quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A banhos no Tejo, a Deusa dos Mares

A faculdade portuguesa recomenda os banhos para todos os casos de queixas e males. Os homens despem-se na parte de vante do barco, vestem calções que vão abaixo do joelho e cobrem-se com um casaco comprido, antes de se sentarem na amurada do barco para entrarem dentro de água. Quando as senhoras anunciam que estão prontas eles ajudam-nas a entrar no rio, pegando-lhes nas mãos enquanto elas descem pelas pequenas escadas. Depois, entre gritos e chapinhadas, o divertimento é geral. Uma piada comum, conta que uma senhora atarracada e gorda, uma visão habitual, quase ia virando o barco quando descia.

Banhos no Tejo, A.P.D.G., Sketches of Portuguese life (...).
Imagem: Internet Archive

Quando os barcos do banho são numerosos, ao longo da praia, não raramente vi o Regimento de Cavalaria de Alcântara receber ordem de tomar banho. Então, é vê-los entrar na água, e completamente despidos com os seus  cavalos, nadar por entre os banhistas, causando-lhes o maior desconforto [...] (1)

Regimento de Cavalaria de Alcântara, William Beckford, 1808-1809.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O Administrador dos banhos da barca do Hiate, que está defronte do Caes das Columnas, participa ao público que de manhã os banhos de 200 réis, são de 180 réis, e os de 160 réis são de 120 réis, e de tarde depois da 5 horas, são de 40 réis de menos por cada banho, sem que seja necessário esperar por companheiro para entrar no banho. 

A barca tem para melhor cómodo do público dois botes com os seus letreiros que dizem = Bote da barca dos banhos = Além destas commodidades, e de outras, que na barca se saberão, haverá bebidas e comer de todas as qualidades, por preços cómmodos. (2)

No dia 15 do corrente mez se põem a barca dos banhos, contruida sobre o hiate, defronte do Terreiro do Paço; reformada de banhos e com nova construcção para receberem toda a força da corrente. (3)

Vista do Tejo e da Praça do Comércio em 1848, gravura em madeira fotografada por Bárcia (AML).
Imagem: O cais da Praça do Comércio e as suas colunas...

De toda a parte podiam partir botes e vapores que cruzassem entre os logares de recreio, onde houvesse hoteis, e restaurantes, onde pululassem a vida, a alegria, e os folguedos.

Em vez do concurso festivo de barcos empavezados, de chalupas casquilhadas e de vapores emplumados de fumo, de musicas e de orchestras casando os seus rithmos e melopéas com o marulhar das vagas; em vez dos mil rumores. de uma grande cidade a condensaram-se por algumas horas ua amplidão magestosa e poética de um dos rios mais soberbos da Europa, estamos condemnados ao supplicio de contemplar diariamente no meio das aguas azuladas do rio, que corre entre areias de ouro os estafermos fluctuantes da "Deusa dos Mares e da Flor do Tejo"!

Deusa dos mares, barca dos banhos no rio Tejo.
Imagem: Lisboa de Antigamente

Como aquelles abrutados cetáceos de pau carunchoso ostentam com a indifferençá e o egoismo da decrepidez a sua crusta encorreada, vaidosos do acolherem dentro de si tantas formosuras femininas, — que ali correm a banhar-se dentro de cells soturnas, escondidas sob o velho cavername e copiadas das penitenciárias primitivas — Amphitrites prosaicas, que parecem tripudiar naquelles churriões immoveís de Neptuno, entre algas e alforrecas!

Nas manhãs de verão e de outomno é uma dôr d'alma contemplar as gentis caravanas,que demandam aquellas regiões sinistras, fragmentos desprendidos do "Inferno" do Dante. Tanta lida, tantas fadigas, para alcançarem o phantasma fugitivo de um banho tomado no fundo de um antro fluctuante, visitado a miúdo pela onda impura das matérias organicas, que se espanejam na corrente! Que ironia de banhos hygienicos infligida a uma povoação inteira, no bôjo d'aquellas presigangas, que são, em pleno Tejo, um arremedo das prisões marmertinas, ou dos Chambos de Veneza.

