sábado, 21 de abril de 2018

Da Ponte do Rio Douro, que liga Villa Nova de Gaya com a Cidade do Porto

Outro quadro não menos jucundo, e digno de altenção do observador he a celebre Ponte de barcas, que une ambas as margens do Douro, e que se patenteou pela primeira vez no dia 14 de Agosto de 1806.


OPORTO WITH THE BRIDGE OF BOATS: To the most noble the Marquis Wellesley. The view of Oporto upon its evacuation by Marshal Soult, before Marquis Wellington, in the Campaign of 1809, Is, with permission, respectfully dedicated by his LORDSHIP'S most obedient humble Servant ROBERT DAUBENY KING, Late Lieutenant, Royal Fusileers. / Henry Smith Esq.r del.t; M. Dubourg sculp.t. (com. 1813).
Imagem: ParadeAntiques

Calculão-se em mais de 400 as pessoas d’ambos os sexos, que fugindo aos horrores do fatal dia 29 de Março de 1809, pereceram aqui com o seu precioso mizeravelmente atropelladas, ou submergidas.

O desastre da Ponte das Barcas em 1809.
Imagem: Porto, de Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias

Que pavoroza scena! que lamentável catastrophe! Na madrugada de 12 de Maio do dito anno de 1809 queimaram, os Francezes esta Ponte celebre para obstarem á passagem do Exercito Anglo-Luso, que a marchas forçadas caminhavão sobre elles, mas pela summa actividade do Grande Wellington, e mediante os generosos soccorros dos Villa-Novenses se restabeeceu interinamente dentro de poucas horas. 

Oporto (gravura de 1885).
Imagem: 123RF

Assim o expressa o Diário de Lisboa n.° 15 do mesmo anno por estas palavras: "Devemos lembrar o grande patriotismo dos habitantes de Villa Nova, os quaes se prestaram a tudo quanto foi preciso para a passagem do nosso Exercito, apresentando em menos de 2 horas toda a madeira e taboado, que foi necessário:" não fallando nos viveres, com que á profia concorreram apezar da penúria, a que estavão reduzidos, como refere o Leal Portuguez n.° 12 do mesmo anno.

Porto vista tomada do caes de Villa Nova, Henry L’Evêque, rep. 1817.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

Tracta-se actualmente de outra Ponte, que ficará muito melhor, e muito mais ampla, que a primeira.

Oporto From Fontainhas, Batty, Miller, 1829.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

Esta vistosa Ponte, unica no seu genero em Portugal, e que se compõem de trinta e tres barcas, tendo perto de mil palmos de extensão, he talvez a obra mais ulil de quantas se tem feito no Porto, tanto pelo prazer do passeio, que ella inspira, e commodidade, que presta aos viajantes, como porque a exemplo da de Ruão sóbe, e desce com as marés, abre-se, e fecha-se, para dar transito ás embarcaçoens maiores, e finalmente desmancha-se, e restabelece-se, quando as vicissitudes do rio o exigem.

Vista da invicta cidade do Porto, J. J. Forrester 1 de setembro de 1835.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

He incrível o concurso do povo, que diariamente passa por esta Ponte, sobre tudo ás terças, e sabbados de cada semana. Basta dizer, que sendo os preços da passagem os mais commodos e sendo isempla de paga a tropa, e pessoas, que vão a diligencias, assim mesmo regularmente fallando, rende por dia — 50$000 reis. (1)

Porto, Carlos van Zeller, View of the City of Oporto, 1833.
Esta vista da Cidade do Porto foi tomada do Convento da Serra durante as ocorrências de 1833 dedicada a S. M. I. o Senhor D. Pedro Duque de Bragança e mandada publicar por ordem do Mesmo Augusto Senhor...
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

Esta Ponte de barcas, que só teve de duração 36 annos, tendo começado no de 1806, foi por muitas vezes mais ou menos destruida pelas innundações, que quasi todos os annos costumam sobrevir ao rio na estacão do inverno, e em alguns por mais de uma vez, quando se não tirava logo no principio do crescimento das aguas, e o grande pezo deltas, on a sua nimia corrente excediam a força dos duplicados e grossos cabos, que preventivamente se lhe applicavam nessas occasiões.

Oporto, The Custom-House quay, Batty, Miller, 1829.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

Esta circumslancia, bem como a falta de passagem prompta e segura durante o periodo das innundações deram motivo a que ella fosse declarada insuficiente e substituída pela actual ponte pênsil, collocada alli no anno, de 1842 [...] (2)

Porto, vista da serra do Pillar, da ponte Pensil e de parte da cidade J. P. Monteiro, c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Esta Ponte não he collocada no sitio da antiga, mas sim mais ao Nascente, e nos pontos mais elevados das margens do rio — no sitio chamado do Penedo no lado Meridional, e no dos Guindaes no lado Septenlrional, que forão escolhidos pela grande altura que tem, para poder dar por debaixo della passagem livre a todas as embarcações, que girão conlinuamenle no serviço do rio, e que eslavão sugeilas a naufragar sobre as amarras da Ponte de barcas, como acconteceu muitas vezes; e por de cima transito continuo, e permanente, ainda nas occasioens da maior enchente das agoas na estação do Inverno.

Porto, O Douro Portuguez e Paiz Adjacente com tanto do Rio quanto se pode tornar navegável em Espanha,
Joseph James Forrester, c. 1848.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

He chamada Pênsil, e lambem de Ferro; porque está suspensa de oito grossas correntes, feitas de fios d’arame de ferro, queimado, e coberlo de uma espessa crusta de verniz, que o preserva da corrupção; as quaes devididas 4 de cada lado passão por sobre qualro eleganles obliscos, ou columnas de granito, atravessando por uma abertura, que estas tem junto ao capitel, e estão collocadas nos dous extremos da Ponte, duas em cada um delles, e são também ligadas — 2 a 2 na parte inferior do mesmo capitel por uns tirantes de ferro, sobre os quaes se vê a legenda: D. Maria 2.a 1842.

Ponte pênsil do Porto, Charles Legrand, c. 1850.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

As ditas correntes, descendo do alto das columnas para baixo, são chumbadas com a maior solidez em rocha viva, e a uma grande profundidade do solo, com chumbadouros grandemente dentados, que agarrão por mui largo espaço a enormidade da rocha. 

Margens do Douro,Serra do Pilar, Cesário Augusto Pinto, 1848.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

Destas correntes pendem perpendicularmenle outras da mesma especie, mas muito mais delegadas em numero de 211, sendo 108 da banda do Nascente, e 103 da banda do Poente, as quaes devididas com perfeita igualdade de espaços segurão pela extremidade inferior as vigas, sobre que assenta o pavimento da Ponte, que he construído de madeira.

Porto, Cais da Alfândega, Cais da Ribeira, Rua de Cima do Muro, Ponte Pênsil, Louis Lebreton, c. 1850.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

Estas correntes perpendiculares varião de comprimento na razão da curva, que as grossas correntes apresentão do centro para os extremos. 

As columnas tem a forma quadrangular; vão diminuindo de diâmetro da baze para o capitel; e são coroadas por um globo metálico, que assenta sobre um baixo pedestal da mesma especie em forma pyramidal, e também proporcionada, que faz realçar notavelmente a elegância das columnas, e de toda esta obra grande, e magestosa.

Oporto, veduta della citá presa dalla Serra do Pilar, Enrico Gonin,  1851.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

A Ponte tem varandas, feitas lambem de madeira, e passeios lateraes para o transito da gente, afim de não ser incommodada pelos vehiculos, ou animaes, que passão por ella diariamente. 

Porto, vista da ponte pênsil, c. 1850, Isidore-Laurent Deroy , Paris, Editor L. Turgis.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

No centro das duas columnas do lado da Cidade ha uma casa, cujo pavimento inferior serve de quartel para a guarda militar, que vigia pela policia, bôa ordem, e observância do regulamenlo da Ponte; e no superior acha-se estabelecida uma especie de Salva-Vidas, que está permanentemenle provido de uma maca, uma cama guarnecida de roupas, e outros aviamentos uteis, e necessários para soccorrer qualquer naufrago, ou victima d’algum sinistro, que acconteça nas proximidades da Ponte — providencias muito louváveis, e que recommendão grandemente o zelo do Administrador.

Vista da cidade do Porto tirada Quinta de Campo Bello, António Joaquim de Sousa Vasconcelos, c. 1850.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

Deste lado ha outra casa, correspondente áquella, e em tudo perfeitamente igual, que serve para habitação d’alguns empregados, e de armazém d’utensilios: estas duas casas pela sua collocaçâo offerecem mais a vantagem de gravitar sobre os chumbadouros das correntes, de que depende essencialmente toda a segurança, e conservação da Ponte.

