quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Velhas lembranças, François d'Orléans, 1842 (3 de 5)

Passamos em Leiria, onde um grande mercado nos permitiu admirar a beleza das mulheres do campo e o seu vestuário deslumbrante. Ficámos alojados numa pousada cujo estábulo ficava no andar de baixo, a cozinha no de cima, e onde partilhamos o quarto com gansos, porcos e um grupo de castradores franceses em passeio.

Historical military picturesque..., George Landmann, Leiria.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Depois de Leiria, Pombal. Estas pequenas cidades portuguesas são charmosas e parecem pertencer a uma outra época. Vemos aí ainda le Pilori, la Geôle, [o pelourinho, a gaiola,] esta uma espécie de jaula para animais ferozes com uma imensa janela, com o gradeamento ao nível da praça, pelo qual toda a gente fala sem vigilância alguma, com os prisioneiros e condenados fechados à mistura.

Historical military picturesque..., George Landmann, Pombal.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Sómente duas jovens mulheres ocupam a gaiola de Pombal. Entrámos em conversa com elas. Questionando-as, assim que os passantes, soubemos que eram irmãs e depois a eterna história: a mais velha amada por um homem jovem... e tudo o mais que se segue!

Não tendo coragem para fazer desaparecer a criança, foi a irmã mais nova que a enterrou viva. As infelizes estão, há cinco meses, na jaula à espera do julgamento, expostas a todos os insultos, trocistas e grosseiros, da população.

Ilustração: Vieux souvenirs.

Que suplício para essas mulheres que, pelos seus traços, pertencem evidentemente a uma classe superior de camponeses. A mais velha, a mãe, é muito bonita, e parece enfraquecida pelo sofrimento. A fisionomia é tão doce que me dá pena ver. "Oh ! n'insultez jamais une femme qui tombe," a dit le poète [Victor Hugo].

Após o pelourinho e a gaiola, outra recordação da idade média: um pouco antes de chegar a Coimbra, encontrámos no caminho uma grande familia do país, os Pinto-Basto, em viagem.

Ilustração: Vieux souvenirs.

As senhoras vão em liteiras, transportadas cada uma por duas mulas empenachadas, os homens vão a cavalo trajando como se usa no país, escoltados por inúmeros criados também a cavalo, com grandes barretes, calções e casacos finos de veludo com botões de prata.

Todos eles têm uma manta colorida sobre os ombros e estão armados com essa imensa vara da qual os portugueses sabem bem se servir. Essa caravana tem muito bom ar. Vendo-a passar, acreditamos estar no século XVI.


(1) François d'Orléans, prince de Joinville, Vieux souvenirs: 1818-1848, Paris, C. Lévi, 1894

Versão inglesa:
François d'Orléans..., Memoirs..., London, W. Heinemann, 1895

Leitura adicional:
Outros escritos de François d'Orléans

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Velhas lembranças, François d'Orléans, 1842 (2 de 5)

Por fim, o rei Fernando leva-nos a uma caçada em Mafra, nas montanhas pouco elevadas, mas acidentadas com cumes verdes de vegetação retorcida, que se estente do lado de Torres Vedras. Muito pitoresca esta caçada em lugares montanhosos, frequentemente muito belos, e onde temos sob os nosso olhar quadros que parecem cenas de guerrilhas, uma guerra de "partisans".

Mafra, François d'Orléans, prince de Joinville, 1843.
Imagem: artnet

Centenas de batedores, em roupa brilhante, calções, lenços ao redor da cabeça, capa dobrada sobre o ombro, uma espingarda ou um bastão na mão, subiam os desfiladeiros, seguiam com rapidez ao longos das veredas e batiam sobre os caçadores uma multidão de gamos, veados, javalis, raposas.

Já o sol se tinha posto e o tiroteio ainda continuava.

Mas nós, Aumale e eu, estávamos ansiosos por ver algo diferente de Lisboa, dos seus prazeres, da sua vida oficial e política de Portugal; no regresso desta caçada, fizemo-nos à estrada numa excursão caprichosa em que contávamos chegar até Coimbra, a antiga e celebre cidade universitária.

Sendo ainda primitivas no país as vias de comunicação, viajamos a cavalo, escoltados por um ex-capitão do Estado-Maior francês, ajudante de campo do duque de Raguse em 1830, que foi, por parte seu tio, [Jean-Guillaume] Hyde de Neuville, marquês de Bemposta em Portugal e, finalmente, ajudante de campo do rei Fernando.

Formamos uma caravana em que um almocreve nativo empreendeu o transporte. 

Ilustração: Vieux souvenirs.

No primeiro dia, atravessamos uma espécie de deserto com má reputação coberto de charnecas a perder de vista; são os últimos contrafortes da Serra da Estrela [sistema Montejunto-Estrela], uma longa cadeia de montanhas que começa em Espanha, perto de Segóvia e Avila.

Creek of Maceira, Sketches of the Country, character, and Costume William Beckford, 1808-1809.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Ao atravessar um desfiladeiro selvagem num lugar chamado Mecheira [Maceira], encontramos um bando de gente de má cara que pareciam caçar descuidadamente, com as espingardas ao ombro; nós éramos numerosos e estávamos bem armados; suponho que nos consideraram uma caça demasiado grossa.

Ilustração: Vieux souvenirs.

Suponho tanto mais porque, um pouco mais adiante encontramos patrulhas de cavalaria, enviadas apressadamente, já que alguns viajantes tinham sido roubados em Mecheira [Maceira] nessa manhã.

Dois dias de marcha levam-nos a Alcobaça [Batalha], Aljubarota. 

Observem todos esses nomes em "al", os mouros passaram por aí. Aljubarota é celebre pela batalha que, em 1385 [14 de agosto], fundou a autonomia da monarquia portuguesa. O exército do grande Mestre da Avis, Dom João, teve que lidar com um exército espanhol que usava artilharia (a espingarda de agulha daquela tempo), algo desconhecido para os portugueses.

Estes tinham o vento, o sol, a poeira contra eles, mas apoiados pelo espírito nacional, o exemplo de Dom João e o bispo de Braga [D. Lourenço Vicente], que percorria as fileiras de elmo na cabeça e lança em punho, puseram em fuga o exército da Espanha, cujo rei apenas parou em Sevilha.

Batalha de Aljubarrota, 14 de agosto de 1385.
Imagem: História de Portugal

Quanto ao grande mestre de Avis, que se tornou rei, fundou, em memória de sua vitória, o convento e a igreja da Batalha, que visitamos.

Vista do Convento da Batalha, Henri l'Évêque, 1812.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Não sei descrever monumentos, não sou arquiteto, mas as grandes coisas impressionam-me sempre, e a Batalha é incontestavelmente grande, simples, severa, com esse carácter religioso que procuro em vão nas igrejas do nosso tempo.

Mosteiro da Batalha, Capela do Fundador Túmulos dos Infantes.
Plans Elevations Sections and Views of the Church of Batalha, Frei Luis de Sousa, James Murphy, 1795.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O portal delicado e maravilhosamente conservado representa o paraíso terrestre, e todas as estátuas dos santos são também pequenas obras de arte. Atrás da igreja, uma capela começada por Dom Manuel não pôde ser concluída, e é uma grande pena ao julgar por aquilo que existe. Há aí esculturas de uma finura inaudita, quase confundiriamos quase com teias de aranha.

Mosteiro da Batalha, Alçado Poente (detalhe, porta lateral).
Plans Elevations Sections and Views of the Church of Batalha, Frei Luis de Sousa, James Murphy, 1795.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Infelizmente, os vândalos vieram; os vitrais desapareceram, uma multidão de estatuetas deixaram os seus nichos, oferecidas aos amadores ou aos turistas de passagem. Ao lado da igreja é o convento, semelhante no estilo do claustro ao de Belém.

