segunda-feira, 20 de junho de 2022

Na Cantareira com Raul Brandão em abril de 1920

A Foz é para mim a Corguinha, o Castelo e o Monte com o rio da vila a atravessá-lo, e a rua da Cerca até ao Farol. O que está para lá não existe... Só me interessa a vila de pescadores e marítimos que cresceu naturalmente como um ser, adaptando-se pouco e pouco à vida do mar largo.

Panorama da Foz do Douro,
vendo-se o Castelo de São João da Foz, a Estação Salva-vidas e parte da Rua do Passeio Alegre.
Archivo Pittoresco (33 e 39), 1865 cf. Porto Desaparecido

E ainda essa Foz se reduz cada vez mais na minha alma a um cantinho — a meia dúzia de casas e de tipos que conheci em pequeno, e que retenho na memória com raízes cada vez mais fundas na saudade, e mais vivas à medida que me entranho na morte.

O mundo que não existe é o meu verdadeiro mundo. Esta vila adormecida estava a cem léguas do Porto e da vida. Ali moravam alguns pescadores e marítimos, o António Luís, a Poveira, as senhoras Ferreiras, a D. Ana da Botica e as Capazorias.

E, na Foz e na pensativa Leça, uma gente desaparecida com os navios de vela, os embarcadiços que iam ao Brasil em longas viagens de três meses. As casas, limpas como o convés de um navio, espreitavam para o mar, umas por cima das outras.

A Cantareira, Cesário Augusto Pinto, 1848.
Arquivo Municipal do Porto

Todas tinham um grande óculo de engonços, para ver o iate ou a barca que partia, ou para procurar ansiosamente, lá no fundo, o navio que trazia a bordo o marido ou o filho ausente, e um mastro no quintal para lhes acenar pela derradeira vez.

Meu avô materno partiu um dia no seu lugre; minha avó Margarida esperou-o desde os vinte anos até à morte, desde os cabelos loiros que lhe chegavam aos pés, até aos cabelos brancos com que foi para o túmulo.

Quando os rolos de espuma rebramiam no Cabedelo, apertavam-se os corações no peito, e à luz da candeia rezavam horas esquecidas «pelos que andam sobre as águas do mar». Conheço ainda, tão bem como ontem, todos os cantos da casa de minha avó: as escadas com um cabo de navio a servir de corrimão, a sala da frente com dois painéis escuros nas paredes, Jesus crucificado e S. João Baptista, e o estrado onde ela e a tia Iria, todo o dia sentadas, trabalhavam nas almofadas de bilros.

Areal do Cabedelo Barra do Douro S João da Foz etc., Teodoro de Sousa Maldonado, 1789,
cf. Descripção topografica, e historica da Cidade do Porto..., Agostinho Rebello da Costa
Biblioteca Nacional de Portugal

A renda de bilros é uma indústria da beira-mar, destas mulheres loiras, de olhos azuis e rosto comprido — as da Foz, as de Leça e as de Vila do Conde — que passavam a vida à espera dos homens, enquanto as mãos ágeis iam tecendo ternura e espuma do mar...

Nesta sala abriam-se duas portas, uma para os quartos interiores, e outra para o corredor onde os rapazes dormiam num armário com beliches. Ao lado da casa, que subia em socalcos pelo monte, subia também uma escada de pedra em patamares até lá acima.

Do quintal, mais alto que os telhados, via-se o mundo. Era dali, saltando o muro, que eu partia para excursões maravilhosas através do pinheiral do Lage... Costumes muito simples, muito outros. Uma pescada custava seis vinténs, e minha avó gemia da carestia da vida, falando com saudade «do tempo do arroz de quinze».

Perspectiva da entrada da barra da cidade do Porto, Manuel Marques de Aguilar, 1791.
Arquivo Municipal do Porto

Tinham-se calado as marteladas nos estaleiros de Miragaia e do Ouro, onde os calafates, os ferreiros e os carpinteiros de machado, erguiam outrora, entre clarões de forja e cheiro a pinho descascado, as carcassas dos palhabotes, das barcas e dos iates, — mas eu ainda conheci alguns tipos curiosos de capitães aposentados, no americano que se inaugurara e que levava a gente ao Porto numa hora, alumiado à noite por uma luzinha de petróleo, e com reforço de mulas em Massarelos.

Nesses carros andava sempre a mesma meia dúzia de pessoas para baixo e para cima, e o serviço era dirigido com ferocidade por um major de pêra pintada com esmero, que mantinha a disciplina numa gaiola do Ouro.

Vista da entrada da barra da cidade do Porto , Manuel Marques de Aguilar, 1791.
 Arquivo Municipal do Porto

Ora, entre as pessoas que faziam comigo a travessia, quando a Aninhas do Jeremias me levava pela mão ao colégio, nunca mais esquecerei o capitão Bernardes, um do Carvalho que chegou a almirante, o tio Bento, o irascível capitão Sena de quem se contava com terror que fora apanhado no mar alto por uma trovoada — as faíscas como chuva — levando os porões carregados de pólvora, o alegre capitão Serrabulho, casado com uma mulher fantasmática: homem prodigioso, com uma grande barriga sacudida de risadas: — Acaba- se aqui o mundo com uma ceia de peixe! — e que fez andar num corrupio até à morte a Foz do Douro e a Baía, e entre todos eles, principalmente, o capitão Celestino, que tendo começado a vida como pirata a acabou como um santo, cultivando com esmero um quintal de que ainda hoje me não lembro sem inveja. (1)


(1) Raul Brandão, Os Pescadores, Paris, Ailland, 1923, 326 págs, 127,7 MB

Mais informação:
Raul Brandão: Um percurso
Evocação de Raul Brandão (Vitorino Nemésio recorda a figura de Raul Brandão)
Inauguração do monumento a Raul Brandão

domingo, 5 de junho de 2022

Na Cantareira com Maria Angelina e Raul Brandão

A seguir ao mosso casamento, após a permamência: de um ano e pouco mais em Guimarães, Raul Brandão pediu a suà transferência de Infantaria 20, para o Quartel General do Porto, pas-sando a residir na Cantaroira — Foz do Douro — onde seus pais, que então viviam em Matosinhos, possuiam uma casa admiràvelmente situada, donde se gozava a vista, maravilhosa do rio Douro, do céu azul, da terra e do mar.