O transito não he livre, mas onerado com um imposto muito modico, e as casinhas para a arrecadação delle são situadas uma em cada entrada da Ponle, e ambas da parte do Nascente, feitas, como toda a mais obra, de pedra com muito aceio, e elegancia: e como accessorio destas circunstancias ha na entrada do lado Meridional um terreno ajardinado, fechado por um gradeamento de ferro, que serve de muito recreio á vista, e de belleza a esta magnifica obra; o qual fica paralello com a casinha d’arrecadação, e da banda do Poente. 

Os preços da passagem são os mesmos, que se exigião na antiga Ponte de barcas; porém o seu providente Administrador, para chamar a concurrencia, reduzio alguns, que parecião excessivos, como por exemplo: o preço de carroagens, que pela tabella devem pagar — dous tostoens de dia, e um cruzado de noite, baixou a seis vinténs tanto de dia, como de noite; o preço dalguns semoventes, principalmente gado lanígero também foi reduzido, assim como doutros objectos mais, verificando-se aqui o principio economico — de que as tarifas baixas dão sempre melhor resultado — , como se vê neste caso, que augmenta os rendimentos da Ponte pela maior concurrencia, e o publico utiliza muito.

Porto, ponte pênsil, 1864.
Imagem: Hemeroteca Digital

De noite o imposto he recebido só na casinha da banda da Cidade, tanto dos que entrão, como dos que sahem; e isto produz á Empreza uma boa economia nos gastos de luz, e pessoal. 

A Ponte he illuminada a gaz nas noites, em que não ha luar, com seis candieiros devididos alternadamente nas duas varandas além de um na frente do jardim e os das casinhas. 

Para se poder fazer uma ideia mais exacta da grandeza desta obra, e da extensão da Ponte, passo a fazer lambem a exposição das suas dimensoens [...]



Porto, vista do Douro e da ponte pênsil (quando da abertura da Rua Nova da Alfândega, 1869-1871).
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

Deu-se principio a esta obra grande, e magestosa no dia 2 de Maio de 1841, anniversario da coroação da Senhora D. Maria 2.a e assistiram a este acto os Governadores Civil, e Militar, e as Camaras Municipaes desta Villa, e da Cidade do Porto. 

Porto, ponte pênsil D. Maria II, c. 1870.
Imagem: Imagem: Porto, de Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias

Desde aquelle dia forão proseguindo os trabalhos; e no principio de Fevereiro de 1843 tinhão-se completado as construcçoens indispensáveis, e já a Ponte podia ser aberta á circulação; esperava-se comtudo ordem do Governo para esse fim, a qual devia chegar no dia 10, ou 12 do mesmo. 

O Representante da Companhia dos Àccionislas tinha concebido o projecto de solemnizar esta abertura com a assistência de todas as Auctoridades, e tropas da guarnição; mas uma cheia repentina, que sobreveio no dia 17 de Fevereiro, e que obrigou a tirar a Ponte de barcas, fez também entregar esta ao transito publico, o que se verificou no dia 18 de Fevereiro de 1843, tendo-se consumido no principal da sua construcção 1 anno, 9 mezes, e 15 dias.

Oporto, drawn by Catenacci engraved by Thérond, 1882 (cf. Trousset encyclopedia).
Le tour du monde : nouveau journal des voyages
Imagem: Anrtique Prints/Stockfreh

Foi feita esta Ponte pela direcção do Engenheiro de Claranges Luccolle, e por conla de uma Companhia de Accionislas, que a hade fruir por espaço de trinta annos, entregando-a no fim delles ao Estado, de quem he propriedade.

Ponte pênsil entre a cidade do Porto e Villa Nova de Gaya, que vai ser demolida, 1887.
Imagem: Hemeroteca Digital

Foi construída na Praia de Miragaya — no mesmo local, aonde se está edificando actualmente a nova casa d’Alfandega; e para aquelle effeito os Emprezarios fizerão levantar alli um extenso abarracamento para estabelecer as forjas, e officinas necessárias, precedendo licença da Camara Municipal da Cidade do Porto, e assignando termo de fazer demulir tudo, e repor o terreno no estado anterior, logo que a obra fosse concluída; no que se não portaram, como lhes cumpria; porque a Camara pela demora, que havia na execução d’aquelle preceito, teve de recorrer ao Poder Judicial, e officiou ao Juiz Eleito da freguezia de S. Pedro de Miragaya, para que fizesse demulir violentamente toda a innovação, que alli havia; o que elle fez cumprir, repondo o terreno no estado anterior. (3)


(1) TOPOGRAPHIA E HISTORIA DE VILLA NOVA DE GAYA [...]
OFFERECIDA A S. A. REAL O PRÍNCIPE REGENTE N. S. POR
João Antonio Monteiro d'Azevedo
[...] agora grandemente accrescentada com extensos additamentos [...] que foi até o anno do 1832,
e o que he actualmente POR
Manoel Rodrigues dos Santos
Natural da mesma Villa
PORTO - 1861

(2) Idem
(3) Idem, ibidem

Mais informação:
Arquivo Municipal do Porto: ponte de barcas
Arquivo Municipal do Porto: ponte pênsil
Ponte pênsil no Porto, Archivo Pittoresco, 1864
A ponte pênsil do Porto, O Occidente,1887
Porto desaparecido: a ponte pênsil
Ponte D. Maria II ou Ponte Pênsil
Ponte Pênsil - Curiosidades

domingo, 15 de abril de 2018

O Castello de Gaya

João Vaz auctor d'este poema era natural d'Evora, d'onde passou a morar no lugar do Botão junto da Cidade de Coimbra: estudou na Universidade da sua patria as letras humanas e philosophia, mas o seu renome provem do grande engenho natural com que foi dotado para a poesia comica.

Porto, Carlos van Zeller, View of the City of Oporto, 1833.
Esta vista da Cidade do Porto foi tomada do Convento da Serra durante as ocorrências de 1833 dedicada a S. M. I. o Senhor D. Pedro Duque de Bragança e mandada publicar por ordem do Mesmo Augusto Senhor...
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

Barboza [Machado, Diogo] na sua Bibliotheca [Lusitana], 2.° Vol., fol. 184, e Fonseca [p.e Francisco da] na Evora Gloriosa: fol. 4 escrevem d’elle o primeiro mencionando as suas obras, e o segundo incluindo-o no numero dos auíhores Evorenses.

Serviu-lhe d'assumpto para os seus versos o seguinte facto historico; que Frei Bernardo de Brito na Monarchía Lusitana, 2.a P.e, L.° 7.°, Cap. 21, fol. 484 da segunda edição, firmando-se na erudição, credito e auctoridade do Conde D. Pedro [Afonso, Conde de Barcelos] filho d’El-Rei D. Diniz acredita como verdadeiro, porque elle como tal o tractou.


Tendo o Rei de Hespanha D. Ramiro II que era casado com a rainha D. Urraca ou Aidara e Aldora, como alguns escriptores lhe chamam, querendo gozar das tregoas que lhe pedira Abderraman Rei de Cordova, visitou a casa de Sant'Iago de Galiza e aproveitando-se da occasião opportuna que se lhe proporcionou assim, resolveu-se a reconhecer por si proprio as fronteiras das terras de Portugal occupadas pelos Mouros.

Durante esta sua diligencia soube, que Alboazar Ibem Albucadan, senhor de muitas terras da Luzitania e general d’Abderraman, tinha uma irmã chamada Zahara; nome que significava — Flôr — tão notável por sua formosura e pela fama, que só por ella desde logo se lhe affeiçoou, mas pertendendo desenganar-se com os seus olhos deliberou-se a visitar amigavelmente o Mouro no seu Castello de Gaya, onde então havia bons Paços e n’elles aposentos para muita gente, sendo já a esse tempo o local povoado de muitos visinhos.

Gaia, Cesário Augusto Pinto, 1848.
Imagem: Memórias Gaienses

Concertados os meios da entrevista veio El-Rei D. Ramiro com os seus fidalgos e senhores mais esforçados, que tinha na sua Côrte, em trez galés e foi bem recebido por Alboazar: tractando em primeiro logar das comviniencias geraes d’harmonia e paz de suas "possessões", encantado Ramiro da belleza de Zahara pediu-lhe em casamento se ella quizesse ser christã, dizendo-lhe que assim se estreitariam: ainda mais os laços de amizade entre ambos, e d’ella por a fazer Rainha.

Difficultou-lhe o Mouro a pertenção não só com a differença das leis riligiosas, mas também com a de ser elle casado com a Rainha D. Urraca, de quem já tinha filhos que de certo não consentiriam no repudio da mãe, nem o Papa o approvaria.

Pelo contrario objectava-lhe El-Rei respondendo-lhe, que no repudio haveria toda a facilidade, por quanto a Rainha era sua próxima parenta e illegalmente estava casado ícom élla, e sem duvida , obteria sentença de divorcio.

Afinal declarou-lhe Alboazar, que sua irmã estava promettida em casamento ao Rei de Marrocos, e por nenhuma forma faltaria á sua palavra, esperando só o dia de a entregar ao marido, o qual não tardaria.

