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segunda-feira, 15 de setembro de 2025

A parada militar de 18 de dezembro de 1815

A Brilhante parada que hontem, por motivo do anniversario da nossa Augusta Soberana, fizerão as Tropas de Linha e Milicias desta Capital, ás quaes se veio reunir a nova Divisão dos Voluntarios Reaes do Principe, commandada em Chefe pelo Tenente General Carlos Frederico Lecor, apresentou ao numeroso concurso dos habitadores desta Cidade que a vêlla se apinhou, hum dos mais pomposos espectaculos pelo aceio e garbo marcial de todos os Corpos. 

Formatura dos Regimentos de Voluntários Reais do Comércio, no Rossio
Nicolas Delerive, 1815
Arquivo Municipal de Lisboa/
MNAA(?)

Entre os de linha se não podia facilmente designar a algum delles a palma da primazia; pois se notava em todos o particular esmero dos seus respectivos Chefes em apresentarem as tropas do seu commando dignas do sempre iliustre nome de Guerreiros Portuguezes. 

Ao vêr estes aguerridos Soldados, desperta vão-se em nossa imaginação as victorias que coroárão de louros os guerreiros Portuguezes no Douro, no Bussaco, em Albuera, em Ciudad-Rodrigo, em Badajoz, em Arapiles, em Victoria, nos Pyrenéos, em S. Sebastião, no Nivelle, Nive, e Adour, em Orthez, e nas margens do Ers e Garona, em toda a parte em fim onde na ultima gloriosa luta lhes foi preciso combater, devendo-lhes em grande parte Portugal a independencia, a Hespanha a liberdade, a França o paternal Governo dos Bourbons, a Inglaterra e o seu Grande Wellington trofeos e gloria immortal pela invencivel força com que, unidos os Portuguezes e Bretões debaixo do commando de Arthur, contrastáráo intrepidos os bellicosos Exercitos e os mais habeis Generaes do inimigo commum da Europa.

Entrárão pois successivamente as Tropas de Linha e Milicias na espaçosa Praça do Terreiro do Paço, e ruas immediatas, depois das 11 horas, e ficou reservada a Praça do Rocio para os quatro Batalhões de Caçadores, que formão as duas Brigadas do Corpo de Voluntarios Reaes do Principe, que perto do meio-dia entrarão e se formárão na dita Praça, attrahindo particular attenção dos espectadores a firmeza, continencia marcial, e alto grao de disciplina a que este Corpo tem sido elevado pelo seu illustre Commandante em Chefe, e pelos Brigadeiros Avellez, e Pizarro, que vinhão á frente das suas respectivas Brigadas.

Chegou pouco depois á Praça do Rocio o Illustrissimo e Excellentissimo Tenente General Francisco de Paula Leite, Governador das Armas desta Capital e Provincia, e cumprimentado o Illustrissimo e Excellentissimo Tenente General Lecor, feitas as continencias pela tropa, e passada revista aos quatro Batalhões, se encaminhárão ambos os Generaes ao Terreiro do Paço, d'onde voltárão a postar-se, com os seus luzidos Estados Maiores, (unindo-se-lhes o Illustrissimo e Excellentissimo Tenente General, d'Artilleria, José Antonio da Rosa), junto do Portão do Palacio do Governo. 

– Tinha dado o Castello de S. Jorge e as Fortalezas a costumada salva ao meio-dia; e á huma hora em ponto começarão no Terreiro do Paço as tropas as descargas, principiando cada huma das tres pelos Parques de Artilheria, seguida immediatamente em toda a linha da Infanteria.

Acabadas as descargas passarão os Generaes Leite e Lecor ao meio da Praça, onde o primeiro entoou por tres vezes o Viva á nossa Augusta Soberana " a que em toda a linha as tropas e o povo correspondêrão com enthusiasmo; acção que depois repetio o General Lecor, com as mesmas circumstancias. 

Passou depois o Governador das Armas, ao lugar que anteriormente occupava, e principia rão as tropas a desfilar pela sua frente na ordem seguinte: Rompião a marcha dois Esquadrões de Cavallaria dos Regimentos N.º 1 e 4, e após elles a Cavallaria dos Voluntarios Reaes do Commercio; vinha depois hum Parque de Artilheria Montada, do Regimento de Artilheria N.° 1, de 3 peças e 1 obuz; e,  formados em columna, começárão então a marchar os Voluntarios Reaes do Principe a cuja frente se pozera o seu Commandante em Chefe, que, conduzindo a Divisão até principiar a desfilar pela frente do Governador das Armas, passou a tomar lugar ao lado deste, (ao qual estava tambem unido o Tenente General Rosa), o que igualmente forão fazendo os dois Commandantes das Brigadas desta Divisão. 

– Marchárão em seguimento della os dois Batalhões de Artilheiros Nacionaes Oriental e Occidental, e atraz delles hum Parque de 5 peças e 1 obuz, do sobredito Regimento de Artilheria N.° 1. 

– Forão avançando immediatamente a Brigada de Infanteria N.° 1 e 16, outro Parque de 3 peças e hum obuz, e a Brigada N.° 4 e 13, o Regimento da Guarda Real da Policia, e o ultimo Parque de Artilheria Montada de 5 peças e 1 obuz.

– Desfilárão consecutivamente os dois Regimentos de Milicias Oriental e Occidental, o de Infanteria do Commercio, e fechárão a marcha os dois Batalhões de Atiradores Oriental e Occidental, finda a passagem dos quaes se retirárão o Governador das Armas, e os Tenentes Generaes Lecor e Rosa, ficando o innumeravel concurso regosiado de vêr este esplendido apparato militar, que no seio da doce paz se não mistura com funestas recordações. (1)


(1) Gazeta de Lisboa, 19 de dezembro de 1815

O mesmo quadro foi referenciado em 1947, por ocasião das Comemorações do VIII centenário da tomada de Lisboa, com o número 438, "Junot passando revista às tropas no Rossio", no "Catálogo da exposição de documentos e obras de arte relativos à história de Lisboa, MNAA".

