas festas organizadas pelo Clube Tauromáquico, num passeio fluvial e numa jornada ao Tamariz e ao Casino Estoril, promovidos por um dos sócios daquele Clube, e numa festa oferecida pelo banqueiro Ricardo Espirito Santo à embaixada alemã, na qual cantaram também os seus colegas Ercília Costa, Filipe Pinto e Jaime Duarte, acompanhados pelo guitarrista Armando Augusto Freire ("Armandinho") e pelo violisla Martinho de Assunção.

Há duas passagens interessantes na vida fadista do nosso biografado, que não deixamos de relatar: Quando a popular e aplaudida cantadeira Ercília Costa eslava no Hospital de Santo António dos Capuchos onde sofrera uma operação cirúrgica, Alfredo Duarte, regressando altas horas da noite duma festa de beneficência na Escola 1, na companhia duns amigos, não obstante já ser proibido terminantemente cantar o Fado em serenatas, não resistiu à tentação e, pedindo aos seus amigos que vigiassem as embocaduras das ruas, não surgisse algum policia ou guarda nocturno, cantou um dos seus mais enternecidos fados, em homenagem àquela sua colega.

Uma outra ocasião, estando a cantar o Fado no Clube Olímpia, varreu-se-lhe da memória os versos finais da última décima. Enervado, parou subitamente de cantar e desculpou-se, indo sentar-se, aborrecido, a um canto da sala. 

Minutos depois, recebia de Silva Tavares, Amadeu do Vale e Carlos Dubini, que se encontravam a uma mesa, um cartão com a seguinte quadra que ele conserva como recordação dessa noite:

Alfredo, a lua memória, 
Falha-te, embora resistas, 
Mas has-de ficar na História 
Como o maior dos fadistas.

Também como noite memorável entre tantas que marcam na sua carreira de cantador, Alfredo Duarte descreve-nos a que mais o impressionara:

Já havia terminado uma festa de Fado em que ele e alguns dos mais aplaudidos cantadores haviam tomado parte, no Parque Mayer, quando ali apareceram o dr. António Menano e o cavaleiro D. Ruy da Camara, que iam propositádamente para ouvir a sua colega Maria Emilia Ferreira. Uma parte do público já havia saído, e Alfredo Duarte conversava à porta com alguns amigos, refugiado na sua caracleristica modéstia. Acedendo ao pedido daqueles, Maria Emilia Ferreira cantou primorosamente como sempre um dos seus fados castiços, e logo o dr. António Menano retribuiu, deliciando a assistência com a sua linda voz num dos seus notáveis fados-canções. Quando acabou, alguém lhe disse e a D. Ruy da Câmara, que o Alfredo "Marceneiro" ainda se encontrava ali. Solicitado imediatamente por êles, Alfredo Duarte acedeu, cantando num fado da sua autoria "O pintor", letra do poeta popular Henrique Rêgo. Ao terminar, alvo duma carinhosa ovação, ouviu o dr. António Menano dizer, aplaudindo-o ainda entusiásticamente:

— O que êste homem cantou com tanto sentimento estava eu a vêr! É um grande fadista!

Foi esta, segundo Alfredo Duarte nos diz, a noite que, até hoje, melhor gravou no seu espirito. Por ser aquela letra, do seu vasto e escolhido repertório, uma das que Alfredo Duarte mais aprecia, com a sua transcrição vamos concluir os dados biográficos dêste popular e aplaudido cantador.

O pintor 
Mote 

Encostado sem brio ao balcão da taberna, 
De nauseabunda côr e tábua carcomida, 
O bêbado pintor co'o lápis desenhou 
O retrato fiel duma mulher perdida.

Glosas 

Era noite invernosa e o tento desabrido 
Num louco galopar ferozmente rugia, 
Vergastando os pinhais, pelos campos corria, 
Como um triste grilheta ao degredo fugido. 
Num antro pestilento, infame e corrompido, 
Imagem de bordel, cenário de caverna, 
Vendia-se veneno à luz duma lanterna 
À turba que se mata, ingerindo aguardente, 
Estava um jovem pintor, atrofiando a mente, 
Encostado sem brio ao balcão da taberna.

Rameiras das banais, num doido desafio, 
Exploravam do artista a sua magra féria, 
E êle na embriaguês do vinho e da miséria, 
Cedia ás tentações daquele mulherio. 
Nem mesmo a própria luz, nem mesmo o próprio frio, 
Daquele vasadouro onde se queima a vida, 
Faziam incutir à corja pervertida. 
Um sentimento, bom d'amor e compaixão, 
P'lo ébrio que encostava a fronte ao vil balcão, 
De nauseabunda côr e tábua carcomida. 

Impudica mulher, perante o vil bulício 
De copos telintando e de boçais gracejos, 
Agarrou-se ao rapaz, cobrindo-o de beijos, 
Perguntando a sorrir qual era o seu oficio; 
Ele a cambalear, fazendo um sacrifício, 
Lhe diz a profissão em que se iniciou, 
Ela escutando tal, pedindo-lhe, alcançou 
Que então lhe desenhasse o rosto provocante, 
E num sujo papel, o rosto da bacante 
O bêbado pintor com um lápis desenhou. 

Retocou o perfil e por baixo escreveu, 
Numa legível letra o seu modesto nome, 
Que um ébrio esfarrapado, com o rosto cheio de fome. 
Com voz rascante e rouca à desgraçada leu. 
Esta, louca de dor, para o jovem correu, 
E beijando-lhe o rosto, abraça-o de seguida... 
Era a mãi do pintor, e a turba comovida, 
Pasma ante aquele quadro original, estranho, 
Enquanto o pobre artista amarfanha o desenho: 
O retrato fiel duma mulher perdida. (2)


(1) Norberto de Araújo cf. Alfredo Marceneiro, aqui mora o fado
(2) A Victor Machado, Ídolos do fado, Lisboa, Tip. Gonçalves, 1937

Leitura relacionada:
Alfredo Marceneiro, aqui mora o fado
Lisboa no Guiness

Redes sociais:
Alfredo Marceneiro 'aqui mora o fado' (fb)
Valdemar Marceneiro 'aqui mora o FADO' (YouTube)
Alfredo Marceneiro (flicker)



Outras referências (em actualização)

O pregão é só um! O artigo é que muda... 

Alfredo Marceneiro cf. Alfredo é só fado, RTP 1969

* * *

Os fados de expressão lírica e romântica na discografia de Alfredo Marceneiro (em actualização) :

The Fabulous Marceneiro (1961)
Senhora do monte, Gabriel de Oliveira (1891-1953), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Lembro-me de ti, Linhares Barbosa (1893-1965), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
O amor é água que corre, Augusto de Sousa, Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Mocita dos caracóis, Linhares Barbosa (1893-1965)
A viela, Guilherme Pereira da Rosa, Fado cravo, Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Ironia, Armando Neves (1899-1944), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
A casa da Mariquinhas, Silva Tavares (1893-1964),  Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Amor De Mãe, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
A Menina Do Mirante, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Andrade Ferreira, José Maria de, Revista contemporanea de Portugal e Brazil, n° 4, Vol. III, 1861
O lenço, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
O bêbedo pintor, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
O Leilão, Linhares Barbosa (1893-1965)
Bairros de Lisboa (v. 2006), Carlos Conde (1901-1981), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Antes e depois (v. 2006)
A camponesa e o pescador (v. 2006), Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Antes e depois (v. 2006)
A minha freguesia (v. 2006)
Antes e depois (versão alternativa, v. 2006)

Há Festa Na Mouraria (1965)
Há festa na Mouraria, Gabriel de Oliveira (1891-1953), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Fado balada, Silva Tavares (1893-1964), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Orfãzita
Despedida, Carlos Conde (1901-1981), Fado cravo, Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Os velhinhos, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Colchetes d'oiro , Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
O Marceneiro
Fado laranjeira, Júlio César Valente, Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Empate dois a dois
Bailado das folhas, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
O Natal do moleiro, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
As fontes da minha aldeia, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)

Alfredo Marceneiro e o Fado (1971) [Os Melhores Da Música Portuguesa (2006)] 
O pagem
Rainha Santa
Sonho Dourado
Sinais Sinas, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Cabaré, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Moinho desmantelado, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Avózinha
Quadras Soltas, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Remorso, Linhares Barbosa (1893-1965)

Nos Tempos Em Que Eu Cantava (1972)
Foi na velha Mouraria, Fernando Teles (1891-1958), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Domingo d'agosto
Tricana, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Oh águia, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Depois do Carnaval
Nos tempos em que eu cantava
Café das camareiras, Gabriel de Oliveira (1891-1953), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
A minha freguesia
O Pierrot, Linhares Barbosa (1893-1965)
Três tabuletas, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)