Retirando-se o pertendente desesperado por não alcançar o seu intento, consultou o grande Astrologo Amão que lhe asseverou, segundo os meios que lhe indicou n’essa occasião; tirar a Moura de noite do castello sem alguém o sentir, e lha poria em segurança para elle a levar ao seu Reino.

Oporto view from river Douro showing point of observation selected by the Lord Wellington prior to and during his attack on the town, Henry Smith, 1813.
Imagem: The British Museum

O certo é que Zahara foi roubada, ignorando-se como isso se effectuou, e sendo levada ás galés, onde D. Ramiro e os seus a esperavam, se fizeram á vella com prestesa mas não tanto em segredo, como desejavam, e havendo rebate, vinte foram os fidalgos que perderam as suas vidas em frente das mesmas praias, onde antes tinham alegremente aportado.

Navegaram para o Melhor —  (ignoro que porto seria esse, nâo obstante procurar sabel-o em diversos tractados de gtjographia antiga), no qual o Rei costumava estar amiudadas vezes por ser fresco e de muita creação, passando depois a Leão fez ahi baptisar a Moura com o nome de Artida on Artiga, dizendo-se que por ser muito sabia e prefeita assim se chamou.

Teve-a Ramiro por amante durante muitos annos, e d’ella houve um filho chamado Alboazar Ramirez, e uma filha por nome Artiga Ramirez.

Oporto From Villa Nova, Batty, Miller, 1829.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

Alboazar Iben Albucadan ardia em raiva por se não poder vingar tão depressa como queria, e por isso trazia espias suas entre os Christãos para o avisarem da occasião prospera ao desagravo, e sabendo por ellas que a Rainha D. Urraca estava no dito porto de — Melhor — descuidada e sem guardas, embarcou-se e dando repentinamente no logar, n'elle a captivou, com outra muita gente; a noticia d'este successo chegou em breve tempo ao conhecimento de D. Ramiro, e causou-lhe sezões violentas e duradouras por espaço de vinte e dous dias; a febre motivou-lhe a falta d’accordo e n’elle proferia palavras que bem denunciavam, a origem da moléstia.

Oporto From the mount of Arrabida, Batty, Miller, 1829.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

Sarando porem da enfermidade, metteu-se com seu filho legitimo D. Ordonho e outros senhores em cinco galés bem equipadas, mas cobertas com pannos verdes e se veio melter de noite pela nossa barra de S. João da Foz, d'onde encostando-se á terra, então guarnecida e assombrada por arvoredo, surgio nas praias d'alem desembarcou-se com a gente de que carecia e deixando-a embuscada por entre as arvores advertiu-a, de que só saissem ouvindo o som de uma corneta de monte, que levava comsigo. 

Vestido de grosseiras e pobres roupas, sob as quaes levava a sua espada e um peito d’armas, caminhou para uma fonte que fica abaixo do castello de Gaya (actualmente denominada por corrupção — Fonte de Reimil), alli se demorou até chegar a creada da Rainha D. Urraca, chamada Prona, que era de nação franceza, e veio buscar agua para lançar ás mãos de sua ama quando se lavasse; pediü-lhe D, Ramiro em linguagem arabica lhe desse de beber figindo-se enfermo e cançado, e ao tempo que levou á bôca o vaso lançou-lhe dentro metade d’um camapheu, do qual D. Urraca possuía a outra a metade.

Oporto, The Custom-House quay, Batty, Miller, 1829.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

Não advertiu a creada de quem poderia ser aquelle homem, nem pode responder á ama quando a enterrogou vendo na occasião de lavar-se a referida parte d'aquella joia, mas informándo-a de ter dado de beber a um Mouro doente, que isso lhe pedira por amor de Deus e d'ella Rainha, logo o mandou chamar e vendo-o conheceu ser o márido a quem aborrecia, disfarçando porém a sua malevolência, lhe perguntou a causa de se atrever a tão arriscado passo, ao que satisfez dizendo-lhe — "em negocios d'amor não se tomava conselho e por isso se desarcetava em todas as cousas" — mas tudo era pouco para a libertar do poder do seu inimigo. 

Lembrando ao Rei os seus amores com Zahara, para significar-lhe não serem sinceras as suas palavras, o fez entrar n’uma camara d'abobeda dizendo-lhe voltaria logo afim de tractarem sobre o meio de salval-a, mas fechando a porta da mesma camara com a chave que metteu na manga da cota, que vestia aguardou impaciente a vinda de Alboazar, que desde a madrugada andava á caça, e vendo-o na volta perguntou-lhe o que faria d'El-Rei D. Ramiro se a ventura o pozesse em seu poder, sendo-lhe licito dispor d'elle a seu gosto?... ao que lhe respondeu o Mouro ser o menos que lhe faria o tirar-lhe a vida com exquesitos tormentos; entergou-lhe então a chave dizendo-lhe que alli o tinha e não perdesse tão favoravel occasião de satisfazer a sua vontade.

Oporto, A view of the mouth of the Douro from Massarellos, Batty, Miller, 1829.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

Vendo-se El-Rei trahido aleivosamente pela Rainha, em quem até então tivera fè e confiança declarou a Alboazar, logo que se vio na sua presença, que o seu confessor lhe havia ordenado em satisfação de ter-lhe roubado Zahara o entregar-se e receber d'elle a morte, que lhe quizesse dar, tangendo uma bozina em quanto tivesse alento, afim de por esse modo salvar a sua alma.

Movido pela compaixão queria perdoar-lhe o Mouro, e assim o fizera se não fora D. Urraca contrarial-o para estar livre do esposo depois da sua morte; mandando juntar toda a gente que existia no castello de Gaya, conduziram D. Ramiro ao alto d’uma columna que estava no meio d'elle, e ordenaram lhe tocasse a corneta até morrer; estava então presente a Rainha com as suas damas e mais povo alli reunido.

Ouvia-se aquelle toque a grande distancia, e conhecendo o Infante D. Ordonho e seus cavalleiros, que estavam embuscados, haver pressa de soccorros, pelo continuo tocar, chegaram com tanta velocidade sobre a Villa, que os Mouros não os sentiram senão depois de soffrerem os golpes dos inimigos e ajudados com o exemplo do seu Rei, que só com uma cutilada, fez pender a cabeça até ao meio do peito a um d'esses Mouros, o que todos com a vida pagaram os erros do seu chefe.

Perspectiva das margens do Rio Douro subindo-se para a Cidade do Porto, G. Kopke dei. Porto, 1827.
View of the banks of the River Douro on approaching the City of Oporto C G. Hammer sculp. Dresden.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

Ficando Ramiro senhor da povoação destruiu-a matando elle mesmo quatro filhos e tres filhas d’Alboazar e muita gente ordinaria que alli habitava, e regressando com a Rainha e suas damas ás galés foi n'ellas recebido com alegria; só D. Urraca se lastimava sentidamente cheia de saudades pelo Mouro, como ella própria declarou ao marido.

Magoado por esta nova offensa, e tomando o conselho de seu filho D. Ordonho, mandou atar uma corda com uma pedra ao pescoço da Rainha e deital-a ao rio Douro no sitio, onde depois, se poz o nome de Foz d'Anchora, ou d Aldora (não sei aonde ficava o local, que tevo esse nome.

Na Chrographia do Carvalho, edição de 1868 a f. 173 diz-so que em Vianna á um monto chamado Monto da Dor em razão do sentimento que á sua vista mostrou D. Urraca mulher d’El-Eei D. Ramiro o II do Leão, quando elle a levava para Galiza, depois da morte que dera a Alboazar Albocadan, rei mouro de Gaya com quem ella estava amancibada, de cujo poder a tirou, lançando-a depois D. Ramiro e seus filhos em uma lagoa com uma pedra ao pescoço na Foz do rio, d’onde tomou o nome d'Ancora).


Diz mais o illustre chronista em referencia ao conde, que vivera pouco lempo depois d'este successo o Infante D. Ordonho, por o haver Deus castigado pelo mau conselho que dera a seu pae contra a vida de sua própria mãe.

Soccorrendo-me do que me diria Rodrigo Mendez da Silva no seu Catalogo Real Genealógica de Hespanha para reatificar parte d’esta historia interessantissima, achei a f. 36 v., que D. Ramiro II, casara duas vezes sendo sua primeira mulher D. Urraca, e a segunda D, Thereza filha de D. Sancho Albarca, tendo do primeiro matrimonio por filhos D. Ordonho III, que lhe succedeu na coroa e morreu em Zamora no anno de 955 reinando apenas 5 annos, D. Sancho e D. Bermudo, e do segundo D. Elvira, D. Aldonça e D. Audonio, e fora do matrimonio D. Alboazar Ramirez que casou com D. Helena Godinez, filha de D. Godinho das Asturias, e D. Ortega (e não Artiga) Ramirez que casou com Gustios Gonçalez irmão do celebrado juiz de Castella, Nuno Razura.

