segunda-feira, 12 de junho de 2017

O Grémio Artístico (5.ª exposição, 1895)

Por entre uma valsa deliciosa do sextteto de D. Maria, abriu-se hontem a 5.ª exposição do Grémio Artistico. Entrada a 500 réis. Um dia azul, cá fóra, dia proprio para a vernissage de um salon, em que as mulheres estreiassem as suas gazes do verão e os seus primeiros ramos de violetas de Parma. 

No Alemtejo, D. Carlos de Bragança, 1895.
Imagem: flickr

Lá dentro, um certo tom de familiaridade, shake hands cordeaes, beijinhos femininos, umas telas que se apontam por desfastio, uma toilette que se critica com interesse, nada digno de nota, a não serem os galantes perfis da nossa sociedade, uns ou outros olhos bonitos que surdem em dias de festa, e desapparecem rápidos como tudo que é bom, umas paizagens, tres aguarellas, poucos retratos, flôres, marinhas, fructas — uma futilidade...

Ás 4 horas entram Suas Magestades a Rainha de velludo preto, El-Rei de casaca. Pouco depois, entra Sua Magestade a Rainha D. Maria Pia, com uma toilette muito elegante, e Sua Alteza o Senhor Infante D. Affonso, fardado.

El-Rei expõa na primeira sala um pequeno quadro a oleo, No Alemtejo, colhido com arte extrema e traduzindo a primor a cálida impressão das scenas alemtejanas. Áquella hora respirava-se a custo nas cinco salas.

Ao acaso, perfeitamente ao acaso, como se colhem flores de um canteiro productivo, notámos, abrindo alas para Suas Magestades passarem, as sr.as Condessa de Paraty, D. Amalia Street e irmã, D. Alice Munró dos Anjos e filhas D. Bertha e D. Beatriz, D Luiza de Almedina, D. Conceição Sarmento, Condessa de Magalhães e filha D. Maria Antónia, D. Virginia Santos e irmã, D. Margarida Lorjó Tavares, Madame Craveiro Lopes, D. Carolina e D. Ludovina Galhardo, D. Josepha Greno, D. Josepha Sandoval de Vasconcellos e Sousa, D. Eugenia Penalva d'Alva, D. Germana Patricio Alvares e irmãs, D. Acacia Vaz Nápoles de Almeida e filha, Madame Bordallo Pinheiro e filha D. Helena, D. Carlota de Serpa Pinto Moreira, D. Zulmira Franco Teixeira, Condessa das Alcaçovas e filhas, Mademoiselle Mayer, D. Lívia de Castello Branco e irmã, D Beatriz Arneiro, D. Laura Iglezias Mendes da Silva, D. Fanny Munró, Mademoiselle Nova Goa, D. Maria da Fonseca Araujo e filha D. Carolina, D. Luiza Fonseca, etc.

E os srs. Conde de Ficalho, Marcellino Mesquita, Manuel Bordallo Pinheiro, Alvaro Penamacôr, Conde de Almedina, João Vaz, José Azambuja, Conde de Gouveia, dr. Jorge Godinho, Roque Gameiro, Hygino Mendonça, Galhardo, Antonio Coruche. Marianno Pina, José Malhôa, Benjamin Pinto, Velez Caldeira, Arthur de Mello, Adolpho Benarus, Arthur May, Augusto Pina, Antonio de Chaby, Visconde de Taveiro, actores Augusto Rosa e Ferreira da Silva, Antonio de Andrade, Zacharias de Aça D. Thomaz d'Almeida, Antonio Ramalho, Rozendo Carvalheira, Celso Hermínio, Antonio Bandeira, Lorjó Tavares, João de Moraes, Alberto Lopas, Penha e Costa, Luciano Lullemant, D. Francisco de Almeida, Adolpho Greno, Nuno de Bulhão Pato, José Parreira, Julio Dantas, Jayme Verde, Thomaz do Mello, Jorge Costa, Serpa Pinto, Motta Prego, Abecassis, Sauvinet, Leonel Gaya, Guilherme Pinto Basto, etc.

Em arte, a exposição, n'uma visita à vol d'oiseau, apresenta-se-nos de uma banalidade desoladora! Poucos quadros salpicam as paredes, raros nos prendem, nenhum nos empolga... (1)

António Ramalho

A sua exposição este anno consta de am retrato de Roque Gameiro, a pastel. O maior pastel e mais arrojado qae tem apparecido por ahi. Falto apenas no cabello, qae não traduz o do original, apreenta-nos no emtanto umas roupas magnificamente ondeadas, um colorido quente e uma grande verdade no rosto. É pintado por uin mestre.

Diario Illustrado, 17 de março de 1895 (António Ramalho)

Tem uma pequena tela — o Pombal — alegre e fresquissima, sabida com quatro pinceladas, em que parece ter o pincel molhado no céo, tal é a pureza com qua está colhida aquella manhã de sol em que ai pombas esvoejam e as rosas desabrocham. 

O pombal, António Ramalho, 1895.
Imagem: António Ramalho no YouTube

O resto da sua exposição, duas paysagens —uma grande, outra pequena — não foram pintadas por aquelle rapazito, alma de artista, lyrio entre os abrolhos, caixeiro ignorado n'uma venda pardacenta, lá acima, ao pé do Douro... Aquellas duas paisagem, meus senhores e minhas senhoras, foram pintadas... pelo patrão. (2)

José Malhoa

É assim que vemos assignados com o seu nome dez quadros com estes titulos:

Diario Illustrado, 18 de março de 1895 (José Malhoa)

Manhã de setembro — Um campo secco em declive. No dorso apparece o sol. É original.

Caminho dos moinhos — Uma bella paysagem, mas com uma figura que estraga, pelo espavento da sua saia vermelha. Sempre ha mulheres d'um mau gosto!...

Uma boa compra e Um compasso difficil — São duas telasitas de genero, explorando os effeitos da luz sobre o cetim das casacas de duas figuras bem pousadas.

Uma boa compra, José Malhoa, 1895.
Imagem: Maria Pardos e José Malhoa...

Na segunda, a cama verde está manchada.

Um compasso difícil, José Malhoa, 1895.
Imagem: Maria Pardos e José Malhoa...

Ribeira da lavadeira — Alfombras verdes e um riacho que deriva. O verde é novo e lindo em ex cesso, dando-nos a impressão de que a payesgem lavou a cara para tirar o retrato no Fillon.

Cuidados de amor — Um delicioso quadrosinho rescendente de poesia, em que gente adora a figura da camponesa que pensa, chegando a abatrahir da luz pouco verdadeira que a illumina.

Á caça — O mesmo e inapto de um quadro já exposto por Malhoa. Um petiz, em posição mystica, com cara apopletica, anda á caça. O meio é calmo e suavemente tratado.

À caça, José Malhoa, 1895.
Imagem: Os cachopos da Fonte do Cordeiro

A Olinda do lagar — Muito natural a pequena saloia agreste que este quadro representa. Se o auctor, por um requinte de extravagancia, não illuminasse aquella cabeça loira tão estridentemente, com o bico Auer, seria este um dos seus melhores trabalhos, — desde o bem tocado das roupas até á carnação arroxiada das pernas.

A Olinda do lagar, José Malhoa, 1895.
Imagem: Veritas

A sésta — Grandes dimensões. Trabalhadores estirados, junto á á eira e aos montes de palha onde brinca o sol. O contraste entre a sombra do primeiro plano e a claridade dos outros dá uma certa originalidade a este trabalho, certemente o melhor da exposiçao.

A sesta [dos ceifeiros], José Malhoa, 1895.
Imagem: Malhoa, José Vital

Retrato de Isaac Abecassis — Um menino com o fato com que o auctor apresentou o seu Marquez de Pombal, ha um anno. Como d'essa vez, as roupagens estilo magnificas, apenas pouco cuidada a casaca na fimbria. As meias de seda impecaveis. (3)

[Ribeiro] Christino da Silva

Este anno a exposição de Christino é simples — cinco telas de Óbidos e Batalha, telas sem pretenções, concluídas sem exageros de tons, traduzindo com verdade recantos de aldeias, casas pobres, arcos e lampiões, torres e coruchéus.

Diario Illustrado, 19 de março de 1895 (Christino da Silva)

Intitula-se: Torre do Facho, Costa de S. Pedro de Muel, Corucheu de D. João I, Egreja de Santa Maria e a Rua da Cadeia. Expõe mais uma cuidada gravura intitulada Vista de Leiria. 

Leiria , vista parcial, desenho de J. R. Christino, 1894.
Imagem: Prof2000

Mais nada. (4)

Manuel Henrique Pinto

Expõe uma tela grande a que deu o titulo Uma teima e onde um rapazito de pé descalço pretende á força obrigar uma cabra a saltar um fio d'agua. A cabra, que é socialista, não reconhece auctoridades e finca as patas, n'uma attitude de menina malcreada. Está bem definido o assumpto e os pormenores.