Outros (sem referência discográfica) 
Cabelo branco, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Antes que queira não posso, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
A Lucinda camareira, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Fado bailado, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
O louco, Henrique Rego (1893-1963), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Marcha do Alfredo, Gabriel de Oliveira (1891-1953), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
Fado cravo, Fernando Teles (1891-1958), Alfredo Marceneiro (1888-1982)
É tão bom ser pequenino, Linhares Barbosa (1893-1965)
Janela da vida, Carlos Conde (1901-1981), (1888-1982)

cf. Alfredo Marceneiro, DiscogsTrês grandes compositores do fado tradicional


* * *

Poetas populares do fado tradicional

Carlos Harrington (1870-1916)
Avelino de Sousa (1880-1946)
Gabriel de Oliveira (1891-1953)
Fernando Teles (1891-1958)
Silva Tavares (1893-1964)
Linhares Barbosa (1893-1965)
Henrique Rego (1893-1963)
Frederico de Brito (1894-1977)
António Amargo (1895-1933)
Amadeu do Vale (1898-1963)
Armando Neves (1899-1944)
Carlos Conde (1901-1981)
Clemente Pereira (1903-1986)
João da Mata (1906-1947)
Radamanto (1908-1972)
Conde de Sobral (1910-1969)
Domingos Gonçalves Costa (1913-1984)
Artur Soares Pereira (1921-2011)
Maria Manuel Cid (1922-1994)
Lopes Victor (N. 1922)
Moita Girão (1923-2013)
António Vilar da Costa (1924-1988)
Artur Ribeiro (1924-1988)
João Dias (1926-1979)
Jorge Rosa (1930-2001)
Isidoro d’Oliveira (1934-2013)
Manuel Andrade (1944-1966)


cf. Poetas populares do fado tradicional

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Fado VI (recolha em História do Fado)

Os lisboetas de 1792 — principalmente a caixeirada de mercadores e capellistas — acompanhados de rascòas, batiam de sege para os festins bem pagodeados na casa de pasto de Bellas e para as bambochatas nos retiros de Sete Rios e das Larangeiras, onde se batoteava forte, principalmente com os "ofliciaes de gaveta" conforme os arrieiros alcunhavam os caixeiros que sizavam os patrões.

O fado, José Malhoa, 1910.
Wikipédia

Mas a guitarra não tinha logar n'essas pandegas descabelladas. 

Os lisboetas de 1807 continuaram a tradição das patuscadas em Bellas; e os de 1820 limitavam as suas diversões campestres ás batidas de tipóia para esta localidade — que frequentavam em com panhia das michelas de jozésinho de baetão verde, vestido de chita riscada e leuço branco na cabeça e ás burricadas na Oulra-Banda ou para Loures e Lumiar, onde iam vêr a quinta do marquez de Angeja, (hoje propiiedade dos duques de Palmella). 

A guitarra, porém, continuava a brilhar pela ausência. Nas frescatas e nas hortas dos arredores da Lisboa de 1833, guilarreavam-se modinhas [...]

Repetimos que, entre o fadista de 1848, o de 1860 e o de hoje. ha apenas differenças superficiaes, porque a sua fadislite aguda, o seu nervosismo feroz, têem resistido obstinadamente ás investidas tenazes da civilisação. E se o falante de 1848 cantava todo ancho:

O fadista que é fadista,
A geito o ferro manobra,
Mettendo mào aos arames
Dá facada como cobra,

o da actualidade ainda nos vem dizer com uma insondável expressão de guapice: 

Tenho sina de morrer
Na ponta d'uma navalha,
Toda a vida ouvi dizer:
— Morra o homem na batalha!

...

Entre as quadras attribuidas ao estro da Severa, havia as seguintes: 

A Chicória do Sarmento, 
Que bate o fado tão bem, 
Quando "toureia" o Sedvem, 
Chora de contentamento.

Ó D. José cavalleiro, 
Toma sentido na bolla! 
Pode fazer te em patola 
Qualquer fino boi matreiro! 

P'ra mim, o supiemo gozo 
É bater o fado liró, 
E vêr combater c'um boi só 
O conde do Vimioso.

...

N'este manuscripto lia uma decima anonyma dirigida a versas personalidades da epocha.

Voluntária ao Voluntário 
A Ratinha se apegou, 
Dircea aos esses tornou 
Do seu antigo fadario.
A Sal ma ao Secretario 
Deixa pelo Picador, 
D. Izabel, seu amor,
Muda do Papinha ao Papa,
D. Ritta os olhos tapa, 
Villanova faz furor.

...

O Fado (detalhe), José Malhoa, 1910.
Le Portugais, Georges Braque, 1911.
Wikipédia; WikiArt
A guitarra, dizem os methodos de ensino, admitte cinco afinações: a afinação natural, a afinação natural com quarta (muito empregada para acompanhamentos), a afinação do fado, a afinação transportada (afinação mais baixa meio tom) e a afinação do violão. 

Mas as afinações que propriamente lhe competem são a natural e a do fado, sendo preferivel a ultima. Os tocadores antigos, os tocadores do lidimo fado, executavam-n'o em ré menor. E, circumstancia a notar, antigamente o cantador não se acompanhava a si mesmo, mas fazia se sempre acompanhar de um guitarrista. 

Os dedos ágeis do tocador corriam rapidamente sobre as cardas da guitarra e davam vôo ao pensamento harmonioso dos auctores dos fados, emquanto as rimas do cantador batiam azas. Hoje, quasi sempre o cantador se acompanha a si proprio.

A voz para cantar o fado é uma voz inclassificável, sui generis, com modulações e inflexões não sujeitas ao jugo lyrannico dos methodos de canto, uma voz que não se subordina aos dietames cathedraticos dos professores do Conservatório. 

E ahi está o motivo porque o Tamagno ou a Palli poderiam fazer fiasco cantando o fado ao pé do Serrano ou da Albertina. E eis ahi a razão por que um interprete de uma partitura deliquescente de Puccini ou de uma partitura descriptiva de Wagner pregaria um estenderete raso, se quizesse antar o fado da Severa ou o fado do João Black.

As primeiras trovas do fado, devidas á mechanina espiritual do povo, eram em quadras; depois usaram-se em quadras glosadas e em decimas; e ultimamente, com o fado modernista, empregam se de novo as quadras e também as quintilhas. Ofado principiou por se cantar com versos ingenuamente populares, impro- visados à la va comme je te polisse, de que damos as amostras seguintes:

Ulysses era brejeiro,
Era o pae da brejeirada 
Era um bom sapateiro, 
Trabalhava n'uma escada. 

Encontrei Frei João
N'uma manhã de geada,
Com um instrumento na mão, 
Vinha a ser uma guitarra. 

O coelho é manhoso,
Dorme c'os olhos abertos,
Eu durmo c'os meus fechados, 
Porque tenho amores certos.

Na cabana do Zé do Sacho 
Ha uma cruz de madeira,
E n'ella um Christo pregado, 
Feito de pau de gingeira.

Muitos me chamam Antonio, 
E eu Antonio não sou,
O meu nome não é este,
Foi alguém que m'o trocou.

...

Le Portugais, Georges Braque, 1911.
O Fado (detalhe), José Malhoa, 1910.
WikiArt; Wikipédia
O fado mais antigo é o fado do marinheiro. Segue-se-lhe o fado corrido, que parece ter sido o primeiro modelado por aquelle, e que se cifra na execução do acompanhamento, sem variações. 

Quando o fado não é tocado para acompanhar o canto, os guitarristas bordam sobre elle os arabescos da sua phantasia musical, arrancam ao instrumento variações que percorrem toda a gamma chromatira dos extases amorosos, das idealidades scismadoras, dos affectos jubilatorios. 

A primeira mulher que tocou o fado corrido na guitarra foi a Manasinha, catraia da Madragòa em 1850. Foi ella que o ensinou ao cantador Paixão, o primeiro também que tocou o fado corrido na guitarra. 

Ao fado corrido segue-se o fado da Cotovia, cuja lettra desconhecemos. Depois, vem o primeiro fado de Pedrouços, original de A Branco, composto em 1849, e o fado choradinho, anterior a 1850, que serviu de modelo a outros fados. Este fado canta-se com os versos seguintes: 

Quem tiver filhas no mundo 
Não fale das desgraçadas. 
Porque as filhas da desgraça 
Também nasceram honradas. 

Não sei que quer a desgraça 
Que atraz de mim corre tanto; 
Hei de parar e mostrar-lhe 
Que de vêl-a não me espanto.

Fui encontrar a desgraça 
Onde os mais acham prazer; 
Amor, que dá vida a tantos, 
Só a mim me faz morrer. 

