segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Bernardo de Sá Nogueira (1795-1876), Marquês de Sá da Bandeira

Desde muito moço vivi com homens dos mais notáveis da guerra civil entre D. Pedro e D. Miguel. Os acontecimentos estavam próximos ainda; vivas e sangrando, feridas de todo o género nos contendores de ambos os campos; mas em espiritos elevados as paixões haviam serenado.

General Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo (1795-1876), Marquês de Sá da Bandeira.
Imagem: Academia Militar

Das narrativas que ouvi aos parciaes dos dois lados me veia poder firmar linhas physionomicas de personagens que representaram na scena politica de uma epocha cuja historia, apesar de haver volumes sobre ella, ainda se não escreveu.

Para mim, de todos os homens do cerco do Porto, o mais heróico é Bernardo de Sá Nogueira, marquez de Sá.

A ultima vez que o vi jantámos juntos. Foi no dia 4 de agosto de 1873, em Cintra, em casa dos duques de Palmella. Fazia annos a sr.a duqueza.

Maria Luísa de Sousa Holstein (1841-1909) 3a Duquesa de Palmela.
Imagem: Geni

O velho soldado e grande cidadão fora saudar a nobilíssima fidalga, que allia, ao talento artístico, a flor mais perfumada de educação, e o dote de captivar quantos a conhecem, pelo poder irresistível e supremo da sympathia. Marquez de Sá prezava, havia muito, as qualidades moraes de finíssima tempera de António de Sampaio, duque de Palmella.

Algumas horas antes de jantar, no parque da casa de campo dos duques, marquez de Sá, marquez de Sabugosa, e eu, conversámos, ou antes, nós dois ouvimos o deus Marte da serra do Pilar, que, apesar de manco, tantas vezes acutilado, uma vez quasi enterrado vivo, e já próximo dos 80, parecia ter o animo e vigor da mocidade. Contou algumas anecdotas engraçadas, e, como prologo, disse:

"Agora, quando vejo nos jornaes noticia de coisa triste, não leio."

Estas palavras tão simples deram-me mais uma nota das cordas d'aquelle coração.

O homem que presenceara tragedias pavorosas; que elle próprio curtira dores cruelissimas de todo o género; a dois passos do tumulo, ainda se commovia com os infortúnios alheios!

Busto em màrmore do Marquês de Sá da Bandeira (c. 1870), inaugurado na Sociedade de Geografia de LIsboa em 1909, detalhe de fotografia de Francesco Rocchini tomada no atelier da 3a Duquesa de Palmela Maria Luísa de Sousa Holstein.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Falou também do cerco do Porto, narrando grandes actos de abnegação e intrepidez, que lá se praticaram, sem por sombras alludir ao seu nome. E foi no Porto, depois do funesto desbarato da Gandra de Souto Redondo, que elle praticou uma acção, que adeante referirei, acção que não tem rival vencedora nas mais nobres da historia.

Simão José da Luz Soriano narra o facto com a sua chateza habitual. Eu ouvio-o da bôcca dos homens d'aquelle tempo, e nenhum o contava sem commoção.

O auctor do cerco do Porto, trabalhador incansável, honra lhe seja, dá a noticia exacta e impreterível para a historia d'aquella epocha; foi testemunha de muitas scenas; é sincero, mas não vê senão a superfície das coisas; desconhece os homens ou não tem olhos para os observar ou está longe dos meneios diplomáticos; não falseia, mas amesquinha actos de heroicidade, ou porque os não comprehende, ou porque lhe são antipathicos aquelles que os praticaram; respira no circulo estreito dos seus parciaes [v. História do cerco do Porto... vol. I e História do cerco do Porto... vol. II]

As Festas da Liberdade no Porto — Veteranos da Liberdade que tomaram parte no préstito in O Occidente, 1883.
Imagem: Hemeroteca Digital

A falta de recursos como escriptor, ora o leva á confusão e obscuridade, ora a infatuar, sem intenção malévola, a verdade das coisas. 

Saldanha, cujos defeitos como politico por tantas vezes temos censurado no decurso d'estas "Memorias", teve no Porto esses defeitos, que lhe estavam no sangue e o acompanharam até á morte, mas representou um papel eminente e brilhantíssimo, desde a defesa da "Frecha dos mortos", até que abateu os lauréis orgulhosos da vencedor de Argel.

Luz Soriano acurta-lhe a estatura.

De Mousinho da Silveira, alma da revolução, como não pôde encarar o minimo relâmpago d'aquelle cérebro genial, diz, inconscientemente, o que diria um gazetilheiro, d'esses a que os francezes appellidara de "fulicularios", assalariado para o insultar.

Palmella é também injustamente apreciado. Faz pena que um escriptor brilhante, que já não vive, deixasse correr, propositadamente, os juizos fúteis, acanhados, e por vezes empeçonhados, do animo miudinho e cabeça apoucada de Simão Soriano.

Varias injustiças do auctor do cerco do Porto já estão corrigidas, pela rispidez dos factos, em algumas correspondências diplomáticas, na "Historia das Côrtes Geraes", e ainda nos volumes de J. da Silva Carvalho, "O meu tempo", importantíssima collecção de documentos para a historia politica d'este século em Portugal, publicados e annotados por seu neto, A. Vianna.

Antes de narrarmos os factos mais importantes da vida do marquez de Sá, dêmos, em dois traços apenas, a biographia do aventureiro soldado.

Tinha mais seis annos do que o século (1795); aos quinze sentava praça no regimento de cavallaria 11. Até 1814 bateu-se sempre. N'esse anno (13 de março), explorando a estrada de Tarbes, é envolvido pelo inimigo, acutilado, cae por morto no campo de Vielle, passa-lhe por cima um esquadrão. Prisioneiro dos francezes, restabelece-se, mas fica surdo para o resto da vida.

Termina a guerra, embainha a espada, matricula-se em Coimbra, fórma-se em mathematica. É uma linha recta no caminho da honra, aquella vida!

De 1826 a 1827 bate-se sempre. Em 1828 continua a combater. Rejeita o camarote no Belfast, offerecido pelo duque de Palmella, para salvar da forca a cabeça de Cesar Vasconcellos e levar os seus soldados até á Galliza.

Pedro de Sousa Holstein, 1° Duque de Palmela, por Domingos Sequeira.
Imagem: Wikipédia

Essa retirada foi digna de ser escripta pelo punho de Thucydides.

Em Hespanha dá-se o celebre dialogo entre elle e o façanhoso official.

Soriano narra o facto; mas eu prefiro a versão das "Lendas de Santarém", do meu velho amigo Zeferino Brandão, por apresentar testemunha de grande valor.

Haverá bastantes leitores que não conheçam este passo.

O coronel de milícias hespanhol, D. Manuel Ignacio Pereira, á frente da sua tropa, tratou com grande rudeza Bernardo de Sá. Este, sereno, queixou-se de que tivessem feito fogo sobre o seu acampamento.

