domingo, 24 de setembro de 2017

Thomaz José da Annunciação (2 de 3)

O caracter das producções de Thomaz Annunciação, a qualidade que o seu porfiado estudo tem conseguido alcançar, sobre-saliente a outras mui apreciaveis que tambem possue, está na fidelidade do gesto das suas figuras, em a naturalidade da postura dos seus gados: uma observação tenaz dos movimentos quasi invariavelmente inherentes aos actos da vida dos animaes, o tem feito tão senhor do conhecimento dos seus habitos que logo reluzem nos seus quadros as feições do natural.

Maré-baixa, Ribatejo, Tomás da Anunciação, 1865.
Imagem: Casa dos Patudos, Museu de Alpiarça

O pescador que arrasta a rede, o camponez que apparelha o carro, a ovarina que conta pela centesima vez, em conferencia com a sua companheira o producto da venda, aquelle ancião que toma vagaroso a sua pitada, para observar maliciosamente o namorico da cachopa que se derrete pelas melodias do Orpheu da viola, no quadro dos "Amores na aldêa", todas estas acções são tão perspicazmente espreitadas do natural, que se vé que o que tem de fugitivas não lhes valeu para escaparem á penetração energica do artista.

Uma verdade vem aqui a proposito dizer-se: o daguerreotypo, que é mui valioso auxiliar para o trabalho artistico, não offerece ao pintor a exacta reproducção do claro-escuro, portanto o tom e a côr tem elle de obtel-os por outra via, a da observação directa; no mais que toca á arte de nada presta o daguerreotypo porque o ageitar dos grupos, encadeal-os, distancial-os convenientemente, não se esperará das operações da machina: fixar n'um relance a expressão momentanea de um olhar do modelo, só o sabe o artista consummado.

Fiquem portanto desenganados, a superioridade na arte é hoje tão rara como era antes da invenção do daguerreotypo. Ao perfeito da execução é que o daguerreotypo com a sua tal ou qual exactidão obriga hoje o artista, o que é dependente do genio ou do entendimento ficou difficil e raro do mesmo modo que o era antes da maravilhosa descoberta da photographia.

Piquenique na Quinta do Palheiro Ferreiro, Tomás da Anunciação, 1865.
Imagem: Museu Quinta das Cruzes

Disse que a verdade do gesto era a principal, mas não a unica qualidade que revelavam os quadros do professor da paizagem; outras não menos estimaveis descobrem os seus magnificos ares em que se mostra muitas vezes arrojado, sem que o luminoso das suas massas de claro prejudique o effeito da composição; como colorista é vigoroso, sem perder a suavidade; n'alguns quadros denuncia em magestosos céos uma extensão de tons e uma riqueza de cor admiraveis, concebe tão bem o que ha de perceptivel e o que ha de indeciso nos longes que se allongam por elles os olhos com delicia.

É portanto Thomaz José da Annunciação um artista consummado, o "nora plus ultra" da sua especialidade? Não. É elle mesmo que o sente, é elle mesmo que o confessa, é elle mesmo que sof-fre por se não ver livre das prisões que o retem longe do seu mais querido, do unico pensamento de toda a vida.

Baía do Funchal vista de Santa Catarina, Tomás da Anunciação, 1865.
Imagem: Museu Quinta das Cruzes

Na Academia occupam-n'o dos regulamentos das aulas, dos toques de sineta, das horas de entrada, das horas de saída, consultam-n'o sobre os moveis da aula, sobre estrados, sobre carteiras, sobre fogões, sobre o pote da agua, examina quanto se gasta em pás do lixo!

Isto por não saberem o que é um artista. Mas dirão: as conferencias academicas occupam-se tambem de questões proprias de uma Academia, ahi os artistas vivem por algum espaço no seu elemento, ahi teem grata compensação das ninharias administrativas, ahi o debate sobre tal questão de arte occupa agradavelmente o animo dos professores, a arte progride, prospera o estabelecimento.

Nada; as conferencias academicas tratam ha vinte e tres annos do governo domestico, e até hoje nem os trastes da casa arrumaram; as graves questões do ensino, as theorias das bellas-artes tratar-se-hão quando a Academia for o modélo do arranjo regulamentar, quando sobre entradas e saídas, toques de sineta, altura de bancos, de estrados, de cadeiras, sobre chavinhas, trincos, numerações, e finalmente quando sobre todas as bagatellas importantes, que são a alma do bom governo de um estabelecimento d'estes, quando em tudo isto se tiver tocado a ultima perfeição: então se cuidará em fixar a doutrina que se deve seguir no ensino, se tratará finalmente de bellas-artes.

Um governo que tirasse d'estas miserias o artista, que lhe facultasse a observação das grandes obras da sua especialidade, que ornam os museus e galerias estrangeiras, fazia á arte e ao paiz um eminente serviço; mas ninguem seja tão visionario que espere essa fortuna a respeito d'artes: se ha meio de pôr algum embaraço aos seus cultores cream que não deixa de ser aproveitado, e se ha uma lei que favoreça a oppressão, seja ella o mais absurda possivel, mostra-se-lhe o mais edificante acatamento, embora seja evidentemente estupida não se lhe perde o respeito.

Abriu-se concurso para a substituição de paizagem em 1852, Annunciação, concorrente unico, foi provido com geral applauso, lá está na Academia o quadro que pintou n'essa occasião, uma —Vista tirada do sitio da Amora — que com outros dois enviou á exposição de Paris, onde foram todos tres muito louvados: esse quadro é uma obra primorosa.

Vista da Amora, Tomás da Anunciação, 1852
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Em 1857 trata-se de prover a propriedade da mesma cadeira, Annunciação, concorrente unico em 1852, tendo regido a aula até áquelle tempo na falta do octogenario professor, não tendo deixado de estudar um momento, Annunciação, a rogo dos seus amigos, solicita a dispensa de uma prova que se tornava caricata pelas habilitações do candidato e tyrannica por se dar na época da febre amarella.

