segunda-feira, 19 de junho de 2017

O Grémio Artístico (6.ª exposição, 1896)

A apparição de Columbano nas exposições do Grémio Artístico é um facto de que devemos congratular-nos, tanto a falta das suas obras, de tão poderosa originalidade, lá se fazia sentir.

Retrato de Rafael Bordalo Pinheiro (detalhe), Columbano, 1891.
Imagem: Tinta com pinta

Columbano

Foi uma entrada á pressa, realisada, na sua maioria, com trabalhos da ultima hora, retratos pela maior parte, alguns decorados com titulos caprichosos, mas o grande valor da sua exposição está nos tres retratos que dominam o primeira sala, e de tal modo que, fitando-os, empolgam-nos e fazem-nos esquecer a restante pintura que os cerca.

Columbano.
Imagem: Branco e Negro, abril de 1896

O retrato de Raphael Bordallo Pinheiro, que fora exposto em Paris no Salon de 1891, exprime admiravelmente o modo de sentir de Golumbano.

Ante o seu modelo o que viu foi a alma energica, amargurada, enthusiasta e descrente, forte pela intuição do seu genio, desdenhosa da imbecilidade circumvisinha, do grande caricaturista. A fórma omitte-a, os detalhes subordina-os ao symbolismo da sua ideia, e essa ideia, viva no olhar, na attitude, na expressão de todas essas feições, afogadas n’uma sombra sapiente, brilha, chamando-nos, attrahindo-nos para a interrogação d’uma personalidade que, se a não conhecêssemos, a adivinhariamos, tanto o artista a faz dizer de si pelo vigor com que a apresenta.

Retrato de Rafael Bordalo Pinheiro, Columbano, 1891.
Imagem: Tinta com pinta

A pintura é larga e solida, as tintas lançadas com a firmeza d’uma decisão absoluta. Sentado n’uma chaise-longue, o sobretudo desabotoado, mostrando a sobrecasaca, tendo ao pé de si uma meza onde se vêem, espalhados, papeis, Raphael Bordallo parece tomar um instante de passageiro repouso, e o seu olhar negro e profundo fita-nos, penetra-nos, pensativo, emquanto que o começo d’um sorriso ironico parece agitar-lhe os músculos da face. Não é um retrato, é a synthese d’um homem, feita pelas projecções, da luz e da sombra ao sopro da inspiração.

O retrato de Ramalho Ortigão, como bem representa a pose que o nosso velho Ramalho tem sustentado na vida, e que o não abandona mesmo na hora de se confessar vencido! Parece que foi lançado na tela d’um jacto, que náo foi preciso o trabalho dos pincéis, nem o esforço da mão para os dirigir. 

A bella cabeça de Batalha Reis, tão íinamente modelada, brilhante de intelligencia, completa este grupo de retratos d’homens notáveis com que Columbano veio animar a exposição.

Retrato de Jaime Batalha Reis,, Columbano, 1892.
Imagem: MNAC

Um retrato também é, sem duvida, aquella preciosa cabeça, da "Mulher que ri", tão expressiva e tão delicada, assim como retratos são a tão singular "Mulher da luneta", a que alegremente toma chá, estudo que exprime com uma franca bonhomia a physionomia sympathicamente intelligente e viva da retratada.

Mulher da luneta, Columbano, 1896.
Imagem: Wikimedia

Raul Brandão, um dos novos, com talento e alma, alma magoada por doentia sensibilidade, mas tão aberta á emoção, diz de Columbano, quando n’um pequeno artigo lhe pinta a feição a largos traços:

"A educação da cor a que Columbano fugiu, preferindo-lhe a sua visão pessoal. é uma das coisas que mais irrita n’este pintor. A outra é o seu genio. Ter personalidades e ter genio — eis ahi duas coisas que bastam para ser odiado."

"Quem pela primeira vez vê os seus retratos tem esta impressão: parecem de afogados. A cor é escuríssima, fundo negro, tintas que não estamos acostumados a ver. Mas é certo que, quem se pozer na luz do atelier a olhar um modelo, para logo vê a verdade da cor: a carne dá aquillo. Depois ainda mesmo que a cor não fosse verdadeira, bastaria a alma e a vida que resalta de cada um dos retratos, para fazer de Columbano o maior dos nossos pintores."

"Não é a copia banal e colorida do modelo : é a alma que elle conseguiu arrancar-lhe e estatelar na téla. Parece que cada um dos retratos foi surprehendido quando sósinho tecia as suas ideias mais negras..."

E entre os novos que Columbano tem encontrado os seus mais ardentes adeptos, a sua pintura tão psycologica deve ser melhor comprehendida por esses devaneadores irrequietos. Mas aquelles que o não comprehendiam, também pelo retrahimento em que se encerrava, vão aprendendo a aprecial-o, e a elle, que é ao mesmo tempo um audaz e um timido, deve ser-lhe grato o vêr-se comprehendido e sentir-se animado pelo calor dos applausos.


O tio Jeronymo

Um canto de jardim

Cabeça de mulher (estudo)

O garoto

Rapariga

Estudo (effeito de noite)

Carlos Reis  

Carlos Reis apresenta uma espectaculosa exposição de telas de vastas dimensões, e entre ellas, um pequeno quadro, o "Retrato de minha mãe" que, pela sua simplicidade e tocante sinceridade, absolve o pintor de todos os defeitos que resaltam nas obras com que intenta deslumbrar.

Realmente admiravel este bocadinho de pintura, no meu entender um dos melhores da exposição.

E arte feita religiosamente, o retrato d’aquella boa velhinha, com o seu ar feliz de doce aconchego* a paleta do artista, suavisada pelo toque da emoção, dá-nos n’esta obra a medida do que elle póde fazer, sempre que seja sincero e justo.

Retrato de minha mãe, Carlos Reis, c. 1896.
Imagem: Catalogo illustrado da 6ª exposição de arte promovida pelo Grémio Artístico em 1896

Pena ainda foi que o amor do insolito o levasse a deixar incidir sobre os olhos do modelo aquelles importunos raios de luz que lhe alteram a expressão, dandolhe um ar noctivago.

A factura, como a de toda a pintura de Reis, é agradavel e larga, mesmo nos mais pequenos detalhes, que, apezar de tudo, eu desejaria aqui vêr menos tratados.

A mais bella das suas paysagens é a "Manhã em Clamart", tão rigidamente fria, como as outras são ardentemente esbrazeadas; procura seduzir por meios oppostos, e realmente consegue-o, pois é uma das obras que mais attrahe na exposição.

São verdadeiramente bellos os effeitos da luz matinal que brilha atravez das brumas fluctuantes sob um céu, que se vê logo não ser o nosso céu.

O "Cahir das folhas" e nas "Vaccas na pastagem" lambem o talento do artista domina o seu instincto espectaculoso, mas nos restantes, o ruidoso ar decorativo e a tendencia de brilhar por meio de esforços violentos, roubando-lhes toda a sinceridade, desvia-os do caminho das obras de arte para a pintura de bric-a-brac.

Reis é um indisciplinado e um orgulhoso; estes defeitos transformam-se algumas vezes em qualidades, que servem o artista, e podem mesmo eleval-o a grande altura, quando uma ponta de gênio os toca, mas conservando-se simplesmente defeitos prejudicam o talento mais solido, lançando-o nos desvarios da extravagancia. Vejam aquella paysagem "Ao cahir da tarde" em que a extremidade dos galhos da arvore incendiados, lembram um fogo de artificio. Por muito que conceda ao temperamento do artista, não me parece que elle podesse ver aquillo sinceramente.

A physionomia especial do caracter de Reis interessa-me, lembra-me de o conhecer ainda creança, na tabacaria Neves, encetando a carreira do commercio; mas não era aquelle o seu destino, e dentro em pouco encontrava-se na Escola de Bellas-Artes, estudante applicado e distincto. N’um concurso de paysagem, o seu natural talento e a protecção de Silva Porto, de quem era um discipulo querido, fizeram-no passar pensionista do estado, para a Escola de Bellas-Artes de Paris, que mal frequentou, porque as violências do seu caracter o rebellavam contra a disciplina académica.

Foi á solta pelos museus e ateliers que elle fez a sua educaçãa artistica, e eil-o de volta a apresentar-nos, com igual ruido, o seu mérito e os seus exaggeros em paysagens, retratos, composições de genero, onde vemos oppor-se fogosamente, n’um singular contraste a obra d’um meridional tapageur, irrequieto, doido pela côr nhima ardência que escalda, e a sua physionomia loura, d’olhos pallidos, a figura de levita abotoada n’uma comprida sobrecasaca, que pareceria conter toda a íieugma d’um homem do norte, se não fossem os movimentos nervosos que o agitam.

Sejam porém quaes forem os defeitos com que se apresenta, este artista tem personalidade, o que é já bastante, viu, estudou, e, na monotonia geral da exposição do Grêmio, os seus trabalhos picam-nos, excitam-nos a analysal-o, devemos -pois agradecer-lhe a porção de vida que veio trazer a um corpo anêmico.


Domingo de primeira comunhão (França)

Sem familia

Um typo (esboço)

Retrato de Madame de V. F.