Retrato de Angelina e Raul Brandão no ano do seu casamento, 1897.
João Pedro de Andrade, Raul Brandão, A Obra e o Homem, Arcádia, 1963

As ondas majestosas, ao dobrarem-se em largos rolos de espuma branca, vinham desenrolar-se junto da praia como uma, renda finíssima e transparente, deixava ver a água esmeralda desse mar infinito que banha toda a nossa linda Costa portuguesa quando se mantinha numa doce amenidade, fazia lembrar esses lindos lagos dos Pirinéus, que uma vez vistos, jamais desaparepei dos nossos olhos encantados.

Porto, Cantareira, Foz do Douro, ed. Almeida & Sá Suc.
Delcampe

Raul Brandão concebia a minha alma duma sensibilidate como só os poetas são capazes de idealizar; por, isso foi o meu amparo durante a vida e porque  muito nos amárvamos e nos estimávamos tínhamos um só degejo e uma só vontade: — vivermos para Deus e um para o outro.

Instalados na Cantareira, nada nos faltava, louvado Deus: saúde, felicidade e a alegria dos dezanove anos.

Porto, Foz do Douro, Cantareira, ed. Alberto Ferreira.
Delcampe

As flores que cuitivavamos no pequeno jardim e uma grande e deliciosa bica de água que caía abundantemente num tanque de pedra, sob uma pérgola com rosas lindas e perfumadas, era o nosso encanto...

Faltava-nos, porém, um barquinho que depressa adquirimos, para nos recrearmos nas horas vagas, pondo-o a flutuar nas águas buliçosas do rio e, umas vezes à remo, outras, quando o vento era favorável, içando a vela, o barquintio «Deus te guie» — singrava voloz rio acima, levan-do-nos muito longe, embalados pelo murmúrio da água que tinha reverberações faiscantes e, atravessando a cidade, corria entre margens de campos e vinhas, como é toda a região do Douro, à beira rio.

Porto, Foz, Cantareira, ed. Emilio Biel.
Delcampe

Raul Brandão ao leme, sorria encantado com a paisagem embora desde crianga muito sua conhecida e, eu não podia conter a minha admiração pelo doce e maravilhoso espectáculo que a natureza nos oferecia.

Quantas vezes transpúnhamos também o rio chegando à Outra Banda, deixávamos o barquinho em descanso no areal, seguindo para Lavadores, banhando-nos na frescura da luz e no afago do sol, através dessa duna doirada — o Cabedelo — regressando à tardinha à Cantareira, envoltos na nostalgia dos poentes que à beira-mar, como em parte, alguma, são encantadores nas suas cores de desfalecimento e saudade !

Sob um caramanchão revestido de hera, junto duma forte grade de ferro servindo de parapeito sobre um pano de muralha, que ascendia do pequeno jardim ao pomarzinho florido, assistimos ao surpreendente e empolgante espectáculo astral que só por acaso se repete na vida: — O belo e extraordinário fenómeno do eclipse total do sol, em 28 de Maio de 1900 !

Eclipse total do sol em 28 de Maio de 1900.
v. Estação Chronográphica

À uma hora, e um quarto da tarde, porque a luz brilliante do astro solar não nos permitisse fixá-lo directamente através de vidros prèviamente fumados, notámos um grande circulo formado em roda do sol e, em volta deste circulo, uma fita como o arco-iris com umas poucas de cores — mais o alaranjado...

O sol está um pouco toldado por uma nuvem transparente. Vêem-se ligeiras nuvens no céu. E, para o mar, nuvens esfarrapadas. A luz é amarelenta, linda, e para o fim com tons de oiro.

Arrefece... é quase um tuar; mais lívido. Não é bem livido, há tintas de oiro esbatido, líquido — uma alvorada. Vê-se uma estrela enorme no meio do céu, outra mais pequenina junto ao sol.

Eu, sem palavras que pudessem exprimir a minha admiração ante visão tão sobrenatural; só ousava exclamar: — «que lindo ! que lindo !» — «Sente-se um abalo profundo, não é verdade? É o homem cm frente de Deus...» — diz-me Raut Brandão, comovido.

No chão à sombra parece ter relevo: os discos do sol tornam-se em milhares de crescentes. O vento que era nortada — acalma com o eclipse, tal como sucede sempre com a vinda da noite.

Os animais domésticos, um cão, um gato, nada sentiram. Absolutamente sossegados. Os pintaihos que esgaravatavam na terrà do quintal, aninharam-se em volta da mãe que abria as asas para os agasalhar. Um silêncio comavido... imenso...

O «disco» da lua tapa o sol, mas a luz dir-se-ia que foge por baixo dele. A claridade que ficou, era ainda bastante: parecia um lusco-fusco levemente doirado.

O espectáculo é prodigioso mas dura apenas uns segundos. Um raio de luz clara, um feixe de luz, e eis que de novo o sol volta, na sua majestade; os passarinhos, um fio de nervos, vibram no espaço azul entoando cânticos maviosissimos, comio.se nete despontasse a luz matutina, vida das suas frenéticas vidas. E a vida humana, paralizada momentâneamente ante este espectáculo maravilhoso, retoma a sua actividade.

Porto, Desembarque de peixe na Cantareira, ed. Arnaldo Soares.
Delcampe

Nas águas do rio, todo oiro e prata, frescor palpitação, os barquinhos que a essa hora de lusco-fusco nelas flutuavam, deixaram-se levar pela corrente até à Barra, na inconsciência dos barqueiros que se entregam à sua emoção e discutem com calor a beleza extraordinária deste fenómeno astral.