 Obra de Manuel Henrique Pinto (1853-1912)Galeria de imagens no Facebookclique para aceder
Uma teima [Perrice], Manuel Henrique Pinto, 1894.
Obra de Manuel Henrique Pinto (1853-1912)
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O quadro tem um tom glauco, geral, uniforme, que lhe dá foros de tela antiga sem lhe tirar o valor.

Diario Illustrado, 20 de março de 1895 (Manuel Henrique Pinto)

Mais duas paisagens, pacientemente pormenorisadas, — Moinhos do Martins e Cabanas perto do Zezere — fecham a pequena exposição d'este professor provinciano, que passa no idyllio do campo as horas vagas, em que os rapazes da escola lhe não fazem a cabeça doida, n'uma grande calmaria de espirito, que parece traduzir se nos bucolicos bocadinhos campestres que a gente vê, bem disposto, na exposição, todos os annos. (5)

António Francisco Baeta

Paizagem em Aguas Bellas — Uma tela de Ferreira do Zezere que parece ter passado por Epinal. Muito pormenorisada, para nada lhe faltar como oleographia, até pastora e cabrinhas tem...

Uma rua em Ferreira do Zezere — Pequenino motivo de vida aldeã, alegre e bem traduzido.

Caminho de Vale d'Angelo — Uma rua cortada em taludes. Ferreira do Zezere. A banalidade que se alastra... 

Ao pôr do sol — O melhor quadrinho de Baeta. Fresquissimo, de uma poética tonalidade, que nos prende e nos faz esquecer a pouca verdade dos outros, representa a Cruz Quebrada no que tem de mais pittoresco.

Ribeira de Jamor — Pequenino quadro todo convencional, onde um riacho de lavadeiras deslisa por entre floridas margens.

É esta a remessa do paisagista. Se tem tido a boa idéa de mandar só o Pôr do sol, tinha dado no vinte, como se diz em argot de escola... (6)
 
João Cabral

Duas pequeninas paysagens que expõe não desagradam por isso. A horta do Alfredo só perde pela pequenez. Dá vontade de lhe puxar as orelhas, a ver se estica. Ponha lentes biconvexas nos seus pincéis, sr. Cabral!...

A nora do José da Rosa é outra manchasita alegrada pelo sol, e onde, apenas, a parede parece ter desbotado paia o chão, o que imprime ao todo certa monotonia. Erro da escolha, certamente. O sr. João Cabral deve fazer uma extravagancia — pintar uma tela maior.

Só tem o perigo de não se vender, mas, emfim.

A. Machado

Sur l'herbe —, e as meninas voltaram a cara,e os homens desataram a rir! Sobre um campo de hortaliça, com flores de papel de seda, campo todo do mesmo tom, com a agravante de ser forrado de borracha por dentro, esparneia D. Engracia, toda nua, com côres n'uma luxação que lhe apparecau na côxa! D. Engracia, menina da Baixa, que abusa do espartilho, tem a barriga pagada ás costas e é articulada por um processo novo [...]

Preço d'esta Epiphania dos Lycornes.., 300$000 réis, com moldura e tudo.

Solidão — Começa a gente por não perceber o titulo [...] (7)

Arthur Vieira de Mello

Retrato do ex.mo sr. D. J. Ventura da Camara — Dias antes em esboço, apparece-me já na abertura, este retrato, completo. Um tour de force que vem mostrar certeza com que as tintas foram distribuídas pelo auctor.

Como retrato é um primor. Como pintura é um magnifico documento.

Adolpho Benarus

Na rua — Demonstrando uma cuidada observação na pintura da protogonista, uma velha de perfil duro, faces rugosas, maçãs do rosto salientes, mãos esguias, descarnadas, oude as arterias saltam logo á vista. O chale-manta cinsento também está pintado conscienciosamente. 

A velha apresenta-se a assar castanhas. Fogareiro, abano, assador e effeito das brazas, não destoam. (8)

Roque Gameiro

Este anno veio com o seu nome cinco aguarelas:

Diario Illustrado, 27 de março de 1895 (Roque Gameiro)

Velando — Uma rapariga vela á beira de um berço. Trajes minhotos, alegrando aquele meio saudavel. É purissima esta aguarela, desde a finura doa tons, até ao poetico do assumpto. As roupas da rapariga e o lenço de chita que lhe cahe do colo, reunem todas as qualidades porque se impõe um quadro desses: a expontaneidade, o contraste das côres e o colorido. Magnifico.

Velando, Roque Gameiro, 1895.
Imagem: Arte Portugueza N.º 4, abril de 1895

Retrato de Mademoiselle Laura Guedes — Um retrato que não agrada, devido talvez á luz — plein air — que innunda a pessoa retratada. A cara parece-nos cançada, o vestido foi rigorosamente traduzido; os pormenores resentem-se de pouco acabamento. 

Um trolha — Assumpto grosseiro a que o acidar soube imprimir a feiçáo delicada da sua "maneira", fazendo com que esse quadrosito vulgar nos impressione finamente como um quadro de flores. O sol innunda-o por inteiro; o operaro que empasta a parede tem uma vida notavel, e os apetrechos, o andaime, o muro, apresentam-nos uma verdade magistral.

Costume (1807) — Já o disse: — as melhores figurinhas dite Madeleine Lemaire não têm mais frescura do que essa pequenina "greenaway" côr de rosa, de ar distincto, cintura curta, saquitel de "bombons", e sapato polido, que vem de um jardim do Trianon talvez, embalsamando o ar com o seu rosto juvenil, como uma flor de Duez.

Rio Jamor — Um trecho de rio que se curva por entre salgueiros e ondas de folhagem. (9)

Velloso Salgado

A sua exposição este anno consta de oito quadros:

Diario Illustrado, 28 de março de 1895 (Velloso Salgado)

Retrato do ex.mo sr. A.S.G.C. — Um retrato que vem como natural seguimento aos que Salgado apresentou nos ultimos annos, dos srs. Corrêa de Barros, Braancamp Freire, Wenceslau de Lima, etc. Adivinha-se o pintor batido, tirando o maximo effeito de trucs de mestre, que raros concebem e que lhe são já íntimos.

Noite de Leça — A fazer pendant com o "Noir et Rose" do anno passado. O effeito de luar conhecido, explorado e nunca dando resultado. Apenas um passatempo nocturno, sabido n'um momento de "spleen", de uma palheta onde se alastrava o cobalto. Pintas brancas imitam estrellas, ha uma arvore que parece fumo e uma claridade vivissima a uma esquina, indicios de guarda nocturno que ouviu bater as palmas...

Othello—Uma bella cabeça, expressivamente negra, impeccavel como factura, apenas não representando o vulcão apaixonado e ciumento, mixto de odio e de amor, pária que idolatra e moiro que se vinga — o eterno Othello, enfim.

Saloio — Uma d'estas cabeças alegres que Salgado fixa com tal arte, que a gente se approxima, de ouvido á escuta, á espera da gargalhada que fatalmente vai rebentar! Cabeça de estudo onde o artista imprimiu encantos de execução e onde surgem encantos de psychologia, por assim dizer, hilariante, que se nos transmitte, — tanta vida ha n'ella — e nos faz rir, quasi.

Japonez—Um quadrosito galante para um escriptorio em estylo oriental, representando um japonez, dos que ainda não andam vestidos á européa, de olho. em V e abdomen adiposo. Uma auggestão da guerra chino-japonesa que veia diatrahir, por momentos, o pintor do occidente. 

Camponeza de Lille –Appetitosa cabeça femenina, suavemente tratada.

Retrato do ex.ma sr. a D.C. — Representa o quadro esta senhora, de pé, n'um jardim, com um leve vestido azul e um raminho de flores na mão. A senhora é trigueira, o vestido vaporoso. D'ahi, um contraste violento que desagrada sobremaneira, aggravado por uma luz que não ajuda o modelo. (10)

Conde de Almedina

Considerando-se francamente amador, até. para cumulo, não pede dinheiro pelos quadros!—isto n'um paiz onde os quadroa de amador são os que custam mais caro... 

Diario Illustrado, 29 de março de 1895 (Conde de Almedina)

Dos 43 que expõe este anno, 27 já estão... dados. Por este meio um artista não enriquece. O mais que pode é ir á gloria em duplicado. Vejamos em bicyclette a enorme exposição do nosso biographado:

Castello da Pena — Dá pouco a impressão de frescura da paysagem de Cintra. A parte que vemos á nossa direita tem mais valor que a da esquerda; as arvores e troncos estão bem tratados. 