Batalha, Book of paintings made in Portugal John Millington Synge (1871-1909)..
Imagem: Europeana

Aí vemos uma sala gótica gigantesca que achei soberba. Diz-se que três vezes a abóbada desabou e que, reconstruída pela quarta vez, o arquitecto colocou-se por debaixo no momento em que o andaime era derrubado. 

Mosteiro da Batalha, Interior da Igreja.
Plans Elevations Sections and Views of the Church of Batalha, Frei Luis de Sousa, James Murphy, 1795.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A abóboda resistiu, então ele mandou esculpir a sua figura sobre um dos pendentes das ogivas, e não é uma das estatuetas menos bonitas que contém este admirável monumento, que ainda é mais admirável a meus olhos, porque é virgem de toda a restauração bárbara. (1)



(1) François d'Orléans, prince de Joinville, Vieux souvenirs: 1818-1848, Paris, C. Lévi, 1894

Versão inglesa:
François d'Orléans..., Memoirs..., London, W. Heinemann, 1895

Leitura adicional:
Outros escritos de François d'Orléans
Mousinho de Albuquerque, Memória inédita.. da Batalha, Leiria, Typ. Leiriense, 1854
James Murphy, Plans... Batalha, James Murphy, London, I. & J. Taylor, High Holborn, 1795

domingo, 10 de setembro de 2017

Velhas lembranças, François d'Orléans, 1842 (1 de 5)

É certo que o Tejo é um rio bonito, mas o panorama tão falado de Lisboa não merece, segundo eu, a sua reputação. Apenas a Torre de Belém encanta o olhar com sua arquitetura original, e desde que aí desembarcámos o encantamento continua diante da igreja atrás dela, mas isso é tudo. O resto é feio.

Torre Velha, Lisbonne, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: Sotheby's

Descemos a terra na galeota Real, uma embarcação guarnecida de esculturas douradas e dossel de seda à popa, cuja tripulação se compunha de homens vindos do Algarve, de tez morena, vestidos com calções curtos e jaqueta de veludo amaranto, envergando boinas venezianas. Remavam de pé, cadenciando os movimentos do remo com uma espécie de ladainha, em homenagem à rainha, que cantavam em coro.

Não era a primeira vez que eu vinha a Lisboa; aí reencontrei com alegria a rainha D. Maria, uma amiga de infância da qual viria a ser, não sei quantas vezes, cunhado; aí reencontrei também o seu marido, o rei Fernando, que eu conhecia menos.

Lisbonne vue du vieux port, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: LMT no Facebook

Artista até à ponta das unhas, musico, aguarelista, aquafortista, ceramista notável, o rei Fernando detestava a política; esses e outros pequenos defeitos, que nos eram comuns, ligar-nos-iam intimamente, e essa amizade duraria até ao seu fim prematuro.

Sintra, Pena, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Regressei frequentemente a Portugal; sempre recebi um acolhimento do qual guardo as recordações mais reconhecidas. Aí encontrei homens distintos, mulheres amáveis, instruídas e charmosas; também dediquei a Portugal e aos portugueses sentimentos de sincera afeição e desejo que todos os meus votos, sobre a terra e sobre o mar, sejam por eles seguidos, mas não entrarei na mais pequena reflexão sobre a sua vida política.

Na época, da qual falo, este país tinha duas ilustres espadas: os marechais Saldanha e Terceira, que serviam alternativamente de apoio às mudanças alternativas da Constituição, fosse na ajuda a levantamentos militares, fosse na ajuda a procedimentos mais parlamentares. 

Era o costume do país, o qual ia melhorando. Havia, como em França, dois partidos dinásticos; mas, coisa curiosa, o partido miguelista, que fazia oposição à rainha Dona Maria, partido pouco numeroso de resto, pretendia-se o partido da legitimidade, se bem que reivindicasse os direitos de D. Miguel, representante de um ramo mais jovem. Que os políticos profundos arranjem isso a seu modo.

Não sei se foi na ocasião desta estadia que, recebendo em Belém o corpo diplomático, o duque de Palmela, que se me apresentou como ministro dos negócios estrangeiros, me pediu de o desculpar por abreviar a cerimónia, já que a duquesa de Palmela, nesse momento, estaria prestes a dar ao mundo o seu décimo quinto filho; prova palpável, dada por um ministro de negócios estrangeiros, da vitalidade da nação portuguesa.

O duque de Palmela, um diplomata da velha escola, que pleno de espírito natural e de talento, combinava a vantagem de ser próximo dos grandes diplomatas do século, os Talleyrand, os Metternich, etc., etc., convidou-me para jantar alguns dias depois.

A refeição foi esplêndida. À chegada, os archeiros reais, assim chamados porque estão armados com alabardas, guarneciam a escadaria; depois passamos pelos belos salões, ao fundo dos quais, à saída da mesa, uma porta ampla se abria para deixar ver, no alto de um estrado de vários degraus, uma magnífica cama de cerimónia, e nessa cama a duquesa de Palmela, que há pouco tempo dera à luz, e a quem todos os convivas se apressavam a ir apresentar as suas homenagens.

Ilustração: François d'Orléans, prince de Joinville, Vieux souvenirs.

Numa revista às tropas portuguesas notei belos batalhões de caçadores e tive uma conversa bem divertida com o célebre almirante Sir Charles Napier, que assistia a essa revista, a cavalo, em uniforme de comandante de navio inglês, mas com um pequeno chapéu à Napoleão, com cocar português, as calças subidas, os pés armados com gigantescas esporas de caça e segurando na mão um enorme bastão. (1)


(1) François d'Orléans, prince de Joinville, Vieux souvenirs: 1818-1848, Paris, C. Lévi, 1894

Versão inglesa:
François d'Orléans..., Memoirs..., London, W. Heinemann, 1895

Leitura adicional:
Outros escritos de François d'Orléans




Le prince de Joinville naît à Paris le 14 octobre 1818. Comme ses frères, il passe ses premières années au lycée Henri-IV où il remporte de véritables succès. Il n'a pas encore 12 ans quand son père après les trois glorieuses, devient "Roi des Français".

Autant pour obéir aux ordres du roi, son père, que pour suivre ses propres goûts, le prince se dispose à entrer dans la marine par des études spéciales, subit ses premiers examens à Brest et commence à l'âge de 13 ans l'apprentissage du métier de marin.

Il s'embarque à Toulon, au mois de mai 1831, comme aspirant de 2e classe sur la frégate l'Arthémise, navigue sur les côtes de France et se rend en Corse, à Livourne, à Naples, à Alger. Là, il est soumis à toutes les épreuves imposées aux élèves de l'École navale.

Entre-temps sa soeur aînée, Louise-Marie d'Orléans, est devenue la première reine des Belges en épousant le roi Léopold Ier de Belgique.

Au mois d'août 1834, le prince de Joinville passe de nouveaux examens à Brest sous la direction du chevalier Préaux Locré. Reçu élève de première classe, il s'embarque immédiatement à Lorient sur la frégate la Syrène, se rend à Lisbonne, aux Açores, et rentre en France après trois mois de navigation.

Le 25 mai 1835, il part, en qualité de lieutenant de frégate, sur la Didon et visite tous les détails des grands établissements de marine britanniques de Portsmouth et de Cork.

L'année suivante [1836], il fait un voyage dans les mers du Levant, sur l'Iphigénie, en qualité de lieutenant de vaisseau. Il visite Smyrne, où il essuie une tempête horrible, Rhodes, Chypre, Latakié, Tripoli de Syrie, Beyrouth, Jaffa, Jérusalem, et une partie de la Terre Sainte.