Junot passando revista às tropas no Rossio, anónimo.
Pertence ao Ex.mo Senhor Eduardo Mendia.
Catálogo da exposição de documentos e obras de arte relativos à história de Lisboa, MNAA, 1947


Informação relacionada:
Nicolas Delerive (1755-1818)
Para defender a Vossa Alteza!

Mais informação (cf. Os voluntário reais, O jovem marquês de Fronteira e o desfile...):

Numa das memórias mais conhecidas referentes a este momento histórico, D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto, 7.º marquês de Fronteira (1802-1881), relembra em 1861 as emoções invocadas pelo desfile de 18 de dezembro de 1815, 46 anos antes, com que a Divisão de Voluntários Reais se despedia de Lisboa, e a que assistiu com a tenra idade de 13 anos. 

Carlos Frederico Lecor, comandante da Divisão destinada ao Brasil, havia sido não só o ajudante de ordens do Marquez de Alorna, entre 1805 e 1808, mas era um amigo devotado da família e da inteira confiança de D. Leonor, a 4.ª marquesa de Alorna, especialmente durante o seu exílio em Londres, por ordem da Regência.

ooOoo

«A Divisão de Voluntários de El-Rei, antes de embarcar para o Brazil, formou em grande parada na praça do Rocio, debaixo do commando do seu General em chefe, [Carlos Frederico] Lecor. Os Governadores do Reino assistiram à parada na varanda do palacio da Regencia. A Divisão era o corpo mais brilhante que tem sahido das fileiras do Exercito portuguez. Tanto os officiaes, como os soldados, eram jovens, mas aguerridos, tendo feito todas ou parte das campanhas da Guerra Peninsular. O uniforme era dos mais elegantes que havia nos exercitos da Europa: o antigo uniforme dos nossos caçadores, que tinha reputação de elegância, entre os entendedores.

O General Lecor era o typo dum verdadeiro soldado e seguia-o um brilhante Estado Maior.

As duas Brigadas de Caçadores eram commandadas por dois jovens Generaes que fizeram a Campanha Peninsular com grande distincção, os Brigadeiros [Jorge de] Avillez [Zuzarte Ferreira de Sousa] e [Francisco Homem de Magalhães Quevedo] Pizarro.


Minha avó [D. Leonor de Almeida Portugal, 4.ª marquesa de Alorna (1750-1839)] estava comnosco, nas minhas casas do Rocio, onde foi visitada pelo antigo Ajudante de campo de seu irmão, General Lecor, accompanhado de muitos officiaes que tinham servido com meu tio, entre elles o General [Francisco de Paula] Azeredo [Teixeira de Carvalho] que ha pouco morreu. Tristes recordações seriam as de minha Avó, ao despedir-se d’aquelles officiaes, lembrando-se de que, poucos annos antes, os tinha visto naquella mesma praça, fazendo parte da Divisão de Alorna, do commando de seu irmão e meu tio, o Marquez de Alorna.

Foi a ultima vez que vimos o General Lecor.

A partida para o Brazil d’esta bella Divisão produziu no publico um triste effeito. Antes d’isto, havia partido um quadro consideravel de officiaes debaixo das ordens do Coronel de cavallaria, Visconde de Barbacena, indo nelle meu cunhado D. Gastão da Camara, hoje Conde da Taipa.

A Divisão de Voluntários de El-Rei levava um numero consideravel de officiaes distinctos e pretencentes à primeira sociedade do paiz. O Coronel João Carlos de Saldanha, hoje Duque de Saldanha, fazia parte do Estado Maior do General.

O povo, impressionado pelas repetidas requisições de gente e de dinheiro para o Brazil, principiou a murmurar seriamente e a agitar-se.» (*)


(*) Memórias do Marquês de Fronteira e Alorna D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto... Coimbra, Imprensa da Universidade, 1926, pp. 152-153 (cf. Os voluntário reais, O jovem marquês de Fronteira e o desfile...)

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Sopa de Arroios por Henri l`Évêque

Na epocha em que foi erigido o padrão (ou cruzeiro de Arroios) era o sitio um arrabalde de Lisboa, que tirava o nome, segundo referem alguns auclores antigos, de umas hervas que alli cresciam em abundancia, a que chamavam arroyos, e das quaes falia o auctor da Luz da Medicina como planta medicinal. Com o andar dos tempos foi crescendo a cidade por fóra da sua velha cêrca de muros, até abranger dentro em si aquelle sitio, que se povoou de casaria; e cujo nome ficou ao largo acima referido, á rua que n'elle termina, lendo começado no terreiro de Santa Barbara, e á calçada, que vae d'aquelle largo até ás barreiras do Arco do Cego.

À l'approche de l'armée de Masséna sur Lisbonne, les habitants des provinces quittent leur maison pour se réfugier, escortés des anglais dans la capitale, 1810,
Henri l'Évêque
MutualArt

Do mesmo largo d'Arroyos parte a estrada de Sacavém, que conduz ao norte da Estremadura do reino. E celebre o largo d'Arroyos na historia moderna de Lisboa pelas scenas populares de que foi theatro, por occasião da invasão franceza em 1810. (1)

No anno de 1837 o município de Lisboa no douvavel intuito de desobstruir a capital de tudo que a pejasse, embaraçando o transito, mandou desfazer este monumento, que era um specimen bastante valioso da esculptura porlugueza no primeiro quartel ou metade do século XVI. Por este critério, os futuros munícipes de Lisboa mandarão talvez remover, senão todos, a maior parle dos monumentos, que adornam as nossas praças. Felizmente, o vandalismo não chegou a ponto de destruir o padrão de Arroyos, limitando-se a mandal-o remover para a visinha parochial de S. Jorge, onde se póde contemplar actualmenle.