Oporto From Fontainhas, Batty, Miller, 1829.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto


São pois estes últimos os filhos bastardos de que faz menção Brito e o conde D. Pedro como nascidos da formoza Moura Zahara, posto que Silva não declara o nome da mãe, amante do Rei, que depois de reinar 19 annos em Leão ahi falleceuno anno 950 com grande arrependimento de seus peccados, repetindo as palavras de Job: Nú nasci de minha mãe, nú voltarei á terra.

Agora para mais esclarecimento d'este assumpto direi, que o nome de Ramiro no idioma gotico segnifica — Príncipe que se aconselha. Alboazar em arabico diz — Pae da desventura. 

Na Hespanha Libertada P.° Canto 6.°, fol. 94, em allegante e sonoro verso castelhano cantou a nossa celebrada e mimosa poetiza D. Bernarda Ferreira de Lacerda este extraordinário successo, acontecido na margem esquerda do rio Douro e no sitio de Gaya, fronteiro á cidade do Porto.

Porto Oporto From the quay of Villa Nova, Batty, Miller, 1829.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

Finalmente citarei Esperança na Historia Serafica Tomo 1.°, L.° 4.°, Cap.° 3.°, N.° 1.°, fol. 692, que escreveu — que o primordial nome dado a povoação de Gaya foi Kalos, depois Kale, e por ultimo Gaya. Kalos e Kale attribue elle á denominação que lhe deram os gregos., aos quaes intitula seus fundadores, e significa no seu idioma — Bom e Formozo — por assim ser aquella localidade.

No — Proemio do Catalogo dos Bispos do Porto, 2.a edição — lê-se que o Gastello de Gaya, segundo se suppoem com muita probebalidade, fora fundado antes da vinda de Christo 145, annos, e diriva o seu nome do presumido fundador Gayo Lelio, Pretor Romano que depois de ter diminuido as forças de Viriato, alli fôra fundal-o.

E o Agiologio Luzitano, de Jorge Cardozo, Tomo 1.°, § 5.°, das advertências fol. 14, referindo-se ao Itenerario do imperador, Antonio, que chama á dita povoação — Cale — escreveu dirivar d’este nome — Porto Cale. e depois — Portu Cale — e finalmente — Portugal — nome dado ao nosso Reino.

Outros escriptores, porem, dizendo-o — Porto de Gallos — querem que se formasse o nome de Portugal, mas seja como fôr, é certo ser Gaya antiquíssima povoação e sempre tida como de muita importância, e por isso devem gloriar-se os Villanovenses de possuirem dentro do seu Conselho uma localidade, que desde remotíssimas eras merceu a consideração das diversas nações que a possuiram, e ultimamente de nossos Reis, não sendo na verdade poucos os privilégios e regalias por elles concedidas aos seus moradores.

Porto vista tomada do caes de Villa Nova, Henry L’Evêque, rep. 1817.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

É muito diversa a historia que precede o Poema de João Vaz, a qual simplesmente pode e deve ser tida como simples argumento do mesmo Poema, e porisso, com toda a liberdade escripto.


*
*      *

Não obstante conhecer eu a irregulridade da orthographia d'este poema de João Vaz, preferi que fosse agora reimpresso como saiu da primeira impressão no anno de 1661, ainda que d’elle se publicou no mésmo anno segunda edição com notável diferença, sendo em parte mais correcta, em parte mais errada.

Porto, vista da ponte pênsil, c. 1850, Isidore-Laurent Deroy , Paris, Editor L. Turgis.
Imagem: Arquivo Municipal do Porto

São rarissimos os exemplares d’estas duas edições, e é esse o motivo porque de novo se imprime, afim de vulgarizar os notáveis e variados acontecimentos, que se dizem tiveram logar na pittoresca povoação de Gaya, prova evidente de ser tida desde remotas eras em grande conta. (1)


(1) O CASTELLO DE GAYA POR JOAO VAZ Augmeutado com um prefacio e historia de Gaya Dedicado aos Villanoveses POR HENRIQUE DUARTE E SOUZA REIS PORTO EMPRESA DA BIBLIOTHECA HISTÓRICA Rua de Santo Antonio, n.° 190 1877

Mais informação:
O centro histórico de Vila Nova de Gaia
Área do Castelo de Gaia (DGPC)
Mea Villa de Gaya
A melhor colecção oitocentista de "vistas" de Gaia, da autoria de Cesário Augusto Pinto
Porto, de Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias

quarta-feira, 11 de abril de 2018

A lenda de Gaia

Este rei D. Ramiro seve casado com uma rainha e fege nela rei D. Ordonho; e pois lha filhou rei Abencadão, que era mouro, e foi-lha filhar em Salvaterra, no lugar que chamam Mier. Então era rei Ramiro nas Asturias, e quando Abencadão tornou aduce-a para Gaia, que era seu castelo; e, quando veio, rei Ramiro não achou a sa mulher e pesou-lhe ende muito, e enviou por naves seu filho D. Ordonho e por seus vassalos e fretou sas naves e meteu-se em elas, e veio Sanhoane da Furada;

Afurada, Sampaio (casa do Sr. Antero), Cesário Augusto Pinto, 1848.
Imagem: Memórias Gaienses

e pois que a nave entrou pela foz, cobriu-a de panos verdes, em tal guisa que cuidassem que eram ramos, ca entonce Douro era coberto de uma parte e de outra de arvores; e esse rei Ramiro vestiu-se em panos de veleto, e levou consigo sa espada e seu corno, e falou com seu filho e com seus vassalos que, quando ouvissem o seu corno, que todos lhe acorressem e que todos jouvessem pela ribeira per antre as arvores, fora poucos que ficassem na nave para mantê-la.

— Rio Doiro, rio Doiro,
Rio de mau navegar,

Dize-me, essas tuas aguas

Aonde as foste buscar?
Almeida Garrett, Miragaia, 1844

E ele foi-se estar a uma fonte que estava perto do castelo; e Abencadão era fora do castelo e fora correr monte contra Alafão.

Gaia, Cesário Augusto Pinto, 1848.
Imagem: Memórias Gaienses

E uma donzela que servia a rainha levantou-se pela manhã, que lhe fosse pela água para as mãos; e aquela donzela havia nome Ortiga; e ele pediu-lhe água pela arávia, e ela deu-lha por um autre, e ele meteu um camafeu na boca, o qual camafeu havia partido com sa mulher, a rainha, pela meiadade.

Tirou o annel do dedo,
E na jarra o foi deitar:
— Quando ella beber da agua
No annel hade attentar.
Almeida Garrett, Miragaia, 1844

Ele deu-se a beber e deitou a anel no autre, e a donzela foi-se e deu água à rainha, e caiu-lhe o anel na mão e conheceu-o ela logo.

O Romeiro e a Donzela na fonte,
Manuel Maria Bordalo Pinheiro (1815 - 1880),
José Maria Baptista Coelho (1812 - 1891).
Imagem: Wikisource

A rainha perguntou quem achara na fonte; ela respondeu-lhe nom era hi ningém; ela disse que mentia, e que lho nom negasse, ca lhe faria por ende bem e mercê; e a donzela lhe disse entom que achara um mouro doente e lazarado e que lhe pedira água que bebesse, e ela que lha dera; e entonce lhe disse a rainha que lhe fosse por ele, e se hi o achasse que lho aducesse. 

A donzela foi por ele e disse-lhe ca lhe mandava dizer a rainha que fosse a ela; e entonces rei Ramiro foi-se com ela; e ele, entrando pela porta do paço, conheceu a rainha e disse-lhe:

Rei Ramiro, quem te aduce aqui?

E ele lhe respondeu:

— Ca pequena maravilha! E ela disse à donzela que o metesse na câmara e que nom lhe desse que comesse nem que bebesse; e a donzela pensou dele sem mandado da rainha.

E ele jazendo na câmara, chegou Abencadão e deram-lhe que jantasse, e despois de jantar, foi-se para a rainha, e dês que fizeram seu prazer, disse a rainha: 

Se tu aqui tivesses rei Ramiro, que lhe farias?

O mouro então respondeu:


O que ele a mim faria: matá-lo.



Então a rainha chamou Ortiga que o aducesse da câmara, e ela assim o fez, e aduce o mouro, e o mouro lhe disse: 

És tu rei Ramiro?

E ele respondeu:

Eu sou. 

E o mouro lhe perguntou:

A que vieste aqui?

El-rei Ramiro lhe disse entom:

Vim ver minha mulher, que me filhaste a torto, ca tu havias comigo tréguas e nom me catava de ti.

E o mouro lhe disse:

Vieste a morrer, mas quero-te perguntar: se me tivesses em Mier, que morte me darias?

A lenda de Gaia, Jorge Magalhães e Baptista Mendes, 1976.
Imagem: O voo d'O Mosquito

El-rei Ramiro era muito faminto, e respondeu-lhe assim:

Eu te daria um capão assado e uma regueifa e faria-te tudo comer e dar-te-ia em cima uma copa cheia de vinho que bebesses; em cima, abrira portas do meu curral e faria chamar todas as minhas gentes, que viessem ver como morrias, e faria-te subir a um padrão e faria-te tanger o corno até que te hi saisse o fôlego. 