Velho veneziano

Margens do Almonda (aguarela)

Paisagem do Rio Almonda, Carlos Reis, possível 1896.
Imagem: José Rosário ou Wikimedia

Veloso Salgado

Salgado não apresenta este anno nenhuma obra que se imponha nos dominios da arte. Se o que expõe para outros seria muito, para elle é pouco. Retratos, completos uns, ligeiramente esboçados outros, e não são estes os que valem menos, indicando a facilidade do pincel que os apontou em dois traços, dizem-me que são d’um verdeiro artista, mas também de que elle se esqueceu de que fizera o retrato de Braamcamp Freire, e de que, portanto, nos tinha na expectativa d’alguma obra que viesse aquecer-nos e dar nos o prazer do enthusiasmo. Não me demorarei na analyse d’esses retratos que só dizem ao publico o que elle não ignora ha muito, isto é, que Salgado sabe pintar.

Interessam-me mais os dois quadros "No castanhal" e "Visão". Este ultimo, que na cor e na fórma parece indicar que o artista se inspirou em Puvis de Chavannes, é uma d’essas phantasias que para muitos nada dizem, mas que devem ser filhas dilectas de certas imaginações exaltadas, exprimindo estados d’alma em momentos raros que, pela sua raridade mesma, não são vulgarmente comprehendidos, mas também não deixam por isso de ser manifestações d’arte sincera. Aquella "pochade" feita d’uma maneira tão arrojada e simples, tem feito sorrir alguns; confesso, porém, que me prendeu a attenção por muito mais tempo de que outras obras mais reaes e acabadas da exposição.

Visão, Veloso Salgado, c. 1896.
Imagem: Catalogo illustrado da 6ª exposição de arte promovida pelo Grémio Artístico em 1896

"No castanhal" — um delicioso "plein air" é de ver como o pintor amorosamente lançou na téla aquella serena e graciosa figura de mulher, que tranquilla avança sob as arvores copadas. E táo delicadamente poética esta bella paysagem, exhala uma emoção recatada de tão inexplicável encanto, que decerto o artista a executou n’alguma hora boa em que o seu espirito, numa propensão de ternura, o tinha afastado das violências da lucta pela vida, que fazem soar tantas horas más.

Outras obras 
cf. Catalogo illustrado da 6ª exposição de arte promovida pelo Grémio Artístico em 1896

Retrato da Ex.ma Sr.a D. A. M. A.

Retrato da Ex.mo Sr. P. A.

Retrato da Ex.ma Sr.a D. O. M. S.

Retrato da Ex.ma Sr.a D. O. M. S., Veloso Salgado, c. 1896.
Imagem: Catalogo illustrado da 6ª exposição de arte promovida pelo Grémio Artístico em 1896

Retrato da Ex.ma Sr.a D. M. S.

Retrato da Ex.ma Sr.a D. E. S.

IV

A hora em que isto escrevo já a exposição está encerrada, e resta-me ainda tratar da maioria dos expositores. É facil a tarefa, porque em geral fizeram bem pouco. Não admira ; quem poderá ter gosto em trabalhar aqui?

José Malhoa

Malhôa apresenta um quadro "Embraçar cebolas" onde ha a admirar a belleza dos últimos planos, 

Embraçar cebolas, José Malhoa, 1896.
Imagem: Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos no flickr

expõe também alguns retratos, sendo muito interessante pela delicadeza de tons e fina expressão o da condessa de Proença-a-Velha.

Retrato da condessa de Proença-a-Velha, José Malhoa, c. 1896.
Imagem: Catalogo illustrado da 6ª exposição de arte promovida pelo Grémio Artístico em 1896


Retrato da Ex.ma Sr.a Maria X. Moncada; Retrato do Manuel João [da Costa]

Retrato de Manuel João da Costa, José Malhoa, 1896.
Imagem: MatrizNet

António Ramalho

Ramalho continua dormindo á sombra dos louros, e depois, nas horas de espreguiçamento, pinta alguma coisa, para não nos esquecermos d’elle, mostra-nos uns explendores de luz a dizer-nos: veem vocês, se eu quizesse... e volta ao somno. Arranjava uma bella cama aquella palha fresca áos, "Milhos de S. Miguel [Alto Minho]". Que dormideiras conseguiriam entorpecer o vivo espirito d’esse rapazote que, correndo atraz da Arte, como outros correm atraz de borboletas, veiu parar a Lisboa, merecendo uma epopeia, e que de Paris nos deslumbrou com a magia do Lanterneiro? Ah Ramalho, Ramalho...

Graças a Deus

Graças a Deus, António Ramalho, 1896.
Imagem: invaluable

A colheita das abóboras (Nevogilde); Mendigo

Mendigo, António Ramalho, 1896.
Imagem: António Ramalho no YouTube

Estudo


Ernesto Condeixa

Condeixa escolheu um interessante assumpto na antiga historia portugueza para o seu quadro "El-Rei D. Fernando I e o Infante D. Diniz" mas a interpretação é inferior ao que o artista podia dar.

El-Rei D. Fernando I e o Infante D. Diniz, Ernesto Condeixa, c. 1896.
Imagem: Catalogo illustrado da 6ª exposição de arte promovida pelo Grémio Artístico em 1896

Acho fraca a expressão geral das figuras, mau o gésto de D. Fernando, de que a physionomia exprime bem, na contracção, a cólera. Gósto da attitude contida de D. Leonor Telles, e acho boa a execução de alguns accessorios, principalmente do tapete que cobre o pavimento. E bastante crua a luz que entra, coada, pelos vidros de cores.


A quinta do Marquez de Bellas em dia de romaria; O pinhal da Fonte Eireira (Bellas); Um pescador (recordação de Paço d'Arcos); Uma officina de lanterneiro; Um cantinho de quintal.

Luciano Freire

Luciano Freire continua trabalhando sem ruido, mas conscienciosamente. A "Bucólica" é um bello estudo de poente, vae-se a luz perdendo em gradações no extremo horisonte, e nas encostas, onde os rebanhos correm buscando o aprisco, a noite cerra-se n’uma melancolia de escuridão que se condensa. "Inverno" é uma" pochade" bem feita; Freire sempre teve predilecção pelas brunas. Na "Tresmalhada" acho pouco estudados os animaes. O "Retrato de Silva Porto", apesar da semelhança, é de pouca expressão. Em todos os trabalhos d’este artista encontro, porém, uma sinceridade que me seduz e me faz tel-o em grande apreço.

Scena rustica [Gado tresmalhado?], Luciano Freire, c. 1896.
Imagem: Catalogo illustrado da 6ª exposição de arte promovida pelo Grémio Artístico em 1896

João Vaz

Vaz continha a serie das suas marinhas, dando-nos este anno uns bocadinhos da luminosa costa do Algarve. E um artista que estacionou; agradam sempre os seus bonitos trabalhos, todavia ás vezes, como em "Um canto de Lisboa", uma meticulosa exactidao dá-lhe uma rigidez photographica.

Um canto de Lisboa, João Vaz, c. 1896.
Imagem: Catalogo illustrado da 6ª exposição de arte promovida pelo Grémio Artístico em 1896


Tarde d'outomno (Setubal); Bahia de Lagos;Um bairro pobre no Algarve (Faro); Barra de Portimão; Rochedos á beira-mar (Lagos); Litoral.

Marques de Oliveira

Do Porto, Marques de Oliveira enviou ao Grémio duas das suas bellas paysagens; 

O amieiro da Pena; Manhã (Ponte d'Este).

Manhã (Ponte d'Este), Marques de Oliveira c. 1896.
Imagem: Catalogo illustrado da 6ª exposição de arte promovida pelo Grémio Artístico em 1896

Manuel Henrique Pinto

Obras
cf. Catalogo illustrado da 6ª exposição de arte promovida pelo Grémio Artístico em 1896


Na horta

Na horta, Arte Pintura Manuel Henrique Pinto, c. 1896.
Imagem: Catalogo illustrado da 6ª exposição de arte promovida pelo Grémio Artístico em 1896

Caminho da horta; Ribeira da Lavadeira.

Torquato Pinheiro uma collecção de pequenas paysagens, algumas tocadas com bastante sentimento, e Costa [António José da] uns quadros de flores que, principalmente, "Camélias e Junquilhos" deveras bem executados.

Por entre esses quadros, que formam sempre o fundo d’uma exposição, viam-se pequenas manchas de paysagem, flores e estudos, merecendo interesse, trabalhos de alumnos da Academia, ainda incorrectos, mas sérios, trabalhos de amadores provando boa aptidão, e, á mistura, alguns horrores, que o jury, apesar da diminuição já sensivel de télas a expor, devia excluir ainda.

Mas, conclusão final, o que se sentia, não obstante o concurso poderoso de dois artistas novos a chamarem vivamente a attenção, era um arrefecimento de enthusiasmo da parte dos artistas; apresentaram alguma coisa que tinham feito, mas pouco ou nada se preoccuparam com a exposição uns, e outros faltaram.

E a apathia do publico que os desanima.

Alguns applausos que colhem, alguma remuneração que para o seu trabalho obteem, não é verdadeiramente a esse publico, para quem se abrem as exposições, que os devem; é geralmente dos amigos, de algum raro amador, que conhece os ateliers, de algum rico discipulo que deseja a seu turno lisongear o mestre, e isto limita-se a uma troca de attenções e obséquios para que não vale a pena affrontar a critica e dar-se á forte canceira de trabalhar com ardor.

V

Roque Gameiro

Na sala destinada ao desenho e a aguarella dominavam como de costume, os dilectantes. Notava-se uma boa aguarella de Gameiro "A epistola" excellente retrato com solido desenho e uma grande frescura de tintas.