Sopa de Arroios, população portuguesa deslocada durante a Guerra Peninsular em 1810,
des. Domingos António de Sequeira,  grav. Gregório Francisco de Queiroz, 1813.
Biblioteca Nacional de Portugal

O Largo de Arroyos foi o scenario de um d’esses episodios lancinantes que o illustre pintor Sequeira perpetuou com o seu lápis e que um discípulo de Bartolozzi, o nosso compatriota Gregorio Fernandes de Queiroz, reproduziu n’uma bella e grande gravura que é hoje muito apreciada. Ahi se vê o padrão de Arroyos, lai qual elle era, com o seu competenle resguardo. (2)


(1) Ignacio de Vilhena Barbosa, Monumentos de Portugal... Lisboa, Castro Irmão, 1886
(2) Boletim de architectura e de archeologia da Real Associação dos Architectos Civis e Archéologos Portuguezes, 1876

Ligações adicionais:
Campaigns of the British Army
Costume of Portugal
Henri l'Evêque, c. 1814
Henri l'Evêque, c. 1814

Artigos relacionados:
Henri l`Évêque, Cacilhas no início da década de 1800 (I de II)
Henri l`Évêque, Cacilhas no início da década de 1800 (II de II)
Henri l’Évêque, artista viajante, primeiras impressões
Henri l'Évêque (1769-1832)

Mais informação:
A freguesia de São Jorge de Arroios da cidade de Lisboa, por Pedro Garcia Anacleto
A Travessa das Freiras da "Sopa de Arroios"
Travessa das freiras a Arroios
O largo de Arroyos e a sua sopa
Museu de Lisboa: Luís Gonzaga Pereira (1796-1868), Igreja de N. Senhora da Conceição em Arroios
Museu de Lisboa: Luís Gonzaga Pereira (1796-1868), Bica de Arroios
Museu de Lisboa: Luís Gonzaga Pereira (1796-1868), Pallacio do Conde de S. Miguel em Arroios

domingo, 1 de novembro de 2020

George Landmann em Portugal (1808-1810)

Tendo ingressado em 16 de Abril de 1793, como cadete, na Royal Military Academy (Londres), instituição onde o seu pai, Isaac Landmann (1741-1826?), era professor de artilharia e fortificação, George Thomas Landmann embarcou para Portugal em Maio de 1808, quando havia já sido promovido a capitão dos Royal Engineers (1 de Julho de 1806), integrado nas forças do General Spencer (1760-1828), que vinham juntar-se às tropas de Sir Arthur Wellesley (1769-1852), futuro duque de Wellington [...]

Lt. Colonel George Thomas Landmann (1779–1854).
Greenwich Industrial History

Em Portugal, Landmann não só supervisionou com competência obras de engenharia militar — nomeadamente a construção de duas pontes de barcas e uma ponte provisória, respectivamente em Abrantes, Punhete, hoje Constância, e Vila Velha de Rodão, em Dezembro de 1808 —, fez reconhecimentos, inspecções, e elaborou relatórios, como comandou o pequeno corpo dos Royal Engineers durante as batalhas da Roliça e do Vimeiro, de que deixou detalhado registo, como já atrás dissemos, na segunda parte das suas memórias, que ficariam incompletas [...]

Em 1809 Landmann deixou Portugal e passou a Espanha, onde os seus bons serviços foram reconhecidos e lhe valeram comissões no exército espanhol. 

Em Dezembro de 1810, após uma estada de alguns meses em Inglaterra por motivo de doença, foi nomeado agente militar na Península e regressou uma vez mais a Lisboa, para entregar despachos a Wellington no Cartaxo. 

Seguidamente dirigiu-se para Espanha, onde viria a ser ferido em combate no dia 7 de Janeiro de 1811. Em Março do ano seguinte, muito debilitado, retornou a Inglaterra, na companhia do embaixador espanhol, para não mais voltar à Península Ibérica. (1)

É só no segundo volume de Recollections of My Military Life que encontramos o relato do que Landmann viu e sentiu em Portugal ao tempo da invasão deste país pelas tropas de Junot, pois o primeiro diz respeito ao período entre 1806 e 1808, quando o autor esteve colocado em Gibraltar. 

De notar que o estilo de narrativa adoptado poucos anos antes em Adventures and Recollections, e que fora muito bem acolhido pelo público — vivo, bem-humorado, rico em episódios acontecidos com figuras gradas do meio militar e da aristocracia ingleses, aos quais Landmann tinha acesso graças às suas origens e profissão —, se mantém, e constituiu, aliás, uma das principais razões do êxito da obra, como podemos concluir da leitura de excertos de recensões críticas favoráveis vindas a lume na imprensa periódica britânica e reproduzidos pela editora Hurst and Blackett em anúncios publicitários que inseriu noutros títulos que deu posteriormente à estampa [...]

Seguindo uma organização cronológica, Landmann oferece-nos uma narrativa que, embora centrada na vivência pessoal do memorialista, se alarga a um colectivo — o exército britânico em campanha em Portugal —, fornecendo-nos o retrato de um eu compartilhado, por assim dizer [...]

Ao contrário de muitas narrativas sobre a Guerra Peninsular escritas por compatriotas seus, não encontramos, na de Landmann, longas tiradas sobre as atrocidades cometidas pelo inimigo napoleónico. Recollections of My Military Life fala-nos, essencialmente, do oficialato inglês a que o autor pertencia, e representa, nessa medida, um contributo para o reconstituir da história geral do quotidiano do exército britânico em Portugal ao tempo da primeira invasão francesa. 