En 1837, à bord du vaisseau l'Hercule, il se rend à Gibraltar, à Tanger, à Ténériffe, débarque à Bône en octobre, et se met en route en toute hâte pour rejoindre l'armée qui marche contre Constantine. Cependant, le mauvais temps et la difficulté des routes le retardent, et il n'arrive que le 17 octobre alors que le drapeau français flotte déjà sur les murs de cette ville depuis le 13.

Avec le regret d'avoir manqué une occasion d'acquérir de la gloire, le prince reprend la mer, explore les côtes du Sénégal et visite Gorée. Il fait également plusieurs excursions à l'intérieur du continent noir, où il rend visite à quelques chefs de tribus. Puis, le prince fait voile pour le Brésil et arrive en janvier 1838 à Rio de Janeiro. Il consacre ce mois à visiter les provinces et reçoit à Rio sa nomination au grade de capitaine de corvette.

Du Brésil, le prince se rend en Guyane, à Cayenne, à la Martinique, à la Guadeloupe. Il visite Washington, Philadelphie, Baltimore, les chutes du Niagara, New York, Boston, etc. Partout, il recherche avec ardeur les occasions de s'instruire, étudiant les mœurs et les usages et suivant surtout avec intérêt les divers développements de la puissance maritime. Après dix mois de navigation, il débarque à Brest le 11 juillet 1838; mais son repos n'est pas de longue durée.

Au mois d'août suivant, une escadre reçoit l'ordre de se diriger vers les côtes du Mexique pour mettre ses ports en état de blocus. Le prince de Joinville ayant reçu le commandement de la Créole, corvette de 24 canons, part de Brest le 1er septembre avec le contre-amiral Baudin, commandant de l'escadre.

Le 27 novembre, l'amiral donne l'ordre d'attaquer Saint-Jean-d'Ulloa, fort qui défend la ville de Veracruz.

Le 10 février 1839, le Roi décore le jeune commandant de la Créole (21 ans) de la Légion d'honneur et l'élève au grade de capitaine de vaisseau.

Au mois de mai suivant, le prince prend à Cherbourg le commandement de la frégate la Belle-Poule. Il s'embarque à Toulon où il rejoint l'escadre d'évolutions commandée par l'amiral Lalande. Il est nommé chef d'état-major de la division navale et fait bientôt voile vers le Levant, sur le Jupiter. 

Il débarque à Constantinople où un épouvantable incendie ayant éclaté à Péra et à Galata menace d'engloutir le plus riche quartier de la capitale. Le prince accourt alors à la tête de ses marins et dirige les plus actifs secours. Son intrépidité et celle de son équipage parviennent à préserver la ville du plus immense danger.

De Constantinople, Joinville rejoint son escadre à Smyrne et débarque à Toulon à la fin de décembre.

En 1840, le prince de Joinville participe au transfert en France des restes mortels de l'empereur Napoléon Ier.

Au mois de mai 1841, le prince de Joinville, embarqué sur la Belle-Poule, va visiter Amsterdam et tous les ports ou établissements maritimes de la Hollande. Il fait ensuite voile vers l'Amérique, visite le Cap-Rouge, Halifax, New York, Philadelphie, Washington puis revient en Europe par Lisbonne, où il est reçu par la reine Dona-Maria, et rentre en France en janvier 1842.

Avec toute la famille Royale, il est consterné par la mort accidentelle de son frère, le prince royal Ferdinand-Philippe d'Orléans.

Au mois de juin suivant, il repart sur la Belle-Poule avec l'escadre aux ordres du vice-amiral Hugon. Il accompagne alors son jeune frère le duc d'Aumale à Naples, puis à Lisbonne, et se dirige vers le Brésil, où il arrive le 27 mars 1843.

Ce voyage a pour but la demande en mariage de la princesse Dona Francisca de Bragança, fille de l'empereur Don Pedro 1er et sœur du futur empereur Don Pedro II et de la reine du Portugal Dona Maria.

L'union des deux princes est célébrée à Rio de Janeiro le 1er mai 1843.

Immédiatement après, le prince ramène son épouse en France où naîtront bientôt leurs deux enfants. Le 31 juillet 1843, Joinville est nommé contre-amiral avec voix délibérative aux séances du Conseil de l'amirauté.

Après leur mariage, le prince et la princesse de Joinville vont rendre visite à la reine Victoria du Royaume-Uni.

En 1844, le gouvernement français, mécontent des agressions réitérées des Marocains et de l'asile que ceux-ci accordent à Abd El-Kader, exige de leur part une réparation. Une escadre est alors envoyée sur les côtes du Maroc sous le commandement du prince de Joinville.

Au mois de juin 1846, celui-ci prend le commandement de l'escadre d'évolutions réunie en Méditerranée. Passionné par les progrès très rapides des technologies nouvelles, le prince prend la tête de la commission chargée d'étudier l'organisation d'une marine à vapeur. Il apporte tout son appui à l'ingénieur Dupuy de Lôme.

Sur le terrain politique, l'opposition du prince à Guizot accroit sa popularité.

Le 3 juin 1847, Joinville fait rendre les derniers devoirs aux restes des prisonniers français de la Bataille de Bailén (guerre d'Espagne, 1808), morts de misère sur le rocher de Cabrera, et dont les ossements étaient restés sans sépulture.

Lorsqu'éclate la révolution de février 1848, le prince de Joinville se trouve à Alger, près de son frère le duc d'Aumale, gouverneur de l'Algérie depuis le mois de septembre 1847. 

Le 3 mars, les deux fils de Louis-Philippe s'embarquent sur le Solon pour le Royaume-Uni où ils rejoignent leurs parents proscrits.

Exilé avec sa famille, le prince participe aux côtés de ses neveux le comte de Paris et le duc de Chartres à la guerre de Sécession dans les rangs nordistes.

Revenu en France pendant la guerre de 1870, le prince combat clandestinement les armées prussiennes.

Élu aux élections de 1871, il devient député de la Manche et de la Haute-Marne.

Réintégré dans son grade, il est à nouveau exclu de la Marine par la loi d'exil de 1886.

Le prince de Joinville meurt à Neuilly le 16 juin 1900.

Il a laissé de savoureux Vieux Souvenirs illustrés de sa main, différentes études sur la Marine, l'État des Forces navales de la France, le gouvernement britannique et la guerre de Sécession.


cf. http://ecole.nav.traditions.free.fr/officiers_orleans.htm

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A familia do rei Clemente

Ha um quadro de Debret, reproduzido n'uma excellente gravura de Pradier, que representa a família real portugueza no Brazil (com excepção das senhoras D. Maria Izabel e D. Maria Francisca, já a esse tempo residentes em Hespanha) por occasião do desembarque no Rio de Janeiro, 6 de novembro de 1817, da primeira mulher do príncipe real D. Pedro.

Estudo para Desembarque de Dona Leopoldina no Brasil, Jean-Baptiste Debret.
Imagem: Warburg

D. João VI sobe ao coche real, olhando ainda para a côrte. D. Carlota Joaquina está junto ao coche. D. Pedro e D. Leopoldina parecem trocar as primeiras amabilidades de noivos que se cumprimentam. 

Em linha, sobre o caes, estão D. Miguel, um sympathico rapazinho de quinze annos, D. Maria Thereza, D. Izabel Maria, D. Maria d'Assumpção e D. Anna de Jesus Maria.

