terça-feira, 28 de maio de 2019

Aviões amarados

As the Clippers fly, Europe is only 23 hours from New York. Twice each week, weather permitting. the great flying ships whir up from North Beach airport and head out over the Atlantic for Horta, in the Azores, and Lisbon. Portugal. 

Tagus River emptying into the Atlantic ocean as seen from a Pan Am clipper 1940.
Google Arts & Culture Life Pan Am Clipper

With such a Hight LIFE begins this "America and The World" issue. not only because it makes a swift and dramatic transit from the troubled peace of the U.S. to the war world of Europe. but also because it signifies better than anything else what a narrow harrier the Atlantic Ocean has become between the two continents. 

No one knew, when Pan American sent the first Clipper off last spring, how vital this transatlantic service would suddenly become. It was war which put the Clippers over. Flying the Atlantic changed, almost overnight, from adventure to the fastest, pleasantest, even the safest, way to get to Europe. For Pan American last winter was an airline's nightmare. 

Dixie Clipper completes first transatlantic passenger flight
New York to Lisbon, Portugal, June 29, 1939 / Boeing B-314, John T. McCoy Painting of 1939.
Port Washington Aviation History

Weather over the Atlantic was the worst in 75 years and, while storms seldom stop the Clippers, high waves in !forts harbor hold them up for weeks on end. The New York landing base froze over, then Baltimore, then Norfolk, then Charleston, finally forcing the Clipper to land at Miami. 

Mail piled up by unforeseen tons, passengers fought for seats and the British censors searched all mail at Bermuda until March, when Pan American cut out its Bermuda stop. From this hectic winter Pan American has emerged with flying colors and a perfect record. Under the greatest pressure it stuck to the strictest safety standards. 

Boeing B-314, Pan Am Clipper Service.

War weeded out the casual voyagers, leaving only those with pressing reason to travel. Since last September the Clippers have been the best internation-al club in the world. Dues are high ($893 one way), though no higher than the best cabins on the best liners. Members are invariably interesting. often head-line names. 

There is excellent conversation in three or four languages, and a striking absence of social ice to break, for the air and the war combine to produce an easy good fellowship of the Atlantic traveling elite. 

LIFE has been privileged to take the first pictures of a Clipper flight. On this flight the Atlantic Clipper carried 948 lb. of mail and 18 passengers.

These were: Archduke Otto of Habsburg, pretender to the Austro-Hungarian throne: Eve Curie; Charles Rist, French Government economist: three other Frenchmen; a Swiss lady returning from Palm Beach; a beautiful American girl going to join her British husband, an R. A. F. flier: two Portuguese; a Dutch engineer: Otto's aide; four American businessmen; and LIFE's Photographer Bernard Hoffman and Associate Editor Joseph J. Thorndike Jr. 

Waves at Horta delayed the flight over a week. But once started, it was smoother than any train ride. Passengers moved about freely in the three main cabins and lounge, fell into groups by interests and languages. ate well, slept soundly in comfortable berths. After dark the Clipper passed through a half-hour storm so smoothly that no passenger knew it until later. There is almost no feeling of movement. 

Clipper One night in Lisbon 1941 movie 01
IMDb

Only scary thing about the Clipper trip, for an American. is the sensation of going aboard in New York, floating in the sky for a hare 43 hours and stepping out on a continent flaming with war. (1)

Como é do conhecimento de V. Ex.as é no Cabo Ruivo, no extremo de uma extensa ponte de betão armado, que amaram os hidro-aviões da "Pan-América" e da "Overseas Airways". 



Aqui, é que persiste ainda uma instalação provisória, mas possível e precisamente porque ela nao foi feita propositadamente para ser provisória, e ainda que seja certo que a complicação de formalidades para o vôo, que vão até à pesagem dos passageiros, chegando a forçar alguns a não poderem seguir viagem, obriguem, em contraste com o espírito do sistema, a demorada permanência nas instalações, a sensação que se recebe não é desagradável. 

Annabella e Tyrone Power, dois artistas notáveis do cinema passaram há dias por Lisboa, a caminho de liollywood e que lamentaram não poder demorar-se cai Portugal a fim de visitar êste belo Pais de que têm ouvido contar maravilhas.
Ilustração, 16 de setembro de 1939

E tal se consegue porque uma bem cuidada adaptação de um edifício já existente, a sua impecável limpesa e a sua rusticidade visivelmente bem aproveitada, senão valorisada, são completadas com pormenores de instalações de serviço de bom aspecto e comodidade. 

Propositadamente, deixámos para o fim os reparos que a viagem que estamos fazendo pelas diferentes espécies de instalações para Comunicações na margem do Tejo podiam aqui suscitar. 