Vista da Amora (estudo), Tomás da Anunciação, 1852.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

O director da Academia, na informação que lhe pedem evidenceia a justiça do pretendente, logica perdida? exultam os respeitadores hypocritas da lei, podia-se lá perder tão bella ,occasião de alardear virtude: o seu requerimento e a informação foram quasi que anathematisados, as auctoridades ordenam com severidade o cumprimento da lei, Annunciação soffre o flagello de uma resolução não imbecil mas hypocrita, Nicolau Poussin que fosse o candidato faziam-lhe o mesmo. 

As provas que o nosso artista se viu constrangido a dar n'este concurso, se assim querem que se chame, demonstram que nas producções d'arte se revella necessariamente o estado de espirito do auctor  tão friamente, tão materialmente as concluiu o nosso pintor, que logo passado aquella crise lamentavel da epidemia, a primeira coisa de que tratou foi de se desempenhar da especie de desar que lhe ficava da inferioridade d'aquelles amargurados trabalhos.

Thomaz José da Annunciação, é um homem probo em toda a extensão do termo, nos soffrimentos porque tem passado não se lhe manchou o caracter: seu pae foi o seu exemplar, Manoel Joaquim da Annunciação, antigo empregado da patriarchal, victima sempre mas não se desviando nunca da escrupulosa exactidão do seu serviço, não teve que legar a seus filhos mais do que um bom nome: além d'outras virtudes possuia a da limpeza de mãos, que nunca foi vulgar.

Embarcava-se a real familia, abandonando o reino, em Novembro de 1807, no caes de Belem: a desordem espantosa com que se fez o embarque perturbou a todos a cabeça, o largo de Belem estava atulhado de bahús, caixas, maltas, de uma infinidade de volumes sem dono, á mercê do primeiro que lhe deitasse a mão: preciosissimas riquezas da .Patriarchal se achavam ali envolvidas no tumulto, não ha náo que as receba, pede-se a Annunciação encarecidamente que as salve, assim o executa: voltam as pessoas reaes em 1821: onde estão as joias da Patriarchal? perguntam os que as deixaram no cáes de Belém.

Departure of H.R.H. the Prince Regent of Portugal for the Brazils, Henry L Evêque, F. Bartollozzi.
(Campaigns of the British Army in Portugal, London, 1812)
Imagem: Wikipédia

Eil-as. Muitas das coisas preciosas que ficaram cá tinham-as levado os francezes, aquellas tiveram a fortuna de escapar, ora como Manoel Joaquim da Annunciação não tinha feito mais que o seu dever, não havia pela sua acção motivo de o premiar e por isso nenhum premio lhe deram.

Toda a gente que tinha acompanhado El-rei ao Rio de Janeiro, voltára mais altamente collocada do que fóra, Annunciação parecia pequeno ao pé d'elles, e para annullar essa desegualdade perseguiram-no, para os não envergonhar: o filho não desdiz do catonismo do pae, como não solicita, não se engrandece, mas os que pedem muito e sempre, olham-no de travez, porque o seu comportamento é indirectamente uma censura, involuntaria sim mas effectiva.

Coroava mui naturalmente esta biographia, uma noticia das acções da vida privada, que recommendariam Thomaz Annunciação aos que não teem a fortuna de o conhecer no tracto intimo, mas sendo o conhecimento d'ellas privilegio dos amigos mais chegados, contentaremos todos com affiançar-lhes que o nosso artista é n'este ponto um modêlo.

Retrato de Tomás José da Anunciação por José Maria Brás Martins.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Annunciação não completou ainda a sua carreira, a parte mais brilhante da sua vida de artista começa agora, o que d'ella apontei são apenas os preliminares, a historia das nossas artes tem ainda de registar com ufania o belo futuro que lhe auguramos. (1)


(1) Revista contemporanea de Portugal e Brazil n.º 11, fevereiro de 1860

Museu Nacional de Arte Contemporânea:
Tomás da Anunciação

Biblioteca Nacional de Portugal:
Obras digitalizadas de Anunciação, Tomás José da

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A dispersão dos quadros da herança do rei D. Fernando

sábado, 23 de setembro de 2017

Thomaz José da Annunciação (1 de 3)

Aos vinte e um de Outubro de 1837 se matriculou na Academia de Bellas Artes de Lisboa um rapaz de dezoito annos, inquieto, vivo, de olho scintillante: a Academia fazia um anno de idade e a sua existencia parecia-lhe a ella um sonho inexplicavel.

Vista de uma parte da feira do Campo Grande, Tomás da Anunciação, c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Manoel da Silva Passos querendo instituir o ensino da arte, colleccionou todos os que recebiam do Estado a titulo de artistas, quer o fossem quer não, pregou com elles em S. Francisco e cuidou innocentemente que na intelligencia e amor da arte, que rasoavelmente lhes suppoz, brotaria o fructo que com o seu incontestavel patriotismo antevia da sua obra.

Deixemos os academicos que não comprehenderam o fim para que os asylaram no convento e digamos o que fez o novo alumno, que pela pintura que fizemos d'elle tem já as sympathias do leitor, que certamente quer já saber quem é, e se chegou, a conseguir, apesar da Academia, alguma eminente posição artistica. 

Diremos primeiro que, segundo o costume, começou os seus estudos graphicos enchendo resmas de papel de bonecos com fórmas ideaes que se dão aos principiantes como primeiro leite da arte do desenho.

Thomaz José da Annunciação (1818-1879) correu tudo aquillo rapidamente e passou á Aula do gesso, graduação importante n'aquella altura, em que se navega cheio de fé e enthusiasmo, qualidades que ao nosso artista só uma vez faltaram.

Tomás José da Anunciação, Cinco artistas em Sintra (detalhe), João Cristino da Silva, 1855.
Imagem: MNAC

Na aula do gesso, permitiam-me a expressão, uma caqueirada informe constituia o objecto a que se devia dedicar o culto do desenhador a claro-escuro, o qual procurando conseguir á força de imitação fazer tão hedionda a copia como o original, chega ao apogéo do contentamento e começa a ser gloriosamete invejado dos menos felizes. 

