terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Para além do pátio da escola de Bellas-Artes

Depois, planeada a reedificação da cidade, fixou-se o novo local onde devia fazer-se a definitiva reconstrução da paróquia de S. Julião, sendo designado o chão onde estivera a antiga Igreja Patriarcal, desbaratada também pelo terremoto. e que fora antes o chamado sítio da Judiaria Nova ou Pequena. 

Lisboa, vista tomada do Largo da Academia das Belas Artes, 2017.
Imagem: Eventualmente Lisboa e o Tejo

O terreno escolhido pelos engenheiros de Pombal ficou delimitado a poente pelo largo de S. Julião, a norte pela rua do mesmo nome e do lado sul pela Rua Nova de El-Rei. 

Dirigiu as obras, o arquitecto Honorato José Correia, o mesmo que levantou a planta geral da cidade em 1785. 


Plano Geral da CIdade de Lisboa, Honorato José Correia, 1785.
Imagem: WDL

Em 1778, ainda a nova igreja, já com paredes, estava em menos de metade, assim o garante o citado frade franciscano António Sacramenco, que encerra a informação, opinando: "será preciosa, mas escura". 

Pouco tempo depois, em 1783, um relatório enviado à rainha D. Maria I deixava transparecer melhores perspectivas: "A nova Igreja está feita até à Simalha; para se acabar o que falta, segundo a avaliação dos mestres, são necessários mais de Sincoenta mil Cruzados  [...]"

Aproveitaram-se alguns materiais do demolido Convento de S. Francisco, principalmente o retábulo e as duas colunas do altar-mor, esculpidas em mármore do Tojal.

Academia de Bellas Artes e Biblioteca Pública, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

Por conter certo interesse, transcrevemos este apontamento, tomado por amor desconhecido, num canhenho manuscrito, datado de 1837: "A Estátua equestre da Praça do Commercio de Lisboa foi fundida com o bronze de um grande sino da egreja de S. Julião d'esta Cidade, o qual tinha cahido pelo Terramoto de 1755; e ainda ha memoria de um Çapateiro que estabeleceu sua loja, e trabalhava dentro deste sino."

Pela inauguração da Estatua appareceu um pasquim, que dizia:

Já Fui sino, fui badalo,
Hoje sou Rei, sou Cavallo.

Monumento a D José I, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

A tais instrumentos, de timbre mavioso, que os Anios ouvem no Céu, rendeu Júlio de Castilho [em maio de 1884] uma comovida homenagem, em verso. Aqui ficam a primeira e a última estâncias:

Não sei dizer que saudades
me acordam no coração
Aquelas vozes de prata

dos sinos de São Gião.
...

Lisboa, vista tomada do Largo da Academia das Belas Artes, 2017.
Imagem: Eventualmente Lisboa e o Tejo

Oh! campanário bendito! 
Quanto te deve a minh'alma 
ninguém o sabe, nem eu; 
mas sei que sabes falar-me 
numa linguagem do Céu; 

Pátio da Escola de Belas Artes de Lisboa, António Ramalho, 1880
(descobre-se parcialmete o cimo da torre da igreja de S. Julião).
Imagem: MNSR

e que ao vir de longes terras,
das ilhas de além do mar,
e ao subir o Tejo um dia,
debruçado na amurada,
o que eu entre tudo ouvia
era, por longe, esfumada
como as brumas da amplidão
entre o rumor da Ribeira,
e o retroar da cidade,
a voz minha companheira,
a voz toda ela saudade
a voz sabida e caseira
dos sinos de São Gião. (1)


(1) Mário Costa, A igreja de S. Julião... (II), Revista Municipal n.° 89, Lisboa, 1961

Alguma leitura relacionada:
Mário Costa, A igreja de S. Julião... (I), Revista Municipal n.° 88, Lisboa, 1961
belas-artes, ulisboa, história e fotografias

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O atelier do pátio da escola de Bellas-Artes

Nesta pequena composição [António Ramalho (1859-1916)] utiliza uma estreita faixa de casario existente no pátio do Museu da Academia de Belas-Artes, nas traseiras desta instituição.

Pátio da Escola de Belas Artes de Lisboa, António Ramalho, 1880
(descobre-se parcialmete o cimo da torre da igreja de S. Julião).
Imagem: MNSR

À esquerda, perfila-se parte da modesta construção que servia de atelier a Silva Porto (1850-1893) e que, anos mais tarde, após a morte do mestre, haveria de "herdar" [...]

