quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

A Belemzada, Lisboa 1836

Na noite de 2 de novembro de 1836 os navios da esquadra ingleza fundeada no Tejo principiaram a fazer diversas manobras indicadoras de um próximo desembarque ou bombardeamento da capital. A isto correspondiam de terra differentes signaes com luzes, reveladores de um plano de antemão ajustado. 

Retrato de D. Maria II (detalhe), John Simpson, c. 1837.
Imagem: Wikipédia

A noticia divulgou-se rapidamente, mas não surprehendeu o governo, porque dias antes lord Howard [de Walden, embaixador britânico em Portugal] lhe havia dado conhecimento de que as tropas inglezas, que se achavam a bordo da esquadra, desembarcariam se a rainha se julgasse em risco. 

O visconde de Sá da Bandeira, que havia assegurado já a lord Howard que tal risco não existia, pois ninguém conspirava contra o throno, escreveu-lhe uma carta ás três horas da manhã do dia 3, repetindo-lhe isto mesmo e a pedir-lhe que impedisse o desembarque que parecia preparar-se.

General Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo (1795-1876)
Marquês de Sá da Bandeira.
Imagem: Academia Militar

Seis naus e três brigues de guerra inglezes, na força de oitocentas peças de artilheria de grosso calibre, se viam em linha desde o Terreiro do Paço até ao caes de Sodré, não faltando em mais três naus, uma fragata e um brigue de guerra francezes, que igualmente pareciam ameaçar a capital.

Dizia-se que esta altitude das duas esquadras era destinada a proteger as pessoas e o commercio dos súbditos das duas nações, que aliás ninguem ameaçara. Dias antes uma deputação composta dos ministros da França e do Brazil havia procurado Manuel Passos a fim de lhe pedir garantias para o corpo diplomático. 

A contra-revolução avizinhava-se; porém, os vencedores da véspera, como já ha muito a esperassem, declararam-se desde logo aptos para a combater.

Durante dois mezes, dizia Manuel Passos, os ministros soffreram as maiores contrariedades; e não só sustentámos a revolução, combatida por muitas forças contrarias, mas creámos todos os elementos de resistência, e sobre isso demos aos negócios públicos e particulares a maior attenção, tão breve despacho como talvez nunca até ali tiveram em Portugal.

Passos Manuel, Manuel da Silva Passos (1801-1862).
Imagem: Junta de Freguesia de Guifões

O resultado da nossa administração foi a resistência que universal e simultânea appareceu em todo o reino, a conspiração de Belem. O mez de novembro começou medonho. Os ministros passaram muitas noites quasi sem dormir, velando pela liberdade do paiz" [carta de Manuel Passos ao Nacional, dezembro de 1836]. 

O ministério reuniu logo, resolvendo que Manuel Passos fosse immediatamente ao paço expor á rainha as fataes consequências que podia ter o desembarque das tropas estrangeiras que parecia preparar-se, e que o governo estava resolvido a resignar o poder se sua magestade o julgasse necessário. 

Manuel Passos, recebido pela rainha, significou-lhe que se sua magestade passasse a bordo de um navio inglez, elle considerava que por tal facto sua magestade saía do território portuguez e tinha abdicado; que se consentisse que a esquadra ingleza ou as suas tropas desembarcassem sem licença das cortes, ella declarava a guerra ao seu paiz, o que seria de funestas consequências.

Victoria da Legitimidade (26 Jul 1833),
Maurício José do Carmo Sendim.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Mas que se sua magestade queria fazer com meios portuguezes a contra-revolução, elle deplorava essa resolução; que assegurava a sua magestade nada podia fazer, mas que depois de esmagar no campo os revoltosos, teria sempre por sua magestade a maior consideração, e então lhe daria a maior prova da sua lealdade, trazendo-a de novo em triumpho ao seu palácio; 

que elle esperava, apesar de tão grande falta, poder assegurar a sua magestade o amor do povo portuguez, que sabia extremar a joven e inexperiente rainha dos seus aulicos e maus conselheiros; finalmente que se demittia de ministro, mas não de portuguez, e que n'esta qualidade empregaria todos os meios para defender a revolução.

Depois de haver conferenciado com a rainha, Manuel Passos encontrou-se casualmente com o duque da Terceira, que se achava também no paço, e referindo-se aos acontecimentos que se estavam dando, disse-lhe:

— E os ministros porque não restabelecem a Carta? Ao que aquelle respondeu: 

— Porque não são traidores. Encarregaram-se de defender a revolução e ella será defendida. 

E acrescentou logo: 

— Estamos na véspera da guerra civil: amanhã v. ex.a vae commandar os exércitos da rainha e eu os da republica: se a espada de Bouças se medir com a espada da Asseiceira, nem por isso a minha amisade e consideração para com v. ex.a soffrerá a menor quebra.

Ao ministro da justiça Vieira de Castro fez a rainha idêntica proposta, que elle repelliu igualmente, dizendo-lhe: aque os ministros de setembro, nem por palavras, nem por factos, por nenhuma feição do seu rosto, tinham dado a sua magestade o direito de lhes fazer propostas ignominiosas, e de lhes propor um acto de vilania, deslealdade e traição.

oooOooo

Explicando este facto, que o próprio duque da Terceira confirmou, disse Manuel Passos na sessão da camará dos deputados de 18 de outubro de 1844: 

"Aqui a palavra republica não significa senão o desprezo que eu tinha por aquelles que queriam inculcar que o partido de setembro, tão fiel ao throno como os que o são mais, era republicano.

A republica é actualmente impossível na Europa, sel-o-ha por muito tempo. Se eu tivesse a triste convicção de que a republica convinha ao paiz, de que a monarchia ou a actual dynastia eram incompatíveis com a felicidade da nação, teria a franqueza de o dizer. Mas felizmente a nação é toda monarchica, e sua magestade o objecto de todas as sympathias e adorações de seus leaes súbditos".


oooOooo

A rainha mostrava-se receiosa e indecisa. Não acceitou nem denegou a demissão ao ministério, apesar d'esta lhe ter sido muito recommendada pelos auctores da contra-revolução. A attitude enérgica de Manuel Passos e de Vieira de Castro, que a principio desalentara a rainha, fez com que aquelles instassem com esta para que passasse para o paço de Belém, a fim de melhor realisar o golpe d'estado, pelo qual devia ser demittido o ministério e restaurada a Carta.