Desembarque de Dona Leopoldina no Brasil, gravura de Charles-Simon Pradier segundo Jean-Baptiste Debret.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Os altos dignitários do Paço fazem assitencia á família real, distribuídos em grupos: encontram-se ali, pois, os retratos dos marquezes de Castello Melhor, Angeja, Bellas e Vallada; da condessa de Kimbourg, dama de D. Leopoldina; dos condes de Vianna, Figueira, Valladares, Cavalleiros, Paraty e Villa Nova; do visconde d'Asseca; do bispo de Goiaz, etc. (1)

*
*     *

Os filhos da minha filha, 
meus netos são. 
Os filhos da minha nora, 
serão ou não. 
Provérbio portuguez


A duqueza de Abrantes, Laura Permon, referindo-se á familia de D. João VI, observa: "O que é de notar é que nesta familia não há uma criança parecida com a sua irmã ou com o seu irmão." Esta variedade de typos explica-se facilmeute pela variedade dos pais.

Retrato de D. João VI, Rei de Portugal, c. 1802-1806,
cópia de um original perdido de Domingos A Sequeira
Imagem: Wikipédia

Passa como certo que dos nove filhos que D. Carlota Joaquina dera á luz, apenas os primeiros quatro tiveram por pai D. João VI. Foram D. Maria Theresa, D. António que morreu creança, D. Maria Isabel, rainha de Hespanlia, e D. Pedro IV.

Já não tem tanta razão a duqueza de Abrantes quando acha aquellas duas infantas, e as outras, "ni bien ni mal". N'esta apreciação, o desdém da mulher sobrepoz-se á imparcialidade da escriptora.

Algumas das filhas de D. Carlota Joaquina foram muito interessantes; nenhuma d'ellas era displicente como a mãe. Receberam escassa instrucção, como os irmãos [...]

Todas sahiram hystericas como a mãe. N'uma ou outra a diálhese hereditária accentuou-se mais. D. Izabel Maria era um feixe de nervos. Se estivesse com um braço estendido no momento de começar a detonação de uma salva de artilheria, conservava-se immovel, n'essa posição, até que terminasse a salva. Sobrevivem ainda pessoas, que presencearam este e outros factos similares.

D.  Carlota Joaquina, Nicolas-Antoine Taunay, 1817.
Imagem: Wikipédia

O hysterismo explica muitas complicações da vida das infantas. A falta de educação e de bons exemplos domésticos obstou a que a nevrose hereditária tivesse um coefficiente de correcção [...]

O viver intimo do Paço resentia-se da desorganisação da família real. Não havia essa serenidade que resulta da harmonia domestica, e que constitue a poesia do lar. Faltava a decência, base da dignidade da família. 

Até de commodidades havia falta. Os quartos das infantas quasi não tinham mobília, careciam em absoluto dessa attracção do interior, que prende o espirito á família e á casa.

Divertimentos, poucos. Theatro, algumas vezes; toiros, frequentemente. Em Salvaterra, quando a família real lá estava, havia ambas as coisas. Ali, em Salvaterra, pode dizer-se que o infante D. Miguel vivia numa permanente toirada. 


Quando não picava na praça, divertia-se introduzindo um toiro pelos corredores do Paço. As infantas e as senhoras da corte fugiam gritando. O espirituoso conde de Sabugal disse numa das suas composições poéticas, alludindo a isto, que em Salvaterra havia sempre "vacca viva".

Como se vê, os divertimentos daquella corte, originalíssima na sua decadência, não eram de geito a subtilisar o espirito, nem a amenísal-o [...]

Espectáculo de Titires em Lisboa, Nicolas Delarive.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

No Paço do rei [Palácio da Bemposta, tanbém conhecido por Paço da Rainha, como que por ironia] e no Paço da rainha [Queluz], pessoas de baixa estofa eram admittidas a intimidades, davam leis, discutiam politica.

O Tarrobuzo, reposteiro, José de Vagos, cosinheiro, os criados das cavalhariças, taes como os picadores Pedro Garrocho, João Rapozo, o Cambaças e outros, ao serviço da rainha, invectivavam publicamente o rei e o governo, todos elles se haviam distinguido mais ou menos no movimento de abril.

A exemplo da criadagem do Paço, a gentalha das ruas andava por botequins e bilhares suciando com elles. 

Nicolas Delerive, Mercado da Praça da Figueira.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Havia sempre grande fallacia no bilhar do Abbade ao Passeio, na loja de bebidas do Francisco Maneta ao largo do Soccôrro, no retiro do Cabeço da Bola, no botequim do Friza á esquina da rua das Pretas, ele.

Os soldados da marinha, do exercito e da policia confraternisavam com a sucia do Paço e outra ralé em varias lojas de bebidas, especialmente nas da rua direita do Loreto, que quasi se defrontavam.

Estabelecia-se assim um fluxo e refluxo de dichotes de calão, de observações picarescas e obscenas, que vinham do Paço ou entravam no Paço por intermédio dos cosinheiros, dos picadores, dos sotas.

As infantas conheciam a linguagem das lojas de bebidas, as chulices da espelunca do Maneta e dos botequins do Loreto. De mais a mais, sua mãe nunca tivera papas na lingua, habituara-as a fallar com liberdade. O próprio rei costumara-se desde pequeno a chamar ás coisas pelo seu nome. O mano D. Miguel usava a giria dos seus companheiros predilectos.

Feira das Bestas (detalhe), Nicolas Delarive [Delerive] (detalhe), Col Olazabal.
in José Mattoso, História de Vida Privada em Portugal, vol. II.
Imagem: Os africanos em Portugal...

A corte era isto, uma casa sem rei nem roque, onde toda a gente dizia e fazia o que queria. Como não havia festas, que educassem o espirito pelo respeito das conveniencias sociaes, vivia-se da bisbilhotice, de saber o que a rainha dizia do rei, e o que o rei dizia da rainha.

Em Queluz tudo corria do mesmo modo. D. Carlota Joaquina rodeiava-se de militarões, de criados, de intriguistas [...] (2)

*     *
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D. Maria Thereza, a primogénita, que foi sempre a predilecta de D. João VI, casou em primeiras núpcias (1810) com o infante D. Pedro Carlos de Hespanha, e em segundas núpcias (1838) com o infante D. Carlos. Viuva duas vezes, morreu em 1874.

D. Maria Teresa, atrib. Nicolas-Antoine Taunay, 1816.
Imagem: Parques de Sintra

Sempre muito absolutista, defensora acérrima do antigo regimen, escrevia de Cadiz, em 25 de junho de 1823, a um alto personagem de Lisboa, applaudindo às mãos ambas a restauração de Villa Franca: "Não posso deixar de dizer-lhe que tive a maior alegria quando soube a heróica resolução do mano Miguel, graças a Deus que tenho um irmão que soube ser bom filho, e bom vassalo." [...]

D. Maria Thereza foi a mãe do infante de Hespanha D. Sebastião.

D. Maria Izabel e D. Maria Francisca casaram em Hespanha, em 1810, a primeira com Fernando VII, a segunda com o infante D. Carlos.

D. Maria Francisca de Assis, atrib. Nicolas-Antoine Taunay, 1816.
Imagem: Parques de Sintra

Também a senhora marqueza de Rio Maior possue um excellente retrato de D. Maria Izabel: nutrida, branca, rosada. Um ar de bondade, bonacheirão como o de D. João VI, dulcifica-lhe o aspecto. Realmente, D. Maria Izabel foi boa, virtuosa.