A única cousa a que sõbre esta instalação teriamos de apresentar observações — o acesso por terra — não nos referiremos, porque êste provisório deve ser realmente provisório dado que a primeira empreitada para execução dos trabalhos necessários para a construção do aeroporto definitivo, vimo-la já há tempos anunciada e que o Decreto 32.901 últimamente publicado já para tais obras consigna a verba de 8.000 contos. 

O novo e definitivo aeroporto, ficará situado 1 km. a montante, na foz da Ribeira dos Olivais, onde uma larga doca de 440m x 180; subtrairá os hidros à acção desencontrada das correntes aéreas e das fluviais, principal dificuldade com que êles têm de lutar e inconveniente da actual instalação. 

No terrapleno, serão construidas instalações para o serviço aéro-marítimo, que, em ante-projecto, compreenderão um edifício de estação de 100m x 20m armazens, hangars, depósitos, etc., conjunto enquadrado num arranjo urbanístico que permitirá o acesso pela Rua de Cintura do Pôrto e pela futura Avenida Infante D. Henrique, que começando no Terreiro do Paço, passando pela frente do Edifício da antiga Alfândega, Rua João Evangelista, etc., acompanhará paralelamente a margem, dela apenas separada pela linha férrea e instalações do pôrto. 

Aeroporto Marítimo de Lisboa, Mário Novais, 1940.
flickr

Os estrangulamentos que, em certos locais, o espaço livre apresenta, permitirão, pela ausência de Armazens, vista desembaraçada do Rio e, a partir de determinado ponto, o traçado da Avenida a meia-encosta terá, sabre todas as instalações, comandamento. 

Finalmente, no arranjo a que nos referimos, uma larga Avenida permitirá outra ligação com a Cidade e directa com o Aéroporto terrestre, para onde, despedindo-nos da margem dg Tejo, nos encaminharemos agora, depois da simples, mas afigura-se-nos curiosa indicação, de que o Aéroporto Marítimo a construir, está estimado em 30.000 contos mas que só um Clipper custa entre 20 a 25.000! 

Planta Geral do Aeroporto Marítimo de Lisboa, Mário Novais, 1940.
flickr

Pelo plano que juntamos tomarão V. Ex." conhecimento do projectado. (2)


(1) Life, June 3, 1940
(2) Gazeta dos Caminhos de Ferro, n.° 1352, 16 de abril de 1944

Artigos relacionados:
Dornier Do X1 no areal do Alfeite em janeiro de 1931

Mais informãção:
Na rota do Yankee Clipper
"Clippers" em Portugal
Google Arts & Culture Life Pan Am Clipper

Business Insider

Fotografias antigas do principal aeroporto de Portugal
Aeroporto Marítimo de Cabo Ruivo



A propósito dos acidentes em 1943:

Crash of a Short S.26 G-Class off Lisbon: 13 killed 
Date & Time: Jan 9, 1943 at 1030 LT 
Type of aircraft: Short S.26 G-Class 
Operator: Registration: G-AFCK Flight 
Phase: Landing (descent or approach) 
Flight Type: Scheduled Revenue Flight Survivors: Yes 
Site: Lake, Sea, Ocean, River 
Schedule: Lisbon – London 
MSN: S.873 
YOM: 1937 
Location: Lisbon Estremadura - Lisbon District 
Country: Portugal 
Region: Europe 
Crew on board: 6 
Pax on board: 9 
Total fatalities: 13

Circumstances: Twenty minutes after his departure from Lisbon, bound for London, the crew encountered technical problems and decided to return to Lisbon. While descending to an altitude of 1,200 feet, the crew experienced strong vibrations and smoke spread in the cabin and the cockpit as well. The seaplane christened 'Golden Horn' went out of control and crashed into the bay, some 800 meters off shore. The radio operator and a passenger were rescued while 13 other occupants were killed. 

Probable cause: A technical failure occurred on the fourth piston of the sixth cylinder on the engine number three, causing hydraulic fluid and gasoline to spill and ignite in contact with high temperature elements. It was stated that the loss of control was due to the fact that pilots were incapacitated while part of the aircraft was on fire. Also, the number of victim was raised by the fact that the crew did not follow the emergency procedures and that passengers were neither attached nor correctly prepared for such emergency maneuver. (3)