Correio das Damas, 1836.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O paço de Belém era no caso presente um ponto muito mais estratégico do que o das Necessidades: aquelle ficava, por assim dizer, debaixo das baterias da esquadra ingleza. Isto mesmo havia sido lembrado pelo rei Leopoldo, que dias antes dizia ao conde de Goblet: "É preciso que a rainha, para operar, tenha um ponto de apoio, isto é, Belém, ou qualquer outro sitio debaixo das baterias da esquadra, pois é na esquadra que ella se deve apoiar". 

HMS Cornwallis, navio de linha de 74 bocas de foco que se encontrava no Tejo em 1836.
Imagem: Wikipedia

Lord Palmerston pensava do mesmo modo, e assim o communicou áquelle monarcha, dizendo-lhe que a rainha devia estar ao abrigo de qualquer perigo pessoal; que ella não podia residir senão em Belém, pois não se lhe podia enviar a esquadra ás Necessidades.

No dia 3 a rainha foi para o paço de Belem, annunciando previamente a sua partida ao presidente de conselho conde de Lumiares, dando como rasão o querer evitar insultos e para não ouvir cantigas injuriosas. Para Belem principiou logo a dirigir-se tudo que havia de mais importante no partido cartisía, e bem assim muitos partidários de menor calegoria, estando para todos patente a quinta e salas do paço. 

Vista geral dos jardins e palácio de Belém em1886.
Imagem: Hemeroteca Digital

Também para ali foram a imperatriz D. Amélia e a infanta D. Izabel Maria. Seriam dez horas da noite coiando o conde de Mafra, camarista de semana, chamava por ordem da rainha todo o ministério, e bem assim o administrador geral, commandante da primeira divisão militar, conde de Avillez, commandantes de todos os corpos de linha e outros funccionarios de elevada categoria.

Esta ordem prescrevia-lhes que se apresentassem immediatamente no paço, pois se tratava de assumptos importantes.

Para sua guarda requisitou a rainha igualmente, por intermedio do conde de Mafra, toda a tropa de linha disponivel. Foram-lhe mandados apenas cento e cincoenta homens escolhidos de infanteria 1, 2 e 10. O ministerio, quando recebeu o aviso para se apresentar no paço, achava-se reunido em casa de Sá da Bandeira, conjunctamente com muitos dos seus partidários. 

Discutia-se ali o que mais convinha fazer, vista a attitude ameaçadora das esquadras ingleza e franceza e da contra-revolução palaciana, que a rainha capitaneava, e que estava prestes a rebentar, se já mesmo não tivesse rebentado.

Aquella communicação veiu confirmar que a contra-revolução caminhava, e passando-se a deliberar sobre o que conlvinha fazer perante este caso novo, resolveu-se que apenas fosse ao paço o ministro da justiça, por ser este, segundo uns, a quem a rainha parecia dispensar mais alguma sympathia, e segundo Manuel Passos, porque n'esta conjunctura se podiam dispensar padres e escrivães.

Chegado que foi ao paço o ministro da justiça, a rainha disse-lhe que o motivo por que chamara os ministros exigia a presença de todo o ministério, e que por isso a elle só nada tinha a communicar. 

Vieira de Castro pela uma hora da noite voltou a Lisboa para informar d'isto os seus collegas e ao mesmo tempo fazer-lhes ver que a contra-revolução era certa, não havendo n'aquelle chamamento outro fim que não fosse o prender os ministros.

Parece que Manuel Passos opinara então que se marchasse desde logo sobre Belém, fazendo tocar os tambores e os sinos a rebate. Outros conselhos, porém, prevaleceram, e contra o voto d"elle decidiu-se que fossem ali os ministros, com excepção do visconde de Sá da Bandeira. 

HMS Brig Pantaloon off Belem Castle, Nicholas Matthew Condy.
Imagem: askART

Partiram, pois, para Belém o conde de Lumiares, Vieira de Castro e Passos, ficando em Lisboa Sá da Bandeira com o pretexto da necessidade de prover á segurança publica, em presença do estado de agitação em que tudo então se achava, mas na realidade para resistir até á ultima extremidade contra a reacção, como os seus collegas lhe recommendaram.

"O visconde com toda a rasão se decidiu a não sair de Lisboa, pois só assim se poderia manter á frente das guardas nacionaes em plena liberdade de acção, cousa de que em taes circumstaneias precisava, habilitando-se por este modo a tratar sobranceiramente com a corte em nome da constiluição proclamada, quando isto lhe conviesse. 

Membro influente de um gabinete setembrista, reconheceu, com rasão, que o seo logar próprio não podia ser em Belém, mas sim em Lisboa, entre os do seu partido, que tinha por obrigação moral de- fender. A rainha não devia contar com elle para a restauração de um regimen, que de accordo com ella teve de aban- donar, com a expressa condição de não ser traidor áquelle que fora obrigado a defender. 

N'este seu procedimento com rasão teve por inútil dirigirse ao paço, onde nada mais faria que receber de braços cruzados a sua demissão, e por meio della concorrer para o aniquilamento da causa, que pela própria soberana fora obri- gado a abraçar" [Vida do marquez de Sá da Bandeira, por Simão José da Luz Soriano. Lisboa, 1888, tomo II, pag. 73].

Torre de Belém, Robert Batty, c. 1830.
Imagem: Flickr Hive Mind

Chegados a Belém os ministros, a rainha ordenou ao da guerra, conde de Lumiares, que fizesse marchar para ali toda a força de linha existente em Lisboa, que na verdade era então bem diminuta.

Em seguida a rainha disse-lhes que se considerassem demittidos e fez apresentar a Manuel Passos os decretos da nomeação do novo ministério para referendar, o que elle fez innnediatamente.

Os ministros nomeados foram: marquez de Valença, presidência e estrangeiros; visconde do Banho, reino; visconde de Porto Covo, fazenda; Francisco de Paula de Oliveira, justiça; barão de Leiria, guerra; e José Xavier Bressane Leite, marinha [...]

*
*     *

Conjunctamente com os decretos de nomeação do novo ministério, a rainha assignou um outro concedendo uma ampla amnistia e uma proclamação explicando a mudança ministerial.

Estes documentos são os que seguem:

"Proclamação de sua magestade fidelissima a senhora D. Maria II da nação portugueza. 