A epístola, Roque Gameiro, 1895.
Imagem: Das Culturas

D. Carlos de Bragança

Seduzia também pelo seu chic o grande quadro do sr. D. Carlos "Gado á bebida"; deixou-me, porém, relativamente frio este regio trabalho d’arte, a mim que, quando vou ao Grêmio, demoro sempre, preso por um novo encanto, diante d'aquella primorosa "Marinha" do Ribatejo, que me assombrou quando appareceu em publico, revelando a extraordinária aptidão artistica que eu ignorava existir no chefe d’estado. 

Gado à bebida, D Carlos de Bragança, 1896.
Imagem: Fundação da Casa de Bragança

Póde considerar-se um bom trabalho o que Sua Magestade expõe este anno, mas é muito menos sincero e muito menos sentido, visa ao effeito e tem grandes incorrecções no desenho dos animaes; apesar d'isso é superior a quasi todas as obras que n’aquella sala o acompanham, e é necessário que o sr. D. Carlos se dedique com bastante amor á arte para que possa apresentar-nos successivamente obras que são extraordinárias para um amador, e satisfariam a consciência de muitos artistas.


A fonte velha da aldeia (arredores de Merceana)

A fonte velha da aldeia (arredores de Merceana),
Ribeiro Cristino, c 1896.

Estrada de Portalegre a Marvão; Pôr do sol á beira mar (Praia da Consolação); O rocio de Portalegre; A Judiaria d'Obidos.


Paizagem em Odivelas; Paizagem (em Lagares d'El-Rei); Paizagem em Louza (aguarela).

A esculptura brilhava pela ausência; um busto da sr.a Falker representava todo o distincto grupo de esculptores portuguezes.

Uma interrogação. Este bello movimento para a arte moderna, que ha annos se manifestou em Portugal, irá, pela frieza d’um publico ignaro, pela desattenção que os homens públicos dão a tudo-que verdadeiramente interessa ávida intima do paiz, anniquillar-se e perder-se, sem que deixe em documentos que os vindouros consultem provas da sua vitalidade collectiva? Ficará como uma manifestação sporadica, dois ou tres nomes apenas representando uma originalidade indiscutivel? E um receio bem justificado na derrocada incessante da nossa vida nacional. Os nossos melhores artistas refugiando-se em Paris, honram a patria de que são filhos, mas podemos bem chamar-lhe artistas portuguezes?

Soffrendo as influencias da escola e do meio, debaixo de um céu de tão diversa luz, ouvindo constantemente n’uma lingua estranha expressar sentimentos que não são bem os nossos, tendo diante dos olhos rostos e figuras bem diversas, a sua arte é forçosamente a arte do paiz em que vivem e não uma arte nacional. Se Silva Porto nos deu, por amor, toda a encantadora paysagem portugueza, se Columbano, na intransigência do seu caracter, não acceita imposições de escola, e se guia pela visão que lhe illumina o espirito, tendo a coragem de viver na obscuridade que occulta o artista portuguez, outros, como Sousa Pinto, de tão notável talento, hão de desnacionalisar-se.

Se os artistas encontrassem no paiz, de que a nostalgia os persegue mesmo entre os mais radiantes explendores da civilisação, o acolhimento que o seu talento merece e o incitamento tão necessário aos que trabalham, decerto não iriam viver entre estranhos, e as suas obras, influenciadas pelo sentimento nacional, seriam bem nossas, e teriamos em poucos annos uma pintura portugueza, em que se encontraria a nossa flora, os nossos costumes, as nossas tradições, os nossos bellos typos meridionaes, tudo quanto nos interessa e comnosco vive.

O alumno da Escola de Bellas-Artes que realisa o sonho atormentador de alcançar o pensionado em Paris, muito util pela defficiencia do ensino em Portugal e também pela educação que devem dar-lhe os museus e as exposições, onde póde estudar todos os primores da arte antiga e moderna, se tem talento que lhe permitta luctar com a concorrência de Paris, necessita muita coragem e laços bem fortes a prendel-o á patria para que volte definitivamente.

Os que voltam veem sempre cheios de enthusiasmo, com um arsinho de pedantismo ás vezes, mas dentro em pouco caheim n’uma apathia indolente, procuram como taboa de salvação um logar de professorado, e por ahi se esterilisam, dando pouco do que promettiam. A culpa não é d’elles.

Se é necessário muito tempo para que um ramo qualquer da educação publica se faça, se é difficil convencer a nossa burguezia, que tanto gasta nas bijouterias de chic banal que vem do extrangeiro, em empregar annualmente algum d’esse dinheiro na compra de obras d’arte, protegendo assim os nossos artistas, mais é para lamentar que seja difficil conseguir que os homens públicos attendam devidamente a este assumpto de magna importância.

A acquisição para o Museu Nacional das obras de pintura e esculptura de um real valor que apparecessem, seria o prémio mais desejado pelos artistas e o mais de molde a animar as Bellas-Artes. A acquisição annual para as escolas industriaes de algumas pequenas télas de mérito, justa e rigorosamente escolhidas,, seria também incitamento para que trabalhassem e bem.

A desculpa da pobresa das finanças não é acceitavel, porque a verba a destinar para este fim seria relativamente pequena, quando em coisas de todo inúteis e insensatos esbanjamentos se dispendem sommas muito maiores.

Animar e proteger os nossos artistas, procurando avigorar em todos os ramos das Bellas-Artes o sentimento nacional, é uma bella tarefa, que tão pequena attenção vae merecendo. Tudo quanto se faça pela arte é pouco, mas parece que desconhecemos a sua consoladora influencia nos destinos da humanidade.

Abril de 1896. (1)

(1) Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (II), 1898

Leitura relacionada:
Catalogo illustrado da 6ª exposição de arte promovida pelo Grémio Artístico em 1896
O Occidente N.º 625, 5 de maio de 1896
Branco e Negro, abril de 1896
José Augusto França, O essencial sobre Columbano Bordalo Pinheiro
Margarida Elias, Columbano Bordalo Pinheiro e as Caldas da Rainha



Na educação d’um povo, verdadeiramente civilisado, devem entrar elementos que o preparem para receber a impressão suggestiva d’uma obra d'arte, qualquer que seja a sua natureza, a sua fórma, o seu modo de ser. Se a arte não é, como diz Veron, senão uma resultante natural do organismo humano, constituido de modo que encontra um goso particular em certas combinações de fôrmas, linhas, cores, movimentos, sons, rythmos e imagens, também é certo que sem uma previa cultura essa disposição natural do homem ficará rudimentar, como aquellas flores de que admiramos a formosa opulência e que, bravas e incultas, mal parece terem dado origem aos bellos exemplares que a cultura nos offerece.

A cultura intellectual precisa para se receber a suggestão emotiva da obra d’arte é simples, umas leves noções de esthetica bastam para abrir á imaginação do homem uma larga janella sobre o campo em que as manifestações d’arte apparecem, com a harmonia que as torna bellas, ou com a força que as eleva ao sublime.

Toda a obra d’arte deve ser mais ou menos comprehendida por aquelles que vivem no meio que a produz, ou ella se dirija ao grupo escolhido que representa o apuro da selecção espiritual d’esse meio, ou, simplesmente, falle para toda a multidão que a escuta; mal, porém, da multidão se a não ouve, porque estará surda para as mais delicadas e harmónicas vibrações. Mas a melhor parte d’essa educação publica é aos artistas que compete. São elles, qualquer que seja o ramo d’arte a que se consagrem, que, elevando-a acima dos proprios interesses, dedicando-lhe a melhor porção da sua alma, traduzindo com sinceridade as suas emoções, a farão comprehender por outras almas, cujo sentir deve estar em muitos pontos d’accordo com o seu.

As exposições, meio porque as artes plasticas, cujos productos são geralmente destinados a um particular, faliam com a collectividade publica, devem procurar influir o mais poderosamente possivel sobre essa collectividade, e os artistas que a ellas concorrem attenderem a que as obras expostas não pertençam á cathegoria das que enchem os bazares do commercio, mas ao numero escolhido das que tem logar no coração do artista e que elle firmou com orgulho ou com amor.

A exposição do Grêmio Artístico, este anno, mais escolhida que a do anno anterior, está ainda assim longe de corresponder ás esperanças dos que muito desejam.

Silva Porto faz lá muita falta Não sao só as suas formosas paysagens, que tão intensamente animavam aquellas paredes, de que se sente a ausência, mas é da sua alma, que também animava o Grémio com o seu enthusiasmo d’artista sincero, e com o seu conselho de mestre. Acima de tudo a arte, era a sua norma. Ninguém como elle dirigia os interesses de todos para o ponto culminante que nenhum deve desfitar, e, conciliador de vontades, era quem melhor sabia destruir os effeitos perniciosos da ciumeira azeda, que, como diz Fialho d’Almeida, envenena os agrupamentos d’artistas.

Deplorável effeito, talvez, d’esse veneno foi a questão trazida para o soalheiro dos jornaes a proposito de Salgado e dos quadros destinados á exposição de Berlim, questão em que não sei, nem me preoccupa o saber, quem tem razão, mas na qual lamentei a fórma porque os artistas, amesquinhando-se a si, vão de vários modos prejudicar a arte.

As pequenas coteries que, guerreando-se mutuamente, desprestigiam artistas de mérito a favor de nullidades mais ou menos espaventosas, também pelo Grêmio agitam as suas marottes.