Annunciação passou tudo ao papel, e como prova de que lhe não restava em pouco tempo coisa que não tivesse já desenhado por trinta fórmas, foi-lhe proposto por um dos professores que desenhasse uma triste cabeça d'Antino que lá havia, de um ponto de vista novo, nunca lembrado a nenhum artista; a cabeça era oca e do lado em que o pescoço apresentava um boraco, por onde se via o interior, é que o professor a mandou desenhar, a cabeça não, o buraco: dizia o mestre "tudo o que mostra claro e escuro é aproveitar para o estudo, seja o que for."

Vejam o caso que aquelle fazia da belleza das fórmas.

Com estes bellos estudos não seria Thomaz Annunciação professor da Academia passados quinze annos, se não possuisse uma vocação verdadeira. Conquistou o logar de que foi provido por força de talento e estudo: lástima foi não lh'o disputar ninguem, para ser mais brilhante a victoria, mas a Academia durante quinze annos não lhe tinha preparado nenhum competidor: a Academia aprendeu então na sua historia a reconhecer Annunciação como um homem superior: a Academia honra-se com ser elle seu professor. 

Apontamentos biográficos de Tomás da Anunciação por Manuel de Macedo.
Imagem: ANTT

A inclinação pelas artes do desenho não principiou a manifestar-se quando o nosso artista viu pela primeira vez o labyrintho das estampas e gessos da aula de desenho: ao começar a adolescencia tinha já um passado artistico.

Apontamentos biográficos de Tomás da Anunciação por Manuel de Macedo.
Imagem: ANTT

Thomaz Annunciação nasceu na freguezia da Ajuda, seu pae Manoel Joaquim da Annunciação, honradissimo empregado da Patriarchal, deu-lhe segundo o uso a primeira educação, mas todo o enlêvo do pequeno era pintar soldados, lavadeiras, camponezas, vaccas, burricos, etc., e tambem seu retratinho, obra mais durinha, mas que lhe grangeava seus applausos, principalmente quando eram adevinhaveis os retratados, Manoel Antonio da Silva empregado ás ordens do Dr. Brotero no Jardim Botanico era a victima marcada pelo destino.para fornecer ao joven esperançoso as tintas e pinceis cujo destino valia mais que um paraizo.

As decepções repetidas conduzem ao conhecimento da verdade, do mundo real: não o pode apreciar o que ainda não andou aos encontrões á machina social; mas a gente moça gosa da suprema ventura de viver no mundo que lhe pinta a imaginação, em harmonia com os seus desejos: essa ventura embriaga no verdor dos annos, comtudo a recordação d'ella faz depois acido o caminho do resto da vida. 

D'aquelle prazer que Thomaz gosava nasceu o desejo de o communicar, fez-se ambicioso de gloria, os mirificos bonecos iam já resplandecendo em casa dos ex.mos condes dos Arcos, onde sempre foi mui acceito.

Com que alegria não ouvia elle celebrar os seus triumphos sobre a rebeldia do natural, e sobre a teima dos pinceis em não pintar o que elle queria, quantas reminiscencias saudosas não deverá elle ainda hoje ao bom acolhimento d'essas tentativas em que o genio nascente o encaminhava a contemplar espontaneamente o natural, eterna e unica fonte dos modêlos da arte; apaixonado desde os primeiros annos da verdade nas fórmas e na expressão hoje, que o pincel lhe obedece com rapidez, trabalha violentado se não tem o modêlo á vista: os grandes mestres nunca se presaram de inventar figuras mas de reproduzil-as bem.

Retrato de Tomás José da Anunciação por Joaquim Pedro de Sousa.
Imagem: Hemeroteca Digital

Onde estará hoje a primitiva galeria do nosso artista? onde estão e bem todas as do mesmo genero. Pelo seu desinteresse fazia presente das obras, pela avidez com que procurava a perfeição desempenhava-as seriamente, estas tendencias denunciavam as feições provenientes do seu caracter e do seu talento.

Agora que o leitor viu como Thomaz Annunciação nasceu para as artes, consentiremos que a Academia tenha pretenções á paternidade artistica do seu eminente professor?

Não. Nós só diremos á Academia, se elle é filho dos vossos methodos de ensino, dos vossos exemplos mostrae-nos outro, que tenhaes creado similhantemente em vinte e tres annos, que tantos ha que tendes escola aberta.

O antecessor de Thomaz Annunciação na pintura de paizagem foi André Monteiro da Cruz, mestre dos pintores de ornato no palacio da Ajuda, homem de letras gordas e poucas, mas dotado de uma penetração e sagacidade admiraveis, tinha engenho e no palacio teve largas para estudar, attenta a espantosa prodigalidade com que se dispendia nas obras, e o vagar com que n'ellas se procedia; mas André Monteiro pouco aproveitou d'aquelle remanso e conseguindo fabricar apenas alguma paizagem toleravel, quanto a figuras e gados nem se póde occupar a critica em mencional-os; lá estão na Academia algumas, para as quaes se valeu de pessimas gravuras, que copiou sem a mínima alteração.

Este não foi de certo o que ensinou ao nosso artista os segredos da arte. A quem com justiça se deve mencionar como dando direcção aos estudos, que pelos fins de 1839 foi fazer na aula de gravura de paizagem, é ao digno professor d'ella Benjamim Comte [Benjamin], de quem foi melhor discipulo e a quem sempre mereceu particular estima.

Comte deu-lhe noções do desenho de paizagem a lapis e a sepia, mas os estudos de gados que Thomaz fez depois, sem outro mestre mais que o natural e a sua rara percepção da cor e do contorno, a que distancia ficam dos trabalhos que fez na aula de gravura.

Sem fazer offensa a nenhum dos professores da Academia, affiançamos que foi sempre de todos o mais bondoso e bemquisto Joaquim Raphael que regia a aula de desenho, Annunciação frequentou-a quatro annos, e foi em todos quatro premiado com o primeiro premio.

