quinta-feira, 8 de junho de 2017

O Grémio Artístico (4.ª exposição, 1894)

Sympathica commemoração á memória do seu chorado mestre fizeram os discípulos de Silva Porto, expondo o seu ultimo trabalho incompleto. Mas que dolorosas idéas me suggeriu esse esboceto — Macieiras em flor — tão primaveral, concebido certamente num alegre dia sob a risonha impressão que no espirito acordam a esperança e a coragem. Infeliz homem, mallogrado artista! A sua recordação é uma pungente saudade para os amigos, e a sua falta avalia-se ali na exposição, onde já não dominam as suas télas.

Macieiras em flor [MNSR, existe uma tela homónima no MNGV], Silva Porto, 1893.
Imagem:  flickriver

Era dos modernos pintores o mais completo, um mestre, amoravel e bom, illustrado, artista apaixonado pela arte; foi de entre os camaradas o primeiro que partiu, deixando na sua obra um documento honroso para a arte portugueza. (1)

Apresenta-se a quarta exposição do Grêmio Artístico innegavelmente inferior á antecedente. Esperava que os rigores da critica tivessem estimulado os nossos trabalhadores da arte; mas se esse estimulo existiu foi tão pequeno que as causas mórbidas de que soffre a arte nacional o abafaram. 

Aproveitando uma aberta, Arthur May, 1894.
Imagem: Museu de Lisboa

Não falta vontade a meia duzia de sonhadores destemidos, mas a indolência adormece alguns talentos preciosos, o meio estiola os fracos, desnorteia os hesitantes, a boa direcção falta, e n’isto, como em tudo o mais, o nosso viver apresenta-se n’um estado de fraqueza desanimador.

Querer, como alguns, que o nosso movimento artístico acompanhe o nosso movimento litterario é querer um impossível, embora esse desejo seja estimulado pela nobre ambição de ver applaudidas, veneradas e nossas, obras que são, em qualquer parte que appareçam, glorias para humanidade.

Primeiro que dos artistas fallarei dos amadores e discípulos, que são a doença de que ha de morrer o Grémio, o qual pouco a pouco se vae transformando em bazar de curiosidades. Porque é o jury tão benevolo, e porque lisonjeiam os artistas os seus discípulos, mascarando-lhes com uns inilludiveis toques dos seus pincéis as obras incorrectas, que depois apresentam na exposição, o que desacredita a um mesmo tempo os mestres e os discípulos? 

Um caso doestes passaria desapercebido, mas são tantos e tiram por tal fórma a seriedade ás exposições do Grêmio , que os artistas zelosos da sua dignidade virão mais tarde a fugir-lhe.

Que os pintores se deixem de lisonjear vaidades, por interesse proprio, e para bem geral, e que os amadores conscienciosos sujeitem á imparcial decisão do jury os trabalhos unicamente devidos ao proprio esforço.

Velloso Salgado

A tout seigneur tout honneur. Velloso Salgado é indiscutivelmente o primeiro expositor de pintura; as suas primorosas aptidões artísticas, o seu talento vigoroso, a sua caprichosa phantasia manifestam-se largamente na sua exposição d’este anno. 

Retrato de Anselmo Braamcamp Freire (estudo), Veloso Salgado.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

É irregular, mas domina por uma obra superior e toda ella tem o cunho de mérito que subjuga. — O retrato do sr. Braamcamp Freire — é a joia da exposição; trabalhada pelo buril parisiense refulge de modernismo, e brilha n’ella todo o talento de Salgado; tem o vigor de um pincel de mestre, a sobriedade e nobreza de toda a verdadeira obra de arte. — O retrato do sr. Correia de Barros — é um bom trabalho, a cabeça tem grande vigor de expressão.

Dos outros quadros de Salgado, os estudos de plein air — Cabeça de estudo — e — Varina — tem qualidades de muito apreço, grande expressão, frescura e bastante original.

Marques de Oliveira

Marques de Oliveira encanta com as suas róseas paisagens, tão originaes, envolvidas n’uma bruma de sonho, cheias de um vago e indefinido sentimento; manchasinhas revelando todas um artista com talento e alma, pintor de raras qualidades, nao satisfeito nunca, que devaneia mais do que pinta, na aspiração de um ideal transcendente, inattingivel. "Tudo pela arte". Formoso lemma que Marques de Oliveira segue inquebrantável.

A figura de mulher no quadro — Ao fim da tarde — é surprehendente de naturalidade, de graça campesina e de expressão; se o animal que está ao pé não prejudicasse o quadro, este seria uma obra prima. Aquella figura rústica e poética na sua attitude inconscientemente scismadora, no fundo também vago e melancólico, seria a mais bella expressão do sentir do pintor. 

Das suas formosas paisagens acho adoravel — A Cascalheira.

José Malhoa

Malhôa, impávido, risonho sempre, atrevido, trilha sem medo carreiras novas. Onde vão dar? Que importa! A vida é o movimento, a variedade, para que estar sempre no mesmo ponto a martellar a mesma idéa? Temperamento de folhetinista, todo o assumpto lhe serve; apossa-se delle e depois apresenta-o de um modo que nos seduz.

Este anno a novidade é o nu, pintura difficil, que não se presta a jicelles e que Malhôa ataca corajosa e felizmente. A figura — No descanso — tem uma carnação deliciosa e bem modelada; os accessorios e o fundo tratados sobriamente dão valor ao quadro.

Descanso (posteriormente O atelier do artista), José Malhoa, 1893 ou 1894.
Imagem: Wikipédia

A figura — Antes da sessão — apresenta um bello dorso, tem frescura e delicadeza, mas não gosto da maneira por que pousa.

Antes da sessão, José Malhoa, 1893 ou 1894.
Imagem: Antes da sessão, um Descanso (1894)...

O quadro — Cócegas — é uma scena rústica, viva e bem tratada, sobretudo nos primeiros planos.