— Eso merecen ustedes, replicou o hespanhol, porque son ustedes rebeldes y criminosos.
— Rebeldes y criminosos son esos que os siguen, atalhou Sá Nogueira.
— Y se atreve v. a hablarme com esa altaneria?
— Yo le hablo a v. de la misma manera que V. me habla.
— V. me habla asi en cuanto no le cuerto la cabeza.
— Y V. me habla asi porque no tengo mi espada a mi lado.

O coronel arrancou da espada e mandou calar baioneta aos soldados. Bernardo de Sá cruzou os braços, e disse-lhe com o máximo desprezo:

— Es una cosa gloriosa el sacar la espada contra un hombre desarmado!

Os officiaes hespanhoes tiveram mão no covarde sanguinário, clamando-lhe que não deshonrasse o exercito do seu paiz com um infame assassínio.

A testemunha presencial, que o meu amigo Zeferino Brandão teve para a sua narrativa, foi, nem mais, nem menos, de que o marquez de Thomar, em cuja casa Zeferino era recebido pelo marquez e seu filho, actual conde de Thomar [vivia quando isto se escreveu].

Nas aguas dos Açores (1829) deu-se um caso com Bernardo de Sá e seu irmão José, caso que escapou á phantasia de todos os auctores de romances enredados e tenebrosos.

Ambos haviam partido de Inglaterra n'um brigue que devia deital-os na Ilha Terceira. A principal carga do barco era carvão de pedra. O commandane, excellente homem, prevendo algum mau encontro, mandou abrir no carvão uma cova, onde coubessem, a custo, dois homens. Não mentira o coração presago do solicito lobo do mar.

Quando faziam proa para a Angra, o cruzeiro miguelista cahiu sobre o brigue, julgando-o boa presa. Bernardo de Sá e o irmão foram para a sua cova. Não podiam mover-se, nem sequer levantar a cabeça. Treva profunda! Correram oito dias esplendidos para o tenebroso "Inferno" de Dante!

Ancorados em S. Miguel, o brigue ia ser descarregado. José de Sá, bravo como um cavalleiro andante, disse para o irmão:

— Se fôr descoberto atiro -me ao mar.

— O peor que te pôde succeder, observou-lhe Bernardo de Sá, é enforcarem-te. Não vejo necessidade de poupares esse trabalho ao incumbido da execução.

Estavam perdidos, quando a Providencia, encarnada n'um homem de coração, o cônsul inglez William Harding Read, pae do meu querido amigo Guilherme Read Cabral, com auxilio do bravo capitão, os salvou.

Quando comecei a gizar as feições do marquez de Sá referi-me a um acto da sua vida, dizendo que não conhecia no sangue frio e na abnegação nenhum mais elevado. Vou narral-o como o ouvi da bôcca dos homens d'aquelle tempo. O facto, em si, é notório. A noticia de Soriano, exacta no fundo, é contada a seu modo, e isso basta para lhe tirar toda a elevação.

Álvaro Xavier da Fonseca Coutinho e Povoas era um general; cabeça bem organisada e fecunda em planos. Os exaltados do partido absolutista não podiam com elle, porque em 1828, pela sua humanidade, não levara os vencidos á forca. 

Deviam de ter sido, n'esse momento, pavorosos os morticínios da vindicta sanhuda e cruel dos vencedores, que tinham como sinistra inspiradora Carlota Joaquina, mulher radicalmente má. Todavia Povoas impunha-se-Ihes, como agora se diz, a torto e a direito, quasi sempre a torto, pela sua incontestável superioridade.

Conde de Villa-Flôr, depois duque da Terceira, valente como leão, não tinha nem a prudência, nem o alcance impreteriveis nos cabos de guerra.

No dia 7 de agosto (1832) atacou o inimigo, e na primeira refrega levou-o de vencida. O coronel do 10, Pacheco, que, segundo a opinião dos homens como Saldanha, tinha capacidade para vir a ser general de primeira ordem, receando do modo por que Villa-Flôr dispuzera as coisas, poz em reserva o seu regimento. Essa previsão fez com que lograsse cobrir a retirada desordenada e medonha. 

Os constitucionaes avançaram com a intrepidez desenganada de homens que jogam a cabeça. Ás 11 da manhã o imperador recebia participação auspiciando a victoria como certa. De facto, nas primeiras arrancadas, os soldados do Mindello levavam a melhor. Povoas, porém, era homem de guerra e conseguiu attrahir os aggressores á própria Gandra de Souto Redondo.

O ataque fora desastradamente planeado. Povoas, n'um movimento acertado e rápido, mandou carregar á baioneta o regimento de infanteria de Bragança, gente escolhida, flanqueado pela cavallaria. Os constitucionaes foram como apanhados de improviso e em linha.

Começou o pânico, que o grito de alarma de um capitão de caçadores converteu em completa debandada. Então o coronel Pacheco, cobrindo a retirada, salvou o Porto, que esteve por um fio n'esse dia!

D. Pedro IV, no seu palácio dos Carrancas, depois da participação que de manhã recebera, esfregava as mãos, tendo a victoria como certa.

Bernardo de Sá estava com elle, quando o marquez de Loulé chegou de improviso. O marquez vinha extremamente pallido, e, apesar do seu caracter frio, tão commovido que nos primeiros momentos não poude proferir palavra.

Nuno J. S. de M. R. de M. Barreto (1804-1875), 1.° duque de Loulé.
Imagem: Wikipédia

D. Nuno José Severo de Mendoça Rolim de Moura Barreto, 24,° senhor da Azambuja, 3.° conde da Azambuja, 9.° conde de Valle de Reis, 2° marquez de Loulé e 1.° duque de Loulé, casara com uma irmã do imperador, a infanta D. Anna de Jesus Maria.

Na epocha a que nos referimos tinha os annos incompletos e era tal belleza de homem que na Grécia poderia servir de modelo a um estatuário genial! Quando entrou a tomar alentos, narrou o funesto desbarato. Fora completo. Povoas perseguia os fugitivos e a entrada na cidade parecia inevitável.

O imperador, incontestavelmente bravo, tremia como vara verde. Então ergueu-se Bernardo de Sá e disse para D. Pedro:

"Senhor, Povoas é um general. Basta que mande dois esquadrões carregar o inimigo para apossar-se do alto da Bandeira, tomar a vanguarda aos fugitivos e aprisionar desde o general ao ultimo soldado. No aperto em que estamos é preciso, único recurso, que Vossa Magestade, com toda a gente que temos no Porto, embarque nos navios que ahi estão. A difficuldade consiste em realisar o embarque em presença do inimigo triumphante; mas para o defender me offereço eu, dando-me Vossa Magestade trezentos homens escolhidos."

— E o Bernardo de Sá? disse o imperador enfiado.
— Isso é commigo, senhor, respondeu serenamente aquelle intrépido coração!