Crash of a Boeing 314A Clipper off Lisbon: 24 killed 
Date & Time: Feb 22, 1943 at 1847 LT 
Type of aircraft: Boeing 314 Clipper 
Operator: Registration: NC18603 
Flight Phase: Landing (descent or approach) 
Flight Type: Scheduled Revenue Flight 
Survivors: Yes 
Site: Lake, Sea, Ocean, River 
Schedule: New York – Hamilton – Horta – Lisbon – Marseille 
MSN: 1990 
YOM: 1939 
Flight number: PA9035 
Location: Lisbon Estremadura - Lisbon District 
Country: Portugal 
Region: Europe 
Crew on board: 12 
Pax on board: 27 
Total fatalities: 24 
Captain / Total flying hours: 14352 
Captain / Total hours on type: 3278.00 
Copilot / Total flying hours: 1706 
Copilot / Total hours on type: 1454 Aircraft flight hours: 8505 

Circumstances: The flight maintained in altitude of approximately 7000 feet until it approached the mouth of the Tagus River, approximately 11 miles from Lisbon, when a gradual let-down was made to about 600 feet. The Portuguese authorities require that this altitude be maintained from the mouth of the river to the landing area. The flight arrived over the area at about 1835 GMT (6:35 p.m. Lisbon time) 3 hours and 52 minutes after take-off from Horta and 15 minutes ahead of its estimated arrival time. Since official sunset was at 6:20 p.m., PanAm's ground crew at Lisbon had set out as usual a string of landing lights, indicating that the landing was to be made from south to north. On this particular occasion the light arrangement was slightly different from normal, since the extreme downwind (south) light, which was usually green in color, had been replaced with a white light. The only reason for this change was that the green bulb had burned out and the PanAm station substituted the white bulb. Captain Sullivan indicated in his testimony that the substitution of lights was not confusing and had no bearing on the accident. This string of five landing lights extended over a distance of approximately 4500 feet. At the time the flight arrived an the area it was still light enough for the aircraft to be observed plainly by personnel in the PanAm launch and on the shore. The PanAm launch had patrolled the landing area east of the string of landing lights and had taken its station near the red light which was the extreme upwind (north) light of the landing strip. The landing conditions and barometric pressure were given to the flight by radio at 6:35 p.m. and were acknowledged with a statement from the flight that they would want flares when both landing lights were blinked. While proceeding in a northeasterly direction, at an estimated speed of 135 knots and at an altitude of between 500 and 600 feet over the area, about 1 1/2 miles east and abeam of the center light in the string of landing lights, the aircraft made a descending, turn to the left which continued until it was headed in a westerly direction when the left wing tip skimmed along the surface of the water, dug in and the plane crashed into the river. It remained partially submerged for approximately 10 minutes, then disappeared below the surface of the river. The PanAm launch, which had been standing by for the landing, proceeded to the scene of the accident, arriving about 10 minutes later, and began rescue operations. The PanAm launch was joined by a BOAC launch (British) and another PanAm launch approximately 10 minutes later. The American actress Tamara Drasin and the American novelist Ben Robertson were killed in the crash while the actress Jane Froman was seriously injured.

Probable cause: It appears that the probable cause of this accident was an inadvertent contact of the left wing tip of the aircraft with the water while making a descending turn preparatory to landing. 

cf.  B3A

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Um pequeno quadro no Museu de Lisboa

Foi no Campo Grande em Casa de Madre Paula que a partir de 1979 se instalou o então Museu da Cidade. Algo inacabado, pensamos tê-lo visitado nesse mesmo ano.

Um pequeno quadro...
Museu de Lisboa

Cremos que já então o quadro lá estaria, ou vindo da Mitra, ou do palácio Galveias, ou de uma qualquer outra dependência da Câmara Municipal.

Navios de guerra de propulsão mista e casco reforçado saindo do Tejo de madrugada junto à Torre do Bugio.
Museu de Lisboa

Trata-se de uma marinha com pouco detalhade, mas explícita, que representa uma madrugada em que três couraçados, pelo grande canal junto à Torre de S. Lourenço do Bugio, saem do Tejo.

Museu de Lisboa

Em total desacordo com a descrição apensa ao quadro, "A esquadra francesa comandada pelo almirante Roussin força a entrada do Tejo em 11 de julho de 1831", de autor não identificado.


A frota francesa comandada por Roussin força a entrada do Tejo, Pierre-Julien Gilbert, 1837.
Fortificações da foz do Tejo

Seria muito diferente a esquadra de Roussin enviada a Lisboa.

Os navios intervenientes e a acção, são por nós referenciados em O forçamento da barra do Tejo.

O mesmo acontecimento de 1831 descreve-se em La France maritime, Volume 3.

La flotte française force l'entrée du Tage, Horace Vernet, c. 1840.
Joconde

Quanto ao quadro no Museu de Lisboa, ficamos com várias perguntas por responder. Quais os navios representados?  Qual acontecimento ou em que data? Quem foi o autor? Como chegou ao Museu de Lisboa? 

