segunda-feira, 3 de março de 2025

Embarcação de pesca local (memória descritiva)

Memória descritiva de embarcação de pesca local, do tipo chata, de construção em plástico reforçado a fibra de vidro (PRFV), para operar na Costa Continental Portuguesa em regime diurno, produzido pela Gilmarine – Fabricação de Navios, Lda, com sede em Cascais.



Apesar de ser a típica embarcação para operação em águas marítimas pelos marítimos das comunidades da Trafaria, Costa da Caparica e Fonte da Telha, muitas destas embarcações também estão habilitadas com licença de pesca para a zona rio Tejo, onde realizam pesca de forma cumulativa à pesca em águas marítimas. (1)

Índice

1 Introdução;
2 Carga máxima;
3 Estrutura;
4 Sistema de propulsão e governo;
5 Sistemas eléctricos e hidráulicos;
6 Meios de salvamento;
7 Meios de protecção contra Incêndios.

1 Introdução

A presente Memória Descritiva refere-se a uma embarcação de pesca local de tipo aberto, de construção em Plástico reforçado com fibra de vidro (PRFV) a operar na Costa Continental Portuguesa, em regime diurno e com as seguintes características de projecto:

Comprimento Fora a Fora: 6.42 metros;  
Boca Máxima: 2.64 metros;
Pontal: 0.92 Metros;
Imersão de Projecto: 0.30 metros;
Deslocamento Leve: 900 Kg;
N.° de Tripulantes: 5 Tripulantes;
Max. Potência do Motor Principal: 44 KW (60CV).
Tonelagens: GT = 2.0973 - NT = 0.6292


2 Carga máxima

As cargas máximas para a qual a embarcação foi concebida são:

Peso Leve da Embarcação: 800Kg;
Peso da tripulação: 5 x 75 Kg = 375 Kg;
Peso do Motor Principal: 120 Kg;
Peso do Combustível: 50 L x 0.805 = 40.25 Kg;
Peso das Artes: 500 Kg;
Peso do Pescado: 1000 Kg; .
Total: 2735.25 Kg


3 Estrutura

A embarcação é de construção monolítica em PRFV com duplo fundo estanque (que assegura a flutuabilidade em caso de alagamento).


O reforço estrutural é composto de três longitudinais no fundo e um cavername com três cavernas de célula frechada e quatro anteparas simples separadas de 0.70 Metros.

Chata em plástico e fibra de vidro
Gilmarine, Fabricação de Navios, Lda.
EC Marginal Cascais, apt. 1117, 2751-902 Cascais

A zona de proa tem um pequeno castelo também em PRFV para a guarda de material e a zona da popa tem duas anteparas longitudinais separando a zona do motor do espaço destinados ao governo da embarcação e do espaço destinado ao gerador hidráulico, este a estibordo.

Toda a borda está protegida por um talabardão em aço inoxidável, assim como o fundo, que é totalmente chapeado, uma vez que após a faina a embarcação é rebocada para seco pela praia.

Com o mesmo fim a proa recebe um reforço no local do olhai por onde é feito o reboque A estrutura do casco na secção mestra tem uma espessura de aproximadamente 8 mm na obra morta e de 10 mm na obra viva distribuidas da seguinte maneira:

Camada exterior de "Gel Coat";
Primeira camada do estratificado em" Mat" 300 g/m2; - "Mat" 300 + "Rov" 500 + "Mar 300;
Na obra viva: 4 * "Mat" 450 + 3* "Rov" 500 intercalados;
Na obra morta: Coremat 2rnm + "Mat" 300 + "Rov" 500 + "Mat" 300;
3 Longitudinais de PRFV com 3* "Rov" 500 + 3 * "Mar 450 intercalados;
Cavernas de construção semelhante aos longitudinais;
Duplo fundo em PRFV de 10 mm de espessura aproximadamente.


4 Sistema de propulsão e governo

A propulsão é efectuada com o recurso a um motor de explosão fora de bordo a gasolina, com 44 KW (60 Cv), alimentado por um ou vários depósitos transportáveis.

O governo da embarcação é efectuado através da rotação no eixo vertical do próprio motor com o recurso a um punho, no qual ainda esta instalado o sistema se aceleração e reversão do sentido de rotação do hélice.


5 Sistemas eléctricos e hidráulicos

O sistema eléctrico da embarcação é constituido por uma bateria de chumbo do tipo marítima que é alimentada pelo gerador (alternador) do motor principal no caso deste estar equipado com arranque eléctrico, caso contrario este sistema é inexistente.