Ao registar pela escrita, para além de cenas que tocaram a sua sensibilidade, os grandes momentos vividos, especialmente os rememorados com particular satisfação pessoal — o facto de Arthur Wellesley ter seguido as suas sugestões quanto à estratégia a adoptar para atacar as forças francesas na Roliça, o sabor das vitórias alcançadas sobre o inimigo, o reconhecimento do valor dos mapas que desenhou, o jantar com o futuro duque de Wellington em Santo António do Tojal, a participação num grandioso pequeno-almoço público oferecido por Junot em Lisboa em Setembro de 1808 —, George Landmann procura também, claro está, autopromover-se, subtrair-se ao esquecimento e inscrever o seu nome nesse período crucial da história da Europa. (2)


(1) Maria Zulmira Castanheira, A primeira campanha do exército britânico em Portugal ao tempo da Guerra Peninsular, recordada pelo militar inglês George Thomas Landmann... Revista de estudos anglo-portugueses n.° 18, 2009
(2) Idem

George Landmann:
Historical, military and picturesque observations on Portugal v. 1, 1818
Historical, military and picturesque observations on Portugal v. 2, 1818
Recollections of My Military Life v. 2. 1854

RTP Arquivo:
Destaque para a obra do General e engenheiro britânico que esteve em Portugal na altura da Guerra Peninsular no século XIX...

Leitura relacionada:
Guerra Peninsular – 200 anos
A guerra peninsular : perspectivas multidisciplinares ; Congresso Internacional e Interdisciplinar Evocativo da Guerra Peninsular, integrando o XVII Colóquio de História Militar nos 200 Anos das Invasões Napoleónicas em Portugal, Actas

Revista de estudos anglo-portugueses:
Arquivo

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Henri l`Évêque, Lisboa e panorâmica do Tejo na década de 1800

Como se transformou um pintor retratista de miniaturas e paisagista num repórter de actualidades aproximando-se da arte da gravura? A metamorfose vocacional de L'Évèque registada no seu período de estadia em Portugal deriva das oportunidades que encontrou no pais.

Vista de Lisboa e panorâmica do Tejo na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Aqui encontraria radicados dois gravadores de craveira internacional, o veterano figurista Francesco Bartolozzi, em Lisboa desde 1802, e o paisagista Benjamin Comte, contratado em Londres em 1804 pelo governo português. 

Vista de Lisboa e panorâmica do Tejo na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

A chegada de L'Evéque terá acontecido seguramente antes da partida da corte para o Brasil que documentada visualmente.

Vista de Lisboa e panorâmica do Tejo na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Sem que tenhamos elementos que liguem directamente os dois mestres gravadores às suas expectativas nessa viagem a Portugal, do seu encontro em Lisboa resultariam parcerias frutuosas encontrando neste convivia o necessário complemento ao seu desenho fácil.

Vista de Lisboa e panorâmica do Tejo na década de 1800 (detalhe) por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Em termos cronológicos as primeiras obras nacionais são em concordância realizadas em colaboração com Bartolozzi e Comte. Com o primeiro assinaria a referida partida do Principe Regente para o Brasil — e mais tarde a retirada de Junot depois do fracasso da primeira invasão francesa — debutando nas imagens de actualidade.

Vista de Lisboa e panorâmica do Tejo na década de 1800 por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Com o segundo, note-se também de origem suíça, a colaboração convergiu inicialmente para um par de vistas (mosteiro da Batalha e aqueduto das Águas Livres), em que se conjugam três aspectos: o desenho topográfico que recria as arquitecturas dos monumentos e as contextualiza; a moldura naturalista que concede à imagem o cunho paisagista e, finalmente, a omnipresença de figurantes espalhados pela composição, bem caracterizados social e etnograficamente pelos seus trajes e atitudes. 


Vista do Convento da Batalha, Henri l'Évêque, 1812.
Biblioteca Nacional de Portugal

Em síntese, o rigor da topografia e do estudo dos costumes associado ao pitoresco da paisagem define o essencial desta parceria.

A receita seguia as preferências do público britânico não só pela lugar central dado ao património arquitectónico, mas igualmente pelo uso do paisagismo como cenário e não como tema dominante, ainda equilibrado com a repetida presença humana.

As duas referidas vistas, seriam respectivamente dedicadas a dois chefes militares britânicos: John Earl, com uma extensa legenda explicativa em inglês sobre a construção do aqueduto, e a Wellington.

Lisboa Aqueduto Rabicha Henri l Eveque 1809.
Cabral Moncada Leilões

A primeira impressa em Lisboa e a segunda já pelos habituais Colnaghi & Ca em Londres mudança que nos anuncia o processo de transição em curso nas prioridades comerciais estabelecidas pelo genebrino. Se por um momento parece haver alguma expectativa na procura nacional, com a saída da corte em finais de 1807 a atenção de L'Évéque concentrar-se-ia no mercado inglês. 

A frase inscrita na correspondência com António de Araújo e Azevedo, então já no Rio de Janeiro, ilustra convenientemente a nova situação: "(...) Car que faire ici les artistas et les arts y pleurent depuis que S.n Ex.ce n'y est plus".

Embarque do principe regente de Portugal com toda a Familia Real em 27 de novembro às 11 horas da manhã [1807],
des. Henri L' Évêque (1769-1832), grav. Francesco Bartolozzi (1728-1815).
Biblioteca Nacional de Portugal

O conhecimento que Comte e, sobretudo, Bartolozzi possuiam sobre a organização do mercado da gravura e da edição ilustrada londrinas pode ter sido a ponte identificada por L'Évéque para esse mercado em expansão. (1) aqui


(1) Miguel de Faria, Henry L'Eveque e outros reporteres, III. Dados biográficos, 2015

Bibliografia:
Agostinho Araújo, Experiência da natureza e sensibilidade pré-romântica em Portugal : temas de pintura e seu consumo : 1780-1825, 1991
Agostinho Araújo, Foteini Vlachou, Miguel Figueira de Faria, Henri L’Évêque: artista viajante (1769-1832), Lisboa, Scribe, 2018