Retrato de D. Maria II, John Simpson, c. 1837.
Imagem: Wikipédia

— Portuguezes! Um clamor sedicioso pôde congregar na noite de 9 de setembro uma porção de povo armado, que n'um fatal momento de allucinação ousou derribar a Carta fundamental da monarchia, outorgada por meu augusto pae e libertador da pátria, acceita e jurada pela nação, reconhecida pelas potencias europêas e resgatada com o sangue porluguez, á custa dos mais heróicos sacrifícios, que hão de sempre dourar as paginas da nossa historia! 

Reconhecida unanimemente a legitimidade e vantajosas utilidades de um código, que, firmado nos mais sólidos princípios liberaes, e em harmonia com a índole, costumes e hábitos do paiz e com as demais instituições politicas da Europa, a cuja communhão pertencemos e no qual se fundavam os mais seguros direitos do throno, não foi sem a maior reluctancia e até effusão de lagrimas que eu me prestei a acceitar outras instituições, cujo defeito se reconhecia quando se proclamava a necessidade de modificações que se julgavam indispensáveis. 

Julguei dever então preferir o bem publico a todos os mais interesses individuaes, evitando a effusão de sangue que servira a restaurar a Carta; e aguardei que a reflexão, succedendo á cegueira momentânea, faria em breve desmanchar a obra de poucos, perpetrada nas trevas da noite! 

Em breve o tempo mostrou não me haver enganado, começando desde logo a pronunciar-se com a maior clareza a opinião publica contra as instituições novamente proclamadas.

A imprensa periódica as tem victoriosamente combatido, e os empregados públicos mais distinctos pedindo, como á porfia, as demissões de seus empregos; cidadãos conspícuos repugnando com todas as suas forças adherir á nova ordem de cousas, os vigorosos protestos e mui explícitos manifestos dos dignos pares e deputados da nação, — mais que sobejamente caracterisam, de accordo com o desalento gerai e descrédito publico, em pouco tempo experimentado, a impropriedade das novas instituições, que se pretendiam impor á nação, plenamente discordante dos princípios que baseiam os governos das nações mais illustradas.

Sempre solícita pelo bem de meus fieis súbditos, foi, todavia, forçoso usar da prudência e resignação que demandam crises tão arriscadas. O momento apparece hoje, em que uma porção de tropa da guarnição da capital, junta a grande numero de cidadãos e guerreiros distinctos, comprehendendo os mais notáveis caracteres que figuraram na restauração do meu throno e da Carta, reclamam a reinstallação da nossa Carta fundamental, em que só acham remédio a males presentes e outros que nos ameaçam.

Por tão imperiosas circumstancias, não devo eu retardar um só instante a mais justa deferência, contando com a cooperação de todos os meus súbditos, cujo bem em todo o tempo tem sido o objecto dos meus desvelos. A paz, a união e a concórdia são hoje, mais que nunca, indispensáveis.

Portuguezes! uni-vos e abraçae-vos! Cidadãos soldados, recebei e sustentae a arca da nossa alliança, palladium de nossas liberdades! Esquecei-vos do passado, que eu também me saberei esquecer. Nunca eu aspirei, nem aspiro ao governo absoluto. A Carta é e será a nossa divisa. 

Rainha."

"Decreto de amnistia.

— Havendo eu por nullo e de nenhum effeito o decreto de 10 de setembro do corrente anno, que ordenava a promulgação da constituição de 1822; e ficando por isso em pleno vigor a Carta constitucional da monarchia; e querendo eu reunir todos os portuguezes conslitucionaes em volta do meu throno; e considerando que qualquer divergência de opinião que entre elles possa haver sobre o modo de melhor organisar o systema representativo, em nada tèem diminuído as provas de amor e lealdade que de todos elles tenho recebido, e ás quaes não posso deixar de mostrar-me sempre grata: hei por bem declarar, ouvido o conselho do estado, que nenhum cidadão será persegnido em consequência dos acontecimentos que tiveram logar desde o dia 9 de setembro ultimo, e que sobre esses acontecimentos se lance o véu do esquecimento. 

O presidente do conselho e ministros secretários d'estado o tenham assim entendido e façam executar. 

Paço de Belém, em 4 de novembro de 1836. 

Rainha."

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Os ministros demittidos voltaram para Lisboa, resolvidos segundo parece, a acatarem a nova ordem de cousas como simples particulares. 

Aqui, porém, as cousas não estavam tão risonhas como em Belém se acreditava.

Uma grande parte da população da capital não recebia de braços cruzados a noticia de que a rainha havia demittido o ministério e restaurado a Carta; os soldados da guarda nacional em magotes percorriam as ruas em altitude aggressiva e dando vivas á constituição de 1822.

"... as cousas em Lisboa, diz Alves Martins, tinham mudado de aspecto; a revolução nos três mezes de vida havia creado muitos interesses, armado as massas e attrahido a si muitos cartistas, que, renegando a sua crença politica, haviam ajoelhado perante o idolo de setembro; 

e, senhora alem d'isso dos immensos recursos da capital, já não succumbia senão á força de armas, falhando assim todos os cálculos dos homens da corte, que se baseavam com especialidade na força moral, que dava á reacção o prestigio de tantos nomes respeitáveis que se haviam agglomerado em roda do throno" [O Nove de Outubro, pag. 20 e 21].

Durante toda a noite de 3 para 4 de novembro os tambores da guarda nacional tocavam a rebate, e pela madrugada todos os batalhões da mesma guarda foram postar-se no campo de Ourique, onde mais tarde se lhe foi reunir a tropa de linha que não tinha seguido para Belém. 

Era ameaçadora a attitude do povo armado, e difficil calcular até onde o levaria a sua paixão, ferido como estava no seu amor pela revolução de setembro, que agora pretendiam trucidar. 

A Belém! a Belém! era o grito de alarme que saia a miúdo de milhares de lábios; apesar do estado mais ou menos anarchico em que se achava toda a força ali reunida, tomaram-se algumas disposições para a defeza em caso de ataque. 

Para Alcântara marchou logo Rodrigues França com o batalhão de artífices do arsenal e o 15.° da guarda nacional, commandado por Moraes Mantas. 

Um outro batalhão foi occupar o castello de S. Jorge, evitando-se assim que pelo telegrapho que ali havia fosse transmittida para as províncias qualquer noticia favorável aos revoltosos de Belem. 