Black Horse Square (Praça do Comércio), T. W. Langton, década de 1870.
Imagem: Baixa Pombalina 250 years of images

Mas a illusão dos banhos, em taes condições, não é senão a parodia da illusão campestre que desvaira a muita gente, que emigra da cidade para buscar e gozar o campo onde não ha d'elle o menor ves- tígio! A não serem os oásis verdejantes de Cintra e de Bellas, onde ha aguas frias e crystalinas, som- bras e espessuras de arvores e de mattos, a maior parte dos retiros aldeãos correm o grave perigo de se parecerem com uma charneca árida e nua de vegetação.


Praça do Commercio vista do Tejo (fotografia de Eduardo Portugal), ed. Costa 773, c. 1900.
Imagem: Delcampe

É um campo conjectural, difficil de adivinhar-se, o que se espalha em redor da cidade. Exigem grande dispêndio de imaginação os prados e os arvoredos que não avista o olhar mais perscrutador. Apezar d'isso, os omnibus e as carruagens andam numa roda viva, atarefados no empenho de trazerem e levarem passageiros, cheios de calma e de poeira, que se incumbem benevolamente de acolher no fato e nos cabellos a caliça do mac-adam da estrada! E cháma-se a isto estar no campo! e todas estas fadigas de viaçao attrahem como outras tantas sereias os que só vêem na cidade um brazeiro ardente, um oceano de poeira! Mas quem nos salva senão a fé? (4)

(1) A.P.D.G., Sketches of portuguese life, manners, costume and character, London, Geo. B. Wittaker, 1826
(2) Gazeta de Lisboa, 22 de julho de 1809
(3) Gazeta de Lisboa, 13 de julo de 1810
(4) Visconde de Benalcanfor, Diário Illustrado, 31 de julho de 1874

Leitura relacionada:
Lisboa de Antigamente
Alexandra de Carvalho Antunes, O cais da Praça do Comércio e as suas colunas...
Mariana J. Pimentel Pires, Água e luz — o imaginário dos banhos
A. Vieira da Silva, Barcas de banhos do Tejo

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Vista de Lisboa, panorama de Barker

De facto, quando descrevia Lisboa vista do outro lado do rio em dezembro de 1812, o Major Augustus Frazer da "Royal Horse artillery" tinha explicitamente Henry Aston Barker na ideia: "O dia estava lindo, o cenário talvez o mais belo do mundo. O castelo de Almada foi o lugar a partir do qual o Panorama de Barker foi tirado." (1)

Lisbon from Fort Almeida Almada, Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden.
Imagem: Cesar Ojeda

Como, a começar a nossa próxima viagem, deveremos deixar Lisboa, sem a perspectiva de aí regressar, olhando um pouco por nós, se possível, sem negligenciar algo que possa merecer uma visita;

rapidamente nos ocorreu o morro de Almada, oposto a Lisboa, até então não nos tinha atraído subir o íngreme declive, e do seu cimo olhar a capital de Portugal, a partir dessa vantajosa posição, sendo que aí uma parte dessa cidade pode ser abrangida com uma simples passagem do olhar, mais do que em qualquer outro lugar:

Historical military picturesque..., George Landmann, View up the Tejo.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

tendo perdido tantas oportunidades como perdemos para nos oferecer esta vista altamente gratificante, teria sido verdadeiramente imperdoavel, não fosse o termos propositadamente deixado esta delícia para depois.

Historical military picturesque..., George Landmann, Lisboa, or Lisbon, the capital of Portugal.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Uma viagem a Almada não necessita preparação, exceptuando um cesto com comida, para saborear à sombra de uma laranjeira próxima das margens do rio. Contudo, alugámos um pequeno barco, para nos levar até à vila de Almada, oposta à parte ocidental de Lisboa... enquanto a cadeia de colinas da outra banda, o Almaraz, se estende na direcção da entrada do Tejo até se defrontar com a velha Torre de Belém.