Uma excessiva febre de ganhar, dominando o nobre interesse da gloria, vae-se denunciando fortemente. Se o jury de admissão teve este anno o bom senso de ser mais severo para com as phantasias do diletantismo, por outro lado commetteu, a meu vêr, uma falta grave, começando a fazer aos estatutos o mesmo que os governos teem feito á Carta Constitucional.

Esta infracção de leis, hoje a favor de um artista do mais elevado mérito, e de quem sou o maior admirador e sincero amigo, benificiou a actual exposição, mas ameaça as exposições futuras, porque, aberto o exemplo, póde depois qualquer banal influente reclamar a cada passo eguaes concessões, e d’ahi resultará uma desordem inadmissível.

Digo e direi sempre desassombradamente o que penso, não sacrificando a minha opinião ao prazer de nenhum dos membros do Grêmio, e, preferindo a associação aos associados, prefiro, também, aos interesses d’ella o grande interesse da Arte, fim grandioso para que devem convergir todos os esforços. O Grêmio Artistico excita, porém, o meu zelo de amador apaixonado da pintura; vêl-o elevar-se, á altura d’uma grande instituição, seria para mim a satisfação d’um ardente desejo. Esta associação artistica, unica no seu genero em Portugal, creada e dirigida polos melhores artistas portuguezes, é, na ausência absoluta dhnteresse dos governos pelas cousas d’arte, uma instituição séria e util, quasi imprescindivel; mas, por isso mesmo, adquire também serias responsabilidades.

Cônscia do muito que póde, e do nobre fim a que devem tender todos os seus esforços, poderá adquirir os fóros d’uma academia dirigente, com applauso de todos. Desviando-se do caminho que as próprias circumstancias da vida artistica cm Portugal lhe indicam, não passará d’uma reunião de elementos mal cimentados, periclitantes, e terá de ceder o logar a outra, melhor organisada, que, pela necessidade absoluta de uma instituição d’esta ordem, terá forçosamente de a substituir.

A actual exposição, embora não seja rica, está longe de ser banal, e basta a analyse dos elementos novos que apresenta para que interésse á critica e offereça motivos de ensinamento.

Os dois artistas que este anno se estreiam no Grêmio são do caracter mais opposto nos seus processos e na sua maneira subjectiva; um é extremamente decorativo, outro profundamente expressivo. Carlos Reis tenta deslumbrar pelas vibrações fulgentes do colorido, e Columbano apresenta-nos o triumpho do claroescuro sobre a illusão da côr. O colorista sacrifica, ao seu instinctivo desejo de brilhar, algumas vezes a verdade, esfriando o enthusiasmo dos sinceros, que ávidos procuram a fonte da emoção, o outro esquece a cor, apaga os detalhes, quando não servem para exprimir uma feição do conjuncto, deixa vivas apenas as phisionomias, as ideias, toda a porção possivel do ser moral das suas obras.

A observação d’estes dois artistas, d’um caracter tão diverso, é o maior attractivo da exposição. Os trabalhos de Salgado, descurados ou insignificantes alguns, mas demonstrando outros o grau de superioridade do artista, distinguem-se também.

Quanto aos restantes direi, embora me peze dizel-o áquelles de quem sou amigo, apresentam um ou outro quadro que se salva pelas naturaes qualidades do artistas, mas nenhuma obra que se saliente, nenhum esforço que mereça applauso; mesmo entre os novos, embora alguns provem que se applicam e trabalham, nada apparece de extraordinariamente promettedor. (2)


in Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (II), 1898

segunda-feira, 12 de junho de 2017

O Grémio Artístico (5.ª exposição, 1895)

Por entre uma valsa deliciosa do sextteto de D. Maria, abriu-se hontem a 5.ª exposição do Grémio Artistico. Entrada a 500 réis. Um dia azul, cá fóra, dia proprio para a vernissage de um salon, em que as mulheres estreiassem as suas gazes do verão e os seus primeiros ramos de violetas de Parma. 

No Alemtejo, D. Carlos de Bragança, 1895.
Imagem: flickr

Lá dentro, um certo tom de familiaridade, shake hands cordeaes, beijinhos femininos, umas telas que se apontam por desfastio, uma toilette que se critica com interesse, nada digno de nota, a não serem os galantes perfis da nossa sociedade, uns ou outros olhos bonitos que surdem em dias de festa, e desapparecem rápidos como tudo que é bom, umas paizagens, tres aguarellas, poucos retratos, flôres, marinhas, fructas — uma futilidade...

Ás 4 horas entram Suas Magestades a Rainha de velludo preto, El-Rei de casaca. Pouco depois, entra Sua Magestade a Rainha D. Maria Pia, com uma toilette muito elegante, e Sua Alteza o Senhor Infante D. Affonso, fardado.

El-Rei expõa na primeira sala um pequeno quadro a oleo, No Alemtejo, colhido com arte extrema e traduzindo a primor a cálida impressão das scenas alemtejanas. Áquella hora respirava-se a custo nas cinco salas.

Ao acaso, perfeitamente ao acaso, como se colhem flores de um canteiro productivo, notámos, abrindo alas para Suas Magestades passarem, as sr.as Condessa de Paraty, D. Amalia Street e irmã, D. Alice Munró dos Anjos e filhas D. Bertha e D. Beatriz, D Luiza de Almedina, D. Conceição Sarmento, Condessa de Magalhães e filha D. Maria Antónia, D. Virginia Santos e irmã, D. Margarida Lorjó Tavares, Madame Craveiro Lopes, D. Carolina e D. Ludovina Galhardo, D. Josepha Greno, D. Josepha Sandoval de Vasconcellos e Sousa, D. Eugenia Penalva d'Alva, D. Germana Patricio Alvares e irmãs, D. Acacia Vaz Nápoles de Almeida e filha, Madame Bordallo Pinheiro e filha D. Helena, D. Carlota de Serpa Pinto Moreira, D. Zulmira Franco Teixeira, Condessa das Alcaçovas e filhas, Mademoiselle Mayer, D. Lívia de Castello Branco e irmã, D Beatriz Arneiro, D. Laura Iglezias Mendes da Silva, D. Fanny Munró, Mademoiselle Nova Goa, D. Maria da Fonseca Araujo e filha D. Carolina, D. Luiza Fonseca, etc.

E os srs. Conde de Ficalho, Marcellino Mesquita, Manuel Bordallo Pinheiro, Alvaro Penamacôr, Conde de Almedina, João Vaz, José Azambuja, Conde de Gouveia, dr. Jorge Godinho, Roque Gameiro, Hygino Mendonça, Galhardo, Antonio Coruche. Marianno Pina, José Malhôa, Benjamin Pinto, Velez Caldeira, Arthur de Mello, Adolpho Benarus, Arthur May, Augusto Pina, Antonio de Chaby, Visconde de Taveiro, actores Augusto Rosa e Ferreira da Silva, Antonio de Andrade, Zacharias de Aça D. Thomaz d'Almeida, Antonio Ramalho, Rozendo Carvalheira, Celso Hermínio, Antonio Bandeira, Lorjó Tavares, João de Moraes, Alberto Lopas, Penha e Costa, Luciano Lullemant, D. Francisco de Almeida, Adolpho Greno, Nuno de Bulhão Pato, José Parreira, Julio Dantas, Jayme Verde, Thomaz do Mello, Jorge Costa, Serpa Pinto, Motta Prego, Abecassis, Sauvinet, Leonel Gaya, Guilherme Pinto Basto, etc.

Em arte, a exposição, n'uma visita à vol d'oiseau, apresenta-se-nos de uma banalidade desoladora! Poucos quadros salpicam as paredes, raros nos prendem, nenhum nos empolga... (1)

António Ramalho

A sua exposição este anno consta de am retrato de Roque Gameiro, a pastel. O maior pastel e mais arrojado qae tem apparecido por ahi. Falto apenas no cabello, qae não traduz o do original, apreenta-nos no emtanto umas roupas magnificamente ondeadas, um colorido quente e uma grande verdade no rosto. É pintado por uin mestre.

Diario Illustrado, 17 de março de 1895 (António Ramalho)

Tem uma pequena tela — o Pombal — alegre e fresquissima, sabida com quatro pinceladas, em que parece ter o pincel molhado no céo, tal é a pureza com qua está colhida aquella manhã de sol em que ai pombas esvoejam e as rosas desabrocham. 

O pombal, António Ramalho, 1895.
Imagem: António Ramalho no YouTube

O resto da sua exposição, duas paysagens —uma grande, outra pequena — não foram pintadas por aquelle rapazito, alma de artista, lyrio entre os abrolhos, caixeiro ignorado n'uma venda pardacenta, lá acima, ao pé do Douro... Aquellas duas paisagem, meus senhores e minhas senhoras, foram pintadas... pelo patrão. (2)

José Malhoa

É assim que vemos assignados com o seu nome dez quadros com estes titulos:

Diario Illustrado, 18 de março de 1895 (José Malhoa)

Manhã de setembro — Um campo secco em declive. No dorso apparece o sol. É original.

Caminho dos moinhos — Uma bella paysagem, mas com uma figura que estraga, pelo espavento da sua saia vermelha. Sempre ha mulheres d'um mau gosto!...

Uma boa compra e Um compasso difficil — São duas telasitas de genero, explorando os effeitos da luz sobre o cetim das casacas de duas figuras bem pousadas.

Uma boa compra, José Malhoa, 1895.
Imagem: Maria Pardos e José Malhoa...

Na segunda, a cama verde está manchada.

Um compasso difícil, José Malhoa, 1895.
Imagem: Maria Pardos e José Malhoa...