Referindo-se a esta reunião da guarda nacional no campo de Ourique, escreve Soriano:

"Uma disciplina instinctiva presidia á desordem n'este grande ajuntamento, onde muitos se mostravam generaes, delineando planos que ninguém lhes pedia.

A atlitude marcial d'esta milícia cívica, as armas ensarilhadas, que por todo o seu acampamento se viam, o apparecimento de algumas das suas praças vindas do interior da cidade, com correias aos hombros, e de bayoneta pendente ao lado na bainha, a incerteza do desenlace d'esta assustadora crise, e finalmente o receio dos funestos resultados que podia ter tudo isto, eram cousas que infundiam nas physionomias dos cidadãos pacíficos, e nas de muitas das próprias praças dos respectivos batalhões, um aspecto sinistro, que enchia de cuidados pelo futuro todo o observador sensato, e que attento contemplava de sangue frio a marcha destes tão graves acontecimentos" [Vida do marquez de Sá da Bandeira. Lisboa, 1888, tomo II. pag. 77].

O general conde de Avillez tomou o commando de toda esta força, e principiando a pensar-se mais maduramente no plano a seguir para o aniquilamento do golpe destado que a rainha acabava de dar, organisou-se logo uma espécie de junta governativa, composta de José Victorino Barreto Feio, L. R. Sousa Saraiva, Júlio Gomes da Silva Sanches, José Alexandre de Campos e António Bernardo da Costa Cabral. 

Esta junta devia, na ausência de outra auctoridade superior, expedir as ordens necessárias para manter a tranquillidade publica e as instituições juradas.

Estes chamaram ao campo de Ourique os ministros demittidos. Manuel Passos compareceu logo [...]

Sobre este facto disse no jornal O Provinciano, de 30 de novembro de 1836, Manuel António de Vasconcellos:

Como se poderá conciliar o porte remisso e fraco de s. ex.a em apparecer no campo de Ourique, só lá, depois de muitas instigações e de afiançada segurança de que bavia lá mais do que sobeja força para apesar de primeira e segunda mensagem, recusou-se a vir. 

A junta queria confiar-Ihe o commando das forras populares [...]

A isto respondeu Manuel Passos:

"Depois de demittido declarei que, se quatro cidadãos se quizerem bater pela revolução, eu viria entregar o meu peito ás bayonetas contrarias e a minha cabeça ao cadafalso.

Todos viram a serenidade com que nessa manhã passei por entre a força postada em Belém e por entre a que para lá marchava.

Quem em tal conjuncção faz uma declaração tão publica e solemne, e quem obra assim, por certo não é homem que tenha medo, ainda que não seja Roldão.

Quando voltei de Belém fui para casa do sr. visconde de Sá.

O sr. R. T. (Rio Tinto) foi o primeiro que altamente, e com a maior decisão e coragem, se pronunciou pela resistência armada. 

Foi com elle que eu conferi no gabinete particular de s. ex.a e lhe assegurei que es- tava prompto a expor a minha cabeça em favor da revolução e dos meus amigos, acrescentando que por estar muito fatigado e inteiramente prostrado, queria passar pelo somno, mas que pouco tempo depois me fizessem chamar, devendo elle e os bons cidadãos contar sempre com a minha lealdade, com os meus esforços e com a minha vida.

Dormi uma ou duas horas. Foi com muita diííiculdade que os meus amigos poderam dispertar-me ; logo que me pude suster em pé, e tive sege, parti para o campo de Ourique.

Fui o primeiro ministro que ali me apresentei, apesar de ter passado uma noite cruel! — muitas noites!" [Carla de Manuel Passos ao Nacional, dezembro de 1836]

Referiu o Nacional, que, para acalmar os ânimos, foi proposto por Soares Caldeira e Júlio Gomes da Silva Sanches, que se enviasse uma mensagem á rainha, expondo-lhe o estado da questão e pedindo-lhe remédio tão prompto como ella o demandava. 

Esta idéa mereceu a approvação geral, encarregando-se Manuel Passos de redigir tal documento. 

Quando se estava com isto chegaram de Belém os coronéis Luna, Barreiros e José Maria de Sousa, que da parte da rainha vinham chamar Manuel Passos. 

Affirmou-se então que estes emissários não se dirigiram directamente aquelle estadista, que a missão de que foram encarregados era que da parte do povo fosse alguém a Belém para conferenciar com as pessoas que sua magestade para esse fim escolheria. 

Que então se offerecèra Manuel Passos, o que sendo acceite, partiu logo acompanhado do conselheiro do supremo tribunal de justiça Sousa Saraiva.

Quando Manuel Passos se dirigiu a Belém o sangue já havia corrido nas ruas da capital. Poucas horas antes fora assassinado com um tiro na ponte de Alcântara o antigo ministro do reino Agostinho José Freire. Diz-se que o assassino foi Manuel da Silva, soldado de um dos batalhões da guarda nacional.

Lisboa, porta da cidade junto à ponte de Alcântara.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Freire havia sido chamado a Belém pela rainha; com elle devia ir Joaquim António de Aguiar, que, mais cauteloso, julgou dever seguir outro caminho, pois em vez de ir na carruagem d'aquelle, embarcou em um bote. 

Reconhecido, salvou-se a custo, graças aos esforços dos remadores. Freire, desprezando os conselhos de Aguiar, partiu na sua carruagem, envergando a sua farda de ministro honorário, o que foi bastante para ser reconhecido.

Ao chegar á Pampulha um guarda nacional fez parar a carruagem, e abrindo-a reconheceu o ex-ministro; mandou então atirar sobre elle um tiro de espingarda, que partiu seguido de outro, bem escusado, porque não feriu mais que um cadáver. 

Ferveram os tiros sobre o cadáver. "Despojaram-no de tudo, deixando-o de rastos, semi-nu, contra um lado da rua, crivado de feridas, escorrendo em sangue, uma tigela de barro ao lado para receber esmolas dos transeuntes".

S. Sebastião ajudado pelas santas mulheres, Eugène Delacroix 1836.
Imagem: EPPH

A noticia da morte de Freire acabou de desalentar os revolucionários de Belém. Como vimos, tinha-se dirigido para ali, alem da corte e membros mais influentes do partido cartista, contingentes de differentes corpos de linha. Estes, mandados pelo ministro da guerra conde de Lumiares, a pedido da rainha. 