Historical military picturesque..., George Landmann, Mouth of the Tagus.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Infindavel seria tentar descrever a multitude de aspectos que o semicírculo a norte apresenta; mas uma vista panorâmica, desenhada com muito cuidado a partir do original de Mr. Baker, que muito atenciosamente a cedeu ao autor com esse propósito, se apresenta [...]

O original foi desenhado por Mr. Barker [Henry Aston Barker (1774–1856)], a partir do qual pintou o seu muito admirado e correctamente fiel Panorama que exibiu no Strand em Londres [Barker's Leicester Square exhibitions]: 

Historical military picturesque..., George Landmann segundo Henry Aston Barker, Panorâmica de Lisboa e do Tejo.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

a gravura para este trabalho compreende a vista desde a Cidadela de Cascais, o ponto mais distante à esquerda, até ao extremo ocidental que é possível avistar desde a colina de Almada; 

Cross-section of the Rotunda in Leicester Square in which the panorama of London was exhibited (1801).
Imagem: TATE

ás pessoas que podem ter tido a boa sorte de ver o Panorama, esta gravura não conseguirá dar o justo sentido à extensão da beleza desta cena;

Robert Barker’s Leicester Square Panorama.
Imagem: The Regency Redingote

todavia espera-se que a tentativa de adicionar esta informação não se revele infrutífera: ver as gravuras intitulados: Mouth of the Tagus, Lisboa, or Lisbon, the capital of Portugal, e View up the Tejo. [cf. Capítulo XLIII. Uma viagem a Almada, Vista de Lisboa, as colinas fortificadas, e o  Castelo de Almada (...)] (2)


(1) Gavin Daly, The British Soldier in the Peninsular War..., 1808–1814
(2) George Landmann, Historical, military, and picturesque observations on Portugal..., 1818

Alguma leitura adicional:
Harry Sutherland, Adventures with the Connaught Rangers, 1809-1814
John Kincaid, Adventures in the Rifle Brigade, in the Peninsula... from 1809 to 1815

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Henri l'Évêque (1769-1832)

No primeiro plano, grupos de populares, no seu dia a dia quotidiano, na praia de Belém ou "Restello", vendo-se à esquerda, um barco na descarga de lenha; ao centro uma "barraca de comidas e vinho" com vários comensais sentados à mesa, sob os olhares dum mendigo e dum Andador de Almas. 

À direita, o grandioso convento " manuelino" dos Jerónimos e Igreja de St.a Maria de Belém (inícios do séc. XVII ainda com o coroamento, em pirâmide, seiscentista da torre. 

Em plano mais recuado, várias construções hoje desaparecidas, destacando-se, junto da praia, o palácio que foi dos Marqueses de Marialva e já esbatida no horizonte, a Torre de Belém.

Henri L'Évêque, Vista do Convento de Sto Jerónimo de Belém e da Barra de Lisboa.
Imagem: ComJeitoeArte

A estampa representa a Rua Direita da Junqueira vendo-se: em primeiro plano, grupos de populares, entre os quais um "grupo de galegos dançando e tocando" e um barco em processo de descarga; em segundo plano, o palácio dos inícios do séc. XVIII, conhecido por palácio dos Patriarcas, residência dos Cardeais Patriarcas de Lisboa, depois do terramoto, mais tarde comprado por Henri Burnay, posteriormente 1.° conde do mesmo nome que nele fez obras profundas, transformando-o numa luxuosa residência dos finais do séc. XIX.  Hoje é sede do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. 

No mesmo alinhamento, mas mais recuado o palácio dos condes e depois Marqueses da Ribeira Grande, também do começo do séc. XVIII, onde nasceu viveu e morreu D. João Gonçalves Zarco da Câmara, filho do 1.° Marquês da Ribeira Grande, grande dramaturgo português. Foi depois comprado pelo Estado que nele instalou ultimamente o liceu da Rainha D. Amélia. 

No meio da praia, o Forte de S. João da Junqueira, que no tempo do rei D. José foi convertido em prisão do Estado.

