quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Batalhões de Voluntários, Cerco do Porto, 1832

Batalhões de Voluntários criados por D. Pedro Duque de Bragança em 1832

 1 Batalhão Académico
 2 Companhia de Cavalaria
 3 Batalhão da Rainha


 4 1.° Batalhão Móvel
 5 2.° dito
 6 3.° dito da Serra do Pilar
 7 1.° dito Fixo
 8 2.° dito dito
 9 1.° dito Provisório de Santa Catharina
10 2.° dito de Santo Ovidio
11 3.° dito de Cedofeita
12 Companhoia de Artilharia Nacional
13 Dita de dita do Batalhão Fixo
14 Dita de dita do 2.° dito dito
15 Dita de Artifices de __ __
16 Dita dos Lampeões da Cidade


17 Batalhão de Empregados Publicos
18 Dito da Beira Baixa
19 Dito de Tras os Montes
20 Dito do Minho
21 Dito de ____ Atiradores
22 Dito do Trem do Ouro
23 Dito do Trem Nacional
24 Dito de Mercantes do Douro
25 Companhia d'ambulancia (1)


(1) Arquivo Municipal do Porto

Mais informação:
Cerco do Porto (1832-1833)

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Praia da Vitória (ou os Voluntários da Rainha em Villa da Praia) II de II

Antonio José de Souza Manoel Severim de Noronha, Conde de Villa Flôr, chegou ao porto da Villa da Praia no dia 22 de Junho de 1829, numa escuna, escapando com grande felicidade ao bloqueio [nota: repete este apontamento o texto do precedente, contudo, neste caso, apresentando iconografia topográfica e cartográfica].

Hemeroteca Digital de Lisboa

Era a segunda tentativa. Os soccorros trazidos pelo general Saldanha tinham sido repellidos pelas balas do cruzeiro inglez, que pouco depois foi mandado retirar [também "Nas aguas dos Açores (1829) deu-se um caso com Bernardo de Sá e seu irmão José, caso que escapou á phantasia de todos os auctores de romances enredados e tenebrosos"]!

Procedeu-se aos trabalhos de fortificação, em que prestaram relevantes serviços — Eusebio Candido Pinheiro Furtado [Memória Histórica de Todo o Acontecido no Dia Eternamente Fausto 11 de Agosto de 1829], e Joaquim José Groot da Silva Pombo.

Adoptaram-se, com pequenas modificações, as medidas tomadas pela Junta, continuando a fortificação desde o Porto Judeu até á Villa da Praia.

Planta da Bahia da Villa da Praya para Intiligencia, 1805.
Fortalezas.org

A esquadra de D. Miguel, constando, ao todo, de 22 vasos: nau D. João VI, trez fragatas [Pérola, Dianna e Amazona], duas corvetas [?, Princeza Real], cinco charruas [Jaya Cardozo, Galatea, Orestes, Princeza da Beira e Princeza Real], quatro brigues [ou cinco: 13 de Maio, Infante D. Sebastião, Providência, Glória e Devina Providência], etc [força de desembarque: dois patachos, Bom-fim e Carmo e Almas; duas escunas da Graciosa e Triunfo d'Inveja, dois iates, Bom Despacho e Santa Luzia e seis barcas canhoneiras, cada uma com uma peça], trazendo a bordo 3424 homens de desembarque, e 2224 da brigada e tripulação, appareceu nos mares da Terceira, na tarde de 29 de Julho de 1829 [Annaes da Terceira — Drummond].

Açores, Villa da Praia Ataque da 3.ª no dia 11 de Agosto de 1829.
Tenente Gualvão do Regimento dos Voluntarios da Rainha, c. 1830.
Fortalezas.org

Nos Açores, ainda na força da verão, não são raros os dias chuvosos e de bruma espessa. O dia 11 de agosto rompeu carregado de neblina.

Os telegraphos não podiam trabalhar. De terra não se descortinava a esquadra. Subitamente appareceu proxima á bahia de S. Matheus (a oeste) já com as lanchas fóra, fazendo signaes aos na- vios e denunciando evidentemente a intenção do ataque.

Um grande aguaceiro caiu de repente e a esquadra encobrio-se de novo.

Ás 11 horas da manhã, em seguida a uma chuva torrencial, appareceram as pontas dos mastros, por cima do cabo de Santa Catharina.

Forte de Santa Catarina do Cabo da Praia, Damião Pego, 1881.
Fortalezas.org

Tinha chegado a hora do combate, que vou descrever rapidamente, e apenas como um episodio.

Defendiam a bahia da Villa da Praia o batalhão de Voluntarios da rainha, commandados pelo major Menezes, e outras forças que se conservavam debaixo d'armas desde a vespera, tendo á frente o denodado quartel-mestre-general, Balthazar d'Almeida Pimentel, actual conde de Campanhã.

Fundeava a esquadra inimiga trazendo á frente a nau D. João VI, ficando-lhe à esquerda as fragatas Diana, Amazona, e infante D. Sebastião. As outras embarcações em segunda linha.


Tudo isto lançou ferro tão proximo do terra, que não havia memoria de haverem feito outro tanto os proprios navios mercantes.

Commandava o forte do Espirito Santo, extrema esquerda, o alferes de caçadores Manuel Franco. O forte tinha trez peças, uma de calibre 18, as outras duas de 24, trez soldados de guarnição, e 8 artilheiros da costa.

Forte do Espírito Santo, Damião Pego, 1881.
Wikipédia

O do Porto [forte de Santa Cruz] era commandado pelo válentissirno alferes de infanteria — Simão Antonio de Alhuquerque e Castro, depois capitão de caçadores 5.

Forte de Santa Cruz (Praia da Vitória), Tombo dos Fortes da Ilha Terceira, 1881.
Wikipédia

Tinha uma peça, um artilheiro de linha, seis marinheiros, e a guarda composta de 4 soldados e um cabo. Vamos, que já era gente!

Faço uma relação mais circumstanciada das forças que entraram na acção, tirando-a dos — Annaes — para que se veja melhor quaes eram os recursos do partido liberal, e os prodigios que se operaram com esses escassos recursos.

O forte da Luz [Forte de Nossa Senhora da Luz] estava desartilhado no flanco esquerdo da bahia, de onde principiava a linha do batalhão de Voluntarios, estendida com cinco companhias, até o forte das Chagas, desartilhado tambem.

Muralhas do Forte de Nossa Senhora da Luz ou da Alfândega junto ao areal, c. 1900.
Delcampe

Duas barcas canhoneiras que alli havia, assim que viram a esquadra, refugiaram-se no porto. Os marinheiros portaram-se com bravura no combate. A cavallaria constava de 23 officiaes, commandados pelo capitão José de Pina Freire.

Tambem não deixava de ser um esquadrão imponente! Um punhado de academicos; mas esses estacionados nos Biscoitos, e os Voluntarios da rainha. Eis aqui as forças que estavam na Villa da Praia, quando a poderosa esquadra inimiga fundeou em linha de batalha.

Antes que a nau largasse ferro, o alferes Simão Antonio, eommandante do forte do Porto, fez-lhe um tiro de peça, matando-lhe um homem, ferindo outro, e caiisando-lhe diversas avarias a bordo.

