sexta-feira, 12 de julho de 2019

Santa Catarina do Monte Sinai (3 de 4): D. Beatriz de Bragança (1504-1538)

Com D. Beatriz viajavam, na Santa Catarina do Monte Sinai, D. Martinho de Castelo Branco, conde de Vila Nova de Portimão, capitão-mor e governador de toda a frota, a quem D. Manuel entregou a filha, acompanhado de muitos criados e parentes, filhos, genros e netos, na segunda nau da armada seguia o arcebispo de Lisboa, D. Martinho da Costa, que viria a falecer no torna-viagem, em Gibraltar. 

Retrato da Duquesa de Sabóia, Beatriz de Bragança (1504-1538), por um pintor piemontês (detalhe).
Google Arts & Culture

Além da comitiva, D. Beatriz levava uma grande casa, com oficiais próprios, com destaque para o mordomo-mor, João Lopes de Sequeira, e o bispo de Targa como capelão-mor, moços de capela, guardas-damas, porteiros de maça, moços de estribeira, reposteiros, cozinheiros e homens de ofício, seis charamelas, três violas de arco, uma cítara, oito trombetas e seis tambores.

No que respeita ao elemento feminino, entre as damas que a acompanhavam encontrava-se D. Leonor da Silva, que ia como camareira-mor, D. Mécia, filha de D. Dinis, irmão do duque de Bragança, D. Maria de Noronha, Inês de Melo, Francisca de Lacerda, e várias outras, além da sua ama Inês Álvares e sua filha Francisca, moças de câmara e guarda-roupa. 

Retábulo de Santa Auta, painel central, Martírio de Santa Úrsula e das Onze Mil Virgens, c. 1520-1525.
Wikipédia

Muita gente, que era também preciso alimentar, e por isso seguiam também muitas provisões, que iam do pão às aves e à caça, incluindo 10 arrobas de açúcar que o rei mandou entregar, a 20 de Julho, a Martinho Vaz, guarda-reposte da duquesa.

Tudo estava finalmente a postos para uma partida que o rei desejava se efectuasse a 25 de Julho, dia de Santiago. Mas a jovem duquesa adoeceu de febres, de que só se restabeleceu cerca de 2 semanas mais tarde. Domingo, dia 4 de Agosto, saíram do paço da Ribeira, pelas quatro horas da tarde, o rei D. Manuel, a rainha D. Leonor, o príncipe D. João, os infantes e infantas, vestidos de gala, o rei à flamenga, o príncipe D. João à portuguesa, outros à saboiana. 

A duquesa-infanta seguia numa liteira com a rainha D. Leonor, a infanta D. Isabel numa mula, com guarnição e andilhas de chaparia de ouro. 

Garcia de Resende descreve de forma minuciosa e visual esta jornada que levou a família real e corte pela cidade, cheia de povo, da Tanoaria à Rua Nova, "que estava mui formosa cousa, toda armada de mui rica tapeçaria" e daí até à Sé, onde fizeram as suas orações. 

Rua Nova dos Mercadores, aut. desc., século XVI.
Society of Antiquaries of London

Encaminharam-se em seguida para as casas da rainha velha D. Leonor, de quem a infanta D. Beatriz se despediu. Depois, pela Ribeira, a comitiva régia regressou ao paço onde, na grande sala ornada de ricas tapeçarias de ouro, dossel, alcatifas, cadeiras e almofadas de brocado, teve lugar um serão com música e dança.

Rua Nova dos Mercadores, aut. desc., século XVI.
Society of Antiquaries of London

Terminava o baile, já alta a noite; agora, pela mão de Gil Vicente, a Providência, "em figura de Princesa, com esfera e ceptro na mão", enviada por Deus a Júpiter, urgia com este nobre rei, senhor dos elementos, a que fizesse "cortes com solenidade": nelas devia ordenar que ventos, sol, lua e mares fossem propícios à viagem que havia de levar a “alta infante portuguesa, /duquesa pera Sabóia”.

Convocado foi também Marte, deus da guerra, que assegurava perante o rei dos deuses a tranquilidade da viagem. Num outro plano, inserindo-se num imaginário marinho, descrevia depois Gil Vicente o cortejo em que cónegos da Sé e vereadores da Câmara, estudantes e bacharéis, frades e ouvidores, juízes e regateiras, enfim, simbolicamente todo o reino, se transformariam num séquito de homens-peixes para acompanhar a partida da duquesa. 

Numa encenação carregada de referências mitológicas e astrológicas, talvez sublinhadas por algumas das tapeçarias que cobriam as paredes do grande aposento não faltava o "toque" burlesco e satírico que não atingia, no entanto, as personagens de sangue real: os infantes acompanhavam a duquesa, mas em natural majestade, e o príncipe herdeiro seria conduzido por cavalos-marinhos, num andor de ouro; a sua aparência era a de "um Alexandre Segundo". 

Tal como várias outras criações do seu autor, além da construção alegórica, a tragicomédia Cortes de Júpiter evidenciava a plena integração da música na dramaturgia vicentina; quase no desfecho da peça, o "Romance" "Niña era la infanta" foi cantado "por planetas e sinos [sic] a quatro vozes". 

Lisboa, Chafariz d’El-Rey, óleo sobre madeira de carvalho, 93 x 163 cm, autor desconhecido (Colecção Berardo), c. 1570.
Lisboa, cidade africana

O aparato dos festejos que se seguiram até à partida da frota foi extraordinário.

No dia seguinte ao serão no paço, 2ª feira, dia 5 de Agosto, toda a família real, "com grandíssimo estado", acompanhada pelo duque de Bragança e a mais alta nobreza do reino, embaixadores, oficiais e toda a casa da infanta e de muitos músicos e instrumentos, atravessando a sala grande, situada no piso de cima do paço, desceram pela grande varanda e vieram ter a um cais, "que estava dentro de água, tudo armado de mui rica tapeçaria, e o cais alcatifado".