Forte de Santo Antonio do Estoril — Passamos a galope... 

Moinhos do Barreiro —Marinha placida, transparência nas aguas, verdadeira em geral. Apenas a fragata parece suspensa e os moinhos têm cor de mais para a distancia. 

Bocca do Inferno — Ondas falsas, com espuma de escada. 

Castello da Pena, tela pequena — Bem colhida e agradavel.

No jardim Botânico — Pouco acabamento. Verdes duros de mistura com algumas boas qualidades.

Muralhas da Sé — Bom quadrinho banhado de sol, cuidadosamente pormenorisado.

Claustro dos Conegos — O melhor da familia dos architectonicos. Tem luz, ar e perspectiva.

Claustro dos Conegos, n.° 2 — Habilmente visto o bater do sol nas columnas do claustro e os farrapos de céo que se divisam ao longe. O sachristão é que se dispensava.

Cadeia da villa de Cintra — Adiante...

Uma pequena rua de Sacavém — Assumpto banal e fácil demais para um pincel que trabalha. 

Estrada do Syndicato — Pequenino trecho aproveitavel.

Claustro do convento de Sacavém — Scenas do terremoto de 1755. 

Claustro do Convento de Chellas — Passo... de repente!

Cidadella de Cascaes e Casa Pindella —Uma interessante telasinha. 

Rochedo da Nau —Marinha feia, pintada com mau humor. 

Na baixa mar — O auctor mostra vocação para este genero de marinhas. N'esta, apenas foi descurada a projecção da sombra do barco e a inclinação dos mastros. 

Em Xabregas — O melhor da familia das marinhas. Esboço largo, muita puresa nas côres e conseguindo o tom vago e suave a que deve aspirar a tela de céo e mar, quando limpidos. 

Caes do Beato — Outra marinha luminosa, com um bote a tirar-lhe o valor.

Solar Aguilar — Força nos pedaes!... A galope...

Chalet Palmella — Pittoresco recanto da bahia de Cascaes. Aguas pintadas com sinceridade, especialmente junto á orla da praia. 

Chalet Queiroz — O mesmo com respeito a pittoresco. O contrario com respeito ás aguas...

No Aterro, ao pôr do sol — Decididamente, o auctor deve dedicar-se a este genero de pintura. 

S. Martinho de Bornes — Ingenuidade artistica com 25 de altura por 33 de largo. Etc. (11)

Luciano Freire

Os seus dois quadros chamam-se: Um salas (typo do carnaval de Lisboa) — Como idéa, está explorada. Como execução, é primitiva. O "salas" não tem vida, não tem relevo, nem graça.

Diario Illustrado, 30 de março de 1895 (Luciano Freire)

É um typo, é; mas um typo muito sensaborão. Typos d'aquelles não se pintam — dá-se-lhes uma pançada... Detalhando: a cara, o rabicho e a casaca são deploráveis. A rua de "mac adam" é pouco liaboeta, os prédios parecem de panno de fundo, e o estafermo que se vê em fralda de camisa foi completamente descurado. 

Emfim, um quadro carnavalesco em extremo para o pincel de Luciano Freire. 

Cabritos — Já aqui apparece um pouco o pintor que observa, no esboço dos dois animaes que constituem este estudo. Estão verdadeiros, desde o sedoso dos pêllos até ao relevo dos corpos. 
Apenas o verde do chão grita excesaivamente e a posição dos dois bichos nos fai adejar aos lábios a conhecida fabula de Lafontaine:

— Porque me turvas a agua que eatou bebendo?... (12)

Ferreira da Costa

Expõe este anno apenas um quadro: Retrato do ex.mo sr. Viçoso May — Trabalho de quem promette muito. (13)

João Vaz

Este anno trouxe oito quadros:

Diario Illustrado, 3 de abril de 1895 (João Vaz)

Fim da tarde — De uma melancholia propria a divagações, na hora em que Cesário Verde sentia ondas de pessimismo, esta marinha ao sol-posto tem a arte de nos fazer pensar, sem para isso buscar effeitos na extravagancia — é a tradueção fiel de um trecho da costa que vem de Peniche para o sul, illuminada pelo sol poente, que descahe lá adiante, sobre as Berlengas.

Esperando a maré — Muita tela e pouco assumpto. Um bote é o protogonista. Como scenario: uma praia immensa, o mar a perder de vista e o ceu em toda a sua plenitude — ceu nevoento, com manchas róseas sem dtfiniçâo. O resto está feito com a verdade que é timbre do pincel realista de J. Vaz. Apenss, pelo lado esthetico, nos parece estroinice estar uma companha inteira á espera da maré... que ainda vem em cascos de rolhas "A economia de tempo é capital que se amontoa" (Rodrigues de Freitas, a paginas tantas). 

O mar — Uma onda, debruada de espuma, rolando para o nosso lado. Apesar de explorado, este as sumpto é sempre sympathico. A onda de agora tem o dorso admiravelmente traduzido, o espraiar, do primeiro plano, magnifico de verdade, e a nuance uzul do ceu muito pura. Apenas á orla de espuma falta frescura, e aquelle tom leve, quasi fugitivo, que dá a idéa de que as ondas trazem suspensos frocos de arminho, ou aigrettes de prata, quando têm despedaçar-se pela areia. 

O carreiro da Joanna — Encantador recanto do nosso littoral, que J. Vaz soube reproduzir com tintas de mestre e alma de poeta. O terreno pedregoso do primeiro plano, os alcantis que se afunilam, o braço de mar que entra, a linha do horisonte, Tudo isso foi colhido n'um momento de inspiração que adivinhamos, tal é o en cantamento que esse poético local nos transmitte!

Uma velha. guarita — Outra impeccavel marinha, de Cascaes, apanhada em dia de calma, em que as aguas têm uma transparência divina e o sol bate de chapa no angulo de um forte já velhinho.

Apontamentos — Quatro preciosas telasinhas esguias, onde ha encantos de factura, de braço dado com bellesas de paysagem. 

A ribeira de Peniche — Uma tela branca, desde a athmosphera até ás aguas espelhadas, representando a naturesa n'um travesti pouco vulgar. Parece uma aguarella, pela finura do esboço e pallidez do ambiente. 

Ao sol — Tela em que J. Vaz imprime tanta verdade, que a gente se absorve na contemplação d'essa rua de areia, coberta de sol, em que os botes descançam e os pescadoras cabem na somnolencia da sesta, e nos vemos transportados por completo ás nossas praias, a S. Martinho, á Foz, a Mattosinhos, e nos parece estar olhando ainda aquella acena, através a janella aberta de uma casita alegre — que saudades!...  E como tudo aquillo é profundamente natural! (14)

Arthur V. May

Este anno trouxe uma paysagem vulgariisima e um quadro com o titulo: Café de "lepes" — quadro colhido em frente do kiosque da praça Camões, quando um garoto de jornaes assoprava um café que comprou na occasião. (15)

oooOooo

Estas linhas só serão lidas depois de encerrada a exposição de arte que as motiva. As minhas notas não terão por isso o caracter de uma apreciação eia das diversas obras de que se compõe. Não as disporei tambem por forma a constituirem uma serie de perfis dos artistas que hajam assignalado, mais forte e inconfundivelmente, a sua individualidade, porque esta quinta exposição do Gremio não é decerto, — por ausencia ou desvalia de documentos, — a mais propria para nos dar a justa medida do valor dos nossos homens de arte. 

Imagem: Arte Portugueza N.º 4, abril de 1895

Limitar-me-hei, portanto, a consignar, muito simples e despreoccupadamente, as considerações geraes que ella me suscitou,— a tirar, por assim dizer, a moralidade do caso.

Quem comparar a nossa arte de hoje, não direi, com a d'aquella celebre exposição de 1843, a que ha referencias, entre animadoras e ironicas, nos livros de Raczynski (leilões recentes têem trazido a lume algumas obras d'esses tempos), mas, com a maioria dos trabalhos que figuravam nas exposições portuguesas de ha quinze annos, reconhece logo que se tem progredido bastante sob o ponto de vista da "factura", dos processos technicos [v. Dictionnaire historico-artistique du Portugal pour faire suite à l'ouvrage ayant pour titre : Les arts en Portugal]. 

É elfectivamente innegavel que, por exemplo, se desenha e pinta melhor. E note-se que o progresso não é evidente unicamente nos artistas que foram completar a sua educação no estrangeiro, mas tambem n'aquelles que não poderem até agora sahir do paiz, ou que poucos dias estiveram lá fóra. 

Este facto, bem como a segurança e rapidez com que os nossos pensionistas avançam geralmente em Paris, prova que o ensino artistico entre nós, se tem por enquanto imperfeições e lacunas, todavia não é tão deficiente e improductivo que se deva dar por mal empregado o dinheiro que nos custa, como se tem já dito e escripto, leviana ou apaixonadamente. 