Era com elle, coitado, era... que o fuzilavam em 24 horas, se o não enforcassem!

O duque de Bragança, altivo, mas generoso, não poude conter as lagrimas que lhe rebentaram dos olhos aos borbotões, e, apertando a mão de Bernardo de Sá, disse-lhe:

— Obrigado, meu amigo!

D. Pedro afivelou o cinturão e, sahiu com os que tinha em volta de si. Povoas, como que não querendo acreditar na demasiada fortuna ou arreceando-se de alguma cilada, ou finalmente por outros motivos que ficaram sempre na sombra, não perseguiu os fugitivos, cuja retirada, com prudência e valor excepcionaes, ia protegendo Pacheco, á frente do 10 de infanteria, regimento que nos humbraes de pedra da porta do seu quartel da Graça tinha gravadas as gloriosas datas dos seus repetidos feitos. 

Quando já levantado o cerco, cahiu com uma bala perdida, que lhe deu na cabeça, o laureado coronel.

Desastrado e obscuro fim de tão brilhante soldado!

Vista da Serra do Pilar.Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

No dia 8 de setembro, no Alto da Bandeira, Bernardo de Sá teve o braço direito partido por uma bala. Continuou a combater. Durante a amputação não soltou um gemido. Vinte dias depois montava a cavallo, e o braço esquerdo não brandia a espada com menos valor.

Proseguiu na carreira coruscante. Por vezes applicou rigorosos castigos, sempre com a máxima justiça. Habituado desde os quinze annos ao campo das batalhas, via impassivel medonhas carnificinas. Não raro, nos arrebatamentos da sua terrível valentia, era temerário cruel como o foi na serra do Algarve; mas tinha coração profundamente humano. 

Em 1838, sendo presidente de ministros, dia de Corpo de Deus, defendia a porta de escada onde se haviam refugiado José da Silva Carvalho e António Bernardo da Costa Cabral. Um sicário atirou-lhe uma baionetada ao peito: a commenda da Torre e Espada serviu-lhe de broquel. Correram sobre o assassino, para o acabar. Sá da Bandeira acudiu-lhe, bradando:
— Larguem esse homem, que não foi elle. 

Na revolução da Maria da Fonte, em Valle Passos, Bernardo de Sá mandou entrar em fogo um regimento:

— "Passou-se para o inimigo."
Ordenou que outro carregasse: 
— "Passou-se para o inimigo." Restava o terceiro.
— "Que avance."
— "Passou-se para o inimigo."

— "Então vamo-nos embora, meus senhores."

Não sei commentar. Esta simplicidade seria para o pulso de Shakespeare dar o ultimo toque no retrato de um estóico, quando o estóico fosse um heroe!

Ao terminarem com a Regeneração as luctas civis, que foram como constante resaca dos mares da revolução liberal, os olhos do marquez de Sá — continuaremos agora a dar-lhe este titulo, comquanto o não tivesse ao tempo — voltaram-se para a Africa. 

Chamaram-lhe visionário, já se vê. A inveja, que se dá em todo o terreno, mas que feracissimo o encontra na mediocridade, appellidava-o de utopista, testudo e allucinado. A geração que lhe suecedeu saudou-lhe a profícua iniciativa, e ahi estão hoje os aventureiros das armas e os do commercio, não menos úteis e valorosos estes, a perlustrajr essas regiões, que se o nosso temperamento não levar o amor pela Africa até á cegueira, principalmente com jactâncias fumosas de dominação, nos promettem largo e prospero futuro.

Sorriam-lhe a alma e os olhos ao marquez de Sá quando lhe falavam nas colónias. Essa paixão o distrahia da triste preoccupação que lhe dava o caminho que as coisas iam levando. 

Emquanto viveu D. Pedro V, o marquez não desanimou. Votava-lhe, com a admiração, affecto paternal. O nobre e sympathico príncipe pagava-lhe com egual extremo.

Quando o marquez de Sá, sendo ministro, cahiu gravemente enfermo (1859), D. Pedro V firmou-lhe n'uma carta singular a ultima consideração que tributava áquelle que offerecera a vida para salvar seu avô. A carta é conhecida; muitos haverá, porém, que a não lessem, e tem cabido logar n'estas paginas.

"Meu caro visconde. 

— Recebi, por seu irmão, a carta em que me participa a impossibilidade absoluta de continuar a gerir os negócios das duas repartições, que lhe commetti com uma confiança que nunca foi trahida.

Transmitto-a ao marquez de Loulé, que me proporá o meio de sahir do embaraço em que vem collocal-o a declaração official de um facto que o visconde se pode honrar de que não influísse, tanto quanto era natural, na marcha dos negocios.

Ao acceitar a resignação de um poder, que eu não podia desejar em mãos nem mais fieis, nem mais votadas ao bem do paiz e á honra do soberano, seja-me permittido exprimir-lhe, e sinceramente, o dobrado pezar que tenho do facto e das causas que o determinam.

Nos três annos que servimos juntos, divergimos algumas vezes de opinião: fizemol-o como devem fazêl-o um soberano e um ministro constitucionaes; quer dizer, discutindo livremente, e sem nos entrincheirarmos, como muitos fazem, atraz da nossa auctoridade, ou das formulas particulares da nossa diversíssima responsabilidade. Nunca abrimos, pelo menos todas as minhas lembranças me levam a crêl-o, nenhuma d'essas feridas da alma que se dissimulam e não se esquecem.

Retrato do rei D. Pedro V em 1859.
Imagem: Histórias com História

Por isso nos despedimos com eguaes sentimentos, e quer-me parecer que com pezar egual.

É que o visconde conservava no poder todas as excellencias, e, deixe-me dizer, toda a originalidade do seu caracter, toda a desprevenção da sua intelligencia. Foi ministro e nunca foi ministro. Resta-me ao lado do sentimento da perda, e da difficuldade da substituição, a confiança de que a desoneração de um trabalho, que ajudava a extenuar-lhe as forças, pode contribuir para o seu restabelecimento.

Acompanham-o na sua ausência estes votos, os quaes conto renovar-lhe pessoalmente antes da sua partida.

Creia-me, meu caro visconde, seu muito affeiçoado.

— D. Pedro V.

Lisboa, 12 de março de 1859."

Tinha 22 annos quando escrevia esta carta, que, além da elevação do pensar e sentir, tem a forma onde ha períodos que, pela concisão elegante, parecem de A. Herculano.

A 6 de janeiro de 1876 morria o marquez de Sá.

Lisboa, Praça de D. Luiz e monumento ao Marquez de Sá da Bandeira, c. 1900.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Fui incumbido pela Segunda classe da Academia Real das Sciencias de represental-a no enterro do exemplar e austero cidadão.
Em Santa Apolónia encontrei-me com o marquez de Sabugosa. Estava um dos nossos dias de inverno deslumbradores. Se podessemos vender alguns d'esses dias, por anno, á nevoenta cidade de Londres, em breve teríamos os inglezes como nossos submissos devedores!