Quanto aos navios, como a imagem mostra, tratam-se de navios com o casco reforçado, com rostro (o esporão na prôa), propulsão mista (vento e vapor) e sem pás laterais, portanto movidos a hélice.

A estas características, aos navios da frente, acresce o facto único de se disporem as batarias em duas cobertas sobrepostas.

Vaisseau Cuirassé de 1000 Chevaux Le Solférino.
Plan of the hull (Wayback machine)

Tratam-se, portanto, das fragatas couraçadas mandadas contruir por Napoleão III, sobre um projecto de Henri Dupuy de Lôme. A Magenta lançada em 1861 em Brest, navio almirante da frota do Mediterrâneo. A Solférino, navio igual, construído em Lorient e lançado também no mesmo ano. O navio mais atrás parece-nos um couraçado da classe Gloire.

Remetidos então para a década de 1860, ou data posterior, procuremos um acontecimento que durante o reinado de D. Luís que tenha ocasionado a presença desses navios no Tejo.

No Palácio Nacional da Ajuda espera-nos um quadro de grandes dimensões de João Pedroso, Partida para França da Família Real em 1865, em que, para além das corvetas Bartolomeu Dias, Estefânia e Sagres, aparecem os mesmos couraçados.

Partida para França da Família Real em 1865, João Pedroso.
Revista da Armada, abril de 2014

Deve o pequeno quadro no Museu de Lisboa representar a saída do Tejo dos couraçados franceses em 1865 e ser da autoria de João Pedroso.

João Pedroso Gomes da Silva (1825-1890), gravador e pintor de marinhas,  mostrava a sua obra nas exposições da Sociedade Promotora das Bellas-Artes, tendo sido aí o artista mais representado, 163 quadros, o único presente nas catorze edições.

Na biblioteca da Universidade de Coimbra, onde se encontram os catálogos dessas exposições, poderíamos, talvez, encontrar nos relativos a 1865, ou 1866, ou 1867, quarta, quinta e sexta exposições uma referência a João Pedroso com o descritivo "A esquadra francesa junto à Torre do Bugio em 1865". Talvez.

Torre do Bugio na Barra de Lisboa, João Pedroso, gravura
Biblioteca Nacional de Portugal


Plans of the Solférino (large TIF files) from the Atlas du génie maritime of the Service historique de la Défense" ("Historical services of the ministry of Defence"):
Plan of the hull
Cargo bay and machinery
2nd battery and castle
1st battery
Riggings

Alguns artigos relacionados:
O Bugio
John Cleveley Junior e o Tejo, 1775
Foz do rio Tejo em 1800
O forçamento da barra do Tejo
Trafaria em 1865
A falua do Bugio
Uma arribada em calma branca
Os Faroleiros, filme de Raul de Caldevilla, 1922
Furiosa batalha
Mar da Calha

Informação relacionada:
Ironclad warship
MS Achilles (1863)
Hector class ironclad
Defence class ironclad
Audacious class ironclad
Our iron-clad ships; their qualities, performances, and cost.
Herbert Wrigley Wilson (1866-1940)
Google Image Search: HMS Achilles
Cuirassé à coque en fer
A revolução industrial, Lisboa marítima e Marinha de Guerra, na obra de João Pedroso (1825-1890)

sábado, 27 de abril de 2019

Vista de Lisboa, 2 de setembro de 1808

Excelentíssimo Senhor:

Enquanto General do Exército do Sul, postado na margem do Tejo, e enquanto membro da Regência estabelecida pelo Príncipe Regente de Portugal, meu Senhor, para dirigir e sustentar os direitos da nação, em nome do dito Senhor requeiro a Vossa Excelência, em consequência da eterna aliança que durante tantos anos reinou entre as duas nações, que se possam embargar todas as embarcações utilizadas para levar as tropas francesas, tendo em conta os seus roubos e atrocidades, até que Sua Majestade Britânica ou Sua Alteza Real resolvam o que é melhor para a glória e interesses das duas nações, obrigando que Comissários portugueses e ingleses façam um inventário rigoroso das bagagens dos franceses, que não podem levar consigo as riquezas que se apropriaram, o que muito receamos devido à maldade destes opressores da humanidade.

A View of Lisbon and the Harbour.
With the entrance of the British fleet, on the 2 September 1808... to Admiral Sir Charles Cotton...
Anna Sophia Wagner.
British Museum

Fico convencido de que Vossa Excelência terá em conta esta requisição, que é de tal natureza que não pode admitir qualquer recusa, tanto pela sua justiça como pelo carácter generoso dum Ministro inglês, cuja posição Vossa Excelência sustenta tão gloriosamente.