Das filhas da desventura 
Devemos ter compaixão, 
São mulheres como as mais, 
Filhas de Eva e de Adão. 

Eu quero bem á desgraça, 
Que sempre me acompanhou, 
Mão pcsso amar a ventura, 
Que irem cedo me deixou. 

Eu fui a mais desgraçada 
Das filhas da minha mãe, 
Todas tem a quem se cheguem,' 
Só eu não tenho ninguém. 

Debaixo do frio chão, 
Onde o sol não tem entrada, 
Abra se uma sepultura, 
Finde o fado a desgraçada. 

E Deus que tudo perdoa, 
E a VIrgem Nossa Senhora, 
Hão de ouvir a alma que implora 
Salvação á peccadora.

...

Le Portugais, Georges Braque, 1911.
WikiArt
Depois d'esles fados, apparece o fado da Severa, que remonta aos meiados do século xix, porque foi com posto em tempo da mulher que llhe deu o titulo, e que, como vimos, morreu anleriormenle a 1850. 

Attribuem a paternidade d'este fado ao Sousa do Casarão. Os collectors do Cancioneiro de musicas populares consideram-n'o como o lypo primordial dos fados populares lamentosos. 

A versão coimbrã do fado da Severa, recolhida e publicada pelo sr. Theophilo Braga a paginas 140 do seu Cancioneiro Popular, é como se segue:

Chorae, fadistas, chorae,
Que uma fadista morreu;
Hoje mesmo faz um anno,
Que a Severa falleceu.

O Conde de Vimioso
Um duro golpe soffreu,
Quando lhe foram dizer
A tua Severa morreu.

Corre á sua sepultura,
O seu corpo ainda vê:
"Adeos, oh minha Severa,
Bôa sorte Deos te dê!

Lá n’esse reino celeste,
Com tua banza na mão,
Farás dos Anjos fadistas,
Porás tudo em confusão.

Até o proprio Sam Pedro
Á porta do céo sentado,
Ao ver entrar a Severa,
Bateu e cantou o fado.

Ponde no braço da banza
Um signal de negro fumo,
Que diga por toda a parte
O fado perdeu seu rumo.

Morreu, já faz hoje um anno
Das fadistas a rainha,
Com ella o fado perdeu
O gosto que o fado tinha.

Chorae, fadistas, chorae,
Que a Severa se finou;
O gosto que tinha o fado
Tudo com ella acabou.

Mas o Cancioneiro de musicas populares insere este:

Quando lhe foram dizer: 
Maria Severa morreu! 

Chorae, fadistas, chorae, 
Que a Severa já morreu, 
Fadista como ella 
Nunca o fado couheceu! 

Conhecemos mais uma quadra com variantes, publicada pelo sr. Visconde de Castilho na Lisboa Antiga:

Ponde no braço da banza 
Um laço de negro fumo,
E este signal diga a todos: 
Que o fado perdeu o rumo!

A Severa — cuja memoria fulge atravez dos annos com o tremor luminoso de um astro — excitou a veia poética popular, ha ainda mais as dez quadras seguintes, abusivas á Severa, sendo as duas primeiras publicadas pelo sr. visconde de Castilho na Lisboa Antiga e as oito ultimas recolhidas da tradiç-ão oral:

Assim como as flores vivem 
Minha Severa viveu,
Assim eoino as flores morrem 
Minha Severa morreu.

Levantae lhe um mausoléu 
Co'um negro cypreste ao lado, 
E o epitaphio que diga: 
"Aqui jaz quem soube o fado" 

Quando a Severa falleceu,
O Vimioso adorado
Disse, vertendo lagrimas:
Morreu o mimo do fado!

Severa, linda Severa,
Foste a princeza do fado,
Foi o que Vimioso ouviu 
'ma manhã quando sergueu. 

Eu vou cantar a Severa 
N'esta bella occasião;
O seu fado é d'encantar 
Vae direito ao coração. 

O fado da Severa tem outro que o completa, o fado do Vimioso. Este pertence, evidentemente, a época posterior, mas inserimil-o aqui por ser o complemento d'aquelle. É formado de dezoito quadras: 

Quem lhe vê a fãce morena, 
Quem vê seus olhos tyrannos, 
Nada vê que mais captive, 
Ainda que viva mil annos. (1)


(1) Historia do fado

Leitura relacionada:
Cancioneiro popular colligido da tradição por Theophilo Braga

domingo, 10 de maio de 2020

Fado V (recolha em História da poesia e Cancioneiro popular)

Em Portugal é outra a causa; pobre nacionalidade morta, é a túnica sobre que pairam os dados. Triste presentimento, tristíssimo, tanto mais, quanto se apossa de uma alma ainda crente no meio da corrupção deste pequeno Baixo Império. Colligir a poesia popular portugueza agora, no momento do transe, é como a garrafa ao mar que se atirava nos naufrágios: é para que se saiba que existiu este povo que também soffreu e cantou [...]  (1)

Fado, como a xacara moderna, em que a acção senão tira da vida heróica, é uma narração detalhada e plangente dos successos vulgares, que entretecem o existir das classes mais baixas da sociedade. 

Ha o "fado do marujo", "da Severa", "do Soldado", e o "do Degradado" que se despede das moças da vida. 

Tem o fado a continuidade do descante, seguindo fielmente uma longa narrativa, entremeada de conceitos grosseiros e preceitos de moralidade com uma forma dolorosa, observação profunda na descripção dos feitos, graça despretenciosa, com uma monotonia de metro e de canto, que infunde pesar, principalmente na mudez ou no ruido da noite, quando os sons sáeim confusos do fundo das espeluncas, ou misturados com os risos dos lupanares. rythmo do canto é notado com o bater do pé e com desenvoltos requebros; a dança e a poesia auxiliam-se no que se chama bater o fado. 

Dos caracteres que temos apontado, principalmente do narrativo, é que vem o nome a esta forma, de Fado ou "facto"; a canção de gesta da edade media, acompanhando as transformações sociaes tornou-se o Fado moderno. Da côr sensível de fatallidade, que ha na poesia do povo, pareceria talvez provir o nome á forma que mais se inspira d'esse sentimento. É uma analogia falsa. 

Chama-se "fadista" ao vagabundo nocturno que anda modulando essas cantigas; nome que vem do velho francez "Fatiste", poeta, que Edelestand du Méril pretende que tivesse vindo do islandez "fata", vestir, em vez do grego phatisein, que suppõe tradição erudita de mais para se tornar popular. (2)

Caricatura do typo fadista no cortejo
com que os estudantes da Escola Polytechnica de Lisboa
celebraram a publicação do "Decreto do cuspo".
cf. Alberto Pimentel, A triste canção do Sul, 1904.
Fadistas

Tudo quanto o fado inspira
E o que só me entretem; 

Pois quem do fado se tira 
Não sabe o que é viver bem. 

Eu heide morrer no fado, 
Seguir os destinos seus; 
O chinfrim será meu brado, 
A banza será meu Deos. 

Se o padre santo soubesse 
O gosto que o fado tem, 
Viera de Roma aqui 
Bater o fado também. 

Fado da Severa 
(Versão de Coimbra) 

Chorae, fadistas, chorae, 
Que uma fadista morreu; 
Hoje mesmo faz um anno, 
Que a Severa falleceu.

O Conde de Vimioso
Um duro golpe soffreu,
Quando lhe foram dizer
A tua Severa morreu.

Corre á sua sepultura,
O seu corpo ainda vê:
"Adeos, oh minha Severa,
Bôa sorte Deos te dê!

Lá n’esse reino celeste,
Com tua banza na mão,
Farás dos Anjos fadistas,
Porás tudo em confusão.

Até o proprio Sam Pedro
Á porta do céo sentado,
Ao ver entrar a Severa,
Bateu e cantou o fado.

Ponde no braço da banza
Um signal de negro fumo,
Que diga por toda a parte
O fado perdeu seu rumo."

Morreu, já faz hoje um anno
Das fadistas a rainha,
Com ella o fado perdeu
O gosto que o fado tinha.

Chorae, fadistas, chorae,
Que a Severa se finou;
O gosto que tinha o fado
Tudo com ella acabou.

Fado do marujo
(Versão de Coimbra)

Triste vida a do marujo,
Qual d’ellas a mais cansada;
Por uma triste soldada
Passa tormentos! [Bis]

Andar á chuva e aos ventos
Quer de verão, quer de inverno;
Parecem o proprio inferno
As tempestades!

As nossas necessidades
Obrigam a navegar,
E a passar tempos no mar,
E aguaceiros.

Passam-se dias inteiros
Sem se poder cosinhar;
Nem tão pouco mal assar
Nossa comida!

Arrenego de tal vida,
Que nos dá tanta canseira!
Sem a nossa bebedeira
Nós não passamos!