Ribeira da lavadeira — Alfombras verdes e um riacho que deriva. O verde é novo e lindo em ex cesso, dando-nos a impressão de que a payesgem lavou a cara para tirar o retrato no Fillon.

Cuidados de amor — Um delicioso quadrosinho rescendente de poesia, em que gente adora a figura da camponesa que pensa, chegando a abatrahir da luz pouco verdadeira que a illumina.

Á caça — O mesmo e inapto de um quadro já exposto por Malhoa. Um petiz, em posição mystica, com cara apopletica, anda á caça. O meio é calmo e suavemente tratado.

À caça, José Malhoa, 1895.
Imagem: Os cachopos da Fonte do Cordeiro

A Olinda do lagar — Muito natural a pequena saloia agreste que este quadro representa. Se o auctor, por um requinte de extravagancia, não illuminasse aquella cabeça loira tão estridentemente, com o bico Auer, seria este um dos seus melhores trabalhos, — desde o bem tocado das roupas até á carnação arroxiada das pernas.

A Olinda do lagar, José Malhoa, 1895.
Imagem: Veritas

A sésta — Grandes dimensões. Trabalhadores estirados, junto á á eira e aos montes de palha onde brinca o sol. O contraste entre a sombra do primeiro plano e a claridade dos outros dá uma certa originalidade a este trabalho, certemente o melhor da exposiçao.

A sesta [dos ceifeiros], José Malhoa, 1895.
Imagem: Malhoa, José Vital

Retrato de Isaac Abecassis — Um menino com o fato com que o auctor apresentou o seu Marquez de Pombal, ha um anno. Como d'essa vez, as roupagens estilo magnificas, apenas pouco cuidada a casaca na fimbria. As meias de seda impecaveis. (3)

[Ribeiro] Christino da Silva

Este anno a exposição de Christino é simples — cinco telas de Óbidos e Batalha, telas sem pretenções, concluídas sem exageros de tons, traduzindo com verdade recantos de aldeias, casas pobres, arcos e lampiões, torres e coruchéus.

Diario Illustrado, 19 de março de 1895 (Christino da Silva)

Intitula-se: Torre do Facho, Costa de S. Pedro de Muel, Corucheu de D. João I, Egreja de Santa Maria e a Rua da Cadeia. Expõe mais uma cuidada gravura intitulada Vista de Leiria. 

Leiria , vista parcial, desenho de J. R. Christino, 1894.
Imagem: Prof2000

Mais nada. (4)

Manuel Henrique Pinto

Expõe uma tela grande a que deu o titulo Uma teima e onde um rapazito de pé descalço pretende á força obrigar uma cabra a saltar um fio d'agua. A cabra, que é socialista, não reconhece auctoridades e finca as patas, n'uma attitude de menina malcreada. Está bem definido o assumpto e os pormenores.

 Obra de Manuel Henrique Pinto (1853-1912)Galeria de imagens no Facebookclique para aceder
Uma teima [Perrice], Manuel Henrique Pinto, 1894.
Obra de Manuel Henrique Pinto (1853-1912)
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O quadro tem um tom glauco, geral, uniforme, que lhe dá foros de tela antiga sem lhe tirar o valor.

Diario Illustrado, 20 de março de 1895 (Manuel Henrique Pinto)

Mais duas paisagens, pacientemente pormenorisadas, — Moinhos do Martins e Cabanas perto do Zezere — fecham a pequena exposição d'este professor provinciano, que passa no idyllio do campo as horas vagas, em que os rapazes da escola lhe não fazem a cabeça doida, n'uma grande calmaria de espirito, que parece traduzir se nos bucolicos bocadinhos campestres que a gente vê, bem disposto, na exposição, todos os annos. (5)

António Francisco Baeta

Paizagem em Aguas Bellas — Uma tela de Ferreira do Zezere que parece ter passado por Epinal. Muito pormenorisada, para nada lhe faltar como oleographia, até pastora e cabrinhas tem...

Uma rua em Ferreira do Zezere — Pequenino motivo de vida aldeã, alegre e bem traduzido.

Caminho de Vale d'Angelo — Uma rua cortada em taludes. Ferreira do Zezere. A banalidade que se alastra... 

Ao pôr do sol — O melhor quadrinho de Baeta. Fresquissimo, de uma poética tonalidade, que nos prende e nos faz esquecer a pouca verdade dos outros, representa a Cruz Quebrada no que tem de mais pittoresco.

Ribeira de Jamor — Pequenino quadro todo convencional, onde um riacho de lavadeiras deslisa por entre floridas margens.

É esta a remessa do paisagista. Se tem tido a boa idéa de mandar só o Pôr do sol, tinha dado no vinte, como se diz em argot de escola... (6)
 
João Cabral

Duas pequeninas paysagens que expõe não desagradam por isso. A horta do Alfredo só perde pela pequenez. Dá vontade de lhe puxar as orelhas, a ver se estica. Ponha lentes biconvexas nos seus pincéis, sr. Cabral!...

A nora do José da Rosa é outra manchasita alegrada pelo sol, e onde, apenas, a parede parece ter desbotado paia o chão, o que imprime ao todo certa monotonia. Erro da escolha, certamente. O sr. João Cabral deve fazer uma extravagancia — pintar uma tela maior.

Só tem o perigo de não se vender, mas, emfim.

A. Machado

Sur l'herbe —, e as meninas voltaram a cara,e os homens desataram a rir! Sobre um campo de hortaliça, com flores de papel de seda, campo todo do mesmo tom, com a agravante de ser forrado de borracha por dentro, esparneia D. Engracia, toda nua, com côres n'uma luxação que lhe apparecau na côxa! D. Engracia, menina da Baixa, que abusa do espartilho, tem a barriga pagada ás costas e é articulada por um processo novo [...]

Preço d'esta Epiphania dos Lycornes.., 300$000 réis, com moldura e tudo.

Solidão — Começa a gente por não perceber o titulo [...] (7)

Arthur Vieira de Mello

Retrato do ex.mo sr. D. J. Ventura da Camara — Dias antes em esboço, apparece-me já na abertura, este retrato, completo. Um tour de force que vem mostrar certeza com que as tintas foram distribuídas pelo auctor.

Como retrato é um primor. Como pintura é um magnifico documento.

Adolpho Benarus

Na rua — Demonstrando uma cuidada observação na pintura da protogonista, uma velha de perfil duro, faces rugosas, maçãs do rosto salientes, mãos esguias, descarnadas, oude as arterias saltam logo á vista. O chale-manta cinsento também está pintado conscienciosamente. 

A velha apresenta-se a assar castanhas. Fogareiro, abano, assador e effeito das brazas, não destoam. (8)

Roque Gameiro

Este anno veio com o seu nome cinco aguarelas:

Diario Illustrado, 27 de março de 1895 (Roque Gameiro)

Velando — Uma rapariga vela á beira de um berço. Trajes minhotos, alegrando aquele meio saudavel. É purissima esta aguarela, desde a finura doa tons, até ao poetico do assumpto. As roupas da rapariga e o lenço de chita que lhe cahe do colo, reunem todas as qualidades porque se impõe um quadro desses: a expontaneidade, o contraste das côres e o colorido. Magnifico.

Velando, Roque Gameiro, 1895.
Imagem: Arte Portugueza N.º 4, abril de 1895

Retrato de Mademoiselle Laura Guedes — Um retrato que não agrada, devido talvez á luz — plein air — que innunda a pessoa retratada. A cara parece-nos cançada, o vestido foi rigorosamente traduzido; os pormenores resentem-se de pouco acabamento. 

Um trolha — Assumpto grosseiro a que o acidar soube imprimir a feiçáo delicada da sua "maneira", fazendo com que esse quadrosito vulgar nos impressione finamente como um quadro de flores. O sol innunda-o por inteiro; o operaro que empasta a parede tem uma vida notavel, e os apetrechos, o andaime, o muro, apresentam-nos uma verdade magistral.

Costume (1807) — Já o disse: — as melhores figurinhas dite Madeleine Lemaire não têm mais frescura do que essa pequenina "greenaway" côr de rosa, de ar distincto, cintura curta, saquitel de "bombons", e sapato polido, que vem de um jardim do Trianon talvez, embalsamando o ar com o seu rosto juvenil, como uma flor de Duez.

Rio Jamor — Um trecho de rio que se curva por entre salgueiros e ondas de folhagem. (9)

Velloso Salgado

A sua exposição este anno consta de oito quadros:

Diario Illustrado, 28 de março de 1895 (Velloso Salgado)

Retrato do ex.mo sr. A.S.G.C. — Um retrato que vem como natural seguimento aos que Salgado apresentou nos ultimos annos, dos srs. Corrêa de Barros, Braancamp Freire, Wenceslau de Lima, etc. Adivinha-se o pintor batido, tirando o maximo effeito de trucs de mestre, que raros concebem e que lhe são já íntimos.

Noite de Leça — A fazer pendant com o "Noir et Rose" do anno passado. O effeito de luar conhecido, explorado e nunca dando resultado. Apenas um passatempo nocturno, sabido n'um momento de "spleen", de uma palheta onde se alastrava o cobalto. Pintas brancas imitam estrellas, ha uma arvore que parece fumo e uma claridade vivissima a uma esquina, indicios de guarda nocturno que ouviu bater as palmas...

Othello—Uma bella cabeça, expressivamente negra, impeccavel como factura, apenas não representando o vulcão apaixonado e ciumento, mixto de odio e de amor, pária que idolatra e moiro que se vinga — o eterno Othello, enfim.