A nau respondeu, cortezmente, mandando-lhe uma banda inteira. Travou-se o combate; cahiam chuveiros de balas.

O estrondo da artilheria era pavoroso. Os habitantes da villa julgaram-na arrasada por momentos. A esquadra, por ter fundeado muito proximo, perdeu a maior parte das balas, que se lhe encravaram na areia.

De terra, os Voluntarios da rainha, com intrepidez que tocava no delírio, sustentavam o fogo de fuzilaria sobre os navios.

Cada homem dizem que parecia um gigante, arrojado, temerario, inabalavel! Ás tres horas e meia da tarde, o chefe da esquadra, sentindo o silencio do forte do Espirito Santo, vendo as ruinas de outros, e persuadido, pelo fogo, de proposito, menos activo, que havia falta de munições, achou opportuno metter nas lanchas a sua primeira brigada, composta de 1114 granadeiros e caçadores.

Eram gente escolhida, bem postos, excellentemente fardados, disciplinados, arrojados, destemidos.

Cada um trazia noventa cartuchos, e cheio o cantil de vinho. Eram commandados por D. Gil Eannes e Azeredo, dois cabos de guerra de coragem verdadeiramente heroica.

Por entre a metralha dos seus proprios, e a chuva de balas liberaes, seguiam impavidos na empreza do desembarque.

Açores, Villa da Praia Ataque da 3.ª no dia 11 de Agosto de 1829 (detalhe).
Tenente Gualvão do Regimento dos Voluntarios da Rainha, c. 1830.
Fortalezas.org

Sobre o ponto do desembarque uma illuzão pertinaz do bravissimo major Menezes seria fatal se não acudisse o quartel-mestre-general conde de Campanhã gritando-lhe:

"O desembarque é á esquerda; mande-me mais força para supportar a infanteria."

O major Menezes persistia ainda; desenganado, finalmente, mandou tocar a unir á esquerda para sustentar as forças que soffriam o impeto do ataque. O fogo, no forte, era como á queima-roupa.

Neste conflicto horrivel notou-se a intrepidez (que tal seria l) de um granadeiro realista e de um caçador liberal.

Entre os combatentes distínguia-se tambem um rapaz de 12 annos que chorava a morte do voluntario José Caetano Alvares, amigo de seu pae, batendo-se ao mesmo tempo, como o soldado mais destro! 

Na subida do Facho, exposto a um risco imminente, o conde de Ficalho (hoje marquez) assumindo forças collossaes arrancava penedos e despenhava-os sobre a cabeça dos adversarios.

Vista para o Monte do Facho.
A Villa da Praia é atacada pela esquadra do Uzurpador, em 11 de Agosto de 1829.
Biblioteca Nacional de Portugal

O major Menezes, vendo o inimigo flanqueado pelo alferes Caldas, gritava:

"Camaradas, estes cães levam-se á baioneta: armar baioneta, armar baioneta."

D'ali a pouco, no meio da horrivel carnificina, rebentavam os gritos de victoria dos soldados liberaes, gritos que descoroçoavam os assaltantes, e iam levar o terror á guarnição da esquadra. D. Gil Eannes e Azeredo tinham cahido no campo como dois heroes.

O espectaculo era horroroso! Centenares de infelizes soldados realistas saíam das ondas, onde luctavam com a morte, e, agarrando-se aos rochedos, eram atravessados pelas baionetas dos soldados liberaes.

Nestes extremos, os desventurados imploravam a vida aos vencedores, e os officiaes e os voluntarios, reprimindo o impeto das paixões, procuravam incutir nos animos exaltados os sentimentos de humanidade compativeis com os excessos da guerra.

Quando soavam os gritos da victoria apparecia o conde de Villa-Flôr com uma porção de tropa. Enthusiasmado, o conde abraçava o quartel-mestre-general — Balthazar d'Almeida. Este dizia-lhe:

"A batalha, general, está ganha, é de V. Ex.a. Os prisioneiros são immensos!"

O conde de Villa-Flôr entrava no campo. A esquadra tentou um segundo desembarque. Não chegou, porém, a effectual-o.

Vista da Villa da Praia no memoravel dia 11 de Agosto de 1829.
História dos Açores

A primeira lancha, apanhada por uma granada, virou com 120 granadeiros, bellissimos homens, dos quaes rarissimos se salvaram.

Á segunda suceedeu o mesmo; a terceira virou-se com o tumulto em que se pozeram os soldados: as outras recuaram, abrigando-se com a nau e as fragatas que as tinham protegido com toda a sua artilheria.

O terror panico apossou-se do animo dos assaltantes. A acção, para elles, estava completamente perdida. Receiando o effeito da artilheria grossa e das granadas, que tinham vindo com o reforço do conde de Villa-Flôr, a nau levantou com os outros navios, vendo-se obrigada a picar a amarra e deixar por mão as correntes.

Uma banda inteira foi a sua ultima despedida. É singular, contra 22 vasos de guerra, incluindo uma nau, trez fragatas, duas corvetas, einco charruas, quatro brigues; tendo da brigada e tripulação 2224 homens, de desembarque 3424; gente aguerrida, robusta, bem disciplinada; levando o amor pela sua causa até o fanatismo; resistiu e venceu um punhado de voluntarios, exercito commandado por majores, e onde o governador de um forte era um simples soldado!

Planta da Villa da Praya da Victoria, 1842.
Biblioteca Nacional de Portugal

Os que acreditarem na theoria dos factos providenciaes da historia, em parte alguma podem achar melhor exemplo do que na serie de milagres (não tenho outra palavra) que se deram desde a Praia da Victoria até Almoster e Asseiceira. (1)


(1) Bulhão Pato, Paizagens, 1871

Mais informação:
Instituto Histórico da Ilha Terceira
Forte do Espírito Santo
Forte de Santa Catarina do Cabo da Praia
Forte de Nossa Senhora da Luz
Forte de São José do Cabo da Praia

Leitura relacionada:
Francisco Ferreira Drummond, Annaes da Terceira, 1850
O dia 11 d'agosto de 1829, ou, A victoria da villa da Praia: poema heroico offerecido...

D. Pedro d'Alcântara:
D. Pedro d'Alcântara e Bragança, Imperador do Brasil, Rei de Portugal (Parques de Sintra)
D. Pedro d'Alcântara, Imperador do Brasil, Rei de Portugal (Google Arts & Culture)

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Praia da Vitória (ou os Voluntários da Rainha em Villa da Praia) I de II

Antonio José de Souza Manoel Severim de Noronha, Conde de Villa Flôr [futuro Duque da Terceira], chegou ao porto da Villa da Praia no dia 22 de Junho de 1829, numa escuna, escapando com grande felicidade ao bloqueio.

The Schooner "Monkey".
ARTUK

Era a segunda tentativa. Os soccorros trazidos pelo general Saldanha tinham sido repellidos pelas balas do cruzeiro inglez, que pouco depois foi mandado retirar [também "Nas aguas dos Açores (1829) deu-se um caso com Bernardo de Sá e seu irmão José, caso que escapou á phantasia de todos os auctores de romances enredados e tenebrosos"]!