Quando socegado estamos
No rancho a descansar,
Então é que ouço gritar:
Oh leva arriba!

O mestre logo se estriba,
Bradando d esta maneira :
"Moços, ferra a cevadeira
E o joanete."

Também dá o seu falsete
Não podendo mais gritar:
"Cada qual ao seu logar
Até ver isto!"

Mais me valera ser visto
Á porta de um botequim,
Do que vêr agora o tim
Da minha vida!

Quando parece comprida
A noite p’ra descançar,
Então é que ouço tocar
Certa matraca.

O somno logo se atraca,
Meu coração logo treme,
Em cuidar que heide ir ao leme
Estar duas horas.

Lembram-me certas senhoras
Com quem eu tratei em terra.
Que me estão fazendo guerra
Ao meu dinheiro.

Foi um velho marinheiro,
Que inventou esta cantiga;
Embarcado toda a vida
Sem ter dinheiro. (3)


(1) Cancioneiro popular colligido da tradição por Theophilo Braga
(2) História da poesia popular portuguesa por Theophilo Braga
(3) Cancioneiro popular colligido da tradição por Theophilo Braga

sábado, 9 de maio de 2020

Fado IV (recolha em Folhas cahidas, Almeida Garrett)

Garrett, que parecia de animo desanuviado, deu largas á fecunda palavra. 

Retrato de Almeida Garrett (detalhe), Manuel Araujo Porto-Alegre, 1833.
Instituto Camões

Ao café appareceu José Maria Grande, que vinha convidar-nos a passar a tarde no Jardim Botânico, onde tinha ido ser sua hospeda uma familia da nossa primeira sociedade. 

Quando, á noite, nos reunimos na casa do Jardim Botânico, entre outras pessoas, éramos — as que havíamos jantado na Ajuda, e a mais o conde de Belmonte, e D. João e D. Gastão da Gamara. Restam vivos Carvalhal, D. Gastão e eu. 

Animando a sala havia duas senhoras; uma casada, outra solteira. Ambas também já não pertencem ao numero dos vivos! A solteira era alta, delgada ; a cinta estreita; o pé andaluz; as mãos finas; a cabeça pequena, o cabello loiro, com reflexos de fogo, e ás ondas.

Caricatura de Garrett defronte da viscondessa da Luz, A Matraca, 1848.
Por largo campo, indómita e fremente
Corre a revolução,
Da vossa Luz a rápida torrente
Me alegra o coração
Cartas de amor à viscondessa da Luz

A bocca, pequena e vermelha, sorrindo, juvenil e alegre, deixava entrever duas renques de pérolas. Os olhos azues, e via-se n'elles o azul crystalino e ethereo da sua alma angélica!

Amava cegamente, e tinha deante dos olhos aquelle, a quem, d'alli a quatro annos contados, havia de entregar o seu apaixonado coração de amante e de esposa.

Esta senhora chamava-se: Mathilde Montufar [Rosa Montufar]. Oh! que dias de luz ha no mundo! Luz intensa, scintillante, deslumbradora, que, na tre- menda e immutavel antithese da vida, tem de ser contrastada pelas sombras caliginosas e profundas!

Rosa de Montufar, Viscondessa da Luz.
Cartas de amor à viscondessa da Luz

A meio da noite pediram, com viva instancia, versos. Recitei o Adeus das Folhas caídas, então inéditas. A disposição dos espiritos, a novidade e extraordinária belleza d'aquelles versos, a presença do auctor, tudo concorreu, para que a sensação produzida fosse grande. Garrett sabia dominar-se; porém a muito custo conteve a commoção. 

Piquenique na Quinta do Palheiro Ferreiro, Tomás da Anunciação, 1865.
D. António Leandro da Câmara Carvalhal Esmeraldo Atouguia Bettencourt de Sá Machado, 2.º Conde de Carvalhal, grande proprietário, nascido em 1834, casado em 1854 com D. Matilde Montufar Infante, filha dos Marqueses de Selva Alegre em Espanha. Desse casamento nasceram duas filhas, D. Maria da Câmara, Condessa de Resende e D. Teresa da Câmara, Condessa de Ribeiro Real
[Bulhão Pato confundo os nomes de Rosa e Matilde].
Imagem: Museu Quinta das Cruzes

N'este momento, mais do que nunca, a imagem serena e resignada, que se invocava n'aquelles versos, devia pungil-o no centro do coração, e na fibra do remorso!

Oh! vae-te, vae, longe, embora! 
Que te lembre sempre e agora 
Que não te amei nunca... 
Ai! não; E que pude, a sangue frio, 
Covarde, infame, villão, 
Gosar-te — mentir sem brio. 
Sem alma, sem dó, sem pejo, 
Commettendo em cada beijo 
Um crime... Ai! triste, não chores, 
Nâo chores, anjo do ceu, 
Que o deshonrado sou eu.
[v. o texto integral]

No resto d'essa noite, nos bellos olhos, e no rosto do poeta, serenavam, a custo, as ondas de uma tempestade!


FOLHAS CAHIDAS

Dos editores

Cumpre se a promessa feita no primeiro volume desta collecção reunindo aqui, em segunda edição muito augmentada e correcta, as Folhas cahidas. 

Apezar de estarem no prelo desde 1851, o auctor tinha descuidado na primeira edição o seu habitual escrúpulo de rever e corrigir; e não teve paciência para as augmentar com muitas peças que agora vão, e que então não estavam postas a limpo. Trabalhos mais sérios o distrahiram durante os dois annos que levaram a imprimir tam poucas paginas. 

Julgou-se agora melhor dividir em dois livros o que, assim augmentado, ficaria demasiado para um só. 

Maio — 1853.

Advertência (do auctor na primeira edição)

Antes que venha o inverno e disperse ao vento essas folhas de poesia que por ahi cahiram, vamos escolher uma ou outra que valha a pena conservar, ainda que não seja senão para memoria. 

A outros versos chamei eu já as ultimas recordações de minha vida poetica. Enganei o publico, mas de boa fé, porque me enganei primeiro a mim. Protestos de poetas que sempre estão a dizer adeus ao mundo, e morrera abraçados com o louro — ás vezes imaginário, porque ninguém os coroa. 

Eu pouco mais tinha de vinte annos quando publiquei certo poema, e jurei que eram os últimos versos que fazia. Que juramentos! 

Se dos meus se rirem, têem razão; mas saibam que eu também primeiro me ri d'elles. Poeta na primavera, no estio e no outomno da vida, heide sel-o no inverno se lá chegar, e heide sei o em ludo. Mas dantes cuidava que não, e n'isso ia o erro. 

Os cantos que formam esta pequena collecção pertencem todos a uma epocha de vida intima e recolhida que nada tem com as minhas outras colleções.

Essas mais ou menos mostram o poeta que canta deante do publico. Das Folhas Cahidas ninguém tal dirá, ou bem pouco entende de stylos e modos de cantar.

Não sei se são bons ou maus estes versos; sei que gosto mais d'elles do que de nenhuns outros que fizesse. Porque? É impossivel dizel o, mas é verdade. E como nada são por elle nem para elle, é provável que o publico sinta bem diversamente do auctor. Que importa?

Apezar de sempre se dizer e escrever ha cem mil annos o contrario, parece me que o melhor e mais recto juiz que pôde ter um escriptor, é elle próprio, quando o não cega o amor próprio. Eu sei que tenho os olhos abertos, ao menos agora.

Custa-lhe a uma pessoa, como custava ao Tasso, e ainda sem ser Tasso, a queimar os seus versos, que são seus filhos; mas o sentimento paterno não impede de vêr os defeitos das crianças.

Emfim, eu não queimo estes consagrei os "Ignolo deo". E o deus que os inspirou que os anniquille se quizer: não me julgo com direito de o fazer eu. 

Ainda assim, no "Ignolo deo" não imaginem alguma divindade meia-velada com cendal transparente, que o devoto está morrendo que lhe caia para que todos a vejam bem clara. O meu deus desconhecido é realmente aquelle mysterioso, occulto e não definido sentimento d'alma que a leva ás aspirações de uma felicidade ideal, o sonho de oiro do poeta. 

Imaginação que porventura se não realisa nunca. E d'ahi quem sabe? A culpa é talvez da palavra, que é abstracta de mais. Saúde, riqueza, miséria, pobreza, e ainda coisas mais materiaes, como o frio e o calor, não são se não estados comparativos, approximativos. Ao infinito não se chega, porque deixava de o ser em se chegando a elle. 

Logo o poeta é louco, porque aspira sempre ao impossivei. Não sei. Essa é uma disputação mais longa. 