Tomás da Anunciação.
Desenho premiado no concurso da Aula de Desenho Histórico do ano de 1840-41.
Imagem: belas artes ulisboa

Em 1841, concluido o curso da aula, como lá lhe chamam, passou ao curso da aula de pintura historica, dirigida pelos srs. Antonio Manoel da Fonseca e Norberto José Ribeiro, homem de uma probidade escrupulosissima e o mais digno que restava dos representantes da pintura, da época da Ajuda: colorista soffrivel, pincel timido resentia-se de uma educação artistica capaz de apagar o fogo divino ao proprio Miguel Angelo, este homem (aliás respeitavel), pouco vulto fazia na aula. 

Rebanho, Arte Pintura Tomás da Anunciação, 1841.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Thomaz Annunciação, que suppunha acabado o seu curso de desenho, continuou a fazer desenhos na aula de pintura historica e ahi consumiu tres ou quatro annos, copiando cabeças e prégas dos quadros quinhentistas que possue a Academia, e pintando do gesso o claro-escuro: esta vida enfastiou o artista e no armo de 1844, considerando todos os discipulos que o tempo assim empregado era uma verdadeira dissipação; accordaram em abandonar a aula; Annunciação retirou-se com os seus collegas.

Onde o artista julgára que a sua carreira seria mais veloz ahi encontrou tropeços que não imaginava: os ímpetos de enthusiasmo pela arte foram-se-lhe amortecendo .com as contrariedades do que chamam vida real. 

Por estes tempos o ministro da Prussia conde de Rakzinsky [Les arts en Portugal, 1847], singular amador de artes, escrevia aqui, sobre a nossa historia artistica, duas obras mui conhecidas e estimadas, e animado de um vivo interesse pelas nossas coisas communicava para Allemanha o que aqui via de notavel e precioso em quadros antigos.

Não sendo facil enviar desenhos d'elles, pediu a Thomaz Annunciação que lhe desenhasse algumas das cabeças mais caracteristicas, afim de as mandar como amostra ao seu paiz: n'isto houve-se Annunciação com tal felicidade que, esta circumstancia junta a outras de não menos peso levou o conde, de accordo com dois dos mais intelligentes fidalgos de Portugal, a escolhel-o para ir estudar fóra do paiz de companhia com outro moço de não menor merecimento, hoje fallecido.

Esse projecto posto repentinamente em esquecimento, foi mais uma das dóres com que a adversidade experimentou a fortalesa do nosso artista.

Thomaz não era tão abastado que podesse proseguir desassombrado de cuidados no seu caminho: affigurou-se-lhe um descampado o terreno que tinha a andar; o encanto dos campos que sonhára conhecia que era sentido só por elle, os outros via-os andar e desandar, cuidando na vida e ignorando mesmo que haja além d'isso alguma outra coisa de que se possa cuidar; elle via n'elles uma felicidade, mas tal que o não podia seduzir.

Não espere nunca o leitor encontrar o desenganado artista ao balcão de uma casa de commercio, de penna na orelha, alliciando os freguezes com uma eloquencia meliflua, recheada de disparates e de affirmativas absurdas ou visivelmente falsas, não espere que, alcançado algum posto de oficial para o ultrámar, o encontra satisfeitíssimo com a sua nova, carreira, cheio de esperança e fé, na figura brilhante que pôde fazer um dia.

Propostas de uma e outra especie se lhe tinham feito em 1837 e a resposta a ellas foi a sua matricula na Academia das Bellas Artes de Lisboa. 

Forçava-o a buscar modo de vida a sua demissão de praticante no Museu de Historia Natural e Jardim Botanico, cujo director o dr. Francisco d'Assis, era n'essa occasião exonerado, não sei sob que pretexto, mas com o fim de se operar no establecimento uma reforma. 

Ajuda, Tomás José da Anunciação, c. 1860.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Irá pois agora o desanimado artista manejar o covado ou a espada, deixando o pincel ao abandono? não váe, não lh'o consente a indole. Dois annos lhe durou o enfado e a casa dos ex.mos condes dos Arcos lhe deu abrigo, com affeição verdadeira, e tanta que Thomaz da Annunciaçào não a esquece nunca: o seu reconhecimento aos ex.mo D. Nuno e D. Pedro d'Arcos não precisa de quem o avive.

Quem restituirá á sua musa o fugitivo pintor? haveria alguem a quem afligisse a obscuridade a que se condemnou no desalento? Thomaz terá ainda um amigo, animado da fé no futuro, na fé que lhe faltou a elle?

João Anastacio Rosa, o actor Rosa, conhece a superioridade do talento de Thomaz Annunciação e antevê a brilhante posição que elle pôde alcançar como artista, visita-o, aconselha-o, força-o a tomar os pinceis; n'estas importunações amigaveis, Rosa acompanhado do sr. Hermano Moser, grande apreciador de Bellas Artes.

Dissipa-se rapidamente a nevoa que encobria a Thomaz Annunciação os seus horisontes refulgentes, a altivez dos seus novilhos, as ovelhinhas, os regatos: parece-lhe sentir a fresquidão das madrugadas, começa a ouvir a melodia dos campos, presente já uma soberba eira, um soberbo. quadro, urna soberba exposição d'elle; Annunciação determina resolutamente ser artista, falta estudar.

Vista da ponte e da ribeira da Rabicha e do Aqueduto das Águas Livres, Tomás da Anunciação, c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O pintor não improvisa as formas dos objectos de que faz a sua composição, e uma das qualidades principaes de um quadro é sem duvida a fidelidade na imitação da natureza, n'alguns é mesmo a qualidade essencial.

Annunciação applicou-se pertinazmente ao estudo severo dos seus modélos, e com tal persistencia proseguiu n'estes exercicios que a elles devemos o ser o prefessor da Academia o melhor e o primeiro pintor de gados conhecido em Portugal: o seu modélo foi a natureza, o seu mestre a propria experiencia, guiada pelo seu genio.