Então respondeu-lhe Abencadão: 

Essa morte te quero eu dar.

E fez abrir os currais, e feze-o subir em um padrão que hi entom estava; e começou rei Ramiro entom seu corno tanger, e começou chamar sa gente pelo corno, que lhe acorressem, ca agora havia tempo.

Significa: o Castello, Gaya;
o rio que lhe sai pela porta: o Douro, que a banha;
o Homem em trages pobres tangendo uma bozina: Ramiro;
o Pinheiro: o Bosque em que se embuscaram os seus cavalleiros,
para o ajudarem na empresa de resgatar a espoza D. Urraca.
Imagem: O Castello de Gaya

E o filho, como o ouviu, acorreu-lhe com seus vassalos, e meterom-se pela porta do castelo, e ele desceu-se do padrom adonde estava, e veio contra eles e tirou sa espada da bainha e descabeçando atá o menor mouro que havia em toda Gaia, andaram todos à espada, e nom ficou em essa vila de Gaia pedra sobre pedra que tudo não fosse em terra. 

E filhou rei Ramiro sa mulher com sas donzelas e quando haver hi achou e meteu na nave, e quando foram a foz de Ancora amarraram as barcas e comeram e folgaram, e D. Ramiro deitou-se a dormir no regaço da rainha e a rainha filhou-se a horar, e as lágrimas dela caeram a D. Ramiro pelo rosto, e ele espertou-se e disse porque chorava? 

Ramiro, Rex Terræ Portugalensis, 925-931.
Imagem: Wikipedia

E ela disse-lhe:

Choro por o mui bom mouro que ataste. 

E então o filho, que andava hi na nave, ouviu aquela palavra que sa madre dissera e disse ao padre:

Padre, não levemos connosco mais o demo.

Entom rei Ramiro filhou uma mó que trazia na nave e ligou-lha na garganta e ancorou-a no mar, e des aquela hora chamaram hi Foz de Ancora.

Ancora, uma vista tirada do Forte do Cão, 1909.
Imagem: Hemeroteca Digital

Este D. Ramiro foi-se a Mier e fez sa corte, e contou-lhe tudo como acaecera, e entom baptizou Ortiga e casou com ela e louvou-lhe toda sa corte muito, e pos-lhe nome D. Áldara, e fege nela um filho, e quando nasceu pos-lhe o padre o nome Alboazar, e disse entom o padre que lhe punha este nome porque seria padre e senhor de muito boa fidalguia. (1)


(1) Livros de Linhagens

Leitura relacionada:
O Castello de Gaya
Récits mythiques du Moyen Âge portugais
A lenda de Gaia dos livros de Linhagens : uma questão de literatura?

terça-feira, 10 de abril de 2018

Convento de Santo António de Vale de Piedade

Um sol de primavera batia a prumo sobre águas, rochas e verduras. O ar estava sereno e tépido, o céu azul e transparente, a água corria mansa; de um lado e outro do rio a população da cidade e da vila, prolongada pelo brancos areais que se espelhavam com o sol, contemplava em religioso silêncio a marítima procissão que, em longa diagonal, ia cruzando o rio quase como se o descesse, pois é considerável a distância que vai donde hoje é a Porta Nobre, em que embarcara, até o desembarcadouro de Gaia onde foi ter.

Perspectiva das margens do Rio Douro subindo-se para a Cidade do Porto, G. Kopke dei. Porto, 1827.
View of the banks of the River Douro on approaching the City of Oporto C G. Hammer sculp. Dresden.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Rio acima, as várzeas de Campanha, de Ramalde e de Avintes resplandeciam com as esmeraldas da jovem primavera; para a banda da Foz os ceiceirais de Val-de-Amores descaíam sobre a água como se ainda estivessem acoitando os traidores e vingativos barcos Del-rei R,amiro quando veio desde Galiza em busca da mulher que lhe tinha o mouro, porque ele tinha a irmã.

Entrance of the river Douro, Edward Belcher, 1833.
Imagem: ICGC Cartoteca Digital

Esse Val-de-amores, que depois foi Val-de-Piedade quando os Capuchos aí fizeram seu convento e o beatificaram com o devoto nome que ainda tem – hoje.

Convento de Santo António de Vale da Piedade (Gaia),
Portuguese Scenery from Drawings, Joseph James Forrester, 1835.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Oh triste, tristes tempos nossos! É Val de tanoeiros ou Val não sei de que, porque lhe fizeram da igreja um armazém, e da cerca tão viçosa e tão fresca. Algum mau campo de milho talvez.

Eu, ainda me lembra, e era bem pequeno, das tardes da trezena do santo em que aquela linda cerca parecia o jardim de Kesington ou o das Tulherias, de povoada que se fazia pelas mais belas e elegantes damas da cidade, por um concurso imenso de todas as classes e idades: naqueles treze dias o Val-de-Piedade tornava a ser o Val-de-Amores. (1)


(1) Almeida Garrett, Arco de Sant'Anna, Lisboa, H. Antunes

Mais informação:
Cabral Moncada Leilões: gravuras do Porto, colecção Eng.° Monteiro de Andrade

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Entrada do Douro

Eu passei os primeiros anos da minha vida entre duas quintas, a pequena quinta do Castelo, que era de meu pai, e a grande quinta do Sardão que era, e ainda é, da família de meu avô materno, José Bento Leitão; ambas são ao sul do Douro, ambas perto do Porto, mas tam isoladas e fora do contacto da cidade, que era perfeitamente do campo a vida que ali vivíamos, e que ficou sendo sempre para mim o tipo da vida feliz, da única vicia natural neste mundo.

Entrance of the river Douro, Edward Belcher, 1833.
Imagem: ICGC Cartoteca Digital

— Uma parda velha, a boa Rosa de Lima, de quem eu era o menino bonito entre todos os rapazes, e por quem ainda choro de saudades a pesar do muito que me ralhava às vezes, era a cronista-mór da família, e em particular da capela e da quinta do Sardão, que ela julgava uma das maravilhas da terra e venerava como um bom castelhano o seu Escurial. 

Carta topográfica das Linhas do Porto, 1834.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Contava-me ela, entre mil bruxarias e coisas do outro mundo que piamente acreditava, que também naquelas coisas "se mentia muito"; que de meu avô, por exemplo, diziam que tinha aparecido embrulhado num lençol passeando à meia noite em cima dos arcos que trazem a água para a quinta: o que era inteiramente falso, porque "ela estava certa que, se o sr. José Bento pudesse vir a este mundo, não se ia embora sem aparecer à sua Rosa de lama."

Oporto [Porto], published under the superintendence of the Society for the Diffusion of Useful Knowledge.
Drawn by W B  Clarke (detalhe),
engraved and printed by J Henshall Published by Baldwin & Cradock 47 Paternoster Row, 1833.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

— E arrasavam-se-lhe os olhos de água ao dizer isto, luzia-lhe na boca um sorriso de confiança que ainda agora me faz impressão quando me lembra. (1)


(1) Almeida Garrett, Frei Luis de Sousa, Lello e Irmão

terça-feira, 13 de março de 2018

Panorâmica de Lisboa nos finais do séc. XVIII

O local onde se postou o desenhador foi na margem sul do Tejo, em Cacilhas, a uns 200m do sítio do farol para jusante. Esse ponto fica sensivelmente normal e a meio do plano da perspectiva do panorama que ele pretendia tirar. É desconhecido o desenhador, porventura um arquitecto; mas incontestàvelmente era ele um artista de muito merecimento, observador e minucioso. (1)

Vue du port de Lisbonne, Alexandre-Jean Noel, 1796.
Imagem: British Library

Por mero acaso foi salva do extermínio a vista panorâmica de Lisboa que em fotografia acompanha o presente artigo. Estavam uns garotos preparando-se para recortar o papel segundo o perfil das casas, numa terra nos arredores de Viseu, quando acertou de o Sr. Luciano Freire ter conhecimento do facto, pelo que adquiriu aquela vista em 1914, com destino ao Conselho de Arte e Arqueologia, do qual é ilustre presidente, e onde actualmente se encontra, devidamente encaixilhada e bem guardada para a rua conservação futura.

É um desenho aguarelado a tinta da China, feito em 6 folhas de papel unidas, medindo 3m,615 de comprimento por 0m,27 de altura; mas evidentemente falta o seguimento do panorama para o lado direito, isto é, do nascente, ou porque não chegou a fazer-se, ou porque se extraviou lamentàvelmente. 

Nestas 6 folhas abrangem-se cerca de 2 km. contados ao longo da linha marginal, e para completar o panorama de Lisboa para o nascente faltariam umas 4 folhas das mesmas dimensões das que se conservam. (2)

Panorâmica de Lisboa nos finais do séc XVIII.
Imagem: Vieira da Silva, Dispersos

A perspectiva e os detalhes arquitectónicos semelham perfeitamente os obtidos pela fotografia, como é fácil verificar pelo grande número de edifícios ali representados, que ainda hoje se conservam. Atendendo à distância a que se achava, devia o desenhador estar munido com um bom óculo, e porventura uma prancheta e uma alidade.