Henri L'Évêque, Vista da Cidade de Lisboa tomada da Junqueira.
Imagem: ComJeitoeArte

Pintor e gravador de origem suíça [Henri l'Évêque], nascido em Génova, [Genève, pt. Genebra] casando em Inglaterra, onde fixou residência. Fez várias viagens a Portugal, tendo aqui estado nos finais do séc. XVIII e, mais tarde, incorporado no exército anglo-português durante a Guerra Peninsular.

Escreveu sobre o nosso pais a obra "Costume Of Portugal", espécie de album ilustrado com 50 água-tintas sobre tipos portugueses. É também autor de óleos e gouaches fixando costumes e aspectos populares, feiras, etc. (1)

Nascido em Genebra, Henri l'Évêque, como Delerive, percorreu a Europa após a revolução francesa para representar as consequências políticas e militares e as revoluções que estavam acontecendo na Europa, especialmente depois que Napoleão começou as suas primeiras campanhas (2).

Henry L'Évêque, Episódio das Guerras Peninsulares.
Imagem: Veritas Art Auctioners

Campaigns of the British army in Portugal under the command of general the marquis of Wellington

Marechal de Campo Arthur [Wellesley] Duque de Wellington. Duque da Ciudad Rodrigo em Espanha. Duque da Victória em Portugal etc .

Field Marshal Arthur Duke of Wellington etc.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 1: A chegada do exército britânico ao Mondego [Lavos, Figueira da Foz, de 1 a 5 de agosto de 1808]

The Landing of the British Army at Mondego.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Gravura 2: O ataque aos corpos franceses comandados pelo general Laborde [Delaborde] em 17 de agosto de 1808

The attack on the French corps commanded by Gen. Laborde on the 17th of August 1808.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 3: Batalha do Vimeiro [21 de agosto de 1808]

Battle of Vimieiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 4: O embarque do general Junot, após a Convenção de Sintra [31 de agosto de 1808], no cais do Sodré [15 de setembro de 1808]

The Embarcation of Gen. Junot after the convention of Cintra at Quai Sodre.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 5: O ataque à fortaleza do Grijó em 11 de maio de 1809

The attack on the Strong Fort of Grijo, on the 11th May 1809.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 6: Travessia do Douro [12 de maio de 1809]

Passage of the Douro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 7: Travessia do Douro [Avintes, 12 de maio de 1809]

Passage of the Douro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
Gravura 8: Ponte de Nodin [sobre o rio Ave, retirada de Soult, maio de 1809]

Bridge of Nodin.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 9: O ataque da retaguarda francesa em Salamonde

The attack of the Rear Guard of French at Salamonde.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 10: A ponte de Saltadouro [retirada de Soult, 16 de maio de 1809]

Campaigns of the British Army H l Eveque 10 The Bridge of Saltador 03
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Gravura 11: Vista da ponte da Misarela, a cerca de três léguas de Salamonde [retirada de Soult, 16 de maio de 1809]

A view of the Bridge of Miserere, about three leagues from Salamonde.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 12: A batalha de Talavera [27 e 28 de julho de 1809]

The Battle of Talavera.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 13: A batalha do Bussaco [27 de setembro de 1810]

The Battle of Bussaco.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Grav. 14: Uma vista tomada no Tejo [margem esquerda] perto de Vila Franca que mostra uma parte das linhas inglesas

A view taken on the Tagus near Villa Franca which shows a part of the British Lines.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 15: O cerco de Badajoz [6 e 7 de abril de 1812]

The siege of Badajos.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 16: A batalha de Salamanca [22 de julho de 1812]

The Battle of Salamanca.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A batalha da Vitória [21 de junho de 1813]

Adicionar legenda
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A partida de Sua Magestade o Príncipe Regente de portugal para o Brasil [27 de novembro de 1807]

Departure of H.R.H. the Prince Regent of Portugal for the Brazils, Henry L Evêque, F. Bartollozzi.
(Campaigns of the British Army in Portugal, London, 1812)
Imagem: Wikipédia

Esboço da acção perto de Vigia de la Barrosa [ou Barossa] (3)

Sketch of the Action near the Vigia de la Barrosa.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