Imagem: MNSR

Uma fotografia tirada no mesmo local, anos mais tarde (em baixo),  permite-nos observar como o sítio era na realidade e compreender como foi transformado na visão do pintor [...]

O pintor António Ramalho no atelier da escola de Belas Artes.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O trabalho com o pincel, em pequenas manchas, permitiu-lhe fazer sobressair o efeito visual da luz intensa sobre as velhas paredes gastas dos edifícios da cidade.

O pintor António Ramalho no atelier da escola de Belas Artes.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Esse tema assim como o da distribuição das cores complementares das portadas, definindo e harmonizando as duas metades verticais da composição, transformam-se, desta forma, no verdadeiro tema pictórico desta pequena obra.

O pintor António Ramalho à porta do atelier e a vista do pátio pintada por este em 1880.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

No entanto, não resiste a introduzir uma pequena figura humana, sentada na soleira da porta, o que vem elucidar sobre a verdadeira natureza evocativa do local e, portanto, sobre a intenção naturalista das suas preocupações. (1)


(1) Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004

Informação relacionada:
Ramalho Júnior, António Monteiro
Objectos listados em matriznet

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O grande castanheiro

A natureza que, após o século XVI, só, de Annunciaçâo para cá, começou a ser vista, em Portugal, com alguma verdade, evolucionando desde então até triumphar, por completo, em Silva Porto e nos seus companheiros e continuadores: Marques d'O1iveira, Arthur Loureiro, Ramalho. Malhoa, Vaz, Luciano Freire e Carlos Reis,

Carlos Reis no seu atelier, Joshua Benoliel.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

trouxe á arte muitos elementos caracteristicos que escapavam ao que, até ahi, era quasi exclusivo assumpto dos nossos artistas.

Carlos Reis no seu atelier, Joshua Benoliel.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A vida do campo com os seus costumes, o seu trajar ainda tradiccional e típico, e as suas figuras do interior ou da beira-mar, tão cheias de caracter e reveladoras da raça, veio dar-lhes uma mais profunda verdade e um maior conhecimento dos nossos verdadeiros elementos de constituição.

Carlos Reis no seu atelier, Joshua Benoliel.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A luz, variável com a região, a architectura dos terrenos differenciada de provincia para província, tudo isso veio enriquecer o filão em que trabalham, com coragem, os que consideram o movimento artistico de hoje como um estádio já relativamente brilhante, mas ainda passageiro, na nossa evolução artistica. (1)

O grande castanheiro ou A feira, Carlos Reis, 1910.
Imagem: MNAC


(1) Catallogo Illustrado, Exposição Nacional no Rio de Janeiro, Secção Portuguesa de Bellas Artes, Lisboa, A Editora, 1908

Leitura relacionada:
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (II), Lisboa , Livraria Ferin, 1898
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (III), Lisboa, Livraria Ferin, 1903

Carlos Reis: google search

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Obras maiores de João Pedroso Gomes da Silva (1825 - 1890)

Os principais navios desse programa [programas navais dos ministros Sá da Bandeira e Mendes Leal, a partir de 1858]: as corvetas mistas Bartolomeu Dias, Sagres e Estefânia, construídos em Inglaterra, foram todos "retratados" em pintura e em gravura, por João Pedroso. As corvetas, Duque de Palmela e Sá da Bandeira, dois dos navios desse programa, construídos no Arsenal da Marinha de Lisboa, também foram alvo da atenção do artista.

Chegada a Lisboa de S.M. Maria Pia de Sabóia, João Pedroso, 1862.
Imagem: As corvetas mistas na obra de João Pedroso, Revista da Armada

Este quadro retrata a “Chegada a Lisboa de S.M. Maria Pia de Saboia” a 5 de Outubro de 1862 duma frota portuguesa (constituída pelas corvetas Bartolomeu Dias, Sagres e Estefânia, após uma viagem realizada desde Génova em companhia de navios de guerra italianos.

Aliás, esta pintura constitui uma das três obras monumentais de João Pedroso que se encontram no Palácio da Ajuda,

Chegada a Lisboa da Rainha Dona Estefânia a bordo da corveta Bartolomeu Dias, João Pedroso, 1862.
Imagem: Revista da Armada, Agosto de 2008

As duas outras obras, igualmente de grandes dimensões têm por temas, respectivamente: "A Chegada a Lisboa da Rainha Dona Estefânia" (quadro pintado retrospectivamente) e a "Partida para França da Família Real em 1865". Nesses dois quadros são também reconhecíveis as corvetas Bartolomeu Dias, Estefânia e Sagres. 