O sistema hidráulico é constituido por uma bomba hidráulica accionada por um motor autónomo a gasolina e por um alador hidráulico localizado a vante do parque de trabalho.


6 Meios de salvamento

A embarcação será dotada de todos os equipamentos prescritos e aprovados pelas Autoridades Marítimas:

Uma bóia circular;
Um colete salva-vidas para cada tripulante (5).


7 Meios de Protecção Contra Incêndios

A embarcação tem como sistema de protecção incêndios um extintor de CO2 de 2 Kg no castelo de proa, em local de fácil acesso. (2)

ooOoo

Cronológicamente, sucede a embarcação aqui descrita à sua predecessora em madeira, das décadas de 1980 e 1980, pela qual foi modelizada (v. imagem abaixo).

Graziela Pena TR-1367-L
Costa da Caparica. Vila piscatória recheada de encantos pitorescos, ed. Borges Garcia n° 206
postal  circumlado em 1993
eBay


(1) Marco Pais Neves dos Santos, Pesca comercial nas águas interiores não marítimas do estuário do rio tejo, contributos para o seu melhor conhecimento, melhoria da sustentabilidade socio-económica e proteção do ambiente estuarino, Sintra, junho de 2022
(2) Idem, cf. cedência de Joaquim Gil Sousa Piló, Presidente do Sindicato Livre dos Pescadores e Profissões Afins, em 18 de março de 2020

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

José de Lemos

Foi um ser humano extraordinário, o maior desenhador do segundo modernismo, um invulgar contador de histórias para crianças, um infatigável trabalhador e, também, um pintor de mão feliz. Foi, com o meu pai e outros mais, fundador do «Diário Popular», e criador da admirável Página Infantil daquele vespertino, onde, por sua estima, comecei a escrever, com 14 anos.

Hoje há palhaços, José de Lemos, Diário Popular (página infantil), 31 de março de 1956
Hemeroteca Digital de Lisboa

Devo, ao Zé de Lemos, a ternura, o afecto, a amizade sem mácula, a bonomia, a solidariedade e a grandeza humana. Logo pela manhã, 7 horas, sentava-se ao estirador, colocado na Redacção, e desenhava e ilustrava todos os textos que lhe entregavam (...) (1)

José Neves de Lemos (1910-1995) foi um desenhador, ilustrador e escritor.

Nasceu em Lisboa, e cursou a Escola Preparatória Rodrigues Sampaio. Muito cedo revelou a sua vocação para o desenho. Inconformista por natureza, considerava-se um autodidacta perante a arte que escolheu.

José Neves de Lemos, 1980
MutualArt

Adolescente ainda começo a colaborar em diversas publicações, como o «Rebate», jornal republicano, um dos primeiros onde viu desenhos seus publicados. Mais assiduamente, o seu traço apareceria nas páginas de «O Papagaio», «Sempre Fixe» e «Diário de Lisboa». Ao ingressar no quadro de fundadores do «Diário Popular», José de Lemos passou a desenhar quase exclusivamente para aquele jornal.

Riso amarelo, Diário Popular, José de Lemos, 1974
José de Lemos, Riso amarelo e outros cartoons

Como "cartoonista", notabilizou-se com o "Riso Amarelo", uma rubrica com desenhos e comentários assertivos sobre a realidade que marcou a sociedade através das páginas do antigo conhecido vespertino. (2)

José de Lemos (Lisboa, 1910-1995) iniciou sua carreira na imprensa em 1927. Destacou-se pelas suas ilustrações em textos de ficção e no suplemento Acção Infantil. A partir de 1942, ilustrou generosamente o Diário Popular, especialmente nos suplementos Volta ao Mundo e Sábado Popular.

O seu trabalho na Página Infantil foi uma exceção na literatura infantil da época, chocando o público pela ausência de lições de moral e de elegias à História Pátria.

Histórias malucas, José de Lemos, 1947
Almanak Silva

José de Lemos também ficou conhecido pelas suas crónicas mordazes, incluindo a famosa rubrica «Riso Amarelo», que retratava a vida em Lisboa durante a ditadura salazarista. José de Lemos faleceu em 1995, quatro anos após a última edição do Diário Popular, o jornal que foi a razão e o legado da sua vida. (3)

Desce a Calçada da Estrela e sobe a do Combro. Todos os dias. Da casa em Campo de Ourique para o Diário Popular, na Rua Luz Soriano, ao Bairro Alto. No jornal, acende o candeeiro, senta-se ao estirador, afia o lápis, limpa o aparo, inteira-se das notícias do dia.