Mas sei que as presentes "Folhas cahidas" representam o estado d'alma do poeta nas variadas, incertas e vacillantes oscillaçóes do espirito que, tendendo ao seu fim único, a posse do "ideal", ora pensa tel o alcançado, ora estar a ponto de chegar a elle, ora ri amargamente porque reconhece o seu engano ora se desespera de raiva impotente por sua credulidade van. 

Deixae o passar, gente do mundo, devotos do poder, da riqueza, do mando, ou da gloria. Elle não entende bem d'isso, e vós não entendeis nada d'elle. 

Deixae o passar, porque elle vae onde vós não ides; vae, ainda que zombeis d'elle, que o calumnieis, que o assassineis. Vae. porque é espirito, e vós sois matéria. 

E vós morrereis, elle não. Ou só morrerá d'elle aquillo em que se pareceu e se uniu comvosco. E essa falta que é a mesma de Adão, também será punida com a morte. 

Mas não triumphais, porque a morte não passa do corpo, que é tudo em vós, e nada ou quasi nada no poeta.

Janeiro — 1853. (1)


Garrett preguiçava, mas aquellas horas de preguiça eram como as de Byron. De quando em quando do "dolce far niente", que os italianos entendem por fazer aquillo de que se gosta, saia uma flor delicada e perfumadíssima, que iria enlaçar-se na graciosa grinalda das "Folhas Caídas". Garrett, n'essa época, estava na força da vida, tinha quarenta e oito annos, mas havia muito que lhe chamavam velho.



(1) Teophilo Braga, Obras completas de Almeida Garrett, Volume I, 1904

Referências externas:
Obras de Almeida Garrett na Biblioteca Nacional de Portugal  
Obras de Almeida Garrett em archive.org  
Almeida Garrett, Obras Completas, Vol. I (com ilustrações de Joaquim Manuel de Macedo)  
Almeida Garrett, Obras Completas, Vol. II (com ilustrações de Joaquim Manuel de Macedo)

Leitura relacionada:
Teophilo Braga, Obras completas de Almeida Garrett, Volume I (pesquisa: fado)
Almeida Garrett e a fundação do Romantismo português
Intertextualidades entre a Balada romântica portuguesa e o Fado oitocentista
O Fado e a questão da identidade

Artigos relacionados:
Almeida Garrett (notas biográficas)
Almeida Garrett por Bulhão Pato: no eremitério
Almeida Garrett por Bulhão Pato: na vida íntima
Almeida Garrett por Bulhão Pato: o jantar ao poeta...

Almeida Garrett por Bulhão Pato: as Folhas caídas
O partido setembrista, Lisboa 1836
Manoel da Silva Passos, Lisboa 1836
O retiro de um velho romântico
Almeida Garrett
Garretismo
Os pincéis do Neogarretismo prévio



Internet Archive (referências biográficas):
Domingos Manuel Fernandes, Biographia politico-litteraria..., 1873
Teophilo Braga, Historia do romantismo em Portugal... Garrett, Herculano, Castilho, 1880
Francisco Gomes de Amorim, Garrett, memórias biográficas, Tomo I, 1881
Francisco Gomes de Amorim, Garrett, memórias biográficas, Tomo II, 1884
Francisco Gomes de Amorim, Garrett, memórias biográficas, Tomo III, 1884
Alberto Bessa, Almeida Garrett no Pantheon dos Jeronymos, 1902
Alfredo de Pratt, O divino poeta, 1903
Latino Coelho, Garrett e Castilho, estudos biográficos, 1917

Internet Archive:(bibliografia):
Catão [1821], 2.a ed. 1830
Teophilo Braga, Obras completas de Almeida Garrett, Volume I, 1904
Teophilo Braga, Obras completas de Almeida Garrett, Volume II, 1904
...

Biblioteca Nacional de Portugal:
Bicentenário de Almeida Garrett
Roteiro bio-bibliográfico
Obras em formato digital
A Enciclopédia de Garrett Enciclopedista
Modernidade e Romantismo em Almeida Garrett
Viagens na Minha Terra: caminhos para a leitura de uma "embaraçada meada"
Modos de cooperação interpretativa na leitura escolar do Frei Luís de Sousa
A Question of Timing: Madalena's role as 'uma mulher à beira duma crise de nervos'
Catão em Plymouth
O Camões garrettiano
Um Auto de Gil Vicente and the Tradition of Comedy
Iconografia