Partida para França da Família Real, João Pedroso, 1865.
Imagem: Revista da Armada, Abril de 2014

A pintura desses três acontecimentos históricos marcantes (vulgo "pintura histórica") foi encomendada a Pedroso pelo Rei Dom Luís. O conjunto destas obras contribuiu seguramente para confortar o successo e a carreira comercial do pintor, nomeadamente nos Salões da Sociedade Promotora de Belas Artes de Lisboa, onde expunha. (1)


(1) Paulo da Silva Santos, A revolução industrial, Lisboa marítima e a Marinha de Guerra na obra de João Pedroso, 2014

Tema:
João Pedroso

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Le Portugais, Georges Braque, 1911

Braque afirmou que o tema representa um músico que tinha visto num bar em Marselha. (1)

Le Portugais, Georges Braque, 1911.
Imagem: WikiArt

Na parte superior da pintura intitulada Le Portugais (Kunstmuseum, Basel) Braque imprimiu a stencil as letras BAL, e abaixo destas alguns números [...]

"como parte do desejo de chegar tão perto quanto possível de uma certa espécie de realidade, em 1911 introduzi letras nas minhas pinturas", tinha dito Braque, mas as implicações são mais extensas [...]

Le Portugais, Georges Braque, 1911.
O Fado (detalhe), José Malhoa, 1910.
Imagens: WikiArt; Wikipédia

"são formas que não poderiam ser distorcidas; porque sendo planas, as letras existiam fora do espaço e a sua presença na pintura, por contraste, permitia distinguir entre os objectos situados no espaço e os outros fora dele."

Por outras palavras, Braque efectivamente diz "a minha imagem é um objecto, uma superfície plana, e as sensações espaciais que evoca são o espaço do pintor que tem a intenção de informar e não de decepcionar." [...]

Então, em Le Portugais, as letras têm um valor puramente composicional, fornecendo uma nota terminal para um sistema de elementos horizontais ascendentes [...]

O Fado (detalhe), José Malhoa, 1910.
Le Portugais, Georges Braque, 1911.
Imagens: Wikipédia; WikiArt

Agora, a introducção de elementos de realidade, como as letras e os números impressos em Le Portugais, afirma claramente a existência material da pintura como um objecto de direito próprio [...]


Então as letras impressas em Le Portugais de Braque e as palavras ou títulos escritos sobre as suas pinturas, ou de Picasso, são em certo sentido chaves para a reconstrução do tema. Mas estas chaves ou pistas não serviram apenas para tornar a pintura mais legível; foram também elementos de realidade, que como Braque explicou, não podiam sofrer distorção pictórica. (2)


(1) John Golding, Cubism. A History And An Analysis 1907-1914
(2) John Golding, Idem

Leitura relacionada:
Daniel-Henry Kahnweiler, Rise of cubism

Outras impressões:
William Cloonan, Braque's Le Portugais and a Portuguese Nun

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Os Joinville e A morte de Camões de Domingos Sequeira

O facto da ida do quadro para o Brazil encontra-se narrado por todos, diferindo somente a indicação de quem fez a oferta ao imperador.

Salão da princesa de Joinville no Rio de Janeiro, François d'Orléans 1843.
Ao centro da aguarela, A morte de Camões (1824), o quadro desaparecido de Domingos António de Sequeira.
Imagem: Warburg

Segundo as informações do conde de Lavradio a Raczynski, publicadas no "Dictionnaíre" de 1847 [Dictionnaire historico-artistique du Portugal pour faire suite à l'ouvrage ayant pour titre : Les arts en Portugal], Sequeira a envoyé son tableau de la mort de Camões au Bresil à l'empereur D. Pedro". O cavaleiro Migueis, genro do artista, na carta de 1846 escreve simplesmente que o quadro existia no Brazil e foi oferecido a D. Pedro I que, em sinal de reconhecimento, nomeou o autor cavaleiro da Ordem do Cruzeiro.

Estudo para a Morte de Camões, desenho de Domingos António de Sequeira (1823-1824).
Imagem: Público

Mas já o biógrafo do "Archivo píttoresco", em 1858, repetindo idênticas informações, as liga entre si e afirma, com uma latitude diferente, que o quadro existia "segundo consta, no Brazil, tendo... sido offerecido por Sequeira ao imperador... que o agraciou por esse motivo com o habito... do Cruzeiro".