Por dezenas de anos, será esta a rotina de José de Lemos, um caso à parte na multidão de génios da ilustração portuguesa do século XX. O seu traço modernista, de altos contrastes, não terá mestre nem discípulos. A literatura para crianças e o vespertino Diário Popular marcarão a sua vida e obra.

José de Lemos
José de Lemos, Riso amarelo e outros cartoons

Lemos (Lisboa, 1910-1995) inicia-se na imprensa no satírico Sempre Fixe. Brilhará também n’O Papagaio, revista infantojuvenil católica, e no suplemento Acção Infantil, ensaio das futuras páginas dedicadas aos miúdos no Diário Popular. (4)

José de Lemos por Osvaldo Macedo de Sousa, in JL – Jornal de Artes e Letras de 19/3/1985

Quem é José de Lemos? Antes do mais, um «histórico» do humor português, um sobrevivente daquela plêiade de humoristas que teimaram fazer humor durante o salazarismo, um companheiro de Stuart Carvalhais, Francisco Valença, Carlos Botelho, Teixeira Cabral… trabalhando no «Sempre Fixe». No «Diário de Lisboa» e finalmente no «Diário Popular», onde ainda hoje se mantém. Do trabalho realizado neste periódico publicou há tempos um álbum de «Riso Amarelo e outros cartoons».

Riso amarelo, Diário Popular, José de Lemos, 1979
Fidalgo O Gosto do Vinho-Restaurante, Wine Bar & Tapas (fb)

Como segundo traço para o seu retrato, temos que o encarar, não como um cartoonista, mas como um jornalista, um redactor de jornal que optou pela grafia do desenho em vez da escrita. Uma opção que pode paradoxa, num escritor reconhecido de sensibilidade e talento.

Esse será o terceiro traço e, talvez, aquele que mais lhe agrada – o de escritor de contos infantis. Foi também este que mais satisfações lhe deu. José de Lemos tem vários livros de contos publicados, vários prémios e está representado em Antologias Internacionais de Contos Infantis. Esta carreira literária começou-a no «Diário Popular»: «Comecei a fazer a página infantil do “Diário Popular” e António Pedro (que dirigia então o jornal) é que me incentivou nos contos; moralista é aquele que aconselha a não fazer aquelas coisas que ninguém pensou fazer. Eu, pelo contrário, fazia crítica e até nestas histórias infantis fazia crítica política.»

OMS – José de Lemos é um contista, um redactor e perante isto não é necessária a seguinte pergunta, mas o esquema proposto no início desta série de entrevistas assim o impõe. Considera-se humorista, cartoonista ou caricaturista?

José de Lemos – Não me considero nada. Eu sou é pintor, apesar de não gostarem do que eu faço. Humorista? Humor é dizer algo com uma certa crítica, uma certa ironia. Eu não desenho para fazer humor, mas para fazer crítica e, criticando-se com ironia, é-se muito mais incisivo.

José Neves de Lemos, 1974
MutualArt

Desta forma, o muito sério pode vir a ser cómico, e o cómico vir a ser sério. O humorismo é uma coisa muito séria e deve fazer pensar, mais do que rir. No meu trabalho, faço tudo para ser um jornalista, porque a pintura é uma reportagem, o desenho é reportagem… a crítica são artigos. O cartoonista é um redactor, um trabalhador de jornal igual aos outros.

OMS – Apesar do desprezo intelectual pela comicidade, consideras o humorismo gráfico dentro das artes?

José de Lemos – O mais importante que o artista faz, é aquilo que está a fazer no momento. A arte é arte, é tudo. A dança – o bailado nasce logo nos primeiros gestos das crianças. Picasso dizia: “Arte é o homem que entra nu na floresta e sai de lá vestido”. Todas as profissões devem ser uma arte, e todas devem servir umas às outras. Arte é aquilo que fazemos com amor, respeito, ambição.

A grande maravilha (folheto publicitario Gazcidla), José de Lemos, 1958
Garfadas on line

OMS – Neste campo quem são os teus artistas preferidos? Algum deles o influenciou?

José de Lemos – Não tive influencias. Tenho respeito por todos. Fui amigo de todos os grandes, do Stuart…. Admiro o João Abel Manta porque para mim, ele é o “operário”, trabalha tudo com profundidade.

OMS – Achas que trouxeste alguma coisa de novo ao humor gráfico português?