Quando chegámos á estação de Santarém demos logo com Alexandre Herculano, que lhe transpareceu no rosto a satisfação de nos ver.

Estava commovido. Havia muitos annos era intimo do marquez de Sá.

Jardim da Praça Dom Luís e monumento ao Marquês de Sá da Bandeira, fotografia de Paulo Guedes.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Sobre a tarde, á sombra da nogueira que plantara e onde a Nympha de Ovidio soltaria dolorosos carmes, ia descançar finalmente o lidador aventureiro. Cahia o sol, atirando as frechas no occaso por aquella paizagem encantadora, onde os freixos rumorosos e frondeados são dos mais bellos da Europa, e o rio corta a campina, divertindo os seus regatos crystallinos pelas hortas e pomares.

Era já muito noite quando chegámos a Valle de Lobos. O jantar correu pouco animado. Herculano olhava pensativo para a labareda serena e azulada dos toros de oliveira que ardiam no fogão. 

Depois animou-se, e falando sobre o marquez de Sá e sobre a historia da nossa vida politica e social, no percurso dos últimos quarenta annos, esteve grandioso, porque Herculano, não tendo peito para orador nos grandes auditórios, era soberbo, e era certo género sem rival, na conversação intima.


Pouco mais de anno e meio depois, n'aquella mesma casa, o marquez de Sabugosa e eu viamos apagar-se a luz faiscante e guiadora que nos illuminara nos dias alegres e fecundos da nossa mocidade! (1)


(1) Bulhão Pato, Memórias Vol. III..., Lisboa, Typ. da Academia Real das Sciencias, 1907

Leitura relacionada:
Resenha das familias titulares do reino de Portugal, Lisboa, IN, 1838
Marquês de Sá da Bandeira e o seu Tempo
André do Canto e Castro, Marquês de Sá da Bandeira..., Lisboa, E. E. Carvalho & Cia., 1876
Luz Soriano, Vida do marquez de Sá da Bandeira... Tomo II, 1888
Luz Soriano, História do cerco do Porto... vol. I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1846
Luz Soriano, História do cerco do Porto... vol. II, Lisboa, Imprensa Nacional, 1849
Henrique Barros Gomes, O monumento do general marquez de Sá da Bandeira...,, 1884

Obra escrita pelo Marquês de Sá da Bandeira:
Visconde de Sá da Bandeira, O trafico da escravatura, e o bill de lord Palmerston, 1840
Viscount de Sá da Bandeira, The slave trade and Lord Palmerston's bill, 1840
Marquez de Sá da Bandeira, Memoria sobre as fortificações de Lisboa, Lisboa, IN, 1866

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

História do Marechal Saldanha (1790-1876): Lutas Civis

Constituída em 1834 a liberdade da nação portugueza para nunca mais perecer, começava a pratica das instituições, imperfeita no desenvolvimento como obra humana, mas civilisadora na missão e progressista nos resultados. 

Retrato de D. Pedro IV (detalhe), John Simpson, após 1834 (MNSR).
Imagem: Parques de Sintra

Só a escravidão politica é isenta de imperfeições nos seus mechanicos movimentos, que obedecem à lei de uma só vontade, imposta a um rebanho de seres, não a uma sociedade de homens. 

Dividiu-se a gente liberal [v. A Belemzada, Lisboa 1836]. 

Retrato de D. Maria II (detalhe), John Simpson, c. 1837.
Imagem: Wikipédia

Entendiam uns que, n'aquelle tempo, a Carta Constitucional continha a totalidade das liberdades necessárias ao progresso da nação e ás regalias dos cidadãos, receiando que o ultrapassar os limites d'ella abrisse para as mesmas liberdades os perigos de 1820.

Não concordavam outros no receio, e opinavam por constituição mais larga. Estes se appellidaram setembristas, porque, logo dois annos depois, em setembro de 1836, conseguiram levantar na capital o grito da revolução que logrou a victoria [v. O partido setembrista, Lisboa 1836].

Receberam o nome de cartistas os que perfilharam a idéa contraria. D'esta divisão se originou a serie de revoluções durante quinze annos a que veiu pôr termo a regeneração em 1851 [...]

Victoriosa em Lisboa a revolução de setembro que tinha por chefe a Passos Manuel, jurada pela rainha m a constituição de 1823 com as alteraçoeg que um fur toro congresso lhe introduzisse, tentaram resistir os cartistas [v. Manoel da Silva Passos, Lisboa 1836].

Manuel da Silva Passos (1801-1862) 01.jpg
Imagem: issuu

Nenhum dos dois marechaes tinha prestado juramento á nova ordem de cousas, e Saldanha escrevendo ao ministro da guerra, declarava que assim procedia para se reservar a faculdade de a combater.

Vila da Ponte da Barca, 1864.
Imagem: Hemeroteca Digital

A 12 de julho de 1837 insurgia-se um batalhão de caçadores na villa da Barca, e em differentes pontos do reino rebentavam outros levantamentos [...] (1)

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No dia 22 de dezembro de 1846 deu-se a batalha de Torres Vedras.

Torres Vedras.
Historical military picturesque... George Landmann.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Duque de Saldanha tomara o pulso á revolução. Era de facto uma revolução popular de sangue vivo do paiz e com homens á sua frente: Sá da Bandeira, conde das Antas, conde de Bomfim e o velho general Álvaro Xavier Coutinho da Fonseca e Póvoas, soldado portuguez de que elle, Saldanha, mais se arreceava.

Póvoas provou-lhe bem quanto valia nos desfiladeiros, valles e chapadas da Serra da Estrella.

Decorrido mais de meio século de paz podre, não se calcula hoje o que eram as paixões politicas d'aquelle tempo. Estou convencido, como já disse por vezes no percurso d'estas Memorias, que o medo d'essas paixões, que tinham rompido nos maiores ímpetos dez annos antes nos dias torvos da Revolução de Setembro e da Belemzada, é que levou os caudilhos da Maria da Fonte a ter mão n'um golpe decisivo, golpe que, sem abalar as instituições, poria em grave risco a coroa de D. Maria II.

Voltarei a este assumpto.

No dia 22 de dezembro de 1846 o duque de Saldanha achava-se porventura na situação mais difficil de toda a sua longa e brilhante carreira militar.

Na frente — Torres Vedras — estava o conde de Bomfim com a divisão onde havia soldados escolhidos, officiaes intelligentes e bravíssimos, tendo por chefe do estado maior nem mais nem menos do que Luiz Mousinho de Albuquerque [...]

Torres Vedras from the North-West.
Historical military picturesque... George Landmann.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Conde de Bomfim, comquanto a sorte nem sempre lhe fosse propicia no campo da batalha, era destemido e general illustrado.