Estudo para a Morte de Camões, desenho (inversão horizontal), Domingos António de Sequeira (1823-1824).
Imagem: Público

O visconde de Juromenha em 1860 expõe quasi textualmente a mesma versão e conta que "Por fallecimento de Sua Magestade, ficou [o] painel a sua filha a. . . Infanta D. Francisca, [depois] Princeza de Joinville, que o levou para França". 

A morte de Camões, esboço de Domingos António de Sequeira.
Imagem: Internet Archive

São preciosas estas informações de Juromenha para a história do quadro e constituem dados importantes para a pesquisa do locai onde se poderia encontrar actualmente [v. Obras de Luiz de Camões; precedidas de um ensaio biographico no qual se relatam alguns factos não conhecidos da sua vida, augmentadas com algumas composições ineditas do poeta, pelo visconde de Juromenha ].

A morte de Camões, esboço de Domingos António de Sequeira.
Imagem: Internet Archive

Como outras a que já me referi, suponho as fornecidas, na demorada visita que fez a Lisboa em 1859, por Manuel d'Araújo Porto-Alegre, cultíssimo diplomata e escritor brazileiro, artista erudito e competente, que tinha visto e admirado o trabalho do pintor português mostrando por êle grande interesse e que, pelas situações oficiais que ocupara no seu paiz, devia ter conhecimento das circunstâncias em que a "Morte de Camões" saíra do Brazil.

Camões e o escravo Jau,  Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879).
"Aquelle cuja lyra sonorosa / Será mais afamada que ditosa"
Imagem: Blog da Biblioteca Nacional

Também forneceu mais tarde a Sousa Holstein informações sobre os quadros de Sequeira transportados para o Rio de Janeiro na Viagem de D. João VI e que ahi se conservaram, as quaes mostram à evidência o conhecimento perfeito que o antigo professor, director da Academia de Belas-Artes e das obras dos paços imperiais daquela cidade, tinha do assunto.

Charles X distribuindo as recompensas aos artistas expositores no Salon de 1824 no Louvre,
François-Joseph Heim, 1827.
Imagem: Wikimedia

A princesa D. Francisca Carolina de Bragança, 5.a filha do imperador D. Pedro I do Brazil e de sua primeira esposa a imperatriz D. Maria Leopoldina de Áustria, casou a 1 de maio de 1843 no Rio de Janeiro com o príncipe de Joinville, Francisco Fernando [François d'Orléans], 6.° filho de Luiz Filippe de Orléans e da rainha Maria Amélia de Bourbon.

Dona Francisca de Bragança, princesa de Joinville (detalhe),
Musée de la Vie romantique, Ary Scheffer, 1844.
Imagem: The Royal Forums

É para notar que, possuindo todos os Orléans um espírito muito culto e uma grande intuição artística, herdada de sua mãe que foi discípula de Angélica Kauffmann, entre eles se distinguia Joinville, porque pintava e aguarelava com talento, era um pouco escultor e desenhava constantemente, apesar da sua vida aventurosa e movimentada.

François d'Orléans, príncipe de Joinville (detalhe).
Chateau de Versailles, Franz Xavier Winterhalter, 1843.
Imagem: REPRO TABLEAUX

O príncipe visitara pela primeira vez o Rio de Janeiro em 1838 e da segunda, antes de partir casado com a princesa D. Francisca, permaneceu algum tempo na corte, tendo demora e oportunidade para conhecer e apreciar as obras de Sequeira lá existentes.

Sua esposa, levando para França como pertença própria os "Últimos momentos de Camões", segundo as afirmações de Juromenha, conservaria depois o quadro em algum dos locais habitados por ela e seu marido. 

Os filhos de Luiz Filippe, mesmo casados, habitavam com seus pais e as respectivas famílias o palácio das Tulherias. Ás Vezes revezavam-se na residência campestre de Neuilly ou nos palácios nacionais, se é que algum não ficava temporariamente no Palais-Royal, anterior residência do duque de Orléans até á revolução de julho de 1850 que o colocou no trono, palácio que êle conservava mobilado e montado como habitação particular. 

Paris, les Tuileries le Louvre et la rue de Rivoli, Charles Fichot, c. 1850.
Imagem: Wikipédia

É histórica a vida patriarcal que levava a real família e bem conhecida a descrição da sala das Tulherias com a mesa de serão da rainha Maria Amélia, em volta da qual se sentavam todas as princesas.