José de Lemos – O que eu trouxe foi mais para as crianças com o “dr. Sabichão”, “Hoje há palhaços”… fazia historias e bonecos, mas o meu maior orgulho é a secção de “Palmo e meio”. Nada há mais bonito do que a criança a sorrir, mesmo que tenha os dentes podres.

OMS – A existência da censura até 1974 influenciou a tua obra? Tens algum desenho censurado?

José de Lemos – Alguma coisa, mas havia sempre maneira de dizer e fazer as coisas de forma que a censura não compreendesse. O pior era o chefe de redacção, que não só censurava, como nos criticava em público.

OMS – Eça de Queiroz dizia que o humor no constitucionalismo é pelo menos uma opinião. Para ti é uma opinião, ou uma forma de manipulação?

José de Lemos – Acho que deve ser uma opinião sobre a vida cara, os impostos… Devemos tentar ser justos, em vez de servir os clubes, os partidos…. O humor deve ser elevado e não ordinário. Gostava que o humor fosse feito por «gentlemans»

Riso amarelo, Diário Popular, José de Lemos, 1974
Exposição Riso amarelo, Kuentro 2

OMS – O humor gráfico português tem actualmente alguma característica específica, que o distinga do que se realiza no resto do mundo?

José de Lemos – Acho que sim, apesar de ser um pouco «saloio», do ponto de vista estético. Os públicos são quase todos iguais, dependendo os matizes unicamente do civismo de cada um. Tudo depende do grau de educação. O humor do povo é um pouco cruel, pois o nosso homem do povo crê saber tudo e ter solução para tudo. O humor em Portugal é a discussão entre uma pessoa mal educada e outra bem educada.

OMS – Hoje pode-se dizer tudo o que se quer através do desenho?

José de Lemos – Hoje pode-se e não se deve dizer. Eu sou a favor da autocensura, e que não seja preciso censuras estranhas, o que não impede a crítica ou a irreverência- Eu sou irreverente, mas peço licença, desculpa.

José de Lemos, Riso amarelo e outros cartoons
Humor fabricado em Portugal
Estaminé, Estúdio de Arte Comercial, Lda. s/d (197?)


Acabada a entrevista lá o deixamos entregue ao seu humor amarelo, triste; deixamo-lo com os seus belos contos e um grande sorriso para as crianças; deixamo-lo resmungando contra a roupa molhada que pinga sobre os transeuntes, contra a má educação das pessoas. (5)


(1) Baptista Bastos in José de Lemos, Riso amarelo e outros cartoons, Humor fabricado em Portugal, Estaminé - Estúdio de Arte Comercial, Lda. s/d (197?), cf. artelection
(2) José de Lemos, Riso amarelo e outros cartoons, idem (fb)
(3) Exposição José de Lemos em Matosinhos, clube da criatividade portugal
(4) José de Lemos, idem
(5) humorgrafe

Mais informação:
Este jornal pertence a… Almanak Silva
O Compadre Simplório tem os pés tortos, idem
Histórias malucas, ibidem
Fidalgo O Gosto do Vinho-Restaurante, Wine Bar & Tapas (fb)
José de Lemos na Casa do Design, TVsenhoradahora
Exposição Riso amarelo, Kuentro 2
José de Lemos, Abysmo
A grande maravilha, segundo José de Lemos, Garfadas on line
José Neves de Lemos, MutualArt
BestNet Leilões

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Largo do Costa Pinto (1887)

Ainda bem que os burros cacilheiros não estão no Largo, porque se pilham o Costa Pinto todo vestido de verde, como Porphyrio o pintou, chamam-lhe um figo, mesmo á porta do café "Progresso", n.° 79. (1)

Largo do Costa Pinto (Cacilhas), Porphyrio Henriques da Fonseca, 1887
(apresentado na décima quarta exposição da Sociedade Promotora das Bellas-Artes, quadro n.° 65)
Cabral Moncada Leilões

Porphyrio Henriques da Fonseca (1850-?)

Natural de Torres Novas, filho de Francisco Henriques da Fonseca e Engrácia Maria da Cunha, foi admitido à frequência da ARBAL em 6 de Outubro de 1867, onde começou por frequentar as aulas de Desenho Histórico e Desenho de Arquitectura Civil.

Foi discípulo de Joaquim Pedro Aragão, Vítor Bastos, Miguel Ângelo Lupi, Tomás da Anunciação e Joaquim Pedro de Sousa em Desenho Histórico, e de João Pires da Fonte e José da Costa Sequeira em Arquitectura.