Arte Pintura José Malhoa Cócegas 1894 01.jpg
Imagem: O Occidente N.º 565, 1 de setembro de 1894
Cócegas, José Malhoa, versão de 1904.
Imagem: Wikimédia

Nos — Ouriços — é graciosa a figura da creança e estão bem encontrados os valores. Mas, a meu ver, o melhor de todos os trabalhos que apresenta este anno é — O retrato da sr. D. Luiz Almedina —, muito bem modelado e feito com a simplicidade de um mestre. O fundo, procurado com arte, é de uns tons nacarados que realçam a formosura do original.

Os ouriços, José Malhoa, 1894.
[v. Illustração Portugueza", 28/4/1913, p. 522]
Imagem: Os cachopos da fonte do Cordeiro

Malhôa não excedeu o que d’elle se esperava, mas sustenta o seu credito de trabalhador energico e activo; não affrouxa, nem desmerece nenhuma das bellas qualidades que sempre o têem distinguido.

João Vaz

Vaz continua a apresentar-nos as suas deliciosas marinhas, tranquillas, risonhas, aspectos fluviaes queridos do artista, pedaços de afeial, em que as aguas se espreguiçam, barcos que se balouçam bran- damente, tudo tratado com a serenidade e segurança do artista feito, que tem uma maneira sua, e pinta como sente.— As gaivotas — e os — Barcos da minha terra — são duas formosas télas.

Outras mais pequenas como — As bateiras — o — Pôr do sol — são impressões, marcadas de um sentimento de vaga poesia. Tem todas um cunho especial, uma originalidade vaga e attrahente.

António Ramalho

Ramalho expõe um quadrinho que é um poema de luz, — O tio Jeronymo. — Como ali cantam as cores num vivo e suave accorde! E uma das mais bellas e alegres notas da exposição. Mas porque será que este pintor de tão real e superior mérito expõe tão pouco? 

Tio Jerónimo, António Ramalho, 1893.
Imagem: Alexandra Markl, António Ramalho...

Apresenta-nos o retrato da actriz Virgínia, trabalho primoroso de factura, em que ha bellas rendas e velludos opulentos, um delicioso acabamento de mãos e um bom claro escuro, mas que no conjuncto é inferior a outros executados pelo mesmo artista.

Retrato da actriz Virgínia, António Ramalho , 1893.
Imagem: Alexandra Markl, António Ramalho...

Expõe também um — Retrato de creança — do qual podemos proximamente dizer o mesmo que do retrato da actiz Virgínia, uma télasinha luminosa a — Capella do Corpo Santo — e uma cabeça a pastel, retrato de um seu collega, desenho de um avelludado precioso.

É a producção de um artista que descansa e que em meio do seu dolce far niente dá umas pinceladas por desfastio. Mas por Deus, nobreza obriga. Quem possue o enorme talento de Ramalho não póde descansar assim. Encobrirá este repouso apparente o trabalho de gestação de alguma obra soberba, desti- nada a emocionar-nos no futuro? Se assim for, abençoados ocios.

Luciano Freire

Freire não descansa; é um modesto, activo e consciencioso trabalhador. Na anterior exposição os seus trabalhos tão sinceros, de uma nobre seriedade, captivaram-me; augurei-lhe um bom futuro, e elle apresenta-se este anno de uma maneira brilhante, que confirma as predições que toda a critica leal fez a seu respeito.

O seu quadro principal os — Catraeiros — é uma prova do que pódem o estudo e o trabalho quando auxiliam valiosas faculdades. Não é irreprehensivel, como o não póde ser, o trabalho do artista que ainda procura e hesita; mas que bella e vigorosa execução a de aquellas figuras vivas, que acerto na composição, que scena tão animada na sua rude singeleza, não apresenta aquelle quadro de Freire.

Arte Pintura Luciano Freire Os catraeiros 1893 1894 01.jpg
Imagem: O Occidente N.º 556, 1 de junho de 1894

Possue esse não sei quê com que nos prendem todas as obras que o talento assignala. 

A — Scena rustica — é uma téla pequena, mas de não inferior merecimento, exigindo menos esforço de com- posição o seu todo é mais harmonico; sóbria, naturalíssima, as figuras dos animaes cuidadosamente estudadas.

A cabeça de velha — Em ovação — é em extremo expressiva e de uma bella modelação, — Fins de dezembro — uma fria paisagem, de que as brumas nos põem arrepios no corpo, mas onde se encontra, como em todos os trabalhos de Freire, uma naturalidade realçada pelo fulgor de um ideal largo e puro, dourando com os seus reflexos uma obra que começa scintillante de promessas feitas sem ruido, mas animadas pelo calor de uma fé ardente.

Ernesto Condeixa

Condeixa é um mestre no desenho, poucos artistas alcançam a correcção do seu lapis. É pena ter um colorido molle e uma pincelada táo uniforme que d’ella resulta no seu trabalho semelhança entre um tecido e uma pedra.

Nota-se nos seus quadros uma grande precisão nos valores, justamente encontrados, o que dá enorme relevo ás figuras pela differenciação dos planos. Estas qualidades podem apreciar-se na — Volta da fonte — onde a figura de mulher chama a attenção pela correcção e vigor com que está desenhada.

Á volta da fonte, Ernesto Condeixa, 1894.
Imagem: MNAC

Também desenhado com grande superioridade está o — Retrato do sr. P. L. — e tem mais vigorosos traços de pincel. A pequena paisagem, — Ponte velha de Carenque — e a — Natureza morta — têem muito boa execução, principalmente a ultima.

Gosto muito da sanguínea — Italiana — que está admiravelmente desenhada. Condeixa distingue-se na exposição d’este anno entre os seus melhores camaradas.

João Galhardo

João Galhardo é um dos novos que se apresenta fadado para a conquista de louros no futuro, se tiver perseverança, coragem e o bom senso necessário para se não cegar com os primeiros deslumbramentos de triumpho, adquirindo pelo estudo aturado e pelo trabalho consciencioso as qualidades que o hão de tornar um distincto pintor. 

Tem talento, audacia, originalidade, e uma irrequieta e exaltada phantasia que póde servir-lhe se souber dominal-a, mas que também póde perdel-o. Parece-me destinado a engrossar a fileira dos dissidentes. E um dos artistas novos a quem conviria sair d'este meio acanhado e ir temperar a sua nervosa força em mais larga arena. 