Retrato do rei D. Manuel I, detalhe do vitral do coro da igreja do Mosteiro da Batalha, 1514-1518.
Google Arts & Culture

Embarcaram num grande batel ornado de bandeiras e estandartes de damasco carmesim e branco, as cores heráldicas do rei. 

Em redor deste batel, e seguindo-o, todas as outras naus, galés, galeões e caravelas que compunham a armada ornamentados cada um com suas cores, soando a música das charamelas, trombetas e tambores; muitos outros navios, caravelas e batéis da cidade de Lisboa, embandeirados e enramados, seguiam também a nau onde se deslocava a família real.

Lisboa c. 1500–1510, Crónica de Dom Afonso Henriques, Duarte Galvão.
Wikipédia

O povo de Lisboa apinhava-se nas janelas, a pé e a cavalo na Ribeira para assistir à partida da infanta-duquesa, que grossa artilharia assinalava, atroando os ares.

A nau Santa Catarina do Monte Sinai, ostentando bandeiras e velas de pano branco com as cruzes de Cristo, recebeu a comitiva através de uma grande ponte feita sobre barcas, armada de tapeçaria, onde todos cearam e estiveram até à noite. 

Retiraram-se então os reis e o príncipe D. João, que regressaram ao paço; a infanta D. Isabel, os infantes, o conde de Vila Nova, os embaixadores e demais comitiva que seguiria em breve com D. Beatriz dormiram a bordo da nau, que é descrita quer no seu aparato exterior, quer nos seus luxuosos interiores, aposentos, câmaras – as da infanta "pintadas de ouro e forradas de brocados" – escadas, despensas, cozinhas e ornamentos. 

Santos Mártires Veríssimo, Máxima e Júlia, Desembarque em Lisboa, Garcia Fernandes.
Museu Carlos Machado

A organização espacial dos aposentos destinados à infanta e suas damas e serviçais, descrita por Resende, recorda irresistivelmente os aposentos do paço da Ribeira: no andar de cima, as salas e câmaras da infanta, ornamentadas de tapeçarias de ouro, almofadas de brocado, veludos e alcatifas, e debaixo, com acesso através de escada, "o [aposentamento] das suas damas e mulheres, mais guardado que um encerrado mosteiro". 

No dia seguinte teve lugar um serão a bordo da nau, com a presença dos reis, infantes e membros da corte e séquito da infanta. A partida aproximava-se; o dia seguinte, quarta-feira, 7 de Agosto, foi, segundo o cronista, um dia de lágrimas e saudade, em que as despedidas se faziam já definitivas. 

Beatriz de Bragança (1504-1538).
Google Arts & Culture

No dia 8, pela manhã, a nau Santa Catarina do Monte Sinai largou, e com ela todas as embarcações que compunham a armada que seguia para Nice, seguidas de uma multidão de barcos que da cidade queriam acompanhar a saída da infanta [...] (1)


(1) Ana Isabel Buescu, A infanta beatriz de portugal e o seu casamento na casa de Sabóia (1504-1521)

Informaçao relacionada:
Richard Barker, Showing the flag in 1521: wafting Beatriz to Savoy
Richard Barker, Sources for Lusitanian shipbuilding
Royal Museums Greenwich
Santa Catarina do Monte Sinai (military wikia)
Master of Seas

Santa Catarina do Monte Sinai (2 de 4): no painel central do Retábulo de Santa Auta

A única outra pintura que mostra carracas portuguesas, com detalhe semelhante [a "Portuguese Carracks off a Rocky Coast", Royal Museums Greenwich, referida no artigo precedente], é o painel central do retábulo de Santa Auta.

Retábulo de Santa Auta, painel central, Martírio de Santa Úrsula e das Onze Mil Virgens, c. 1520-1525.
Wikipédia

Esteve anteriormente na capela de Santa Auta (c. 1522, pensando-se que seja coevo), no convento de Xabregas, [então] fora de Lisboa: hoje encontra-se no Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

Santa Auta foi uma das companheiras míticas de Santa Úrsula. O martírio de Santa Auta em Colónia é o tema do primeiro plano e a marinha está representada em fundo. Em 1972 o Ministério de Educação Nacional, Instituto de Alta Cultura, Centro de Estudos de Arte e Museologia, publicou um estudo sobre o retábulo (com referência à pintura que se encontra no National Maritime Museum) intitulado "Retábulo de Santa Auta: estudo de investigação", mas infelizmente não é ilustrado.

Retábulo de Santa Auta, painel central, Martírio de Santa Úrsula e das Onze Mil Virgens (detalhe), c. 1520-1525.
Wikipédia

Seja qual for a sua origem, a pintura apresentada exemplifica a emancipação da paisagem e do mar. O artista considerou ambos os temas merecedores de larga escala — numa data precoce — demonstrando a sua validade em pinturas de tamanho consideravel. Tanto quanto sabemos, neste momento, é a mais antiga representação do tema "marinha" para um propósito secular em vez de religioso. (1)


(1) Royal Museums Greenwich

Informaçao relacionada:
Richard Barker, Showing the flag in 1521: wafting Beatriz to Savoy
Richard Barker, Sources for Lusitanian shipbuilding
Ana Isabel Buescu, A infanta beatriz de portugal e o seu casamento na casa de Sabóia (1504-1521)
Santa Catarina do Monte Sinai (military wikia)
Master of Seas

Santa Catarina do Monte Sinai (1 de 4): no painel de Greenwich

This large, detailed panel is the oldest painting of the sea by a Flemish or Flemish-trained artist in the collection of the National Maritime Museum. It is one of the few contemporary paintings of ships of the first half of the sixteenth century and one of the best representations of the first generation of ocean-going merchantmen.