Foz do Douro, Cantareira, ed. desc.
Delcampe

Em terra, o rodar pesado dos carros eléctricos, as sirenes dos automóveis que passavam na estrada sem interrupção — porque o trânsito esteve paralizado — as gargalhadas das crianças que batem palmas com entusiasmo louquinhas de alegria, a voz fresca das raparigas que lavam roupa num tanque à beira-rio, enchem o espago atordoadamente, chamando à realidade da vida os contemplativos, depois do profundo silêncio que lhes veño da emoção — e de Deus. (1)


(1) Maria Angelina Brandão, Um coração e uma vontade: memórias, Coimbra, Atlântida, 1959

Leitura relacionada:
A Batalha n.° 5 (suplemento literário), 31 de dezembro de 1923
Raul Brandão, Os Pescadores, Paris, Ailland, 1923, 326 págs, 127,7 MB

Mais informação:
Raul Brandão: Um percurso
Evocação de Raul Brandão (Vitorino Nemésio recorda a figura de Raul Brandão)
Inauguração do monumento a Raul Brandão

Sobre o eclipse de 28 de maio de 1900:
Occidente n° 769, 10 de maio de 1900

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Lisboa e o Tejo c. 1520 (panorama e encenação)

Sobre a iluminura do códice manuscrito de Duarte Galvão, Chronica do Muito Alto e Muito Esclarecido Príncipe D. Afonso Henriques (...)

Uma outra pintura, estudada e reiteradamente referida nos trabalhos de José Manuel Garcia – o frontispício de um dos exemplares manuscritos e iluminados da Crónica de D. Afonso Henriques, de Duarte Galvão (c. 1520) – apresenta uma vista da cidade de Lisboa em fundo, encontrando-se em primeiro plano o porto repleto de navios de vela e remos.

Crónica de Dom Afonso Henriques, Duarte Galvão.
A Casa Senhorial

O investigador chama a atenção para o facto de figurarem as armas da casa de Áustria [de facto as armas do Sacro Império Romano-Germânico sobre o fundo das cores de Aragão] no toldo da popa de uma fusta ou galé [e de outra embarcação do mesmo género, as armas de Castela/Leão], pelo que provavelmente aludiria também à entrada de D. Leonor nesta cidade. (1)

No entanto, o cortejo desta imagem com os elementos visuais descritos na crónica de [Gaspar] Correia, não apresentando uma correspondência directa, sugere que possa a mesma configurar uma representação áulica convencional, artística, sem o objetivo de retratar um acontecimento específico de forma documental.

A crónica de Correia é a única fonte conhecida para este evento sumptuoso, dando uma panorâmica viva e algo detalhada de como os monarcas fizeram a travessia do Tejo com um riquíssimo cortejo – segundo o autor, de mais de seiscentas velas – que incluía embarcações de entidades públicas e privadas, entre barcas e batéis, caravelas, fustas e a galé real (...)

As nuvens de fumo provocadas por disparos de artilharia a bordo encontram-se retratadas numa sugestiva miniatura iluminada, na moldura (sul) de um dos monumentais frontispícios da Leitura Nova onde, num pequeno medalhão de cerca de oito a dez centímetros de diâmetro, o pintor inscreve uma cena marítima com três navios de alto bordo representando naus ou galeões, dois ou três navios de remo e vela configurando fustas ou galés, e ainda um conjunto de embarcações mais pequenas, possivelmente batéis e barcas, dos quais seis à vela e pelo menos três com remos e sem mastros (...)

Leitura Nova, Além Douro vol. iv (detalhe do frontispício)
ANTT e Hemeroteca Digital de Lisboa

Apesar de esta imagem correr frequentemente como ilustração da partida de D. Beatriz para Sabóia, uns meses mais tarde, parece mais aceitável que represente antes uma chegada festiva do que uma largada, sendo nela identificáveis diversos pormenores relatados por Correia. Não obstante, há que ter em conta que grande parte dos elementos áulicos presentes nestas festas eram comuns a muitas outras ocorridas na época, nomeadamente o aparato visual – símbolos heráldicos, têxteis preciosos, decorações ricas em que sobressai o carmesim e o ouro – associados ao indispensável estrondo da artilharia (...) (2)


(1) Isabel Monteiro, Recebimento Real, 1518: eventos festivos & música
(2) Idem

Artigos relacionados
Iconografia de Lisboa (1.ª parte)
Santa Catarina do Monte Sinai (1 de 4): no painel de Greenwich
Santa Catarina do Monte Sinai (2 de 4): no painel central do Retábulo de Santa Auta
Santa Catarina do Monte Sinai (3 de 4): D. Beatriz de Portugal (1504-1538)
Santa Catarina do Monte Sinai (4 de 4): o navio

Leitura adicional:
História de Lisboa - Tempos Fortes
Crónica de el-Rei D. Afonso Henriques por Duarte Galvão
Chronica do muito alto, e muito esclarecido Principe D. Affonso Henriques...
OS NAVIOS DO MAR OCEANO
Leitura Nova, as mais belas iluminuras
Carla Alferes Pinto, Encenações talássicas e a imagem de poder...

quinta-feira, 7 de abril de 2022

O Terramoto de 1755 (folio/encenação de João Glama)

Existiu no Alto de Santa Catarina (antigo Monte ou Pico de Belver), exactamente no sítio onde está hoje o palacete, avançado por um pátio defendido por gradeamento, do industrial senhor Alfredo da Silva, uma Igreja de Santa Catarina do Monte Sinai, fundada em 1557 pela Rainha D. Catarina mulher de D. João III. Esta Igreja deu nome ao Alto de Santa Catarina, e á paróquia que está hoje no antigo Convento dos Paulistas, pois o templo citado — que era da irmandade dos livreiros — muito ferido pelo terramoto, reconstruído, e incendiado em 1835, foi finalmente demolido já em ruínas, entre 1856 e 1862. (1)

Alegoria ao Terremoto de 1755, João Glama Strobërle (1708–1792).
Wikipédia

Apenas um artista português é que, sobre o terremoto de Lisboa, produziu uma vista iconográfica: consiste ela num quadro a óleo, devido ao pincel de João Glama Ströberle, e representa uma cena de desolação junto às ruinas da desaparecida Igreja de Santa Catarina. Está no Museu de Arte Antiga. (2)

ARQUIVOS.RTP.PT
Pintura “O Terramoto de 1755 em Lisboa”

Jean Glamma Stroberle, Portugais, naquit en 1708. Il fut envoyé à Rome, où il s'est occupé à copier les tableaux de Raphaël, et où il a passé 18 ou 20 ans. Il a demeuré ensuite à Porto, où il a exécuté divers ouvrages.