(1) Lisboa: tipos, ambiente, modos de vida, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade: exposição iconográfica, Junho/Julho 1978 - 1979, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1979. 298 p.
(2) Veritas Art Auctioners
(3) Biblioteca Nacional de Portugal




Publicações:
L'Évêque, Henri (1769-1832), Campaigns of th
Wellington
, London, Colnaghi and E. Lloyd, 1813

L'Évêque, Henri (1769-1832), Costume of Portugal, London, Colnaghi and E. Lloyd, 1814

Referências:
Henri l'Évêque (google search)
Henri l'Évêque (1755-1818) também conhecido como [aka]: Henry l'Évêque,
Henrique L'Evêque, L'Evêque etc.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Nicolas Delerive (1755-1818)

Pescadores fazendo comida na praia, effeito de luar. Pintado sobre cartão, escola franceza moderna [...] (1)

Nicolas Delerive (1755-1818), Paisagem, efeito de luar.
Imagem: J. Andrade

Descendia de antigos Hespanhoes, que se estabelecêrão em Lilla [Lille], aonde elle nasceo em 1755. Alli mesmo começou a estudar a Arte com Heinsius retratista Alemão, desenhando o nú na Academia; mas em 76 desejando melhores estudos sahio da Patria, e esteve dous annos, em Artois com o Conde de Neuville, cançou-se pouco julgando-se, dizia elle mesmo, bastante sábio, mas quando chegou á Paris fez de si bem diverso conceito. 

Tendo-se inclinado ao genero das batalhas, e ao das bambochatas, frequentou a escóla de Casanova, Pintor Italiano destes Objectos, e sahia ás praças, e aos campos a desenhar, e a pintar arvores, animaes, paizanos, etc: 

e Luiz Wateau Director da Academia de Lilla (Primo do famoso Antonio Wateau), o recebeu como Academico de merito em composições de combates: casou, e esteve alli até á revoluçâo de 1790 [1789].

Nicolas-Louis-Albert Delerive (Lille 1755-1818 Lisbon).
Imagem: invaluable

Em 92 veio a Lisboa donde 5 annos depois voltou a Hespanha, deixando cá a mulher; alli retratou em corpos inteiros, o Duque del Infantado, e a Marqueza de Santa Cruz, que pintava com magisterio, e protegia efficazmente os Artistas. Tornou a esta Côrte em 1800.

Delerive, A Feira das Bestas (à esquerda o Passeio Público, Conv. da Encarnação e S. Luís dos Franceses), 1792.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Retratou o Principe Regente em meio, e inteiro corpo. Tres annos depois, por intervenção de João Diogo de Barros, obteve huma pensão he 600$ réis para pintar no Picadeiro Regio todos os objectos de picaria [painéis da sanca].

Museu Nacional dos Coches no antigo Picadeiro Real. Aspecto geral da sanca, painéis com pinturas de Delerive.
Imagem: congeladas no tempo

Retratou ElRei em grande a cavallo, mas o seu talento proprio era para cousas pequenas. 

Em 1809 comprou na feira por quatro moedas huma taboa da Annunciação de Pintor Portuguez antigo, imitador de Gaspar Dias. Não se sabe como este quadro passou por hum Rafael, he certo porém que hum General Inglez lhe deo por elle o equivalente de 20$ cruzados.

Nicolas Delerive: The Comte de Noviron Governor of Lisbon; Mr Petrie Commissary of Accounts; Senhor Setar, Portugese Commissary; General Brigadier general Leighton.
Imagem: the saleroom

Morreo em Lisboa em Junho de 1818. (2) 

O quadro [de Nicolas Delerive] que retrata a Feira da Ladra na Praça da Alegria será então datável de entre 1809 (introdução da feira naquela localização) a 1818 (morte do pintor). Esta pintura pertenceu aoVisconde de Chanceleiros, passando depois para a propriedade do Conde dos Olivais e Penha Longa.

Lisboa, Feira da Ladra na Praça da Alegria, Nicolas Delarive, aspecto na década de 1810.
Imagem: MNAA

Foi adquirido pelo Museu Nacional de Arte Antiga em 1931 a E. H. Moser. Esta pintura dá-nos, no entanto, um precioso testemunho da fisionomia da Praça da Alegriado início do século XIX. Nela podemos ver as várias tipologias de edifícios que ali coabitavam.