The Embarcation of Gen. Junot after the convention of Cintra at Quai Sodre.
Biblioteca Nacional de Portugal

Tenho a honra de declarar a Vossa Excelência os sentimentos do maior respeito e veneração. Deus guarde Vossa Excelência,

The Convention of Cintra, a Portuguese Gambol for the amusement of John Bull, John Woodward, 1809.
Biblioteca Nacional de Portugal

Conde Monteiro Mor (1)


(1) Carta do Conde Monteiro Mor ao Almirante Charles Cotton (9 de Setembro de 1808)

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Chegada a Lisboa de Arthur Wellesley em 22 de março de 1809

O General Arthur Wellesley, futuro Duque de Wellington, chega a Lisboa para assumir o comando das forças portuguesas e inglesas Durante a Guerra Peninsular o tenente-general Sir Arthur Wellesley, será o responsável pelo comando das forças aliadas que combateram o invasor francês.

Wellington landing in 1809 at Lisbon to take command in the Peninsular War.
Royal Museums Greenwich

Foi promovido ao posto de marechal de campo após a vitória sobre o exército francês na batalha de Vitória, em 1813, onde liderou um exército composto por ingleses, portugueses e espanhóis, tendo contribuído decisivamente para o fim da Guerra Peninsular. (1)


(1) Parques de Sintra

Leitura relacionada:
C. W. C. Oman, Wellington's army, 1809-1814, London, Edward Arnold, 1913

Tema:
Guerra Peninsular

sexta-feira, 29 de março de 2019

Alexandre-Jean Noël (1752-1834), no Museu de Artes Decorativas de Lisboa

Na senda do percurso para o entendimento da pintura do Romantismo em Portugal, seja o de Lisboa, do Tejo, de Sintra, do Porto, e mesmo outros, pensámos que já nos tinhamos referido a Alexandre-Jean Noël (1752-1834) em artigo dedicado, tal como, a seu tempo, sumáriamente fizemos com Nicolas Delerive (1755-1818) e Henri l'Évêque (1769-1832), ou mesmo com Jean-Baptiste Pillement (1728–1808).

Museu de Artes Decorativas de Lisboa.
Sala D. Maria do Museu de Artes Decorativas Portuguesas.
tripadvisor

Todavia tal ainda não tinha acontecido, no entantoo, outros temas, nomeadamente aqueles encomendados por Gérard de Visme, podem ser encontrados em diversos contextos tanto neste blogue, Lisboa e o Tejo, como em Almada Virtual Museum.

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre-Jean Noël, início da década de 1790
FRESS

Pintor paisagista, e de marinhas, pré-romântico, ou romântico, barroco para uns, clássico ou neo-clássico para outros, não referenciado por Cyrillo Volkmar Machado, vamos aqui anotar alguns aspectos da sua vida e obra, na perspectiva das existências no Museu de Artes Decorativas de Lisboa.

Vista da parte oriental de Lisboa, Alexandre-Jean Noël, início da década de 1790
FRESS

oooOooo

Noël, Alexandre Jean (Brie-Comte-Robert 1752 - Paris 1834)

Discípulo de Nicolas-Charles de Silvestre e de seu filho Jacques-Augustin assim como de Joseph Vernet [Claude Joseph Vernet (1714-1789)]; aluno da Academie royale, ganhou o terceiro prémio em 1767, antes de se juntar à expedição científica de Jean Chappe à Califórnia como ilustrador.

Noël regressou a França na década de 1770 e a partir daí dividiu o seu tempo entre França e Portugal, comtinuando a produzir imagens topográficas a óleo, aguarela e guache.

Museu de Artes Decorativas de LIsboa.
tripadvisor

Uma notícia de Lisboa apareceu no London Star,16.XII.1791:

"O Sieur Noel, um pintor francês, que ganhou um confortável livelihiood fazendo desenhos de nossos portos e seus arredores, caiu vítima de sua fúria pela Gallic liberty.  

Baluarte de Alcântara, Alexandre-Jean Noël, 1789
[obra idêntica, Clair de lune, em Amiens, Musée de Picardie].
FRESS

Tendo sido frequentemente aconselhado a interromper seus discursos sediciosos, mas em vão, foi preso e colocado a bordo de um navio a pronto a partir, sem questionar para onde.

Rocha do Conde de Óbidos, Alexandre-Jean Noël, 1789.
FRESS

Vários de seus compatriotas foram servidos do mesmo modo: modo que o nosso tribunal adopta sem cerimônia."