Procedeu-se aos trabalhos de fortificação, em que prestaram relevantes serviços — Eusebio Candido Pinheiro Furtado [Memória Histórica de Todo o Acontecido no Dia Eternamente Fausto 11 de Agosto de 1829], e Joaquim José Groot da Silva Pombo.

Adoptaram-se, com pequenas modificações, as medidas tomadas pela Junta, continuando a fortificação desde o Porto Judeu até á Villa da Praia.

A esquadra de D. Miguel, constando, ao todo, de 22 vasos: nau D. João VI, trez fragatas [Pérola, Dianna e Amazona], duas corvetas [?, Princeza Real], cinco charruas [Jaya Cardozo, Galatea, Orestes, Princeza da Beira e Princeza Real], quatro brigues [ou cinco: 13 de Maio, Infante D. Sebastião, Providência, Glória e Devina Providência], etc [força de desembarque: dois patachos, Bom-fim e Carmo e Almas; duas escunas da Graciosa e Triunfo d'Inveja, dois iates, Bom Despacho e Santa Luzia e seis barcas canhoneiras, cada uma com uma peça], trazendo a bordo 3424 homens de desembarque, e 2224 da brigada e tripulação, appareceu nos mares da Terceira, na tarde de 29 de Julho de 1829 [Annaes da Terceira — Drummond].

A Villa da Praia é atacada pela esquadra do Uzurpador, em 11 de Agosto de 1829.
Biblioteca Nacional de Portugal

Nos Açores, ainda na força da verão, não são raros os dias chuvosos e de bruma espessa. O dia 11 de agosto rompeu carregado de neblina.

Os telegraphos não podiam trabalhar. De terra não se descortinava a esquadra. Subitamente appareceu proxima á bahia de S. Matheus (a oeste) já com as lanchas fóra, fazendo signaes aos na- vios e denunciando evidentemente a intenção do ataque.

Um grande aguaceiro caiu de repente e a esquadra encobrio-se de novo.

Ás 11 horas da manhã, em seguida a uma chuva torrencial, appareceram as pontas dos mastros, por cima do cabo de Santa Catharina.

Pozição dos navios da esquadra portugueza na bahia da Villa da Praia
(Ilha 3) no combate do dia 11 d Agosto de 1829.
Biblioteca Nacional de Portugal (v. também http://purl.pt/25491/2/)

Tinha chegado a hora do combate, que vou descrever rapidamente, e apenas como um episodio.

Defendiam a bahia da Villa da Praia o batalhão de Voluntarios da rainha, commandados pelo major Menezes, e outras forças que se conservavam debaixo d'armas desde a vespera, tendo á frente o denodado quartel-mestre-general, Balthazar d'Almeida Pimentel, actual conde de Campanhã.

Fundeava a esquadra inimiga trazendo á frente a nau D. JoãoVI, ficando-lhe à esquerda as fragatas Diana, Amazona, e infante D. Sebastião. As outras embarcações em segunda linha.

Açores, Villa da Praia Ataque da 3.ª no dia 11 de Agosto de 1829.
Tenente Gualvão do Regimento dos Voluntarios da Rainha, c. 1830.
Fortalezas.org

Tudo isto lançou ferro tão proximo do terra, que não havia memoria de haverem feito outro tanto os proprios navios mercantes.

Commandava o forte do Espirito Santo, extrema esquerda, o alferes de caçadores Manuel Franco. O forte tinha trez peças, uma de calibre 18, as outras duas de 24, trez soldados de guarnição, e 8 artilheiros da costa.

O do Porto era commandado pelo válentissirno alferes de infanteria — Simão Antonio de Alhuquerque e Castro, depois capitão de caçadores 5.

Tinha uma peça, um artilheiro de linha, seis marinheiros, e a guarda composta de 4 soldados e um cabo. Vamos, que já era gente!

Faço uma relação mais circumstanciada das forças que entraram na acção, tirando-a dos — Annaes — para que se veja melhor quaes eram os recursos do partido liberal, e os prodigios que se operaram com esses escassos recursos.

O forte da Luz estava desartilhado no flanco esquerdo da bahia, de onde principiava a linha do batalhão de Voluntarios, estendida com cinco companhias, até o forte das Chagas, desartilhado tambem.

Duas barcas canhoneiras que alli havia, assim que viram a esquadra, refugiaram-se no porto. Os marinheiros portaram-se com bravura no combate. A cavallaria constava de 23 officiaes, commandados pelo capitão José de Pina Freire.

Tambem não deixava de ser um esquadrão imponente! Um punhado de academicos; mas esses estacionados nos Biscoitos, e os Voluntarios da rainha. Eis aqui as forças que estavam na Villa da Praia, quando a poderosa esquadra inimiga fundeou em linha de batalha.

Antes que a nau largasse ferro, o alferes Simão Antonio, eommandante do forte do Porto, fez-lhe um tiro de peça, matando-lhe um homem, ferindo outro, e caiisando-lhe diversas avarias a bordo.

A nau respondeu, cortezmente, mandando-lhe uma banda inteira. Travou-se o combate; cahiam chuveiros de balas.

O estrondo da artilheria era pavoroso. Os habitantes da villa julgaram-na arrasada por momentos. A esquadra, por ter fundeado muito proximo, perdeu a maior parte das balas, que se lhe encravaram na areia.

De terra, os Voluntarios da rainha, com intrepidez que tocava no delírio, sustentavam o fogo de fuzilaria sobre os navios.

Cada homem dizem que parecia um gigante, arrojado, temerario, inabalavel! Ás tres horas e meia da tarde, o chefe da esquadra, sentindo o silencio do forte do Espirito Santo, vendo as ruinas de outros, e persuadido, pelo fogo, de proposito, menos activo, que havia falta de munições, achou opportuno metter nas lanchas a sua primeira brigada, composta de 1114 granadeiros e caçadores.

Eram gente escolhida, bem postos, excellentemente fardados, disciplinados, arrojados, destemidos.

Cada um trazia noventa cartuchos, e cheio o cantil de vinho. Eram commandados por D. Gil Eannes e Azeredo, dois cabos de guerra de coragem verdadeiramente heroica.

Por entre a metralha dos seus proprios, e a chuva de balas liberaes, seguiam impavidos na empreza do desembarque.

Sobre o ponto do desembarque uma illuzão pertinaz do bravissimo major Menezes seria fatal se não acudisse o quartel-mestre-general conde de Campanhã gritando-lhe:

"O desembarque é á esquerda; mande-me mais força para supportar a infanteria."

O major Menezes persistia ainda; desenganado, finalmente, mandou tocar a unir á esquerda para sustentar as forças que soffriam o impeto do ataque. O fogo, no forte, era como á queima-roupa.

Neste conflicto horrivel notou-se a intrepidez (que tal seria l) de um granadeiro realista e de um caçador liberal.

Entre os combatentes distínguia-se tambem um rapaz de 12 annos que chorava a morte do voluntario José Caetano Alvares, amigo de seu pae, batendo-se ao mesmo tempo, como o soldado mais destro! Na subida do Facho, exposto a um risco imminente, o conde de Ficalho (hoje marquez) assumindo forças collossaes arrancava penedos e despenhava-os sobre a cabeça dos adversarios.

