sábado, 24 de setembro de 2016

Henrique Pinto, João Vaz, Casanova e eu

Em uma bella tarde de primavera, depois de ter recebido em uma graciosa carta escripta na lingua de Cervantes, um amavel convite do meu amigo Casanova, para o acompanhar a Setubal, onde elle ia copiar o panorama da cidade, panorama com que foi inaugurada essa bella publicação do Portugal Pittoresco [1883], dirigi-me para a estação dos vapores do Terreiro do Paço em companhia do distincto aguarellista.

Lisboa, litografia aguarelada, Enrique Casanova, 1883.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Tomamos bilhete do caminho de ferro, e ao embarcarmos, deparámos com outro artista: Henrique Pinto, um bello rapaz, com quem passei uma boa parte da minha mocidade n'esses bons tempos da Academia.

Tínhamos então por mestre Thomaz José da Annunciação (1821–1879), que nos estimava a todos d'aquelle tempo mais como filhos do que como discípulos. Era o Coelho, o Verissimo, o Malhoa, o Climaco, Pinto e eu [Monteiro Ramalho?]; todos em excellente camaradagem, inutilisando télas com estudos "d'aprés nature", mais ou menos felizes, cheios de boa vontade e estimulados pelo mestre, que nos estimava deveras.

Paisagem com figura e gado junto ao Castelo de Palmela, Tomás da Anunciação, 1865.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

De todos o que menos aproveitou foi justamente o auctor d'estas linhas, não porque não cursasse o estudo com verdadeiro amor, mas porque a maior parte do tempo o perdia admirando o trabalho alheio.

A arte não perdeu com isso. Mais tarde, o que era de prever, seguimos todos vida diversa. Deixamos seccar as tintas na paleta, os pinceis endureceram e os nossos verdes anos foram em busca de posição mais lucrativa. 

O mestre tambem passado algum tempo foi repousar eternamente debaixo da sombra dos cyprestes.

Que intima saudade! Henrique Pinto é que nunca desamparou o seu posto. Atropellando todas as dificuldades, foi sempre trabalhando com assombrosa tenacidade. A arte foi sempre o seu grande ideal.

Castelo de Palmela, lápis sobre papel, Manuel Henrique Pinto.
Imagem: Manuel Henrique Pinto no Facebook
Como ia dizendo, Henrique Pinto estava dentro do vapor; ia tambem para Setubal. Trocamos um bom aperto de mão, e em alegre convivio, fomos todo o trajecto.

Chegados a Setubal, Henrique Pinto foi para casa de João Vaz e Casanova e eu fomo-nos hospedar no "Escoveiro", um magnifico hotel, onde depois de nos serviram um bom jantar, vieram visitar-nos Henrique Pinto e João Vaz.

Praça do Bocage c. 1900, Palácio Araujo à direita da igreja de S. Julião onde esteve instalado o hotel Escoveiro.
Imagem: Delcampe

João Vaz é um d'estes rapazes que basta vél-os a primeira vez para se ficar logo sendo amigo. De uma physionomia altamente sympathica, é de uma verdadeira prodigalidade em extremos de delicadeza. A sua conversação é variadissima e sempre animada, rindo com um ar franco e obrigando os outros a rir com os seus ditos de bom espirito.

No dia seguinte embarcamos e fomos procurar no Sado o melhor ponto onde Casanova fizesse o seu trabalho.

Setubal, gravura aguarelada, Enrique Casanova 1883.
Imagem: Olisipo

Passamos a bordo quasi todo o dia, e proximo da noite fomos pagar a visita a João Vaz.

Elle recebeu-nos no seu "atelier, porque; ainda não disse, João Vaz é tambem artista, mas um artista de grande merecimento, firmando o sea nome muitas telas, especialmente no genero da "marinhas", estudo a que elle se tem dedicado com bom exito.


Depois do mais bello cavaco e de nao termos saido de sua casa sem trazermos cada um seu quadro, fomos todos ao Club, aprecial-o novamente como pianista e, depois de nos deliciar com algumas producções da sua lavra, combinamos ir no dia seguinte a visitar o castello de Palmella.

Que agradavel passeio! De Setubal a Palmella a estrada é deliciosa, tão bonita e pittoresca que o trem que nos conduzia foi obrigado a parar porque nós assim o exigimos.

Oliveiras em Azeitão, óleo s metal, Tomás da Anunciação 1860.
Imagem: Diamantino Vasconcelos

Eu extasiado com a belleza da paizagem, os meus companheiros contentes de haverem encontrado mais um assumpto para os seus albuns. Faz gosto jornadear em companhia de artistas quando elles possuem tão excellente comprehensão do bello! 

Mais alguns minutos de demora e nós em Palmella, subindo a escarpada montanha, escorregando aqui, caindo acolá e, de quando em quando, olhando a traz, maravilhando a mim e a Casanova tão seductor ponto de vista.

Os nossos amigos já conheciam o sitio, mas creio bem que tão demorada attenção nunca lhe tinham prestado. Entrámos dentro do vetusto Castello, uma mal cuidada religuia a que guarda agora o pó das ruivas um pequeno destacamento de velhos reformados como a dizer que: sentinella e posto estão em perfeita harmonia.

O Castello de Palmella é uma das fortalezas que, apesar de tudo, existem em melhor estado de conservação. Possue uma torre de menagem onde existe uma casa quadrada com uma escada por onde se desce para um subterraneo e, proximo da entrada d'este subterraneo, ha outra casa com uma cisterna no centro, onde esteve preso o bispo de Evora, D. Garcia de Menezes.

Tudo derrocado, caído, abandonado, de molde a poetas e romancistas irem para ali inspirar-se. Foi para um dos montes fronteiros, a carta distancia, que junto de um moinho nos fomos sentar. 

Palmella (moinho), João Vaz.
Imagem: Diamantino Vasconcelos

Casanova desenhou e aguarelou no seu block a vista do Castello tal qual está representada na gravura que hoje damos, e que é uma das que illustram o esplendido Almanach Illustrado (1882-1888), de Francisco Pastor [editor, também da Semana Illustrada, colaborador do Diário Illustrado e director artístico do Correio da Europa].

Castello de Palmela, Enrique Casanova, 1883.
Imagem: Hemeroteca Digital

Quando Casanova, Pinto e João Vaz acabaram de desenhar, partimos todos para Lisboa, á excepção do ultimo, que ficou em sua casa, em Setubal, onde vive para a familia que o adora e para a arte que o seduz.

Quando nos despedimos prometti que não guardaria em silencio a impressão de dois dias tão bem passados. Chega agora a occasião de pagar a divida. Pago os juros, que o capital... só á vista. (1)


(1) M, Diário Illustrado, 10 de dezembro de 1883

Leitura adicional: Enrique Casanova, Diário Illustrado, 5 de setembro de 1883

1 comentário:

iorik disse...

Muito, muito interessante! Muito obrigado!