Rosa, como excellente amigo, não parou vendo ateado o enthusiasmo do artista, çonstituiu-se seu corrector, lançava-lhe mão dos quadros que acabava de pintar, apregoava-lhes o merito, vendia-os; e Thomaz cuidava só do seu estudo, ignorava até estes passos de Rosa.

São as premicias d'estes novos trabalhos quatro quadrinhos representando gados, que se acham em Cintra, na galeria d'El-rei o Sr. D. Fernando: expostos na loja do dourador Margotteau por diligencias do Rosa, soou no Paço noticia d'elles, El-rei, para quem um novo elogio é hoje a repetição de alguma verdade mil vezes affirmada por todos, quiz vel-os e tendo-lhe agradado, fez d.'elles immediata acquisição. Foi isto ali por 1848, ha dose annos que a protecção do Sr. D. Fernando não desampara o artista.

Ornam as galerias de S. M. numerosas producções de Annunciação [v. A dispersão dos quadros da herança do rei D. Fernando]. 

A volta do trabalho, Arte Pintura Tomás da Anunciação.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

São notaveis — "Uma vista da praia de Pedroiços com pescadores" — Outra tirada de um ponto do jardim das Necessidades — Duas de pastagens com vaccas — Tres com patos, gallinhas, etc. — "A ida para o trabalho" — "A volta do trabalho", duas joias da collecção, "O repouso dos pastores" — e a perola das suas composições: "Os amores d'Aldeia". 

A volta do trabalho, Tomás da Anunciação, 1857.
Imagem: belas artes ulisboa

O Ex.mo Sr. Antonio Xavier de Brederode, a quem o paiz deve notaveis serviços em favor da arte, possue do nosso artista — Um interior de bellissimo efreito de luz — Duas paizagens — Um tocador de viola.

O Ill.mo Sr. Palha (João) — "Um grupo de rapazes jogando o jogo das cinco pedrinhas", o "astragalo" dos antigos.

O Ex.mo Sr. Estevão Palha possue nada menos de sete dos mais recentes — "A partida do gado" — "Uma pastagem" — Um representando uns patos — O retrato de um soberbo mastim, tamanho natural — O velho dos amores d'aldêa, repetição — "A torre e praia de Belem", longes bellissimos — Um quadro de flores e fructos, estréa de novo genero, em que se manifestam os prodigiosos recursos da sua palheta.

O exm.° sr. Luiz Augusto Rebello da Silva, possue tambem alguns quadros d'Annunciação, o nosso poeta Gomes d'Amorim, tres de gados — O sr. João Baptista Ferreira, seis: — "Uma vista da Praça da Figueira" — "Um sendeiro" — Dois de mulheres d'Ovar — Dois de gados.

Lord Seymour fez tambem acquisição de dois quadros representando o pittoresco trajar das varinas.

O negociante Jorge Hancock — alguns de pescadores, gados, trajos nacionaes, etc.

Foi um d'elles vendido em Inglaterra por preço correspondente a uma alta estima: este facto merece particular menção por se dar entre os compatriotas de Turner e Landseer.

Seria quasi impossivel e de certo fastidioso dar aqui relação de todas as producções de Annunciação, calculado o seu numero em mais de cem: o leitor que tiver a ventura de contemplar as que apontámos approvará certamente a menção que d'ellas fizemos.

A descripção minuciosa de um quadro é sempre uma coisa incompleta e quasi sempre inutil para se formar d'elle idéa.

Oliveiras em Azeitão, óleo s metal, Tomás da Anunciação, 1860.
Imagem: Diamantino Vasconcelos

Passaremos em silencio sobre os desenhos, litographias, gravuras que tem produzido, quasi todas conhecidas dos amadores. (1)


(1) Revista contemporanea de Portugal e Brazil n.º 11, fevereiro de 1860


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Obras digitalizadas de Anunciação, Tomás José da

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A dispersão dos quadros da herança do rei D. Fernando

Mais informação:
Biografia do pintor Tomás José da Anunciação

sábado, 16 de setembro de 2017

Velhas lembranças, François d'Orléans, 1842 (5 de 5)

Regressámos a Lisboa por outros caminhos, caminhos assustadores, mal traçados através de um país de charnecas e pinheiros, paisagens pitorescas, mas selvagens e desertas onde encontramos em pleno dia lobos enormes, rondando à volta de rebanhos de cabras que os cabreiros juntam como nos tempos primitivos, ao som de conchas.

A series of views of the Principal Occurrences of the Campaigns..., City of Coimbra.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Dois dias de marcha levam-nos à vista da pequena cidade de Tomar, e à noite chegamos ao nosso alojamento, uma hospedaria espantosa onde, enregelados e moídos, nos instalámos na cozinha. 

Aumale embala as crianças à lareira e faz-se adorar enquanto eu me esforço por conquistar a mestra da casa, uma mulher gorda com alguma literatura, que jura em todas as linguas, "Thomar! Conheceis Thomar? Alguma vez ouvisteis falar? Que viagens entretanto emprehendidas, que penas havidas para ir ver monumentos bem inferiores!"

Views in Spain and Portugal taking during the campaigns..., Tomar.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O objecto da minha admiração é um convento, infelizmente! saqueado,  pilhado, avizinhando a destruição, mas o edifício mais original que se possa conceber. O núcleo deste convento é uma mesquita redonda com pilares coloridos, com o seu mirabe, onde a minha imaginação vê ainda muçulmanos em longas vestes e turbantes a meditar gravemente.

De mesquita, com a conquista, o templo tornou-se cristão, o mirabe central, altar-mór; os santos de pedra elevam-se por toda a parte e instalaram os seus nichos; as esculturas de madeira, admiráveis de delicadeza, rodeavam o altar-mór.


Depois dos Mouros vieram os Templários, depois os Cavaleiros de Cristo que defenderam valentemente o convento contra um regresso ofensivo dos Mouros; mostra-se ainda hoje uma porta chamada a Porta do Sangue por causa da carnificina que ela testemunhou. Templários e Cavaleiros de Cristo, uns e outros, marcaram com o seus caracteres o monumento.