O major Menezes, vendo o inimigo flanqueado pelo alferes Caldas, gritava:

"Camaradas, estes cães levam-se á baioneta: armar baioneta, armar baioneta."

D'ali a pouco, no meio da horrivel carnificina, rebentavam os gritos de victoria dos soldados liberaes, gritos que descoroçoavam os assaltantes, e iam levar o terror á guarnição da esquadra. D. Gil Eannes e Azeredo tinham cahido no campo como dois heroes.

O espectaculo era horroroso! Centenares de infelizes soldados realistas saíam das ondas, onde luctavam com a morte, e, agarrando-se aos rochedos, eram atravessados pelas baionetas dos soldados liberaes.

Nestes extremos, os desventurados imploravam a vida aos vencedores, e os officiaes e os voluntarios, reprimindo o impeto das paixões, procuravam incutir nos animos exaltados os sentimentos de humanidade compativeis com os excessos da guerra.

Quando soavam os gritos da victoria apparecia o conde de Villa-Flôr com uma porção de tropa. Enthusiasmado, o conde abraçava o quartel-mestre-general — Balthazar d'Almeida. Este dizia-lhe:

"A batalha, general, está ganha, é de V. Ex.a. Os prisioneiros são immensos!"

O conde de Villa-Flôr entrava no campo. A esquadra tentou um segundo desembarque. Não chegou, porém, a effectual-o.

Batalha da Praia da Vitória, 1829.
Parques de Sintra

A primeira lancha, apanhada por uma granada, virou com 120 granadeiros, bellissimos homens, dos quaes rarissimos se salvaram.

Á segunda suceedeu o mesmo; a terceira virou-se com o tumulto em que se pozeram os soldados: as outras recuaram, abrigando-se com a nau e as fragatas que as tinham protegido com toda a sua artilheria.

O terror panico apossou-se do animo dos assaltantes. A acção, para elles, estava completamente perdida. Receiando o effeito da artilheria grossa e das granadas, que tinham vindo com o reforço do conde de Villa-Flôr, a nau levantou com os outros navios, vendo-se obrigada a picar a amarra e deixar por mão as correntes.

Uma banda inteira foi a sua ultima despedida. É singular, contra 22 vasos de guerra, incluindo uma nau, trez fragatas, duas corvetas, einco charruas, quatro brigues; tendo da brigada e tripulação 2224 homens, de desembarque 3424; gente aguerrida, robusta, bem disciplinada; levando o amor pela sua causa até o fanatismo; resistiu e venceu um punhado de voluntarios, exercito commandado por majores, e onde o governador de um forte era um simples soldado!

Terceira, Henry Warren, Edward Finden.
Meister Drucke

Os que acreditarem na theoria dos factos providenciaes da historia, em parte alguma podem achar melhor exemplo do que na serie de milagres (não tenho outra palavra) que se deram desde a Praia da Victoria até Almoster e Asseiceira. (1)


(1) Bulhão Pato, Paizagens, 1871

Mais informação:
Instituto Histórico da Ilha Terceira
Forte do Espírito Santo
Forte de Santa Catarina do Cabo da Praia
Forte de Nossa Senhora da Luz
Forte de São José do Cabo da Praia

Leitura relacionada:
Francisco Ferreira Drummond, Annaes da Terceira, 1850
O dia 11 d'agosto de 1829, ou, A victoria da villa da Praia: poema heroico offerecido...

D. Pedro d'Alcântara:
D. Pedro d'Alcântara e Bragança, Imperador do Brasil, Rei de Portugal (Parques de Sintra)
D. Pedro d'Alcântara, Imperador do Brasil, Rei de Portugal (Google Arts & Culture)

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Batalha do Cabo de S. Vicente (5 de julho de 1833)

O inimigo conservava-se em linha cerrada,  e reservou o seu fogo até nos acharmos bem a tiro de fuzil; a Fragata hissou então um signal, que supposémos ser a pedir licença para romper o fogo: o momento era critico, e todos nós o conheciamos.

Battle of Cape St. Vincent of 1833.
A squadron of Portuguese frigates commanded by British Admiral Napier on behalf of the Queen Maria Liberal faction defeated King Miguel’s Absolutist squadron, in the Portuguese Civil War
The Westphalian Post

Apenas a Náo hissou o seu signal em reposta ao da Fragata, rompêo esta a sua banda , o que foi instantaneamente seguido por toda a esquadra, á excepção da D. João que só nos podia chegar com os seus guarda-lémes. Pobre Rainha! 

Eu olhei para cima, esperando ver todos os mastros ao vai-vem; mas a flâmula tremulava no tope, é não obstante o mais tremendo fogo que jamais tinha presenceado, que fazia borbulhar o mar que nos rodeava, como um caldeirão a ferver, o fumo tendo-se dissipado, descobrio aos Miguelistas assombrados a Fragata Rainha, altivamente fluctuando sobre as aguas de Nelsone Sáo-Vicente, com os mastros, a prumo, mostrando unicamente na sua enxárcia e panno a prova do fogo que tinha experimentado (The fiery ordeal she had gone through).

Sketch of Napier's glorious triumph over the Miguelite Squadron, George Philip Reinagle, 1833.
Biblioteca Nacional de Portugal

As guarnições estavão apostos, poucos forão mortos ou feridos no convéz, porém as três peças de proa sobre o tombadilho ficarão quasi sem guarnição, e o Tenente Nivett, da Marniha, ficou mortalmente fendo.

A este tempo ainda nós não tinhamos dado um só tiro, e ordenei então que se fizessem alguns sobre o inimigo, para evitar quanto fosse possivel que este decizivamenté escolhesse um ponto d'ataque. 

Sketch of Napier's glorious triumph over the Miguelite Squadron, George Philip Reinagle, 1833.
Biblioteca Nacional de Portugal

O nosso exemplo foi seguido pela D. Pedro, e depressa passámos pela Fragata, e Martim de Freitas, perdendo este ultimo o seu mastaréo de velaxo. 

Sketch of Napier's glorious triumph over the Miguelite Squadron, George Philip Reinagle, 1833.
Biblioteca Nacional de Portugal

A Náo de Linha da retaguarda mettêo então de ló, nós arribámos para evitar uma banda das suas baterias, e a D. João orçou toda, demandando o seu travéz com o intuito de nos collocar entre os fogos crusados das duas Náos.

Sketch of Napier's glorious triumph over the Miguelite Squadron, George Philip Reinagle, 1833.
Biblioteca Nacional de Portugal

Isto era exactamente o que eu desejava, porque esta se achava nmito sotiventeada para poder retomar uma posição a barlavento; mettênios instantímeamente o léme de ló.

Sketch of Napier's glorious triumph over the Miguelite Squadron, George Philip Reinagle, 1833.
Biblioteca Nacional de Portugal

A Fragata obedeceo ao léme, quasi roçando a popa da Náo Rainha coin o páo da giba; disparárão-se-lhe os cachorros, e mais peças de proa, carregados até á boca de bala rasa e metralha; alliviou-se então o léme, e corremos a prolongar-nos com a Náo debaixo de um fogo activíssimo, que deitou abaixo o meu Secretario, o Mestre, e muita gente. 