A esta força foram depois reunir-se as praças do corpo da antiga brigada de marinha e parte da guarda nacional de cavallaria, e bem assim muitas outras pessoas armadas, na sua mór parte empregados públicos, vinda de Lisboa em botes.

A principio todos se mostravam muito animados, pois julgava-se certo o triumpho, visto terem sido referendados sem opposição os decretos de nomeação dos novos ministros. Tudo fazia crer que dentro em poucas horas tudo entraria na sua marcha regular, e as cousas corriam apparentemente bem; mas se fosse preciso combater qualquer opposição séria, os elementos para isso escasseavam.

Toda a força reunida em Belém não ia alem de 1:200 homens, incluindo os paizanos.

O commando d'ella assumira-o o barão de S. Cosme, cuja incontestável bravura não podia supprir a falta de confiança que offerecia aquella força, nem tão pouco supprir a differença numérica que havia entre ella e a de Lisboa, pois esta era-lhe seguramente dez vezes superior. 

O 28 de Julho: a liberdade guiando o povo, Eugène Delacroix, 1830.
Imagem: Louvre

As noticias que vieram depois, de que em Lisboa o geral da população se mostrava indifferente à mudança politica que se estava operando e de que no campo de Ourique continuavam firmes na sua altitude hostil as forças da guarda municipal e tropa de linha que ali se haviam reunido, estando bem depressa á sua frente os homens mais importantes do setembrismo, trouxe bem depressa o desanimo aos mais animosos. (1)


(1) Marques Gomes, Luctas caseiras: Portugal de 1834 a 1851, Lisboa, Imprensa Nacional, 1894

Leitura relacionada:
José de Arriaga, História da Revolução de Setembro, Tomo I,  Typ. da Companhia Nacional Ed.
José de Arriaga, História da Revolução de Setembro, Tomo II,  Typ. da Companhia Nacional Ed.
José de Arriaga, História da Revolução de Setembro, Ttomo III,  Typ. da Companhia Nacional Ed.
Marques Gomes, A verdade histórica e a História da Revolução de Setembro por José de Arriaga
Bulhão Pato, Memórias Vol. I, Scenas de infância e homens de lettras, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1894

Leitura adicional:
José de Arriaga, História da Revolução Portugueza de 1820, 2° volume, 1886
José de Arriaga, História da Revolução Portugueza de 1820, 4° volume, 1886

domingo, 3 de dezembro de 2017

Lisboa da minha mocidade

Que bello tempo! Logo no alto da rua Garrett — o velho Chiado — onde o bardo da "lira sonorosa" põe os pés em cima de homens como João de Barros e Pedro Nunes, que, muito tristes, cabeça pendida e ajoujados, os pobresitos, com o peso enorme d'aquella massa de bronze, parecem escravos calcados aos pés de um tyranno, eram os famosos casebres. 

Praça Luiz de Camões e Largo das Duas Egrejas (Loreto e Encarnação), ed. Martins Martins & Silva, 155, c. 1900.
Imagem: Delcampe

Alli rechinavam as iscas em tabernas immundas e dormiam em vãos e alfurjas, promiscuamente, rufiões, fadistas e venus-vagas.

Casebres do Loreto, antigo Palácio dos Marqueses de Marialva, colecção Julio de Castilho.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

No largo das Duas Egrejas um chafariz com o seu Neptuno, que não era o de João de Bolonha, de tridente em punho a pescar gallegos, como dizia António Pedro Lopes de Mendonça no folhetim da Revolução de Setembro.

Chafariz de Neptuno no Largo das duas Igrejas (Chiado), col. Julio de Castilho, Fot. Bárcia.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O gaz, pallido e vacillante, nos bairros altos e escusos da cidade, sumia-se ou desapparecia de todo.

Rua das Portas de Santa Catarina em 1843 (fot. Bárcia sobre lit. de Legrand).
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Na Patriarchal, na linda praça que hoje ahi temos, estabelecia-se, nas entradas do inverno, o mercado de porcos. Mercado commodo e central, onde o pae de familia, que se amanhava regularmente, ia ajustar o cevado ruivo e redondo, creado a boleta de azinho nos montados do nosso Alemtejo. 

Jardim da Praça do Príncipe Real, c. 1860
(antigo Largo da Cotovia e posteriormente Largo da Patriarcal Queimada, actual Jardim França Borges).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Feita a compra, surdia de um antro o matador, de cara estúpida e sinistra; dava o chamado nó de porco na perna do animal, mettia um banco debaixo do braço, facão n'uma bainha de coiro á cinta, e lá ia á porta da casa do burguez, onde o javardo manso era esfaqueado por entre o vozear jubiloso da garotada cruel! 

O bando dos toiros, semsaboria que hoje provoca lagrimas, tornava-se o grande acontecimento das toiradas, a par da espera á tarde e á noite. 

Condução de toiros desde Odivelas pela Calçada de Carriche
(na imagem pode ver-se a igreja do Campo Grande).
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Carnavalada nacional e pittoresca era aquelle bando. O neto, com as pernas como dois arcos de pipa, macrobio invulnerável do tempo de D. João VI, vinha adeante, montado na sombra de um cavallo, mas quando fosse um potro servil de Alter não conseguiria cuspil-o da sella a que se agarrava com as caniculas de aço. 

O farçante tinha a consciência do seu valor e o enthusiasmo do seu officio. Quatro mariolões trajados de amazonas flanqueavam-n'o com o garbo imponente de ajudantes de ordens. Magarefes das fressureiras, com pífaros, trombetas e tambores, n'um escândalo estrondoso de harmonia, alvorotavam de alegria familias sisudas, que dos primeiros aos quintos andares se precipitavam das janellas, simulando a loucura do suicídio; 

pretos de cavallinho de pasta formavam a reserva em brados estridules e n'um batuque medonho! O neto, com mão profusa, distribuía cartazes, onde muitas vezes vinham versos que chispavam graça, como chispa um fogareiro de cepa espirrando ás correntes do vento. 

Os africanos serviam-se de cavalos de pasta que "reviviam a figura antiga dos cavalinhos fuscos” da Procissão do Corpo de Deus de Lisboa de 1482 e de Coimbra de 1517.
Os pretos em cavalinhos de pasta, litografia Legrand.
Imagem: Os africanos em Portugal...

Eram feitos esses versos por um velho poeta, companheiro de Bocage no escabujar da Arcádia.  Conheci-o muito; Xavier, creio que se appellidava. Ainda haverá algum colleccionador que tenha um ou outro d'esses cartazes, realmente primor de sal portuguez. 