Cena de desolação e dor com figuras de diferentes estratos socias e da iconografia clássica com aurorretrato e objectos religiosos (cruxifixo, S. Marçal?)
Alegoria ao Terremoto de 1755, João Glama Strobërle (1708–1792).
Wikipédia

Pendant le tremblement de terre, il se trouvait à Lisbonne. Très instruit et doué d'une grande facilité, il faisait d'excellens portraits. C'était un dessinateur très distingué. Il n'a pas fait d'élèves, parce qu'il n'a pas voulu en admettre dans son atelier.

Cena das vítimas com figuras da iconografia clássica (flagelação/martírio em contrapposto) e animais e, em segundo plano, aurorretrato e frades (Capucho calçado, Trino, Dominicano?)
Alegoria ao Terremoto de 1755, João Glama Strobërle (1708–1792).
Wikipédia

Dans plusieurs églises de Porto on trouva des tableaux de Glamma. On en voit notamment sur le maître-autel de S. Nicolas, à S. Jean novo et à Notre-Dame de la Victoire, ainsi qu'à Braga, dans les chapelles latérales de la cathédrale. Parmi ces tableaux, on doit citer surtout S. Jean-Baptiste, Ste. Barbe et S. Sébastien.

No adro da igreja, o frade Franciscano prega (o arrependimento?) e impõe o cruxifixo enquanto que o padre paramentado evoca o perdão e a compaixão de Deus para com as as vítimas, excepto um casal, as demais figuras são ténues, monocromáticas e quase sem contraste (os mortos?)
Alegoria ao Terremoto de 1755, João Glama Strobërle (1708–1792).
Wikipédia

Plus loin, dans la notice de Chiape, il est parlé en détail et avec éloge du tableau de Glama, représentant une scène du tremblement de terre de 1755. C'est celui dont je rends compte dans ma Lettre 18me, et qui appartient à M. François Van Zeller.


Iconografia clássica, um anjo com espada flamejante (chama divina) combate o anjo armado com adaga entre as nuvens de fumo provocadas pelos incêndios (o resgate das almas?)
Alegoria ao Terremoto de 1755, João Glama Strobërle (1708–1792).
Wikipédia

Le Patriarche dit que ce tableau a été payé aux enchères (à ce qu'il croit se rappeler) 6 contos, c'est-à-dire à peu près 36,000 fr. Je crois que la mémoire du Patriarche est en défaut; car, quoique ce tableau ne soit pas sans mérite, je trouve qu'il serait bien payé avec la dixième partie de cette somme. Voici ce que le possesseur de ce tableau, M. François Van Zeller, de Porto, m'a raconté :

O combate dos anjos (iconografia clássica) e a Cruz de Pau (com os pedintes?)
Alegoria ao Terremoto de 1755, João Glama Strobërle (1708–1792).
Wikipédia

"Après la mort de Glamma, ses héritiers en ont fait une loterie. Les billets ont été tous placés et ont produit 600,000 réis ( environ 3,900 fr. ). C'est M. Van Zeller qui, il y a à peu près 28 ans, a eu la bonne fortune de le gagner, et qui ensuite fit encore un présent à la famille. Glama, à ce que dit M. Van Zeller, estimait ce tableau le double de la somme que la loterie a produite."

Le musée de Porto possède de lui un portrait de moine que j'ai trouvé bien saisi et plein de caractère. (3)

A Cruz de Pau (já em pedra) após a quase imediata reedificação da igreja de Santa Catarina (o pedinte, representação clássica) numa tela do pintor barroco Joaquim Manuel Rocha, contemporâneo de João Glama
Incêndio da Fragata Graça Divina S. João Baptista, Joaquim Manuel Rocha (1727 - 1786), 1781.
Palácio do Correio Velho


(1) Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, volume v
(2) Augusto Vieira da Silva, Iconografia de Lisboa, Revista Municipal n.° 32, Câmara Municipal de Lisboa, 1947
(3) Dictionnaire historico-artistique du Portugal pour faire suite à l'ouvrage ayant pour titre : Les arts en Portugal

Leitura adicional:
The sketchbooks of a Disciple of Marco Benefial and Agostino Masucci: Apprenticeship and Invention in the Work of João Glama Ströberle (1708-92)", Getty Research Journal, n° 10 2018 p. 83-104
População não identificada relacionada com o Terramoto de Lisboa de 1755

terça-feira, 1 de março de 2022

O arcanjo Rafael conduz a Esperança a Lisboa

Confia-te a Deus, espera, e Ele fará.
Mantém-te nos caminhos de Jeová e não te afastes deles: Tudo te será bem providenciado.


Hallamos entre los libros expuestos uno de Daniel Meisner, titulado Libellus novus politicus emblematicus Civitaruni, publicado en Nuremberg. en 1638. Lleva la sigla (30. 7 Geom) de la HAB. Es un libro con ochocientas vistas de ciudades o paisajes.