Joinville, marinheiro dedicado á sua profissão, valoroso e de génio irrequieto, fazia prolongadas ausências. Promovido logo depois do seu casamento a contra-aimirante e nomeado par de França, tendo-lhe nascido os dois filhos, Francisca Maria Amélia em 14 de agosto de 1844 e Pedro Filippe, duque de Penthièvre, em 4 de novembro de 1845, já no meado deste ano assumiu o comando da esquadra de evolução, cruzou nas costas de Marrocos, bombardeou Tanger e tomou Mogador.

Mogador, l'affaire de la mosquée, François d'Orléans, 1844.
Imagem: Sotheby's

Promovido a vice-almirante e muito popular pela sua hostilidade ao ministério Guizot, a revolução de 1848 surpreendeu-o em Alger, onde estava com sua esposa servindo sob as ordens do irmão, o duque de Aumale, que era governador. 

La prise de Constantine, François d'Orléans, 1837.
Imagem: Sotheby's

No mesmo dia em que Luiz Filippe deposto desembarcava em Inglaterra, os príncipes saíam daquela cidade africana a caminho de Gibraltar, acompanhando assim o rei no seu exílio.

Habitando a princesa de Joinville com os sogros, natural é que o quadro de Sequeira, que lhe pertencia, estivesse nos aposentos do casal nas Tulherias, quando não em Neuilly, ou no Palais-Royal. Não é provável que o tivesse levado para qualquer dos outros palácios, ou para Alger.

Sequeira, (le chevalier de) rue du Faubourg-Saint-Honoré , n. 94
1564 — Sujet tiré de la vie du Camoens.
Ce grand homme, accablé par la maladie et par la plus affreuse pauvreté, etait mourant à l'hopital, lorsqu'un de ses amis vint lui annoncer la perte de la bataille d'Alcacer, la mort du roi Don Sébaslien, et celle de l'elite de la nation dans cette funeste journée, dont les suites devaient être la fin de la monarchie portugaise et de la patrie;"Au moins", s'ecrie le Camoens, se relevant sur sou lit de mort, "au moins je meurs avec elle."

Salon de la Princesse de Joinville... (detalhe).
Imagem: Warburg

Mas na revolução de 1848 a populaça, atacando e tentando incendiar as Tulherias que tomou de assalto na tarde de 24 de fevereiro, depois da fuga precipitada e desordenada da família real; ocupando-as até 6 do mez seguinte, pilhando, destruindo e conspurcando tudo quanto lá se encontrava; queimando por completo Neuilly na noite de 25 para 26, com tudo o que continha, como fez em Suresnes à magnífica "Vila" do barão Salomão de Rothschild, que estava cheia de objectos de arte e foi arrasada até aos alicerces; invadindo o Palais-Royal que roubou e destruiu á vontade; deve ter feito desaparecer para sempre a obra célebre do pintor português.

Lamartine devante a câmara de Paris rejeita a bandeira vermelha em 25 de fevereiro de 1848, Henri Philippoteaux.
Imagem: Wikipedia

Á pilhagem do Palais-Royal escaparam os quadros de Géricault "Officier de chasseurs à cheval de la garde" e "Le cuirassier blessé", que Luiz Filippe adquirira em 1824 na venda póstuma do autor e que, estando emprestados á "Association des Artistes" para uma exposição, não se encontravam casualmente na vivenda do soberano deposto e foram mais tarde, em 1851, adquiridos pelo Louvre, quando da liquidação dos seus bens privados.

Quanto ao que se passou com as obras de arte nas Tulherias, encontro nas memórias da época, escritas por lord Normanby, embaixador da Inglaterra junto á corte de Luiz Filippe e depois encarregado de tratar com os governos da revolução a que assistira e que historiou, comentando-a dia a dia, um depoimento completo, elucidativo e insuspeito, infelizmente confirmativo da minha asserção [A year of revolution. From a journal kept in Paris in 1848...]

Como se reconhece pelos extratos, nada supre a leitura destas paginas que ampliam as dos historiadores nacionais, Lamartine e Louis Bianc, modificando-lhes a natural parcialidade e constituindo a documentação mais impressionante do fim que deve ter levado o quadro de Sequeira, na posse da princesa de Joinville. O mesmo lhe terá acontecido se estava no Palais Royal; e o fogo o consumiu se acaso existia em Neuilly. 

Ainda na esperança de que tenha escapado ás contingências da revolução destruidora, por se encontrar em algum dos outros palácios ou propriedades não violadas dos Orléans (Arc-en-Barrois, Saint-Firmin, Eu, etc.), dificil é traçar-lhe a história subsequente e precisar elementos para a sua pesquisa actual. Só os próprios membros da ilustre família poderão fornecer as indicações necessárias.