Biblioteca Nacional de Portugal (bibliografia):
Hino Patriótico (poema), Porto 1820, folheto impresso [Recuper. por Teófilo Braga, in Garrett e os Dramas Românticos, Porto 1905]
Proclamações Académicos, Coimbra 1820, folhetos mss. [Reprod. in O Patriota, nº 67 (15 Dez.), Coimbra 1820]
Ao corpo académico (poema), in Colecção de Poesias Recitadas na Sala dos Actos Grandes da Universidade [...], Coimbra 1821 [Recuper. por Martins de Carvalho, in O Conimbricense, Ano XXVII, nº 2823 (14 Ag.), Coimbra 1874]
O Dia Vinte e Quatro de Agosto (ensaio político), Lisboa Ano I (1821)
O Retrato de Vénus (poema), Coimbra Ano I (1821) [Incl.: Ensaio sobre a História da Pintura]
Catão. Tragédia, Lisboa Ano II (1822) [Incl.: O Corcunda por Amor, farsa, co-autoria de Paulo Midosi]
Aos Mortos no Campo da Honra de Madrid. Epicédio, folheto [reprod. do Jornal da Sociedade Literária Patriótica, 2º trim., nº 18 (13 Set.), Lisboa 1822, vol. II, pp. 420-423]
Oração Fúnebre de Manuel Fernandes Tomás, Lisboa 1822, opúsculo [Colig. in Discursos e Poesias Fúnebres [...], Celebradas para Prantear a Dor e Orfandade dos Portugueses, na Morte de Manuel Fernandes Tomás, Lisboa 1823]
Camões. Poema, Paris 1825
Dona Branca, ou A Conquista do Algarve (poema), Paris 1826
Da Europa e da América e de Sua Mútua Influência na Causa da Civilização e da Liberdade (ensaio político), in O Popular, jornal político, literário e comercial, vol. IV, nº XIX (Mai.), Londres 1826, pp. 25-81
Bosquejo da História da Poesia e da Língua Portuguesa, in Parnaso Lusitano ou Poesias Selectas dos Autores Portugueses Antigos e Modernos, vol. I, Paris 1826 [Incl.: introdução A Quem Ler]
Carta de Guia para Eleitores, em Que se Trata da Opinião Pública, das Qualidades para Deputado e do Modo de as Conhecer (ensaio político), Lisboa 1826, opúsculo Adozinda. Romance (poema), Londres 1828 [Incl.: Bernal Francês]
Lírica de João Mínimo, Londres 1829
Lealdade, ou a Vitória da Terceira (canção), Londres 1829, folheto Da Educação. Livro Primeiro. Educação Doméstica ou Paternal, Londres 1829
Portugal na Balança da Europa. Do Que Tem Sido e do Que Ora Lhe Convém Ser na Nova Ordem de Coisas do Mundo Civilizado (ensaio político), Londres 1830
Elogio Fúnebre de Carlos Infante de Lacerda, Barão de Sabroso, Londres 1830, folheto Carta de M. Cévola, ao futuro editor do primeiro jornal liberal que em português se publicar (panfleto político), Londres 1830 [Pseud.: Múcio Cévola, 2ª ed. transcrita in O Pelourinho, nº V, Angra [1831?, com o título Carta de M. Cévola, oferecida à contemplação da Rainha, a senhora Dona Maria segunnda]
Relatório dos decretos nº 22, 23 e 24 [reorganização da fazenda, administração pública e justiça], Lisboa 1832, folheto [Reprod. in Colecção de Decretos e Regulamentos [...], Lisboa 1836]
Manifesto das Cortes Constituintes à Nação, Lisboa 1837, folheto [Reprod. in Diário do Governo, nº199 (24 de Ag.), Lisboa 1837]
Da Formação da Segunda Câmara das Cortes. Discursos Pronunciados nas Sessões de 9 e 12 de Outubro, Lisboa 1837
Necrologia [do conselheiro Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato], in O Constitucional, nº 272 (13 Dez.), Lisboa 1838 [Relatório ao] Projecto de lei sobre a propriedade literária e artística, in Diário da Câmara dos Deputados, Vol. II, nº 35 (18 Mai.), Lisboa 1839
Discurso do Sr. Deputado pela Terceira, J. B. de Almeida Garrett, na Discussão da Resposta ao Discurso da Coroa, Lisboa 1840 [Discurso dito do Porto Pireu, em resposta a José Estevão] Mérope, tragédia.
Um Auto de Gil Vicente, drama, Lisboa 1841.
Discurso do Sr. Deputado por Lisboa J. B. de Almeida Garrett na Discussão da Lei da Décima , Lisboa 1841, folheto
O Alfageme de Santarém, ou a Espada do Condestável, Lisboa 1842
Elogio Histórico do Sócio Barão da Ribeira de Saborosa, in Memórias do Conservatório Real de Lisboa, Tomo II (8), Lisboa 1843
Memória Histórica do Conselheiro A. M. L. Vieira de Castro, biografia, Lisboa 1843, folheto [Anón., sobre o ministro setembrista António Manuel Lopes Vieira de Castro]
Romanceiro e Cancioneiro Geral, Lisboa 1843 [Incl.: Adozinda (2ª ed.) e outros «romances reconstruídos»]
Miragaia, Lisboa 1844, folheto impresso [de Jornal das Belas Artes] Frei Luís de Sousa, drama, Lisboa 1844 [Incl.: Memória. Ao Conservatório Real, lida na representação do drama no teatro da Quinta do Pinheiro em 4 de Julho 1843]
O conselheiro J. B. de Almeida Garrett [Autobiografia], in Universo Pitoresco, nº 19-21, Lisboa 1844 [Carta sobre a origem da língua portuguesa], ensaio literário, in Opúsculo Acerca da Origem da Língua Portuguesa [...] por dois sócios do Conservatório Real de Lisboa, Lisboa 1844
O Arco de Santana. Crónica portuense, romance, vol. I, Lisboa 1845 [Anón.]
Os Exilados, À Senhora Rossi Caccia, poesia, Lisboa 1845, folheto [Reprod. in Revolução de Setembro, nº 1197 (31 Mar.), Lisboa 1845, p. 2, anónimo e título A Madame Rossi Caccia, cantando no baile de subscrição a favor dos emigrados]
Memória Histórica do Conde de Avilez, biografia, in Revolução de Setembro, nº 1210 (15 Abr.), Lisboa 1845
Flores Sem Fruto (poesia), Lisboa 1845
Da Poesia Popular em Portugal, ensaio literário, in Revista Universal Lisbonense, Tomo V, nº 37 (5 Mar.) – 41 (2 Abr.), Lisboa 1846; [cont. sob título:]
Da Antiga Poesia Portuguesa, in id., Tomo VI, nº 9 (23 Jul.), 13 (20 Ag.), Lisboa 1846
Viagens na Minha Terra, romance, 2 vols., Lisboa 1846
Filipa de Vilhena, comédia, Lisboa 1846 [incl.: Tio Simplício, comédia, e Falar Verdade a Mentir, comédia]
Parecer da Comissão sobre a Unidade Literária, in Revista Universal Lisbonense, nº 16 (10 Set.), Lisboa 1846, vol. VI, sér. II, pp. 188-189 [dito Parecer sobre a Neutralidade Literária, da Associação Protectora da Imprensa Portuguesa, assinado por Rodrigo da Fonseca Magalhães, Visconde de Juromenha, A. Herculano e João Baptista de A. Garrett]
Sermão pregado na dedicação da capela de Nª Srª da Bonança, folheto, Lisboa 1847 [raro, reproduzido com o título Dedicação da Capela dos Srs. Marqueses de Viana (...) in Escritos Diversos, Lisboa 1899,
Obras Completas, vol. XXIV, pp. 281-284, redac.: Lisboa 1846]
Memória Histórica da Excelentíssima Duquesa de Palmela, Lisboa 1848 [folheto]
Memória Histórica de J. Xavier Mouzinho da Silveira, Lisboa 1849 [separ., reprod. de A Época. Jornal de indústria, ciências, literatura, e belas-artes, nº 52, tom. II, pp. 387-394]
O Arco de Santana. Crónica Portuense, romance, vol. II, Lisboa 1850
Protesto Contra a Proposta sobre a Liberdade de Imprensa, abaixo-assinado, folheto, Lisboa 1850 [Subscrito, à cabeça, por Herculano e mais cinquenta personalidades, contra o projecto de «lei das rolhas» apresentado pelo governo]
Necrologia de D.ª Maria Teresa Midosi, in Diário do Governo, nº 221 (19 Set.), Lisboa 1950
Romanceiro, vols. II e III, Lisboa 1851
Cópia de uma Carta Dirigida ao Sr. Encarregado de Negócios da França em Lisboa, Lisboa (19 Agosto) 1852 [litogr., sobre o tratado de comércio e navegação com o governo francês, que assinou como ministro dos negócios estrangeiros]
O Camões do Rossio, comédia, Lisboa 1852 [co-autoria de Inácio Feijó]
Folhas Caídas, poesia, Lisboa 1853
Fábulas – Folhas Caídas, poesia, 2ª ed., Lisboa 1853

Fado III (recolha em Flores sem fructo, Almeida Garrett)

O poeta havia levado mais um revez, dos muitos da sua combatida e aventurosa existência.

Retrato de Almeida Garrett (detalhe), Manuel Araujo Porto-Alegre, 1833.
Instituto Camões

Estava n'um momento análogo áquelle, que lhe inspirara — n'umas paginas de prosa, que vêm nas "Flores sem fructo" — esta apostrophe á solidão:

"Solidão, eu te saúdo! Silencio dos bosques, salve!
A ti venho, ó natureza: abre-me o teu seio.
Venho depor n'elle o peso aborrecido da existência; venho despir as fadigas da vida."


Suppunha, illudido pela dor, que poderia prescindir do mundo, elle, o mais mundano de todos os artistas; elle, para quem os fastígios do poder, as pompas do luxo, os máximos requintes do gosto; as pérolas, as saphiras, as esmeraldas e os diamantes, rutilando no seio, nas mãos, nos cabellos negros retintos, ou loiros acendrados, da mulher apetecida — ou adorada — se tornavam impreteriveis!

Mas, no momento, a sua dor era intensa e sincera; por isso, confirmando o preceito de Horácio, ao descrevel-a, a todos nos commovia. Grandes foram as provações, porque passou aquelle desmesurado espirito! 

Para quem o lidou de perto, sobretudo nos últimos tempos, pelos seus versos — "Flores sem fructo", e "Folhas caídas" — é fácil determinar quaes foram as crises, os accessos dolorosos, no drama d'aquelle coração, que teve mais de um affecto, que facilmente se deixava seduzir, mas que tão profunda, tão arrebatadamente se apaixonava! 

Depois de grandes desgostos domésticos, que as dicacidades brutaes e malévolas de ânimos corrompidos vinham ainda envenenar, o poeta parecia succumbir aos revezes da má fortuna.


Uns versos das "Flores sem fructo" explicam o estado da alma do auctor do "Camões", n'esse periodo. Não é a dor acerba, é o desalento supremo; tédio, fastio moral, o mais requintado tormento, que pode cruciar o homem!

Quando uma luz imprevista, serena e penetrante, o veiu arrancar áquella apathia moral, o poeta disse: 

Eu caminhava só, e sem destino,
No deserto da vida;
N'alma apagada a luz, e o desatino
Na vista esmorecida:
E afastava de mim, que me impeciam
No caminhar adeante,
Os prazeres dos homens, que sorriam,
E a turba delirante
De seus empenhos vãos. — Aos que gemiam
Sorria eu de inveja...
Quem podéra gemer!... mas arredava
Esses também: não seja
Traição a sua dor! — Eu caminhava
Só, triste, só, sem luz e sem destino,
A vista esmorecida,
A alma gasta, apagada, e ao desatino.
No deserto da vida.

Quem não atravessou uma crise funesta não escreve assim. A vida do homem tem d'estes momentos psychologicos; mas é preciso ser um grande artista, para lhe acertar com a nota verdadeira, propriamente humana!

Mais adeante, appellando para o suicídio, o poeta exclama:

E sentei-me, cansado, n'um rochedo, 
Triste como eu, e só, 
No meio d'este valle de degredo, 
De lagrimas e dó. 
Caíu-me a fronte sobre as mãos pesada, 
E meditei commigo: 
— Nâo é melhor pôr fim a esta jornada, 
E poisar no jazigo?...

Do céo, morno e pesado, as nuvens rarefazem-se, e elle diz: 

Olhei... e vi o azul do firmamento 
Só, sem nenhum brilhar 
De estrellas, ou de lua...
Mas logo se inundava, n'um momento, 
De uma luz alva, doce e resplandente, 
Que me entrou toda n'alma!...

Esta luz, esta nova estrella do poeta, era de certo a singular creança de dezoito annos, cheia de talento, primorosamente educada, bella, e, sobretudo, fina, que se enamorara perdidamente do génio e da viuvez de coração de Almeida Garrett, cujo nome era saudado nos jornaes, applaudido no theatro, coroado no parlamento, e nas academias!