Ha quem pense que os progressos technicos não constituem motivo para nos felicitarmos, e que a parte pratica é bem secundaria, a ponto de nem sempre os grandes artistas serem irreprehensiveis no tocante ao oficio. A verdade, porém, — se me não engano muito, — é que, em todas as formas da arte, o conhecimento pleno dos meios de execução é essencial para o artista se fazer entender, para nos commover como elle se commoveu, para nos interessar pela revelação clara do estado da sua alma perante os aspectos da natureza ou pe-rante os phenomenos do mundo moral, para nos dar a perceber os mais delicados e subtis cambiantes da sua emoção. 

Mas, por outra parte, é necessario que o artista não sacrifique jámais o sentimento á forma, não se preoccupe exclusivamente com a perfeição technica, não procure apenas mostrar que sabe vencer todas as difficuldades do officio; porque, — não o esqueçam os artistas, — verdadeira obra de arte, pura, dominadora, eterna, só será a que fôr sentida e vivida.

Portanto, certo, como estou, de que os nossos pintores querem ser alguma cousa mais do que simples copistas habeis da natureza; de que não substituirão ao sentimento a habilidade, e de que não farão da sua pericia, em muitos casos notarei, um fim mas um meio, — registo com satisfação os considerareis progressos technicos evidenciados nos seus ultimos trabalhos.

O Micróbio n.° 35, 21 de março de 1895.

O que sempre se nota nas exposições portuguesas, — e esta não faz excepção, nem era de esperar que fizesse, — é a falta de composições de certa importancia. Paisagens, marinhas, quadros de flores, reproducções de velhos edificios pittorescos, algumas cabeças de estudo, um ou outro retrato, — eis o que sempre constitue os nossos concursos de pintura.

O Micróbio n.° 36, 26 de março de 1895.

O facto não é difficil de explicar, e já aqui me precedeu na enunciação das suas determinantes, um escriptor que desde muito vem seguindo com interesse o nosso movimento artistico. Mas, se não póde razoavelmente exigir-se que nas exposições de Lisboa e Porto figurem sempre obras d'esses que demandam tempo, despesa e preparação intellectual acima d'aquelles de que os nossos artistas podem de ordinario dispôr, — quer-me parecer que não será impertinencia pedir-lhes que variem um tanto a gamma dos seus assumptos, interpretando alguns trechos bem suggestivos e typicos da nossa paizagem, deante dos quaes ainda nenhum pintor se lembrou de armar o cavallete; fazendo-nos aperceber alguma cousa do genio e do viver das populações contemplativas da beira-mar, assim como da nossa vida rural, tão diversa segundo o caracter da paizagem e as variantes ethnicas; dando-nos mesmo, de quando a quando, alguma tentativa de reconstrucção historica, — em esboço a lapis ou a carvão que seja.

O Micróbio n.° 37, 4 de abril de 1895.

Em todo o caso, a exposição tem este anno um certo ar portuguez, que me captiva e enternece. Os artistas deram decididamente preferencia aos nossos campos, ás nossas praias, aos velhos solares meio derruidos que ainda se encontram por essas provincias fora, aos recantos mais deliciosamente cheios de pittoresco e de caracter das nossas antigas povoações historicas, aos claustros abandonados dos conventos extintos, ás figuras mais ou menos typicas de diversos pontos da nossa terra.

É preciso, porém, que não se limitem a pintar em Portugal, mas que se esforcem por pintar em portuguez; isto é, por nos darem conta, com verdade e sentimento, de quanto no paiz tenha uma accentuação nacional mais profunda e evidente, de modo que, se porventura um de nós alguma hora visse em terra estranha um quadro portuguez, logo sentisse mais intensa e pungitiva a saudade do pais natal, subito evocado pela realisação artistica, flagrantemente verdadeira e delicadamente sentida, de um dos aspectos mais caracteristicos e inconfun-diveis da sua vida ou da sua paizagem. 

Na secção de "esculptura", é que nos apparece uma composição figurativa de um successo da nossa historia: — um baixo-relevo de Motta, para o monumento a Affonso de Albuquerque. 

O moço esculptor compenetrou-se bem da situação, estudou intelligentemente o effeito d'ella nos diversos personagens, e conseguiu dar-nos uma composição que impressiona e domina, que tem, sem duvida, alguma cousa do caracter synthetico das verdadeiras resurreições artisticas do passado.

Na secção de "architectura", figuram vantajosamente o sr. Adães Bermudes, que completou ha pouco o seu curso na escola de Paris, e o sr. J. A. Soares, que foi alumno muito distincto da de Lisboa. 

Não occultarei uma observação que me occorreu ao examinar os trabalhos dos dois intelligentes artistas: 

Ao passo que os architectos se occupam em regra no estudo de grandes edificios monumentaes, inspirados geralmente n'algum dos estylos antigos, e destinados, na maior parte dos casos, a não passarem do papel, — o problema da construcção da casa moderna, tão difficil, tão complexo, de tão largo alcance, está quasi exclusivamente confiado a operarios, que um acaso da fortuna elevou á categoria de mestres de obras, e a quem falta absolutamente a forte educação especial que o mistér de construir exige. Calcule-se o que seria actualmente Lisboa, se em todas as numerosissimas edificações que nos ultimos dez annos se têem levantado, houvesse influido, de modo decisivo, a alta competencia scientifica e esthetica, que simples praticos não podem evidentemente possuir!

Importa que os architectos se esforcem por eliminar a opinião corrente, de que só servem para traçar no papel complicados e dispendiosos planos. 

Este anno, como nos passados, ha entre os concorrentes muitos professores de escolas industriaes, — portugueses e extrangeiros; — e uma das secções da exposição é a de arte applicada. Pois bem: todos esses professores assignam quadros; nem um só apresenta qualquer composição de natureza decorativa, e na secção de arte applicada, vê-se apenas um simples trabalho de paciencia, que revela certamente um executante habilissimo, mas que é destituido por completo de significação artistica.

Pinturas de António Ramalho na Tabacaria Monaco (Rossio 21 em Lisboa), inaugurada em 1894.
Imagem: a Arqueolojista

É necessario combater a todo o transe as preoccupaçóes acedemicas, que tendem a encerrar o artista na esphera da denominada arte pura; é necessario fazer passar pela industria uma forte corrente de arte, que a transforme e eleve; é necessario descobrir formulas decorativas, que originalisem os productos das nossas industrias, e os façam triumphar na concorrencia dos mercados.

Pinturas de António Ramalho na Tabacaria Monaco (Rossio 21 em Lisboa), inaugurada em 1894.
Imagem: Câmara Municipal de Lisboa

Como seria para desejar que a secção de arte applicada fosse de anno para anno denunciando uma convergencia cada vez mais poderosa de esforços dedicados e intelligentes, para a obra da renovação das nossas industrias de arte, mas renovação bem entendida, subordinada aos principios geraes, inilludiveis, da arte decorativa, inspirada n'aquelle alto exemplo de concordancia da fórma com a materia e destino do objecto, é da decoração com a forma, que nos offerece, luminosamente, a arte purissima dos gregos!

Quer-me parecer que só n'uma exposição official seria possivel reunir todos os artistas. Ainda assim, o Gremio tem já podido organisar concursos muito mais completos e significativos do que este. Deus me livre, pois, de proclamar, á vista d'elle, que a nossa arte decáe, esmorece, como se a exposição d'esta primavera acaso encerrasse os mais concludentes e decisivos depoimentos de todos os nossos artistas, como se dia porventura fosse absolutamente representativa da nossa hodierna, actividade artistica! 

A verdade, é que podemos neste momento contar com alguns trabalhadores da forma e da cor, que provadamente reunem á mais fina susceptibilidade do sentimento uma poderosa educação technica, e que têem por vezes conseguido distinguir-se e triumphar, nos centros artisticos mais concorridos e mais cultos. Assim o meio lhes não seja contrario!

Assim. o governo mostre comprehender que são verdadeiras medidas de salvação publica, do mais profundo alcance, da mais absoluta urgencia, e inteiramente compensadoras dos sacrificios que, porventura, de começo exijam, todas aquellas que tendam aos progressos artisticos; e assim a sociedade portuguesa, — onde as, cousas de arte vão felizmente suscitando algum interesse, — reconheça que, no meio das duvidas e incertezas que atormentam o espirito moderno, da fria aridez da vida contemporanea, da anarchia dos sentimentos e do conflicto das opiniões, a arte é o mais seguro refugio, a mais doce consolação, o mais poderoso elemento de concordia! 