As suas paisagens, todas escolhidas com intuição artistica, têem um cunho de originalidade que as torna muito interessantes, e algumas durezas que a boa execu- ção geral resgata. Distinguem se entre ellas o — Rio de Freixial — e o — Caminho de Azoia — . Um gentil quadrinho, — Atravessando as leiras — . A figura da rapariga graciosamente desenhada, avança sob uma atmosphera transparente, banhada de luz, e o campo estende-se a perder de vista. 

Está executado com firmeza e vale. Galhardo apresenta-se pois este anno bem galhardamente e dá-nos o direito de esperarmos bastante d’elle.

Arthur Mello

Arthur Mello, talentoso, com um atrevimento e petulância proprios de seu caracter, de que resumam acres verduras, saltita por uma gamma de cores, desde o vermelho alaranjado até ao violeta, e mergulharia o seu pincel nos raios obscuros do espectro, se fosse dado aos mortaes devassar esses segredos da luz. São audaciosos os seus trabalhos, e a sua exposição este anno impressionou-me. Um bocadinho mais de modéstia e o jovem pintor conquistará esse favor do publico que procura attrahir ruidosamente.

O seu estudo, — Ao sol — , agrada e é bem desenhado, mas o artista procura tirar com a harmonia das cores comple- mentares effeitos, que não estão na natureza, a qual se recusa a violências. Pre- cisamente o mesmo posso dizer da — Cabeça de rapaz — , que todavia tem bellos effeitos de luz e sombra.

Recordação, Vieira de Mello.
Imagem: Arte Portugueza N.º 3, março de 1895

O melhor dos seus trabalhos é a — Recordação — menos convencional, mais sincera, e de grande riqueza de tons. Agradam-me menos as outras suas télas; direi mesmo que acho banal a — Engeitada — . Em resumo: Mello é um artista que promette bastante para quando amadurecer mais um pouco.

Ezequiel Pereira

Ezequiel, discípulo de Silva Porto, tenta seguir as pisadas do mestre. As suas paisagens, tao larga e brilhantemente tratadas, têem um grande encanto no colorido. — As lavadeiras no Mondego — apesar do pouco acabamento das figuras, apenas indicadas, é uma bella paisagem, de luz clara e suave; respira-se e vive-se naquelle pedaço de téla em que o azul canta alegrias e a mocidade esplende. 

Lavadeiras no Mondego [Lavando roupa no rio], Ezequiel Pereira, 1894.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

É uma linda mancha o — Mondego — , encantador o — Choupal — . Ezequiel tem qualidades para ser um delicado paisagista, possue um bello talento, sentimento, e tem muito poucos annos, o que é ainda uma garantia de futuro.

António Francisco Baeta

Baeta aqueceu um pouco mais a sua habitual frieza de tons. Dá-nos em o — Crepúsculo — uma impressão vivida e sentida, e as — Flores — pintadas com largueza e graça, são bellas.

Apresenta um bom numero de télasinhas bem desenhadas, e que, não obstante parecerem na maior parte pintadas com indifferença, demonstram que o artista podia, se quizesse, apresentar trabalhos de maior folego e de mais completo acabamento.

Torcato Pinheiro

Torcato Pinheiro tem feito notáveis progressos; são muito interessantes os trabalhos que mandou do Porto, dos quaes me agrada muito o — Caminho no Regado — . É um artista sympathico e em extremo modesto.

Josefa Greno

D. Josefa Greno anima a exposição com o fresco colorido das suas bellas flores. As — Papoulas — são uma gentileza. Em alguns outros quadros os fructos têem bastante perfeição e muita verdade. As composições são sempre graciosas, o desenho, em geral, bom e em todos os seus trabalhos se encontra alguma cousa mais que o correcto. — Preparos para o festim — é uma bonita composição, animada na sua insensibilidade, que é pena ter algumas imperfeições no desenho, e estarem pouco tratados os primeiros planos.

Esta senhora, uma verdadeira artista, cultiva amorosamente o genero a que se dedicou, e as suas télas oíferecem sem- pre uma variedade e encanto seductores.

Thomás de Mello, Manuel Henrique Pinto, Teixeira Bastos

Alem dos trabalhos dos artistas a quem dediquei um pequeno estudo, varias télas me deixaram uma impressão agradavel como as marinhas de Thomás de Mello, os — Preparativos para a caça — de Henrique Pinto, o estudo de cabeças no quadro — A missa — de Teixeira Bastos, e aqui e alem, um accessorio, umas pinceladas justas, a modelação de alguma cabeça, que a brevidade com que ex- ponho as minhas impressões me não per- mitte descrever minuciosamente.

Preparativos para a caça [Armando aos pássaros], Manuel Henrique Pinto, 1893.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Como já disse, o aspecto geral da exposição é inferior ao das antecedentes; sente-se muito a falta de Silva Porto, e, alem d’isso, os nossos principaes artistas pouco fizeram que mereça grandes applausos. O que ha de mais importante a notar são os esforços dos novos, animadoras promessas de que a idéa de um renovamento de gosto pela arte não perde terreno, antes se affirma, sem ruido, mas com persistência.

Alfredo Roque Gameiro

Na aguarella occupam, como sempre, o mais distincto logar as producçoes de Gameiro [v. Roque Gameiro.org]. 

O — Retrato de mademoiselle Maria Gomes — Um frade — , as paisagens, e muito especialmente o — Estudo — , são verdadeiros trabalhos de um artista que conhece o métier. E não é dado a todos este dom especial de réussir num ramo de pintura que tem recursos limitados, compromissos que se impõem, onde os effeitos se hão de conseguir rapidamente, e o pincel alcançar levezas de arminho. Houve quem lhe chamasse brinquedo de arte; todavia é um brinquedo difficil.

Quem assim a trata ainda não viu as esplendidas aguarellas de Fortuny, nem as de alguns artistas eminentes. Ignora os applausos que nas exposições da rua de Sèze têem recebido os bellos trabalhos d’Harpignies, de Zuber, de Madeleine Lemaire, de Clairin, de Maurice Leloir e outros pintores que em Paris d’ella se occupam. Não comprehenderia o valor das soberbas figuras aguarelladas por Detaille, e se lhe dissessem que varias das aguarellas do grande Meissonier al cançaram na exposição o subido preço de 58:ooo francos, superior ao de alguns dos seus melhores quadros a oleo, pensaria que era gracejo.

