sexta-feira, 10 de março de 2017

A Cidade Global para além das Janelas Verdes

Em finais de 2015, é editado em Londres (com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian) o livro de Annemarie Jordan Gschwend e K. J .P. Lowe, The Global City: On the Streets of Renaissance Lisbon, recentemente galardoado pela Academia da Marinha e amplamente celebrado pela crítica internacional.

Rua Nova dos Mercadores, autor desc., séc XVI.
Imagem: Julia Dudkiewicz, Dante Gabriel Rossettis' Collection of Old Masters at Kelmscott Manor...

Nele, as autoras fazem uma reconstituição do ambiente da cidade de Lisboa no ciclo longo dos Descobrimentos, a partir de dois quadros que haviam identificado como uma representação da Rua Nova dos Mercadores, a principal artéria comercial no período do Renascimento.




Pelo ineditismo da sua visão e objetiva relevância histórica, o MNAA entendeu convidar as autoras a adaptarem o livro a uma exposição: A Cidade Global. Lisboa no Renascimento, que [foi] será inaugurada a 23 de fevereiro [de 2017].

Nesta mostra, que conta ainda com o contributo de Henrique Leitão, Prémio Pessoa 2014, como consultor para a História da Ciência, a visão do livro surge ampliada, ao mesmo tempo que se reformula e amplifica o plano ilustrativo, mobilizando um conjunto, o mais diversificado possível, de acervos, públicos e privados, nacionais e internacionais, numa amostra inédita de obras, todas creditadas ou pela documentação ou pela comunidade científica.

Lisboa Arte Pintura Rua Nova dos Mercadores aut desc sec xvi 06 MNAA.
Imagem: MNNA

Foi também alargado o núcleo dedicado à evocação da Lisboa de então, onde se buscou reunir exaustivamente todas as fontes úteis para a sua compreensão.

Lisboa c. 1500–1510, Crónica de Dom Afonso Henriques, Duarte Galvão.
Imagem: Wikipédia

Com o título "Museu de Arte Antiga abre as portas a obras suspeitas", um artigo de Miguel Cadete, com Alexandra Carita e Hugo Franco, publicado na edição do Expresso de 18 de fevereiro de 2017, alega que os historiadores João Alves Dias e Diogo Ramada Curto "consideram falsa a pintura 'A Rua Nova dos Mercadores', peça central da exposição que será inaugurada na quinta-feira, com a presença de Luís Filipe Castro Mendes, ministro da Cultura". Neste artigo, onde a matéria em questão é do foro da História da Arte, Cadete limita-se a dar voz a dois historiadores, assumidamente não especialistas nesta área científica, deixando em silêncio os da especialidade, não obstante reconhecer os seus contributos, genericamente de orientação oposta.

De acordo com Cadete, o quadro que "até então (2010), estaria esquecido no espólio do pintor inglês do século XIX Dante Gabriel Rossetti e à guarda da Society of Antiquaries de Londres, em Kelmscott Manor" é, como lhe terá garantido o historiador Alves Dias, "um quadro forjado no século XX a imitar o passado". No mesmo artigo, Cadete afirma que Ramada Curto sustenta "a impossibilidade de o quadro fazer parte do espólio de Dante Gabriel Rossetti", concluindo que "a sua autenticidade nunca foi comprovada".

Retrato de Dante Gabriel Rossetti,
William Holman Hunt, 1853.
Imagem: PubHist

A tese defendida por Jordan e Lowe, de que a obra terá feito parte da coleção de Dante Gabriel Rossetti (1828-1882), foi, no entanto, confirmada em 2015, pela investigação científica, designa - damente no artigo publicado por Julia Dudkiewicz no The British Art Journal (vol. XVI, n.º 2): "Dante Gabriel Rossetti’s collection of Old Masters at Kelmscott Manor".