Leitura Nova da Estremadura, Tomo IV, Folio 35 (detalhe).
Imagem: Viajar con el arte

D. Manuel veio depois, e com ele o estilo rico e sedutor da sua época. Juntaram um côro e uma porta admirável à antiga mesquita; os claustros alongaram-se, salas charmosas ergueram-se.

Janella da igreja do Convento de Christo em Thomar do lado do claustro de St.a Barbara.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Por fim os Filipes de Espanha, durante a sua soberania sobre Portugal, residiram em Tomar e trouxeram-lhe, por acréscimo de novos claustros, a pesada e severa arquitectura posta em voga pelo sombrio carácter de Filipe II.

Este convento é ao mesmo tempo um museu arquitectural, um museu histórico e um monumeto religioso dos mais surpreendentes. O silêncio destes vastos claustros — tem seis ou sete — deixa uma impressão profunda. Não podia desligar-me, descobrindo em cada instante qualquer detalhe impressionante.

Fui puxado dos meus sonhos, da minha admiração e trazido à realidade por um guia voluntário que me acompanhava e que, vendo-me parado diante de uma deslumbrante estatueta, me disse: "Vou arrancá-la, e vós a levareis," acrescentando, quando protestei: "Mas toda a gente aqui leva o que quer."

Sinto-me feliz por poder acrescentar que, chegados a Lisboa, denunciamos este vandalismo, ao mesmo tempo que inflamamos o espirito tão artista do rei Fernando com as nossas descrições. Ele fez por sua vez a viagem a Tomar, e graças a ele, a conservação deste edifício, foi daí em diante assegurada [v. Álvaro José Barbosa, Habitar o património: o caso do Convento de Cristo].

Charmosa viagem de Tomar a Lisboa, por Abrantes, onde vi vir a mim um senhor velho vestido com um uniforme antediluviano, com uma espada de través, como os marqueses de comédia, que se lança aos meus joelhos envolvendo-me as pernas com os seus braços, gritando: "Abraço o condutor de Napoleão," alusão ao regresso de Santa-Helena que me surpreendeu um pouco.

Historical military picturesque..., George Landmann,  Abrantes.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Regressado a Lisboa, tive o desgosto de me separar de Aumale, que um navio a vapor levaria à Argélia. Foi aí entrepreender a brilhante campanha que terminou na tomada de Abd-el-Kader, o resplandescente feito de armas do qual o belo quadro de Horace Vernet, no museu de Versailles, perpétua a recordação.

Tomada da smalah de Abd-El-Kader em Taguin, 16 de maio de 1843, Horace Vernet, 1844.
Imagem: Wikipédia

Sabemos que, lançado na perseguição dessa "smala", meu irmão conseguiu-a só com a sua cavalaria, e longe de todo o apoio, depois de várias marchas nocturnas que ele conseguiu furtar ao inimigo. "Eles são bem numerosos", ocorreu dizer-lhe o coronel Yusuf que marchava na frente, e que era um valente. "— Um principe  da minha raça jamais recuou," foi a resposta. "Avante! "E a pequena tropa avança sem hesitação, general à cabeça, sobre a imensa aglomeração guerreira, que tinha diante de si. O sucesso justificaria esta audácia.

Sur l'île de Gorée. Un dîner en Guinée, François d'Orléans, prince de Joinville.
Imagem: Sotheby's

Quanto a mim, enquanto que Aumale se dirigia à Argélia, fazia os adeus a estes excelentes amigos e parentes, a rainha D. Maria e o rei Fernando, e metia vela ao Senegal e à Costa da Guiné, onde faria a volta dos nossos estabelecimentos coloniais. (1)


(1) François d'Orléans, prince de Joinville, Vieux souvenirs: 1818-1848, Paris, C. Lévi, 1894

Versão inglesa:
François d'Orléans..., Memoirs..., London, W. Heinemann, 1895

Leitura adicional:
Outros escritos de François d'Orléans


Mais informação:
J. A. Santos, Monumentos das ordens militares do Templo e de Christo em Thomar, 1879
J. M. Sousa, Noticia descriptiva e historica da cidade de Thomar, 1903
Vieira Guimarães, A missão de Portugal e o Monumento de Thomar, 1905
Círculo de Estudos de Thomar (fb)

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Velhas lembranças, François d'Orléans, 1842 (4 de 5)

De repente, do cimo de um outeiro, percebemos o vale do Mondego, tão belo e tão agradável, Coimbra elevando-se em espaldar sobre as suas margens e uma belo horizonte de montanhas. É muito pitoresco.

Historical military picturesque..., George Landmann, Coimbra.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Descemos a uma longa ponte de pedra que leva à cidade e cada um, na nossa caravana, faz o seu melhor para dar a menor importância aos [quolibets] gracejos com que os senhores estudantes têm o hábito de saudar os estrangeiros à chegada.

Historical military picturesque..., George Landmann, Coimbra.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Com efeito toda a "basoche" [gentes do direito e da justiça, do latim: basílica] está a trabalhar, neste traje preto, gibão, calções e capa que as Estudantinas espanholas tornaram familiar. Aqui somente, uma espécie de boina frígia preta substitui o tricórnio e a colher espanhola.

Oh surpresa! Os senhores estudantes, longe de troçarem de nós, descem do parapeito sobre o qual estão sentados, e tiram-nos as suas boinas e acolhem-nos com uma polidez simpática. Talvez sabem eles que nós também usámos os nossos calções sobre os bancos das escolas e saúdam os seus confrades.

Ilustração: Vieux souvenirs.

Sobre esta sebe benevolente de homens negros, vimos o rio coberto de velas brancas e nas suas margens entre os salgueiros, muitas lavadeiras com as saias enroladas e de belas formas que Camões baptizou as Ninfas do Mondego.

Uma vista de Coimbra, James Holland, 1837 ou 1838.
 [incl. em The tourist in Portugal, 1839]
Imagem: Christie's

No fim da ponte, entre altas muralhas irregulares apresenta-se uma porta escura como à entrada de uma velha cidade turca, e quado a iamos passar, clamores lamentáveis, gritos dolorosos, enviados por seres invisíveis, fazem-se ouvir; cestos, suspensos em polias, descem-nos sobre a cabeça; as taças toscas colocadas no fim de grandes juncos saem de respiradouros gradeados e assustam os nossos cavalos.