Rio Tejo e Torre de Belém (efeito de luar), Alexandre-Jean Noël.
FRESS

Os pastéis que nos deixou foram sem dúvida influenciados por Pillement [Jean-Baptiste Pillement (1728–1808)], mas as composições são no género Vernet [admirador de Poussin e Lorrain ]. (1)


(1) Dictionary of pastellists before 1800, Alexandre-Jean Noël

Galeria de imagens:
tripadvisor

Leitura relacionada:
Restos de Colecção

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O Livro do Desassossego

Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido — sem saber porquê. 

E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus.

Almada, vista de [Alfama, sé patriarcal?] Lisboa, James Holland, 1837.
Imagem: Walker Art Gallery

Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem veem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade [...]

O céu negro ao fundo do sul do Tejo era sinistramente negro contra as asas, por contraste, vividamente brancas das gaivotas em voo inquieto. O dia, porém, não estava tempestuoso já. Toda a massa da ameaça da chuva passara para por sobre a outra margem, e a cidade baixa, úmida ainda do pouco que chovera, sorria do chão a um céu cujo Norte se azulava ainda um pouco brancamente. O fresco da Primavera era levemente frio.

Ramalhete de Lisboa, Carlos Botelho, 1935.
Imagem: Wikipédia

Numa hora como esta, vazia e imponderável, apraz-me conduzir voluntariamente o pensamento para uma meditação que nada seja, mas que retenha, na sua limpidez de nula, qualquer coisa da frieza erma do dia esclarecido, com o fundo negro ao longe, e certas intuições, como gaivotas, evocando por contraste o mistério de tudo em grande negrume.

Mas, de repente, em contrário do meu propósito literário íntimo, o fundo negro do céu do Sul evoca-me, por lembrança verdadeira ou falsa, outro céu, talvez visto em outra vida, em um Norte de rio menor, com juncais tristes e sem cidade nenhuma. Sem que eu saiba como, uma paisagem para patos bravos alastra-se-me pela imaginação e é com a nitidez de um sonho raro que me sinto próximo da extensão que imagino.

Praça do Comércio e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Terra de juncais à beira de rios, terreno para caçadores e angústias, as margens irregulares entram, como pequenos cabos sujos, nas águas cor de chumbo amarelo, e reentram em baías limosas, para barcos de quase brinquedo, em ribeiras que têm água a luzir à tona de lama oculta entre as hastes verde-negras dos juncos, por onde se não pode andar.

A desolação é de um céu cinzento morto, aqui e ali arrepanhando-se em nuvens mais negras que o tom do céu. Não sinto vento, mas há-o, e a outra margem, afinal, é uma ilha longa, por detrás da qual se divisa — grande e abandonado rio! — a outra margem verdadeira, deitada na distância sem relevo.

Ninguém ali chega, nem chegará. Ainda que, por uma fuga contraditória do tempo e do espaço, eu pudesse evadir-me do mundo para essa paisagem, ninguém ali chegaria nunca. Esperaria em vão o que não saberia que esperava, nem haveria senão, no fim de tudo, um cair lento da noite, tornando-se todo o espaço, lentamente, da cor das nuvens mais negras, que pouco a pouco se mergiam [sic] no conjunto abolido do céu.

Retrato de Fernando Pessoa, Almada Negreiros , 1956.
Imagem: Lisboa Desaparecida

E, de repente, sinto aqui o frio de ali. Toca-me no corpo, vindo dos ossos. Respiro alto e desperto. O homem, que cruza comigo sob a Arcada ao pé da Bolsa, olha-me com uma desconfiança de quem não sabe explicar. 

O céu negro, apertando-se, desceu mais baixo sobre o Sul [...]

Cada vez que assim contemplo uma extensão larga, e me abandono do metro e setenta de altura, e sessenta e um quilos de peso, em que fisicamente consisto, tenho um sorriso grandemente metafísico para os que sonham que o sonho é sonho, e amo a verdade do exterior absoluto com uma virtude nobre do entendimento.

Lisboa, Maluda.
Imagem: maluda.eu

O Tejo ao fundo é um lago azul, e os montes da Outra Banda são de uma Suíça achatada. Sai um navio pequeno — vapor de carga preto — dos lados do Poço do Bispo para a barra que não vejo  [...]

A ideia de viajar nauseia-me.

Já vi tudo que nunca tinha visto.

Já vi tudo que ainda não vi.

O tédio do constantemente novo, o tédio de descobrir, sob a falsa diferença das coisas e das ideias, a perene identidade de tudo, a semelhança absoluta entre a mesquita, o templo e a igreja, a igualdade da cabana e do castelo, o mesmo corpo estrutural a ser rei vestido e selvagem nu, a eterna concordância da vida consigo mesma, a estagnação de tudo que vivo só de mexer-se está passando.