Últimos momentos de Camões, Columbano, 1876.
Imagem: MatrizNet

Banidos do território da França pelo decreto de 26 de maio, foram-se juntando em Inglaterra, na residência de Claremont, os príncipes de Joinville e os duques de Nemours, de Aumale e de Montpensier. 

A duquesa viúva de Orléans, com os filhos, ficou algum tempo em Eisenach. Os duques de Montpensier pouco depois saíram de Inglaterra, estiveram na Holanda e Vieram residir para Hespanha. 

O rei faleceu em 1850. E por meados de 1852 separou se o duque de Aumale para Orléans-House, em Twickenham, que comprou a lord Kilmorey e que já de 1813 a 1815 fora residência de emigração para os pais, onde depois foi organisando um esplendido museu, hoje em Chantilly. 

"Morrer nos hospitaes em pobres leitos. Os que ao Rei e á Lei servem de muro."
Camões no leito de morte, lithographia Cupertino, 1861.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Mas o príncipe de Joinville, apesar da sua vida movimentada e aventurosa, fez sempre base de família em Claremont e a princesa aí se conservou com a sogra, suportando com estoicismo a vida difícil que lhe faziam as viagens e ausências do marido, atacado de surdez quasi completa, e depois as ao filho, duque de Penthièvre. 

Em 11 de junho de 1863 casou a filha Francisca Maria Amélia com seu primo o duque de Chartres, 2.° filho da duquesa viúva de Orléans, que também falecera em Claremont em 1858. A rainha Maria Amélia só faleceu em 1866.

Arte Gravura Morte de Camões Mort de Camoens Simon Guérin Louis Lellier BNP.jpg
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Os bens de Luiz Filippe e de sua família, liquidados em 1851, haviam sido confiscados por Luiz Napoleão em 1852 e só depois de 1870, pela lei de abrogação, que permitiu aos príncipes exilados o regresso a França, lhes fôram entregues, em consequência do Voto da Assembleia Nacional de 23 de dezembro de 1872.

O resto é história contemporânea. Apesar das leis de expulsão de 1883, a princesa de Joinville veio a falecer em 27 de março de 1898 e o marido em 16 de junho de 1900 em Paris, residindo com seu filho, o duque de Penthièvre, na Avenue d'Antin 65, ou na vivenda de Arc-en-Barrois (Haute-Marne). 

Catálogo do Salon de Paris 1824 (excerto), Domingos António de Sequeira.
Imagem: Internet Archive

Os duques de Chartres habitavam na Rue Jean Goujon 27, ou na Vivenda de Saint-Firmin perto de Chantilly. Algum dos seus herdeiros ou parentes poderá dar notícia do quadro de Sequeira, se ele escapou á revolução de 1848 e resistiu ás vicissitudes que atormentaram a vida da sua dona.

Camões doente recebe anotícia da invasão de Filipe II, Domingos Sequeira.
Imagem: Hemeroteca Digital

Sabido quanto são ilustrados os Orléans das varias gerações e como possuem, em alto grau, o sentimento artístico, não lhes terá passado desapercebido o merecimento da obra do pintor português, no caso de ainda a possuírem. (1)


(1) Luis Xavier da Costa A morte de Camões..., Lisboa, 1922

Artigos Relacionados:
Príncipe de Joinville
Domingos Sequeira, Cartuxa de Laveiras, Real Quinta, Trafaria e Cabo Espichel

Leitura relacionada:
Archivo pittoresco, 2.º Ano, n.º 12, setembro de 1858
Brito Aranha, A obra monumental de Luiz de Camões..., Lisboa, Imprensa Nacional, 1888
Visconde de Juromenha, Obras de Luiz de Camõe..., Lisboa, Imprensa Nacional, 1860
Athanase Raczynski, Dictionnaire historico-artistique du Portugal..., Paris, J. Renouard, 1847
Marquis of Normanby, A year of revolution [1848]..., London, Longman..., 1857

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Modelos mulher

(não confundir com mulheres modelo), Paris, 1884

Modelo nu Victorine Meurent, Olympia, Édouard Manet, 1863.
Imagem: WikiArt

Os modelos! Escrever-se-iam volumes sobre esta variedade sui generis da espécie humana, eterno entontar do burguês. Mas sendo-nos o lugar limitado, fechar-nos-emos no quadro modesto de um esboço.