Jane Morris, The Blue Silk Dress, Dante Gabriel Rossetti, 1868.
Imagem: 5 Minute History

Contrariando as alegações difundidas pelo Expresso, a historiadora refere que, ao testamento de May Morris – filha de William Morris e herdeira de Kelmscott Manor – está anexada uma lista de 220 objetos, que May doou à Universidade de Oxford, juntamente com a casa que fora do seu pai. Nessa lista, com descrições dos vários itens, que englobam proveniências e localização na casa, surgem os dois quadros representando a Rua Nova dos Mercadores: "Two pictures of scenes in a city, part of D. G. R.’s things" (dois quadros com cenas de uma cidade, parte das coisas de Dante Gabriel Rossetti). 

Retrato triplo de May Morris, Dante Gabriel Rossetti, 1874.
Imagem: 5 Minute History

Rossetti e William Morris partilharam Kelmscott Manor alguns meses, em 1871, e entre 24 de setembro de 1872 e 11 de julho de 1874. Os dois quadros, e outras obras de Rossetti, também identificadas no testamento de May Morris (Mary Morris, Memorandum, 17 June 1926, part of Will and Testament of Mary Morris, London Probate Department, HM Courts & Tribunals Service), terão ficado em Kelmscott Manor quando, após um caso amoroso atribulado, Rossetti teve de abandonar repentinamente a casa.

Kelmscott Manor,
News from Nowhere, William Morris, Kelmscott Press, 1893.
Imagem: Wandering Educators

Acabaram, mais tarde, por ser incluídos nos bens de William Morris.

No mesmo artigo, Miguel Cadete levanta ainda suspeitas em relação à pintura O Chafariz D’el Rey, pertencente à Associação de Coleções/The Berardo Collection, que surge na exposição num contexto apenas documental e ilustrativo. 

Lisboa, Chafariz d’El-Rey, óleo sobre madeira de carvalho, 93x163 cm, autor desc. (Colecção Berardo), c. 1570.
Imagem: Lisboa, cidade africana

Apesar de esta pintura não ter tido ainda um exaustivo estudo monográfico, material e iconográfico, é uma obra sobejamente conhecida. Pertenceu, pelo menos desde finais do século XIX, à coleção do conde Adanero, de Madrid. Identificada como uma cena urbana, foi fotografada cerca de 1940 pela Casa Moreno/Archivo de Arte Español (existem exemplares desta imagem na Fototeca del Património Histórico de Espanha e na Black Archive Collection, da Universidade de Harvard). Não pode, pois, também aqui tratar-se, como refere Cadete baseado em Alves Dias, de "um quadro forjado no século XX a imitar o passado". 

Foi reconhecida como representando o Chafariz d’el-Rei no antiquário madrileno, Caylus Anticuarios, e divulgada em Portugal por Vitor Serrão em 1998 (IV Jornadas de História Ibero-Americana – As Rotas Oceânicas. Sécs. XV-XVII).

Entretanto, os historiadores da arte Fernando António Baptista Pereira, Vítor Serrão, Jean Michel Massing, Annemarie Jordan e Kate Lowe descreveram, estudaram e utilizaram como referência esta pintura, cabendo a Massing a divulgação de que a obra pertencia à coleção do conde de Adanero, por volta de 1893.

Panorâmica de Lisboa c.1540-1550  (ou 1570), Leiden University Library Bodel Nijenhuis Collectie, Leyden.
Imagem: Wikimedia

Finalmente, a pintura em causa fez ainda parte de várias exposições e foi reproduzida e comentada nos respetivos catálogos: Os Negros em Portugal. Séculos XV a XIX , Lisboa, Mosteiro dos Jerónimos, 1999, com comissariado de Didier Lahon e Maria Cristina Neto; Encompassing the Globe. Portugal and the World in the 16th & 17th Centuries, Washington: Smithsonian Institution, 2007, editado por Jay A Levenson, com a colaboração de Diogo Ramada Curto e Jack Turner;



Autour du Globe. Le Portugal dans le monde aux XVIe et XVIIe siècles, Bruxelas, Palais des Beaux-Arts, 2007-8, com comissariado de Jay A. Lavenson, com a colaboração de Jean-Michel Massing, Nuno Vassallo e Silva, Regina Krahl, Diogo Ramada Curto e James Ulak; e Portugal e o Mundo nos Séculos XVI e XVII, Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 2009, com comissariado de Jay A. Levenson, Jean Michel Massing, Julian Raby, Nuno Vassallo e Silva, James Ulak e Regina Krahl.