N'esse tempo, nas toiradas, o cavalleiro acceitava duellos, isto é, se perdia o estribo ou lhe cahia o chapéo tinha obrigação dê se apear e pôr um par de ferros. Davam-se ás vezes episódios cómicos e outros que puxavam a trágicos. A coisa foi prohibida.

O jardim da Estrella era um relvão a que se mettia o arado para semear trigo. O cemitério dos inglezes mantinha, como hoje, a correcta e sombria severidade. 

Lisboa Estrela Lissabon Wien M. Trentsensky c 1850 BNP 01
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Patrulhas da municipal, cosidas com as paredes, enormes capotes de oleado e as pesadas armas ao hombro, policiavam as ruas. A tropa de linha embirrava com ellas e a cado passo se levantavam conflictos [...]

Guarda Municipal de Lisboa
Typos Costumes Portugueses, João Palhares, c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Mas que fazer n'aquelles tempos. Além das patrulhas da municipal outra força havia para manter a ordem publica: os cabos de policia, foco vivo de todas as rixas e tumultos das ruas de Lisboa.

Os cabos eram pessoas de posição; muitos com lojas abertas e alguma coisa de seu. Noite cerrada, depois de ceados e escorvados com duas chinitas de aguardente, para fazer cara ás intempéries e á pancadaria, sabiam de casa sob o benéfico influxo do Credo em cruz da familia, e cada um d'elles se julgava um Cid Campeador na heroicidade mavórcia.

O trajo variado ia do chapéo alto até o barrete de campino. No armamento entrava a partazana, o sabre curvo, o pistolão de pederneira, que nâo pegava fogo nunca, e os camuletes nodosos em maior quantidade.

Rua do Século (antiga Rua Formosa), Lisboa Velha de Roque Gameiro.
Imagem: roquegameiro.org

O campo ordinário de suas façanhas era no Bairro Alto [...] (1)


(1) Bulhão Pato, Memórias Vol. III, Quadrinhos de outras éphocas, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1907

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Um boné por uma cabeça

El-Rei entrou seguido da aia. A lnfanta ergueu-se e El-Rei beijou-a na testa. D. Miguel vinha vestido à paisana e com uma chibatinha na mão. Mostrava um ar satisfeito. 

Retrato de D. Miguel I, Palácio Nacional de Queluz.
Imagem: Portugal Virtual

Deu uma volta pelo quarto cantarolando, e depois sentou-se dizendo:

— Saiba V. A. que acabo de experimentar o mais soberbo cavallo que tenho visto. E não é estrangeiro, é do paiz, pura raça d'Alter. Bello bicho, bello bicho. Leve como uma penna, caminha que desapparece.

D. Miguel I (1802 - 1866), rei de Portugal (1826 - 1834),
Franz Xaver Stöber, segundo Johann Nepomuk Ender, 1826.
Imagem: Wikipédia

— Ora, senhor Rei meu irmão! Porque não anda V. M. devagar? Tomara que acabasse a moda de andarem os Reis sempre a correr. Fico muito assustada sempre que vejo partir V. M. a todo o galope.

Infanta Maria da Assunção de Portugal (1805-1834),
por Nicolas-Antoine Taunay.
Imagem: Grand Ladies

— É porque V. A. não sabe apreciar este prazer, e não gosta senão do passo de sendeiro da sua egoasinba branca. Mas vejo V. A. hoje tão risonha, fóra do seu costume. Grande novidade!

— É porque, disse a Infanta, ha oito dias que procuro fallar a V. M., e não me é possivel encontra-lo. Os politicos trazem-n'o tão occupado... Estou certa de que V. M. seria muito mais feliz, se viesse todos os dias conversar comigo aqui algum tempo, com a sua irmã que muito o estima.

— Então aqui estou. Sempre quero ver o que tem para me dizer. Ahi vae V. A., como costuma, sobrecarregar-me de pedidos para tantos desgraçados, que era preciso que a casa real tivesse as rendas do reitor Mendes para os satisfazer a todos.

— Hoje não tenho mais que um pedido a fazer-lhe, e não è de esmolas nem de pensões, é de palavras e coisa muito facil. Muito facil para V. M., dificil e impossivel para qualquer outra pessoa.

— Ah! Pensa então V. A. que eu posso muito? Os reis não podem nada, ainda mesmo os absolutos. Por exemplo, pensa V. A. que teriam morrido aquelles 18 desgraçados do 4 de infanteria se eu tivesse o poder que V. A. julga?

— Então quem è que abaixo de Deus pode mais n'esta terra do que V. M.?

— As leis, Infanta, as leis; e é necessario cumpril-as a todo o transe. Assim m'o dizem os meus ministros, os meus padres, os meus juizes, emfim toda a gente — respondeu o rei, inclinando a cabeça e cruzando as mãos sobre o peito.

— Senhor, replicou a Infanta, as leis dos homens quando mandam matar não se podem cumprir, porque são contrarias ás leis de Deus.



A.P.D.G., Sketches of Portuguese life (...).
Imagem: Internet Archive

— Vá lá dizer isso aos meus conselheiros! Gritavam logo-aqui d'el-rei! — contra mim proprio.

— Pois grite V. M. — aqui d'El-rei! — contra elles, volte-lhes as costas, e faça a sua vontade.

— V. A. não entende d'isto de governar um povo. Olhe que sempre è um grande pezo e uma grande responsabilidade. Não tenho socego. Estou ás vezes com vontade de mandar dizer a nosso irmão: "Senhor! Deixemo-nos d'estas desintelligencias e d'estes combates. Já estou farto de tantas mortes e de tanto sangue. Venha o meu irmão tomar conta d'isto, e deixe-me socegado com os meus cavallos e as minhas caçadas".

Mas que está V. A. aqui fazendo n'esto bastidor? disse D. Miguel, inclinando-se sobre o pequeno trabalho da infanta. Que bonita coisa! Um pedaço de veludo cor de rosa bordado a oiro; as armas de Portugal; cinco chagas — a religião, sete castellos — a força.

Bandeira de D. João V e nacional de Portugal de 1826 a 1830,
usada pelos miguelistas (ou absolutistas ou realistas).
Imagem: Wikipédia
— É um bonet que estou fazendo para offerecer a V. M. — disse a lnfanta.