Lissabona Committe Deo Spera Et Ille Faciet, Daniel Meisner, 1638
in Libellus novus politicus emblematicus civitatum.
Insc. - LISSABONA IN PORTUGAL (na parte sup. da mancha, ao meio). COMMITTE DEO, SPERA, ET ILLE FACIET (na marg. sup., ao meio). TU COMMITTE VIAS JHOVOE, ET FPE NOTERE IN ILLO (na marg. inf., à. esq.). OMNIA PERFICIET PROVIDUS IPSE BENE (na marg. inf. , à dir.) . Tem mais duas inscrições em alemão, uma à. dir. e outra à esq., de 2 linhas cada uma e ambas por baixo das inscrições latinas antecedentes.
catawiki

Hoy diríamos una colección de tarjetas postales, ordenada por regiones geográficas, aproximadamente. Los capítulos se designan por las letras (A) hasta (1-1) y están circunscritos a regiones que se definen en las portadas capitulares.

Cada «civitas» está representada por un grabado, algunos con firma del calcógrafo. El principal de ellos consta en la portada de la «Pars Octava (...) & Littera fi»: «Paulus Ffirst ExcuditA.o 1638». Las calcografías son por lo común excelentes y tienen un formato de unos 13 x 6,7 cm.

Van encabezados casi siempre con un proverbio o dicho en latín, a modo de lema o epígrafe. Debajo se inscribe —en latín y/o en alemán— otra moraleja, a veces rimada, y no siempre con relación evidente con el grabado.

Están numerados consecutivamente dc 1 a 100 dentro de cada capítulo. Por lo demás, el orden de los topónimos dentro de un capítulo es arbitrado. En cambio se respetan aproximadamente las regiones.

Lo original es que se trata de una publicación que aspira a ser una colección de verdaderos emblemas, lo que vale a decir que los grabados. además de su valor mimético y pictórico, son susceptibles de incluir un mensaje simbólico o alegórico, definido por el epigrafe y la letra.

La intensa recepción del Emblematum ilber dc Andrea Alciato en Europa, después de su publicación en 1531. es bien conocida, y también su fortuna en España t Así mismo sabemos de sobra hasta qué punto los emblemas son portadores de juicios y valoraciones estereotipados.

Quisiéramos averiguar hasta qué punto, por los años en que se publicó nuestro Libellus, seguía divulgándose la polémica antiespañola en Alemania. Ante la conocida persistencia y longevidad de los estereotipos es de sospechar que en este Libellus los emblemas y sus letras permitirán comprobar el grado de virulencia que le correspondía en la primera mitad del siglo XVII a la leyenda negra en Alemania.

Tanto más que el otro epíteto del Libellus novus lo califica de libro politicus. lo que en este contexto significaría «mundano», «diestro en el trato con foráneos», haciendo alarde el autor de su pretensión deformar y preparar al futuro viajero por tierras foráneas.

El título de por sí, además de anunciar un libro de alto valor histórico por ser ilustrado, promete un fondo rico en juicios de valor, una fuente de auto y de heteroestereotipos. (1)


(1) Visión de España en un viaje emblemático alemán de 1638

Artigo relacionado:
Vistas de Lisboa (1)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Auto da fé por Oliveira Martins

O primeiro desses dramas funebres e burlescos teve lugar em Lisboa no dia 20 de setembro de 1540: ainda a Inquisição nao estava definitivamente confirmada pelo Papa.

Vista da Grande Procissão do Auto de Fé da Inquisição.
Vue de la grande Prossession de Lo to da fé ou l'on voit les Criminels Jugés par l'Inquisition à Lisbonne.
Cabral Moncada Leilões

A procissão saia do palácio do Rossio, para a praça da Ribeira, onde tinha lugar a cerimonia. Vinham a frente os carvoeiros, armados de piques e mosquetes para olhar pelas fogueiras; depois um crucifixo alfado, e os frades de S. Domingos, nos seus habitos e escapularios brancos, com a cruz preta, levando o estandarte da Inquisiçao, onde numa bandeira de seda se via a figura do santo, tendo numa das maos a espada vingadora, na outra um ramo de oliveira: Justitia et Misericordia.

Vista da Grande Procissão do Auto de Fé da Inquisição (detalhe).
Vue de la grande Prossession de Lo to da fé ou l'on voit les Criminels Jugés par l'Inquisition à Lisbonne.
Cabral Moncada Leilões

Após os frades, seguiam as pessoas de qualidade, a pé; familiares da Inquisiçao, vestidos de branco e preto, com as cruzes das duas cores, bordadas a fio de ouro.

Depois vinham os réus, um a um, em linha; primeiro os mortos, depois os vivos: fictos, confictos, falsos, simulados, confitentes, diminutos, impenitentes, negativos, pertinazes, relapsos — por ordem de categoria dos delitos, a começar nos mortos e pelos contumazes.

Vista da Grande Procissão do Auto de Fé da Inquisição (detalhe).
Vue de la grande Prossession de Lo to da fé ou l'on voit les Criminels Jugés par l'Inquisition à Lisbonne.
Cabral Moncada Leilões

Em varas erguidas como guides, que os homens de samarra e capuz de holandilha preta levavam, penduravam-se as estatuas dos condenados ausentes, vestindo as carochas e sambenitos; e se a estátua representava o morto, outro verdugo seguia após dela com uma caixa negra pintada de demónios e chamas, contendo os ossos para serem lançados aos pés da estátua na fogueira.

Mais de uma vez se queimaram esqueletos desenterrados de pessoas que, imunes durante a vida, foram julgadas e condenadas depois de mortas.


Em seguida vinham os reus vivos, por ordem crescente de gravidade dos crimes, sem distinçao de sexos, um a um, com o padrinho ao lado, ou com o confessor dominico, se iam a queimar. Os homens vestiam um fato raiado de branco e preto, com as maos, a cabeça e os pés nus; as mulheres apareciam em longos habitos da mesma fazenda.

Vista da Grande Procissão do Auto de Fé da Inquisição CML 01
Wikipédia

Traziam todos tochas de cera amarela na mão e o baraço ao pescoço. Insígnias diferentes distinguiam os que iam ao fogo, dos penitentes e dos confessores. Estes vestiam o sambenito, especie de casula branca, com as cruzes de Santo André, vermelhas, no peito e nas costas; e levavam a cabeça descoberta.