A lenda do confessionário e da bandeira preta seria irrisória se nâo tivesse o fel da calumnia [segundo Oliveira Martins, baseado em João de Azevedo, Os dois dias de Outubro, ou a história da prerrogativa, "dizem que ao começar a batalha o pobre general sempre infeliz se escondera numa igreja, metido num confessionário, com uma bandeira preta cravada no telhado a indicar um hospital de sangue"].

Na rectaguarda, a dois passos, Saldanha tinha em Tagarro, Alcoentre, Cercal, o conde das Antas, "que o podia e devia entalar a cada momento contra as posições invencíveis de Torres Vedras".

Os rapazes da Maria da Fonte, rapazes e velhos, bateram-se com desenganada bravura. A matança foi terrível!

A batalha começou pelas onze da manhã. N'um relançar de olhos, Saldanha viu que a tomada do forte de S. Vicente era o ponto capital do assalto. O conde de Bomfim tinha lá dois mil homens da flor da sua gente.

O duque, esfregando as mãos (todos os homens de guerra teem o seu tique, o d'elle era este) bradou:

— A artilheria? 
— Ainda não chegou.
— Ximenes? 
— Marechal!
— O Sola que tome com a brigada o forte de S. Vicente á baioneta [...]

Torres Vedras, Morro do Castelo e Rio Sizandro.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Apesar da noite tormentosa, dos caminhos de Torres Vedras n'aquelle tempo, a noticia de Saldanha ter ganho a batalha chegou a Lisboa com espantosa rapidez.

Logo de manhã o aspecto da cidade tornara-se sepulcral. Nem os próprios vencedores se atreviam a manifestar as alegrias da victoria. Centenas de pessoas tinham nos dois campos parentes carnaes e amigos. Havia como que um cheiro a sangue e a morrão de enterro.

Mulheres, mães, irmãs, amantes, reviam no rosto contrahido pela anciosa incerteza alguma coisa da loucura, e, não raro, faziam perguntas desvairadas!

No crescer do dia chegavam ao hospital da Estrella os feridos, alguns moribundos.

Os grilhetas, a legião sombria d'aquelles desgraçados que andavam a dois e dois pelas ruas, atrellados como cães por grossas correntes, foram separados para serviço das macas.

Que préstito fúnebre [...]

A extrema anciedade que agitava a capital seguiu-se a apathia morna que sobrevem nas grandes catastrophes.

A chegada dos presos de Torres Vedras a Lisboa e a entrada d'elles nas presigangas [navios presídio] do Tejo augmentou ainda o tom mortuário da capital.

Uma necropole!

Quando algum raro dia d'aquelle tempestuoso inverno rutilava todo azul e oiro, faiscando na Tejo, illuminando os quintaes e as hortas da cidade, Lisboa era porventura mais triste. Ermas as ruas, desertas as praças, janellas cerradas.

Aqui e além ouviam-se as risadas crystallinas do rapazio desenfreado, com bandeiretas de farrapos, espadas de canna, divididos em dois bandos, simulando a batalha das vésperas e prenunciando as que deviam seguir-se.


As creanças a foliar no meio das grandes tragedias comprimem-nos amargamente o coração, porque nos lembram o durum genus, a ferocidade da origem humana!

Via-se a cada passo, não só a tristeza, mas a miséria impacta nas physionomias [...]

Os operários absolutamente sem trabalho, todos os géneros de primeira necessidade pela hora da morte; nenhuma transacção commercial.

Os empregados públicos, com muitos mezes de atraso, acudiam a rebater os ordenados por um desconto enorme.

Quantos d'esses empregados, que pertenciam a diversos batalhões, vi eu trazerem, em pleno dia, debaixo do braço, o pão de munição para o repartirem pela familia.

Supplemento Burlesco ao Patriota, 1847.
Imagem: Hemeroteca Digital

As notas do banco trocadas por menos de metade do seu valor; os cabos de policia deitando mão aos moços adolescentes, sem distincção de classe, para lhes sentarem praça no exercito da rainha.

Depois da batalha, como já disse, os próprios adversários não se atreviam a celebrar ruidosamente o enthusiasmo do triumpho.

Só a rainha não poude ter mão em si. Quando a guarda de honra chegou ás Necessidades, D. Maria II, abrindo com as próprias mãos a realenga sacada, na sua voz sonora e vibrante de jubilo, clamou:

— Victoria, rapazes!

Os cabellos, em saccarôlhas, fluctuavam ás refregas da quadra tempestuosa, as rosas da mocidade saltavam-lhe das faces accesas pela commoção da victoria. O que podem as paixões politicas!

Esta senhora, exemplo de esposa e de mãe, não se lembrava de tanta viuva e de tantos órfãos; de Mousinho de Albuquerque, gloria da pátria e amigo de seu pae nos dias da adversidade; do sangue fraterno que tingia a corrente arrebatada do Lisandro na força da invernia.


Torres Vedras, Rio Sizandro, Marques Abreu, c. 1900.
Imagem: Delcampe

Alguns cortezãos quizeram negar o facto, mas foram obrigados a engulir o impudor da lisonja, porque o facto teve por testemunhas centos de pessoas e uma d'ellas fui eu [...]

A inabalável dedicação á sua pessoa lh'a provaria o duque d'alli a cinco annos, na noite de 15 de maio de 1851, no theatro de S. Carlos, obrigando-a a tragar o boccado mais amargo de toda a sua vida, sacrifício que ella fez com senhoril e regia dignidade [v. A ditadura regeneradora de Saldanha ...] (2)

Marechal Saldanha, capa dos livros de Barbosa Cohen Entre duas revoluções 1848-1851, volumes I e II (detalhe).
Imagem: University of Toronto

*
*     *

Depois de 6 de outubro, Antas e Sá da Bandeira entraram na lucta, suppondo que a rainha fraqueasse vendo a altitude do paiz, e, sem o seu apoio, Costa Cabral baqueava para sempre do poder.

Com Saldanha tornava-se fácil qualquer accordo, voltivolo e malleavel como sempre foi em politica. A coisa, porém, mudava de aspecto.

O Espectro n° 49, 18 de maio de 1847.
Imagem: Hemeroteca Digital

O sangue accendeu as paixões, e a tenacidade da rainha converteu a ira dos adversários em rancor entranhado. Se os da Junta entrassem em Lisboa, a soberana, antes de abdicar, teria de refugiar-se n'uma nau ingleza.

Como todos os homens da emigração e do Porto, Sá da Bandeira e Antas amavam D. Maria II. 

Entrada apenas na adolescência, intelligente, formosa, expatriada, uma creanca quasi, fora a estrella polar, ou, direi antes, a noiva immaculada e espiritual da grande revolução. Receavam que a democracia exaltada, na sua justa cólera, lhes abatesse o idolo!

Periclitavam acaso as instituições quando a rainha abdicasse?

Quem falava n'esse tempo em Republica, não digo só em Portugal, mas em toda a Peninsula? Além dos Pirineus, a revolução de 1848, movimento imprevisto e ephemero, ainda estava longe.