Ambos os Navios ficarão atracados crusando as vergas e velas grandes, e o Chefe de Divisão Wilkinson, e o Capitão Carlos Napier, commandando a gente d'abordagem saltarão de cima das ancoras para a amurada da Náo, e levarão adiante de si aquella parte da guarnição ao longo dos bailéos de bombordo. 

Batalha do Cabo de S. Vicente em 1833, Morel-Fatio.
Imagem: Wikipédia

Eu não tinha tenção de ser um dos da abordagem, tendo bastante que fazer em to- mar cuidado na esquadra , porém o impulso éra demasiadamente forte, eachei-nie, quasi sem saber como, em cima do Castello-de-prôa da Náo, accompanhado de um ou dois Officiaes. 

Alli fiz pausa, até que saltando mais gente dentro do Navio, corremos para ré dando um grande: Viva! — e ou passámos pelo meio, ou repellimos pela escotilha grande abaixo, uma partida dos inimigos.

Almirante Charles Napier por John Simpson, após 1834.
Parques de Sintra

N'este momento recebi um severo golpe com um pé-de-cabra, cujo dono não escapou a salvo, e o pobre Macdonough, cahio a meu lado traspassado por uma bala de fuzil; Barreiros, Commandante da Náo, apresentou-se na minha frente, ferido no rosto, e batendo-se como um tigre. 

Era um homem valente; eu lhe salvei a vida. Veio depois o 2.° Commandanle, e atirou-me uma tào boa cutilada, que nao tive coração para lhe fazer mal; também ficou salvo. Barreiros pegou outra vez em armas, e a final foi morto na Camara. 

O Chefe de Divisão, e o Capitão Carlos Napier, depois de terem levado adiante de si huma multidão d'inimigos, cahirão pelo lado de bombordo do tombadilho da Náo, gravemente feridos; o primeiro com difficuldade poude tornar para dentro da Fragata, o ultimo, perdendo os sentidos, jazêo por algum tempo sobre o tombadilho, até que as vozes dos amigos, que vinhão em seu soccorro, o fizerão tornar a si. 

Charles John Napier.
Royal Museums Greenwich

Estávamos já senhores da tolda, mas a carnagem continuava ainda, a pezar dos esforços dos Officiaes para a terminar.

A primeira e segunda coberta ainda senão tinhão rendido; e quando a Fragata D. Pedro se dispunha para a abordagem, ambos os Navios fizerão fogo. 

Fallei pelo porta-voz ao Capitão Goble para que não continuasse, pois já estávamos senhores do convéz, e para que desse caça á Náo D. João, que se tmha feito ao largo; n'este mesmo momento um tiro disparado da segunda coberta o ferio mortalmente , e dentro de poucos minutos já não existia.

O Tenente Edmunds, e Wooldridge saltarão abaixo com um troço de gente; apoderárão-se da coberta, mas ambos cahirão feridos mortalmente. 

Dentro em poucos minutos tudo estava tranquiilo; a ultima coberta tinha-se rendido, e muitos dos marinheiros Portuguezes saltarão para cima da tolda para salvar-se, trazendo, tiras de lona branca nos braços esquerdos, tendo descoberto que esse era o distinctivo que a nossa gente trazia ao abordar.

Plano de Ataque, Batalha do Cabo de S. Vicente, 5 de julho de 1833.
Internet Archive

Outros poderão passar para bordo do meu Navio, entre estes alguns rapazes, que se souberão introduzir na praça d'armas (gun-roorn), e se empregarão em alimpar vidros. 

A gente teve então ordem de voltar para bordo da Fragata Rainha, á excepção dos que forão nomeados para ficar, e n'esta confusão, separarão-se os dois Navios, deixando-me a bordo da Preza. Com tudo não tardou muito que eu me não achasse a bordo da Fragata Almirante. 

Posição ao dar a Abordagem, Batalha do Cabo de S. Vicente, 5 de julho de 1833.
Internet Archive

Mettêo-se um velaxo novo, porque o outro estava despedaçado; a vela grande também se achava inutilisada, e estávamos no acto de mettêr outra, fizemos força de vela, e rapidamente nos hiamos aproximando da Náo D. João, achando-se a D. Pedro ainda mais perto d'ella, quando, vendo que não havia meio de evitar o combate, mettêo de ló, e arriou bandeira. 

Dei ordem á D. Pedro para tomar posse da Náo, e dei caça ao Martim de Freitas, cuja força era mui desproporcionada á da Portuense (cujo commandaate, Blackstone, foi ferido mortalmente), e o Villa-FIòr; e ainda que tinha recebido consideráveis avarias, hia-se arrastando, fazendo força de vela: mas ás déz horas estava em meu poder. 

A Corveta Princeza Real, passando a travéz de um dos Vapores, rendêo-se tambem. Pouco tempo depois estava eu prolongado com a Náo Rainha. 

O Capitão Peak, da D. Maria, passou pela popa da Fragata de cincoenta, prolongou-se com ella, orçou toda, e depois de algumas bandas, mettêo o gorupéz por entre a enxárcia da gata, e a tomou corajosamente.

Posição depois do Combate, Batalha do Cabo de S. Vicente, 5 de julho de 1833.
Internet Archive

Assim terminou a Acção de 5 de Julho, deixando em nosso poder duas Náos de Linha, cada uma das quaes montava oitenta e seis peças, incluindo quatro de quarenta e oito para disparar bombas; uma Fragata de cincoenta, um Navio de cincoenta peças, e uma Curveta de dezoito.

Escaparão duas Curvetas e dois Brigues; as duas primeiras chegarão a salvo a Lièboa; um Brigue reunio-se- nos no dia seguinte, e o outro foi ter á Ilha da Madeira. 

O inimigo estava amplamente provido de toda a sorte de petrechos de guerra, e montava guarda-lémes, alem das suas completas baterias. 

Sir Charles Napier's Victory off Cape St Vincent while in the Portuguese Service under Admiral de Ponza.
Art.com

A perda da Esquadra andou por uns noventa mortos e feridos. O inimigo perdeo de dozentos a trezentos homens. (1)


(1) Charles Napier (trad. Manoel Codina), Guerra da successão em Portugal, Lisboa, 1841

Tema:
Guerras Liberais

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Os Cachopos

Se o Conde de Bolonha D. Affonso, Infante de Portugal, teve filhos de sua primcira mulher a Condessa Mathilde (1202 -1259), he hum dos pontos, em que com mayor vigor se tem contendido, e disputado.

A map of the mouth of the famous river Tagus or the harbour of the city of Lisbon (detalhe), William Burgess (1729-1746).
Biblioteca Nacional de Portugal

Em quanto Portugal se conservou separado [de Hespanha], nunca esta materia teve mais fundamento do que a tradição pueril de alguns Historiadores, de quem se pode dizer, que a escreverão para gastarem tempo, e papel com a sua narração, mas depois, que o imprudente valor del Rey D. Sebastião condenou ás masrnorras de Africa no,campo de Alcacere toda a gloria Portugueza, e depoia que a indesculpavel irresolução do Cardeal D. Henrique, que quasi na sepultura cingio a Coroa, deo lugar a que se occupasse o Throno Porruguez pela violencia das armas, e não pela desarmada força do Direito, então he que começou a soar pelo mundo com mayor estrondo a injustiça, que El Rey D. Alfonso III usou com os filhos, que houve de sua primeira mulher a Condessa Mathilde de Bolonha [...]