Portuguese Carracks off a Rocky Coast, c. 1540.
Royal Museums Greenwich

The subject is generally thought to be the carrack "Santa Catarina de Monte Sinai" bringing the Infanta Beatriz, second daughter of King Manuel of Portugal, to Villefranche for her marriage to Charles III, Duke of Savoy, in 1521.

Retrato da Duquesa de Sabóia, Beatriz de Bragança (1504-1538), por um pintor piemontês (detalhe).
Google Arts & Culture

The Portuguese vessels are shown wearing Manuel's flags and emblems but were met by Italian ships during the journey from Lisbon. However, considering the distinctly Flemish style of the painting, this identification of the subject remains debatable - although Flemish artists did work in Portugal and Spain, notably (in the marine sphere slightly later) Hendrick Cornelisz Vroom.

Portuguese Carracks off a Rocky Coast (detail), c. 1540.
Royal Museums Greenwich

That said, in this case the original function of the painting and the identity of the artist remain elusive. An examination of the oak panel suggests that it was probably originally set in a wall frame or wall panelling and, therefore, could have been part of a larger decorative scheme.

This may, in turn, support the hypothesis that it is the work of a prestigious painter, depicts an historical event such as the wedding voyage of 1521, and was possibly intended for a "public" space.

The "Santa Catarina" was richly adorned for the wedding voyage of the Infanta. Quarters were prepared for her, the Count de Villa, ambassadors and officials in the stern castle of the ship. These apartments were decorated with splendid fittings, fine silver and given a gilded finish.

The Infanta's cabin was furnished with brocade, carpets and velvet cushions. The awning of the ship was of crimson velvet and white damask, with borders that were described as of velvet with tassels of silk, and lined inside with blue damask from China.

There were two very large damask flags with the royal arms painted in gold and silver on the ship's stern. Another 84 large flags of crimson and white damask decorated the masts and yardarms. A band of musicians also accompanied the Infanta.

Bandeira de Portugal, versão com 8 castelos, reinado de D. Manuel I, desde 1485.
Wikipédia

The painting depicts ten ships, a caravel, three galleys and a rowing barge, off a coastline on the right. This mountainous ‘world-landscape’ consists of a fortified tower on a rocky outcrop above a steeply rising walled town. A man-made harbour can be seen below. Inside the harbour are a number of ships. Two of these vessels are shown at anchor. Beyond this is another at anchor and one more coming to anchor.

Wooded hills are visible in the background, on the right, and an island lies off-shore in the distance on the left. The scene is observed from a high vantage point. An aerial perspective is introduced through the warm brownish-green tones in the foreground which gradually change into cooler blues in the background.

In the centre foreground, the carefully delineated principal ship is a large armed Portuguese merchant carrack. She is shown firing a salute to port and starboard. This is thought to be the 'Santa Catarina', which was built of teak at Cochin, India, in 1510, to serve as one of the large armed merchant ships of the Portuguese East Indies trade. She is shown in starboard-quarter view.

Figures on board are carefully delineated and are evident in both the rigging and main-top ('crow's nest'). Nine other ships of broadly carrack form are present, five under sail and the four at anchor. The two under sail, immediately flanking the "Santa Catarina", are flying Portuguese colours and firing salutes from single guns towards her.

Portuguese Carracks off a Rocky Coast (detail), c. 1540.
Royal Museums Greenwich

The ships are a combination of four- and three-masters with a pair of two-masted galleys in the right foreground and middle distance. Beyond the far side of the harbour entrance a three-masted lateen-rigged caravel approaches in port-bow view. In the foreground the galley with crewmen visible, heading towards the 'Santa Catarina', flies Savoyard banners.

From one of her starboard bow guns, the galley fires or returns the 'Santa Catarina's' salute. This and the dragon figurehead of the 'Santa Catarina' are visible through the artist's use of isometric perspective, which brings details into view that would not be seen from the perspective of the viewer.

The mainsail (technically a "main course") of the 'Santa Catarina' is the biggest sail in the painting and consists of several elements. It has been extended by the addition of two (or "double") bonnets, in the fine weather. Their fixing points have been coded by pairs of apparently random letters so that they match up correctly. One of these may be 'A T' in monogram form. However no artist is known with those initials.

Portuguese Carracks off a Rocky Coast (detail), c. 1540.
Royal Museums Greenwich

This painting has been variously and incorrectly ascribed to the Portuguese painter Gregorio Lopez (d. 1550), Pieter Bruegel, Cornelisz Anthoniszoon, c. 1500-55, and Hendrick Cornelisz Vroom. The land- and townscape show the influence of the Flemish painter Joachim Patinir, d.1524, and are Flemish in colouration and style.

The National Maritime Museum aimed to clarify the attribution after Sir James Caird acquired the panel for over £2000 in 1935. In 1936, correspondence between the Museum and art historian Max Friedländer, as well as the Director of the Warburg Institute, Fritz Saxl, placed the painting between the oeuvres of Joachim Patinir and Pieter Bruegel.