Há modelo e modelo, como em tudo. Durante a pose, o modelo é modelo tão simplesmente, — terceiro sexo, sexo neutro, se quiserem; fora da pose, é uma individualidade qualquer. A tal mulher, que se expõe in naturalibus aos olhos dos artistas, é uma excelente mãe de familia, uma dona de casa realizada.

A tal outra que posa vestida, e não quereria, por todo o ouro do mundo inteiro, mostrar ao pintor o seu pescoço, entrega a amadores, na intimidade da alcova, os tesouros que a natureza abundantemente a dotou.

No tempo em que habitava a casa onde hoje mora o embaixador de Inglaterra, Pauline Borghèse posa nua — como o discurso de um académico — perante Canova. Ecomo uma, grande dama, das suas amigas, escandalizada com essa complacência, lhe disse: — Nua! Perante um homem! Ah! Minha cara, como pôde você?

Arte Escultura Pauline Borghèse Bonaparte en Vénus Antonio Canova.jpg
Imagem: Panorama de l'art

— Bah! Respondeu a princesa, havia um fogo!

Havia um fogo. Isto diz tudo. O modelo nu não vê nem para além nem para aquém. Passeia-se como Eva, através do atelier, aquece-se ao lume, as mãos atrás das costas, assoa-se num lenço que pende nas travessas de uma cadeira, tudo isso tranquilamente, sem prestar atenção, como vestido.

De facto, está trajado duma beleza púdica
De que a Arte foi o alfaiate.


Para ele o pintor não é um homem, não mais do que ele não é uma mulher para o pintor. Artista e modelo vivem, na actualidade da pose, num mundo ideal onde os sexos não existem e onde a matéria se revela, por assim dizer, aos olhos da alma mais do que aos olhos do corpo.

Mas se um intruso bate à porta do templo, o modelo foge assustado, escondendo-se atrás de uma cortina, — ad salices. O pudor, essa virtude que dorme em toda a mulher, acorda desde que um profano aparece.

A par dos modelos que posam o nu, há os modelos que "posam o traje". Tal está deslumbrante em Parisienne de dia, tal em Louis XIV, tal em Marie Stuart. Esta aqui posa o penteado à chinesa , à Louis XV, à Romana; aquela o chapéu; uma outra a mão, uma outra o pé, uma outra enfim os ombros, o peito, as costas, as pernas. Chega-se a que, para uma só estátua, um escultor empregue sete a oito modelos, a cada um deles a sua especialidade.

Moralmente, as especialidades, são assim também tão diversas.

Eis, para começar, o modelo sério, aquele com que casamos após um estágio, mais ou menos longo, de virtude. 

Eis o modelo sentimental que, aficcionado a uns só artistas, se reserva somente para eles, e o seu antípoda, o modelo que permanece sábio nos ateliers e, à noite, em Elysée-Montmartre, gasta alegremente o seu capital.

Eis o modelo "bom rapaz" que junta à beleza das formas um excelente carácter e todos os instintos da mulher de limpeza, limpa o pó ao atelier, acende o fogo, cose os fundilhos das cuecas.

Tal como esta grande rapariga de longos cabelos castanhos, Marie G., honesta tanto como modelo no mundo, mas que não sabe nada recusar ao artista, é a sua amante para o não vexar, a criada por economia, o seu modelo porque ela tem o necessário para isso, — não incomodativa, de uma exactidão cronométrica, chegando à hora, retirando-se ao primeiro sinal e retomando os peúgos entre duas poses.

Eis, enfim, o modelo pretensioso [parece-nos uma referência, pouco fundamentada, a Rosalie Tobia], que não vai senão aos grandes pintores, ou pelo menos aos medalhados. Aquela não posa somente, ela aconselha. Se há algum aluno no atelier do mestre, ela admoesta-o com azedume, e, se ele protesta: — Eu conheço-me, diz ela, a Virgem de Bouguereau, meu pequeno, fui eu que a posei!

Temos, no público, o preconceito do "belo modelo". Imaginamos que ele deva ser o tipo de beleza perfeita. Não é nada disso. Os pintores — assim como os escultores — prezam igualmente à perfeição das formas, a arte de posar, o savoir-faire, a elegância do gesto, a harmonia do conjunto, a profissão, numa palavra. À bela rapariga "posando como uma grua" — é o termo técnico — não há um que não prefira o velho modelo posando bem "os movimentos".

Permitam que vos apresente alguns modelos à vista.