Vista do Tejo e do palácio da Ajuda, Charles Landseer, 1825.
Instituto Moreira Salles

Diz pois a tradição, como referem estes Authores, que sabendo em França a Condessa Mathilde, que seu marido o Infante D. Affonso estava casado em Portugal com D. Brites, filha bastarda de D. Alfonso X Rey de Castella, levada da impaciencia de caso tão feyo e doendolhe vivamente o desprezo da sua pessoa, e do seu amor, viera acompanhada de huma frota a este Reyno, e que chegando a Cascaes, soubera que o infante estava em Frielas, e que por huns criados de grande estimação, e confiança, que consigo trazia, lhe escrevera, representandolhe a indignissima acção, que usava com ella, e pedindolhe, que desse satisfação ao escandalo de toda a Europa.

Descripção da boqua do Tejo, Vincenzo Casale, 1590.
Fortificações da foz do Tejo

Diz mais a tradição, que o Infante sem fazer caso dos seus rogos, nem das suas justificadas representações, lhe respondera com aspereza tão pouco esperada, que desconfiando de conseguir o que pretendia, entre a dor, e a desesperação expuzera os os filhos, que comsigo trazia, na foz do Tejo, donde teve principio o nome de Cachopos que na nossa linguegem antiga he o mesmo que Meninos, e que voltando outra vez para França, se valera do respeito de S. Luiz, que então reynava gloriosamente naquella Monarchia, para que a grande authoridade desse Principe fosse o remedio da sua injuria, o não chegou a ter effeito [...]

A map of the mouth of the famous river Tagus or the harbour of the city of Lisbon (detalhe), William Burgess 1729 - 1746.
Biblioteca Nacional de Portugal

Quem se não ha de rir vendo que escreverão huns homens, que se prezavão de eruditos, que desta acção se derivou o nome de Cachopos, por se exporem naquelle lugar estes reos innocentes? Que mayor argumento da ignorancia desta nova tradição? Os Cachopos he huma corrupção da palavra Latina Scopulm, com que se explicão os baixos, que se fizerão infames no escandalo dos navegantes pelos naufragios, que causarão, e nunca se derivarão dos meninos, que nelles deixou o desconfiado amor da Condessa Mathilde.

18
Moleta
Batiment qui pêche dans le Tage et en dehors

Só huma circunstancia tem faltado a este conto de velhas, que foy o como se salvarão daquelle liquido patibulo. Não appareceo atégora algum compadecido pescador, que vendo-os em tão evidente perigo, os salvasse na sua molleta, ou no seu barco do alto [...] (1)

13
Lanchas do Alto
Batiments pecheurs qui vont en haute Mer

A entrada do Tejo fica situada entre as torres de S. Julião e do Bugio, que distam 2:750 metros uma da outra, e entre o Bugio e o Bico da Calha, ou ponta do cabedelo do S. Dois grandes bancos se prolongam para o mar na direcção geral de NE. - SW., que se denominam Cachopo do N. e Cachopo do S., ou Alpeidão. Formam estes cachopos dois canaes, o do N., ou corredor do N., que fica entre o cachopo do N. e a torre de S. Julião da Barra, e o do S., ou Barra Grande, que fica entre os dois cachopos indicados. Alem d'estes canaes ha um outro, estreito, pouco fundo e variável em planta, chamado Golada, entre a torre do Bugio e a terra.

Vista do estuário do Tejo, tomada da Estação Espacial Internacional, Samantha Cristoforetti, 2015.
Samantha Cristoforetti no Facebook

O cachopo do N. estende-se naquelle rumo por 5:500 a 6:500 metros. O do S. é formado da cabeça do Pato, das coroas de Santa Catharina e do cachopo propriamente dito.

Sobre a primeira parte ha peio menos 10 a 12 metros de agua. As coroas de Santa Catharina ficam entre a cabeça do cachopo e a do Pato. Este cachopo do S., ou Alpeidão. na extensão proximamente de 5:500 metros, é um banco de areia, que descobre em baixa-mar em diversos logares.

Lisboa com a sua área às 10 horas, Christian Friedrich von der Heiden, 1672.
BLR

O banco, ou barra que liga os extremos dos cachopos pelo W., fica entre a cabeça do Pato e o Espigão, na máxima largura de 3:700 metros, e forma grande escarcéu com ventos do quadrante do SW., levantando ás vezes um rolo do mar, ou arrebentação, que fecha de um lado ao outro o canal da barra e offerece nessas occasiões perigo em arrostar com elle. (2)


(1) Joze Barbosa, Catalogo chronologico, historico, genealogico, e critico, das rainhas de Portugal..., Lisboa, Na Officina de Joseph Antonio da Sylva, 1727.
(2) Adolfo Loureiro, Os portos maritimos de Portugal e ilhas adjacentes, Vol III parte 1, Lisboa, Imprensa Nacional, 1906

Artigo relacionado:
A pequena tocha do mar

Leitura relacionada:
Naufrágios na foz do Tejo
Cristina Santos, Fortificações da foz do Tejo, Lisboa, Universidade Lusíada, 2014

sábado, 30 de junho de 2018

Catarina & Charles (1662)

Em maio de 1661 a decisão de Charles II casar com Catarina de Bragança encontrou em Portugal um grande alívio. Assim que as notícias do compromisso foram anunciadas, a corôa portuguesa começou os preparativos para os festejos do casamento. Como consequência ainda em agosto as celebrações da aliança anglo-portuguesa aconteceram por todo Portugal [...]



Os embaixadores ingleses chegaram a Lisboa em setembro de 1661. O primeiro a desembarcar foi Edward Montagu (1625-1672), i.e., Embaixador Extraordinário e Conde de Sandwich. Foi seguido por Sir Richard Fanshaw (1608-1666), que chegou a Lisboa alguns dias depois.

A magnífica entrada do embaixador e almirante Montagu em Lisboa

"O Magnifique Entrada do Ambassador e Admiral Montagu em Lixboa" and "The Entrance of the Lord Ambassador Mountague into the Citty of Lisbone the 28 day of March 1662"
Dedication to Lord Montague in Latin in three lines in the lower margin: "... Dedicat Theodorus Stoop suae Matis. Regina Anglia Pictor" cf. British Museum
Rijksmuseum

Entre os membros destacados da comitiva de Montagu dever-se-ia mencionar o pintor Dirck van der Stoop, também conhecido por Dirck Stoop (c. 1610-1680), que produziu duas séries de esboços, com um total de dezesseis descrições iconográficas das celebrações do casamento.

Touros Reays nas Festas do Casamento da Raynha da Gran Bretanha Em Lisboa, Dirck Stoop, 1662.
British Museum

A primeira série retrata as festividades aclamando o casamento real e a segunda algumas vistas panorâmicas de Lisboa [...]