Friedländer dated the panel to 1540 and he supported the suggestion made by Charles Tolnay that the painting could be by either Jan or Matthijs Cock. A stylistic comparison with the rendering of the waves and the delineation of the rocks in "The Martyrdom of St Catherine", in the National Gallery of Art, Washington, may tentatively support the latter attribution. (1)


(1) Royal Museums Greenwich

Informaçao relacionada:
Richard Barker, Showing the flag in 1521: wafting Beatriz to Savoy
Richard Barker, Sources for Lusitanian shipbuilding
Ana Isabel Buescu, A infanta beatriz de portugal e o seu casamento na casa de Sabóia (1504-1521)
Santa Catarina do Monte Sinai (military wikia)
Master of Seas

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Padre Eterno

Aos 30 deste mez [março de 1665] partio de Lisboa a Capitania da Companhia do Commercio com vinte & tantos navios marchantes para o Brazil; & hum dia destes partirá hum outro de guerra; & do Brazil vira tambem o galeão chamado Padre Eterno que se fez no Rio de Janeiro, & he o mais famoso baxel de guerra que os mares jámais virão; & comboiarão em frota os navios que ouver naquelle Estado com o favor de Deos. (1)

Galeão português (detalhe), Description de l'univers, Du globe terrestre, Alain Manesson Mallet, 1683.
Gallica

Em vinte deste [outubro de 1665] começou a entrar no porto de Lisboa a frota do Brasil; trouxe quarenta navios de carga; vieram mais em sua companhia duas boas navetas da India Oriental, &, repartida por alguns navios,a fazenda da nao da India N. Senhora do Populo, cujo casco se ficou cõcertando na Bahia. 

Veio nesta Frota aquele famoso Galeão que Salvador Correa de Sâ & Benavides, sendo Governador do Rio de Janeiro fabricou naquelle porto; o maior navio que ha hoje, nem se sabe que houvesse nos mares; trouxe tres mil caixas, & mais de quinhentos fechos de açucar, alem de outras muitas fazendas, só como lastro, vindo desocupado como vasio, & competindo â vella com a mais ligeira fragata. (2)

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O desenho da embarcação que está representado na página precedente foi desenhado sobre um navio português que passou pelo maior construido no nosso século; foi construído em Goa e está no presente abandonado num pequeno porto do Tejo próximo de Aldeia Galega [Montijo], a três léguas de Lisboa. 

Galeão Padre Eterno, Description de l'univers, Du globe terrestre, Alain Manesson Mallet, 1683.
Gallica

Tem 180 pés de quilha, ou de comprimento na parte inferior, seis pontes, 180 escotilhas e outros tantos canhões de ferro. Sua carga era de 4.000 caixas de açúcar, cada caixa pesando 1.500 libas e de 2.500 grossos rolos de tabaco; era normalmente tripulado por 3 a 4.000 homens.

Galeão Padre Eterno,
Description de l'univers..., Alain Manesson Mallet, 1683.
Gallica

D. Francisco de Lima, vice-rei das Índias orientais, fê-lo construir no ano de 1664 e chamou-o de Padre Eterno [?]. (3)

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Logo no primeiro século surgiu entre nós a indústria da construção naval. Refere o Barão do Rio Branco que já em 1531 Martim Afonso de Sousa construiu aqui no Rio dois bergantins "as primeiras embarcações construidas por europeus aqui no Brasil". 

Em 1645, há noticia de outro feito aqui e levado pra Lisboa por Salvador de Sá. E pode-se presumir a construção de embarcações menores, indispensáveis no transporte de açúcar e outros produtos entre localidades distantes, espalhadas num litoral imenso.

Em 1663 era lançado às águas da Guanabara um dos maiores navios da época, pois media 143 pés de quilha, o galeão "Padre Eterno", construído com madeira da terra, no sítio da ilha do Governador, que por isso mesmo recebeu o nome, que até hoje conserva, de "Ponta do Galeão". 

Duraram os trabalhos mais de três anos e sómente em 20 de outubro dc 1665, aportava a Lisboa, em sua primeira viagem, o Padre Eterno [...]

No Museu Marítimo de Greenwich, existe um manuscrito intitulado: "Barlow's journal of his life at sea in king's ships, East & West Indiamen & other merchantmen from 1659 to 1703". Traz em apenso uma mapa aguarelado da cidade e da baía do Rio de Janeiro, no qual avulta a imagem do galeão que arvora a bandeira portuguesa.

"A portingall Ship new Launched 143 feet  by ye keel, 1663"; "The maner of the town and harbour of R. Jenero, in bresila in Arnerika. Lying in the latitude of 22.45 South";  "The Castle at the entring of the harbours south".
Barlow's journal of his life at sea in king's ships, East & West Indiamen & other merchantmen from 1659 to 1703.
A Muito Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro

Próximo a este, próximo à cidade e à barra, respectivamente, anotou Barlow: "A portingall Ship new Launched 143 feet  by ye keel, 1663"; "The maner of the town and harbour of R. Jenero, in bresila in Arnerika. Lying in the latitude of 22.45 South";  "The Castle at the entring of the harbours south". 

Assinala ele "Whale Towne" (Aldeia da baleia) que é a Ponta da Armação, mais ao longe "A cannowe" (uma canoa), "Guouse Island", a ilha das Cobras. O próprio Barlow e seus companheiros de tripulação do Queen Catherine, capitão John Shaw, ajudaram o lançamento ao mar.

É na obra de Helain [Alain] Manesson Mallet, Dercription de l'Univers contenant les diffèrents systèmes du monde... Paris, 1683 que aparece (tomo I, pgs. 257) a gravura, aqui reproduzida, do Padre Eterno em Lisboa, com a seguinte notícia:

Galeão português,
Description de l'univers..., Alain Manesson Mallet, 1683.
Gallica

O desenho do navio [embarcação] que está representado na página anterior [precedente, no texto original] é o desenho de um navio português que se dizia o maior construido no nosso século; foi construído em Goa (erro de Manesson Mallet ou do seu informante), está agora (cerca de 1680) abandonado no porto do Tejo próximo da Aldeia Galega [Montijo], a três léguas de Lisboa. 

