Se o Conde de Bolonha D. Affonso, Infante de Portugal, teve filhos de
sua primcira mulher a Condessa Mathilde (1202 -1259), he hum dos
pontos, em que com mayor vigor se tem contendido, e disputado.
Em quanto Portugal se conservou separado [de Hespanha], nunca esta
materia teve mais fundamento do que a tradição pueril de alguns
Historiadores, de quem se pode dizer, que a escreverão para gastarem
tempo, e papel com a sua narração, mas depois, que o imprudente valor
del Rey D. Sebastião condenou ás masrnorras de Africa no,campo de
Alcacere toda a gloria Portugueza, e depoia que a indesculpavel
irresolução do Cardeal D. Henrique, que quasi na sepultura cingio a
Coroa, deo lugar a que se occupasse o Throno Porruguez pela violencia
das armas, e não pela desarmada força do Direito, então he que começou a
soar pelo mundo com mayor estrondo a injustiça, que El Rey D. Alfonso
III usou com os filhos, que houve de sua primeira mulher a Condessa
Mathilde de Bolonha [...]
Diz pois a tradição, como referem estes Authores, que sabendo em
França a Condessa Mathilde, que seu marido o Infante D. Affonso estava
casado em Portugal com D. Brites, filha bastarda de D. Alfonso X Rey de
Castella, levada da impaciencia de caso tão feyo e doendolhe vivamente o
desprezo da sua pessoa, e do seu amor, viera acompanhada de huma frota a
este Reyno, e que chegando a Cascaes, soubera que o infante estava em
Frielas, e que por huns criados de grande estimação, e confiança, que
consigo trazia, lhe escrevera, representandolhe a indignissima acção,
que usava com ella, e pedindolhe, que desse satisfação ao escandalo de
toda a Europa.
Diz mais a tradição, que o Infante sem fazer caso dos seus rogos, nem
das suas justificadas representações, lhe respondera com aspereza tão
pouco esperada, que desconfiando de conseguir o que pretendia, entre a
dor, e a desesperação expuzera os os filhos, que comsigo trazia, na foz
do Tejo, donde teve principio o nome de Cachopos que na nossa linguegem
antiga he o mesmo que Meninos, e que voltando outra vez para França, se
valera do respeito de S. Luiz, que então reynava gloriosamente naquella
Monarchia, para que a grande authoridade desse Principe fosse o remedio
da sua injuria, o não chegou a ter effeito [...]
Quem se não ha de rir vendo que escreverão huns homens, que se
prezavão de eruditos, que desta acção se derivou o nome de Cachopos, por
se exporem naquelle lugar estes reos innocentes? Que mayor argumento da
ignorancia desta nova tradição? Os Cachopos he huma corrupção da
palavra Latina Scopulm, com que se explicão os baixos, que se fizerão
infames no escandalo dos navegantes pelos naufragios, que causarão, e
nunca se derivarão dos meninos, que nelles deixou o desconfiado amor da
Condessa Mathilde.
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18
Moleta
Batiment qui pêche dans le Tage et en dehors |
Só huma circunstancia tem faltado a este conto de velhas, que foy o
como se salvarão daquelle liquido patibulo. Não appareceo atégora algum
compadecido pescador, que vendo-os em tão evidente perigo, os salvasse
na sua molleta, ou no seu barco do alto [...] (1)
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13
Lanchas do Alto
Batiments pecheurs qui vont en haute Mer |
A entrada do Tejo fica situada entre as torres de S. Julião e do
Bugio, que distam 2:750 metros uma da outra, e entre o Bugio e o Bico da
Calha, ou ponta do cabedelo do S. Dois grandes bancos se prolongam para
o mar na direcção geral de NE. - SW., que se denominam Cachopo do N. e
Cachopo do S., ou Alpeidão. Formam estes cachopos dois canaes, o do N.,
ou corredor do N., que fica entre o cachopo do N. e a torre de S. Julião
da Barra, e o do S., ou Barra Grande, que fica entre os dois cachopos
indicados. Alem d'estes canaes ha um outro, estreito, pouco fundo e
variável em planta, chamado Golada, entre a torre do Bugio e a terra.
O cachopo do N. estende-se naquelle rumo por 5:500 a 6:500 metros. O
do S. é formado da cabeça do Pato, das coroas de Santa Catharina e do
cachopo propriamente dito.
Sobre a primeira parte ha peio menos 10 a 12 metros de agua. As
coroas de Santa Catharina ficam entre a cabeça do cachopo e a do Pato.
Este cachopo do S., ou Alpeidão. na extensão proximamente de 5:500
metros, é um banco de areia, que descobre em baixa-mar em diversos
logares.
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Lisboa com a sua área às 10 horas, Christian Friedrich von der Heiden, 1672. BLR |
O banco, ou barra que liga os extremos dos cachopos pelo W., fica
entre a cabeça do Pato e o Espigão, na máxima largura de 3:700 metros, e
forma grande escarcéu com ventos do quadrante do SW., levantando ás
vezes um rolo do mar, ou arrebentação, que fecha de um lado ao outro o
canal da barra e offerece nessas occasiões perigo
em arrostar com elle. (2)
(1) Joze Barbosa,
Catalogo chronologico, historico, genealogico, e critico, das rainhas de Portugal..., Lisboa, Na Officina de Joseph Antonio da Sylva, 1727.
(2) Adolfo Loureiro, Os portos maritimos de Portugal e ilhas adjacentes,
Vol III parte 1, Lisboa, Imprensa Nacional, 1906
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A pequena tocha do mar Leitura relacionada:
Naufrágios na foz do Tejo Cristina Santos,
Fortificações da foz do Tejo, Lisboa, Universidade Lusíada, 2014