Em primeiro lugar, temos um prédio pombalino, à esquerda no quadro, feito de acordo comos desenhos fornecidos pela Inspecção-geral do Plano para a Reedificação da Cidade e talcomo é referido pela documentação que revelámos. Os prédios pombalinos na Praça da Alegria foram projectados com lojas no rés-do-chão, habitação no primeiro piso e nas águas furtadas.

Cada prédio devia ter entre seis e sete janelas no piso superior. No prédio representado no quadro foi acrescentado um terceiro piso, permitido pela quedade Pombal (1777) e consequência perda de importância da Inspecção-geral do Plano para a Reedificação da Cidade.

Esta substituição das mansardas originais por um novo piso aconteceu também na Baixa na década de 1780 e início de 1790. É provável que a alteração neste prédio da Praça da Alegria fosse coincidente com esse período.

Nicolas Delerive, Mercado da Praça da Figueira.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A segunda tipologia que se encontra retratada no quadro de Nicolas Delerive são asbarracas construídas ilegalmente pelos lisboetas que não tinham posses para arrendar um andar. 

Estão fronteiras ao prédio pombalino e apresentam apenas um piso térreo, sendo construídas com madeiras de forma desorganizada e desconexa.

Finalmente, a terceira tipologia é aquela na qual se insere o Palácio Azul. Trata-se de umedifício projectado com um alçado mais monumental que o anónimo prédio pombalino, prevendo de origem um terceiro piso, com molduras de pedra decoradas e animação na fachada comparamentos recuados.

É um edifício que se assume como um palácio numa zona destinada àpequena burguesia, algo que ia contra os ditames de Pombal que impunha o nivelamento arquitectónico e funcional dos novos bairros lisboetas.

As igrejas, palácios e conventos sequisessem permanecer nos bairros pombalinos teriam de passar despercebidos pelo exterior. A própria cor da fachada, que lhe concedeu o nome pelo qual ficou conhecido (porque era casoúnico em Lisboa), também pretendia ser um manifesto contra o ocre obrigatório das casas pombalinas.

Nicolas Delerive, Vista de Lisboa 1797.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O Palácio Azul ainda hoje existe, estando nele instalada a Esquadra de Polícia da Praça daAlegria. Este imóvel foi construído em 1796 por D. Álvaro de Távora, conde de São Miguel, que casou com D. Luísa de Pilar e Noronha, filha dos condes dos Arcos.

Em 1832 foi quartel do Estado Maior General e no ano seguinte sede dos Conselhos da Guerra. Em 1840, o palácio pertencia ao Barão de Almeirim, pai de Anselmo Braamcamp Freire que aí nasceu em 1845. (2)

Nicolas Delerive, algumas cenas de actividades e género: o feirante, o peditório para a sopa dos presos, o sapateiro e o barbeiro.
Imagem: artnet & the saleroom

Nicolas Delerive salienta-se como um excelente retratista da sociedade e dos costumes lisboetas como comprovam uma série de pequenos quadros sobre madeira representando algumas actividades oficinais e profissões como por exemplo "a assadora de castanhas" (inv.675/1), "o padeiro" (inv.675/2), "o amolador" (inv.776), "o garrafeiro" (inv.777) e "o feirante do mondi nuovi" (inv.788). (3)

Nicolas Delerive, algumas cenas de actividades e género: a assadora de castanhas, a lanterna mágica, vendedor de vinho e frades num bordel.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa & the saleroom

Esta pintura [Embarque de D. João, Principe Regente de Portugal, para o Brasil em 27 Novembro 1807] está directamente relacionada com uma gravura de Francesco Bartolozzi (Arquivo Histórico-Militar), segundo desenho de Henri l' Evêque, intitulada "L' Embarquement du Prince Regent de Portugal au Quai de Belem, avec toute la Famille Royale, le 27 Novembre 1807 a 11 heures du Matin".