Tem 180 pés de quilha, ou de comprimento, seis pontes, 180 escotilhas e outros tantos canhões de ferro. Sua carga era de 4.000 caixas de açúcar, cada caixa pesando 1.500 libas e de 2.500 grossos rolos de tabaco; tripulação normal de 3 a 4.000 homens [...] (4)


(1) Mercurio Portuguez com as novas do mez de março de 1665
(2) Mercurio Portuguez com as novas do mez de outubro de 1665
(3) Alain Manesson Mallet, Description de l'univers, 1683, cf Gallica ou Internet Archive
(4) A Muito Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro

Leitura relacionada:
Maior navio do mundo, no século 17
Por mares sempre navegados, 2011
Padre Eterno (galeão), Wikipedia

Mais informação:
Mallet (Miscellaneous views)

domingo, 9 de junho de 2019

O regresso D. Miguel

Entre 1822-1823 dois elementos da família real, a rainha e o infante D. Miguel, tornaram-se símbolos da contra-revolução portuguesa. A mulher de D. João VI, Carlota Joaquina, transformara-se em heroína da imprensa contra-revolucionária em finais de 1822, pela sua recusa firme em jurar a Constituição e em abandonar o país, corporizando a oposição às Cortes e ao governo liberais.

Lisboa vista da Quinta da Torrinha Val Pereiro, gravura de William James Bennett sobre desenho de L. B. Parlgns.
Museu de Lisboa

D. Miguel, filho segundo do rei, que voltara com a família real em 1821, ao encabeçar o golpe da Vila-Francada em 1823 ficou sendo o referente principal da contra-revolução e, dado que D. Pedro, o primogénito, se colocara à testa do movimento de independência do Brasil [...]

Lissabon von der Quinta da Torrinha - Val de Pereiro. Umgebunge von Lissabon.
Aus der Geographischen Graviranstalt des Bibliographischen Instituts zu Hildburghausen, Amsterdam, Paris u. Philadelphia.
Author: Meyer, Joseph (1796-1856) Society for the Diffusion of Useful Knowledge (Great Britain), 1844.
  Cabral Moncada Leilões

O Terreiro do Paço, palco do “humilhante” desembarque de D. João VI e da demonstração do poder das Cortes, foi evitado por D. Miguel quando regressou em Fevereiro de 1828 [...]

Vista da Praça do Comércio, Henry L'Evêque.

Vindo de Viena de Áustria, com passagem por Paris e Londres [depois de assinados os protocolos de Viena entre Portugal, Inglaterra e Áustria sobre os poderes e as condições do seu regresso a Portugal e traçado o percurso da viagem, com paragens em Paris e em Londres e não por Espanha como pretendia, o Infante sai de Viena de Áustria no dia 6 de Dezembro de 1827. Chegado a Londres em 30 de Dezembro embarca rumo a Lisboa no dia 9 de Fevereiro de 1828. No final de Dezembro a sua próxima chegada era certa], D. Miguel chegou ao Tejo na sexta feira de 22 de Fevereiro de 1828, como lugar tenente e regente do Reino, por nomeação de D. Pedro IV, a bordo da fragata Pérola, a mesma que o levara para o exílio em 1824 na sequência da Abrilada.

A reconstrução do desembarque de D. Miguel em Lisboa, escrita por Oliveira Martins pouco mais de meio século após o acontecimento, ainda que ancorada em testemunhos e memórias dos que viveram ou ouviram contar esse dia, determinou em larga medida a memória e as leituras futuras desse momento. "Portugal inteiro esperava dele a redenção", uns porque que aguardavam que cumprisse as promessas feitas em Viena, outros porque acreditavam que se mantivesse fiel aos princípios expressos em 1824 [...]

"Foi em 22 de Fevereiro (1828) que D. Miguel desembarcou. O rio era um lençol de barcos e bandeiras, uma floresta de mastros, de velas brancas, como bandos de gaivotas voando nas vésperas de temporal. Havia um entusiasmo decidido, uma aclamação espontânea, um furor desenfreado. Repetiam-se os vivas ao rei absoluto, aos Silveiras, à rainha – sem rebuço, na cara dos moderados liberais, corridos da sua fraqueza, cônscios da triste figura que faziam.

Esperava-se que o infante desembarcasse no Terreiro do Paço, e o Senado da Câmara tinha preparado grinaldas e bandeiras; mas o povo todo já corria a Belém, porque se soubera que D. Miguel desembarcaria aí subindo pela Calçada direito ao Paço, à Ajuda. A Pérola, que o trouxera, deitara ferro em frente de Belém, e estavam já a bordo a rainha e as infantas e os ministros, e Clinton o general das tropas inglesas […]. O desembarque, o trajecto até o Paço foi um triunfo: um trovão de vivas, um desespero de gritos, um dilúvio de flores, bandeiras, colchas, foguetes em girândolas!"

[cf. Oliveira Martins, Portugal Contemporâneo, I vol., Lisboa, Guimarães Editores, 8ª ed., 1976 (1ª ed., 1881)]

Desembarque do Augustissimo Senhor D. Miguel no Caes de Belem, Mauricio José do Carmo Sendim.
Museo del Romanticism

Rei chegou, Rei chegou!
Em Belém desembarcou;
Na barraca não entrou
E o papel não assinou!

A Câmara dos Pares, na resposta ao discurso da Infanta Regente pronunciado na sessão de Abertura das Cortes no início de Janeiro de 1828, depois de reafirmar os sentimentos de lealdade à Casa de Bragança, declara que os seus membros "exultam de prazer com a lisonjeira esperança de que dentro em pouco verão entre si mais um Augusto Membro de tão Excelsa Família. A presença do Sereníssimo Senhor Infante D. Miguel, chamado à Regência destes Reinos, desarmará partidos e, reunindo em torno de si todos os Portugueses, lhes afiançará, com as insignes qualidades de Sua Alteza, um próspero futuro, cheio de paz, e felicidade".

"Às quatro horas da tarde “tinha já dado fundo a fragata Pérola, que o conduzia, e da qual saiu imediatamente para a galeota real que o esperava, saltando em terra no cais de Belém.