Abril de 1895.
José Pessanha. (16)



(1) Diario Illustrado, 16 de março de 1895 (Abertura da Exposição)
(2) Diario Illustrado, 17 de março de 1895 (António Ramalho)
(3) Diario Illustrado, 18 de março de 1895 (José Malhoa)
(4) Diario Illustrado, 19 de março de 1895 (Christino da Silva)
(5) Diario Illustrado, 20 de março de 1895 (Manuel Henrique Pinto)
(6) Diario Illustrado, 21 de março de 1895 (António Francisco Baeta)
(7) Diario Illustrado, 24 de março de 1895 (João Cabral; A. Machado)
(8) Diario Illustrado, 26 de março de 1895 (Arthur Vieira de Mello; Adolpho Benarus)
(9) Diario Illustrado, 27 de março de 1895 (Roque Gameiro)
(10) Diario Illustrado, 28 de março de 1895 (Velloso Salgado)
(11) Diario Illustrado, 29 de março de 1895 (Conde de Almedina)
(12) Diario Illustrado, 30 de março de 1895 (Luciano Freire)
(13) Diario Illustrado, 2 de abril de 1895 (Ferreira da Costa)
(14) Diario Illustrado, 3 de abril de 1895 (João Vaz)
(15) Diario Illustrado, 6 de abril de 1895 (Arthur V. May)
(16) Arte Portugueza N.º 4, abril de 1895

sexta-feira, 9 de junho de 2017

A exposição Columbano em 1894

No salão da livraria do sr. Gomes [M. Gomes, Livreiro de Suas Magestades e Altezas, rua Garrett, 70-72, Lisboa], um amavel cynico, intelligente e de bom gosto, estão expostas algumas das obras mais notaveis do pintor Columbano. É uma exposição grandiosa, bastante superior ao nivel de comprehensão da maioria du nosso publico, e um acontecimento na arte nacional. 

Retrato da Viscondessa de Sacavém (detalhe), Columbano, 1890.
Imagem: Memórias e Imagens

A coincidencia da inauguração com um dia de tourada veiu roubar-lhe os "admiradores mais dilectos" e d'entre os que estavam, houve quem interrogasse o artista sobre o numero e dimensões das suas telas. quem sabe se para poder calcular as dimensões do seu talento.

Suas Magestades El-Rei e a Rainha, sempre solícitos e apreciadores do bello, alli estiveram a abrilhantar o acto, raros pintores, alguns litteratos, o sr. Marianno Pina, e limitado numero de admiradores de Columbano.

Retrato de Mariano Pina, Columbano, c. 1882.
Imagem: MNAC

Columbano é já um pintor extraordinario, um dos raros que comprehendeu a grandiosidade da arte. O que elle pinta não é abstracto, é profundo, vivo, sentido e individual. Ha na sua alma alguma cousa acima do vulgar, um ideal soberbo, e um orgulho de raça e de caracter que fazem d'elle um dos mais notaveis pintores peninsulares. A sua maneira de desenhar, por manchas largas, sem dureza nos contornos, comparal a ha, talvez, o sr. Marianno Pina á de Deschamps.

Atelier de Columbano, c. 1890.
Imagem: Margarida Elias, Columbano e as Caldas da Rainha

Columbano faz a sua arte com uncção, religiozaente, como o sacerdote erguendo a patena que cobre o calix sagrado. É altivo e independente; passa affectuoso por entre os applausos dos que o comprehendem, e indifferente e arrogante pela chusma dos ignorantes e invejosos.

Porque não? Que lhe importa a critica malevola, ou que lhe importa a apreciação dos estupidos? Elle alma nobre e concentrada, que reflecte, cerebro pujante que indaga e cogita. 

A exposição compõe-se de retratos, da grande téla "Camões evocando as tagides" e do delicioso esboceto "A Virgem da Conceição".

Os retratos não são "fac similis" de anonymos burguezes, mas uma colleção de verdadeiros retratos d'alguns dos homens notaveis da nossa actual geração. Em todos elles o que Columbano procura reproduzir com maior intensidade é a expressão moral e realisa-o assombrosamente. 

São tão suggestivas que ao vér a atormentada fronte de Anthero do Quental, a expressão dolorida e suave do pensador poeta, parece que assistimos ao drama, cujos primeiros capitulos estão na sua marcha immortal, e termina com a morte tragica

Retrato de Antero de Quental, Columbano, 1889.
Imagem: MNAC

Da esphera do invisível do intangível 
Sobre desertos, vacuos, soledade 
Vôa e paira o espirito impossível

Esse espirito imposivel. ansioso por alcança! o intangível ideal sobrehumano, está ali na téla, figura eburnea d'um Christo de marfim, fitando-nos e parecendo que vae revelar-nos alguma cousa do inefavel grandioso que o assoberba.

Ao lado, Guerra Junqueiro [1889], sorri-nos, cravando o seu olhar penetrante que nos analysa, deixando entrever ao mesmo tempo as meiguices extraordinarias da sua alma de athleta.

Retrato de Guerra Junqueiro, Columbano, 1889.
Imagem: flickr

O perfil grave de Oliveira Martins defronta com o ar expamivo do artista Leandro Braga. 

Retrato de Oliveira Martins, Columbano, 1891.
Imagem: MNAC

A fina cabeça de Batalha Reis, a extraordhiaria fronte de Silva Pinto, a justa expressão de concentrada energia de Fialho de Almeida, o vago olhar scismador de Eugenio de Castro, tudo o pincel de Columbano nos apresenta d'uma maneira original, grande. A modelação das cabeças é d'um rigor unico, parece querer desvendar-nos o eu que cada uma encerra. 

Retrato de Jaime Batalha Reis,, Columbano, 1892.
Imagem: MNAC

Retrato de Silva Pinto, Columbano, 1891.
Imagem: Wikipédia

Retrato de Fialho de Almeida, Columbano, 1891.
Imagem: MNAC

O retrato em corpo inteiro de Taborda, soberbo, faz "pendant" ao de João Rosa, desenhado com primor inexcedível. 

Retrato do actor João Rosa, Columbano.
Imagem: Ruas de Lisboa...

O retrato da viscondessa de Sacavam, que tem a frescura e o avelludado d'um pastel; é adoravel; o busto delicado e gentil destaca finamente da tela, e a cabeça sob o grande chapeu, tem uma expressão animada, encantadora.

Retrato da Viscondessa de Sacavém, Columbano, 1890.
Imagem: Memórias e Imagens

É um retrato de superior elegancia com a sobria correcção d'uma obra de arte que mais tarde deve ser guardado, joia preciosa, n'um museu.

Os retratos de D. João da Camara, de Lopes de Mendonça. Antonio Feijó, Lino d'Assumpção, Coelho de Carvalho, completam esta correcção soberba e se algum como o de Antonio Feijó, é menos vigorosamente expressivo, outros como o de Coelho de Carvalho empolgam-nos com a attracção irresistivel d'uma téla de Zurbaram.

Retrato de António Feijó, Columbano 1893.
Imagem: Biblioteca Municipal de Ponte de Lima

O Camões é obra d'um artista d'alma profunda que sente a aspiração ideal que fazia levantar o peito do grande poeta portuguez. As nymphas que o poeta evoca escutam n'o, maravilha-as a voz inspirada, que n'um canto sublime e supremo, vae immortalisal-as. 

Camões invocando as Tágides, Columbano, 1894.
Imagem: Poet'anarquista

O mar é bem "salso mar" de infinita volupia, de brumas que acariciam os sentidos como um beijo d'ondina, é o vasto lençol d'agua espumante e glauco em que brincam as nymphas e que embala os sonhos do poeta. Diurna singular belleza o dorso de mulher que está no primeiro plano, e a figura de Camões, numa altitude largo e inspirada domina todo o quadro e desperta no espectador uma commoção vibrante.

Não acho, porém, isenta d'algum defeito esta bella obra; devia ser mais formosa a nympha que está de perfil; faz lembrar umas figuras de Goya, que decerto não representam as gentis habitantes das aguas. Um tanto pesadas lambem me parecem as nuvens que pairam na atmosphera.

Camões invocando as Tágides (detalhe), Columbano, 1894.
Imagem: Poet'anarquista

A "Virgem da Conceição" é um esboceto feito com largueza e simplicidade, e tão idealmente tocado que desejaria vêl-a aproveitado pelo pintor para um grande retabulo.

Quando se entra na exposição Columbano sente-se uma impressão profunda, é um delicioso sentimento, mimo de respeito, de orgulho e de alegria. Sae-se com pezar do pequeno recintho.

Retrato do Coronel Ribeiro Arthur, Columbano, 1890.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

É que na obra de Columbano ha uma porção tão grande de arte, de ideal e de alma, que só um espirito em demasia frivolo se não apaixona por ella. Saudemos o illustre artista não esperando por que o futuro tenha de fazer justiça a um talento que é uma gloria para a nossa pobre arte nacional.