O nosso critico, que assim considera a aguarella, ha de apesar d’isso convir em que Gameiro é um artista de mérito superior a muitos dos que expõem nas outras salas.

Nicola Bigaglia

Na exposição d'este anno apresenta o architecto Bigaglia uma grande aguarella representando o — Claustro dos Jeronymos — ; é um estudo de architectura, despido de sentimento, mas está tratado com uma soberba maestria, tem um admiraravel estudo de planos e o ar circula livremente pelas arcadas de que a vista alcança a profundidade enorme.

Celso Herminio

A pastel apresentam bons trabalhos alguns dos nossos mais conhecidos artistas; mas em desenhos, depois da bella sanguinea de Condeixa, o que me chamou a attenção foram as interessantes caricaturas de Celso Herminio, um talento novo, já confirmado, e que conquista largo terreno na arte de Gavarni.

Simões de Almeida

Simões de Almeida honra este anno a exposição com uma das suas mais bellas obras — Superstição — , estatua de uma esplendida belleza, em cuja contemplação o olhar cansado de percorrer as salas vae repousar contente. Simões de Almeida é um artista de primeira ordem, o nosso primeiro estatuário, um mestre a quem todos respeitam, e a apreciação do seu mérito não cabe aqui em linhas traçadas á pressa: A — Superstição — é uma maravilha em que a graça, a correcção das linhas, o primor da modelação, a harmonia das fôrmas encantam, deixando apenas um sentimento — a admiração.

Superstição, Simões de Almeida (tio), 1893.
Imagem: Os escultores Simões de Almeida

A estatua de Simões de Almeida só por si faria o attractivo da exposição ; para vel-a os amadores correriam ás salas de S. Francisco, ainda quando n’ellas nada mais se encontrasse. Aos pés depozeram-lhe flores, homenagem á belleza, ao talento, á arte. Mas ainda mais grandiosa e sincera homenagem existe no coração dos admiradores do grande artista, que sentem, ao contemplar aquella obra prima, acceso o calor do enthusiasmo. Bravos a Simões de Almeida.

Teixeira Lopes

Em esculptura mais nenhum trabalho de grandes proporções se apresenta, mas encontra-se lá arte, verdadeira arte, como n’aquella deliciosa cabecinha em bronze de Teixeira Lopes, esse talentoso esculptor, da patria de Soares dos Reis, moço ainda e já tão illustre. É um artista de valente pulso, de uma intelligencia vasta e profunda. Ha nas suas obras um grande arrojo de concepção, que não exclue o sentimento mais delicado.

Caridade, Teixeira Lopes, 1894.

Apresenta também na exposição alguns esbocetos em gesso de grande merecimento, principalmente a — Caridade — que é uma composição admiravel.

oooOooo

Quando as primeiras exposições de arte, não officiaes, appareceram, ouviu-se de todos os lados tão vivo e espontâneo clamor, que o publico, accordando de repente, perguntou o que era. — É a arte, senhores, que renasce entre nós, abram-lhe os braços, festejem-na, lancem aos artistas flores e oiro, elles merecem tudo. 

Imagem: Arte Portugueza N.º 2, fevereiro de 1895

O publico um pouco desconfiado, sim, mas professando o credo da letra redonda, começou a applaudir a arte e os artistas, lançando-lhes porém flores e oiro com uma certa conta e medida, para os não estragar. Isto assim alguns annos. Durante elles os artistas foram trabalhando e conseguiram bastante. 

Silva Porto, trabalhou incessantemente, fez pintura portugueza, original, sincera e sentida. Columbano confirmou-se um original e grande pintor. Malhôa tem trabalhado sempre infatigavelmente, arrostando com todas as difficuldades, arrojando-se a commettimentos largos e manifestando uma preciosa plasticidade de talento. Soares dos Reis, o grande estatuário, deixa trabalhos geniaes e mata-se porque encontra o mundo pequeno para o seu ideal. Simões de Almeida está formando com a sua obra um pedestal glorioso sobre o qual o ha de venerar o futuro. Uma pleiade de artistas tem surgido, e de entre esses, como Ramalho, Salgado, Teixeira Lopes, Soua Pinto, preciosos talentos, pois pergunta um critico, comparando a litteratura portugueza com as artes plasticas em Portugal nos últimos dez annos, o que têem ellas dado?

Agora passou a ser moda tratar mal os artistas na imprensa, e esta moda para se parecer com todas veiu importada de Paris na bagagem de um jornalista que encetou uma critica, embora illustrada e com pontos de vista elevados, exageradissima pelas comparações e pelas pretensòes de querer medir pela grande bitola do Salon de Paris o nosso petit salon da rua de S. Francisco. 

Criticando acerbamente todos os nossos artistas não deixava de pé dois ou tres, visando, talvez, principalmente, ferir o Grémio Artístico , mas sendo em geral de uma grande benevolencia para com os amadores pretenciosos que o estragam.

Todavia esta critica irritante e injusta muitas vezes, não tem ainda os ridiculos de algumas outras, feitas por sujeitos que pouco enxergam de arte e vão dando bordoada de cego, macaqueando as severidades vindas de Paris, mas sem conseguirem alcançar ao menos o ar pedante e fino d'ellas.

Os artistas sáem de taes mãos feitos frangalhos: um atira-se ao Malhôa porque trabalha em tudo, outro ao Vaz porque só pinta marinhas, não sei quem, apresenta Marques de Oliveira, um paisagista primoroso, quasi como se fosse um mirabolante decorador de casas de jantar. É escusado citar mais.

Ora estes senhores críticos para quem os pintores, hontem cheios de merecimentos, hoje são simples borradores de télas, não pensam que o publico, na sua maioria pouco instruído, não podendo sobre tal assumpto ter opinião própria, se fia nas que elles lhe impõem, e fazendo a loucura de lhes dar credito, se julga burlado na protecção que de algum modo der aos artistas e á arte? 