Paisagens são repetições. Numa simples viagem de comboio divido-me inútil e angustiadamente entre a inatenção à paisagem e a inatenção ao livro que me entreteria se eu fosse outro. Tenho da vida uma náusea vaga, e o movimento acentua-ma.

Só não há tédio nas paisagens que não existem, nos livros que nunca lerei. A vida, para mim, é uma sonolência que não chega ao cérebro. Esse conservo eu livre para que nele possa ser triste.

Ah, viajem os que não existem! Para quem não é nada, como um rio, o correr deve ser vida. Mas aos que pensam e sentem, aos que estão despertos, a horrorosa histeria dos comboios, dos automóveis, dos navios não os deixa dormir nem acordar.

De qualquer viagem, ainda que pequena, regresso como de um sono cheio de sonhos — uma confusão tórpida, com as sensações coladas umas às outras, bêbado do que vi.

Para o repouso falta-me a saúde da alma. Para o movimento falta-me qualquer coisa que há entre a alma e o corpo; negam-se-me, não os movimentos, mas o desejo de os ter.

Muita vez me tem sucedido querer atravessar o rio, estes dez minutos do Terreiro do Paço a Cacilhas. E quase sempre tive como que a timidez de tanta gente, de mim mesmo e do meu propósito.

A multidão aguardando o ministro na villa de Cacilhas, Joshua Benoliel, 1911.
Imagem: Hemeroteca Digital

Uma ou outra vez tenho ido, sempre opresso, sempre pondo somente o pé em terra de quando estou de volta.

Quando se sente demais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até outro universo.

Como nos dias em que a trovoada se prepara e os ruídos da rua falam alto com uma voz solitária.

A rua franziu-se de luz intensa e pálida, e o negrume baço tremeu, de leste a oeste do mundo, com um estrondo feito de escangalhamentos ecoantes… A tristeza dura da chuva bruta piorou o ar negro de intensidade feia. Frio, morno, quente — tudo ao mesmo tempo —, o ar em toda a parte era errado. E, a seguir, pela ampla sala uma cunha de luz metálica abriu brecha nos repousos dos corpos humanos, e, com o sobressalto gelado, um pedregulho de som bateu em toda a parte, esfacelando-se com silêncio duro.

O som da chuva diminui como uma voz de menos peso. O ruído das ruas diminui angustiantemente.

Nova luz, de um amarelado rápido, tolda o negrume surdo, mas houve agora uma respiração possível antes que o punho do som trêmulo ecoasse súbito doutro ponto; como uma despedida zangada, a trovoada começava a aqui não estar com um sussurro arrastado e findo, sem luz na luz que aumentava, o tremor da trovoada acalmava nos largos longes — rodava em Almada...

Lisboa, Avenida da Liberdade, década de 1900, publ. Mala da Europa.
Imagem: FCSH +Lisboa

Uma súbita luz formidável estilhaçou-se. Tudo estacou. Os corações pararam um momento. Todos são pessoas muito sensíveis. O silêncio aterra como se houvera morte. O som da chuva que aumenta alivia como lágrimas de tudo. Há chumbo [...]

A manhã, meio fria, meio morna, alava-se pelas casas raras das encostas no extremo da cidade. Uma névoa ligeira, cheia de despertar, esfarrapava-se, sem contornos, no adormecimento das encostas. (Não fazia frio, salvo em ter que recomeçar a vida.) E tudo aquilo — toda esta frescura lenta da manhã leve, era análogo a uma alegria que ele nunca pudera ter.

O carro descia lentamente, a caminho das avenidas. À medida que se aproximava do maior aglomeramento das casas, uma sensação de perda tomava-lhe o espírito vagamente. A realidade humana começava a despontar.

Nestas horas matinais, em que a sombra já desapareceu, mas não ainda o seu peso leve, o espírito que se deixa levar pelos incitamentos da hora apetece a chegada e o porto antigo ao sol. Alegraria, não que o instante se fixasse, como nos momentos solenes da paisagem, ou no luar calmo sobre o rio, mas que a vida tivesse sido outra, de modo que este momento pudesse ter um outro sabor que se lhe reconhece mais próprio.

Retrato de Fernando Pessoa, Almada Negreiros , 1964.
Imagem: Museu Calouste Gulbenkian

Adelgaçava-se mais a névoa incerta. O sol invadia mais as coisas. Os sons da vida acentuavam-se no arredor.