— Obrigado, obrigado. Como ha de ficar bonito! E esta quasi prompto — disse El-Rei, continuando a examinar o trabalho.

— Pouco falta, respondeu a Infanta muito satisfeita; mas não lh'o dou se V. M. me não conceder a tal coisa muito facil de que lhe fallei.

— Pois bem, dou-lhe palavra, mas com a condição de que me hade dar o bonet— disse o rei gracejando.

— Ainda mesmo contra a vontade dos seus conselheiros?

— Seja, respondeu el-rei, continuando à ver o bordado; mas com a condição que puz.

— Palavra de rei?

— Palavra de rei, mesmo porque V. A. nunca me pediu nada que me compromettesse.

— Por esse lado não ha que receiar: longe de o comprometter, torna-me mais sua amiga, se é possivel, e receberá as bençãos de immensa gente.

— Vamos a ouvir.

A conversação foi interrompida pela voz de uma aia que disse — O sr. conde de S. Lourenço [António José de Melo Silva César e Meneses, ministro e secretário de estado da guerra do governo de D. Miguel] manda dizer a V. M. se se digna dar-lhe as suas ordens.

— É o que lhe disse ha pouco, exclamou D. Miguel, nunca me deixam.

— Mande-o entrar, disse a lnfanta!

— Vá, se V. A. assim o quer: eu aqui obedeço.

Pouco depois entrou o conde inclinando-se todo. Dirigiu-se primeiro para a Infanta, que carregou as sobrancelhas, e deu-lhe a mão a beijar, voltando-lhe quasi de todo as costas; e beijou depois a mão a El-Bei.

O conde percebeu bem os movimentos da lnfanta, fez-se muito vermelho, e ficou em pé com os olhos no chão.

— Sabe V. M. uma coisa, disse a lnfanta. Hontem foram condemnados a pena ultima mais 22 desgraçados do 4 de infanteria. Talvez V. M. ainda o ignorasse.

— De certo, disse o Rei com a voz um tanto alterada. E como acontece então que V. A. o soube primeiro?

— Peço perdão, interrompeu o conde, se V. M. o não soube ha mais tempo, é porque não teve occasião de ver os papeis d'esta pasta, que estava na sala do despacho desde hontem.

D. Miguel pegou na pasta que o conde lhe offerecia e exclamou.

— Mais sangue, sr. conde, mais sangue! Já tive occasião de lhe observar que estava aborrecido de tanta mortandade.

A.P.D.G., Sketches of Portuguese life (...).
Imagem: Internet Archive

EI-Rei dizendo isto aproximou-se da janella por entre as cortinas.A lnfanta foi para o lado d'El-Rei. Ia passando uma guarda de realistas dos Caetanos, que vinha para o paço, levando adiante da musica grande multidão de povo.

— Como são feios estes realistas! disse a Infanta. E continuou, abaixando a voz — Agora faça-me V. M. favor de despedir o Conde.


Quadros da Historia de Portugal,
Aguarela de  Alfredo Roque Gameiro.
Imagem: www.roquegameiro.org

El-Rei que estava de bom humor disse ao Conde:

— Já vou ter com v. ex.a á sala do despacho.

O conde inclinon-se e saiu. Apenas elle desappareceu, a Infanta pegou vivamente na pasta que El-Bei tinha largado, correu os papeis com a vista, e tirou um dizendo — Aqui estão os nomes dos desgraçados condemnados á morte.

Lisboa vista da Quinta da Torrinha Val Pereiro, gravura de William James Bennett sobre desenho de L. B. Parlgns.
Imagem: Museu de Lisboa

— Que faz Infanta! disse El-Rei. Era melhor que continuasse a bordar o meu bonet.

— Lembra-se V. M. do que me prometteu?

— Lembro, com tanto que V. A. se não esqueça tambem da sua promessa.

— V. M. tem o seu bonet amanhã, se salvar da morte este Luiz Franco, que está na relação dos sentenciados, e por quem eu e tanta gente lhe temos pedido.

El-Rei ticou pensativo por um momento, depois disse: 

— Concedido.

— Ah senhor! Quanto lhe agradeço! disse a Infanta com as lagrimas nos olhos abraçando El-Rei.

— Oh! Infanta, como está commovida! Venha tomar ar. Abram a janella!

Lisboa, Escola do Exercito (antigo palácio da Bemposta), ed. Martins/Martins & Silva, s/n, c. 1900.
Imagem: Delcampe

Uma aia abriu a janella. Estava-se a render a guarda do paço. A multidão que aflluia para ouvir a musica, vendo as pessoas reaes, começou a victorial-as.

— Creia V. M., disse a lnfanta, que nunca mereceu tanto aquelles vivas como agora. Se V. M. m'o permitte vou já acabar-lhe o seu bonet.

— Visto isso, disse D. Miguel rindo e afastando-se da janella, trocou V. A. um bonet por uma cabeça.

E saiu do quarto cortando o ar com a chibatinha [...] (1)


(1) António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863

Artigo relacionado:
A familia do rei Clemente

sábado, 18 de novembro de 2017

Lisboa c. 1700, no traço de Jacques Martin por Luís Diferr

Quando era adolescente e lia, "absolutamente estupefacto", as aventuras de Alix desenhadas por Jacques Martin, o português Luís Diferr estava longe de imaginar que um dia, no futuro, ia assinar um álbum de uma série do universo do grande autor da banda desenhada franco-belga.

Rua Nova dos Mercadores (detalhe), As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

E ver o seu nome na capa, ao lado do do criador de álbuns clássicos como O Último Espartano ou As Legiões Perdidas, e de personagens como Alix, Lefranc, Jhen ou Loïs [...]

Capa do albúm, Portugal, Luís Diferr, edições ASA, 2010.
Imagem: Kuentro

O autor português recordou ao DN como tudo começou. "Eu encontrei-me o Jacques Martin no Festival de Banda Desenhada da Amadora em Outubro de 2002, estavam lá também o Rafael Morales, desenhador, e o editor, o Jimmy Van den Hautte. Já conhecia o Martin de um Salão da Sobreda e estive a falar com o Jimmy". 