Elle emprestou-lhe a "Nova Heloísa" do apaixonado João Jacques [Rousseau, Jean-Jacques, Julie ou la Nouvelle Héloïse]. O livro levava, a lápis, umas notas intencionaes. 

Adelaide respondeu a ellas, e um dia, cega, arrebatada, perdida, pungido o coração que exhaurira, na anciã de amar, as derradeiras notas do prazer, deixou tudo, tudo... o enleio das suas phantasias virginaes, o ambicionado futuro de uma união santa, o mundo, e a fama e o seio materno, para refugiar-se, transportada, nos braços do genial poeta!

Quem lhe não havia de perdoar o seu erro, o seu crime — se crime foi — redimido por tamanho amor!

cf. Bulhão Pato, Memórias I, 1894


FLORES SEM FRUCTO

Em quanto fui poeta affrontei-me que m'o chamassem; hoje tenho pena e saudade de o não poder já ser. Era uma viciosa vergonha a que eu tinha, porque não ha melhores nem mais nobres almas que as dos poetas: agora o conheço bem, desde que o não sou, e que sinto as picadas das más paixões e dos acres sentimentos da baixeza humana avisarem-me que está commigo a edade da prosa; como ao que teve folgazan e solta mocidade o avisam os primeiros latejos da gotta de que lhe está a velhice a entrar em casa. 

Dieta, regularidade e moderação prolongam a juventude do corpo; mas quando a alma chegou a enrugar-se, não ha hygiene que a desfranza. A minha está velha; e a todos os achaques da velhice, junta essa fatal e matadora saudade do passado. Quanto dera eu por ver e sentir como via e sentia quando pensava pouco e sentia muito! Quem me dera ser o louco, o doido, o poeta que eu tinha vergonha de ser! E de que me serve a reflexão, a experiência, a razão como lhe chamam, senão é para ver de outro modo as illusóes da vida, para as ver do lado feio, torpe, baixo e vulgar, quando eu as via d'antes esmaltadas de todas as cores do íris, bellas de toda a poesia que estava na minha alma, grandes de todas as virtudes que eram no meu coração! 

Ora pois! não sou já poeta: podem-me fazer "almotacé do meu bairro", quando quizerem. Forte semsaborão ganhou a pátria! E custou: que levaram muito tempo e muito trabalho para me despoetizarem  foram precisos annos de rudes luctas, centos de desenganos, milhares de desapontamentos para me fazerem conhecer o mundo tal como elle é, os homens, como elles são. Cheguei emfim a isso, e deixei portanto de ser poeta. O meu horto de flores tam queridas e mimosas, que não davam fructo, mas alimentavam a vida com seus aromas de benéfica e nutriente exhalação, que eram como aquelloutras flores de que disse Camões: 

Contam certos auctores 
Que, junto da clara fonte 
Do Nilo os moradores 
Vivem do cheiro das flores 
Que nascem n'aquelle monte.

o meu horto vou plantal-o de luzerna e betarrabas. E arranquemos estas "flores sem fructo", não as veja algum utilitário que me condemne de relapso, a ir, de carocha e sambenito poético, arder n'algum auto da fé que por ahi celebrem em honra de Adam-Smith ou de João Baptista Say, ou dos outros grandes homens cuja sciencia é como a do Horatio de Shakespeare que não vê "mais coisa nenhuma entre o céu e a terra do que as que sonha a sua philosophia." 

Não as colhi pois, arranquei as, estas pobres flores que aqui enfeixo n'uma triste e última capella para deixar dependurada na minha cruz; e ahi murche e seque ao suão ardente do deserto em que fica, até que me venham enterrar ao pé della, aqui onde eu quero jazer junto das ultimas recordações poéticas da minha vida, dos últimos sonhos que sonhei acordado, e que valem mais do que todas as realidades que depois tenho visto.

E não cuides, amigo leitor, que eu quero dizer n'isto que não fiz senão versos atégora, que não farei senão prosas daqui em deante. Por meus peccados, fiz mais prosas que versos, e ajudei a gastar com ellas a mocidade da minha alma e a frescura do meu coração; baixei de sobejo ao mundo das realidades, quando tinha azas para me remontar ao ideal, e pairar-me pelas regiões onde viçam as eternas floras do génio. Fiz, quando não devia, fiz prosa em annos de versos. Quem sabe se a stulta vaidade que m'o fez fazer então, me não levará também para o diante a fazer versos em annos de prosa?

Não é minha tenção, mas não o juro; que isto de ser poeta é como ser embarcadiço; um dia aperta a vontade, comem os desejos por tal modo que se vae um homem por esses mares fora, e só no meio do temporal se lembra de que já não é para similhantes folias.

Isto porém que nasce espontâneo d'alma, que vem, como ejaculação involuntária de dentro, quando trasborda o coração de jubilo ou de pena ou de admiração; isto que é o falar do homem para Deus n'aquellas phrases incoherentes, inanalysaveis pelas grammaticas humanas, porque são reminiscências da lingua dos anjos que elle soube antes de nascer, isto que se entoa e se canta no coração, antes e muito mais bello do que o repita a lingua, d'esses versos não tornarei eu a fazer, porque não posso, porque era mister que Deus fizesse o milagre de me remoçar a alma: e não o fará.

São pois estas quasi absolutamente as últimas coisas lyricas que, por vontade e auctorisação minha, se publicarão dentre tantissimas que fiz e que, pela maior parte, tenho destruido. Não faltará quem diga talvez que melhor fora que o fizesse a todas. Mas não é essa a opinião nem a vontade das maiorias que consultei. E já se vê que, segundo a moda dos tempos, eu consultei as minhas maiorias, e não fiz caso das outras: ás quaes todavia — e não á moda do tempo — deixo o direito salvo para ralhar livremente e como quizerem.

Já se vê bem assim o porque ponho este titulo de "Flores sem fructo" á pequena collecção de poesias que aqui vae. Nem todas são de primavera estas flores; ha de várias estações: fructo é que nenhuma deu. Deixariam de ser flores poéticas se o dessem.

O nosso Miguel Leitão chamou á sua "Miscelanea", "Ensalada de várias hervas" — e esse príncipe allemão que é tanto moda, e que escreve com tam desgarrada elegância, pôs a uma das suas collecções de rhapsodias criticas o titulo italiano de "Tutti-frutti", que significa o mesmo quasi. E não cuidem que este príncipe que cito com ser príncipe prussiano também, é o aventureiro que aqui andou ha dous annos a rabiscar semsaborias a respeito da nossa terra, mettendo para o sacco toda quanta calumnia e mentira lhe deram os estrangeiros e estrangeirados que nos devoram e detestam, para as espalhar depois pela Europa, afim de que o mundo diga: "Muito favor lhe fazem os oppressores daquelle bruto e estúpido Portugal em o governarem a pontapés e lhe tirarem o último cruzado novo de que elle não sabe usar!"

Bemdita seja a nobre e generosa princeza que tratou o bandoleiro como elle merecia, e que não tolerou deante de si o calumniador de sua família e da nação que a adoptara! Assim fizessem os outros! Não senhor "Semi-lasso", auctor de "Tutti-frutti", é outra casta de principe: talvez o tratassem mal aqui se elle cá viesse. E não me peja de seguir o seu exemplo de longe, escolhendo o titulo que escolhi para esta miscelânea de reminiscências poéticas.

Mas nem somente são de várias estações, são também de várias e mui desvairadas espécies estas flores. Ao pé do acantho da lyra antiga, vae o trevo e o goivo que enramavam o alahude romântico; o nardo, a mangerona e a mesma rosa da Palestina ousaram crescer entre o loto e os myrtos da Attica: e não em jardim simetrico, riscado a régua e compasso como os do século passado, mas de paizagem livre em que se aproveitaram os descuidos e accidentes da natureza e do terreno.

Algumas poucas peças politicas leva esta collecção; e dellas ha que nem eu já entendo bem; tanto mudaram em tam poucos annos, circumstancías e pessoas que a inspiraram. Mas não as podia tirar de um livro em que vae consignada a maior ou melhor parte das minhas sensações poéticas em toda uma época, e essa a mais aventurosa, a mais cheia e mais importante da minha vida.