Incendie du Château-d'Eau, place du Palais royal, le 24 février 1848, Eugène Hagnauer.
Imagem: Pinterest

Para mim é fora de duvida que a Maria da Fonte não triumphou pela tibieza das espadas d'esses dois homens.

Os académicos apertavam com Sá da Bandeira. Queriam combater:

Somos jovens, livres somos,
Somos de mais portuguezes,
O dever nos chama á guerra,
Affrontemos seus revezes!

Chegou o dia 1 de maio de 1847. Dia luminoso de primavera. As primeiras frechas de sol batiam nas serranias do Alto do Viso.

Vista de Setúbal, fotografia n° 18 do Album pittoresco e artistico de Portugal.
Imagem: Biblioteca Nacional Digital Brasil

Quantos veriam aquelle sol pela derradeira vez!

Os clarins tocavam a alvorada no campo inimigo, e os académicos, na guarda avançada, trepavam o monte cantando:

Quando da pátria
Soa o clarim
Ninguém nos vence,
Morremos, sim!

Tiros das avançadas, crescer do fogo, calar baionetas; cavallos á carga ; troar dos canhões. Combate rápido, mas tigrino.

Castello-Branco, uma das nossas melhores espadas, aleijado da mão direita nos assaltos do Porto, matou com um tiro de pistola o Pancada, também um valente. Pancada era do campo de Sá da Bandeira; Castello-Branco do Vinhaes.

Galamba, o guerrilheiro, o dragão, acudiu a vingar o seu camarada, e decepou a cabeça de Castello-Branco com uma tremenda cutilada.

Fernando Mousinho, commandante dos académicos, que perdera o pae em Torres Vedras, cahia ás primeiras descargas, atravessado pelos peitos, como havia dez annos tombara no Chão da Feira com egual ferimento. Joaquim Guedes de Carvalho e Menezes, da casa dos condes da Costa, teve o braço partido por uma bala de fuzil. 

Os académicos deixaram cinco dos seus camaradas no monte ensanguentado. Dois d'elles fôram assassinados depois de prisioneiros.

Nas quebradas umbrosas do Alto do Viso quem, noite cerrada, vae subindo de Setúbal para Azeitão, lá descobre uma luz como estrella pallida, luz que vem de uma ermidinha onde os dois inimigos, Pancada e Castello-Branco, descançam abraçados na paz da morte [...]

Na tarde de 1 de maio de 1847 a aragem do sul trazia a Lisboa os echos do canhão do Sado.

Ao Terreiro do Paço, noite alta, chegavam as macas com os feridos, alguns moribundos.

Lisboa, Praça do Commercio, gravura de João Pedro Monteiro (1826-1853) c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Sangue em Torres Vedras, em Val-Passos, em Vianna do Alemtejo, nas ruas de Lisboa, no Alto do Viso! [...] (3)


(1) D. António da Costa, História do Marechal Saldanha, Tomo I, Lisboa, IN, 1879
(2) Bulhão Pato, Memórias Vol. III..., Lisboa, Typ. da Academia Real das Sciencias, 1907
(3) Bulhão Pato, Idem

Mais informação:
Marques Gomes, Luctas caseiras: Portugal de 1834 a 1851, Lisboa, Imprensa Nacional, 1894
Charles Napier, An account of the war in Portugal between don Pedro and don Miguel, 1836
John Smith Athelstane (Carnota), Memoirs of Field-Marshal the Duke de Saldanha I, 1880
John Smith Athelstane (Carnota), Memoirs of Field-Marshal the Duke de Saldanha II, 1880
Barbosa Cohen, Entre duas revoluções 1848-1851 I, Lisboa, Manuel Gomes, 1901
Barbosa Cohen, Entre duas revoluções 1848-1851 II, Lisboa, Manuel Gomes, 1902
Guerra Civil Portuguesa
Cronologia do Liberalismo

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sábado, 6 de janeiro de 2018

História do Marechal Saldanha (1790-1876): nas Guerras Liberais (2 de 2)

É agora em Lisboa. O Porto passara o encargo para a capital, que recebia com o encargo o sublime exemplo em que tinham tido olhos fitos quantos ouviam narrar os padecimentos e esforços da cidade invicta.

Lisbon from the chapel hill of Nossa Senhora do Monte, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Quando em julho abrira Lisboa as portas á divisão liberal [v. Almada Virtual Museum: Guerras Liberais], principiaram os habitantes a correr às armas, e foram-se organisando os batalhões de voluntários fixos e moveis [...]

Solicitando porém no principio de agosto auctorísação do imperador, e recebendo-a para executar o que entendesse, forçou as linhas sitiadoras do Porto a 18 de agosto, e libertando-o como o tinha salvado, pôde immediatamente realisar o complemento do seu grande plano, correndo a Lisboa, trazendo uma valorosa divisão, trazendo-se a si próprio, e chegando exactamente quando o perigo, pelos motivos expostos, ia ser tremendo.

Logo no dia immediato o imperador e elle correram os arrabaldes [...]

Lisbon, published under the superintendence of the Society for the Diffusion of Useful Knowledge.
Drawn by W B  Clarke, engraved and printed by J Henshall Published by Baldwin & Cradock 47 Paternoster Row, 1833.
Imagem: Lisboa de Antigamente

Mas eis que se approxima o exercito realista, e defronta com Lisboa no dia 3 de setembro. Estabelecida se acha a grande linha realista contra a grande linha constitucional.

Cairá Lisboa, ainda insufficientemente fortificada por falta de tempo, diante do desproporcionado exercito que a vem conquistar? [...]

Ás cinco bens e meia da madrugada n'aquelle dia 5 de setembro, onze mil homens em seis columnas saem das linhas realistas para irromperem as constitucionaes. Ameaçando o centro pelo Campo Pequeno em breve se conheceu qne era por ali um ataque falso.

Na sua direita, porém, bifurcando-se, ao deixarem Sete Rios, uma parte da força investiu pela estrada de Campolide, outra pela de Palhavã; aquella para auxiliar o movimento pelo flanco direito, esta para tomar a quinta Louriçal, e d'ella passar para a quinta do Seabra (quinta Bahia).

Linha de defesa da cidade de Lisboa, 1835.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Infelizmente para os atacantes o grande reducto da Atalaya (ponto importantíssimo das posições liberaes) dominava as estradas investidas de Campolide e Palhavã. 

A columna realista que proseguia para Campolide, nao podendo romper, deixa de auxiliar o movimento da sua companheira de Palhavã, e assiste á batalha sem intentar novos accomettimentos.

É a brigada realista e imponente do valoroso coronel Dubreuil que vem atacar em Palhavã o palácio e jardim Louriçal com a mira na quinta, e d'esta para a do Seabra [...]

Tinham sido vencidos por Saldanha os generaes seus patridos; acabavam de o ser os generaes francezes [...]