O terraço da Torre de Belém ou Forte de S. Vicente, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Luís Diferr (no Blogger)

Mostrei-lhe o último álbum que fiz, Os Deuses de Altair, e umas fotocópias de outros trabalhos, e ele propôs-me fazer este álbum do Loïs. Na altura não percebi o que era, porque ainda não existia a série, que se passa na época do Luís XIV. Algum tempo depois, o Jimmy mandou-me algumas fotocópias do primeiro álbum, que estava em produção, eu enviei-lhe uma proposta e um desenho de base, que foi o dos Jerónimos, e foi assim que tudo arrancou".

Praia do Restelo e Mosteiro dos Jerónimos, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

Começaram então seis anos de "trabalho gigantesco", como conta Luís Diferr.

Aqueduto das Águas Livres (iniciado em 1731) sobre a Ribeira de Alcântara, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

"Quando comecei a fazer o álbum tinha um horário completo de professor. Mas quando começou a pesar, tive que pedir uma licença sem vencimento. Foi uma tarefa muito exigente, em termos gráficos como na procura e consulta de documentação. Quando me envolvi neste projecto, nunca me passou pela cabeça o trabalho que iria ter".

Praça do Rossio, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

"Tendo como referente que as histórias de Loïs se passam no reinado de Luís XIV, Diferr situou Portugal "entre meados do século XVII e do século XVIII [v. Lisboa do século XVII 'a mais deliciosa terra do mundo']. É a época de D. João V, que foi um rei absolutista à maneira de Luís XIV" .

Mercado da Ribeira junto à Casa dos Bicos, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

Diferr fez "tudo" em Portugal, "excepto a introdução, que é do Jacques Martin. Os desenhos são todos meus, bem como as fotos, excepto duas ou três.

Sé de Lisboa  ou Igreja de Santa Maria Maior, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Kuentro

Ele acompanhava o trabalho que lhe era submetido à apreciação, via os desenhos a lápis, dizia para modificar isto ou aquilo. Depois, eram passados a tinta da china e a seguir iam à cor. Mas pouco tempo depois, ele afastou-se por causa dos problemas de vista de que sofria, e a validação dos desenhos passou a ser feita por um comité da Casterman", conta.

Sé de Lisboa  ou Igreja de Santa Maria Maior, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

O autor de Alix "era muito exigente" e Diferr teve "alguns problemas, sobretudo por causa da vista dele. O Jacques Martin sabia muito bem o que queria, mas já estava com muita dificuldade em avaliar os desenhos, não os conseguia ver como um todo. Tinha que usar um aparelho que os ampliava aos bocados e depois que os reconstruir na sua cabeça".

Vista geral de Lisboa na direcção nordeste, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem:

O álbum levou a que fosse proposto ao autor luso "uma das personagens do universo do Jacques Martin, o Jhen. Também apresentei algumas propostas à Casterman, mas umas não avançaram e outras estão em espera", revela.

Segundo Luis Diferr, ela chama-se Joana. Nascida em Sintra, perto de Lisboa, o que faz que ela sempre tenha gostado de respirar o ar puro da montanha e do mar. A sua expressão doce esconde uma alma que sabe muito bem o que quer...
Imagem: AlixMag

"Este álbum vale por si mas também pelas portas que pode abrir, ali ou noutra editora. Espero que alguma coisa se resolva, até porque o mercado franco-belga é muito competitivo, ainda mais para alguém de fora. Mas pronto, a esperança é a última a morrer". (1)


(1) Diário de Notícias, 16 de junho de 2010

Informação relacionada:
Loïs au Portugal?
Les voyages de Loïs, Le Portugal, Interview de Luís Diferr
Apresentação de "As Viagens de Loïs – Portugal" de Luís Diferr (texto e desenhos)...
Jacques Martin – Luís Diferr
Ilustração por autor de BD (I) – Luís Diferr
As Viagens de Loïs – Portugal
Amadora BD – Luís Diferr

Mais informação:
Luís Diferr (no Facebook)
Luís Diferr (no Blogger)
Luís Diferr (no Sandawe)

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Maureen O'Hara, Lisbon (1956)

Aristides Mavros (Claude Rains), um contrabandista internacional, com sede em Lisboa, fez um contrato com Sylvia Merril (Maureene O'Hara), jovem e linda mulher dum ancião americano multimilionário, Lloyd Merril (Percy Marmont), a fim de conseguir a sua fuga e liberdade dum país atrás da Cortina de Ferro, onde se encontra incomunicável durante dois anos.

Lisbon, Maureen O'Hara & Ray Milland, 1956.
Imagem: OK.RU

Precisando dum barco veloz, Mavros contrata o serviço do capitão Robert Evans (Ray Millard), um ex-oficial da Marinha de Guerra dos E. U., actualmente exercendo actividades ilegais, transportando contrabando de vinhos e jóias no seu barco "Orca". 

Lisbon, 1956, participação de Anita Guerreiro com o fado-marcha "Lisboa Antiga" aos 26' 47".
Imagem: OK.RU

Evans aceita o encargo pelo valor de $10.000, ficando no barco aguardando a chegada da embarcação de pesca que transporta Merril, próximo do porto de Lisboa. 

Lisbon, Maureen O'Hara & Ray Milland, 1956.
Imagem: OK.RU

Sylvia apaixona-se por Evans, tendo Mavros sugerido que, se o seu marido for entregue morto, ela poderá vir a herdar os milhões deste e casar-se com um homem da sua idade. 

Lisbon, Maureen O'Hara & Ray Milland, 1956.
Imagem: eBay

A mulher apaixonada aceita a proposta, prometendo pagar pelo trabalho um milhão de dólares. Mavros ordena a Serafim (Francis Lederer), companheiro da viagem, que mate Merril e Evans, lançando o cadáver ao mar e trazendo o de Merril como prova da sua morte.


Com a chegada do barco de pesca, Merril é transferido são e salvo a bordo do "Orca". Na viagem de regresso, Evans surpreende Serafim atentando contra a vida do industrial milionário e, durante a luta, o agressor é morto. 

Lisbon, Maureen O'Hara & Ray Milland, 1956.
Imagem: OK.RU

Evans entrega Merril salvo à sua desconcertada Sylvia, sendo Mavros preso por contrabando e Sylvia aconselhada para de futuro, cuidar melhor do seu marido. Evans parte, para viver uma vila alegre, com a sua futura esposa, Maria Masant. (1)


(1) Folheto de Cinema – Teatro Vitória (IX) – "Lisbon"

Informação relacionada:
Portugal através do mundo: "Lisbon" de Ray Milland (1956)
International Movies Poster