Suas augustas irmãs, que na mesma galeota se achavam, o receberam cheias de prazer, congratulando-se com ele depois de tão dilatada e penosa ausência; e, entrando na carruagem de estado, se dirigiram ao palácio chamado velho, por ser a actual habitação de sua majestade a imperatriz-rainha […] aonde sua alteza real a cumprimentou, demorando-se o tempo preciso para saciarem as recíprocas saudades […]. No fim desta entrevista passou o mesmo sereníssimo senhor a visitar sua augusta tia […] e depois se dirigiu a ocupar os quartos que lhe estavam preparados no palácio novo de Nossa Senhora da Ajuda, contíguo ao de sua augusta mãe. […]

A Ajuda vista das Necessidades, Charles Landseer, 1825.
Instituto Moreira Salles

A rapidez com que sua alteza real apareceu, entrou e foi para o palácio, não deu tempo nem a que as tropas se formassem, nem a que se pudessem praticar as cerimónias estabelecidas para a sua pomposa recepção. O Senado da Câmara, o juiz do povo e a sua casa dos vinte e quatro, a corte, o corpo diplomático, as autoridades e muitas outras pessoas de distinção, se dirigiram ao real palácio a cumprimentar o mesmo augusto senhor, que se dignou dar beija-mão real nessa ocasião" 

cf. Correio do Porto, n° extraordinário, 23 de Fevereiro de 1828

"[no dia 24 de fevereiro] não quis demorar-se em fazer patente a sua religião e pias intenções para com a mãe de Deus, debaixo da invocação de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, que se propôs visitar. Para esse fim se dirigiu desde o Palácio da Ajuda […] com suas augustas irmãs, à basílica de Santa Maria Maior [Sé], aonde assistiram ao soleníssimo Te Deum, que também ali se cantou, pelo fausto motivo da sua chegada a estes reinos [um importante significado político, prende-se com a ausência de Carlota Joaquina nesta cerimónia e nas que se lhe seguiram]" 

cf. Correio do Porto, Fevereiro de 1828

Juramento de fidelidade como regente, dois dias depois (26 de Fevereiro, pelo meio dia), a D. Pedro IV, D. Maria II e à Carta de acordo com o estabelecido em Viena entre as potências: “Juro fidelidade ao senhor D. Pedro IV e à senhora D. Maria II, legítimos reis de Portugal. […]. Juro igualmente […] observar e fazer observar a Constituição política da nação portuguesa e mais leis do país e prover ao bem geral da nação quanto em mim couber”. O juramento decorreu no palácio da Ajuda [...] A crer nos relatos de Lavradio e do visconde de Porchester, D. Miguel esteve pouco à vontade durante todo o acto e jurou em voz "sumamente baixa" [...]

nesse mesmo dia é nomeado um novo governo do qual faziam parte conhecidos inimigos do regime constitucional. D. Miguel terá dito, em resposta às objecções do embaixador inglês, que era composto "de verdadeiros homens de bem, dos quais nenhum pertencia ao partido exaltado e à revolução. Tenho toda a confiança neles, eles não sairão nunca!" [...]

nomeação de novos governadores militares entre 5 e 10 de Março. A medida foi completada em meados de Maio com a dissolução dos regimentos dos Voluntários Reais do Comércio de Lisboa, dos batalhões de caçadores e artilheiros e dos Voluntários de D Pedro e D Maria do Porto [...]

25 de Abril, dia do aniversário de Carlota Joaquina, tem lugar no Senado de Lisboa a célebre aclamação popular "Viva D. Miguel Rei Absoluto" [...] (1)

A 26 de outubro, anniversario natalício de D. Miguel, houve recita de gala em S. Carlos, com assistência do rei e das infantas. É a primeira vez, depois que chegara, que D. Miguel apparece em S. Carlos. Não lhe mereciam grande agrado os espectáculos públicos, solemnes e graves. 

Theatro de São Carlos, Legrand (1839-1847).

Sem embargo, S. Carlos funccionava. Estava ali trabalhando uma companhia de opera, que tinha como director de orchestra Xavier Mercadante. Cantavam-se Adriano na Syria, o Posto abandonado, etc. Representavam-se pantomimas: Moysés no Oréb, por exemplo. Entre as cantoras figuravam a Schiroli, e a Josephina Tuvo. 

É claro que só os realistas iam ao theatro. Os liberaes mais exaltados haviam emigrado; os moderados retraíam-se por cautella. E por mais moderado que fosse um liberal, não se atrevia a ir comprar um bilhete ao camaroteiro Grondona, que era um dos caceteiros miguelistas.

O rei não apparecia em S. Carlos, nem no theatro do Bairro Alto, que dava O surdo na estalagem, o Medico por força, a Izabel 1.a da Rússia. A falta de concorrência, devida aos sobresaltos políticos e ao abandono em que o rei deixava os theatros, apesar d'elle próprio gostar de representar, fez com que os melhores artistas nacionaes emigrassem para o Brazil. 

Para lá foram a Ludovina e alguns collegas, lodos de primeira plana. O Theodorico, para poder viver, metteu-se de gorra com D. Miguel, lisonjeava-o fazendo-se amante de toiros, e na praça do Salitre soltava piadas aos malhados. As infantas gostariam certamente de poder ir ao theatro, de exhibir as toilcttes talhadas pela Levaillant, que morava na rua de S. Francisco da Cidade, e pela Burnay, que tinha atelier na rua do Alecrim [Madame Burnay, avó do actual conde do mesmo titulo, annunciava-se como modista de sua alteza a sereníssima senhora infanta D. Maria d' Assumpção].

Lisbon ,Largo do Pelourinho, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, c. 1830.
Biblioteca Nacional de Portugal

Mas, decididamente, D. Miguel não queria constranger-se a ter que estar aprumado no camarote real durante algumas horas. Preferia aos espectáculos de gala as serenatas no Paço, que o não obrigavam á immobilidade de um autómato, para que não tinha génio. 