D. Maria Isabel, atrib. Nicolas-Antoine Taunay, 1816.
Imagem: Parques de Sintra

Apenas logrou as honras de rainha de Hespanha durante dois annos. Morren em 1818, de um modo horrível. Estando gravida, tivera um accidente. Um inhabil medico de Fernando VII, julgando-a morta, fez-lhe a operação cezariana, para salvar a creança, cortando á vontade, largo e fundo.  A rainha tornou a si, e morreu dilacerada com atrocíssimas dores [...]

Antes de D. Maria Izabel havia nascido D. António, que apenas durou seis annos.

Retrato póstumo do Príncipe da Beira, D. António Pio,
atrib. Nicolas-Antoine Taunay, 1816.
Imagem: Parques de Sintra

D. Pedro, mais velho que D. Maria Francisca, nascera a 12 de outubro de 1798.

Pedro de Alcântara, Príncipe da Beira,
pintado por sua tia D. Maria Francisca Benedita em 1804.
Imagem: Google Arts & Culture

Era, ao tempo da invasão franceza, uma bonita creança de nove annos. "Joli garçon" lhe chama a duqueza de Abrantes, referindo-se approximadamente a essa epocha.

Na mocidade pintam-n'o branco, rosado, vivaz nos olhos, alto, desempenado como um pinheiro novo, saudável e destro [v. Google Arts & Culture ].

Intellectualmenle, não se avantajava muito a seu irmão D. Miguel: tinha porém um certo pendor, não convenientemente cultivado, para as bellas-artes. Amava a musica, como um bom Bragança, e de vez em quando perpetrava versos, d'ouvido.

A sua educação litteraria foi descurada, como a dos outros filhos de D. Carlota Joaquina. As cartas de D. Pedro são por vezes incorrectas, até na orlhographia [...]

D. Izabel Maria, que ficou regente do reino por morte do pae, foi uma bonita mulher. Mr. Hyde de Neuville faz-lhe esta referencia nas suas Memorias: "était fort jolie; son visage exprimait en même temps l'intelligence et la beauté."

D. Isabel Maria, atrib. Nicolas-Antoine Taunay, 1816.
Imagem: Parques de Sintra

Era, como jà dissemos, um perfeito exemplar de hysterismo. Acabou beata, rodeiada de padres, dois dos quaes, inglezinhos, herdaram os seus haveres. Morreu solteira, em 1876, e septuagenária. [...]

Depois de D. Izabel Maria, nasceu o infante D. Miguel, que terá menção especial, como o ultimo rei absoluto que se sentou no throno portuguez. É em torno do seu perfil histórico que se mobilisarão as restantes paginas deste livro.

D. Maria da Assumpção, nascida em 1805, foi sempre fraca, muito nervosa. Inspirou vários devaneios; e diz-se que o marquez de Loulé, depois seu cunhado, a namorara também.

D. Maria da Assunção, atrib. Nicolas-Antoine Taunay, 1816.
Imagem: Parques de Sintra

Ella e D. Izabel Maria acompanharam sempre D. Miguel, emquanto reinou em Porlugal. A voz publica accusou esta princeza de uma grave falta; chegou a dizer-se que morreu de parto.

O fado é excessivamente hediondo, para que, não podendo provar-se, insistamos em commental-o. Que morrera de cólera, diziam alguns. [...]

D. Anna de Jesus Maria, a predilecta da mãe, casou em 1 de dezembro de 1827, em Queluz, na presença da rainha, com o marquez de Loulé, "cujos amores com a infanta eram notórios". 

D. Ana de Jesus Maria, atrib. Nicolas-Antoine Taunay, 1816.
Imagem: Parques de Sintra

D. Izabel Maria, regente do reino, não deu auctorisação para o casamento. Mas a vontade da rainha, que protegia estes amores, prevaleceu.

O marquez, filho do que apparecêra morto em Salvaterra, era um homem elegante, de uma gentileza fidalga, de um porte verdadeiramente aristocrático, no que sahia ao pae, que tinha sido um feio distinctissimo. Ainda depois de velho conservava salientes vestígios d'esse ar altivo e nobre, que tanto havia impressionado as mulheres do seu tempo.

Tem-se dito que D. Miguel levara a mal este casamento, e odiava o marquez. É certo que os noivos fugiram do reino antes de D. Miguel chegar [...]

Tendo abrangido em grupo a família de D. João VI, especialmente as infantas, duas das quaes ainda nos apparecerão na corte de D. Miguel, uma impressão nos fica decerto: que a felicidade não foi património d'esta familia de contrabando.

Das três que casaram em Hespanha, a mais feliz seria a que morreu primeiro, a rainha [Maria Isabel]. 

Maria Thereza arrastou até á longevidade uma existência cortada de nervosismos. 

Maria Francisca, mulher do pretendente D. Carlos, andou por Portugal com o marido e tres filhos, correndo aventuras politicas, fugindo á perseguição do general Rodil, até que pela convenção de Evora-Monte teve de embarcar sob a protecção da Inglaterra na hora em que a causa das duas sobrinhas, Izabel II e Maria II, supplantou a dos dois tios, D. Carlos e D. Miguel.

Izabel Maria, a regente constitucional de [18]26, a companheira inseparável de D. Miguel absoluto, veiu de Elvas para Bemfica, quando o exercito realista depoz as armas, e em Bemfica se immobilisou tomando de longe o cheiro ao constitucionalismo, que lhe não lisonjeava o olfato, nem aos padres e miguelistas que a visitavam.

Maria da Assumpção, morta aos vinte e nove annos, ficou apodrecendo ao abandono na egreja do Santíssimo Milagre.

A mais nova, Anna de Jesus Maria, desposando o gentil marquez, que todo o mundo alcunhava de Sorte grande, não foi tão feliz na loteria do casamento, como aquella alcunha parecia prometter [...]

Não foi mimoso da sorte aquelle interessante bouquet de infantas realistas.

Kssssse! Pédro - Ksssse! Ksssse! Miguel! Gravura, Honoré Daumier, 1833
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Pelo que toca aos dois irmãos, Pedro e Miguel, o capricho da má fortuna accentua-se salientemente no facto de um, o vencedor, ter morrido logo após a victoria, e o outro, o vencido, ter sobrevivido á derrota durante longos annos de exilio. (3)


(1) Alberto Pimentel, A ultima côrte do absolutismo em Portugal, Lisboa, Liv. Férin, 1893
(2) Idem
(3) Idem, ibidem

Ligações:
D. Pedro IV (1798-1834), Google Arts & Culture
D. Miguel I (1802-1866), Arquivo Municipal do Porto
Miguel (D.), Dicionário histórico
Infanta..., Biblioteca Nacional de Portugal
Sereníssima Casa de Bragança, Pinterest
Missão Artística Francesa

domingo, 3 de setembro de 2017

O palácio e o chafariz

Do palácio...

João de Castilho [mestre‑de‑obras do Mosteiro entre 1517 e 1522] construíra para sua moradia em terrenos dos frades jerónimos situados a oriente da capela‑mor, para lá da Ribeira dos Pocinhos, no local onde se viria a erguer o fatídico palácio do último duque de Aveiro. (1)

CHEGADA DA SUPREMA JUNTA DA INCONFIDENCIA AO SITIO DE BELEM PARA ARRAZAR E SALGAR O CHÃO DO PALÁCIO DE JOZÉ DE MASCARENHAS EXAUTORADO DAS HONRAS DE DUQUE DE ÁVEIRO PELLO EXACRANDO ATENTADO CONTRA A AUGUSTA MAGESTADE D'EL'REY D. JOZÉ I NOSSO SENHOR A QUEM DEOS GUARDE 1759 BERTOLAMEO DA COSTA O FEZ ANNO 86 V
Imagem: Isabel Mello e Castro

ooOoo

Na procura de saber como de facto seria o palácio dos Duques de Aveiro em Belém, para além da informação que fomos recolhendo, socorremo-nos também de uma imagem, interessantíssima, divulgada pela nossa amiga Isabel de Mello e Castro que muito se interessa pelos assuntos ligados a Lisboa.