No primeiro ano lectivo do curso de Desenho Histórico (1867-1868), foi premiado com um partido pecuniário de 20$000 réis, na classe de Desenho por Estampa.

Concluída a sua formação em Desenho Histórico, que aconteceu no ano de 1870, foi admitido ao estudo superior da Pintura Histórica, donde se despediu no dia 5de Junho de 1873, por se achar pouco habilitado para o concurso trienal desse ano. No entanto, em 1874, figurou com pintura na 10.ª exposição da SPBA e edições seguintes. (2)


(1) Pontos nos ii, 26 de maio de 1887
(2) Alberto Faria, A Colecção de Desenho Antigo da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa (1830-1935)... vol. iii

Artigo(s) relacionado(s):
Café Progresso, Largo do Costa Pinto

Jayme Arthur da Costa Pinto:
Almada virtual (Google search)
Mar de Caparica (Google search)

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Finis terrae

A última vista da cidade será uma cortina de gaivotas enfurecidas a levantarem-se entre mim e o Tejo.

Na altura estarei, ou estou ainda, sentado num café-snack do Terreiro do Paço junto ao cais dos cacilheiros, com uma larga vidraça a separar-me do rio. Café Atinel, que nome mais estúpido. Olho as mesas vazias e pergunto-me por que razão é que um sítio assim, tão privilegiado, consegue estar desconhecido. Por mim não quero outra coisa: barcos que chegam, barcos que partem, gente de entrar e sair a servir-se ao balcão, e eu sentado em cima do Tejo.

Lisboa, Atinel (Lenita) bar, Cais dos cacilheiros, ed. Cómer
Delcampe


Tal como estou tenho a cidade pelas costas. Comércio, multidão, Europa, fica tudo para trás. Lá as pessoas andam todas a perguntar as horas umas às outras, enquanto que neste reduto para aqui esquecido sabe-se do correr do dia pelo mudar da cor do Tejo, e não me digam que não é uma felicidade estar-se assim, à mesa sobre as águas, com gaivotas a saírem-nos debaixo dos pés e a passarem-nos a dois palmos dos olhos num bailado de gritaria.

Esplanada junto da Estação Sul e Sueste (Atinel/Lenita), Artur Pastor (1922-1999), década de 1980
As Cores de Lisboa


Tempo bom, o desta solidão. tempo melhor ainda, lembram os eméritos de biblioteca num ulissiponês de fazer inveja , quando se via a olho nu o promontório da Lua por toda essa costa além. Tempo, dizem, em que nas margens da Outra Banda havia areias que escorriam ouro (Marco Terêncio fala disso) e pastagens celestes onde as éguas emprenhavam pelo vento. Tempo de poeiras luminosas e lágrimas lunares. E de pérolas. e de tritões. Tritões cantadores como aquele que consta da Descrição da Cidade de Lisboa de Damião de Góis." (1)


(1) José Cardoso Pires, Lisboa, Livro de Bordo, vozes, olhares, memorações, Lisboa, Dom Quixote, 1997

Artigos relacionados:
A janela de José Cardoso Pires
Costa da Caparica de José Cardoso Pires
A charrua entre os corvos
O anjo ancorado

Leitura relacionada:
Sérgio Massagli, Lisboa, Livro de bordo, entre os espacos...

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Casa de campo por Adelino Nunes

Foi ainda há muito pouco tempo acabada de construir, esta bonita casa, na mata da Costa da Caparica, sendo propriedade do Ex.mo Sr. José Pereira Mendes.

Costa da Caparica, casa de Campo na Mata, projecto do arquitecto Adelino Nunes.
Arquitectura, revista mensal, julho 1931

O projecto é da autoria do nosso colaborador, o arquitecto Adelino Nunes, que neste género de edificações tem produzido algumas boas casas, tanto no que respeita a fachadas agradáveis e de boa proporção, como na disposição das plantas, que é sempre motivo de sério estudo.

Costa da Caparica, casa de Campo na Mata, projecto do arquitecto Adelino Nunes.
Arquitectura, revista mensal, julho 1931

Apresentamos só a fachada principal, porque as restantes fachadas são a sequência dessa, como não podia deixar de ser. A construção desta casa é muitissimo simples, mas também, como os leitores vêem, muitissimo agradável.

O muro da frente que dá para a estrada, com os seus motivos de tejolo, completa o conjunto e estabelece euretmia com a paisagem. (1)


(1) Arquitectura, revista mensal, julho 1931

domingo, 25 de agosto de 2024

Carolina do Aires por Maurício de Vasconcelos

No domingo passado, dia 30 de Março o dia começou bem cedo. Fui para a Costa da Caparica, visitar o restaurante Carolina do Aires e a casa do Dr. Luciano Carvalho (1964), uma casa desenhada em contexto urbano e com um programa diferente das que estou a estudar, por se tratar de uma casa de férias.