Saloio — Uma d'estas cabeças alegres que Salgado fixa com tal arte, que a gente se approxima, de ouvido á escuta, á espera da gargalhada que fatalmente vai rebentar! Cabeça de estudo onde o artista imprimiu encantos de execução e onde surgem encantos de psychologia, por assim dizer, hilariante, que se nos transmitte, — tanta vida ha n'ella — e nos faz rir, quasi.

Japonez—Um quadrosito galante para um escriptorio em estylo oriental, representando um japonez, dos que ainda não andam vestidos á européa, de olho. em V e abdomen adiposo. Uma auggestão da guerra chino-japonesa que veia diatrahir, por momentos, o pintor do occidente. 

Camponeza de Lille –Appetitosa cabeça femenina, suavemente tratada.

Retrato do ex.ma sr. a D.C. — Representa o quadro esta senhora, de pé, n'um jardim, com um leve vestido azul e um raminho de flores na mão. A senhora é trigueira, o vestido vaporoso. D'ahi, um contraste violento que desagrada sobremaneira, aggravado por uma luz que não ajuda o modelo. (10)

Conde de Almedina

Considerando-se francamente amador, até. para cumulo, não pede dinheiro pelos quadros!—isto n'um paiz onde os quadroa de amador são os que custam mais caro... 

Diario Illustrado, 29 de março de 1895 (Conde de Almedina)

Dos 43 que expõe este anno, 27 já estão... dados. Por este meio um artista não enriquece. O mais que pode é ir á gloria em duplicado. Vejamos em bicyclette a enorme exposição do nosso biographado:

Castello da Pena — Dá pouco a impressão de frescura da paysagem de Cintra. A parte que vemos á nossa direita tem mais valor que a da esquerda; as arvores e troncos estão bem tratados. 

Forte de Santo Antonio do Estoril — Passamos a galope... 

Moinhos do Barreiro —Marinha placida, transparência nas aguas, verdadeira em geral. Apenas a fragata parece suspensa e os moinhos têm cor de mais para a distancia. 

Bocca do Inferno — Ondas falsas, com espuma de escada. 

Castello da Pena, tela pequena — Bem colhida e agradavel.

No jardim Botânico — Pouco acabamento. Verdes duros de mistura com algumas boas qualidades.

Muralhas da Sé — Bom quadrinho banhado de sol, cuidadosamente pormenorisado.

Claustro dos Conegos — O melhor da familia dos architectonicos. Tem luz, ar e perspectiva.

Claustro dos Conegos, n.° 2 — Habilmente visto o bater do sol nas columnas do claustro e os farrapos de céo que se divisam ao longe. O sachristão é que se dispensava.

Cadeia da villa de Cintra — Adiante...

Uma pequena rua de Sacavém — Assumpto banal e fácil demais para um pincel que trabalha. 

Estrada do Syndicato — Pequenino trecho aproveitavel.

Claustro do convento de Sacavém — Scenas do terremoto de 1755. 

Claustro do Convento de Chellas — Passo... de repente!

Cidadella de Cascaes e Casa Pindella —Uma interessante telasinha. 

Rochedo da Nau —Marinha feia, pintada com mau humor. 

Na baixa mar — O auctor mostra vocação para este genero de marinhas. N'esta, apenas foi descurada a projecção da sombra do barco e a inclinação dos mastros. 

Em Xabregas — O melhor da familia das marinhas. Esboço largo, muita puresa nas côres e conseguindo o tom vago e suave a que deve aspirar a tela de céo e mar, quando limpidos. 

Caes do Beato — Outra marinha luminosa, com um bote a tirar-lhe o valor.

Solar Aguilar — Força nos pedaes!... A galope...

Chalet Palmella — Pittoresco recanto da bahia de Cascaes. Aguas pintadas com sinceridade, especialmente junto á orla da praia. 

Chalet Queiroz — O mesmo com respeito a pittoresco. O contrario com respeito ás aguas...

No Aterro, ao pôr do sol — Decididamente, o auctor deve dedicar-se a este genero de pintura. 

S. Martinho de Bornes — Ingenuidade artistica com 25 de altura por 33 de largo. Etc. (11)

Luciano Freire

Os seus dois quadros chamam-se: Um salas (typo do carnaval de Lisboa) — Como idéa, está explorada. Como execução, é primitiva. O "salas" não tem vida, não tem relevo, nem graça.

Diario Illustrado, 30 de março de 1895 (Luciano Freire)

É um typo, é; mas um typo muito sensaborão. Typos d'aquelles não se pintam — dá-se-lhes uma pançada... Detalhando: a cara, o rabicho e a casaca são deploráveis. A rua de "mac adam" é pouco liaboeta, os prédios parecem de panno de fundo, e o estafermo que se vê em fralda de camisa foi completamente descurado. 

Emfim, um quadro carnavalesco em extremo para o pincel de Luciano Freire. 

Cabritos — Já aqui apparece um pouco o pintor que observa, no esboço dos dois animaes que constituem este estudo. Estão verdadeiros, desde o sedoso dos pêllos até ao relevo dos corpos. 
Apenas o verde do chão grita excesaivamente e a posição dos dois bichos nos fai adejar aos lábios a conhecida fabula de Lafontaine:

— Porque me turvas a agua que eatou bebendo?... (12)

Ferreira da Costa

Expõe este anno apenas um quadro: Retrato do ex.mo sr. Viçoso May — Trabalho de quem promette muito. (13)

João Vaz

Este anno trouxe oito quadros:

Diario Illustrado, 3 de abril de 1895 (João Vaz)

Fim da tarde — De uma melancholia propria a divagações, na hora em que Cesário Verde sentia ondas de pessimismo, esta marinha ao sol-posto tem a arte de nos fazer pensar, sem para isso buscar effeitos na extravagancia — é a tradueção fiel de um trecho da costa que vem de Peniche para o sul, illuminada pelo sol poente, que descahe lá adiante, sobre as Berlengas.

Esperando a maré — Muita tela e pouco assumpto. Um bote é o protogonista. Como scenario: uma praia immensa, o mar a perder de vista e o ceu em toda a sua plenitude — ceu nevoento, com manchas róseas sem dtfiniçâo. O resto está feito com a verdade que é timbre do pincel realista de J. Vaz. Apenss, pelo lado esthetico, nos parece estroinice estar uma companha inteira á espera da maré... que ainda vem em cascos de rolhas "A economia de tempo é capital que se amontoa" (Rodrigues de Freitas, a paginas tantas). 

O mar — Uma onda, debruada de espuma, rolando para o nosso lado. Apesar de explorado, este as sumpto é sempre sympathico. A onda de agora tem o dorso admiravelmente traduzido, o espraiar, do primeiro plano, magnifico de verdade, e a nuance uzul do ceu muito pura. Apenas á orla de espuma falta frescura, e aquelle tom leve, quasi fugitivo, que dá a idéa de que as ondas trazem suspensos frocos de arminho, ou aigrettes de prata, quando têm despedaçar-se pela areia. 

O carreiro da Joanna — Encantador recanto do nosso littoral, que J. Vaz soube reproduzir com tintas de mestre e alma de poeta. O terreno pedregoso do primeiro plano, os alcantis que se afunilam, o braço de mar que entra, a linha do horisonte, Tudo isso foi colhido n'um momento de inspiração que adivinhamos, tal é o en cantamento que esse poético local nos transmitte!

Uma velha. guarita — Outra impeccavel marinha, de Cascaes, apanhada em dia de calma, em que as aguas têm uma transparência divina e o sol bate de chapa no angulo de um forte já velhinho.

Apontamentos — Quatro preciosas telasinhas esguias, onde ha encantos de factura, de braço dado com bellesas de paysagem. 

A ribeira de Peniche — Uma tela branca, desde a athmosphera até ás aguas espelhadas, representando a naturesa n'um travesti pouco vulgar. Parece uma aguarella, pela finura do esboço e pallidez do ambiente. 

Ao sol — Tela em que J. Vaz imprime tanta verdade, que a gente se absorve na contemplação d'essa rua de areia, coberta de sol, em que os botes descançam e os pescadoras cabem na somnolencia da sesta, e nos vemos transportados por completo ás nossas praias, a S. Martinho, á Foz, a Mattosinhos, e nos parece estar olhando ainda aquella acena, através a janella aberta de uma casita alegre — que saudades!...  E como tudo aquillo é profundamente natural! (14)

Arthur V. May

Este anno trouxe uma paysagem vulgariisima e um quadro com o titulo: Café de "lepes" — quadro colhido em frente do kiosque da praça Camões, quando um garoto de jornaes assoprava um café que comprou na occasião. (15)

oooOooo

Estas linhas só serão lidas depois de encerrada a exposição de arte que as motiva. As minhas notas não terão por isso o caracter de uma apreciação eia das diversas obras de que se compõe. Não as disporei tambem por forma a constituirem uma serie de perfis dos artistas que hajam assignalado, mais forte e inconfundivelmente, a sua individualidade, porque esta quinta exposição do Gremio não é decerto, — por ausencia ou desvalia de documentos, — a mais propria para nos dar a justa medida do valor dos nossos homens de arte. 

Imagem: Arte Portugueza N.º 4, abril de 1895

Limitar-me-hei, portanto, a consignar, muito simples e despreoccupadamente, as considerações geraes que ella me suscitou,— a tirar, por assim dizer, a moralidade do caso.