Veja-se a similaridade, e as diferenças, com uma outra que descartámos, no apontamento Palácio do Corpo Santo, e que abaixo voltamos a reproduzir, geralmente aceite como sendo do palácio dos duques de Aveiro.

Esta imagem, aqui horizontalmente invertida, é uma mistificação.
Baseada no original de Dirk Stoop de 1662, "O Palacio do Infante D Pedro em o Corpo Sancto em Lisboa" (v. a próxima imagem), foi, em 1707, invertida e publicada com figuras diferentes do original no primeiro plano e ao fundo, em Les delices de l'Espagne et du Portugal, tomo IV, em 1729 La galerie agréable du monde... ou em Annales d'Espagne et de Portugal, tomo III de Juan Alvares de Colmenar/Pieter Vander Aa.
Amplamente reproduzida e distribuída, durante mais de 80 anos, também a legenda foi adaptada aos acontecimentos que iam decorrendo.
Quando referente ao caso dos Távoras, em 1759, que foi divulgada pretendendo-se como representando o Palácio do Duque de Aveiro que seria depois arrasado.
A presente versão, "Palais du Comte d'Avero  á Lisbonne oú Charles III a été logé", é também um erro, pois Carlos III, de facto, esteve alojado no palácio dos condes de Aveiras, o actual Palácio de Belém.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Júlio de Castilho na sua obra, A ribeira de Lisboa, fala-nos  dos três palácios que o Duque de Aveiro possuia. Um no castelo, onde depois se fez o hospital dos soldados, outro no Largo da Esperança, em Santos-o-Velho, e o de Azeitão. 

Certo, o livro de Castilho trata a margem do Tejo desde Madre-de-Deus até Santos-o-Velho e, se, no entanto, menciona o palácio em Vila Nogueira de Azeitão, o de Belém não é referido.

O palácio em Vila Nogueira de Azeitão conheciamo-lo nós desde aquele passeio em landaulet pela Outra-banda, nos primeiros anos de 1900:

Brasier 16 20 HP de, landaulet de 1906.
Imagem: Delcampe

Nestas considerações nos levava o automóvel intruso, producto moço do engenho humano, e se internava, pesquizando o que o mundo tem de mais velho, com roncos d'um som inarticulavel com a sua mocidade, prevendo e prevenindo, arrogantemente, numa curva, algum viandante serrano, alheio ao progresso e despreoccupado.

O meu companheiro mandou parar. Estávamos em Azeitão.


Villa Nogueira (Azeitão), Antigo Palácio dos Duques de Aveiro.
Imagem:  Fundação Portimagem

Subimos alguns degraus, que dizem para o terreiro do velho palácio dos duques de Aveiro, com seu pelourinho. 

Uma hora de historia, de profundas recordações! Foi aqui preso, numa negra noite de novembro, D. José Mascarenhas, oitavo duque de Aveiro, decapitado no caes de Belém, no janeiro seguinte de 1759, como se sabe.

Lá está na fachada principal do palácio, sobre a janella predominante e central, arrasado, o escudo da nobre familia, que tinha o direito de nomear, senhores de baraço e cutello, e que, por implicada no attentado contra a vida de D. José I, Pombal tentou exterminar.

Na sala de baile e no guarnecimento de interessantes azulejos, talvez dos fins do século XVI, ha, num dos vãos, entre duas janellas, a falta de nove azulejos, que completavam a parte central da composição, onde presumo estaria, antes do sinistro espectáculo de Belém, o escudo a que alludi.

A caracteristica vivenda, que tem passado por differentes vicissitudes, pertence actualmente ao sr. Oliveira Boal, cujos filhos nos receberam com amabilidade e nos mostraram os azulejos d'aquella e das mais salas do histórico palácio.

in José Queiroz, Da minha terra: Figuras Gradas..., Lisboa, Imp. Libânio da Silva, 1909

v. O Archeologo Portuguez

ooOoo

No despontar do século xviii, Belém usufruía, [...] de uma orgânica administrativa e económica própria à qual não era alheia a amplificação da sua orgânica social. A acrescentar aos já referidos, foram surgindo outros palácios e quintas na zona, na sua maioria casas de recreio da nobreza titular, inscritas numa nova dimensão social imposta pelo modelo barroco [...]

Vué du port & de l'église de Bellem & de celle de S. Amat cf.
Les delices de l'Espagne et du Portugal... Juan Alvarez de Colmenar, 1707, cf.
Vista  de Santo Amaro e Perspectiva do lugar de Bellem, Dirck Stoop, 1662.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Os palácios pertencentes a estes titulares eram os seguintes: (1) Duques de Cadaval: palácio de Pedrouços, onde hoje está instalado o Instituto de Altos Estudos Militares. (2) Marqueses de Borba: situado do lado sul da Rua de Pedrouços, antes de chegar à quinta dos duques de Cadaval, demolido nos anos 60 do século xx. (3) Condes de Aveiras: palácio de Belém, ou quinta de baixo. (4) Condes da Calheta: palácio do Pátio das Vacas, ou quinta do meio. (5) Condes de Óbidos: palácio do Meirinho‑mor ou quinta de cima. (6) Condes de S. Lourenço/ Sabugosa: quinta da Praia, no local onde hoje se encontra o C.C.B. (7) Condes da Atalaia: casa do governador da torre. (8) Condes de Santa Cruz: casas que haviam sido de João de Castilho no local onde depois se ergueria o palácio do duque de Aveiro, arrasado em 1759 na sequência do processo de condenação dos presumíveis autores do atentado a D. José, no local onde hoje se encontra o padrão do chão salgado. (9) Correios‑mores: casa dos marqueses de Penafiel no Bom Sucesso.

Logo em 1756, para substituição da antiga Cadeia do Limoeiro que havia sido arruinada pelo terramoto, Pombal ordenou que se instalasse em Belém a Cadeia Principal, aproveitando‑se um velho edifício sito entre a Rua do Cais e os terrenos fronteiros ao palácio do duque de Aveiro. (2)

D. José Mascarenhas, que foi oitavo duque de Aveiro, quinto marquez de Gouveia, oitavo conde de Santa Cruz e mordomo-mór de el-rei D. João V e D. José I, sendo por este soberano condemnado á morte por attentar contra a sua vida na fatal noite de 3 de setembro de 1758. (3)

O palacio da residencia do Reo José de Mascaranhas duque de Aveiro, no sitio de Belem, com frente para a praça do chafariz, chamado da bolla, foi arrazado e salgado etc. (4)

Viaje de Cosme de Médicis por España y Portugal (1668-1669), Pier Maria Baldi.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Do chafariz...

A bula Inter Caetera, datada de 14 de Outubro de 1459, concedeu a confirmação canónica à ermida de Santa Maria de Belém no Restelo, atribuindo à nova paróquia uma área de jurisdição simbólica, delimitada por um círculo imaginário em seu redor, tendo por raio a distância de um tiro de besta. 

Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém, Filipe Lobo, ass: Philippus Lupis Fecit 16--.
Imagem: Christie's

A fundação da nova capela incluiu também a instalação de um cano, chafariz e fonte para servir tanto a nova igreja como todas as embarcações que, ancoradas naquele porto, ali quisessem fazer aguada.