Não conhecem estes senhores que em vez de cumprirem com a sua obrigação de educar e bem dirigir o publico o desnorteiam?

A exposição d’este anno não está rica de obras de mérito, mas representa bastante esforço e trabalho, revela tentativas felizes, aspirações justas e promessas de futuro; já é alguma cousa.

Imagem: Arte Portugueza N.º 2, fevereiro de 1895

Dedicar a sua vida a um trabalho que absorve todos os dias e todas as horas, e entre nós apenas permitte viver na mais obscura modéstia, viver orgulhosa e exclusivamente d'elle e para elle, ter de soffrer as injurias da critica, os desdens da ignorância, não desanimar nunca, seguir inalterável no ideal que se venera, faz dos artistas sacerdotes ante os quaes sempre me curvarei com respeito.

Maio de 1894. (2)


(1) Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (I), 1896
(2) Idem

Mais informação:
O Occidente N.º 556, 1 de junho de 1894
O Occidente N.º 564, 21 de agosto de 1894
O Occidente N.º 565, 1 de setembro de 1894
Arte Portugueza N.º 2, fevereiro de 1895
Arte Portugueza N.º 3, março de 1895
Arte Portugueza N.º 4, abril de 1895

Informação complementar:
António de Lemos, Notas d'arte, Porto, Typographia Universal, 1906
Ramalho Ortigão, S. M. el-rei D. Carlos I e a sua obra artística e scientífica, Lisboa, António Palhares, 1908

terça-feira, 6 de junho de 2017

Silva Porto (pequena biografia)

Antonio Carvalho da Silva Porto nasceu no Porto a 11 de novembro de 1850. De 1865 a 1873, seguiu alli com distincção os cursos de architectura civil, esculptura e pintura, na Escola de Bellas-Artes. No ultimo teve por mestre João Corrêa. Em 1873, tendo feito concurso, partiu para o extrangeiro, como pensionista do Estado, a completar a sua educação.

As Margens do Oise em Auvers, Silva Porto, 1876.
Imagem: MNSR

Dirigiu-se primeiro a Paris, onde esteve até 1877 e onde foi discipulo de Cabanel, Daubigny, Beauverie, Yvon e Groseillez [v. Silva Porto, António Carvalho de (MatrizNet)]. 

Cancela vermelha (Barbizon), Silva Porto, 1880 [?].
Imagem: SlideShare

N'esse anno [1877], foi para Roma concluir os seus estudos.

Costume de Capri, Silva Porto, 1877.
Imagem: MNSR

Costume da campanha romana, Silva Porto, 1877-1888.
Imagem: MNSR

De Italia voltou a França, realisando em seguida, á sua custa, uma viagem pelos museus da Belgica, Hollanda, Inglaterra e Hespanha.

Margens do Loire [actualmente no MNGV], Silva Porto [1879].
Imagem: MatrizNet

O lago de Enghien, Silva Porto, 1879.
Imagem: MNAC

No seu regresso a Portugal em 1879, foi logo nomeado interinamente, para um dos logares de professor de pintura na Escola de Bellas-Artes de Lisboa,— togar que a morte de Annunciaçáo (em 3 de abril d'aquelle anno) deixara vago. Em 1883, passou á effectividade.

Silva Porto concorreu ás exposições do Salon, em Paris, nos annos de 1876, 1878 e 1879, merecendo as suas obras a attenção da critica.

Pequena fiandeira napolitana, Silva Porto, c. 1877.
[Salon de Paris em 1878]
Imagem: MNAC

Enviou tambem alguns quadros á exposição universal que se realisou n'aquella cidade em 1878. 

A tigela partida [Un petit malheur], Silva Porto; 1877-88.
[Exposição Universal de Paris em 1878]
Imagem: MNSR

E quando, em 1881, a Hespanha celebrou o bi-centenario de Calderon, expoz diversos trabalhos em Madrid.

Seara (Arredores de Paris) [Um campo de trigo], Silva Porto, 1878-1879.
[Exposicion General de Bellas Artes, comemorativa do Centenário de Calderon]
Imagem: porto24

Em Portugal, apresentou-se pela primeira vez em 1880, n'uma exposição organisada pela Sociedade Promotora das Bellas-Artes. 

A Charneca de Belas [a introducção do Naturalisno em Portugal], Silva Porto, 1879.
[12.ª Exposição da Sociedade Promotora de Belas Artes]
Imagem: MNAC

Depois, tomou parte nas oito exposições realisadas, de 1881 a 1888, pelo Grupo do "Leão", de que era o mestre, o chefe, — e em 1891, 1892 e 1893, nas exposições promovidas pelo Gremio Artistico, de que foi presidente e um dos fundadores [v. tema: Grupo do Leão].

Contrariada, Silva Porto, c. 1884.
[4.ª exposição de quadros modernos, 1884 (Grupo do Leão)]
Imagem: MutualArt

Figuraram ainda trabalhos seus na decima-terceira e na decima-quarta exposição da Sociedade Promotora, e no Porto repetidas vezes.

Á exposição industrial que em 1888 se realisou em Lisboa, enviou dois dos seus melhores quadros: — A Salmeja e A volta do mercado. O jury conferiu-lhe a medalha de ouro.

A Salmeja, Silva Porto, 1884.
[Exposição Industrial de Lisboa, 1888]
Imagem: Viagens Pelo Oeste

A volta do mercado, Silva Porto, 1886.
[Exposição Industrial de Lisboa, 1888]
Imagem: MNAC

Silva Porto foi um dos artistas que tomaram parte nos trabalhos da solemnisação do tricentenario de Camões. É seu o desenho do carro da guerra. 

Carro triumphal militar (detalhe) desenhado por Silva Porto, 1880.
Imagem: Hemeroteca Digital

Morreu em Lisboa no 1.° de junho de 1893. Formou-se logo uma commissão de artistas, alumnos e professores da Academia de Bellas-Artes, para promover algumas homenagens a Silva Porto.