Victorine Meurent, tipo de modelo antigo, posou para Stevens, Manet, Clairin, Gervex. Ruiva de cabelos. É tingida de literatura. Diz a cançoneta agradavelmente. 

Victorine Meurent, Le chemin de fer, Édouard Manet, 1872-73.
Imagem: Wikipedia

Existência das mais agitadas, partilhada entre os grandes ateliers e os pequenos teatros, — os Folies-Marigny foram o seu berço. Tornou-se pintora à força de frequentar os artistas. Pinta os cães das prostitutas elegantes, é a sua especialidade. Habita em Asnières, onde tem, num tapeceiro vizinho ao teatro, uma exposição permanente das suas obras.

Madame Bertha [Berthe Morisot, ela mesmo artista de mérito] uma grande mulher muito elegante. Posa vestuário nos ateliers dos pintores "parisienses" [Jean] Béraud, [Alfred] Stevens, [Jean-Louis] Forain, Robert [Rosenblum], etc. Muito "boulevardière".

Berthe Morisot com um bouquet de violetas, Édouard Manet, 1872.
Imagem: Wikipedia

Louise, uma bonita loura, grande como tudo, mas constituída como a Vénus de Milo. Plena de graças — com algumas virtudes.

Emma [Dupont], modelo sábia, encontra as suas poses ela própria; posa neste momente em casa de Gérôme.

Emma (collection madame Emma Dupont), estudo de Jean-León Gérôme, c. 1876.
Imagem: Marc Verat

Fernande [não confundir com Fernande Olivier (1881-1966)], como Victorine, tipo de modelo antigo. Não posa mais do que raramente, mas mostra-se ainda nos ateliers. Frequenta uma cervejaria da rua [Pierre] Fontaine. Tem o seu museu, rua Lepic. Quase todos os modelos têm o seu museu. Qual o pintor que recusaria um esquisso, um croqui, à bela rapariga que a ele se mostrou, durante várias horas, fora de todos os seus véus?

Anna! Chorem, meus olhos, deitou no casamento, a soberba criatura com a sua tez de bistro, os seus grandes olhos negros e a a sua admirável correcção de traços! Mas ela tinha um vício, uma serpente sob essas flores, ela estava quase sempre numa situação interessante. 

Então, adeus à pose! Durante os entre actos, ela servia nas cervejarias do Quartier Latin, na Sherry-Gobler, entre outras, esse "bouchon" minusculo, hoje desaparecido, cuja história faria "pendant" ao Roman comique, e de onde partiram todos os "jovens" desse tempo, Richepin, Maupassant, Paul Bourget, Catulle Mendès, Villiers de l'Isle-Adam, Bouchor, Moynet, Sapeck, etc.

Um dia que Anna tremia de febre, o ilustre Sapeck tomou-se de piedade, levou-a para o sol, tratou-a, curou-a e, por excesso de originalidade, esqueceu-se de a fazer sua amante. Anna regressa a Paris.

Um poeta instala-a como florista, rua de Amsterdam; faz negócios lamentáveis e torna-se modelo. Ei-la, agora, esposa e mãe. Chorem, meus olhos!

Existe, entre as modelos do bairro de Montparnasse e as da avenida de Villiers, um eterno antagonismo, que degenera por vezes em brigas de arranhar a cara e arrancar os cabelos. E é fácil de entender. Lá em baixo, no Luxembourg, é a primeira etapa, frequentemente cruel; aqui, no parque Monceau, é o apogeu. 

Modelo nu Victorine Meurent, Déjeuner sur l'herbe, Édouard Manet, 1863.
Imagem: WikiArt

É aí que encontramos uma multidão de gente muito bem, amadores apaixonados dos quadros, que nem sempre se contentam com a cópia, e se anexam por vezes ao original. E qual o modelo que não acarinhou esse sonho!

Moralidade: — não há! (1)


(1) Parisis (Emile Blavet),  La Vie parisienne..., Paris, L. Boulanger et P. Ollendorff, 1885-1890


Informação relacionada:
Ellen Andrée. Modèle à Montmartre. (Manet, Degas, Renoir...)
Quando pittore fai rima con amore

Informação adicional:
Catalogue illustré du Salon [de Paris]... (28 numéros disponibles, 1879-1907)
Salon des Refusés (1863)
Société anonyme des artistes peintres, sculpteurs et graveurs (1874-1886)
Salon des indépendants (depuis 1884)

Leitura adicional:
Dictionary of Artists' Models
Charles Virmaître, Portraits pittoresques de Paris