Novembro 3 — 1843. (1)


(1) Teophilo Braga, Obras completas de Almeida Garrett, Volume I, 1904


Referências externas:  
Obras de Almeida Garrett na Biblioteca Nacional de Portugal  
Obras de Almeida Garrett em archive.org 
Almeida Garrett, Obras Completas, Vol. I (com ilustrações de Joaquim Manuel de Macedo)  
Almeida Garrett, Obras Completas, Vol. II (com ilustrações de Joaquim Manuel de Macedo)

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Os pincéis do Neogarretismo prévio



Internet Archive (referências biográficas):
Domingos Manuel Fernandes, Biographia politico-litteraria..., 1873
Teophilo Braga, Historia do romantismo em Portugal... Garrett, Herculano, Castilho, 1880
Francisco Gomes de Amorim, Garrett, memórias biográficas, Tomo I, 1881
Francisco Gomes de Amorim, Garrett, memórias biográficas, Tomo II, 1884
Francisco Gomes de Amorim, Garrett, memórias biográficas, Tomo III, 1884
Alberto Bessa, Almeida Garrett no Pantheon dos Jeronymos, 1902
Alfredo de Pratt, O divino poeta, 1903
Latino Coelho, Garrett e Castilho, estudos biográficos, 1917

Internet Archive:(bibliografia):
Catão [1821], 2.a ed. 1830
Teophilo Braga, Obras completas de Almeida Garrett, Volume I, 1904
Teophilo Braga, Obras completas de Almeida Garrett, Volume II, 1904
...

Biblioteca Nacional de Portugal:
Bicentenário de Almeida Garrett
Roteiro bio-bibliográfico
Obras em formato digital
A Enciclopédia de Garrett Enciclopedista
Modernidade e Romantismo em Almeida Garrett
Viagens na Minha Terra: caminhos para a leitura de uma "embaraçada meada"
Modos de cooperação interpretativa na leitura escolar do Frei Luís de Sousa
A Question of Timing: Madalena's role as 'uma mulher à beira duma crise de nervos'
Catão em Plymouth
O Camões garrettiano
Um Auto de Gil Vicente and the Tradition of Comedy
Iconografia

Biblioteca Nacional de Portugal (bibliografia):
Hino Patriótico (poema), Porto 1820, folheto impresso [Recuper. por Teófilo Braga, in Garrett e os Dramas Românticos, Porto 1905]
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O Retrato de Vénus (poema), Coimbra Ano I (1821) [Incl.: Ensaio sobre a História da Pintura]
Catão. Tragédia, Lisboa Ano II (1822) [Incl.: O Corcunda por Amor, farsa, co-autoria de Paulo Midosi]
Aos Mortos no Campo da Honra de Madrid. Epicédio, folheto [reprod. do Jornal da Sociedade Literária Patriótica, 2º trim., nº 18 (13 Set.), Lisboa 1822, vol. II, pp. 420-423]
Oração Fúnebre de Manuel Fernandes Tomás, Lisboa 1822, opúsculo [Colig. in Discursos e Poesias Fúnebres [...], Celebradas para Prantear a Dor e Orfandade dos Portugueses, na Morte de Manuel Fernandes Tomás, Lisboa 1823]
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Dona Branca, ou A Conquista do Algarve (poema), Paris 1826
Da Europa e da América e de Sua Mútua Influência na Causa da Civilização e da Liberdade (ensaio político), in O Popular, jornal político, literário e comercial, vol. IV, nº XIX (Mai.), Londres 1826, pp. 25-81
Bosquejo da História da Poesia e da Língua Portuguesa, in Parnaso Lusitano ou Poesias Selectas dos Autores Portugueses Antigos e Modernos, vol. I, Paris 1826 [Incl.: introdução A Quem Ler]
Carta de Guia para Eleitores, em Que se Trata da Opinião Pública, das Qualidades para Deputado e do Modo de as Conhecer (ensaio político), Lisboa 1826, opúsculo Adozinda. Romance (poema), Londres 1828 [Incl.: Bernal Francês]
Lírica de João Mínimo, Londres 1829
Lealdade, ou a Vitória da Terceira (canção), Londres 1829, folheto Da Educação. Livro Primeiro. Educação Doméstica ou Paternal, Londres 1829
Portugal na Balança da Europa. Do Que Tem Sido e do Que Ora Lhe Convém Ser na Nova Ordem de Coisas do Mundo Civilizado (ensaio político), Londres 1830
Elogio Fúnebre de Carlos Infante de Lacerda, Barão de Sabroso, Londres 1830, folheto Carta de M. Cévola, ao futuro editor do primeiro jornal liberal que em português se publicar (panfleto político), Londres 1830 [Pseud.: Múcio Cévola, 2ª ed. transcrita in O Pelourinho, nº V, Angra [1831?, com o título Carta de M. Cévola, oferecida à contemplação da Rainha, a senhora Dona Maria segunnda]
Relatório dos decretos nº 22, 23 e 24 [reorganização da fazenda, administração pública e justiça], Lisboa 1832, folheto [Reprod. in Colecção de Decretos e Regulamentos [...], Lisboa 1836]
Manifesto das Cortes Constituintes à Nação, Lisboa 1837, folheto [Reprod. in Diário do Governo, nº199 (24 de Ag.), Lisboa 1837]
Da Formação da Segunda Câmara das Cortes. Discursos Pronunciados nas Sessões de 9 e 12 de Outubro, Lisboa 1837
Necrologia [do conselheiro Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato], in O Constitucional, nº 272 (13 Dez.), Lisboa 1838 [Relatório ao] Projecto de lei sobre a propriedade literária e artística, in Diário da Câmara dos Deputados, Vol. II, nº 35 (18 Mai.), Lisboa 1839
Discurso do Sr. Deputado pela Terceira, J. B. de Almeida Garrett, na Discussão da Resposta ao Discurso da Coroa, Lisboa 1840 [Discurso dito do Porto Pireu, em resposta a José Estevão] Mérope, tragédia.
Um Auto de Gil Vicente, drama, Lisboa 1841.
Discurso do Sr. Deputado por Lisboa J. B. de Almeida Garrett na Discussão da Lei da Décima , Lisboa 1841, folheto
O Alfageme de Santarém, ou a Espada do Condestável, Lisboa 1842
Elogio Histórico do Sócio Barão da Ribeira de Saborosa, in Memórias do Conservatório Real de Lisboa, Tomo II (8), Lisboa 1843
Memória Histórica do Conselheiro A. M. L. Vieira de Castro, biografia, Lisboa 1843, folheto [Anón., sobre o ministro setembrista António Manuel Lopes Vieira de Castro]
Romanceiro e Cancioneiro Geral, Lisboa 1843 [Incl.: Adozinda (2ª ed.) e outros «romances reconstruídos»]
Miragaia, Lisboa 1844, folheto impresso [de Jornal das Belas Artes] Frei Luís de Sousa, drama, Lisboa 1844 [Incl.: Memória. Ao Conservatório Real, lida na representação do drama no teatro da Quinta do Pinheiro em 4 de Julho 1843]
O conselheiro J. B. de Almeida Garrett [Autobiografia], in Universo Pitoresco, nº 19-21, Lisboa 1844 [Carta sobre a origem da língua portuguesa], ensaio literário, in Opúsculo Acerca da Origem da Língua Portuguesa [...] por dois sócios do Conservatório Real de Lisboa, Lisboa 1844
O Arco de Santana. Crónica portuense, romance, vol. I, Lisboa 1845 [Anón.]
Os Exilados, À Senhora Rossi Caccia, poesia, Lisboa 1845, folheto [Reprod. in Revolução de Setembro, nº 1197 (31 Mar.), Lisboa 1845, p. 2, anónimo e título A Madame Rossi Caccia, cantando no baile de subscrição a favor dos emigrados]
Memória Histórica do Conde de Avilez, biografia, in Revolução de Setembro, nº 1210 (15 Abr.), Lisboa 1845
Flores Sem Fruto (poesia), Lisboa 1845
Da Poesia Popular em Portugal, ensaio literário, in Revista Universal Lisbonense, Tomo V, nº 37 (5 Mar.) – 41 (2 Abr.), Lisboa 1846; [cont. sob título:]
Da Antiga Poesia Portuguesa, in id., Tomo VI, nº 9 (23 Jul.), 13 (20 Ag.), Lisboa 1846
Viagens na Minha Terra, romance, 2 vols., Lisboa 1846
Filipa de Vilhena, comédia, Lisboa 1846 [incl.: Tio Simplício, comédia, e Falar Verdade a Mentir, comédia]
Parecer da Comissão sobre a Unidade Literária, in Revista Universal Lisbonense, nº 16 (10 Set.), Lisboa 1846, vol. VI, sér. II, pp. 188-189 [dito Parecer sobre a Neutralidade Literária, da Associação Protectora da Imprensa Portuguesa, assinado por Rodrigo da Fonseca Magalhães, Visconde de Juromenha, A. Herculano e João Baptista de A. Garrett]
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O Arco de Santana. Crónica Portuense, romance, vol. II, Lisboa 1850
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Folhas Caídas, poesia, Lisboa 1853
Fábulas – Folhas Caídas, poesia, 2ª ed., Lisboa 1853