Seria certo, por uma hora como estas, não chegar nunca à realidade humana para que a nossa vida se destina. Ficar suspenso, entre a névoa e a manhã, imponderavelmente, não em espírito, mas em corpo espiritualizado, em vida real alada, aprazia, mais do que outra coisa, ao nosso desejo de buscar um refúgio, mesmo sem razão para o buscar.

Sentir tudo sutilmente torna-nos indiferentes, salvo para o que se não pode obter — sensações por chegar a uma alma ainda em embrião para elas, atividades humanas congruentes com sentir profundamente, paixões e emoções perdidas entre conseguimentos de outras espécies.

As árvores, no seu alinhamento pelas avenidas, eram independentes de tudo isto.

A hora acabou na cidade, como a encosta do outro lado do rio quando o barco toca no cais. Ele trouxe consigo, enquanto não tocou na margem, a paisagem da outra banda pegada à amurada; ela despegou-se quando se deu o som da amurada a tocar nas pedras. 

Porto de Lisboa (Portugal), Caes da Ribeira Nova, ed. Martins/Martins & Silva, 60, década de 1900.
Imagem: Delcampe

O homem de calças arregaçadas sobre o joelho deitou um grampo ao cabo, e foi definitivo e concludente o seu gesto natural. Terminou metafisicamente na impossibilidade na nossa alma de continuarmos a ter a alegria de uma angústia duvidosa. 

Os garotos no cais olhavam para nós como para qualquer outra pessoa, que não tivesse aquela emoção imprópria para a parte útil dos embarques [...] (1)


(1) Fernando Pessoa (Bernardo Soares), O Livro do Desassossego

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Maria da Glória, jovem rainha em Inglaterra (1828-1829)

A impressão que este inesperado acontecimento ocasionou na capital da Gran-Bretanha foi de uma ordem tal, que o proprio duque de Wellington e lord Beresford, tendo ambos elles commandado tropas portuguezas durante a guerra da península, e vencendo ambos elles, como taes, avultadas pensões, pagas pelo tesouro portuguez, não hesitaram em ir lambem n'esta solemne ocasião comprimentar a jovem rainha D. Maria II em grande uniforme, e ornados com as differentes ordens militares de Portugal. 

D. Maria II, rainha de Portugal durante o seu exílio em Londres (1826 1828-1829), por Thomas Lawrence (detalhe).
A pintura, no verso datada de 1827 [?], foi encomendada por George IV e representa a jovem rainha em 1829, .
Royal Collection Trust

Ao duque disse ella muito graciosamente: "sei que vós n'outro tempo salvastes meu avô, espero portanto que tambem agora salvareis sua neta". 

Majesty & Grace, William Heath, 1828.
The British Museum

Baldado empenho; o duque durante todo o seu ministerio só cuidou em proteger quanto pôde os interesses de D. Miguel, cuja usurpação teve para elle mais attractivos, por ser mais conforme com a política, que se propozera abraçar durante a sua gerencia ministerial. 

Retrato do rei D. Miguel, Johann Nepomuk Ender.
Cabral Moncada Leilões

George IV achava-se muito incommodado, quando a rainha chegou a Inglaterra, e só em 22 de dezembro pelas duas horas da tarde a pôde receber no seu palacio de Windsor Castle, onde não poupou honras, nem distincções, feitas á sua jovem hospeda, como se já estivesse reinando em Portugal. 

The promenade or a sketch for Windsor, William Heath, 1827-1829.
The British Museum

Ornado lambem com as ordens militares portuguezas, elle a veio esperar ao alto da escadaria, por não poder descer ao fundo d'ella, em consequencia dos seus padecimentos, e ali lhe offerecen o braço, e a conduziu depois á sala principal, onde a assentou n'um canapé ao seu lado, e lhe pediu licença para que as outras senhoras podassem fazer o mesmo, tendo-lho antes disso apresentado as pessoas da sua familia e a côrte.

O brinde que lhe dirigiu ao "toast", durante o almoço que lhe offereceu, foi: "á minha joven amiga e amada, a rainha de Portugal". 

The feast near eateon or master George and his little visitor, William Heath, 1827-1829.
The British Museum

George IV não teve duvida de exprimir os puros e fervorosos votos que fazia, tanto por ella, como pelo triumpho da legitimidade portugueza.

The high and mighty queen recieving an address from the most loyal subjects in the world, 1827-1829.
The British Museum

Não admira pois que no meio de uma tal recepção a chegada da rainha a Inglaterra fosse tida como um feliz pressagio para o triumpho da causa liberal e que os emigrados do deposito de Plymouth manifestassem por todos os modos ao seu alcance o jubilo que lhes causara similhante chegada. (1)


(1) Luz Soriano, História da Guerra Civil... Terceira Ephoca Tomo III Parte I.