Essa commissão organisou uma interessante exposição de quasi toda a obra do artista em junho de 1894

Pátio rural com figura (estudo), Silva Porto.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Dois annos depois, effectuava a transladação dos restos mortaes de Silva Porto para um modesto tumulo, erigido por subscripçáo publica no cemiterio oriental. Projecta tambem erguer um pequeno monumento ao grande paizagista em um dos jardins publicos de Lisboa. (1)


(1) Manuel Penteado, Silva Porto, Serões n.º 6, dezembro de 1905

Artigo relacionado:
António Carvalho da Silva Porto, breve roteiro

Temas:
Grupo do Leão
Pintura

Informação relacionada:
Silva Porto, António Carvalho de (MatrizNet)
Catalogo dos trabalhos de Silva Porto expostos na Escola de Bellas-Artes de Lisboa, em junho de 1894, Lisboa, Typ. Franco-Portugueza, 1894

Mais informação:
Silva Porto (Wikimedia Commons)

domingo, 4 de junho de 2017

Silva Porto (falecido a 1 de junho de 1893)

Um delicado impressionista, descrevendo-nos n'uma phrase terna a figura pequenina e discreta de Silva Porto, dizia d'elle: — "Dá o ar d'um Christo que tivesse pedido feriado na ceia dos apostolos..." 

A volta do mercado, Silva Porto, 1886.
Imagem: MNAC

Timido e simples, solitario e doce, franzino e triste, olhos habitualmente adormecidos n'uma morte-luz de saudade, a pelle n'um tom macillento e terroso, as feições grossas e plebêas d'um sensual, modesto no trajar, humilde nas fallas, retrahido nos gestos, Silva Porto passava nas ruas como uma sombra, sem attrahir um olhar, muito cosido com as paredes, muito "João Ninguem" no aspecto, surprehendido talvez de não lhe tomarem contas e talvez mesmo prompto a pedir desculpas de ser o mestre da paizagem com aquella cara...

Era um homem de vida interior, acanhado e cautelloso diante de estranhos, dilatando-se apenas na solidão ou na convivencia d'algum raro intimo. Então, um, outro Silva Porto surgia d'aquélla creatura embiocada para o mundo, um Silva Porto bom burguez, familiar, infantil, por vezes brincalhão, com inoffensivas malicias nos olhos e uma graça ingenua nos ditos, amigo de rir, feliz de viver.

Este Silva Porto que poucos conheceram realmente e o "outro" que descia á vida, receioso, contrafeito, atarantado, explicam, me parece, a feição a um tempo perfeita e pueril, honesta e banal, limitada e sincera, de toa a sua obra.

O seu apego ao solitarismo levou-o ao amor pela paizagem. Diante das arvores pacificas e innocentes, das aguas preguiçosas e sentimentaes, das atmospheras diaphanas e leves, estava inteiramente á vontade.

Pintando figura, necessitava para illudir aquella sua cobardia invencivel, d'um modelo plebêo e inferior que não o intimidasse ou d'alguem que o agradavel convívio lhe fosse habil e lentamente insinuando na sua ambiencia de artista.

Os seus instinctos de exemplar burguez, — tomo a palavra na boa accepção — fazem-no escravo d'uma moral atavica, instinctiva, obrigando-o a cumprir quasi como um officio a sua arte magistral.

À porta da venda, Silva Porto, 1891.
Imagem: O Occidente N.º 445, 1 de maio de 1891

Saía cedo, invariavelmente, e trabalhava o dia inteiro, na aula, no atelier, nas licções particulares, chegando a casa para jantar, extenuado como um operario á volta da officina.

A maior caracteristica nos seus quadros é a probidade de technica : as suas paizagens são verdadeiras, d'uma verdade toda material; dão a região, a hora, o sitio.

Não lhe peçam o lado vasto e mysterioso da natureza, alguma indefinivel surpreza ou qualquer idéa transfigurando-se em sonho immaterial. Não, Silva Porto pinta o que vê e só o que vê.

Trabalha, lucta, esforça-se por conseguir o que tem diante dos olhos, sem deixar a minima coisa ao acaso do pincel. Procura dar o aspecto completo da sua visão e foge systematicamente á improvisação que elle julga uma inferioridade de caracter, uma immora-lidade relativa, embora militas vezes ella sáia feliz e revele talento.

Com certo conde artista, muito affeiçoado a Silva Porto, passou-se uma interessante scena que indica até que ponto ia a probidade do nosso paizagísta. Gostava o conde de pintar e, não raro, aproveitando uma excursão do mestre, partia para o campo a trabalhar ao lado de Silva Porto.

D'uma vez, escolheram ambos o mesmo trecho de paizagem e cada um com sua taboinha tratou de fazer a respectiva mancha. No primeiro plano havia uma arvore tôsca e imperfeita que crescera sem cuidados nem amparo, á mercê do tempo. O conde, apezar d'artísta, era um eminente botanico, professor d'urna escola superior, e começou logo tratando a sua arvore como um especialista e profundo conhecedor da anatomia plastica do modelo.

A pouco e pouco, levado pela sua paixão, ia corrigindo a pobre arvore inculta, detalhava-lhe os ramos, completava-lhe a architectura dos troncos, prendia-lhe symetricamente tufos de folhagem, descia a minucias de recorte da folha, era meticuloso na implantação dos peciolos.

Quando Silva Porto deitou os olhos ao estudo do conde, não conheceu a arvore. E levantando-se, muito grave e muito triste, disse: — Está muito bonita, mas não é o que lá está!

E para o resto do dia ficou furioso contra aquelle attentado, emquanto o conde ria a bom rir... Os quadros de Silva Porto vivem prodigiosamente por essa probidade e por essa solidez de factura que tem já de chamar-se individualidade.

Conhecem-se de longe, sem precisar ver quem os assignou, e nada entretanto os domina como garridice ou effeito proposital. A tinta é sempre suave, macia, harmoniosa e beija, e o "truc" é tão admiravelmente disfarçado na justeza e habilidade dos processos que o quadro parece não existir como obra d'arte mas como inexplicavel reducção da propria natureza.

A Salmeja, Silva Porto, 1884.
Imagem: Viagens Pelo Oeste

Silva Porto pinta bem e essa indispensavel qualidade n'um mestre de pintura é adquirida aos poucos, n'uma tenacidade espantosa em individuo portuguez, como consequencia da sua honestidade burgueza se repercurtir na sua vida artistica. É preciso pintar bem "para não enganar o publico"...