Os que depois da sentença tinham obtido perdão da fogueira, levavam samarra, uma casula parda; e carocha, uma mitra de papelão; e numa e noutra, pintadas, linguas de chama invertidas, o fogo revolto, a indicar a sua sorte.

Lisboa, Rossio, Palácio dos Estaús, Procissão do Auto de Fé, Pieter Vander Aa, rep. c. 1707.
Histórias de Lisboa, Tempos Fortes

Os condenados a morte, quer para serem estrangulados primeiro, quer não, os destinados, vivos ou mortos, à queima, levavam na samarra e na carocha o retrato pintado, ardendo em chamas, com demonios pretos pelo meio, e o nome escrito, e o crime por que padeciam.

Depois da estirada procissao, no couce, vinham os alabardeiros da Inquisiçao, e, a cavalo, os oficiais do conselho supremo, inquisidores, qualificadores, relatores, e mais sequazes da corte. Os sinos dobravam pausadamente nas torres das igrejas.

Diverses figures de ceux qui sont conduits aux Autos da Fé, Juan Alvarez de Colmenar(Pieter Vander Aa).
Museu de Lisboa

A turba apinhava-se nas ruas, insultando os pacientes com palavras desonestas e atirando-lhes pedras e lama.

Cordões de tropa impediam que o povo invadisse, na praça, o recinto reservado ao Auto. Havia ali, para um lado, afastadas, as pilhas de madeira, retangulares, com o poste erguido ao centro e um banco; e no meio da praça um espaço reservado com o estrado e as tribunas.

Na da esquerda estava o rei, D. Joao III, piedosamente satisfeito na sua fé, como espirito duro, mas sincero e forte; estavam a rainha e a corte; e, ao lado do monarca, o condestavel com o estoque desembainhado.

Na outra, da direita, levantavam-se o trono e dossel do cardeal D. Henrique, depois rei, e agora infante inquisidor-mor, ladeado pelos membros do tribunal sagrado, nos seus bancos.

A meio do tablado ficava o altar, com frontal preto, banqueta de cera amarela, e um crucifixo ao centro. Em frente, num plinto, erguia-se o estandarte da Inquisição. A um lado tinha o púlpito; ao outro a mesa dos relatores das sentenças, coalhada de papeis com selos pendentes; e os padecentes, em linhas, ficavam de pe, voltados para o altar, para o pulpito, para o tribunal.

Disse-se missa. O inquisidor-mor, de capa e mitra, apresentou ao rei os Evangelhos, para sobre eles jurar e defender a fé. D. Joao III e todos, de pe e descobertos, juraram com solenidade sincera. Depois houve sermao; e finalmente a leitura das sentenças, começando pelos crimes menores.

A adoração das imagens, questão debatida nos concilios, dava lugar a muitas faltas. Outros iam ali por terem recusado beijar os santos dos mealheiros, com que os irmaos andavam pelas ruas pedindo esmola. Outros por irreverencias, outros por falta de cumprimento dos preceitos canónicos; muitos por coisa nenhuma; a maxima parte, vitimas de delações perfidas ou interessadas.

A inquisição em Portugal.
Alain Manesson Mallet, Description de l Univers, 1683.
Internet Archive

Os relatores iam lendo as sentenças, os condenados gemendo, uns, e chorando; outros exultando por se verem soltos do carcere, livres da tortura, prometendo a si para consigo serem de futuro meticulosamente hipócritas.

Chegou-se finalmente aos condenados a morte, no fogo: eram três mulheres por bruxas, e dois homens, cristaos-novos, por judaizarem, mais um por feiticeiro.

O relator, imperturbavel, leu as sentenças, onde se narravam os crimes. Os cristãos-novos comiam paes azimos; e um deles, quando varria a casa, chamava nomes a um crucifixo, fazia-lhe caretas, e dava-lhe tantas unhadas quantos eram os golpes de vassoura no chao.

Estes crimes vinham envolvidos em frases horrorosas e generalidades tremendas; e a corte, o clero e o povo, ao ouvirem tao grandes sacrilegios, pasmavam de odio contra os desgraçados.

A feiticeira nao os impressionava menos. Cristãos-novos e bruxos, que lançavam maleficios e olhados, eram a causa das pestes, das fomes e dos naufragios das naus da India. Sobre as cabefas dos desgrafados caiam as maldições de uma popuIação aflita.

Ninguem duvidava da verdade dos crimes, que muitas testemunhas afiançavam. O diabo aparecera a um, e ensinara-lhe as curas infernais, pelo livro de S. Cipriano. Sangrava os doentes na testa, com alfmetes. Estou picado e enfeitiçado: Jesus! nome de Jesus! despicai-me e desenfeitiçai-me! — dissera uma vitima a um padre da Beira.

Os diabos, para se vingarem, foram a casa do padre e quebraram-lhe toda a louça. Um caso terrivel era esse; e o povo olhava com horror para o médico de S. Cipriano, que tinha a Ioucura evidente na face. — As bruxas o diabo aparecia de dia sob a forma de um gato preto, e de noite, de forma humana de homem pequeno; assim o dizia gravemente a sentença, com o depoimento das testemunhas.

A bruxa saia com o demónio e iam juntos a um rio, onde as outras estavam com outros demónios; e depois de se banharem tinham coito com circunstancias lascivas e abominaveis; a sentença enumerava-as, e a devassidao da corte e do povo percebia-as, comentava-as. De volta ao sabbath, de madrugada, as bruxas entravam invisivelmente nas casas, perseguindo as familias honestas e piedosas.

Terminada a leitura, absolvidos os penitentes, os cristaos-novos e as bruxas foram relaxados ao braço secular, para serem queimados. O rei, a corte, o inquisidor retiraram-se; e os sinos continuavam a dobrar, pausada e funebremente.

Os carvoeiros de alabardas, os verdugos de capuzes, e os frades de escapulário e crucifixo na mão, ficaram junto dos condenados para os queimar.