B. Sesinando Ribeiro Arthur. (1)


(1) O Occidente N.º 557, 11 de junho de 1894

Informação adicional:
O sítio onde Columbano retratou Antero
Margarida Elias, Columbano e as Caldas da Rainha
Columbano, Un réaliste portugais (1880 - 1900)

quinta-feira, 8 de junho de 2017

O Grémio Artístico (4.ª exposição, 1894)

Sympathica commemoração á memória do seu chorado mestre fizeram os discípulos de Silva Porto, expondo o seu ultimo trabalho incompleto. Mas que dolorosas idéas me suggeriu esse esboceto — Macieiras em flor — tão primaveral, concebido certamente num alegre dia sob a risonha impressão que no espirito acordam a esperança e a coragem. Infeliz homem, mallogrado artista! A sua recordação é uma pungente saudade para os amigos, e a sua falta avalia-se ali na exposição, onde já não dominam as suas télas.

Macieiras em flor [MNSR, existe uma tela homónima no MNGV], Silva Porto, 1893.
Imagem:  flickriver

Era dos modernos pintores o mais completo, um mestre, amoravel e bom, illustrado, artista apaixonado pela arte; foi de entre os camaradas o primeiro que partiu, deixando na sua obra um documento honroso para a arte portugueza. (1)

Apresenta-se a quarta exposição do Grêmio Artístico innegavelmente inferior á antecedente. Esperava que os rigores da critica tivessem estimulado os nossos trabalhadores da arte; mas se esse estimulo existiu foi tão pequeno que as causas mórbidas de que soffre a arte nacional o abafaram. 

Aproveitando uma aberta, Arthur May, 1894.
Imagem: Museu de Lisboa

Não falta vontade a meia duzia de sonhadores destemidos, mas a indolência adormece alguns talentos preciosos, o meio estiola os fracos, desnorteia os hesitantes, a boa direcção falta, e n’isto, como em tudo o mais, o nosso viver apresenta-se n’um estado de fraqueza desanimador.

Querer, como alguns, que o nosso movimento artístico acompanhe o nosso movimento litterario é querer um impossível, embora esse desejo seja estimulado pela nobre ambição de ver applaudidas, veneradas e nossas, obras que são, em qualquer parte que appareçam, glorias para humanidade.

Primeiro que dos artistas fallarei dos amadores e discípulos, que são a doença de que ha de morrer o Grémio, o qual pouco a pouco se vae transformando em bazar de curiosidades. Porque é o jury tão benevolo, e porque lisonjeiam os artistas os seus discípulos, mascarando-lhes com uns inilludiveis toques dos seus pincéis as obras incorrectas, que depois apresentam na exposição, o que desacredita a um mesmo tempo os mestres e os discípulos? 

Um caso doestes passaria desapercebido, mas são tantos e tiram por tal fórma a seriedade ás exposições do Grêmio , que os artistas zelosos da sua dignidade virão mais tarde a fugir-lhe.

Que os pintores se deixem de lisonjear vaidades, por interesse proprio, e para bem geral, e que os amadores conscienciosos sujeitem á imparcial decisão do jury os trabalhos unicamente devidos ao proprio esforço.

Velloso Salgado

A tout seigneur tout honneur. Velloso Salgado é indiscutivelmente o primeiro expositor de pintura; as suas primorosas aptidões artísticas, o seu talento vigoroso, a sua caprichosa phantasia manifestam-se largamente na sua exposição d’este anno. 

Retrato de Anselmo Braamcamp Freire (estudo), Veloso Salgado.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

É irregular, mas domina por uma obra superior e toda ella tem o cunho de mérito que subjuga. — O retrato do sr. Braamcamp Freire — é a joia da exposição; trabalhada pelo buril parisiense refulge de modernismo, e brilha n’ella todo o talento de Salgado; tem o vigor de um pincel de mestre, a sobriedade e nobreza de toda a verdadeira obra de arte. — O retrato do sr. Correia de Barros — é um bom trabalho, a cabeça tem grande vigor de expressão.

Dos outros quadros de Salgado, os estudos de plein air — Cabeça de estudo — e — Varina — tem qualidades de muito apreço, grande expressão, frescura e bastante original.

Marques de Oliveira

Marques de Oliveira encanta com as suas róseas paisagens, tão originaes, envolvidas n’uma bruma de sonho, cheias de um vago e indefinido sentimento; manchasinhas revelando todas um artista com talento e alma, pintor de raras qualidades, nao satisfeito nunca, que devaneia mais do que pinta, na aspiração de um ideal transcendente, inattingivel. "Tudo pela arte". Formoso lemma que Marques de Oliveira segue inquebrantável.

A figura de mulher no quadro — Ao fim da tarde — é surprehendente de naturalidade, de graça campesina e de expressão; se o animal que está ao pé não prejudicasse o quadro, este seria uma obra prima. Aquella figura rústica e poética na sua attitude inconscientemente scismadora, no fundo também vago e melancólico, seria a mais bella expressão do sentir do pintor. 

Das suas formosas paisagens acho adoravel — A Cascalheira.

José Malhoa

Malhôa, impávido, risonho sempre, atrevido, trilha sem medo carreiras novas. Onde vão dar? Que importa! A vida é o movimento, a variedade, para que estar sempre no mesmo ponto a martellar a mesma idéa? Temperamento de folhetinista, todo o assumpto lhe serve; apossa-se delle e depois apresenta-o de um modo que nos seduz.

Este anno a novidade é o nu, pintura difficil, que não se presta a jicelles e que Malhôa ataca corajosa e felizmente. A figura — No descanso — tem uma carnação deliciosa e bem modelada; os accessorios e o fundo tratados sobriamente dão valor ao quadro.

Descanso (posteriormente O atelier do artista), José Malhoa, 1893 ou 1894.
Imagem: Wikipédia

A figura — Antes da sessão — apresenta um bello dorso, tem frescura e delicadeza, mas não gosto da maneira por que pousa.

Antes da sessão, José Malhoa, 1893 ou 1894.
Imagem: Antes da sessão, um Descanso (1894)...

O quadro — Cócegas — é uma scena rústica, viva e bem tratada, sobretudo nos primeiros planos.

Arte Pintura José Malhoa Cócegas 1894 01.jpg
Imagem: O Occidente N.º 565, 1 de setembro de 1894
Cócegas, José Malhoa, versão de 1904.
Imagem: Wikimédia

Nos — Ouriços — é graciosa a figura da creança e estão bem encontrados os valores. Mas, a meu ver, o melhor de todos os trabalhos que apresenta este anno é — O retrato da sr. D. Luiz Almedina —, muito bem modelado e feito com a simplicidade de um mestre. O fundo, procurado com arte, é de uns tons nacarados que realçam a formosura do original.

Os ouriços, José Malhoa, 1894.
[v. Illustração Portugueza", 28/4/1913, p. 522]
Imagem: Os cachopos da fonte do Cordeiro

Malhôa não excedeu o que d’elle se esperava, mas sustenta o seu credito de trabalhador energico e activo; não affrouxa, nem desmerece nenhuma das bellas qualidades que sempre o têem distinguido.

João Vaz

Vaz continua a apresentar-nos as suas deliciosas marinhas, tranquillas, risonhas, aspectos fluviaes queridos do artista, pedaços de afeial, em que as aguas se espreguiçam, barcos que se balouçam bran- damente, tudo tratado com a serenidade e segurança do artista feito, que tem uma maneira sua, e pinta como sente.— As gaivotas — e os — Barcos da minha terra — são duas formosas télas.

Outras mais pequenas como — As bateiras — o — Pôr do sol — são impressões, marcadas de um sentimento de vaga poesia. Tem todas um cunho especial, uma originalidade vaga e attrahente.

António Ramalho

Ramalho expõe um quadrinho que é um poema de luz, — O tio Jeronymo. — Como ali cantam as cores num vivo e suave accorde! E uma das mais bellas e alegres notas da exposição. Mas porque será que este pintor de tão real e superior mérito expõe tão pouco? 

Tio Jerónimo, António Ramalho, 1893.
Imagem: Alexandra Markl, António Ramalho...

Apresenta-nos o retrato da actriz Virgínia, trabalho primoroso de factura, em que ha bellas rendas e velludos opulentos, um delicioso acabamento de mãos e um bom claro escuro, mas que no conjuncto é inferior a outros executados pelo mesmo artista.

Retrato da actriz Virgínia, António Ramalho , 1893.
Imagem: Alexandra Markl, António Ramalho...

Expõe também um — Retrato de creança — do qual podemos proximamente dizer o mesmo que do retrato da actiz Virgínia, uma télasinha luminosa a — Capella do Corpo Santo — e uma cabeça a pastel, retrato de um seu collega, desenho de um avelludado precioso.