Quem comparar a nossa arte de hoje, não direi, com a d'aquella celebre exposição de 1843, a que ha referencias, entre animadoras e ironicas, nos livros de Raczynski (leilões recentes têem trazido a lume algumas obras d'esses tempos), mas, com a maioria dos trabalhos que figuravam nas exposições portuguesas de ha quinze annos, reconhece logo que se tem progredido bastante sob o ponto de vista da "factura", dos processos technicos [v. Dictionnaire historico-artistique du Portugal pour faire suite à l'ouvrage ayant pour titre : Les arts en Portugal]. 

É elfectivamente innegavel que, por exemplo, se desenha e pinta melhor. E note-se que o progresso não é evidente unicamente nos artistas que foram completar a sua educação no estrangeiro, mas tambem n'aquelles que não poderem até agora sahir do paiz, ou que poucos dias estiveram lá fóra. 

Este facto, bem como a segurança e rapidez com que os nossos pensionistas avançam geralmente em Paris, prova que o ensino artistico entre nós, se tem por enquanto imperfeições e lacunas, todavia não é tão deficiente e improductivo que se deva dar por mal empregado o dinheiro que nos custa, como se tem já dito e escripto, leviana ou apaixonadamente. 

Ha quem pense que os progressos technicos não constituem motivo para nos felicitarmos, e que a parte pratica é bem secundaria, a ponto de nem sempre os grandes artistas serem irreprehensiveis no tocante ao oficio. A verdade, porém, — se me não engano muito, — é que, em todas as formas da arte, o conhecimento pleno dos meios de execução é essencial para o artista se fazer entender, para nos commover como elle se commoveu, para nos interessar pela revelação clara do estado da sua alma perante os aspectos da natureza ou pe-rante os phenomenos do mundo moral, para nos dar a perceber os mais delicados e subtis cambiantes da sua emoção. 

Mas, por outra parte, é necessario que o artista não sacrifique jámais o sentimento á forma, não se preoccupe exclusivamente com a perfeição technica, não procure apenas mostrar que sabe vencer todas as difficuldades do officio; porque, — não o esqueçam os artistas, — verdadeira obra de arte, pura, dominadora, eterna, só será a que fôr sentida e vivida.

Portanto, certo, como estou, de que os nossos pintores querem ser alguma cousa mais do que simples copistas habeis da natureza; de que não substituirão ao sentimento a habilidade, e de que não farão da sua pericia, em muitos casos notarei, um fim mas um meio, — registo com satisfação os considerareis progressos technicos evidenciados nos seus ultimos trabalhos.

O Micróbio n.° 35, 21 de março de 1895.

O que sempre se nota nas exposições portuguesas, — e esta não faz excepção, nem era de esperar que fizesse, — é a falta de composições de certa importancia. Paisagens, marinhas, quadros de flores, reproducções de velhos edificios pittorescos, algumas cabeças de estudo, um ou outro retrato, — eis o que sempre constitue os nossos concursos de pintura.

O Micróbio n.° 36, 26 de março de 1895.

O facto não é difficil de explicar, e já aqui me precedeu na enunciação das suas determinantes, um escriptor que desde muito vem seguindo com interesse o nosso movimento artistico. Mas, se não póde razoavelmente exigir-se que nas exposições de Lisboa e Porto figurem sempre obras d'esses que demandam tempo, despesa e preparação intellectual acima d'aquelles de que os nossos artistas podem de ordinario dispôr, — quer-me parecer que não será impertinencia pedir-lhes que variem um tanto a gamma dos seus assumptos, interpretando alguns trechos bem suggestivos e typicos da nossa paizagem, deante dos quaes ainda nenhum pintor se lembrou de armar o cavallete; fazendo-nos aperceber alguma cousa do genio e do viver das populações contemplativas da beira-mar, assim como da nossa vida rural, tão diversa segundo o caracter da paizagem e as variantes ethnicas; dando-nos mesmo, de quando a quando, alguma tentativa de reconstrucção historica, — em esboço a lapis ou a carvão que seja.

O Micróbio n.° 37, 4 de abril de 1895.

Em todo o caso, a exposição tem este anno um certo ar portuguez, que me captiva e enternece. Os artistas deram decididamente preferencia aos nossos campos, ás nossas praias, aos velhos solares meio derruidos que ainda se encontram por essas provincias fora, aos recantos mais deliciosamente cheios de pittoresco e de caracter das nossas antigas povoações historicas, aos claustros abandonados dos conventos extintos, ás figuras mais ou menos typicas de diversos pontos da nossa terra.

É preciso, porém, que não se limitem a pintar em Portugal, mas que se esforcem por pintar em portuguez; isto é, por nos darem conta, com verdade e sentimento, de quanto no paiz tenha uma accentuação nacional mais profunda e evidente, de modo que, se porventura um de nós alguma hora visse em terra estranha um quadro portuguez, logo sentisse mais intensa e pungitiva a saudade do pais natal, subito evocado pela realisação artistica, flagrantemente verdadeira e delicadamente sentida, de um dos aspectos mais caracteristicos e inconfun-diveis da sua vida ou da sua paizagem. 

Na secção de "esculptura", é que nos apparece uma composição figurativa de um successo da nossa historia: — um baixo-relevo de Motta, para o monumento a Affonso de Albuquerque. 

O moço esculptor compenetrou-se bem da situação, estudou intelligentemente o effeito d'ella nos diversos personagens, e conseguiu dar-nos uma composição que impressiona e domina, que tem, sem duvida, alguma cousa do caracter synthetico das verdadeiras resurreições artisticas do passado.

Na secção de "architectura", figuram vantajosamente o sr. Adães Bermudes, que completou ha pouco o seu curso na escola de Paris, e o sr. J. A. Soares, que foi alumno muito distincto da de Lisboa. 

Não occultarei uma observação que me occorreu ao examinar os trabalhos dos dois intelligentes artistas: 

Ao passo que os architectos se occupam em regra no estudo de grandes edificios monumentaes, inspirados geralmente n'algum dos estylos antigos, e destinados, na maior parte dos casos, a não passarem do papel, — o problema da construcção da casa moderna, tão difficil, tão complexo, de tão largo alcance, está quasi exclusivamente confiado a operarios, que um acaso da fortuna elevou á categoria de mestres de obras, e a quem falta absolutamente a forte educação especial que o mistér de construir exige. Calcule-se o que seria actualmente Lisboa, se em todas as numerosissimas edificações que nos ultimos dez annos se têem levantado, houvesse influido, de modo decisivo, a alta competencia scientifica e esthetica, que simples praticos não podem evidentemente possuir!

Importa que os architectos se esforcem por eliminar a opinião corrente, de que só servem para traçar no papel complicados e dispendiosos planos. 

Este anno, como nos passados, ha entre os concorrentes muitos professores de escolas industriaes, — portugueses e extrangeiros; — e uma das secções da exposição é a de arte applicada. Pois bem: todos esses professores assignam quadros; nem um só apresenta qualquer composição de natureza decorativa, e na secção de arte applicada, vê-se apenas um simples trabalho de paciencia, que revela certamente um executante habilissimo, mas que é destituido por completo de significação artistica.

Pinturas de António Ramalho na Tabacaria Monaco (Rossio 21 em Lisboa), inaugurada em 1894.
Imagem: a Arqueolojista

É necessario combater a todo o transe as preoccupaçóes acedemicas, que tendem a encerrar o artista na esphera da denominada arte pura; é necessario fazer passar pela industria uma forte corrente de arte, que a transforme e eleve; é necessario descobrir formulas decorativas, que originalisem os productos das nossas industrias, e os façam triumphar na concorrencia dos mercados.

Pinturas de António Ramalho na Tabacaria Monaco (Rossio 21 em Lisboa), inaugurada em 1894.
Imagem: Câmara Municipal de Lisboa

Como seria para desejar que a secção de arte applicada fosse de anno para anno denunciando uma convergencia cada vez mais poderosa de esforços dedicados e intelligentes, para a obra da renovação das nossas industrias de arte, mas renovação bem entendida, subordinada aos principios geraes, inilludiveis, da arte decorativa, inspirada n'aquelle alto exemplo de concordancia da fórma com a materia e destino do objecto, é da decoração com a forma, que nos offerece, luminosamente, a arte purissima dos gregos!

Quer-me parecer que só n'uma exposição official seria possivel reunir todos os artistas. Ainda assim, o Gremio tem já podido organisar concursos muito mais completos e significativos do que este. Deus me livre, pois, de proclamar, á vista d'elle, que a nossa arte decáe, esmorece, como se a exposição d'esta primavera acaso encerrasse os mais concludentes e decisivos depoimentos de todos os nossos artistas, como se dia porventura fosse absolutamente representativa da nossa hodierna, actividade artistica! 

A verdade, é que podemos neste momento contar com alguns trabalhadores da forma e da cor, que provadamente reunem á mais fina susceptibilidade do sentimento uma poderosa educação technica, e que têem por vezes conseguido distinguir-se e triumphar, nos centros artisticos mais concorridos e mais cultos. Assim o meio lhes não seja contrario!

Assim. o governo mostre comprehender que são verdadeiras medidas de salvação publica, do mais profundo alcance, da mais absoluta urgencia, e inteiramente compensadoras dos sacrificios que, porventura, de começo exijam, todas aquellas que tendam aos progressos artisticos; e assim a sociedade portuguesa, — onde as, cousas de arte vão felizmente suscitando algum interesse, — reconheça que, no meio das duvidas e incertezas que atormentam o espirito moderno, da fria aridez da vida contemporanea, da anarchia dos sentimentos e do conflicto das opiniões, a arte é o mais seguro refugio, a mais doce consolação, o mais poderoso elemento de concordia! 