A Direção (1)


(1) Museu Nacional de Arte Antiga, Comunicado à Imprensa, Lisboa, 22 de fevereiro de 2017

Artigos relacionados:
Iconografia de Lisboa (de 1 a 9 e cronologia), maio 2016

A inauguração da exposição:
Património Cultural (fb)

A exposição:
MNNA: A CIDADE GLOBAL

Outros comunicados de imprensa:
Press release (pt)
Press release (en)

Referências:
Julia Dudkiewicz, Dante Gabriel Rossettis' Collection of Old Masters at Kelmscott Manor...

Web references:
artdaily.org
Alain.R.Truong

A (rua da) polémica:
Sobre as polémicas tábuas com trechos da Lisboa antiga
05.03.2017
Vítor Serrão, historiador de arte
A autenticidade de dois quadros que servem de âncora à exposição “A Cidade Global — Lisboa no Renascimento”, inaugurada na passada quinta-feira no Museu Nacional de Arte Antiga, continua a alimentar grande polémica. Os prós e os contras de uma discussão entre especialistas
“Lisboa Global”. Uma polémica local?
24.02.2017
Ana Maria Pimentel
Na inauguração da exposição “A Cidade Global – Lisboa no Renascimento” foram poucos os que disseram dar importância à polémica e até mesmo os que sabiam do que se falava
História de uma polémica na “Cidade Global”
23.02.2017
Ana Soromenho
A exposição “A Cidade Global Lisboa no Renascimento” chega esta quinta-feira ao Museu de Arte Antiga, para nos revelar o ambiente de uma das mais cosmopolitas artérias da cidade no tempo dos Descobrimentos. O centro comercial de Lisboa era, nesse tempo, a Rua Nova dos Mercadores, reproduzida num quadro que é a obra “cabeça de cartaz” da exposição e, tal como o quadro de outra vista da cidade, tem sido alvo de polémica entre os historiadores quanto à sua autenticidade
Ministro da Cultura já pediu exame laboratorial às “obras suspeitas”
21.02.2017
Alexandra Carita
Luís Filipe Castro Mendes diz que já foi pedida autorização aos proprietários dos quadros, “Chafariz D'el Rei” e “Rua Nova dos Mercadores” para analisar em laboratório a sua datação. O ministro quer que a polémica seja esclarecida. E defende que a exposição que integram, “Cidade Global”, no Museu Nacional de Arte Antiga, não se limita a estes dois trabalhos
Hugo Crespo: a autenticidade da Rua Nova é “indesmentível”
21.02.2017
Hugo Crespo, do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e colaborador no livro “The Global City”, considera que a autenticidade do quadro Rua Nova dos Mercadores que ilustra o cartaz da exposição “A Cidade Global” está provada no memorandum de May Morris
Conservadores do Museu de Arte Antiga não se entendem
21.02.2017
Miguel Cadete
Chafariz d'El Rei, um dos quadros presentes na exposição "A Cidade Global" que abre quinta-feira, gera controvérsia. Joaquim Caetano considera o quadro verdadeiro.Mas Anísio Franco acha que se trata de uma falsificação
Lisboa era uma cidade global?
21.02.2017
Diogo Ramada Curto, historiador
Duas pinturas da exposição “A Cidade Global — Lisboa no Renascimento”, que abre quinta-feira no Museu Nacional de Arte Antiga, levantam sérias dúvidas quanto à sua autenticidade
Museu de Arte Antiga abre as portas a obras suspeitas
18.02.2017
Miguel Cadete, Alexandra Carita e Hugo Franco
Reputados historiadores portugueses consideram falsos dois quadros da exposição “A Cidade Global”

segunda-feira, 6 de março de 2017

Paradoxo da Arte dita Contemporânea de Exposição não Permanente

A pequena mas bella exposição presentemente aberta, ao publico nas salas da Sociedade de Geographla tem attrahido as attenções do dilettantismo e da critica para os expositores, a que algumas folhas chamam o grupo dos dissidentes.