São os prisioneiros detidos atrás dessas muralhas que nos suplicam de depositar uma esmola ou o que quer que seja nos seus cestos ou taças.

Chegados a um bom albergue, descobrimos que o Mesonero, dito de outro modo o nosso anfitrião, tem duas bonitas filhas que encerra à chave numa espécie de torre, tanto que a cidade de Coimbra oferece perigos. Mas nós maquinamos para ver as belas reclusas; com a ajuda de um ramo de flores atado na ponta de uma longa vara fizemos aparecer à janela dois rostos acordados que justificavam a sua reputação, e travámos conhecimento.

Depois vieram-nos buscar para visitar a universidade cujo grão-mestre vestido de azul e ouro, asssistido por dois professores que falam admiravelmente francês, nos faz as honras.

Aumale, bem mais universitário e bem mais letrado do que eu, dá-lhes brilhantemente a réplica. Este vasto estabelecimento onde professores e estudantes me parecem fortes nas suas aptidões, está admiravelmente organizado e a sua alta antiguidade pô-lo em veneração no país. Para os portugueses, é a fonte de toda a instrução e disse-nos ingenuamente que se tínhamos em França boas universidades, é porque eram dirigidas por professores de Coimbra.


Sé Velha, or Old Cathedral Coimbra, des. ori. T. Holland, grav. J. Carter, 1838.
Imagem: Ilustração Antiga

Daí fomos ver uma velha mesquita convertida em catedral, mas tendo ainda o seu carácter mourisco bem conservado. Por todo o lado em Portugal como em Espanha, os mouros deixaram traços inapagáveis da sua passagem, nos monumentos, linguagem, como nos tipos da raça.

Um passeio à Quinta da Lágrimas, termina a nossa estadia em Coimbra. É à sombra dos cedros gigantescos que abriga esta quinta, num lugar deslumbrante, à borda do Mondego, que se desenrola a lenda romanesca cantada por Camões, dos amores do infante de Portugal, D. Pedro e de Inês de Castro, seguidos da morte desta última, morte que a vida inteira de D. Pedro foi consagrada a vingar, donde vem o seu cognome de Justiceiro.

Coimbra, Scenery of Portugal and Spain, G. Vivian, 1839.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Os donos actuais da quinta dão-me alguns cabelos de Inês de Castro, recolhidos por eles quando da profanação do seu túmulo. São louros. (1)


(1) François d'Orléans, prince de Joinville, Vieux souvenirs: 1818-1848, Paris, C. Lévi, 1894

Versão inglesa:
François d'Orléans..., Memoirs..., London, W. Heinemann, 1895

Leitura adicional:
Outros escritos de François d'Orléans

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Velhas lembranças, François d'Orléans, 1842 (3 de 5)

Passamos em Leiria, onde um grande mercado nos permitiu admirar a beleza das mulheres do campo e o seu vestuário deslumbrante. Ficámos alojados numa pousada cujo estábulo ficava no andar de baixo, a cozinha no de cima, e onde partilhamos o quarto com gansos, porcos e um grupo de castradores franceses em passeio.

Historical military picturesque..., George Landmann, Leiria.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Depois de Leiria, Pombal. Estas pequenas cidades portuguesas são charmosas e parecem pertencer a uma outra época. Vemos aí ainda le Pilori, la Geôle, [o pelourinho, a gaiola,] esta uma espécie de jaula para animais ferozes com uma imensa janela, com o gradeamento ao nível da praça, pelo qual toda a gente fala sem vigilância alguma, com os prisioneiros e condenados fechados à mistura.

Historical military picturesque..., George Landmann, Pombal.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Sómente duas jovens mulheres ocupam a gaiola de Pombal. Entrámos em conversa com elas. Questionando-as, assim que os passantes, soubemos que eram irmãs e depois a eterna história: a mais velha amada por um homem jovem... e tudo o mais que se segue!

Não tendo coragem para fazer desaparecer a criança, foi a irmã mais nova que a enterrou viva. As infelizes estão, há cinco meses, na jaula à espera do julgamento, expostas a todos os insultos, trocistas e grosseiros, da população.

Ilustração: Vieux souvenirs.

Que suplício para essas mulheres que, pelos seus traços, pertencem evidentemente a uma classe superior de camponeses. A mais velha, a mãe, é muito bonita, e parece enfraquecida pelo sofrimento. A fisionomia é tão doce que me dá pena ver. "Oh ! n'insultez jamais une femme qui tombe," a dit le poète [Victor Hugo].

Após o pelourinho e a gaiola, outra recordação da idade média: um pouco antes de chegar a Coimbra, encontrámos no caminho uma grande familia do país, os Pinto-Basto, em viagem.

Ilustração: Vieux souvenirs.

As senhoras vão em liteiras, transportadas cada uma por duas mulas empenachadas, os homens vão a cavalo trajando como se usa no país, escoltados por inúmeros criados também a cavalo, com grandes barretes, calções e casacos finos de veludo com botões de prata.

Todos eles têm uma manta colorida sobre os ombros e estão armados com essa imensa vara da qual os portugueses sabem bem se servir. Essa caravana tem muito bom ar. Vendo-a passar, acreditamos estar no século XVI.


(1) François d'Orléans, prince de Joinville, Vieux souvenirs: 1818-1848, Paris, C. Lévi, 1894

Versão inglesa:
François d'Orléans..., Memoirs..., London, W. Heinemann, 1895

Leitura adicional:
Outros escritos de François d'Orléans

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Velhas lembranças, François d'Orléans, 1842 (2 de 5)

Por fim, o rei Fernando leva-nos a uma caçada em Mafra, nas montanhas pouco elevadas, mas acidentadas com cumes verdes de vegetação retorcida, que se estente do lado de Torres Vedras. Muito pitoresca esta caçada em lugares montanhosos, frequentemente muito belos, e onde temos sob os nosso olhar quadros que parecem cenas de guerrilhas, uma guerra de "partisans".