Leitura relacionada:
Campaigns of the British Army
Costume of Portugal
Henri l'Evêque, c. 1814
Henri l'Evêque, c. 1814

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Henri l`Évêque, Cacilhas no início da década de 1800 (I de II)
Henri l`Évêque, Cacilhas no início da década de 1800 (II de II)
Nicolas Delerive (1755-1818)
Alexandre-Jean Noël (1752-1834), no Museu de Artes Decorativas de Lisboa
O Tejo de Jean-Baptiste Pillement
etc.

sábado, 2 de novembro de 2019

Henri l’Évêque, artista viajante, primeiras impressões

Chegou-nos ontem pelo correio. Papel de qualidade, cor correcta, bem encadernado. Folheamos-lo, observando as imagens, lendo o título dos capítulos. Fizemos-lo novamente do fim para o princípio lendo algumas legendas e parágrafos. Lemos as primeiras, diremos, quinze páginas. No dia seguinte escrevemos este apontamento.

Henri l’Évêque: artista viajante (1769-1832), detalhe da cobertura.
Scribe

Agostinho Araújo, Foteini Vlachou, Miguel Figueira de Faria,
Henri L’Évêque: artista viajante (1769-1832),
Lisboa, Scribe, 2018


São três os autores e é notório o conhecimento de causa de cada um deles. Um dos autores introduz, contextualiza, descreve e referência em vários capítulos (Miguel Figueira de Faria). Parte importante do livro está escrito em inglês (Foteini Vlachou), outra são um conjunto de apontamentos, que referenciam um contexto temporal alargado (Agostinho Araújo). Aqui fica um avant-goût alargado: Miguel de Faria, Henri l'Eveque e outros repórteres, 2015

Nas primeiras impressões, posicionamos Henri l’Évêque e a sua obra em Portugal e no estrangeiro, no contexto do pré-romantismo, relacionando-o com outras partes e actores, Pillement, Noël, Delerive etc.

Aguardamos a ocasião para ler a totalidade de Henri l’Évêque, artista viajante. A próxima vez, muito em breve, que olharmos um desenho, aguarela, gravura, água-tinta, será com mais detalhe e entendimento. Nesta breve passagem, conhecemos variantes daquilo que pensávamos único no trabalho de L'Évêque e da sua originalidade, em relação Delerive, por exemplo.

The reflector, Henri l'Évêque e O acendedor de lampiões, Nicolas Delerive.
Bayerische Staatsbibliothek e Arquivo Municipal de Lisboa

Anotado, bem anotado, irrepreensível. Quanto à apresentação seria da nossa preferência as notas à l'ancienne, en bas de page. 

Diremos que faltou analisar e referenciar duas obras maiores de Henri l’Évêque, cremos que pelo desconhecimento dos autores da sua existência. São obras maiores em expressão e dimensão. Tratam-se de duas vistas panorâmicas, verdadeiras raridades iconográficas praticamente inéditas.

A primeira, que descreveríamos como "Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 por Henri l`Évêque", foi apresentada ao público na exposição integrada nas Festas da Cidade de Lisboa de junho de 1978 e é referenciada, sem reprodução de imagem, no catálogo de 1979 dessa exposição, O povo de Lisboa", tipos, modos de vida, ambiente, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade, da autoria de Irisalva Moita, então conservadora-chefe dos Museus Municipais de Lisboa.  

Foi a recente publicação do professor Alexandre Flores, A via fluvial do Tejo entre Almada e Lisboa na Idade Média — vicissitudes da falta de segurança no transporte marítimo dos animais de carga de mercadorias, dos almocreves, mercadores e outros..., na qual a aguarela é parcialmente reproduzida, que nos chamou a atenção para a sua existência, e para a exposição de grata memória.

Vista da praia de Cacilhas e panorâmica de Lisboa na década de 1800 por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

A imagem da Praia de Cacilhas, que em breve tentaremos detalhar num apontamento dedicado, apresenta diversos elementos, nomeadamente costumes, que L'Évêque retomará noutros trabalhos.

A segunda imagem,"Vista de Lisboa e panorâmica do Tejo na década de 1800 por Henri l`Évêque", descobrimo-la no processo de procura da primeira. Mostra a frente nascente de Lisboa compreendida entre Santos-o-Velho e Ajuda antes do início da construção do palácio.

Vista de Lisboa e panorâmica do Tejo na década de 1800 por Henri l`Évêque.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Ambas as aguarelas são propriedade da Administração do Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra que o Centro de Documentação dessa instituição por cortesia nos cedeu em cópia digital.

Concluimos, esperando um dia saber o que pensam os autores do livro aqui trazido sobre estas duas panorâmicas e a sua integração na obra de Henri l’Évêque, de preferência com outros novos elementos que possam entretanto aparecer.


Leitura relacionada:
Campaigns of the British Army
Costume of Portugal
Henri l'Evêque, c. 1814
Henri l'Evêque, c. 1814

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Alexandre-Jean Noël (1752-1834), no Museu de Artes Decorativas de Lisboa
O Tejo de Jean-Baptiste Pillement
etc.

sábado, 27 de abril de 2019

Vista de Lisboa, 2 de setembro de 1808

Excelentíssimo Senhor:

Enquanto General do Exército do Sul, postado na margem do Tejo, e enquanto membro da Regência estabelecida pelo Príncipe Regente de Portugal, meu Senhor, para dirigir e sustentar os direitos da nação, em nome do dito Senhor requeiro a Vossa Excelência, em consequência da eterna aliança que durante tantos anos reinou entre as duas nações, que se possam embargar todas as embarcações utilizadas para levar as tropas francesas, tendo em conta os seus roubos e atrocidades, até que Sua Majestade Britânica ou Sua Alteza Real resolvam o que é melhor para a glória e interesses das duas nações, obrigando que Comissários portugueses e ingleses façam um inventário rigoroso das bagagens dos franceses, que não podem levar consigo as riquezas que se apropriaram, o que muito receamos devido à maldade destes opressores da humanidade.