Meme Hopper Columbano
Nighthawks de Edward Hopper (1942) com O Grupo do Leão de Columbano (1885)
Imagem: Rui Granadeiro

Temos procurado achar o sentido d'essa designação, e não o conseguimos. Comprebonde-se que haja dissidencla unicamente onde ha opiniões. Na pintura franceza, por exemplo, o sr. Cabanel e o sr. Monet dissidem, porque o sr. Monet é a heresia de que o sr. Cabanel é o dogma. 

Mas em Lisboa — meu Deus ! — do quem é que podem dissidir estes espirituosos artistas?... A não ser um grito de revolta que elles queiram agora levantar contra o Grão Vasco ou contra a Josepha d'Obidos, não sabemos realmente contra quem é que cales se insurjam. 

A verdade é que os expositores da rua do Alecrim estão sós na arte da pintura. O conspícuo o talentoso sr. Luppi é já mais que um simples artista, é um oficial maior da secretaria da natureza, é um chefe do repartição do quadro historico, jubilado.

Como escola official resta-nos apenas o esclarecido sr. Delphim Guedes, mas este cavalheiro consta-nos que se acha presentemente fechado. Dizem-nos que s. exa. continha ainda a receber dos cabidos, das confrarias o das irmandades sertanejas, todos os tocheiros velhos e todas as galhetas duplicadas, de mais ou menos recente seculo XVI, que se lhe remettem para a arte ornamental; mas, pelo que respeita a discípulos, o seio desse varão recusa-se por emquanto a receber e a ensinar mais ninguem. Vedam-lh'o os seus affazeres.

O sr. Delphim deixou portanto de ser na pintura um portico, para ser unicamente uma tranca. O sr. Porto, o sr. Ramalho, o sr. Malhôa, o sr. Girão, o sr. Christino, o sr. Pinto, o sr. Vaz, o sr. Martins, são agora os pintores paizagistas unicos em Lisboa. 

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel Henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: MNAC

Elles são os que amam e os que interrogam a natureza, os que arregaçam as calças e deitam a mochila ás costas para ir de madrugada, com um pão e um cachimbo na algibeira, saltar os vallados, descer a azinhaga, atolar os pés na terra lavrada, atravessar o ribeiro, subir a encosta, o plantar o cavalete em frente da amendoeira em flor e da cancela rustica do quinteiro, onde as alfazemas desabrocham, onde as abelhas zumbem o onde as galinhas se espanejam ao sol, debicando a leira.

São elles os que entendem o primeiro dos prazeres que, depois da terrivel dôr sublime d'amar o ser amado, o Papá Deus deu á criança homem na festa do grande natal : — o prazer que teem, certas naturezas em casar aos phenomenos da vida exterior a sensibilidade pessoal, o de fazer d'essa conjunção o quadro, o poema ou a melodia, que são a consolação eterna da pobre alma da humanidade. 

Os artistas são eles. (1)


(1) O António Maria n.° 134, 22 de dezembro de 1881

Leitura Relacionada:
Raquel Henriques da Silva, MNAC/Museu do Chiado...
Mónica Queiroga, Projecto Arte e Educação no Espaço Museológico...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Para além do pátio da escola de Bellas-Artes

Depois, planeada a reedificação da cidade, fixou-se o novo local onde devia fazer-se a definitiva reconstrução da paróquia de S. Julião, sendo designado o chão onde estivera a antiga Igreja Patriarcal, desbaratada também pelo terremoto. e que fora antes o chamado sítio da Judiaria Nova ou Pequena. 