Com respeito à primeira série, inclui oito gravuras: "O Magnifique Entrada do Ambassador e Admiral Montagu em Lisboa"; "Touros Reays nas Festas do Cazamento da Rainha da Gran Bretanha em Lisboa 1661"; "Reais Festas e Arcos Triunfais que se fizerão na Partida da Sereníssima Donna Catarina Raynha da Gram Bretanha"; "Vista de Lisboa e como a Rainha da grã Bretanha se Embarquo para Inglaterra"; "O chegado duque Jorck no Cannal entre o froto d’Englaterra"; "Dis Embarcação da Rainha da Gran Bretan em Portsmuit"; "Passage del Rey de gran Bretanha Carolo II e o Rainha Dona Catarina de Portsmuit per a Hamton-Court" and "Entrada publica que a S.ma Rainha da G.B. fés na cidade de Londres e como magnificamente foi recebida da noboesa e povo della em 2 de Sept. 1662".

Para mais informação sobre estes esboços, veja-se Soares, 1954: 106-110. Relativamente à primeira gravura da série, deveriamos mencionar que se refere à segunda chegada a Lisboa depois da viagem a Tânger e não aquela que teve lugar em 1661.

Gezicht op de stad en de haven van Lissabon, Dirk Stoop, 1662.
Rijksmuseum

[A segunda série:] "A vista geral de Lisboa”, "A Torre e entrada da Barra de Bellem"; "O Convento de St. Hierónimo em Bellem"; "a vista de Santo Amaro e prospectiva do lugar de Bellem"; "o Palácio do Infante D. Pedro em o Corpus Sancto em Lisboa"; "o Palácio Real de Lisboa"; "a vista do Convento da Madre de Deus" e "o Rio Tejo e a Cidade de Lisboa". (1)


(1) Susana Varela Flor, "que las riquezas del mundo parecian estar alli cifradas"

Mais informação:
António de Sousa de Macedo Relacion de las fiestas que se hizieron en Lisboa...
Lillias Campbell Davidson, Catherine of Bragança..., London, John Murray, 1908
José Manuel Garcia,  A genealogia das imagens de Lisboa entre 1662 e 1707
Susana Varela Flor, Aurum reginae or Queen-Gold...
Rolf Kemmler, O casamento real de D. Catarina de Bragança em 1662...
Soares, Ernesto (1954): Dicionário de Iconografia Portuguesa. Suplemento, Lisboa: Instituto de Alta Cultura. Sousa, António Caetano de (2007): "Da Infanta D. Catharina, Rainha da Grãa Bretanha" in História Genealógica da Casa Real Portuguesa. vol. VII, Ed. QuidNovi/Público, Academia Portuguesa de História, [1735-49].

Artigos relacionados:
Os conjurados de 1640
Catarina de Bragança por Dirk Stoop
Um segundo quadro de Filipe Lobo
O palácio e o chafariz
Alcântara (o baluarte)
Palácio do Corpo Santo
Iconografia de Lisboa (5.ª parte)
Iconografia de Lisboa (6.ª parte)
Vistas de Lisboa (3)
Vistas de Lisboa (4)
Vistas de Lisboa (5)

sábado, 5 de maio de 2018

Arte portuguesa na Exposição Universal de 1900

Entre os pintores expostos, Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929), do qual o Museu d'Orsay possui hoje uma natureza morta, recebe uma medalha de ouro pela sua "Soirée chez lui", tela realista pintada em Paris, representando um grupo de melómanos num salão burguês.

Paris, vue panoramique de l'Exposition Universelle de 1900.
Image: Sempervirens

Mas a exposição termina com uma catástrofe: todos as obras apresentadas estão reunidos no mesmo navio, o Saint-André, que naufragou no caminho de volta. Uma "meia dúzia de obras-primas", incluindo um retrato de Eça de Queiroz, por Columbano, afundaram-se assim ao largo de Sagres. (1)

Soirée chez lui ou Concerto de amadores, Columbano, 1882.
Da esquerda para a direita:
Maria Augusta Bordalo Pinheiro, Adolfo Greno, um cantor italiano, Josefa Greno e Artur Loureiro ao piano.
Imagem: MNAC

PEINTURES ET DESSINS

Dom Carlos 1°, roi de Portugal.
1. Le Lever des filets d’une Madrague; pastel.

O levantar de uma armação do atum (Algarve), D. Carlos de Bragança, 1899.
Imagem: Hemeroteca Digital

Alto Mearim (D. Maria Luisa do).
2. Fileuse du Minho; pastel.
3. Etude; pastel.

Alto Mearim (Comtesse du).
4. La Bible.
5. Poveretta.
6. Portrait de M. de V.
7. Sœur Marianne; pastel.

Soror Mariana, Condessa do Alto Mearim.
Imagem: Branco e Negro, 17 de maio de 1897

Assis (D. Branca).
8. La Mère Amélie.

A tia Aurélia, Branca Assis.
Imagem: Branco e Negro, 17 de maio de 1897

Barbosa (Albino Pinto Rodrigues) .
9 à 11. Portraits; peintures sur faïence.

Bandeira (D. Laura Sauvinet).
12. Victor Wagner, luthier portugais.

Victor Wagner no seu atelier, Laura Sauvinet Bandeira.
Imagem: Branco e Negro, 17 de maio de 1897

Bordallo Pinheiro (D. M. A.).
13 à 15. Fleurs.

Braga (D. Emilia Santos).
16. Sœur Marianna.
17. Endormi.
18. Rêverie.
19. Varina, marchande de poissons.

Brito (José).
20. Martyre du fanatisme.

Mártir do fanatismo, José de Brito, c. 1895.
Imagem: MNAC

21. La fable et la vérité.
22. Portrait de M. le comte de L.

Carneiro Junior (A. Texeira).
23. Portrait de R. C.
24. Portrait de A. C.
25. L’Amour.
26. La Source du Bien.

Columbano (Bordallo Pinheiro).
27. Vins et fruits.
28. Saint Antoine de Lisbonne.

Santo António de Lisboa, Columbano, 1898.
Imagem: do Porto e não só...

29. La Tasse de thé.

A chávena de chá, Columbano, 1898.
Imagem: MNAC

30. Portrait de l'acteur J. Rosa.

Retrato do actor João Rosa, Columbano.
Imagem: Ruas de Lisboa...

31. Portrait de l’acteur Taborda.
32. Portrait de M. Eça de Queiroz.

Arte Pintura Columbano Retrato de Eça de Queiroz 01 .jpg
Imagem: MatrizNet

33. Portrait de M. le comte d'Arnoso.
34. Portrait de M. Joao Barreira.

Professor João Barreira, Columbano Bordalo Pinheiro, 1900.
Imagem: Wikimedia

35. Portrait de M. Trindade Corelho.

Retrato de Trindade Coelho, Columbano, 1898.
Imagem: MNAC

36. Portrait de M. H. de Vasconcellos.

Condeixa (Ernesto Ferreira).
37. Vasco de Gama devant le Samorim de Galicut.
38. Portrait de M. Prosper Lasserre.
39. Portrait de l’Auteur Cunha (Antonio Candido da).
40. Dolmens.
41. Coquelicots.
42. Viatique (effet de nuit).

Gameiro (Alfredo Roque).
43 à 47. Aquarelles.

Guedes (Alfredo).
48 à 50. Aquarelles.

Keil (Alfredo).
51. Études.
52. Motifs du Nord du Portugal.