A View of Lisbon and the Harbour.
With the entrance of the British fleet, on the 2 September 1808... to Admiral Sir Charles Cotton...
Anna Sophia Wagner.
British Museum

Fico convencido de que Vossa Excelência terá em conta esta requisição, que é de tal natureza que não pode admitir qualquer recusa, tanto pela sua justiça como pelo carácter generoso dum Ministro inglês, cuja posição Vossa Excelência sustenta tão gloriosamente.

The Embarcation of Gen. Junot after the convention of Cintra at Quai Sodre.
Biblioteca Nacional de Portugal

Tenho a honra de declarar a Vossa Excelência os sentimentos do maior respeito e veneração. Deus guarde Vossa Excelência,

The Convention of Cintra, a Portuguese Gambol for the amusement of John Bull, John Woodward, 1809.
Biblioteca Nacional de Portugal

Conde Monteiro Mor (1)


(1) Carta do Conde Monteiro Mor ao Almirante Charles Cotton (9 de Setembro de 1808)

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Chegada a Lisboa de Arthur Wellesley em 22 de março de 1809

O General Arthur Wellesley, futuro Duque de Wellington, chega a Lisboa para assumir o comando das forças portuguesas e inglesas Durante a Guerra Peninsular o tenente-general Sir Arthur Wellesley, será o responsável pelo comando das forças aliadas que combateram o invasor francês.

Wellington landing in 1809 at Lisbon to take command in the Peninsular War.
Royal Museums Greenwich

Foi promovido ao posto de marechal de campo após a vitória sobre o exército francês na batalha de Vitória, em 1813, onde liderou um exército composto por ingleses, portugueses e espanhóis, tendo contribuído decisivamente para o fim da Guerra Peninsular. (1)


(1) Parques de Sintra

Leitura relacionada:
C. W. C. Oman, Wellington's army, 1809-1814, London, Edward Arnold, 1913

Tema:
Guerra Peninsular

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

História do Marechal Saldanha (1790-1876): na Guerra Peninsular

No dia 27 de novembro de 1807, decorridos três mezes depois de João Carlos de Saldanha ter sido despachado capitão effectivo, o príncipe regente, acompanhado da família real e de parte da corte, saia a barra de Lisboa, fugindo aos francezes commandados por Junot, deixava em seu logar uma regência, e recommendava à nação que recebesse o exercito invasor como verdadeiro amigo, amigo porém ao qual sua alteza fazia as honras da pátria, abandonando-a para o não ver. 

Departure of H.R.H. the Prince Regent of Portugal for the Brazils, Henry L Evêque, F. Bartollozzi.
(Campaigns of the British Army in Portugal, London, 1812)
Imagem: Wikipédia

O reinante fugido, a nobreza dispersa, o commercio paralysado, exhausto o erário, a esquadra singrando para os mares americanos e deixando na orphandade o Tejo em perigo, a invasão irrompendo, com duas calamidades, a amisade fingida e a assolação desrebuçada: eis o quadro lastimoso. 

Henri L'Évêque, Vista do Convento de Sto Jerónimo de Belém e da Barra de Lisboa.
Imagem: ComJeitoeArte

Em tão densas trevas só uma luz entreluzia esmorecida ás vistas geraes, mas concentrando em si toda a força do brilho que na propicia occasião lançaria em jorros: era o povo [...]

oooOooo

Acabámos de ver o moço João Carlos demittido, em 1807, a pedido seu, e aguardando o ensejo de tudo sacrificar pela salvaçao da pátria.

Meses depois, quando, meiado anno de 1808, se levanta a nação, corre logo às armas João Carlos, sendo reintegrado por decreto de 30 de setembro no posto de capitão, encorporando-se, com o bravo regimento 1 , na divisão do general Bernardim Freire de Andrade.

Marcha para o campo da batalha em julho de 1809, commandando a oitava companhia do seu regimento [...]

Decorrem cinco mezes. Fora chamado a Thomar, temporariamente, para ajudante de campo do brigadeiro Miranda Henriques, depois visconde de Souzel. 

 Tomar.
Views in Spain and Portugal taking during the campaigns..., George Cumberland
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Beresford, nomeado commandante em chefe do exercito portuguez, acabava de o organisar, estatuindo que a táctica ingleza fosse applicada á nossa tropa. Que era difficil a transformação pratica, sem tempo sufficiente, salta á vista menos perspicaz. 

O capitão João Carlos de Saldanha lançou-se a estudar, praticamente, por acto espontâneo e com todo o ardor, os exercidos de brigada conforme a táctica novíssima, e quando Beresford, chegando a Thomar, passa revista á divisão do general Blunt, este general apresenta a Beresford o capitão João Carlos, "como o único official já completamente habilitado para commandar pela táctica referida", como o provou, commandando ali um regimento. 

Beresford, enthusiasmado, promove a major por distincção militar, em 2 de dezembro de 1809, o moço João Carlos, com dezenove annos de idade, preteridos por aquelle comportamento especial de Saldanha quasi todos os Capitães do exercito, e manda-o desde logo encorporar no seu regimento 1, "por querer nas fileiras o major mais distincto do reino" [...]

Desenrola-se a monumental campanha peninsular.

Succede-se brilhantemente a serie das batalhas que foram assombro do mundo.

Na celebre batalha do Bussaco (27 de setembro de 1810) vê-se o major João Carlos de Saldanha, no meio de um fogo infernal reunir as duas companhias de granadeiros dos regimentos 1 e 16, e no sitio fronteiro ao quartel general de Wellington, á frente do novo e por elle improvisado batalhão, repellir denodadamente o inimigo.

A view of the sierra de Bussaco at St. António de Cantaro, 27 Sep. 1810.
A series of views of the Principal Occurrences..., Major St. Clair.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O comportamento do batalhão mereceu o titulo de bizarro, e o joven Saldanha tomava-se, por aquelles brilhantes feitos, digno de elogios especiaes.