É a producção de um artista que descansa e que em meio do seu dolce far niente dá umas pinceladas por desfastio. Mas por Deus, nobreza obriga. Quem possue o enorme talento de Ramalho não póde descansar assim. Encobrirá este repouso apparente o trabalho de gestação de alguma obra soberba, desti- nada a emocionar-nos no futuro? Se assim for, abençoados ocios.

Luciano Freire

Freire não descansa; é um modesto, activo e consciencioso trabalhador. Na anterior exposição os seus trabalhos tão sinceros, de uma nobre seriedade, captivaram-me; augurei-lhe um bom futuro, e elle apresenta-se este anno de uma maneira brilhante, que confirma as predições que toda a critica leal fez a seu respeito.

O seu quadro principal os — Catraeiros — é uma prova do que pódem o estudo e o trabalho quando auxiliam valiosas faculdades. Não é irreprehensivel, como o não póde ser, o trabalho do artista que ainda procura e hesita; mas que bella e vigorosa execução a de aquellas figuras vivas, que acerto na composição, que scena tão animada na sua rude singeleza, não apresenta aquelle quadro de Freire.

Arte Pintura Luciano Freire Os catraeiros 1893 1894 01.jpg
Imagem: O Occidente N.º 556, 1 de junho de 1894

Possue esse não sei quê com que nos prendem todas as obras que o talento assignala. 

A — Scena rustica — é uma téla pequena, mas de não inferior merecimento, exigindo menos esforço de com- posição o seu todo é mais harmonico; sóbria, naturalíssima, as figuras dos animaes cuidadosamente estudadas.

A cabeça de velha — Em ovação — é em extremo expressiva e de uma bella modelação, — Fins de dezembro — uma fria paisagem, de que as brumas nos põem arrepios no corpo, mas onde se encontra, como em todos os trabalhos de Freire, uma naturalidade realçada pelo fulgor de um ideal largo e puro, dourando com os seus reflexos uma obra que começa scintillante de promessas feitas sem ruido, mas animadas pelo calor de uma fé ardente.

Ernesto Condeixa

Condeixa é um mestre no desenho, poucos artistas alcançam a correcção do seu lapis. É pena ter um colorido molle e uma pincelada táo uniforme que d’ella resulta no seu trabalho semelhança entre um tecido e uma pedra.

Nota-se nos seus quadros uma grande precisão nos valores, justamente encontrados, o que dá enorme relevo ás figuras pela differenciação dos planos. Estas qualidades podem apreciar-se na — Volta da fonte — onde a figura de mulher chama a attenção pela correcção e vigor com que está desenhada.

Á volta da fonte, Ernesto Condeixa, 1894.
Imagem: MNAC

Também desenhado com grande superioridade está o — Retrato do sr. P. L. — e tem mais vigorosos traços de pincel. A pequena paisagem, — Ponte velha de Carenque — e a — Natureza morta — têem muito boa execução, principalmente a ultima.

Gosto muito da sanguínea — Italiana — que está admiravelmente desenhada. Condeixa distingue-se na exposição d’este anno entre os seus melhores camaradas.

João Galhardo

João Galhardo é um dos novos que se apresenta fadado para a conquista de louros no futuro, se tiver perseverança, coragem e o bom senso necessário para se não cegar com os primeiros deslumbramentos de triumpho, adquirindo pelo estudo aturado e pelo trabalho consciencioso as qualidades que o hão de tornar um distincto pintor. 

Tem talento, audacia, originalidade, e uma irrequieta e exaltada phantasia que póde servir-lhe se souber dominal-a, mas que também póde perdel-o. Parece-me destinado a engrossar a fileira dos dissidentes. E um dos artistas novos a quem conviria sair d'este meio acanhado e ir temperar a sua nervosa força em mais larga arena. 

As suas paisagens, todas escolhidas com intuição artistica, têem um cunho de originalidade que as torna muito interessantes, e algumas durezas que a boa execu- ção geral resgata. Distinguem se entre ellas o — Rio de Freixial — e o — Caminho de Azoia — . Um gentil quadrinho, — Atravessando as leiras — . A figura da rapariga graciosamente desenhada, avança sob uma atmosphera transparente, banhada de luz, e o campo estende-se a perder de vista. 

Está executado com firmeza e vale. Galhardo apresenta-se pois este anno bem galhardamente e dá-nos o direito de esperarmos bastante d’elle.

Arthur Mello

Arthur Mello, talentoso, com um atrevimento e petulância proprios de seu caracter, de que resumam acres verduras, saltita por uma gamma de cores, desde o vermelho alaranjado até ao violeta, e mergulharia o seu pincel nos raios obscuros do espectro, se fosse dado aos mortaes devassar esses segredos da luz. São audaciosos os seus trabalhos, e a sua exposição este anno impressionou-me. Um bocadinho mais de modéstia e o jovem pintor conquistará esse favor do publico que procura attrahir ruidosamente.

O seu estudo, — Ao sol — , agrada e é bem desenhado, mas o artista procura tirar com a harmonia das cores comple- mentares effeitos, que não estão na natureza, a qual se recusa a violências. Pre- cisamente o mesmo posso dizer da — Cabeça de rapaz — , que todavia tem bellos effeitos de luz e sombra.

Recordação, Vieira de Mello.
Imagem: Arte Portugueza N.º 3, março de 1895

O melhor dos seus trabalhos é a — Recordação — menos convencional, mais sincera, e de grande riqueza de tons. Agradam-me menos as outras suas télas; direi mesmo que acho banal a — Engeitada — . Em resumo: Mello é um artista que promette bastante para quando amadurecer mais um pouco.

Ezequiel Pereira

Ezequiel, discípulo de Silva Porto, tenta seguir as pisadas do mestre. As suas paisagens, tao larga e brilhantemente tratadas, têem um grande encanto no colorido. — As lavadeiras no Mondego — apesar do pouco acabamento das figuras, apenas indicadas, é uma bella paisagem, de luz clara e suave; respira-se e vive-se naquelle pedaço de téla em que o azul canta alegrias e a mocidade esplende. 

Lavadeiras no Mondego [Lavando roupa no rio], Ezequiel Pereira, 1894.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

É uma linda mancha o — Mondego — , encantador o — Choupal — . Ezequiel tem qualidades para ser um delicado paisagista, possue um bello talento, sentimento, e tem muito poucos annos, o que é ainda uma garantia de futuro.

António Francisco Baeta

Baeta aqueceu um pouco mais a sua habitual frieza de tons. Dá-nos em o — Crepúsculo — uma impressão vivida e sentida, e as — Flores — pintadas com largueza e graça, são bellas.

Apresenta um bom numero de télasinhas bem desenhadas, e que, não obstante parecerem na maior parte pintadas com indifferença, demonstram que o artista podia, se quizesse, apresentar trabalhos de maior folego e de mais completo acabamento.

Torcato Pinheiro

Torcato Pinheiro tem feito notáveis progressos; são muito interessantes os trabalhos que mandou do Porto, dos quaes me agrada muito o — Caminho no Regado — . É um artista sympathico e em extremo modesto.

Josefa Greno

D. Josefa Greno anima a exposição com o fresco colorido das suas bellas flores. As — Papoulas — são uma gentileza. Em alguns outros quadros os fructos têem bastante perfeição e muita verdade. As composições são sempre graciosas, o desenho, em geral, bom e em todos os seus trabalhos se encontra alguma cousa mais que o correcto. — Preparos para o festim — é uma bonita composição, animada na sua insensibilidade, que é pena ter algumas imperfeições no desenho, e estarem pouco tratados os primeiros planos.

Esta senhora, uma verdadeira artista, cultiva amorosamente o genero a que se dedicou, e as suas télas oíferecem sem- pre uma variedade e encanto seductores.

Thomás de Mello, Manuel Henrique Pinto, Teixeira Bastos

Alem dos trabalhos dos artistas a quem dediquei um pequeno estudo, varias télas me deixaram uma impressão agradavel como as marinhas de Thomás de Mello, os — Preparativos para a caça — de Henrique Pinto, o estudo de cabeças no quadro — A missa — de Teixeira Bastos, e aqui e alem, um accessorio, umas pinceladas justas, a modelação de alguma cabeça, que a brevidade com que ex- ponho as minhas impressões me não per- mitte descrever minuciosamente.

Preparativos para a caça [Armando aos pássaros], Manuel Henrique Pinto, 1893.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Como já disse, o aspecto geral da exposição é inferior ao das antecedentes; sente-se muito a falta de Silva Porto, e, alem d’isso, os nossos principaes artistas pouco fizeram que mereça grandes applausos. O que ha de mais importante a notar são os esforços dos novos, animadoras promessas de que a idéa de um renovamento de gosto pela arte não perde terreno, antes se affirma, sem ruido, mas com persistência.