Lisboa, vista tomada do Largo da Academia das Belas Artes, 2017.
Imagem: Eventualmente Lisboa e o Tejo

O terreno escolhido pelos engenheiros de Pombal ficou delimitado a poente pelo largo de S. Julião, a norte pela rua do mesmo nome e do lado sul pela Rua Nova de El-Rei. 

Dirigiu as obras, o arquitecto Honorato José Correia, o mesmo que levantou a planta geral da cidade em 1785. 


Plano Geral da CIdade de Lisboa, Honorato José Correia, 1785.
Imagem: WDL

Em 1778, ainda a nova igreja, já com paredes, estava em menos de metade, assim o garante o citado frade franciscano António Sacramenco, que encerra a informação, opinando: "será preciosa, mas escura". 

Pouco tempo depois, em 1783, um relatório enviado à rainha D. Maria I deixava transparecer melhores perspectivas: "A nova Igreja está feita até à Simalha; para se acabar o que falta, segundo a avaliação dos mestres, são necessários mais de Sincoenta mil Cruzados  [...]"

Aproveitaram-se alguns materiais do demolido Convento de S. Francisco, principalmente o retábulo e as duas colunas do altar-mor, esculpidas em mármore do Tojal.

Academia de Bellas Artes e Biblioteca Pública, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

Por conter certo interesse, transcrevemos este apontamento, tomado por amor desconhecido, num canhenho manuscrito, datado de 1837: "A Estátua equestre da Praça do Commercio de Lisboa foi fundida com o bronze de um grande sino da egreja de S. Julião d'esta Cidade, o qual tinha cahido pelo Terramoto de 1755; e ainda ha memoria de um Çapateiro que estabeleceu sua loja, e trabalhava dentro deste sino."

Pela inauguração da Estatua appareceu um pasquim, que dizia:

Já Fui sino, fui badalo,
Hoje sou Rei, sou Cavallo.

Monumento a D José I, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

A tais instrumentos, de timbre mavioso, que os Anios ouvem no Céu, rendeu Júlio de Castilho [em maio de 1884] uma comovida homenagem, em verso. Aqui ficam a primeira e a última estâncias:

Não sei dizer que saudades
me acordam no coração
Aquelas vozes de prata

dos sinos de São Gião.
...

Lisboa, vista tomada do Largo da Academia das Belas Artes, 2017.
Imagem: Eventualmente Lisboa e o Tejo

Oh! campanário bendito! 
Quanto te deve a minh'alma 
ninguém o sabe, nem eu; 
mas sei que sabes falar-me 
numa linguagem do Céu; 

Pátio da Escola de Belas Artes de Lisboa, António Ramalho, 1880
(descobre-se parcialmete o cimo da torre da igreja de S. Julião).
Imagem: MNSR

e que ao vir de longes terras,
das ilhas de além do mar,
e ao subir o Tejo um dia,
debruçado na amurada,
o que eu entre tudo ouvia
era, por longe, esfumada
como as brumas da amplidão
entre o rumor da Ribeira,
e o retroar da cidade,
a voz minha companheira,
a voz toda ela saudade
a voz sabida e caseira
dos sinos de São Gião. (1)


(1) Mário Costa, A igreja de S. Julião... (II), Revista Municipal n.° 89, Lisboa, 1961

Alguma leitura relacionada:
Mário Costa, A igreja de S. Julião... (I), Revista Municipal n.° 88, Lisboa, 1961
belas-artes, ulisboa, história e fotografias

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O atelier do pátio da escola de Bellas-Artes

Nesta pequena composição [António Ramalho (1859-1916)] utiliza uma estreita faixa de casario existente no pátio do Museu da Academia de Belas-Artes, nas traseiras desta instituição.