Costa da Caparica, década de 1970
Delcampe

Dirigi-me ao restaurante Carolina do Aires e uma vez que era hora de almoço decidi parar e aproveitar a oportunidade para entrar no restaurante e assim "sentir na pele o espaço".

Proposto, inicialmente, como um objecto para uma permanência de carácter temporário, Maurício desenha toda a estrutura em madeira, sendo rapidamente desmontável caso fosse necessário.

Costa de Caparica
Alçados do restaurante Carolina do Aires pelo arquitecto Maurício de Vasconcelos
Arquio Histórico de Almada


Apesar de se encontrar muito alterado, pelo menos exteriormente, percebe-se claramente a intenção do arquitecto, a procura de uma ligação interior exterior.

Costa da Caparica, restaurante Carolina do Aires, década de 1980.
Delcampe

Por dentro ficámos maravilhados com a dinâmica imposta pela estrutura da cobertura e por todo o ambiente de recolhimento e conforto proporcionado pela madeira. (1)


(1) Single family houses by Mauricio de Vasconcelos, 1950-1970

Nota: são ainda de Maurício de Vasconcelos a autoria dos equipamentos de praia de apoio aos banhistas no âmbito da campanha de 1969, "Há e mar, há ir e voltar" de Alexandre O'Neil.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Gil Vicente (os tipos na Copilaçam de 1586)

Estava a rainha D. Maria doente de parto. Nascera-lhe o que ia ser D. João III, o colonizador do Brasil. Uma noite, irrompe-lhe pelo quarto do resguardo, o ourives da rainha mãi, Gil Vicente, fantasiado de pastor, o qual, subreptício e surpreendente, como seria a sua obra inteira, se pôs a recitar, em homenagem à soberana e ao filho augusto, o que depois se veio achamar o monólogo da Visitação ou do Vaqueiro (1502) (...)

Auto da Visitação (ou Monólogo do Vaqueiro)
Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente (edição de 1586)

Por quanto a obra de devoção seguinte procedeu de uma Visitação que o autor fez ao parto da muito esclarecida rainha Dona Maria, e nascimento do muito alto e excelente príncipe Dom João, o terceiro em Portugal deste nome, se põe aqui primeiramente a dita Visitação por ser a primeira cousa que o autor fez e que em Portugal se representou, estando o mui poderoso rei Dom Manuel, a rainha [Dona Leonor, sua irmã, a infanta Dona] Beatriz, sua mãi, e a senhora duquesa de Bragança sua filha, na segunda noite do nascimento do dito senhor.

Auto da Visitação (ou Monólogo do Vaqueiro)
Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente (edição de 1586)

E estando esta companhia assim junta, entrou um vaqueiro, dizendo:

PARDEUS! Sete arrepelões
me ferraram à entrada,
mas eu dei uma punhada
num daqueles figurões (...) (1)


E por ser cousa nova em Portugal, gostou tanto a rainha velha desta representação que pediu ao autor que isto mesmo lhe representasse às matinas do Natal, endereçado ao nascimento do redentor. E porque a substância era mui desviada, em lugar disto fez a seguinte obra. (2)


(1) Celebração Vicentina
(2) Noémio Ramos, Gil Vicente, Auto da Visitação

Artigos relacionados:
Gil Vicente e outros (os tipos nas folhas volantes)
Gil Vicente (personas)
Embrechados (3 de 5)

Mais informação:
Carolina Michëlis de Vasconcelos, Notas Vicentinas, preliminares de uma edição critica das Obras de Gil Vicente, 1912
Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente (edição de 1562)
Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente (edição de 1586)
Uma proposta crítico-discursivo-filológica de análise da censura: emendas inquisitoriais na edição de 1586 da Compilação de todas as obras de Gil Vicente
Gil Vicente, Teatro 1502-1536
Gil Vicente, o autor e a obra
Denise Rocha, Xilogravura do Auto de Inês Pereira (1523) de Gil Vicente
Conde de Sabugosa, Embrechados, Lisboa, Portugal-Brasil Lda., 1911

Leitura relacionada:
Maria José Palla, Gil Vicente as artes plásticas
As Barcas, de Gil Vicente, cinco séculos depois
Gil Vicente (HathiTrust)