Execução dos condenados acusados pela Inquisição (orig. gravura óptica inv.).
Executions des Criminels Condamnées par l'Inquisition.
Cabral Moncada Leilões


O povo cercou em massa o lugar das pilhas quadrangulares de lenha, com os olhos avidos, e a cabeça cheia de cóleras contra esses réus das suas desgraças. Todos, menos o bruxo, morreram piedosamente, garrotados, depois de queimados.

O medico de S. Cipriano, porem, tinha culpas maiores e fora condenado a ser queimado vivo. Junto da pilha, o frade, com as maos postas, pedia-lhe que, por Deus, se arrependesse; mas ele, com o olhar esgazeado do louco, virara a cara e zombava. Largando a correr pela escada, subia a pilha, e do alto, sentado no banco, fazia esgares e visagens irreverentes.

O frade batia nos peitos, a plebe rugia colerica. Os verdugos amarraram-no ao poste, e os carvoeiros acenderam a fogueira, que principiou a crepitar. Os rapazes e as mulheres da Ribeira, salteando-o com paus e garrunchos, arrancaram-lhe um olho. Atiravam-lhe pedras, pregos e tudo; e faziam-lhe feridas por onde escorria sangue: tinha a cabeça aberta e um beiço rasgado.

Entretanto, a chama começava a romper por entre os toros; e ele com as mãos estorcendo-se, dava no fogo, querendo apaga-lo; e quando via, com o olho que lhe restava, vir no ar uma pedra, fazia rodela ou escudo com a samarra, para se livrar. Do vão do outro olho escorria pela face um fio de sangue. Isto já durava por mais de uma hora e divertia muito o povo — agora que tinha a certeza de ver morrer o seu inimigo.

Lisboa, Terreiro do Paço, Maneira de queimar os que foram condenados pela Inquisição, Pieter Vander Aa, rep. c. 1707.
Histórias de Lisboa, Tempos Fortes

Mas o vento, que soprava rijo do poente, da banda do rio, arrastava consigo as chamas; e por nao ter fumos que o afogassem, o condenado ficou tres horas vivo, a torrar, agonizando, contorcendo-se, em visagens, e gritando — ai!... ai!... ai!...

Prolongara-se o suplicio pela tarde; e, no paço, a familia real comentava o sucedido, acusando todos com furia os cristaos-novos e os feiticeiros. (1)


(1) Oliveira Martins, História De Portugal

sábado, 1 de janeiro de 2022

Marialva por Beckford (a Quinta da Praia)

E estamos a bater à porta, digo, a passar no local onde existiu o palácio da Quinta da Praia, hoje demolido por completo, pertença que foi dos condes de S. Lourenço, dos Marialva e por fim dos Loulé, que o venderam ao Estado. A Provedoria da Casa Pia ali esteve instalada e, quando dos Centenários, algumas repartições correlativas.

The view of the city of Lisbon (detalhe), C. Lemprière, publ. 1756.
Cabral Moncada Leilões

Foi rico de recheio e com aspecto exterior interessante. Aqui se teria desenrolado a curiosa cena do regresso duma romaria da Outra Banda, nos seus tempos áureos (...) (1)

Entrada a noite, as luzes brilharam nas torrinhas, nos terraços e em todos os pontos da estranha agglomeração de edificações, que compõem este palácio amoiriscado: metade da familia recitava as ladainhas dos santos, a outra divertia-se com extravagâncias e travessuras, talvez pouco edificantes, e o staccato monótono das guitarras, acompanhado pelo murmúrio abafado e suave das vozes femininas, cantando modinhas, formava uma singular mas não desagradável harmonia.

The view of the city of Lisbon, C. Lemprière, publ. 1756.
Cabral Moncada Leilões

Estava eu escutando-a com avidez, quando o clarão dos archotes e o rumor da agua batida pelos remos nos chamou às varandas, a tempo de vermos uma procissão raras vezes egualada desde o tempo de Noé!

Duvido que a sua arca contivesse uma collecção de animaes mais heterogénea do que a que saiu dum escaler de cincoenta remadores, que acabava de pôr em terra o velho marquez de Marialva e oseu filho D. José, acompanhados duma multidão de músicos, poetas, toireiros, lacaios, macacos, anões o creanças de ambos os sexos, phantasiosamente vestidas!

William Beckford em 1782 por Joshua Reynolds.
National Portrait Gallery

Todo aquelle bando, creio eu, voltava d'uma romaria á capella dalgum santo no outro lado do Tejo. O primeiro que saltou foi um anão corcunda, que fazia uma chiadeira infernal numa gaitinha dum palmo de comprimento; seguiam-se depois dois servilôes parasitas apparentemente commandados por um velho de uniforme muito usado, e de aspecto singular e fanfarrão, que me disseram ter militado como brigadeiro numa ilha qualquer.

A Barataria que ella fosse, Sancho tel-o-ia mandado tratar da sua vida. porque, a dar credito á chronica escandalosa de Lisboa, poucas vezes se tem visto um truão, um parasita e um gatuno mais impudente do que elle! No encalço d'estes caminhavam um emproado e asselvajado monge, tão alto como Sansão, e dois frades capuchinhos, ajoujados não sei com que espécie de provisões.

Quinta da Praia em segundo plano, ao centro, em Henri L'Évêque, Vista do Convento de Sto Jerónimo de Belém e da Barra de Lisboa (detalhe).
ComJeitoeArte

Vinha em seguida um magro e pallido boticário, todo vestido de preto, correspondendo completamente no trajo e no porte á figura que imaginamos do "Señor Apuntador", do Gil Blas, e após este vinha um improvisador meio tonto, disparando-nos versos, quando passou por baixo das varandas donde estávamos vendo desfilar o cortejo.

Era quasi impossível ouvil-o por causa do confuso tropel de barqueiros e creados com gaiolas de pássaros, lanternas, cabazes de fructa e grinaldas de flores, que vinham alegres e saltando, com grande gáudio dum bando de creanças, as quaes, para parecerem mais habitantes do ceu do que a natureza as fizera, traziam umas azinhas transparentes presas aos seus hombros cor de rosa.