Pátio da Escola de Belas Artes de Lisboa, António Ramalho, 1880
(descobre-se parcialmete o cimo da torre da igreja de S. Julião).
Imagem: MNSR

À esquerda, perfila-se parte da modesta construção que servia de atelier a Silva Porto (1850-1893) e que, anos mais tarde, após a morte do mestre, haveria de "herdar" [...]

Imagem: MNSR

Uma fotografia tirada no mesmo local, anos mais tarde (em baixo),  permite-nos observar como o sítio era na realidade e compreender como foi transformado na visão do pintor [...]

O pintor António Ramalho no atelier da escola de Belas Artes.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O trabalho com o pincel, em pequenas manchas, permitiu-lhe fazer sobressair o efeito visual da luz intensa sobre as velhas paredes gastas dos edifícios da cidade.

O pintor António Ramalho no atelier da escola de Belas Artes.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Esse tema assim como o da distribuição das cores complementares das portadas, definindo e harmonizando as duas metades verticais da composição, transformam-se, desta forma, no verdadeiro tema pictórico desta pequena obra.

O pintor António Ramalho à porta do atelier e a vista do pátio pintada por este em 1880.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

No entanto, não resiste a introduzir uma pequena figura humana, sentada na soleira da porta, o que vem elucidar sobre a verdadeira natureza evocativa do local e, portanto, sobre a intenção naturalista das suas preocupações. (1)


(1) Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004

Informação relacionada:
Ramalho Júnior, António Monteiro
Objectos listados em matriznet

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O grande castanheiro

A natureza que, após o século XVI, só, de Annunciaçâo para cá, começou a ser vista, em Portugal, com alguma verdade, evolucionando desde então até triumphar, por completo, em Silva Porto e nos seus companheiros e continuadores: Marques d'O1iveira, Arthur Loureiro, Ramalho. Malhoa, Vaz, Luciano Freire e Carlos Reis,

Carlos Reis no seu atelier, Joshua Benoliel.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

trouxe á arte muitos elementos caracteristicos que escapavam ao que, até ahi, era quasi exclusivo assumpto dos nossos artistas.

Carlos Reis no seu atelier, Joshua Benoliel.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A vida do campo com os seus costumes, o seu trajar ainda tradiccional e típico, e as suas figuras do interior ou da beira-mar, tão cheias de caracter e reveladoras da raça, veio dar-lhes uma mais profunda verdade e um maior conhecimento dos nossos verdadeiros elementos de constituição.

Carlos Reis no seu atelier, Joshua Benoliel.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A luz, variável com a região, a architectura dos terrenos differenciada de provincia para província, tudo isso veio enriquecer o filão em que trabalham, com coragem, os que consideram o movimento artistico de hoje como um estádio já relativamente brilhante, mas ainda passageiro, na nossa evolução artistica. (1)

O grande castanheiro ou A feira, Carlos Reis, 1910.
Imagem: MNAC


(1) Catallogo Illustrado, Exposição Nacional no Rio de Janeiro, Secção Portuguesa de Bellas Artes, Lisboa, A Editora, 1908

Leitura relacionada:
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (II), Lisboa , Livraria Ferin, 1898
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (III), Lisboa, Livraria Ferin, 1903

Carlos Reis: google search

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Obras maiores de João Pedroso Gomes da Silva (1825 - 1890)

Os principais navios desse programa [programas navais dos ministros Sá da Bandeira e Mendes Leal, a partir de 1858]: as corvetas mistas Bartolomeu Dias, Sagres e Estefânia, construídos em Inglaterra, foram todos "retratados" em pintura e em gravura, por João Pedroso. As corvetas, Duque de Palmela e Sá da Bandeira, dois dos navios desse programa, construídos no Arsenal da Marinha de Lisboa, também foram alvo da atenção do artista.