Lisbon from the chapel hill of Nossa Senhora do Monte, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Biblioteca Nacional de Portugal

Em 29 de setembro, dia do santo do seu nome, houve beijamâo na Ajuda, e á noite serenata nas Necessidades. A 9 de novembro desse anno, D. Miguel fazia trotar as mulas que puxavam o seu carrinho de passeio em caminho de Caxias. Acompanhavam-n'o as duas irmãs. As mulas espantaram-se, o carrinho voltou-se. 

O rei fracturou o fémur da perna direita, D. Izabel Maria ficou ferida na região frontal, e D. Maria da Assumpção contusa na coixa esquerda. Foi D. Miguel conduzido em maca para Queluz.

Retrato de D. Miguel I, Johann Ender, Palácio Nacional de Queluz.
  Portugal Virtual

Assistiram-lhe durante a enfermidade o seu amigo barão de Queluz, e os outros cirurgiões da real camara, Jacintho José Vieira, António Joaquim Farto e Manuel Lopes de Carvalho. As infantas restabeleceram-se de pressa, mas o concerto da real perna foi demorado.

Durante o tratamento, a corte cahiu em maior monotonia. Interromperam-se as toiradas e as caçadas no Alfeite ou em Mafra. Não havia divertimento nenhum, o rei estava de perninha, como dizem os lisboetas. Começou então uma longa serie de Te-Deums pela saúde do rei, tantos, pouco mais ou menos, como tinha havido pela sua acclamação. Dois dias antes do Natal, o rei poude levantar-se. Os médicos assistentes deram-lhe alta. Os miguelistas cantavam:

D. Miguel é bonito, 
é bonito e bem feito. 
Quebrou as pernas, 
Ficou sem defeito! (2)

D. Miguel I e suas irmãs dando graças a Nossa Senhora da Conceição da Rocha, 29 de janeiro de 1829.
Cabral Moncada Leilões
*
*     *

Em julho de 1833, a expedição commandada pelo conde de Villa Flor, depois duque da Terceira, desembarca no Algarve, a esquadra liberal, sob as ordens de Napier, destroça no cabo de S. Vicente a esquadra miguelista, e Villa Flor, marchando sobre Lisboa, vai apossar-se da capital.

O duque do. Cadaval, sacrificando a sua opinião ao conselho dos chefes militares, aterrados, não oppozera resistência, abandonara Lisboa, como já se tinha abandonado o Porto um anno antes, retirara para o Campo Grande, marchara para Coimbra, a procurar apoio nas forças que D. Miguel, com Bourmont, trouxera do norte. 

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia

Á approximação do exercito de D. Pedro, o terror domina em Lisboa o espirito de todos os miguelistas, que se sentem desamparados com a retirada do duque do Cadaval. Verdadeiramente desorientados, reunem-se no Rocio, na noite de 23 para 24 de julho, e, no meio de uma grande confusão de terror, resolvem fugir para onde podem, especialmente para Santarém, n'um êxodo precipitado, em que o cansaço, o medo e a colera-morbus os vão dizimando. (3)


(1) Maria Alexandre Lousada, A contra-revolução e os lugares da luta política. Lisboa em 1828.
(2) Alberto Pimentel, A ultima côrte do absolutismo em Portugal, Lisboa, Liv. Férin, 1893
(3) Idem

Mais informação:
Documentos com referência a Miguel I (1802-1866), rei de Portugal

Leitura relacionada:
Os reis da casa de Braganca na Decadencia e na Queda da Monarquia Portuguesa no Ultimo Seculo, 1810-1910
Miguel I, King of Portugal, 1802-1866 (Internet Archive)
Histórias com História
Nossa Senhora da Rocha de Carnaxide: uma devoção do miguelismo

quinta-feira, 6 de junho de 2019

As Armas de Portugal sobre a Cruz de Borgonha

Durante a Batalha de Cádis, os holandeses e ingleses uniram suas forças na luta contra os espanhóis.

Escudo Real de Portugal sobre a Cruz de Borgonha, insígnia militar dos Habsburgo.
The Battle of Cadiz (Dutch and English Ships Attack the Spanish Armada) [Tomada de Cádis, 1596], Aert Anthonisz, 1608.
Rijksmuseum

Aqui, o quatro mastros holandês Neptunes do almirante Johan van Duivenvoorde é  apoiado pelo inglês Ark Royal num ataque ao espanhol San Felipe [português São Filipe].

Tomada de Cádis, 1596.
The Battle of Cadiz (Dutch and English Ships Attack the Spanish Armada), Aert Anthonisz, 1608.
Rijksmuseum

Na realidade, o navio inglês não participou da batalha.

Tomada de Cádis, 1596.
The Battle of Cadiz (Dutch and English Ships Attack the Spanish Armada), Aert Anthonisz, 1608.
Rijksmuseum

Aert Anthonisz representou o navio [Ark Royal] porque era um símbolo muito importante do poder naval inglês. (1) 

Tomada de Cádis, 1596.
The Battle of Cadiz (Dutch and English Ships Attack the Spanish Armada), Aert Anthonisz, 1608.
Rijksmuseum

A accção mostrada é a expedição da frota inglesa, apoiada pela marinha holandesa, contra Cádis em 1596.

A imagem de Vroom mostra os três navios de comando em batalha nas águas de Cádis: o navio holandês de quatro mastros Neptuns apoiando o inglês Ark Royal num ataque contra o Espanhol San Felipe. Vroom tratou do assunto com liberdade artística. pois o Ark Royal, o navio de comando de Howard de Effingham, não participou na luta contra os navios espanhóis.

Deve entender-se que o artista, e quase certamente seu patrono, não visaram um testemunho preciso de uma batalha importante, tendo preferido enfatizar o contexto histórico.