Devido a estas apreciáveis qualidades do artista, pudemos fixar aproximadamente a data da feitura do quadro. Nele não foi desenhada a Igreja do Convento do Coração de Jesus, ou da Estrela, cuja primeira pedra foi lançada em 1779, vendo-se porém nitidamente a fachada do próximo Convento de Nossa Senhora da Estrela, onde hoje é o Hospital Militar de Lisboa.

A Capela de Nossa Senhora de Monserrate, que já se vê, por baixo de um dos arcos do Aqueduto das Aguas Livres, às Amoreiras, tem na cruz de azulejo que está nas costas do altar-mor, do lado da Rua das Amoreiras, a data de 1767; os autores que escrevem sobre este assunto dizem que foi a capela inaugurada em 1773. 

No horizonte projecta-se, na última folha dos desenhos, uma torre, que ou representa a cúpula da Igreja Patriarcal, se acaso a tinha, ou mais provàvelmente a torre dos sinos da mesma igreja; estas construções existiram no sítio onde é actualmente a Praça do Rio de Janeiro.

Ignora-se a data em que foi construída a torre, mas tendo as obras da igreja começado por 1757, devemos admitir que é posterior a este ano a data da erecção da torre, a qual, sendo de madeira, já carecia de ser escorada em 1764, por estar bastante apodrecida, tendo ardido em 1769.

Confrontando todas estas datas, deveremos colocar entre os anos de 1767 e 1769, a época da feitura do desenho, até que novos factos ou argumentos permitam fixar outra data. Vamos chamar a atenção para algumas particularidades do desenho, pelas quais se pode fazer mais ràpidamente a orientação do leitor; e para facilitar as referências designaremos pelos algarismos romanos I a V os 5 fragmentos em que foi necessário dividir a fotografia para terem cabimento nas páginas desta publicação.

Panorâmica de Lisboa nos finais do séc XVIII.
I - Desde o Palácio do Fiuza em Alcântara até ao Palácio do Conde de Óbidos.
Imagem: Elucidário Nobiliarchico, Vol. 2 n.° 10, outubro de 1929

As igrejas paroquiais que no desenho estão representadas são as seguintes: Igreja antiga da Lufia (III), na Rua da Lapa, erecta em paróquia em 1770, tendo ao lado direito o extinto convento com 11 janelas alongadas no qual está hoje instalado o Asilo da Lapa.

A paróquia foi transferida, em Junho de 1887, para a Igreja da Estrela. Igreja de Santos-o-Velho (III), cujo adro deita sobre uma elevação de terreno, na qual se rasgou mais tarde a Rampa de Santos. Vê-se uma porta abrindo sobre uma escadaria, predecessora das actuais Escadinhas da Praia, onde ela ia desembocar. 

Igreja de Santa Isabel (IV), fundada em 1742, então ainda por acabar. Falta-lhe a torre do lado oriental, estando a do lado ocidental na mesma fase de construção que ainda se vê no desenho de Luís Gonzaga Pereira, feito pelo ano de 1840 [Monumentos sacros de Lisboa].

Igreja antiga de Santa Catarina (V), no alto de Santa Catarina, reparada depois do terremoto de 1755. Aí permaneceu a paróquia até ao ano de 1835, em que se transferiu para a Igreja dos Paulistas na Calçada do Combro. A antiga igreja arruinou-se, e no seu local construiram os industriais José Pedro Colares e Tomás Pedro Colares, por 1865, o lindo palacete que lá se vê, que é actualmente do industrial Alfredo da Silva. 

Igreja dos Paulistas (V), paroquial da freguesia de Santa Catarina desde 1835, como acabamos de dizer; desta igreja avistam-se apenas as duas torres sineiras e o frontão, por sobre os telhados de dois palacetes do começo da Rua de Santa Catarina, que ainda se conservam sensivelmente com o mesmo aspecto.

Os conventos e mosteiros então existentes que o desenhador representou no seu quadro, e que se vêm mais nitidamente, são os seguintes:

Convento de Nossa Senhora das Necessidades, dos congregados do Oratório de S. Filipe Neri (I), em Alcântara, do qua1,se avistam duas fachadas, uma com 6 e outra com 8 janelas em cada andar. Nele é hoje a sede do Governo Militar de Lisboa.

Mosteiro do Sacramento, de Religiosas Dominicanas, na Rua do Sacramento, a Alcântara, assentando sobre um terrapleno junto ao baluarte de Alcântara. 

A fachada que se ergue sobre a muralha da Rua Tenente Valadim, com 2 janelas grandes em cima e 2 pequenas por baixo, era o refeitório das freiras; a frente voltada para o nascente tinha, entre 3 janelas, um corpo um pouco saliente, com uma cruz, provàvelmente de azulejo, que já foi tirada; contígua fica a igreja, com a capela-mor oitavada, e uma cúpula quadrada; as celas do convento vêm-se à esquerda. 

O edifício está hoje servindo de Depósito Geral de Material de Aquartelamento, e numa pequena parte funciona o Registo Civil do 4.° Bairro de Lisboa. 

Convento de S. Francisco de Paula (I), de Religiosos Mínimos, na Rua Presidente Arriaga, antigamente Rua de S. Francisco de Paula, fazendo esquina para a Rua Ribeiro Sanches. A igreja, que ainda se conserva com a mesma invocação, vê-se do lado direito do convento. 

Convento de S. João de Deus (I), de Religiosos Hospitalários, quase fronteiro à igreja antecedente, e que actualmente é quartel do 2.° Batalhão da Guarda Nacional Republicana; mostra uma esplanada ou terraço avanqando sobre o rio, que ainda existe; a igreja é o corpo do edifício em cuja empena se vêm duas janelas em quarto de círculo. 

Mosteiro de Santo Alberto ou das Albertas, de Religiosas Carmelitas Descalças (II), com 14 janelas para a banda do rio, e uma extensa cerca ao poente; esta foi transformada no jardim chamado das Albertas, que é um dos miradouros sobre o mar, mais interessantes da nossa Lisboa.

A igreja, que não foi demolida, fica contígua ao palácio do Museu de Arte Antiga, e o convento foi arrazado para a construção de novas dependências do mesmo museu.

Panorâmica de Lisboa nos finais do séc XVIII.
II - Desde a cerca do Convento das Albertas (hoje jardim) até à travessa de José António Pereira.
Imagem: Elucidário Nobiliarchico, Vol. 2 n.° 10, outubro de 1929

Convento de Nossa Senhora dos Remédios ou dos Marianos, de Religiosos Carmelitas Descalços (III), no começo da Rua das Janelas Verdes; construção muito extensa, mostrando no desenho, no andar superior, além de 11 janelas, uma arcada com 5 vãos, que já não existe.

Da igreja apenas se avista a janela superior da fachada, o frontão com um óculo circular, e os 2 remates esféricos que o ladeiam. O convento pertence actualmente a particulares, estando instalada no 1.° andar uma pensão "York House"; a igreja foi adaptada a templo protestante.

Mosteiro de Nossa Senhora da Soledade, ou das Trinas, de Religioças Trinas Recoletas (III); é a enorme construção, que se observa por cima da Igreja de Santos, com vários andares, e 16 janelas em cada um. Estão actualmente nele instalados o Arquivo de Identificaqão de Lisboa e o Laboratório Electro-Técnico da Administração Geral dos Correios e Telégrafos; e além disso serve de moradia a viúvas de oficiais, e a muita gente pobre. 

Mosteiro de Nossa Senhora da Nazaré, ou das Bernardas, (IV), de Religiosas Recoletas de S. Bernardo; vê-se quase completamente reduzido a ruinas, como provàvelmente o deixou o terremoto de 1755. Foi reconstruído, assim como a sua igreja, depois da época em que se desenhou o quadro, sendo habitado actualmente por numerosas famílias proletárias. 

Convento de Nossa Senhora da Estrela, no Largo da Estrela, de frades Beneditinos (III); nele se acha instalado o Hospital Militar Principal de Lisboa, e a delegação n.° 2 da Farmácia Central do Exército; no mesmo funcionou, em seus começos, a Real Academia de Desenho, de História e de Arquitectura, a que se anexou a Aula de Escultura; a igreja, actualmente profanada, está situada ao meio da ala voltada para poente, que é a que se vê no desenho. 

Panorâmica de Lisboa nos finais do séc XVIII.
III - Desde o Palácio do Marquês de Pombal, na Rua das Janelas Verdes, até ao extremo do Palácio do Marquês de Abrantes.
Imagem: Elucidário Nobiliarchico, Vol. 2 n.° 10, outubro de 1929

Convento de Nossa Senhora da Porciúncula, de Religiosos Capuchos Franceses, vulgarmente chamados Barbadinhos (IV); ficava situado na Rua da Esperança, onde funciona desde 1912 o balneário da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (números de polícia 49 a 55); vê-se no desenho à esquerda de iim prédio alto com 2 pavimentos e 11 janelas, e foi completamente remodelado, pois que não sofreu fracasso nem ruina com o fatal terremoto.