Abril de 1895.
José Pessanha. (16)



(1) Diario Illustrado, 16 de março de 1895 (Abertura da Exposição)
(2) Diario Illustrado, 17 de março de 1895 (António Ramalho)
(3) Diario Illustrado, 18 de março de 1895 (José Malhoa)
(4) Diario Illustrado, 19 de março de 1895 (Christino da Silva)
(5) Diario Illustrado, 20 de março de 1895 (Manuel Henrique Pinto)
(6) Diario Illustrado, 21 de março de 1895 (António Francisco Baeta)
(7) Diario Illustrado, 24 de março de 1895 (João Cabral; A. Machado)
(8) Diario Illustrado, 26 de março de 1895 (Arthur Vieira de Mello; Adolpho Benarus)
(9) Diario Illustrado, 27 de março de 1895 (Roque Gameiro)
(10) Diario Illustrado, 28 de março de 1895 (Velloso Salgado)
(11) Diario Illustrado, 29 de março de 1895 (Conde de Almedina)
(12) Diario Illustrado, 30 de março de 1895 (Luciano Freire)
(13) Diario Illustrado, 2 de abril de 1895 (Ferreira da Costa)
(14) Diario Illustrado, 3 de abril de 1895 (João Vaz)
(15) Diario Illustrado, 6 de abril de 1895 (Arthur V. May)
(16) Arte Portugueza N.º 4, abril de 1895

sexta-feira, 9 de junho de 2017

A exposição Columbano em 1894

No salão da livraria do sr. Gomes [M. Gomes, Livreiro de Suas Magestades e Altezas, rua Garrett, 70-72, Lisboa], um amavel cynico, intelligente e de bom gosto, estão expostas algumas das obras mais notaveis do pintor Columbano. É uma exposição grandiosa, bastante superior ao nivel de comprehensão da maioria du nosso publico, e um acontecimento na arte nacional. 

Retrato da Viscondessa de Sacavém (detalhe), Columbano, 1890.
Imagem: Memórias e Imagens

A coincidencia da inauguração com um dia de tourada veiu roubar-lhe os "admiradores mais dilectos" e d'entre os que estavam, houve quem interrogasse o artista sobre o numero e dimensões das suas telas. quem sabe se para poder calcular as dimensões do seu talento.

Suas Magestades El-Rei e a Rainha, sempre solícitos e apreciadores do bello, alli estiveram a abrilhantar o acto, raros pintores, alguns litteratos, o sr. Marianno Pina, e limitado numero de admiradores de Columbano.

Retrato de Mariano Pina, Columbano, c. 1882.
Imagem: MNAC

Columbano é já um pintor extraordinario, um dos raros que comprehendeu a grandiosidade da arte. O que elle pinta não é abstracto, é profundo, vivo, sentido e individual. Ha na sua alma alguma cousa acima do vulgar, um ideal soberbo, e um orgulho de raça e de caracter que fazem d'elle um dos mais notaveis pintores peninsulares. A sua maneira de desenhar, por manchas largas, sem dureza nos contornos, comparal a ha, talvez, o sr. Marianno Pina á de Deschamps.

Atelier de Columbano, c. 1890.
Imagem: Margarida Elias, Columbano e as Caldas da Rainha

Columbano faz a sua arte com uncção, religiozaente, como o sacerdote erguendo a patena que cobre o calix sagrado. É altivo e independente; passa affectuoso por entre os applausos dos que o comprehendem, e indifferente e arrogante pela chusma dos ignorantes e invejosos.

Porque não? Que lhe importa a critica malevola, ou que lhe importa a apreciação dos estupidos? Elle alma nobre e concentrada, que reflecte, cerebro pujante que indaga e cogita. 

A exposição compõe-se de retratos, da grande téla "Camões evocando as tagides" e do delicioso esboceto "A Virgem da Conceição".

Os retratos não são "fac similis" de anonymos burguezes, mas uma colleção de verdadeiros retratos d'alguns dos homens notaveis da nossa actual geração. Em todos elles o que Columbano procura reproduzir com maior intensidade é a expressão moral e realisa-o assombrosamente. 

São tão suggestivas que ao vér a atormentada fronte de Anthero do Quental, a expressão dolorida e suave do pensador poeta, parece que assistimos ao drama, cujos primeiros capitulos estão na sua marcha immortal, e termina com a morte tragica

Retrato de Antero de Quental, Columbano, 1889.
Imagem: MNAC

Da esphera do invisível do intangível 
Sobre desertos, vacuos, soledade 
Vôa e paira o espirito impossível

Esse espirito imposivel. ansioso por alcança! o intangível ideal sobrehumano, está ali na téla, figura eburnea d'um Christo de marfim, fitando-nos e parecendo que vae revelar-nos alguma cousa do inefavel grandioso que o assoberba.

Ao lado, Guerra Junqueiro [1889], sorri-nos, cravando o seu olhar penetrante que nos analysa, deixando entrever ao mesmo tempo as meiguices extraordinarias da sua alma de athleta.

Retrato de Guerra Junqueiro, Columbano, 1889.
Imagem: flickr

O perfil grave de Oliveira Martins defronta com o ar expamivo do artista Leandro Braga. 

Retrato de Oliveira Martins, Columbano, 1891.
Imagem: MNAC

A fina cabeça de Batalha Reis, a extraordhiaria fronte de Silva Pinto, a justa expressão de concentrada energia de Fialho de Almeida, o vago olhar scismador de Eugenio de Castro, tudo o pincel de Columbano nos apresenta d'uma maneira original, grande. A modelação das cabeças é d'um rigor unico, parece querer desvendar-nos o eu que cada uma encerra. 

Retrato de Jaime Batalha Reis,, Columbano, 1892.
Imagem: MNAC

Retrato de Silva Pinto, Columbano, 1891.
Imagem: Wikipédia

Retrato de Fialho de Almeida, Columbano, 1891.
Imagem: MNAC

O retrato em corpo inteiro de Taborda, soberbo, faz "pendant" ao de João Rosa, desenhado com primor inexcedível. 

Retrato do actor João Rosa, Columbano.
Imagem: Ruas de Lisboa...

O retrato da viscondessa de Sacavam, que tem a frescura e o avelludado d'um pastel; é adoravel; o busto delicado e gentil destaca finamente da tela, e a cabeça sob o grande chapeu, tem uma expressão animada, encantadora.

Retrato da Viscondessa de Sacavém, Columbano, 1890.
Imagem: Memórias e Imagens

É um retrato de superior elegancia com a sobria correcção d'uma obra de arte que mais tarde deve ser guardado, joia preciosa, n'um museu.

Os retratos de D. João da Camara, de Lopes de Mendonça. Antonio Feijó, Lino d'Assumpção, Coelho de Carvalho, completam esta correcção soberba e se algum como o de Antonio Feijó, é menos vigorosamente expressivo, outros como o de Coelho de Carvalho empolgam-nos com a attracção irresistivel d'uma téla de Zurbaram.

Retrato de António Feijó, Columbano 1893.
Imagem: Biblioteca Municipal de Ponte de Lima

O Camões é obra d'um artista d'alma profunda que sente a aspiração ideal que fazia levantar o peito do grande poeta portuguez. As nymphas que o poeta evoca escutam n'o, maravilha-as a voz inspirada, que n'um canto sublime e supremo, vae immortalisal-as. 

Camões invocando as Tágides, Columbano, 1894.
Imagem: Poet'anarquista

O mar é bem "salso mar" de infinita volupia, de brumas que acariciam os sentidos como um beijo d'ondina, é o vasto lençol d'agua espumante e glauco em que brincam as nymphas e que embala os sonhos do poeta. Diurna singular belleza o dorso de mulher que está no primeiro plano, e a figura de Camões, numa altitude largo e inspirada domina todo o quadro e desperta no espectador uma commoção vibrante.

Não acho, porém, isenta d'algum defeito esta bella obra; devia ser mais formosa a nympha que está de perfil; faz lembrar umas figuras de Goya, que decerto não representam as gentis habitantes das aguas. Um tanto pesadas lambem me parecem as nuvens que pairam na atmosphera.

Camões invocando as Tágides (detalhe), Columbano, 1894.
Imagem: Poet'anarquista

A "Virgem da Conceição" é um esboceto feito com largueza e simplicidade, e tão idealmente tocado que desejaria vêl-a aproveitado pelo pintor para um grande retabulo.

Quando se entra na exposição Columbano sente-se uma impressão profunda, é um delicioso sentimento, mimo de respeito, de orgulho e de alegria. Sae-se com pezar do pequeno recintho.

Retrato do Coronel Ribeiro Arthur, Columbano, 1890.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

É que na obra de Columbano ha uma porção tão grande de arte, de ideal e de alma, que só um espirito em demasia frivolo se não apaixona por ella. Saudemos o illustre artista não esperando por que o futuro tenha de fazer justiça a um talento que é uma gloria para a nossa pobre arte nacional.

B. Sesinando Ribeiro Arthur. (1)


(1) O Occidente N.º 557, 11 de junho de 1894

Informação adicional:
O sítio onde Columbano retratou Antero
Margarida Elias, Columbano e as Caldas da Rainha
Columbano, Un réaliste portugais (1880 - 1900)