*
*     *


Nao se parecia com um rio; era o Tejo um salão de crystal. Meia Lisboa se cruzava n'elle. Outra parte da população lhe bordava as margens.

Battle of Cape St. Vincent of 1833.
A squadron of Portuguese frigates commanded by British Admiral Napier on behalf of the Queen Maria Liberal faction defeated King Miguel’s Absolutist squadron, in the Portuguese Civil War
Imagem: The Westphalian Post

Esquadra portugueza, esquadras de Inglaterra e de França, embarcações mercantes, fragatas, faluas, barcos de todas as praias na extensa linha e em todas as direcções, quantas musicas tinha a cidade compondo a orchestra d'aquelle salão immenso, as senhoras de azul e branco, os homens com seus trajos de festa, o enthusiasmo em todos os corações, a curiosidade em todos os rostos, e o sol abrilhantando o espectáculo: tal corria a manhã d'aquelle dia 23 de setembro de 1833.

E o que é que, despovoando a capital sitiada, levava ao Tejo n'aquelle delírio os habitantes, desde o imperador até o cidadão mais humilde?

Barra dentro havia entrado na vespera a rainha que symbolisava a constituição dos portuguezes.

Quem era? uma menina. D'onde vinha? da proscripção. Que demandava? um sceptro que desencadeava algemas. Três coroas lhe cingiam a fronte juvenil: a inocencia, a desgraça e a emancipação dos povos. A innocencia tornava-a sympathica; a desgraça, heróica; a emancipação das gentes fazia-a adorável.

Rainha D Maria II, 1833.
Imagem: Wikipédia

Já corria pelo Tejo todo o como ella era. Gentil, como os seus quatorze annos; a pelle, setim; a côr, alva; olhos, celestes; cabellos, como o oiro; porte nobre; rosto reflexivo; no olhar, o sobresalto do que via; no sorriso, o prazer de ser ali o culto de todos.

Sobre o Tejo saudavam-na as salvas das torres, das esquadras, dos fortes. Na cidade esperavam por ella os batalhões nacionaes e a povoação. Quantas mães lhe não tinham sacrificado os filhos! [...]

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*     *


No dia 24 [de maio de 1834] quando o marechal Saldanha em Montemor o Novo (a um dia de marcha apenas) ia atacar os restos do inimigo em Évora, recebe um officio do general realista Lemos, pedindo um armistício, e mandando-o também pedir ao duque.

Kssssse! Pédro - Ksssse! Ksssse! Miguel! Gravura, Honoré Daumier, 1833
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Terceira continuou a marchar sobre Extremoz. Saldanha respondeu-lhe que para dar mais uma prova do horror com que tinha visto derramar o sangue portuguez fazia alto n'aquella villa, de Montemor, mandando pedir ao duque da Terceira, a quem animavam os mesmos desejos, para vir ali, a fim de o ouvirem ambos; mas impreterivelmente no dia seguinte. 

Consultado logo por Saldanha o governo, sobre o armistício, o governo recusou-o, ordenando que o exercito realista depozesse incondicionahnente as armas.

Saldanha continuou a marcha sobre a cidade de Évora, fez alto com a sua divisão, no dia 26, em Arrayolos e Évora Monte para dentro em quatro horas, de combinação com o duque da Terceira, cair definitivamente sobre o inimigo, e de todo o aniquilar, quando n'esse mesmo dia se apresentou o general Lemos, tendo dado a sua causa por vencida.

Á noite foi assignada em Évora Monte a convenção pelos dois marechaes e por aquelle general. O imperador decretava a amnistia e as estipulações da mesma convenção [v. Wikipedia (en)].

No dia 30 o marechal Saldanha entrava na cidade de Évora e perante elle depunha as armas o exercito realista. No dia 31 occupavam a praça de Elvas as forças do duque da Terceira, que, a três léguas d'aquella praça, tinha o seu quartel general na Azaruja.

S.M.I. o Senhor D. Pedro restituindo sua Augusta Filha a Senhora
D. Maria Segunda e a Carta Constitucional aos Portugueses,
Nicolas-Eustache Maurin,1832.
Imagem: Wikipédia

Terminara a lucta, e vencedora ficava, para nunca mais perecer, a liberdade portuguesa. (1)


(1) D. António da Costa, História do Marechal Saldanha, Tomo I, Lisboa, IN, 1879

Tema:
Guerras Liberais (LeoT)
Guerras Liberais (AVM)

Mais informação:
Guerra Civil Portuguesa
António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo..., Lisboa, Typ. Universal, 1863
Cronologia do Liberalismo
Charles Napier, An account of the war in Portugal between don Pedro and don Miguel, 1836

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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

História do Marechal Saldanha (1790-1876): nas Guerras Liberais (1 de 2)

No dia 26 de Janeiro de 1833 chegava às aguas do Porto o conde de Saldanha, com alguns companheiros da emigração, e na manha de 28 effectuava o seu desembarque.

Duque de Saldanha por John Simpson, após 1834 (MNSR).
Imagem: Parques de Sintra

Mas porque não figurava o conde de Saldanha entre os seus camaradas desde o dia 9 de julho do anno anterior em que a expedição liberal aportara á praia do Mindello?

Vista da praia da Arnosa de Pampelido onde desembarcou o senhor Dom Pedro à frente do exército libertador.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


Aprestava-se em França a expedição, quando, escolhido previamente o conde de Saldanha para chefe do estado maior do sr. D. Pedro, este, mandando-o chamar no dia 13 de janeiro de 1832, lhe communicava que o embaixador, de Hespanha promettia em nome do seu rei a neutralidade na futura guerra civil portugueza, sob a clausula de que Saldanha nao fosse à frente da expedição, e que, dado o caso contrario, Fernando VIl interviria com um exercito de quarenta mil homens [...]

E era exactamente a 24 de janeiro d'esse anno de 1833, no próprio dia em que Solignac, estreiando-se no commando salvador abandonava ao inimigo o importantíssimo monte do Crasto na Foz, que Palmella, repellindo da maneira mais nobre e mais digna certas arguições do nosso governo sobre o desempenho da sua commissão politica, declarava de Londres ao imperador ter occultado officialmente a lord Palmerston a fraqueza em que estava a causa liberal, e recordava ao mesmo imperador as suas próprias palavras dirigidas a elle Palmella: "A suspensão de armas para nos salvar deve ser dentro de trinta dias da data da minha escripta (16 de novembro)" [...]

Carta topográfica das Linhas do Porto (detalhe), 1834.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O almirante Napier, que na guerra liberal quinhoeiro foi também de louros tão gloriosos, escreve que no dia 28 de janeiro desembarcavam na Foz os generaes Saldanha, Stubbs e Cabreira, e que, apesar de estar a causa já sem esperança obedeceram com presteza ao chamado, tomando então Saldanha o commando da linha esquerda, e estabelecendo o seu quartel general na Foz, a posição mais arriscada de toda a linha da defeza [...]