Mosteiro de Santa Brígida, de religiosas vulgarmente chamadas inglezinhas (IV), situado na Rua do Quelhas; em 1864 foi adquirido pelos jesuítas para sua residência em Lisboa, onde estiveram até à sua expulsão em 1910; hoje serve de arquivo, biblioteca e museu das congregações. 

Mosteiro do Santo Crucifixo, de Religiosas Capuchas chamadas Francesas da Primeira Regra de Santa Clara, vulgarmente conhecidas por Francesinhas (IV), no antigo Caminho Novo, à esquina para a Calçada da Estrela.

O convento foi arrazado logo depois da revolução de 1910, e a igreja está actualmente (Fevereiro de 1930) a ser demolida, para regularização das vias públicas que naquele sítio convergem. O desenho mostra a fachada, com o seu grande portal em arco, com baixos relevos, que se guardam no Museu Arqueológico do Carmo.

Mosteiro de Nossa Senhora da Esperaqa, de Religiosas Franciscanas, no Largo da Esperança (IV); a igreja está representada no desenho por baixo do mosteiro anterior; vê-se o muro da cerca, com um grande portal que deitava sobre a Calçada da Estrela. 

No local da cerca e do convento abriu-se a Avenida de D. Carlos, inaugurada em 1889, hoje denominada Presidente Wilson, a Rua dos Industriais, e, além de vários prédios de particulares, construiu-se nele a sede do comando e Quartel do Corpo de Bombeiros Municipais. 

Mosteiro de Nossa Senhora dos Remédios, de Religiosas Trinitárias no Largo do Rato (IV); vê-se a sua extensa frontaria por baixo do Reservatório da Mãe-d'Agua; a empena da igreja tem 2 janelas, sendo as laterais em quarto de círculo. No edifício funciona actualmente a Direccão-Geral da Assistência, e o Asilo José Estêvão, para raparigas. 

Convento de S. Bento da Saúde (IV); mostra a fachada corno era antes das grandes transformayões que tem sofrido, para adaptação do edifício a palácio do Parlamento ou das Cortes; vê-se o adro que era fechado com muros, e nos quais existiam 2 portas, conforme diz o Padre Carvalho da Costa.

Convento de Nossa Senhora de Jesus, de Religiosas da Terceira Ordem de S. Francisco (V); no meio do casario avulta a igreja, com a extensa fachada do convento ao seu lado direito, e a Capela e o Hospital dos Terceiros, do lado esquerdo. 

A igreja é desde 1835 a paroquial das Mercês, e no convento está instalada, como se sabe, a Academia das Ciências de Lisboa, e a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 

Hospício de S. João Nepomuceno e Sant'Ana, de Religiosos Carmelitas Descalqos (V), no Largo de S. João Nepomuceno; avista-se num pequeno terreiro, inferiormente à Igreja dos Paulistas; nele está instalado o Asilo de Santa Catarina, fundado em 1858.

Dos palácios e casas nobres que estão representados no desenho mencionaremos, como mais salientes, os seguintes:

Palácio do Fiuza (I), em Alcântara, na extrema esquerda do desenho, mostrando, voltada para o observador, uma fachada com 5 janelas de sacadas. 

Palácio das Necessidades (I), que foi a residência real até à queda da monarquia, e onde funciona actualmente o Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Panorâmica de Lisboa nos finais do séc XVIII.
Imagem: Vieira da Silva, Dispersos

Palácio na Rua do Pau de Bandeira (II). Na vertical da cerca do ex-convento das Albertas vê-se, no penúltimo plano, um palácio que ficava situado no local da actual Rua do Sacramento, à esquina para a Rua do Pau de Bandeira, que é o antecessor do palácio que foi dos Condes dos Olivais e Penha Longa e onde está hoje a legação da Alemanha; reconhece-se que foi completamente remodelado.

Palácio do Conde de Óbidos (I), contíguo ao extinto convento de S. João de Deus, onde, no 1.° andar, está instalada a sede da Cruz Vermelha Portuguesa, e no rés-do-chão, que para o lado do rio tem a altura de um 2.° andar, mora o ilustrc director desta publicação, Afonso de Dornelas. 

Palácio da Imperatriz (II), ou dos Marqueses de Pombal, hoje do Estado, e onde é actualmente o Museu de Arte Antiga, contíguo, do lado esquerdo ou do poente, à igreja do extinto Convento das Albertas. 

Palácio na Rua do Sacramento (II); por cima do palácio antecedente vê-se uma quinta e prédio da Rua do Sacramento, que foi de Francisco Lima Mayer, e hoje é do dr. D. S.t H. Horgan. 

O palacete tem 10 janelas de sacada no 1.° andar, e entre a 3.a e 4.a distingue-se, embebido na fachada, um painel de azulejo, de grandes dimensões, que ainda se conserva, contendo a imagem de Nossa Senhora da Conceição e uma cercadura com vários santos; tem a legenda seguinte: 

SANCTUS DEUS
SANCTUS FORTIS SAN-
TUS IMMORTALIS
MISERERE NOBIS

No rés-do-chão funciona a secretaria da Embaixada Inglesa, e no 1.° andar está instalada a Legação da República da China. 

Palácio na Rua das Janelas Verdes (II). Continuando para a direita do Museu de Arte Antiga, o prédio que se vê com 2 andares, 9 janelas em cada andar, e 4 águas furtadas, é o que forma a esquina ocidental da Rua das Janelas Verdes para a Rua de S. Domingos à Lapa. 

Palácio do Marquês de Pombal (III). Prosseguindo ao longo da Rua das Janelas Verdes, encontra-se o palacete do Marquês de Pombal; apresenta na fachada voltada ao sul, 2 andares com 8 janelas em cada um, e uma janela acima do telhado; esta fachada está hoje um pouco modificada. 

Palácio dos Viscondes de Asseca (III). Na mesma rua, e passado o Convento dos Marianos, vê-se o palácio que foi dos Viscondes de Asseca, tendo do lado esquerdo a capela, com uma cruz no remate da fachada, O primeiro andar e a cave tinham galerias com 5 arcos, na fachada que olhava para o rio. O palácio foi demolido por 1882, e no seu local construiu-se a fábrica de Pregaria e Serraria da Companhia Vitória. 

Palácio dos Condes de Murça (III). O palácio antecedente sobrepõe-se em parte, no desenho, a outro que lhe fica fronteiro no lado oposto da Rua das Janelas Verdes, que é dos Condes de Murça e de Sabugosa. Do palácio vêem-se ainda 7 janelas de sacada do 1.° andar, além de mais 2 do corpo lateral que faz esquina para a Rua de S. João da Mata. Neste edifício está instalada no 1.° andar a Escola Industrial Fonseca Benevides.

Palácio do Marquês de Abrantes (III). A Igreja de Santos segue-se este palácio, que hoje é ocupado pela Legação da República Francesa, e pelo Consulado de França. Possuia uma extensa quinta, ao longo da actual Calçada do Marquês de Abrantes, suportada por uma alta muralha, que serve de parede do fundo às casas do lado norte da Rua Vasco da Gaina, e do Jardim de Santos.

Nos princípios da monarquia existiu no local do palácio um convento de cavaleiros da Ordem de Santiago, mais tarde ocupado por freiras da mesma Ordem, até se transferirem, no ano de 1490, para o Mosteiro de Santos-o-Novo, que para elas mandou edificar D. João II. O convento foi extinto, e no seu local construiram-se uns paços reais, chamados de Santos, predecessores do actual palácio. 

Palácio da Condessa de Sarmento (III). Entre o edifício do Convento das Trinas e o de Nossa Senhora da Estrela vê-se um palacete com 7 janelas de frente, e 2 na empena; fica situado na Rua do Quelhas; nele foi em tempos a sede da Nunciatura e actualmente está aí instalado o Liceu D. Filipa de Lencastre.

Prédio na Calçada do Marquês de Abrantes (IV). O prédio que, seguindo para a direita, se vê com 3 andares e 11 vãos de portas ou de janelas em cada um, é o que tem na Calçada do Marquês de Abrantes os números de polícia 42 a 56; pertence hoje a D. Maria Augusta Martins David. 

Este prédio foi propriedade do armador de navios João António da Cruz Robim Borges, que consta que nele fez melhoramentos e ampliações, tendo também mandado construir o que actualmente lhe fica contíguo para poente, com os n.os 58 a 68, e o da Rua da Esperança, que faz esquina para a Travessa dos Barbadinhos os números de polícia 57 a 67. 

Estes dois últimos prédios foram levantados no local do extinto convento e cerca dos frades barbadinhos franceses, a que já nos referimos, tendo ficado excluída a igreja, que é actualmente o balneário da Santa Casa. 