Alguns destes anjinhos de theatro eram extremamente formosos, e tinham o cabello garridamente disposto em armeis. O velho marquez gosta d'elles doidamente; vivem com elle noite e dia, dando-lhe tudo o que a frescura e a innocencia pode offerecer a uma organisação decadente.

Henri L'Évêque, Vista do Convento de Sto Jerónimo de Belém e da Barra de Lisboa.
ComJeitoeArte

O patriarcha dos Marialvas tem seguido este regimen ha muitos annos, e também alguns outros quasi incriveis. Dotado d'uma facilidade mais que romana de devorar uma immensa profusão de manjares, e de fazer legar a novo supprimento, janta todos os dias sósínho, ladeado por dois cangirões de prata de extraordinária grandeza.

Ninguém em Inglaterra me acreditaria, se eu descrevesse o enorme banquete que vi disposto para elle; mas deixae a vossa imaginação perder-se em tudo o que se tem imaginado em matéria de voracidade, que íí este caso ella ainda ha de ficar abaixo da realidade! Apenas o conteúdo animal e vegetal do escaler grande e de três ou quatro faluas da comitiva ficou depositado nos seus respectivos cubículos, recantos e poleiros, recebi um convite do velho marquez para merendar com elle no seu quarto.

D. Pedro, 4° Marquês de Marialva, por Domingos A. Sequeira.
Lisboa Revista Municipal n° 20, 1987

Näo eram menos, com certeza, de cincoenta, os creados que nos esperavam, e além de seis brandões de cera, que por ceremonia nos iam alumiando, mais de cem círios de differentes tamanhos ardiam nas salas, onde brazeiros de prata e cassoletas espalhavam no ar um delicioso perfume.

O senhor de todas estas magnificências pareceu-me muito cortez, affavel e insinuante. Ha uma tal urbanidade e bom humor no seu olhar, nos gestos, e no timbre da sua voz, que nos predispõem logo em seu favor e justificam a popularidade universal de que gosa, e o affectuoso nome de Pae, que lhe dá muitas vezes a Rainha e a Família Real. Os favores da coroa tèem chovido sobre elle aos montões. no presente e nos anteriores reinados -uma corrente de prosperidades não interrompidas mesmo durante o grão-visiriato de Pombal!

"— Proceda como julgar mais acertado com o resto da minha nobreza — costumava dizer o rei D. José ao seu temido ministro — mas guarde-se de se intrometter com o marquez de Marialva."

Palácio dos Marqueses de Marialva às Portas de Santa Catarina.
Não realizado, este projecto propunha reerguer o antigo palácio seiscentista dos Marqueses de Marialva, junto das Portas d Santa Catarina, que sofrera ruina e incêndio na sequência do terramoto de 1755.
A Casa Senhorial

A esta decidida predilecção deveu o palácio de Marialva tornar-se em muitos casos um ponto de reunião, um asylo dos opprimidos, e o seu senhor, em mais duma occasião um escudo contra os raios de tão poderoso ministro. Ainda parece estar viva a memoria d'esses tempos, porque era digno de se notar o respeito cordeal e a filial adoração, que vi tributar ao velho marquez.

EST.  II.
Dos potros no campo.
Manoel Carlos de Andrade, Luz da liberal, e nobre arte da cavallaria (1790)

Obedeciam aos seus mais leves acenos, e as pessoas a quem elles se dirigiam mostravam-se gratas e animadas: os seus filhos, o marquez de Tancos e D. José de Menezes, dobravam o joelho sempre que se approximavam delle para lhe offerecer alguma coisa, e o conde de Villa Verde, o herdeiro da grande casa de Angeja, tanto como o vice-rei do Algarve, faziam circulo de pé com os outros em volta d'elle, acolhendo uma palavra graciosa ou affavel com o mesmo reconhecido interesse de cortesãos pendentes dos sorrisos e do favor do seu soberano.

EST.  LXXVIII.
Do  Excellentijfimo  Marquez  de  Marialva,  formando  hum  Cavallo  na
acção  das  Garupadas  para  a  direita.
Manoel Carlos de Andrade, Luz da liberal, e nobre arte da cavallaria (1790)

Lembrar-me-hei por muilo tempo das gratas impressões que me deixou esta scena de reciproco affecto : parecia uma troca mutua de sentimentos cordeaes — beneficência distribuída sem calculo nem affectação, e protecção recebida sem malévolo ou abjecto servilismo.


Quam preferível é um governo patriarchal como este ás frias theorias que pretendem estabelecer alguns sophistas pedantes, e que, se elles conseguissem realisar os seus impios desvarios, solapariam rapidamente os melhores e mais seguros esteios da sociedade.

Panorâmica da linha de costa e Torre de Belém no início século xx.
Arquivo Municipal de Lisboa

Quando os paes deixam de ser honrados pelos seus filhos, e as édades e as condições, que carecem de protecção, desconhecem os sentimentos de grata sujeição, os reis cessarão em breve de reinar, e as republicas deixarão de ser governadas pelos conselhos da experiência; a anarchia, a rapina e a carnificina devastarão a terra, e a morada dos demónios mudar-se-ha do inferno para o nosso desgraçado planeta. (2)


(1) Olisipo n. 102, abril de 1963
(2) A côrte da rainha D. Maria I. Correspondencia de William Beckford

Mais informação:
Pedro José de Alcântara de Meneses Noronha Coutinho (1713-1799) (Wikipédia)
O Palácio que desapareceu 2 vezes
Manoel Carlos de Andrade, Luz da liberal, e nobre arte da cavallaria (1790)

Manoel Carlos de Andrade, Luz da liberal, e nobre arte da cavallaria (1790) (Wikipédia)
Manoel Carlos de Andrade, Luz da liberal, e nobre arte da cavallaria (1790) (1ª Parte das gravuras)
Manoel Carlos de Andrade, Luz da liberal, e nobre arte da cavallaria (1790) (2ª Parte das gravuras)