Loureiro (Arthur).
53. La Vision de saint Stanislas Costha.

Malhoa (José)
[v. O Grémio Artístico (7.ª exposição, 1897)].
[v. Provocando: Paris 1900 – L'Exposition Universelle]
54. Les Potiers.

55. A blanchir le linge.
56. Les Boulangères.

As Padeiras, Mercado em Figueiró, José Malhoa 1898.
Imagem: Wikimedia

57. Le Professeur titulaire de chaire.
58. Portrait du prieur de Constancia.
59. En voyant passer le train.

À passagem  do comboio, José Malhoa, 1896.
En voyant passer le train, gravura de Charles Baude, segundo o quadro perdido de Malhoa.
Imagem: Provocando

Mattoso da Fonseca (Joao G.).
60. Portrait de Mme. Mattoso da Fonseca.

Moura (Edouardo de).
61. Gardeuse de vaches.

Munrô (D. Fanny).
62. Marée montante.

Nogueira (D. Leonor da Silva).
63 et 64. Portraits sur porcelaine.

Pinto (Alberto).
65. Retour de la ville.
66. Gardeuse d’oies.
67. Intérieur breton.

Pinto (Manuel-Henrique).
68. Pâturage des porcs.

Pâturage des porcs, Manuel Henrique Pinto.
Imagem: Catalogue officiel illustré de l'Exposition

Prat (Arthur).
69. En songeant à lui.
70. La Pèche de la bucarde.
71. Dans un atelier de photographe.

Ramos (Julio).
72. Récolte de maïs.
73. Ecole buissonnière.
74. Crépuscule.
75. Rentrée des bateaux.
76. Effet du couchant.

Reis (Carlos).
77. Mme. M. M.

Mme. M. M., Carlos Reis.
Imagem: Catalogue officiel illustré de l'Exposition

78. Portrait de ma mère.

Retrato de minha mãe, Carlos Reis.
Imagem: Catalogue officiel illustré de l'Exposition

79. Portrait de ma mère.

Retrato de minha mãe, Carlos Reis.
Imagem: Hemeroteca Digital
80. Matin à Clamart.

Manhã em Clamart, Carlos Reis, 1889.
Imagem: MatrizNet

81. Dans la prairie.
82. L’Automne.
83. Coucher de soleil.

Ribeiro (Arthur B. S.).
84. Tambour d’infanterie; aquarelle.

Ribeiro (Eduardo Teixeira Pinto) .
85. Dévotion.

Rio (Jules, Vsse. de Sistello).
86. La Fin d’une ondine.
87. Rose de Noël.
88. Irène.
89. L’Anniversaire.

Rodrigues (Adolpho).
90. La Gardeuse.
91. Sabotiers bretons.
92. Paysage breton.
93. Jeunesse.
94. Portrait de Mme. la baronne do S. C.

Salgado (José Vellozo).
95. Jésus.
96. Vasco de Gama au Samorim de Calicut.

Vasco da Gama perante o Samorim de Calecute, Veloso Salgado, 1898.
Imagem: Wikipédia

97 à 102. Portraits.
103. Portrait de Mme. Mouchon.
104. Portrait du Dr. Mello Vianna.

Santos (D. Laura). 
105. Une consultation.

Santos (D. Virgina).
106. Les Sardines.

Silva (José Silva d’Almeida e).
107. Chez le bon papa.
108. Que ton nom soit béni.
109. Après le repas.

Silva Nogueira (D. A. Pinto Leite).
110 et 111. Portraits sur porcelaine.
112. Objet de fantaisie.

Souza Pinto (José-Julio de).
113. Le Chant de l’Alouette.
114. Dans l'eau.
115. Chloé enfant.

Chloé enfant, Souza Pinto.
Imagem: Catalogue officiel illustré de l'Exposition


116. Les Châtaignes.

Les chataignes [As castanhas], Souza Pinto.
Imagem: Catalogue officiel illustré de l'Exposition

117. Au coin du feu.

Au coin du feu [À lareira], Souza Pinto.
Imagem: Catalogue officiel illustré de l'Exposition

118. La Forge.
119. Le Retour des bateaux.

A volta dos barcos, Sousa Pinto, 1891.
Imagem: Douta melancolia

120. L’Été à Vizella.
121. Les Mousses.
122. Le Scorff.

Torquato Pinheiro (A. José).
123. La Récolte de maïs. 

Paris, Grand Palais, plan du rés-de chaussée, 1900.
Imagem: Internet Archive

SCULPTURE

Alves (Venancio P. M.).
1. Médailles.

Costa (Thomas F. d’Araujo).
2. Dans la Forêt.
3. La Loi chrétienne.
4. Infant D. Henrique.
5. Nymphe du Mondego.

Gouveia (F. Pereira da Silva).
6. Regret.
7. Béatrice de Portugal.
8. Portrait.
9. Médaillon.
10. La Calomnie.

Lima (Casimiro José de).
11. Médaille.

Lopes (Antonio Teixeira).
12. La Veuve.

A viúva, Teixeira Lopes, 1893.
Imagem: MNAC


13. Caïn.

Caim, Teixeira Lopes.
Imagem: Notas d'Arte, Gutenberg.org

14. Saint Isidore de Séville; bois peint.
15. La Charité.


Caridade, Teixeira Lopes, 1894.

16. Etude d’enfant.
17. La Douleur.
18. L’Histoire.
19. Portes pour l’église de Candelarra à Rio de Janeiro.
20. Tête d’étude (vieille femmê).
21. Monument Oliveira Martius.
22. Statuette.

Lopes Junior (José Teixeira).
23. Tête de gamin.

Meirelles (Joaquin Pereira).
24. Martyr.

Paris, Grand Palais, Exposition Universelle, Le Petit Journal, 1900.
Image: Artprecium

Pinto (Antonio Alves).
25. Portrait.

Rato (José Moreira).
26. Dr. Cunha Belem.

Ribeiro (Aleixo de Queiroz).
27. Dernière pensée.
28. Vasco de Gama.
29. Lisbonne.

Sá (A. Fernances de).
30. Enlèvement de Ganymède.


Paris 1900 Arte Escultura António Fernandes Sá Rapto de Ganímedes 01.jpg
Imagem: Hemeroteca Digital

31. Tête d’expression.
32. Vieille Femme.
33. La Vague.

A vaga, António Fernandes Sá.
Imagem: Catalogue officiel illustré de l'Exposition


Teixeira Lopes (José Joaquin).
34. Bas-relief.
35. Médaillon.
36. Tête de jeune Fille.
37. Christ.
38. Médaillon. (2)


(1) Agnès Pellerin, Les Portugais à Paris: au fil des siècles & des arrondissements...
(2) Catalogue officiel illustré de l'Exposition décennale des beaux arts de 1889 à 1900

Mais informação:
Le Portugal à l'Exposition
Notice concernant le Portugal à la Exposition Universalle de 1900
Chefs d'oevre, Exposition universelle internationale de 1900
José de Figueiredo, Portugal na Exposição de Paris, 1901
Notas d'Arte, 1906
José-Augusto França, L'Art dans la société portugaise au XIXe siècle, 1964
L'Exposition 1900 : renseignements pratiques sur Paris et l'Exposition