Chegada a Lisboa de S.M. Maria Pia de Sabóia, João Pedroso, 1862.
Imagem: As corvetas mistas na obra de João Pedroso, Revista da Armada

Este quadro retrata a “Chegada a Lisboa de S.M. Maria Pia de Saboia” a 5 de Outubro de 1862 duma frota portuguesa (constituída pelas corvetas Bartolomeu Dias, Sagres e Estefânia, após uma viagem realizada desde Génova em companhia de navios de guerra italianos.

Aliás, esta pintura constitui uma das três obras monumentais de João Pedroso que se encontram no Palácio da Ajuda,

Chegada a Lisboa da Rainha Dona Estefânia a bordo da corveta Bartolomeu Dias, João Pedroso, 1862.
Imagem: Revista da Armada, Agosto de 2008

As duas outras obras, igualmente de grandes dimensões têm por temas, respectivamente: "A Chegada a Lisboa da Rainha Dona Estefânia" (quadro pintado retrospectivamente) e a "Partida para França da Família Real em 1865". Nesses dois quadros são também reconhecíveis as corvetas Bartolomeu Dias, Estefânia e Sagres. 

Partida para França da Família Real, João Pedroso, 1865.
Imagem: Revista da Armada, Abril de 2014

A pintura desses três acontecimentos históricos marcantes (vulgo "pintura histórica") foi encomendada a Pedroso pelo Rei Dom Luís. O conjunto destas obras contribuiu seguramente para confortar o successo e a carreira comercial do pintor, nomeadamente nos Salões da Sociedade Promotora de Belas Artes de Lisboa, onde expunha. (1)


(1) Paulo da Silva Santos, A revolução industrial, Lisboa marítima e a Marinha de Guerra na obra de João Pedroso, 2014

Tema:
João Pedroso

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Le Portugais, Georges Braque, 1911

Braque afirmou que o tema representa um músico que tinha visto num bar em Marselha. (1)

Le Portugais, Georges Braque, 1911.
Imagem: WikiArt

Na parte superior da pintura intitulada Le Portugais (Kunstmuseum, Basel) Braque imprimiu a stencil as letras BAL, e abaixo destas alguns números [...]

"como parte do desejo de chegar tão perto quanto possível de uma certa espécie de realidade, em 1911 introduzi letras nas minhas pinturas", tinha dito Braque, mas as implicações são mais extensas [...]

Le Portugais, Georges Braque, 1911.
O Fado (detalhe), José Malhoa, 1910.
Imagens: WikiArt; Wikipédia

"são formas que não poderiam ser distorcidas; porque sendo planas, as letras existiam fora do espaço e a sua presença na pintura, por contraste, permitia distinguir entre os objectos situados no espaço e os outros fora dele."

Por outras palavras, Braque efectivamente diz "a minha imagem é um objecto, uma superfície plana, e as sensações espaciais que evoca são o espaço do pintor que tem a intenção de informar e não de decepcionar." [...]

Então, em Le Portugais, as letras têm um valor puramente composicional, fornecendo uma nota terminal para um sistema de elementos horizontais ascendentes [...]

O Fado (detalhe), José Malhoa, 1910.
Le Portugais, Georges Braque, 1911.
Imagens: Wikipédia; WikiArt

Agora, a introducção de elementos de realidade, como as letras e os números impressos em Le Portugais, afirma claramente a existência material da pintura como um objecto de direito próprio [...]


Então as letras impressas em Le Portugais de Braque e as palavras ou títulos escritos sobre as suas pinturas, ou de Picasso, são em certo sentido chaves para a reconstrução do tema. Mas estas chaves ou pistas não serviram apenas para tornar a pintura mais legível; foram também elementos de realidade, que como Braque explicou, não podiam sofrer distorção pictórica. (2)


(1) John Golding, Cubism. A History And An Analysis 1907-1914
(2) John Golding, Idem

Leitura relacionada:
Daniel-Henry Kahnweiler, Rise of cubism

Outras impressões:
William Cloonan, Braque's Le Portugais and a Portuguese Nun