Mostrada logo a Solignac por Saldanha a urgência de occupar o montículo do Pinhal, onde se jogava a sorte da causa, Solignac respondeu-lhe que nao seria temeridade unicamente, mas loucura o emprehender tomar o montículo nas novas condições em que se achava defendido, e ordenou positivamente a Saldanha que o não tentasse fazer [...]

Na seguinte noite o desobediente general atacava à bayoneta, com quatro companhias, o piquete realista, desalojava-o e occupava o indispensável montículo [...]

Acceita a demissão de Solignac no dia 13 [de junho de 1833], era no dia 14 nomeado chefe do estado maior imperial o conde de Saldanha [...]

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É uma hora d'aquelle dia 5. O exercito sitiador ataca a linha esquerda do Porto (sobre Lordello) em todo o semi-circulo da defeza, desde o Carvalhido até á casa da fabrica do Antunes.

Carta topográfica das Linhas do Porto, 1834.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Duas columnas realistas, saindo de seus entrincheiramentos, avançam, entre a quinta do Wanzeller e a casa do Plácido, no intento de cortarem as communicações do Porto com a Foz.

A primeira columna ataca o centro e a direita da fabrica do Antunes, o ponto visivelmente mais arremettido. O capitão Pedroso, de infantería 15, á frente da sua companhia e com parte da quinta, investe com tal denodo os realistas, de posse, no primeiro impeto, de parte da fabrica disputada, que os desaloja apesar da desproporção das forças, emquanto o valoroso brigadeiro Duvergier, seguido de algumas companhias do segundo regimento de infantería da Rainha, repelle a reserva da columna que primeiro tomara a posição; mas recebendo n'um braço o ferimento mortal que lhe ha de produzir a morte, é substituído por Zuppi, que, apesar de ver cair ferido também gravemente o bravo capitão Victoríno, sustenta a posição tenazmente [...]

O inimigo estava sendo ali protegido por um vivíssimo fogo dos seus reductos de Serralves e das baterias da margem esquerda do Douro; mas Saldanha, que dirigia pessoalmente o fogo nos pontos atacados "com a perícia e acerto que o distinguia", manda logo collocar em fogo cruzado e nos ângulos convenientes a única peça e o obuz de que as podia dispor, e por este modo auxilia as novas cargas de infanteria pelos flancos e em frente da fabrica, tornada a atacar pelos realistas por todos os lados.

Em presença d'aquelle movimento estratégico e repentino, combinado com o arrojo da execução, vê-se desanimar a linha do inimigo, estorcer-se como longa serpente, ceder, desistir, retirar-se, e proseguindo na idéa de cortar a linha da Foz, ir flanquear pela direita a quinta do Wanzeller [...]

Carta topográfica das Linhas do Porto (detalhe), 1834.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Iam dar cinco horas quando os derradeiros tiros denunciavam o termo da batalha, começada na esquerda, seguida no centro e finalisada na extrema direita [...]

No mesmo dia 5 de julho, em que Saldanha ganhava tao brilhante victoría, estrelando o seu novo cargo de chefe do estado maior imperial, vencia também um combate naval nas aguas do cabo de S. Vicente o vice-almirante Napier, que vimos largar da barra do Porto com a expedição commandada pelo duque da Terceira.

*
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Clareia o crepúsculo d'aquelle dia 25 de julho, e lá está elle já, rodeado dos seus, no ponto mais fraco, e portanto mais serio, de toda a linha da defeza, junto á quinta Wanzeller, sereno o semblante, apurando o ouvido, pondo a alma nos olhos, na apparencia tranquillo como intrépido, no interior agitado como general que se desejasse multiplicar por todos os logares da lucta.

Entrance of the river Douro, Edward Belcher, 1833.
Imagem: ICGC Cartoteca Digital

Commandantes, officiaes, soldados, quantos a distancia permittia que o vissem, tinham os olhos fitos n'elle, e d'elle recebia cada combatente um dos raios que partiam d'aquelle astro da victoria; confissão de todos os que militaram debaixo do seu commando.

Batem cinco horas. Restruge nos ares a primeira descarga geral da artilhería realista dos reductos de Serralves, do Crasto, do Verdinho, da Furada e de lodos os outros de ambas as margens do Douro. "Rainha e Carta", responde nos corações toda a linha liberal á mortifera salva que annnnciava o assalto.

Dera signal o campo inimigo. Á descarga geral das baterias principiaram a sair dos entrincheirammtos realistas quatro differentes colnmnas de todas as armas, acompanhadas de dezeseis bocas de fogo [...]

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*     *

Vencedora estava após horas successivas toda a linha esquerda do exercito liberal, desde a Foz até o centro, nas quatro posições capitães, fechos do férreo cinto que apertava o Porto [...]

Vista da invicta cidade do Porto.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

"Conde de Saldanha, tenente general dos reaes exércitos, chefe do meu estado maior. Tomando em consideração a perícia com que vos houvestes no memorável dia 25 de julho, repellindo consideráveis forças inimigas em seus successivos e desesperados ataques contra as principaes posições das linhas do Porto, pondo em pratica com a maior dexteridade e coragem as minhas ordens, dando disposições tão habilmente concebidas como energicamente executadas, carregando com poucos officiaes do estado maior e vinte lanceiros a força superior, que tentando occupar os postos avançados entre o Bomfim e Guellas de Pau, nao pôde resistir ao impeto de tão grande bravura, alcançando-se em resultado de tantas proezas uma completa victoria... por estes motivos hei por bem, em remuneração de tao distincto merecimento e de tao altos serviços, elevar-vos á dignidade de gran-cruz da muito nobre ordem da Torre e Espada do valor, lealdade e mérito [cf. Chronica Constitucional de Lisboa, 28 de agosto de 1833]."

Oporto, Porto, published under the superintendence of the Society for the Diffusion of Useful Knowledge.
Drawn by W B  Clarke, engraved and printed by J Henshall Published by Baldwin & Cradock 47 Paternoster Row, 1833.
Imagem: David Rumsey

Não podera Saldanha até ali emprebender a guerra offensiva, mas fora obrigado a limitar-se á defensiva. É chegado o momento. Vae irromper. Batalha nenhuma dera ainda, em que a previdência, a estratégia, a barmonia das disposições lograssem occasião de attingir o alto ponto que vamos presencear [...] (1)


(1) D. António da Costa, História do Marechal Saldanha, Tomo I, Lisboa, IN, 1879

Tema:
Guerras Liberais (LeoT)
Guerras Liberais (AVM)

Mais informação:
Guerra Civil Portuguesa
António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo..., Lisboa, Typ. Universal, 1863
Cronologia do Liberalismo
Um Portuense, O cerco do Porto, Porto, Typ. de Faria & Silva, 1840

Iconografia Portuense:
Cabral Moncada Leilões
do Porto e não só...
Porto de Agostinho Rebelo da Costa
Porto Património Mundial

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