Mário Sampaio Ribeiro faz um apontamento curioso com relação a este trecho da carta de doação: levanta a possibilidade de a ideia comummente aceite de o infante ter mandando construir um chafariz e uma fonte ser fruto de uma má leitura do original, no qual se leria "ponte" em vez de "fonte", pois no seu entender a proximidade dos termos "chafariz" e "fonte faria da sua dupla menção um pleonasmo. Admitindo, assim, a hipótese de o documento se referir a uma ponte, essa seria a que atravessava a ribeira dos Pocinhos e cuja construção deve ter sido coeva da fundação da ermida. (5)

Luiz Moreira , e sua mulher Catharina Antunes, possuíam um serrado a que chamavam — das Figueiras — no sitio de Alcolena , aonde havia um charco d' agua, e o Senado lavrou com elles uma Escriptura em 28 de Abril de 1611, comprando-lhes a agua que ali se achasse, a qual depois seria medida, e paga a razão de 100$000 réis por cada anel; com a declaração de que não se achando agua, o terreno ficaria nivelado como dantes se achava, á custa do Senado; o qual tomou posse por authorisação dada a Francisco Tavares da Silveira, Vereador do Pelouro das Obras, em 17 de Maio do mesmo anno.

Belém, Grande Panorama de Lisboa Azulejo (detalhe), c. 1700.
A ponte da ribeira dos Pocinhos no grande painel de azulejos com o panorama da cidade, que celebra a Lisboa filipina.
Imagem: Flickr

Fizeram-se excavações, minas, duas arcas de agua, &c. e por um accordo entre o Prior, e mais Padres Deputados do Convento dos Jeronymos, em 11 de Julho de 1613, se deliberou — que o encanamento podesse passar pela sua Sachristia, deixando ali uma porção d' agua para o Lavatório, — o que assim se fez; e por ultimo, em 5 de Janeiro de 1617 se lavrou outra Escriptura, pela qual o dito Moreira, e sua mulher venderam ao Senado toda a agua ali achada, por 150$000 réis; de que houve segunda posse por com missão dada a Gaspar d'Abreu, em 13 do dito mez, e anno.

Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém, Filipe Lobo, 1657, ass: Philippus Lupus fecit MDCLVII.
Imagem: MNAA

Com esta agua fez o Senado o Chafariz chamado — da Bolla — que em 1837 foi mudado para a ilharga da Capella Mor do dito extincto Convento.

Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém, Dirck Stoop, c. 1660 - 1670, 1662.
Imagem: Mauristhuis Museum

Tendo esta agua diminuido mui consideravelmente, se abriram em 1830, mais adiante da nascente duas Clarasboias, e se encontraram de 3 a 4 pennas d'agua , que se podia encanar para a mina velha , no que se gastaram 169$163 réis; porém não se fez a obra, não obstante a grande falta d'agua que este Bairro experimentava; o que a Camara Municipal de Lisboa quiz evitar, deliberando em Sessão de 28 de Maio.de 1846, se fizessem as obras necessárias no sitio da nascente para acquisição de mais agua; e se edificasse um novo Chafariz no sitio do Chão Salgado.

Largo do Chafariz da Bola.
Alinhamento da Rua de Belém (detalhe), 1917.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Começaram-se os trabalhos no 1.° de Junho do mesmo anno, fazendo-se em continuação da mina antiga, mais 124 braças de mina nova; — reformaram-se 240 palmos do antigo encanamento; — e pelo Largo de Belém se fizeram mais 964 palmos até ao logar do Chafariz.

A - Memória madada erigir depois do atentado régio de 3 de setembro de 1758, no terreno denominado de "Chão Salgado" que o palácio, a quinta murada e o jardim do Duque de Aveiro ocuparam antes de virem a ser arrasados.
Linha vermelha - Periferia do Chão Salgado onde está comprehendido o actual Largo do Chafariz da Bola.
Preenchimento a vermelho - alácio do Duque de Aveiro José Mascarenhas antes de ser arrasado, segundo uma planta de 1717. 
Expropriações na Rua de Belém (detalhe), 1916.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

No dito sitio do Chão Salgado se fizeram as expropriações precisas , para formar a boa Praça como agora se vê ; e finalmente , este bello Chafariz prompto, e acabado deitou a primeira agua aos 12 minutos depois do Meiodia, de 4 de Abril de 1848; á vista do grande concurso que para esse fim ali se achava; enchendo o primeiro barril um Criado do Sr. Domingos Fernandes , morador em frente do mesmo Chafariz, N.° 46; não apparecendo ali em todo o tempo que nos demorámos, nem o Capataz, nem um único Aguadeiro [...] (6)


(1) Isabel Corrêa da Silva, O Sítio de Belém
(2) Idem
(3) Historia de reinado de el-rei D. José e da administração do marquez de Pombal
(4) O Archeologo Português vol. 18
(5) Idem, ibidem
(6) Memoria sobre chafarizes, bicas, fontes, e poços públicos de Lisboa

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Archivo Pittoresco, Chafariz de Belém

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Paixão por Lisboa: Chafariz de Belém
Paixão por Lisboa: Padrão do Chão Salgado
Paixão por Lisboa: Palácio do duque de Aveiro
Chafariz de Belém no desaparecido Largo Frei Heitor Pinto



Em Belem ha um sitio que durante muitos annos era apontado com horror. Referimo-nos ao Chão Salgado. Encontra-se na rua Direita de Belem, e lá mandou a camara, depois do meado do século XVIII, collocar uma memória, recordação de uma das mais atrozes vinganças do marquez de Pombal.

Entre o largo do chafariz e a travessa a Este, junto da calçada do Galvão, estava o palacio do duque de Aveiro, que occupava toda essa área. Alli mesmo é que foi collocada a ignóbil memória, depois de arrasado o prédio e salgado o terreno: uma columna cylindrica da altura de cinco metros, rematada em fórma de pyra, e rodeada de cinco anneis de pedra, symbolisando as cinco pessoas da familia do duque de Aveiro, que tomaram parte na conjuração contra D. José I.

No plynto da columna gravou-se o seguinte:

"Aqui foram arrasadas e salgadas as casas de José de Mascarenhas, exauctorado das honras de duque de Aveiro e de outras, condemnado por sentença proferida na suprema junta de inconfidência , em 12 de janeiro de 1759. Justiçado como um dos chefes do barbaro e execrando desacato que na noite de 3 de setembro de 1758 se havia commettido contra a real e sagrada pessoa de D. José I. N'esle terreno infame se não poderá edificar em tempo algum."

O attentado contra D. José é um problema para resolver. Sabem todos que Sebastião José de Carvalho e Mello era fidagal inimigo da nobreza, que lhe pagava na mesma moeda. Ancioso por dominar-lhe o poder e prestigio de que gosava ainda essa classe, não perdia ensejo de abatei a. E o mesmo com respeito aos jesuitas. Ora a conspiração de 3 de setembro forneceu-lhe tão bons meios de exercer a sua vingança que a gente fica a pensar se não andaria em todo esse desgraçado acontecimento alguma influencia machiavelica!

D. José andava, um pouco desviado do redil matrimonial, e na corte não era mysterio a sua predilecção pela formosa condessinha, filha dos Tavoras e mulher do conde de Atouguia. A rainha vivia desgostosa, os Tavoras envergonhados, e o marido, sem duvida, revoltado. Nada seria de espantar que os interessados tirassem partido da situação.

Emfim, D. Jose sahiu da quinta real da calçada do Galvão na noite de 3 de setembro de: em coche [sege], acompanhado do seu creado particular e confidente Pedro Ferreira. A pouca distancia, num campo, onde está a egreja da Memoria. dispararam-lhe alguns tiros de bacamarte sobre o trem [a liteira]. Eram pelos modos tres os assaltantes, mas um errou fogo, e todos creados do duque de Aveiro e do marquez de Tavora. O coche ficou furado [A sege ficou furada], mas el-rei so recebeu um ferimento no braço esquerdo.