Nicolas Delarive, Embarque [partida, fuga] de D. João, Principe Regente de Portugal, para o Brasil em 27 Novembro 1807.
Imagem: Não foi no grito

Desta última conhecem-se tanto as provas originais como a composição final, posterior à alteração da chapa. As primeiras, não assinadas e legendadas em francês, fazem parte dos espólios da Biblioteca Nacional de Lisboa, Gabinete de Estudos Olisiponenses e Museu Nacional de Arte Antiga.

Embarque do principe regente de Portugal com toda a Familia Real em 27 de novembro às 11 horas da manhã [1807],
des. Henri L' Évêque (1769-1832), grav. Francesco Bartolozzi (1728-1815).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Passada a litografia e já com a legenda traduzida para português, existem vários exemplares desta gravura, assinadas por Constantino de Fontes e pelos indecifráveis "D." e "NC". Quanto à ligação entre a citada gravura e o quadro do M.N.C.  as opiniões divergem, havendo autores que preconizam a anterioridade da obra pictórica (Augusto Cardoso Pinto), enquanto outros - caso de S. Herstal - defendem a tese oposta, segundo a qual a pintura a óleo seria uma réplica fiel da obra de Bartolozzi.

S. A. R. o Principe Regente de Portugal e toda a Familia Real, embarcando p.a o Brazil no Cáes de Belem,
Henri L' Évêque
(1769-1832), Francesco Bartolozzi (1728-1815).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Este último avança ainda a hipótese de a tela atribuída a Nicolas Delerive ser um estudo preparatório para um outro quadro a óleo, anónimo, pertencente ao Palácio Itamaraty, Brasil.

Para além do quadro em apreço, subordinadas ao mesmo tema existem outras telas igualmente atribuídas ao pintor francês, que integram as colecções do Museu de Artes Decorativas da Fundação Ricardo do Espírito Santo e Silva, Lisboa, e do Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro, sendo esta uma mera ampliação da primeira. Cite-se ainda uma quarta reprodução anónima, de acentuado cariz popular, pertencente à colecção da José Mariano de Camargo Aranha. 

Departure of H.R.H. the Prince Regent of Portugal for the Brazils, Henry L Evêque, F. Bartollozzi.
(Campaigns of the British Army in Portugal, London, 1812)
Imagem: Wikipédia

A profusão de obras alusivas à partida da Família Real para o Brasil deve ser entendida à luz dos acontecimentos da época, quando a "fuga" era ainda entendida como uma excelente estratégia nacional pois, caso a metrópole fosse loteada pelo invasor francês, poderia sobreviver do outro lado do Atlântico.

Embarque da Família Real Portuguesa para o Brasil.jpg
Imagem: Estórias da História

Do Príncipe Regente — figura querida do povo, agora elevada à categoria de herói — e da restante Família, todos queriam guardar uma grata recordação em vésperas das invasões napoleónicas, marco efectivo da abertura de um novo século.

Nicolas Delerive, Retrato equestre de D. João VI, entre 1803 e 1807.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

O quadro [Embarque de D. João, Principe Regente de Portugal, para o Brasil em 27 Novembro 1807] do M.N.C. [Museu Nacional dos Coches] foi depositado no Museu das Janelas Verdes [Museu Nacional de Arte Antiga] em 1935, tendo sido devolvido ao local de proveniência em data incerta. (4)


(1) A dispersão dos quadros da herança do rei D. Fernando [ref. 90]
(2) Cirilo Volkmar Machado, Collecção de memórias, relativas às vidas dos pintores, e escultores, architetos, e gravadores portuguezes, e dos estrangeiros, que estiverão em Portugal..., pág. 224, Lisboa, Victorino Rodrigues da Silva, 1823
(3) João Miguel Simões, A Casa das Varandas da Praça da Alegria
(4) Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva
(5) MatrizNet



Referências:
Nicolas Delerive (google search)
Nicolas Delerive (1755-1818) também conhecido como [aka]: Nicolas-Louis-Albert Delerive, Nicolas Delérive, Nicoláo Luiz Alberto de La Riva, Delarive etc.