Een Spaans (Portugees) galjoen in gevecht met twee Nederlandse schepen, Hendrick Cornelisz Vroom.
Rob Kattenburg

O Ark Royal teve que ser incluído como representação do poder marítimo da coroa inglesa. Com trabalhos como Great Sea Storm e o seu pendente Bank of Cadiz, 1596, Vroom criou a convenção popular de pinturas marítimas produzidas em pares: ou de uma pintura simbólica acompanhada de uma cena histórica, como neste caso, ou de ambas as pinturas serem puramente simbólicas — usualmente uma Calmaria contrastada com uma Tempestade. Essa tradição ainda foi mantida por Willem van de Velde o jovem.

Hendrick Cornelisz Vroom Battle between England and Spain 1601 02
Sammellust

Aert Anthonisz, aliás Aert van Antum, que trabalhou em Amsterdam e cujas pinturas costumam ser frequentemente confundidas com as de Hendrick Vroom. Isto não surpreende pois parece que ele as copiava das pinturas de Vroom.

Tomada de Cádis, 1596.
The Battle of Cadiz (Dutch and English Ships Attack the Spanish Armada), Aert Anthonisz, 1608.
Rijksmuseum

A sua bem conhecida Sea Battle no Rijksmuseum, Amsterdam, assinada e datada de 1608, é uma quase cópia literal da Battle of Cadiz de Hendrick Vroom, com a adição de um barco à frente, à esquerda.

A Sea Action, possibly the Battle of Cadiz, 1596 Hendrick Cornelisz Vroom
greatbigcanvas

Aert Anthonisz reproduziu a grande imagem de Vroom numa escala muito mais reduzinda, dando-lhe um acabamento com aspecto de jóia, o que contribui para o apelo estético do pintor. (2)

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*     *

Placa comemorativa no terceiro centenário em 1888 da vitória sobre a Armada Espanhola ou Armada Invencível, entre 31 de julho e 12 de agosto de 1588. 

Placa comemorativa no terceiro centenário em 1888 da vitória sobre a armada espanhola em 1588.
N. V. Roeloffzen & Hübner, segundo Aert Anthonisz, 1888 (detalhe).
O San Martin, o navio Almirante de Medina Sidónia, com a bandeira da Inquisição na frente e a cruz no mastro grande, é atingido a bombordo pelo "Rainbow", o navio almirante inglês do Lord Henry Seymour e na retaguarda pelo "Gouden Leeuw", o navio almirante holandês de Justinus van Nassau.
Rijksmuseum

Ao centro uma reprodução da pintura com navios holandeses e ingleses lutando contra a Armada Espanhola em Cádis em 29 de abril de 1587 [?] por Aert Anthonisz..

Este é cercada por uma moldura ornamental com medalhas e textos sobre o desaparecimento da Armada. (3)


(1) Rijksmuseum
(2) Visions of the Sea: Hendrick C. Vroom and the Origins of Dutch Marine Painting
(3) Rijksmuseum

Leitura adicional:
Portuguese World Heritage
Historia del saqueo de Cadiz por los Ingleses en 1596

Outros recursos:
Maritiem Digitaal
Hendrick Cornelisz Vroom



Fruto de nuestro trabajo ha sido la obra La batalla del Mar Océano. Corpus documental de las hostilidades entre España e Inglaterra (1568-1604) [...] en uno de los anexos que contiene este Corpus figuran extractados los historiales de los 151 navíos que compusieron la armada al salir de lisboa a cargo del duque de Medina Sidonia para intentar la conquista de Inglaterra.

Como la importante participación portuguesa en la formación de las fuerzas navales concentradas en lisboa y la ejecución de la campaña creo que no ha sido suficientemente destacada en las obras editadas hasta hoy, me ha parecido pertinente dar a conocer con una cierta extensión los historiales de los nueve galeones, dos galeoncetes, 11 carabelas y 10 falucas o falúas de construcción portuguesa tal como constan en el referido anexo [...]

La escuadra de Portugal

Galeones

Galeón San Martín (capitana general de la Armada) o São Martinho
Galeón San Juan (almiranta general) o São João
Galeón San Marcos o São Marcos
Galeón San Felipe o San Philippe o São Filipe
Galeón San Luis o São Luís
Galeón San Mateo o San Matheo o São Mateus
Galeón Santiago el menor, o São Tiago o São Tiaguinho
Galeón San Cristóbal o São Cristóvão
Galeón San Bernardo o São Bernardo

Galeoncete o zabra gruesa Augusta o Agusta
Galeoncete o zabra gruesa Julia o Juliana o Júlia

Carabelas

Carabela San Lorenzo o São Lourenzo
Carabela San Antonio (1ª) o São António
Carabela Nuestra Señora de la Concepción (1ª) o Concepção
Carabela Nuestra Señora de la Concepción (2ª) o La Concepción (1ª) o Concepção
Carabela Jesús de Ayuda o Jesus de Ajuda
Carabela San Juan o São João
Carabela San Antonio (2ª) o São António
Carabela La Concepción o Concepção (2ª)
Carabela San Jorge o São Jorge
Carabela La Asunción o Asunção o Nuestra Señora de la Ascensión
Carabela La Concepción (3ª) o Concepção
Carabela San Antonio (3ª) o São António
Carabela Nuestra Señora de la Asunción o Assumção

Falúas o falucas

Falúa La Anunciada (capitana)
Falúa Nuestra Señora del Carmen
Falúa Nuestra Señora del Puerto
Falúa Nuestra Señora de la Ydra
Falúa San Pedro
Falúa San Blas
Falúa San Blas la menor
Falúa Nuestra Señora del Buen Viaje
Falúa Santa María
Falúa Santa Bárbara o Santa Bárvora
Falúa San Cristóbal

cf. Revista de História Naval, Resumen del historial de los navios portugueses en la jornada de Inglaterra de 1588