The Battle of Bussaco.
Campaigns of the British Army, Henry l'Evêque.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

De 7 a 19 de janeiro de 1812 tomava parte com o seu regimento 1 no assedio e assalto de Giudad-Rodrigo, que ficaram immortaes. 

A brigada de Pack (de que o regimento 1 de Saldanha era o primeiro corpo de infanteria), uma das destinadas ao assalto, convertendo espontaneamente o ataque simulado n'um ataque verdadeiro, e no impeto fazendo prisioneiros a quantos se lhe oppunham, comportou-se de tal modo, que lord Wellington declarava officialmente no dia seguinte haver mesmo excedido as suas esperanças; e entre os regimentos que especialmente se distingiuram recommendava o regimento 1. 

A distant view of Ciudad Rodrigo.
A series of views of the Principal Occurrences..., Major St. Clair.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Na batalha dos Arapiles (Salamanca) a 22 de julho o seu regimento na brigada de Pack foi um dos que investiram aquelles montes, conseguindo arrojadamente apoderar-se da altura, e pelejando as tronas quasi braço a braço. 

The Battle of Salamanca.
Campaigns of the British Army, Henry l'Evêque.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Com a distincção costumada combateu na acção do Carrião a 23 de outubro, na dereza da passagem do [rio] Thormes de 8 a 14 de novembro, no combate de S. Munhoz a 27. 

Salamanca [passagem sobre o rio Tormes].
Sketches of the Country, character, and Costume William Beckford, 1808-1809.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Em setembro d'esse anno fora promovido a tenente coronel, preteridos vinte e três majores, e entre elles majores inglezes, como também por distincção havia sido promovido a major, preterida a maior parte dos capitães [...]

Principiava a campanha de 1813. Os francezes tinham sido arremessados para fora de Portugal pelo exercito alliado, e os nossos perseguiam o inimigo por Hespanha. A brigada de Pack (infanteria 1, a que Saldanha pertencia, 16, e caçadores 4) formava a vanguarda da esquerda do exercito.

Na brilhante batalha de Victoria (21 de junho de 1813) Saldanha esteve sempre no fogo desde o meio dia até á noite [...]

The Battle of Victoria.Campaigns of the British Army, Henry l'Evêque.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Esta a immortal batalha de Victoria a 21.

D'ali a três dias a mesma brigada foi mandada tomar uma posição no caminho para Villa Franca, e tomou-a valorosamente.

Não relata Saldanha o nome da povoação. Era a aldeia de Veasayn. O general Graham participava que o ataque e a tomada de Veasayn se tinham executado da maneira mais brilhante. 

O inimigo fora expulso arrojadamente, evacuando em seguida Villa Franca, ponto de que a nossa gente se queria apossar e que logo occupou.

Villa Franca.
Sketches of the Country, character, and Costume William Beckford, 1808-1809.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Succediam-se os combates sem interrupção: o inimigo perdendo e recuando, os nossos vencendo e arremessando-os.

No dia 25 os francezes, firmando pè, esperam o nosso exercito, a distancia de uma légua antes de Tolosa. 

Deu-se a batalha. "É tal a natureza do terreno (escreve João Carlos textualmeníe), que só vendo se é que se pôde conceber; a quasi todos pareceu impossível poder desalojar d'ali o inimigo, mas o bravo sir Thomás Graham dispoz logo a batalha. 

"A minha brigada" e a de Bradford "atacaram de frente". Ás seis Horas da tarde os francezes começaram a ceder e a retirar-se para Tolosa. 

"Tolosa é murada, e os francezes tinham fechado as portas e barricado as ruas, porém o nosso segundo Wellington, que nao acha difficuldades, mandou avançar a artilheria, e com ella arrombou as portas.

Entrámos em Tolosa à noite. Hontem e hoje fizemos alto, e com effeito se este trabalho durasse mais quatro dias sem descanso, parece-me que morria de fome e de somno. Os meus comprimentos a todos, e as manas que se lembrem de pedir a Deus que eu possa ainda ter o gosto de as ver."

N'esta ultima recommendação transparecem vivamente os perigos que elle arrostou no decorrer da terrível batalha.

Mas lá vae succedendo uma scena formosíssima, que a todos impressiona e que aos próprios combatentes commoveu com lagrimas. Que é? Arrombadas as portas de Tolosa, o exercito alliado principia a tomar uma a uma as ruas barricadas. As famílias hespanholas estão todas (como è natural) encerradas nas casas, implorando o Deus da victoria a favor do exercito que principia a entrar e a combater [...]

O marechal Soult, correndo em soccorro da praça, perdeu a batalha, sendo obrigado a retirar-se, e Pamplona veiu depois a capitular.

Está sitiada a praça de S. Sebastião.

Mapa San Sebastian.
Historical military picturesque... George Landmann.Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


No primeiro assalto á praça (a 25 de julho) o seu regimento 1 foi dos escolhidos para atacarem a brecha. Em todo o tempo que marcharam fora das trincheiras e du- rante o assalto, uma chuva constante de granadas de mão, bombas, metralha, paus em braza, lhes foi verdadeiro tormento [...]

Nem de dia nem de noite cessava sobre os nossos o fogo da praça. As sortidas do inimigo eram incessantes: hífructifero â primeiro assalto à praça de S. Sebastião, é ordenado segundo assalto para o dia 31 de agosto. O que não se consegue em dia de Santa Maria, consegue-se n'outro dia  [...]

Ha mais; foi exactamente pela maneira admirável por que João Carlos commandou o seu regimento na batalha de Nive que o príncipe regente de Inglaterra, alem de o condecorar com a medalha de conunando n'aquella batalha, como contemplou outros commandantes de corpos, lhe fez a elle a distincta e excepcio- nal especiaUdade de lhe enviar a placa da mesma medalha, que sua alteza mandou expressamente cunhar em Londres para lha offerecer [...]