Voltou o trem para a Junqueira, e assim ficou sem effeito o segundo attentado que devia dar-se mais adiante, na previsão de mau exito do primeiro. Não pnmavam em tactica os conspiradores, porquanto lhes não occorreu a idea branca de que el-rei poderia retroceder, visto ser mais seguro voltar ao ponto de onde partira. El rei foi para a Junqueira e recolheu a casa do marquez de Anjeja, que habitava o antigo forte, e lá recebeu curativo, depois do que regressou ao paço. No dia immediato sabia se do caso em toda a Lisboa, e. corriam boatos insistentes de que os auctores tinham sido os Tavoras. Quem os espalharia?

As intrigas da côrte não chegavam ao conhecimento do povo, e os nobres mais depressa tomariam a defeza, do velho marquez do que se poriam ao lado do ministro que odiavam. O marquez de Tavora correu logo de manhã ao. paço afim de apresentar os seus sentimentos a el-rei, e prestou se a procurar os auctores do regicídio frustrado, mas o marquez, que o recebeu bypocritamente, recommendou-lhe que não desse passo em tal ca minho porque a rainha attribuía o caso a questão de infediiidade, e era necessario não produzir escandalo, ...Chama-se a isto revolver o punhal da afironta com a frieza de um operador cirúrgico.

O marquez de Pombal procedeu se cretamente; deixou sahir o duque de Aveiro com a família para o seu palacio de Azeitão, e não deu signal de proceder contra quem quer que fosse. Tres mezes e dez dias se passaram sem que os desgraçados sonhassem no horrível fim que o ministro de D. José lhes preparava. madrugada de 13 de dezembro foram cercadas as habitações de todos os membros da familia dos Tavoras, conde de Atouguia, marquezes de Lorna, condes de Óbidos, condes da Ribeira, do Calhariz, desembargador Antonio da Costa Freire, de outros fidalgos, e bem assim todas as casas dos jesuítas.

Os ministros dirigiam o movimento, e prenderam os fidalgos, esposas e filhos, e todos os creados que eram indicados na lista. O marquez de Tavora, honrado e respeitabilíssimo ancião, sabia de um baile em casa de uma aristocratica familia ingleza, e informado do movimento de tropas correu ao paço a queixar-se da indisciplina, porquanto era elle o inspector de cavallaria.

Ali foi preso pelo marquez de Pombal, e entregue ao conde de Soure e a D. Luiz da Cunha, que o conduziram á quinta dos Bichos, quinta de Belem, cuja porta defrontava com o caes, e onde estavam já seus fiihos e genros, incommunicaveis e guardados á vista.

Na manhã d’este mesmo dia appareceram as paredes das pra- ças e principaes ruas de Lisboa cobertas de grandes cartazes narrando o attentado, e declarando que o coche destruído pelos tiros estava patente ao publico na cocheira do paço.

Promettia com prodigalidade dinheiro, honras, titulos, postos, uma aluvião de prêmios tentadores a quem delatasse o que soubesse a tal respeito; e até promettia o perdão a todos os cúmplices secundários que se promptificassem a depôr.

Era um luxo de velhacaria... O fio do trama estava em boas mãos, talvez nas próprias que lhe forneceram a matéria prima!

Acompanhava este edital um outro prohibindo a todos os portuguezes, residentes no reino, que d'elle sahissem, mesmo que fosse da terra do seu domicilio, sem provarem a sua identidade perante o ministro ad hoc, o qual só lhes concederia licença depois de rigorosíssimo exame, com todas as declarações de signaes phisionomicos, fins e dias de ausência.

A marqueza de Tavora velha foi presa para o mosteiro das Grillas; a marqueza nova para Santos; a marqueza de Alorna para Chellas; a duqueza de Aveiro para o Rato, e a condessinha de Atouguia para a Magdalena.

Todas as filhas e filhos menores d'estas desventuradas senhoras toram distribuídos por conventos e collegios, com ordem de serem tratados como plebeus, e privados de relações externas, não tornando a ver suas mães e irmãos!

Que cumulo de selvageria!... Apenas o conde de Villa Nova foi excluído da odiosa vingança, porque estava nas boas graças do marquez de Pombal. Teve, porém, de despedir todo o pessoal do seu serviço, porque tinha servido seu pae, o desgraçado marquez de Tavora. D. Manuel despediu tudo, e no mesmo dia tomou creados novos

Não é sympathica a sua attitude, nem se pode louvar a sua condescendência em troca de uma vida que ficava infamada pela condemnação de todos os seus...

De que massa seria feito o coração d'esse homem para não estalar de dôr perante a martyrio de seus velhos paes, e de gentilíssimos mancebos que a compaixão humana ficou lamentando.

A casa dos Vinte e Quatro e o juiz do povo representaram a el-rei o seu sentimento, e pediram que, os réus fossem desnaturalisados, e que contra elles fosse admittida toda a qualidade de prova, afim de serem castigados sem misericórdia.

Isto era gente do povo... nem sabemos como estes humanitários varões se esqueceram de celebrar com Te Deums os morticínios do Porto, por occasião da revolta contra a companhia real dos vinhos do Alto Douro!

Elle o grande ministro não precisava da approvação da casa dos Vinte e Quatro, nem procedia por suggestões do juiz do povo. Juiz unico se considerava elle, e por sua deliberada actividade se fez processo, provas, condemnação, tudo a vapor e sem necessidade de interrogar cs accusados nem citar testemunhas.

O horror d’estas execuções, que não teem similares na historia moderna, e que foram muito além dos horrorosos supplicios da edade média, nem se descreve. Foi escolhida a madrugada de 13 de janeiro de 1759 para a carnificina. 

A marqueza de Tavora (D. Leonor), seu esposo, velho general que na índia, quando governador, se houve heroicamente, bem como a nobre senhora, Luiz Bernardo de Tavora e José Maria de Tavora, filhos dos marquezes, ambos bellos, na flor da mocidade, aureoladas de longos e annellados cabellos louros, illuminados de ideaes brilhantes, e sem crimes nem maus sentimentos, o conde da Athouguia, o duque de Aveiro, Manuel Alves Ferreira, guarda roupa do duque. um cabo de esquadra ás ordens do joven marquez Luiz Bernardo de Tavora, cujo nome era Braz José Romeiro, João Miguel. moço de acompanhar o duque, e Antonio Alvares, todas essas victimas do odio mais cruel que póde conceber-se, foram torturados ultra-horrivelmente, despedaçados, queimados e lançados ao Tejo depois de reduzidos a cinerarios destroços.

Serviu de oratorio a quinta dos Bichos.

Só perto das cinco horas acabaram os algozes a sua infamissima tarefa. Trabalharam á lufa-lufa desde o raiar da luz matinal.

A salga do terreno occupado antes pelo palacio do riquíssimo duque de Aveiro tinha em vista impedir que ali se désse qualquer plantação de futuro. Seus bens e os dos Tavoras passaram para a fazenda real. O dinheiro e boas propriedades não estavam incursas nos anáthemas régios...

D'este mesmo sitio partiram cs jesuítas expulsos de Portugal por decreto de 3 de setemhro do mesmo anno, anniversario do attentado. Também foi ponto de reunião da familia real, comitiva de D. Maria I e príncipe regente D. João VI, quando fugiram a toda a pressa para o Rio de Janeiro, pela entrada do exercito francez em Portugal. (1)


(1) Angelina Vidal, Lisboa antiga e Lisboa moderna