Alfredo Roque Gameiro

Na aguarella occupam, como sempre, o mais distincto logar as producçoes de Gameiro [v. Roque Gameiro.org]. 

O — Retrato de mademoiselle Maria Gomes — Um frade — , as paisagens, e muito especialmente o — Estudo — , são verdadeiros trabalhos de um artista que conhece o métier. E não é dado a todos este dom especial de réussir num ramo de pintura que tem recursos limitados, compromissos que se impõem, onde os effeitos se hão de conseguir rapidamente, e o pincel alcançar levezas de arminho. Houve quem lhe chamasse brinquedo de arte; todavia é um brinquedo difficil.

Quem assim a trata ainda não viu as esplendidas aguarellas de Fortuny, nem as de alguns artistas eminentes. Ignora os applausos que nas exposições da rua de Sèze têem recebido os bellos trabalhos d’Harpignies, de Zuber, de Madeleine Lemaire, de Clairin, de Maurice Leloir e outros pintores que em Paris d’ella se occupam. Não comprehenderia o valor das soberbas figuras aguarelladas por Detaille, e se lhe dissessem que varias das aguarellas do grande Meissonier al cançaram na exposição o subido preço de 58:ooo francos, superior ao de alguns dos seus melhores quadros a oleo, pensaria que era gracejo.

O nosso critico, que assim considera a aguarella, ha de apesar d’isso convir em que Gameiro é um artista de mérito superior a muitos dos que expõem nas outras salas.

Nicola Bigaglia

Na exposição d'este anno apresenta o architecto Bigaglia uma grande aguarella representando o — Claustro dos Jeronymos — ; é um estudo de architectura, despido de sentimento, mas está tratado com uma soberba maestria, tem um admiraravel estudo de planos e o ar circula livremente pelas arcadas de que a vista alcança a profundidade enorme.

Celso Herminio

A pastel apresentam bons trabalhos alguns dos nossos mais conhecidos artistas; mas em desenhos, depois da bella sanguinea de Condeixa, o que me chamou a attenção foram as interessantes caricaturas de Celso Herminio, um talento novo, já confirmado, e que conquista largo terreno na arte de Gavarni.

Simões de Almeida

Simões de Almeida honra este anno a exposição com uma das suas mais bellas obras — Superstição — , estatua de uma esplendida belleza, em cuja contemplação o olhar cansado de percorrer as salas vae repousar contente. Simões de Almeida é um artista de primeira ordem, o nosso primeiro estatuário, um mestre a quem todos respeitam, e a apreciação do seu mérito não cabe aqui em linhas traçadas á pressa: A — Superstição — é uma maravilha em que a graça, a correcção das linhas, o primor da modelação, a harmonia das fôrmas encantam, deixando apenas um sentimento — a admiração.

Superstição, Simões de Almeida (tio), 1893.
Imagem: Os escultores Simões de Almeida

A estatua de Simões de Almeida só por si faria o attractivo da exposição ; para vel-a os amadores correriam ás salas de S. Francisco, ainda quando n’ellas nada mais se encontrasse. Aos pés depozeram-lhe flores, homenagem á belleza, ao talento, á arte. Mas ainda mais grandiosa e sincera homenagem existe no coração dos admiradores do grande artista, que sentem, ao contemplar aquella obra prima, acceso o calor do enthusiasmo. Bravos a Simões de Almeida.

Teixeira Lopes

Em esculptura mais nenhum trabalho de grandes proporções se apresenta, mas encontra-se lá arte, verdadeira arte, como n’aquella deliciosa cabecinha em bronze de Teixeira Lopes, esse talentoso esculptor, da patria de Soares dos Reis, moço ainda e já tão illustre. É um artista de valente pulso, de uma intelligencia vasta e profunda. Ha nas suas obras um grande arrojo de concepção, que não exclue o sentimento mais delicado.

Caridade, Teixeira Lopes, 1894.

Apresenta também na exposição alguns esbocetos em gesso de grande merecimento, principalmente a — Caridade — que é uma composição admiravel.

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Quando as primeiras exposições de arte, não officiaes, appareceram, ouviu-se de todos os lados tão vivo e espontâneo clamor, que o publico, accordando de repente, perguntou o que era. — É a arte, senhores, que renasce entre nós, abram-lhe os braços, festejem-na, lancem aos artistas flores e oiro, elles merecem tudo. 

Imagem: Arte Portugueza N.º 2, fevereiro de 1895

O publico um pouco desconfiado, sim, mas professando o credo da letra redonda, começou a applaudir a arte e os artistas, lançando-lhes porém flores e oiro com uma certa conta e medida, para os não estragar. Isto assim alguns annos. Durante elles os artistas foram trabalhando e conseguiram bastante. 

Silva Porto, trabalhou incessantemente, fez pintura portugueza, original, sincera e sentida. Columbano confirmou-se um original e grande pintor. Malhôa tem trabalhado sempre infatigavelmente, arrostando com todas as difficuldades, arrojando-se a commettimentos largos e manifestando uma preciosa plasticidade de talento. Soares dos Reis, o grande estatuário, deixa trabalhos geniaes e mata-se porque encontra o mundo pequeno para o seu ideal. Simões de Almeida está formando com a sua obra um pedestal glorioso sobre o qual o ha de venerar o futuro. Uma pleiade de artistas tem surgido, e de entre esses, como Ramalho, Salgado, Teixeira Lopes, Soua Pinto, preciosos talentos, pois pergunta um critico, comparando a litteratura portugueza com as artes plasticas em Portugal nos últimos dez annos, o que têem ellas dado?

Agora passou a ser moda tratar mal os artistas na imprensa, e esta moda para se parecer com todas veiu importada de Paris na bagagem de um jornalista que encetou uma critica, embora illustrada e com pontos de vista elevados, exageradissima pelas comparações e pelas pretensòes de querer medir pela grande bitola do Salon de Paris o nosso petit salon da rua de S. Francisco. 

Criticando acerbamente todos os nossos artistas não deixava de pé dois ou tres, visando, talvez, principalmente, ferir o Grémio Artístico , mas sendo em geral de uma grande benevolencia para com os amadores pretenciosos que o estragam.

Todavia esta critica irritante e injusta muitas vezes, não tem ainda os ridiculos de algumas outras, feitas por sujeitos que pouco enxergam de arte e vão dando bordoada de cego, macaqueando as severidades vindas de Paris, mas sem conseguirem alcançar ao menos o ar pedante e fino d'ellas.

Os artistas sáem de taes mãos feitos frangalhos: um atira-se ao Malhôa porque trabalha em tudo, outro ao Vaz porque só pinta marinhas, não sei quem, apresenta Marques de Oliveira, um paisagista primoroso, quasi como se fosse um mirabolante decorador de casas de jantar. É escusado citar mais.

Ora estes senhores críticos para quem os pintores, hontem cheios de merecimentos, hoje são simples borradores de télas, não pensam que o publico, na sua maioria pouco instruído, não podendo sobre tal assumpto ter opinião própria, se fia nas que elles lhe impõem, e fazendo a loucura de lhes dar credito, se julga burlado na protecção que de algum modo der aos artistas e á arte? 

Não conhecem estes senhores que em vez de cumprirem com a sua obrigação de educar e bem dirigir o publico o desnorteiam?

A exposição d’este anno não está rica de obras de mérito, mas representa bastante esforço e trabalho, revela tentativas felizes, aspirações justas e promessas de futuro; já é alguma cousa.

Imagem: Arte Portugueza N.º 2, fevereiro de 1895

Dedicar a sua vida a um trabalho que absorve todos os dias e todas as horas, e entre nós apenas permitte viver na mais obscura modéstia, viver orgulhosa e exclusivamente d'elle e para elle, ter de soffrer as injurias da critica, os desdens da ignorância, não desanimar nunca, seguir inalterável no ideal que se venera, faz dos artistas sacerdotes ante os quaes sempre me curvarei com respeito.

Maio de 1894. (2)


(1) Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (I), 1896
(2) Idem

Mais informação:
O Occidente N.º 556, 1 de junho de 1894
O Occidente N.º 564, 21 de agosto de 1894
O Occidente N.º 565, 1 de setembro de 1894
Arte Portugueza N.º 2, fevereiro de 1895
Arte Portugueza N.º 3, março de 1895
Arte Portugueza N.º 4, abril de 1895

Informação complementar:
António de Lemos, Notas d'arte, Porto, Typographia Universal, 1906
Ramalho Ortigão, S. M. el-rei D. Carlos I e a sua obra artística e scientífica, Lisboa, António Palhares, 1908