O príncipe regente de Portugal, nao querendo reconhecer menos, nem menos galardoar os serviços do moço João Carlos, na guerra peninsular, quando este, anno e meio depois, chegou ao Brazil para a campanha de Montevideu, nomeou-o cavalleiro da Torre e Espada, condecorou-o com uma commenda da ordem de Christo, e as distincções com que o recebeu e tratou foram tantas, que (formaes palavras de Saldanha): "Com mil vidas não as pagaria" [...]

As nuvens dissipavam-se . Napoleão embarcara , depois da abdicação, para a ilha de Elba, e os soberanos alliados tinham entrado em Paris. Na manhã de 28 de abril a guarnição franceza achava-se formada na explanada de Bayonna, defronte d'ella a tropa sittiadora, também formada. Bate meio dia.

O general Thouvenel arvora na cidadella a branca bandeira das flores de lis, e toda a artilheria da praça rompe uma salva real. Corresponde-lhe a artilheria que cerca Bayonna. Estrugem os vivas aos alliados e á libertação dos reinos europeus, abrem-se as portas a exercito sitiador.

Dia verdadeiramente grande para aquellas almas, saciadas do fogo e ávidas da paz. "Acabaram-se emfim os nossos trabalhos", escrevia Saldanha dois dias depois. 

St. Sebastian.
Views in Spain and Portugal taking during the campaigns..., George Cumberland
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Sim, acabavam-se-lbe os trabalhos da que para outros podera ser uma campanha completa, quando para elle era unicamente o preludio da vida marcial. Terminava a guerra em 1814. 

O sol da independência brilhava finalmente, com todo o esplendor, no céu peninsular. (1)


(1) D. António da Costa, História do Marechal Saldanha, Tomo I, Lisboa, IN, 1879

Tema:
Guerra Peninsular (LeoT)
Guerra Peninsular (AVM)

Mais informação:
Peninsular War
Anglo-Portuguese Army

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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Vista de Lisboa, panorama de Barker

De facto, quando descrevia Lisboa vista do outro lado do rio em dezembro de 1812, o Major Augustus Frazer da "Royal Horse artillery" tinha explicitamente Henry Aston Barker na ideia: "O dia estava lindo, o cenário talvez o mais belo do mundo. O castelo de Almada foi o lugar a partir do qual o Panorama de Barker foi tirado." (1)

Lisbon from Fort Almeida Almada, Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden.
Imagem: Cesar Ojeda

Como, a começar a nossa próxima viagem, deveremos deixar Lisboa, sem a perspectiva de aí regressar, olhando um pouco por nós, se possível, sem negligenciar algo que possa merecer uma visita;

rapidamente nos ocorreu o morro de Almada, oposto a Lisboa, até então não nos tinha atraído subir o íngreme declive, e do seu cimo olhar a capital de Portugal, a partir dessa vantajosa posição, sendo que aí uma parte dessa cidade pode ser abrangida com uma simples passagem do olhar, mais do que em qualquer outro lugar:

Historical military picturesque..., George Landmann, View up the Tejo.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

tendo perdido tantas oportunidades como perdemos para nos oferecer esta vista altamente gratificante, teria sido verdadeiramente imperdoavel, não fosse o termos propositadamente deixado esta delícia para depois.

Historical military picturesque..., George Landmann, Lisboa, or Lisbon, the capital of Portugal.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Uma viagem a Almada não necessita preparação, exceptuando um cesto com comida, para saborear à sombra de uma laranjeira próxima das margens do rio. Contudo, alugámos um pequeno barco, para nos levar até à vila de Almada, oposta à parte ocidental de Lisboa... enquanto a cadeia de colinas da outra banda, o Almaraz, se estende na direcção da entrada do Tejo até se defrontar com a velha Torre de Belém.

Historical military picturesque..., George Landmann, Mouth of the Tagus.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Infindavel seria tentar descrever a multitude de aspectos que o semicírculo a norte apresenta; mas uma vista panorâmica, desenhada com muito cuidado a partir do original de Mr. Baker, que muito atenciosamente a cedeu ao autor com esse propósito, se apresenta [...]

O original foi desenhado por Mr. Barker [Henry Aston Barker (1774–1856)], a partir do qual pintou o seu muito admirado e correctamente fiel Panorama que exibiu no Strand em Londres [Barker's Leicester Square exhibitions]: 

Historical military picturesque..., George Landmann segundo Henry Aston Barker, Panorâmica de Lisboa e do Tejo.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

a gravura para este trabalho compreende a vista desde a Cidadela de Cascais, o ponto mais distante à esquerda, até ao extremo ocidental que é possível avistar desde a colina de Almada; 

Cross-section of the Rotunda in Leicester Square in which the panorama of London was exhibited (1801).
Imagem: TATE

ás pessoas que podem ter tido a boa sorte de ver o Panorama, esta gravura não conseguirá dar o justo sentido à extensão da beleza desta cena;

Robert Barker’s Leicester Square Panorama.
Imagem: The Regency Redingote

todavia espera-se que a tentativa de adicionar esta informação não se revele infrutífera: ver as gravuras intitulados: Mouth of the Tagus, Lisboa, or Lisbon, the capital of Portugal, e View up the Tejo. [cf. Capítulo XLIII. Uma viagem a Almada, Vista de Lisboa, as colinas fortificadas, e o  Castelo de Almada (...)] (2)


(1) Gavin Daly, The British Soldier in the Peninsular War..., 1808–1814
(2) George Landmann, Historical, military, and picturesque observations on Portugal..., 1818

Alguma leitura adicional:
Harry Sutherland, Adventures with the Connaught Rangers, 1809-1814
John Kincaid, Adventures in the Rifle Brigade, in the Peninsula... from 1809 to 1815