Vemol-o, por exemplo, mudar muitas tintas da sua paleta ao reconhecer que certos brancos, alguns amarellos, determinados vermelhos, cresciam ou negrejavam com o tempo, prejudicando o quadro.

Vemol-o tambem estudando todas as suas paizagens ao ar livre, enchendo-se de apontamentos do natural, e queixando-se sempre ao pintar o quadro definitivo no atelier de que lhe faltam documentos. O seu desejo seria levar a grande tela para o campo e ali executar, fielmente, á vista do modelo.

Procurando ser exacto, perseguindo a verdade, chegou a apoderar se da forma. A sua technica, mormente nos ultimos annos, é incomparavel, quasi incomprehensivel; tem segurança, facilidade, largueza.

Quem nos diría, olhando a primeira arvore que Silva Porto pintou, estar ali o futuro compositor da magnifica tela Conduzindo o rebanho?...

O moinho do Gregório, Silva Porto, 1891.
(Casa dos Patudos, Alpiarça)
Imagem: As representações da cidade do Rio...

D'essa primeira arvore, hirta e chata, de côres carregadas e falsas, de folhagem banal e miudinha, pacientemente feita a granulos de tinta, dando-nos a impressão de certas pacotilhas allemãs que imitam grosseiramente hediondas chinezices de exportação, até aos habeis e perfeitos trabalhos do fim da sua vida, que constante e pertinaz progresso, que continua e lenta ascensão, que espantosa e esforçada lucta para ver, para tentar, para conseguir, para triumphar!

O seu ideal é sempre o mesmo: ser probo, pintar o que lá está. E d'este modo attinge um outro: ser pessoal, inconfundível, ser Silva Porto. Estamos habituados a chamar artistas a creaturas que não passam dos dominios d'uma technica habilidosa que adquirem, á força de insistir no tempo e na paciencia, um processo correcto de factura sem originalidade nem individualidade.

São typos frios, astuciosos, preparando a pincelada com a receita dos outros, soffrendo successivos abalos na maneira conforme as influencias proximas, executando como um qualquer ao cabo do mesmo esforço de copia. São incontestavelmente trabalhadores, com grandes qualidades assimilativas, mas ..que chegam ao limiite do molde sem nunca o ultrapassar.

Para physionomia de grande artista falta-lhes a idéa, falta-lhes o caracter na obra, falta-lhes a sinceridade na execução. Não conseguem interpretar; o vôo que alguma vez ensaiam não se libra, é rasteiro, roçando o que vêem sem jamais se levantar ao que sentem... porque nada sentem.

Amor na aldeia, Silva Porto.
Imagem: Hemeroteca Digital

A propria technica vão buscal-a a paletas extranhas, sem nunca tentarem urna tinta de sua lavra: pintam como se usa; a moda limitrophe, sem poder crear. É a historia de quasi todos os nossos pintores que vão estudar lá fóra.

Abdicam da sua nacionalidade e do seu sentimento, mascaram-se de pasticheur, e raras vezes procuram libertar-se da influencia extrangeira. Silva Porto nao foi assim. Andando cinco annos em estudos pela França, Belgica, Hollanda, Inglaterra, Hespanha e baila, ficou sempre genuinamente portuguez.

Não se desenraizou da sua terra; ao contrario, parece que a ausencia da patria, roendo-o de saudades, avigorou o amor que lhe tinha, e a inadaptação a um meio extranho, artificial, hostil e complicado de mais para o seu fatalismo de plebêo e para a sua credulidade infantil, fez pungir essas tristes e nostalgicas idéas que depressa o trouxeram para Portugal, na ancia de outra luz e melhor ceu.

Casa minhota, Silva Porto.
Imagem: Hemeroteca Digital

Uma vez na patria, fazendo arte, nunca se esqueceu de prover ás necessidades caseiras e ao equilíbrio material da sua vida. Dá lições particulares, rege uma cadeira na Academia e ainda os motivos que escolhe de preferencia para pintar são os que seduzem promptamente o comprador.

Azenha no Minho [ou Lugar do Prado (Santa Marta-Minho)], Silva Porto, 1892.
Imagem: MatrizNet

O Minho com a sua paizagem maneirinha e doce, temperada de suavidades de luz e melodiosa na orchestração das côres, fornece-lhe uma serie facil de ensaios, apontamentos e pequeninas telas, sempre disputada pelos amadores.

Os arredores de Lisboa, poeirentos e baços, os campos ribatejanos, certos trechos pittorescos da provincia, encontram em Silva Porto não só o pintor inegualavel de fidelidade mas tambem o representante sincero duma clientela.

A sua arte tem um lado pratico, é quasi sempre um modo de vida. Vemol-o, por exemplo, fixar o preço dos seus quadros pelo tamanho da tela e não pela qualidade de pintura. A maravilhosa "Cabeça de camponeza", realisada com um amor e urna delicadeza d'inspirado, é vendida por sessenta mil réis como qualquer mancha de natureza rustica e banal.

Cabeça de camponeza, Silva Porto.
Imagem: Hemeroteca Digital

E quem estranhasse o facto, encontrava o pintor, timido e. envergonhado, desculpando-se : — Então havia de pedir mais dinheiro por um bocadinho tão pequeno de pintura?! 

Este feitio medroso de negociante prendeu lhe as azas para a concepção d'uma larga obra em que as suas extraordinarias aptidões de paizagista e animalista se immortalisassem por alguma coisa mais do que a virtuosidade.

Ao seu lado faltou aquelle anjo que, no dizer ingenuo de Corot, descia do ceu para lhe pintar as melhores telas... Nas reproducções que acompanharn estas ligeiras notas encontrará o leitor, que por infelicidade nunca lograsse ver os quadros de Silva Porto, a expressão da realidade attingida pelo paizagista ao cabo d'um esforço paciente e pertinaz de longos annos.

Algumas parecem instantaneas copias photographicas, tão flagrante é a acção do quadro, tão nitida a movimentação da scena. Na "Barca de passagem", o rio, as arvores, os montes, o carro de bois, a barqueira são d'um naturalismo perfeito... e impassivel.