Palácio dos Duques de Aveiro (?) (IV). O prédio que no desenho se segue ao anterior, por baixo dos Conventos das Francesinhas e da Esperança, com 2 andares, e 6 vãos de janela de sacada no 1.° andar, deve ser o palácio dos Duques de Aveiro, transformado actualmente no enorme casarão que faz a esquina sul da rua e do Largo da Esperança. 

Panorâmica de Lisboa nos finais do séc XVIII.
IV - Desde o começo inferior da actual rampa de Santos até ao Palácio do Conde barão de Alvito.
Imagem: Elucidário Nobiliarchico, Vol. 2 n.° 10, outubro de 1929

Palácios do Conde-Barão e dos Almadas. Os palácios dos Condes-Barões de Alvito (IV), e dos Almadas, Provedores da Casa da fndia (V), o primeiro fazendo esquina para a Rua dos Mastros, e o segundo para a Rua das Gaivotas, vêem-se com toda a nitidez no primeiro plano do desenho; a praia em frente deles era então varadouro e estaleiro de construção de barcos. 

No 2.° daqueles palácios está actualmente instalada uma oficina tipográfica "Otosgráfica, Ltd.a", e serve de armazéns da livraria Aillaud e Bertrand.

Palácio dos Soares da Cotovia (V). Na linha do horizonte, superiormente a estes palacetes, projectam-se duas fachadas, sul e oriental, do palácio de D. Rodrigo, ou dos Soares da Cotovia, onde está instalada desde 1768 a Imprensa do Estado, hoje denominada Imprensa Nacional.

Ao lado esquerdo avista-se urn extenso telhado que deve ser do palácio que foi dos Condes de Ceia, e hoje é de D. Vasco Bramão. 

Colégio dos Nobres (V). Um pouco para a direita, por cima da Igreja e Convento de Jesus, vê-se o edifício do Noviciado da Cotovia, depois mudado em Colégio dos Nobres (em 1761), que ardeu em 1843. Reconstruído segundo um novo plano, é hoje a Faculdade de Cièncias da Universidade de Lisboa. 

Palácios na Travessa da Condessa do Rio (V). Entre a Igreja dos Paulistas e terreiro do Convento de S. João Nepo- inuceno vêem-se dois palácios que formam as esquinas da Travessa da Condessa do Rio (Grande); o da esquerda é propriedade actualmente de José Mateus de Almeida Mendia, e o da direita de Guilherme Ferreira Pinto Basto, que nele fez grandes obras que, na fachada, lhe modificaram um pouco o aspecto. 

Igreja Patriarcal de Lisboa (V). No céu projecta-se uma torre com ventanas, sobrepujada por uma cruz, que é, como já dissemos, a torre sineira da Patriarcal, incendiada, como a igreja em 1769. 

Por baixo da torre vê-se o envasamento da fachada da Patriarcal, com cunhais e membros de cantaria refendida, semelhantes aos que mostram dois quadros que ainda se conservam. Um pouco mais abaixo nota-se a linha extensa de um barracão, caserna dos soldados do Regimento da Praça de Peniche, que vieram para Lisboa fazer o policiamento da cidade depois do terremoto de 1755, e a que deve o nome a Rua do Abarracamento de Peniche.

O horizonte do panorama é limitado pelas linhas de cumeada que se avistam de Cacilhas. 

A esquerda do quadro tem por fundo a Serra de Monsanto, com alguns casebres e moinhos isolados; distingue-se uma fuma das pedreiras de Monsanto. 

Ao longe campeia uma ermida isolada, que é a da quinta dos Prazeres, onde se fez o cemitério da mesma denominação. Daí, a renque de casas mais afastadas é da Rua do Sacramento, e em seguida a da Rua de Buenos Aires. Entre as empenas de dois altos prédios fica a terminação superior da Rua das Trinas do Mocambo (III), hoje Rua Sara de Matos; é precisamente neste sítio que deveriam projectar-se a cúpula e as torres da Igreja da Estrela, se nessa época já existissem. 

Daí por diante desenham-se edifícios de várias encostas e cumiadas, conforme as disposições orográficas da região de Lisboa que se avista de Cacilhas. 

Com a maior nitidez vêem-se o Aqueduto e o Arco da Rua das Amoreiras, e o reservatório conhecido por Mãe-d'Agua (IV); debaixo do 5.° arco do aqueduto está alojada a Capela de Nossa Senhora de Monserrate, contígua, no desenho, à igreja do Mosteiro do Rato. 

Na Rua de S. Bento, próximo e à direita do edifício do convento (IV), distingue-se o frontão do arco da canalização das Aguas Livres que conduz ao chafariz da Esperança. 

O monte de Santa Catarina (V) apresenta-se ainda desprovido da sua muralha de suporte, e com uma cruz no adro da igreja, porventura a cruz de pau que deu origem ao nome da rua, hoje Rua do Marechal Saldanha, que segue daquele adro para o Largo do Calhariz, e que, segundo a tradição, servia para orientação dos marítimos até à barra do Tejo. 

Panorâmica de Lisboa nos finais do séc XVIII.
V - Desde o Palácio dos Almada, provedores da Casa da Índia, até ao começo inferior da Calçada de S. João Nepomuceno.
Imagem: Elucidário Nobiliarchico, Vol. 2 n.° 10, outubro de 1929

Extensos tratos de terreno existiam cntáo sem edificações, especialmente para o lado da parte mais ocidental da cidade, vendo-se ainda, nos campos entre a Rua das Janelas Verdes e a do Sacramento, duas quintas muradas, à inferior das quais, chamada Quinta da Arriaga (II), pertencia o prédio com 2 andares e 6 janelas em cada andar e 3 trapeiras; estas propriedades pertenceram a D. Mariana de Vilhena Coutinho Arriaga, camareira da Rainha D. Maria I, e são hoje da condessa de Seisal.

Ao longo do muro desta quinta abriu-se a Rua da Arriaga, e contígua ao muro superior de vedação da outra quinta rasgou-se a Rua do Prior. Em parte dos terrenos desta última quinta são hoje o palácio e os jardins da Embaixada Inglesa. 

A parte marginal da cidade, que se banhava nas águas do Tejo, foi desde então até ao presente completamente transformada. Naquele tempo ainda as tercenas ou armazéns, e os estaleiros, predominavam em toda a parte que foi abrangida no desenho.

Em Alcântara vê-se o baluarte (I), onde é a parada do Quartel do Corpo de Marinheiros, construído em 1862-65, e a cortina da quadrela imediata, sobre que se levanta uma fachada do refeitório do ex-convento do Sacramento; em seguida estão uma furna e fomos de cal (I), pelo sítio da Fábrica de Bolachas da Pampulha; a encosta onde está construído o Convento de S. João de Deus e o Palácio do Conde de Obidos (I) apresenta ainda o aspecto selvático primitivo.

Em Santos, encostadas à muralha de suporte da quinta do Marquês de Abrantes, está uma renque de barracas, com uma bandeira portuguesa e outra inglesa, no topo de umas bancadas, naturalmente de madeira (IV); deviam ser ou barracas de banhos, ou mais provàvelmente de alguma associação de recreio náutico, para o que o desenhador representou, junto à margem em frente delas,. uma canoa de recreio, também embandeirada.

Vê-se depois uma ponte-cais de estacas (IV), e na margem uma fila de cavalos a caminho de um barco atracado à ponte; são naturalmente os veiculos usados então para o transporte dos lixos da cidade para as faluas ou caiques.

Panorâmica de Lisboa nos finais do séc XVIII.
Imagem: Vieira da Silva, Dispersos

Ali perto divisa-se um chafariz ou tanque de lavagem de roupa, tendo um portão semi-circular, com 3 acroténos. Do Largo da Esperança até ao extremo direito da parte desenhada, a margem do Tejo está toda ocupada com armazéns e estaleiros de construção de barcos (IV e V); uma palissada isolava estes estaleiros da rua. 

O aspecto do local é hoje totalmente diferente, não só pela construção de edifícios, mas pela enorme superfície que tem sido conquistada ao Tejo, para as sucessivas obras da margem e melhoramentos do porto de Lisboa.

Tendo percorrido rapidamente todo o panorama desenhado, que pela primeira vez é publicado, não podemos deixar de acentuar a sua extraordinária fidelidade, e o valor quase fotográfico que possui como documentação, para conhecimento do estado de uma parte da cidade poucos anos depois do terremoto de 1755.

Bem haja o desconhecido autor que nos legou tão precioso trabalho. (3)


(1) Vieira da Silva, Dispersos  cf. Elucidário Nobiliarchico, Vol. 2 n.° 10, outubro de 1929
(2) Vieira da Silva, Idem  cf. Elucidário Nobiliarchico, Vol. 2 n.° 10, outubro de 1929
(3) Idem, Ibidem  cf. Elucidário Nobiliarchico, Vol. 2 n.° 10, outubro de 1929