Mafra, François d'Orléans, prince de Joinville, 1843.
Imagem: artnet

Centenas de batedores, em roupa brilhante, calções, lenços ao redor da cabeça, capa dobrada sobre o ombro, uma espingarda ou um bastão na mão, subiam os desfiladeiros, seguiam com rapidez ao longos das veredas e batiam sobre os caçadores uma multidão de gamos, veados, javalis, raposas.

Já o sol se tinha posto e o tiroteio ainda continuava.

Mas nós, Aumale e eu, estávamos ansiosos por ver algo diferente de Lisboa, dos seus prazeres, da sua vida oficial e política de Portugal; no regresso desta caçada, fizemo-nos à estrada numa excursão caprichosa em que contávamos chegar até Coimbra, a antiga e celebre cidade universitária.

Sendo ainda primitivas no país as vias de comunicação, viajamos a cavalo, escoltados por um ex-capitão do Estado-Maior francês, ajudante de campo do duque de Raguse em 1830, que foi, por parte seu tio, [Jean-Guillaume] Hyde de Neuville, marquês de Bemposta em Portugal e, finalmente, ajudante de campo do rei Fernando.

Formamos uma caravana em que um almocreve nativo empreendeu o transporte. 

Ilustração: Vieux souvenirs.

No primeiro dia, atravessamos uma espécie de deserto com má reputação coberto de charnecas a perder de vista; são os últimos contrafortes da Serra da Estrela [sistema Montejunto-Estrela], uma longa cadeia de montanhas que começa em Espanha, perto de Segóvia e Avila.

Creek of Maceira, Sketches of the Country, character, and Costume William Beckford, 1808-1809.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Ao atravessar um desfiladeiro selvagem num lugar chamado Mecheira [Maceira], encontramos um bando de gente de má cara que pareciam caçar descuidadamente, com as espingardas ao ombro; nós éramos numerosos e estávamos bem armados; suponho que nos consideraram uma caça demasiado grossa.

Ilustração: Vieux souvenirs.

Suponho tanto mais porque, um pouco mais adiante encontramos patrulhas de cavalaria, enviadas apressadamente, já que alguns viajantes tinham sido roubados em Mecheira [Maceira] nessa manhã.

Dois dias de marcha levam-nos a Alcobaça [Batalha], Aljubarota. 

Observem todos esses nomes em "al", os mouros passaram por aí. Aljubarota é celebre pela batalha que, em 1385 [14 de agosto], fundou a autonomia da monarquia portuguesa. O exército do grande Mestre da Avis, Dom João, teve que lidar com um exército espanhol que usava artilharia (a espingarda de agulha daquela tempo), algo desconhecido para os portugueses.

Estes tinham o vento, o sol, a poeira contra eles, mas apoiados pelo espírito nacional, o exemplo de Dom João e o bispo de Braga [D. Lourenço Vicente], que percorria as fileiras de elmo na cabeça e lança em punho, puseram em fuga o exército da Espanha, cujo rei apenas parou em Sevilha.

Batalha de Aljubarrota, 14 de agosto de 1385.
Imagem: História de Portugal

Quanto ao grande mestre de Avis, que se tornou rei, fundou, em memória de sua vitória, o convento e a igreja da Batalha, que visitamos.

Vista do Convento da Batalha, Henri l'Évêque, 1812.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Não sei descrever monumentos, não sou arquiteto, mas as grandes coisas impressionam-me sempre, e a Batalha é incontestavelmente grande, simples, severa, com esse carácter religioso que procuro em vão nas igrejas do nosso tempo.

Mosteiro da Batalha, Capela do Fundador Túmulos dos Infantes.
Plans Elevations Sections and Views of the Church of Batalha, Frei Luis de Sousa, James Murphy, 1795.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O portal delicado e maravilhosamente conservado representa o paraíso terrestre, e todas as estátuas dos santos são também pequenas obras de arte. Atrás da igreja, uma capela começada por Dom Manuel não pôde ser concluída, e é uma grande pena ao julgar por aquilo que existe. Há aí esculturas de uma finura inaudita, quase confundiriamos quase com teias de aranha.

Mosteiro da Batalha, Alçado Poente (detalhe, porta lateral).
Plans Elevations Sections and Views of the Church of Batalha, Frei Luis de Sousa, James Murphy, 1795.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Infelizmente, os vândalos vieram; os vitrais desapareceram, uma multidão de estatuetas deixaram os seus nichos, oferecidas aos amadores ou aos turistas de passagem. Ao lado da igreja é o convento, semelhante no estilo do claustro ao de Belém.

Batalha, Book of paintings made in Portugal John Millington Synge (1871-1909)..
Imagem: Europeana

Aí vemos uma sala gótica gigantesca que achei soberba. Diz-se que três vezes a abóbada desabou e que, reconstruída pela quarta vez, o arquitecto colocou-se por debaixo no momento em que o andaime era derrubado. 

Mosteiro da Batalha, Interior da Igreja.
Plans Elevations Sections and Views of the Church of Batalha, Frei Luis de Sousa, James Murphy, 1795.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A abóboda resistiu, então ele mandou esculpir a sua figura sobre um dos pendentes das ogivas, e não é uma das estatuetas menos bonitas que contém este admirável monumento, que ainda é mais admirável a meus olhos, porque é virgem de toda a restauração bárbara. (1)



(1) François d'Orléans, prince de Joinville, Vieux souvenirs: 1818-1848, Paris, C. Lévi, 1894

Versão inglesa:
François d'Orléans..., Memoirs..., London, W. Heinemann, 1895

Leitura adicional:
Outros escritos de François d'Orléans
Mousinho de Albuquerque, Memória inédita.. da Batalha, Leiria, Typ. Leiriense, 1854
James Murphy, Plans... Batalha, James Murphy, London, I. & J. Taylor, High Holborn, 1795