Barca de passagem em Serreleis [Viana do Castelo], Silva Porto, 1892.
Imagem: Matriz.net

Nas "Ceifeiras", uma das suas melhores telas, o quadro dá espantosamente essa seara dos suburbios de Lisboa, d'um amarello convalescente, e nas figuras ha um vislumbre de evocação poetica que raramente se encontra no artista, tão raramente que só nol-a recordam mais dois quadrositos seus: um com o estudo d'uma manhã de neblina no Tejo e outro em que ha uns cavallos bebendo.

Ceifeiras (ou Colheita), Silva Porto, 1893.
Imagem: Wikipédia

No quadro "Conduzindo o rebanho", d'uma factura admiravel, inegualavel, unica, o virtuoso parece querer mostrar-nos todos os seus recursos na clara e nitida execução d'um trecho altamente complicado.

Conduzindo o rebanho (Arredores de Lisboa), Silva Porto, 1893.
Imagem: MNSR

N'essa extraordinaria tela de quasi dois metros, juntam-se todas as maiores difficuldades d'uma paizagem. A luz é a do meio dia em agosto, o ceu abafa n'um calor de trovoada, o terreno é o d'uma azinhaga dos arredores de Lisboa; piteiras, silvas, uma oliveira carcomida e velha, tudo poeirento e sequioso, n'uma atmosphera de febre; pela vereda pedregosa uns carneiros, um pastor, um burro e uma lavadeira, levantando uma poeirada asphixiante.

Não ha palavras que expliquem sufficientemente o effeito deste quadro; é preciso tel-o visto para se comprehender até que ponto ia a consciencia do pintor escravisando se á exactidão da scena. Diante d'esta paizagem, onde o artista se preoccupou apenas em nos revelar que "sabe pintar", é que se sente bem a falta que lhe fez um pouco de ideal, de commoção, de sonho, a divinisar-lhe aquellas inexcediveis faculdades de technica.

Seria um nunca acabar descrever mesmo summariamente as tresentas ou quatrocentas telas que deixou. São rapidas manchas, pequenos estudos, trechos d'arvoredo, notas animalistas, casas alpendradas, engenhos d'agua, marinhas, regadas, costumes e trajos minhotos, scenas de campinos, mulheres fiando, riachos verdosos, recantos rusticos... 

De vez em quando, uma mulher de Santa Martha, de Avintes, de Miadella ou da Maia, apparece com seu lenço á chineza e jaleco de riscas, saia entrançada de côres como um arco-iris, com suas resplandecentes arrecadas nas orelhas e grilhão de muitas voltas ao pescoço, as meias de neve, a chinellinha ponteaguda no bico do pé...

Rapariga dobando, Silva Porto.
Imagem: Hemeroteca Digital

Outras vezes, é uma saloiasita nubil e fresca, de roupinhas pobres e lavadas, humilde e casta, um lenço vermelho descaído para os hombros, um sorriso meio acanhado na bocca inexpressiva, saloiasita como a d'essa "Cabeça de camponeza", tão cheia de caracter e de graça, que um amigo meu, enfeitiçado pela suave e encantadora modelalação da pequenina tela, intitulou a "Jocunda portugueza".

Pena é que toda essa obra valiosa e vastissima esteja em mãos de particulares, sujeita aos acasos da fortuna e a problematicos destinos no futuro. Os poderes publicos, sempre distrahidos com as rotinices da machina politica, esqueceram-se de adquirir, em época propria, os indispensaveis documentos para a historia do maior paizagista portuguez, e assim succede, é vergonha dizel-o, que no Museu Nacional das Janellas Verdes ha apenas uma pequena tela de Silva Porto, que, por maior infelicidade, não pertence á sua ultima feição de technico pujante e incomparavel.

Campinos, Silva Porto.
Imagem: Hemeroteca Digital

Coisas caracteristicas da nossa terra...

O seu ultimo quadro, por concluir, parece-me que pertencia ao Gremio Artistico e deve estar hoje na Sociedade Nacional de Bellas-Artes. É uma linda mancha de côr, com uma atmosphera fluida e luminosa, onde se recortam os ramos floridos de duas macieiras.

O terreno, em tres gradações de verde, duma pastada larga, alonga-se a perder de vista. Ha certos pontos em que as tintas apparecem ainda sobrepostas tal como o pincel, á pressa, as colheu na paleta, sem tempo de fundil-as completamente. É um valioso e interessante documento para quem pretender algum dia estudar o processo de pintar de Silva Porto.

Macieiras em flor [MNSR, existe uma tela homónima no MNGV], Silva Porto, 1893.
Imagem:  flickriver

As Macieiras em flór appareceram na exposição do Gremio, um anno depois da morte do paizagista. Todos os dias, em frente do quadro, os visitantes deixavam o tapete coberto de flores.  (1)


(1) Manuel Penteado, Silva Porto, Serões n.º 6, dezembro de 1905  [ilustram o artigo as seguintes gravuras: Amor na aldeia, Á porta da venda, pertencente a Sua Magestade a Rainha; Cabeça de camponeza, pertencente a S. M. El-Rei; A salmeja, pertencente a S. M. El-Rei; Rapariga dobando, pertencente ao sr. Ferreira das Neves; Azenha no Minho, pertencente ao sr. A. Torres Pereira; Conduzindo o rebanho, pertencente ao sr. conde do Ameal; A volta do mercado, pertencente á familia Anjos; O moinho do Gregório, pertencente ao sr. H. Pinho da Cunha; Ceifeiras, pertencente ao sr. conde do Ameal; Casa minhota, pertencente á Sociedade Nacional de Bellas-Artes; Macieiras em flor, pertencente á Sociedade Nacional de Bellas-Artes; Campinhos, pertencente a S. M. a Rainha Senhora D. Maria Pia]

Artigo relacionado:
António Carvalho da Silva Porto, breve roteiro

Informação relacionada:
Catalogo dos trabalhos de Silva Porto expostos na Escola de Bellas-Artes de Lisboa, em junho de 1894, Lisboa, Typ. Franco-Portugueza, 1894

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Pintura