sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Modelos mulher

(não confundir com mulheres modelo), Paris, 1884

Modelo nu Victorine Meurent, Olympia, Édouard Manet, 1863.
Imagem: WikiArt

Os modelos! Escrever-se-iam volumes sobre esta variedade sui generis da espécie humana, eterno entontar do burguês. Mas sendo-nos o lugar limitado, fechar-nos-emos no quadro modesto de um esboço.

Há modelo e modelo, como em tudo. Durante a pose, o modelo é modelo tão simplesmente, — terceiro sexo, sexo neutro, se quiserem; fora da pose, é uma individualidade qualquer. A tal mulher, que se expõe in naturalibus aos olhos dos artistas, é uma excelente mãe de familia, uma dona de casa realizada.

A tal outra que posa vestida, e não quereria, por todo o ouro do mundo inteiro, mostrar ao pintor o seu pescoço, entrega a amadores, na intimidade da alcova, os tesouros que a natureza abundantemente a dotou.

No tempo em que habitava a casa onde hoje mora o embaixador de Inglaterra, Pauline Borghèse posa nua — como o discurso de um académico — perante Canova. Ecomo uma, grande dama, das suas amigas, escandalizada com essa complacência, lhe disse: — Nua! Perante um homem! Ah! Minha cara, como pôde você?

Arte Escultura Pauline Borghèse Bonaparte en Vénus Antonio Canova.jpg
Imagem: Panorama de l'art

— Bah! Respondeu a princesa, havia um fogo!

Havia um fogo. Isto diz tudo. O modelo nu não vê nem para além nem para aquém. Passeia-se como Eva, através do atelier, aquece-se ao lume, as mãos atrás das costas, assoa-se num lenço que pende nas travessas de uma cadeira, tudo isso tranquilamente, sem prestar atenção, como vestido.

De facto, está trajado duma beleza púdica
De que a Arte foi o alfaiate.


Para ele o pintor não é um homem, não mais do que ele não é uma mulher para o pintor. Artista e modelo vivem, na actualidade da pose, num mundo ideal onde os sexos não existem e onde a matéria se revela, por assim dizer, aos olhos da alma mais do que aos olhos do corpo.

Mas se um intruso bate à porta do templo, o modelo foge assustado, escondendo-se atrás de uma cortina, — ad salices. O pudor, essa virtude que dorme em toda a mulher, acorda desde que um profano aparece.

A par dos modelos que posam o nu, há os modelos que "posam o traje". Tal está deslumbrante em Parisienne de dia, tal em Louis XIV, tal em Marie Stuart. Esta aqui posa o penteado à chinesa , à Louis XV, à Romana; aquela o chapéu; uma outra a mão, uma outra o pé, uma outra enfim os ombros, o peito, as costas, as pernas. Chega-se a que, para uma só estátua, um escultor empregue sete a oito modelos, a cada um deles a sua especialidade.

Moralmente, as especialidades, são assim também tão diversas.

Eis, para começar, o modelo sério, aquele com que casamos após um estágio, mais ou menos longo, de virtude. 

Eis o modelo sentimental que, aficcionado a uns só artistas, se reserva somente para eles, e o seu antípoda, o modelo que permanece sábio nos ateliers e, à noite, em Elysée-Montmartre, gasta alegremente o seu capital.

Eis o modelo "bom rapaz" que junta à beleza das formas um excelente carácter e todos os instintos da mulher de limpeza, limpa o pó ao atelier, acende o fogo, cose os fundilhos das cuecas.

Tal como esta grande rapariga de longos cabelos castanhos, Marie G., honesta tanto como modelo no mundo, mas que não sabe nada recusar ao artista, é a sua amante para o não vexar, a criada por economia, o seu modelo porque ela tem o necessário para isso, — não incomodativa, de uma exactidão cronométrica, chegando à hora, retirando-se ao primeiro sinal e retomando os peúgos entre duas poses.

Eis, enfim, o modelo pretensioso [parece-nos uma referência, pouco fundamentada, a Rosalie Tobia], que não vai senão aos grandes pintores, ou pelo menos aos medalhados. Aquela não posa somente, ela aconselha. Se há algum aluno no atelier do mestre, ela admoesta-o com azedume, e, se ele protesta: — Eu conheço-me, diz ela, a Virgem de Bouguereau, meu pequeno, fui eu que a posei!

Temos, no público, o preconceito do "belo modelo". Imaginamos que ele deva ser o tipo de beleza perfeita. Não é nada disso. Os pintores — assim como os escultores — prezam igualmente à perfeição das formas, a arte de posar, o savoir-faire, a elegância do gesto, a harmonia do conjunto, a profissão, numa palavra. À bela rapariga "posando como uma grua" — é o termo técnico — não há um que não prefira o velho modelo posando bem "os movimentos".

Permitam que vos apresente alguns modelos à vista.

Victorine Meurent, tipo de modelo antigo, posou para Stevens, Manet, Clairin, Gervex. Ruiva de cabelos. É tingida de literatura. Diz a cançoneta agradavelmente. 

Victorine Meurent, Le chemin de fer, Édouard Manet, 1872-73.
Imagem: Wikipedia

Existência das mais agitadas, partilhada entre os grandes ateliers e os pequenos teatros, — os Folies-Marigny foram o seu berço. Tornou-se pintora à força de frequentar os artistas. Pinta os cães das prostitutas elegantes, é a sua especialidade. Habita em Asnières, onde tem, num tapeceiro vizinho ao teatro, uma exposição permanente das suas obras.

Madame Bertha [Berthe Morisot, ela mesmo artista de mérito] uma grande mulher muito elegante. Posa vestuário nos ateliers dos pintores "parisienses" [Jean] Béraud, [Alfred] Stevens, [Jean-Louis] Forain, Robert [Rosenblum], etc. Muito "boulevardière".

Berthe Morisot com um bouquet de violetas, Édouard Manet, 1872.
Imagem: Wikipedia

Louise, uma bonita loura, grande como tudo, mas constituída como a Vénus de Milo. Plena de graças — com algumas virtudes.

Emma [Dupont], modelo sábia, encontra as suas poses ela própria; posa neste momente em casa de Gérôme.

Emma (collection madame Emma Dupont), estudo de Jean-León Gérôme, c. 1876.
Imagem: Marc Verat

Fernande [não confundir com Fernande Olivier (1881-1966)], como Victorine, tipo de modelo antigo. Não posa mais do que raramente, mas mostra-se ainda nos ateliers. Frequenta uma cervejaria da rua [Pierre] Fontaine. Tem o seu museu, rua Lepic. Quase todos os modelos têm o seu museu. Qual o pintor que recusaria um esquisso, um croqui, à bela rapariga que a ele se mostrou, durante várias horas, fora de todos os seus véus?

Anna! Chorem, meus olhos, deitou no casamento, a soberba criatura com a sua tez de bistro, os seus grandes olhos negros e a a sua admirável correcção de traços! Mas ela tinha um vício, uma serpente sob essas flores, ela estava quase sempre numa situação interessante. 

Então, adeus à pose! Durante os entre actos, ela servia nas cervejarias do Quartier Latin, na Sherry-Gobler, entre outras, esse "bouchon" minusculo, hoje desaparecido, cuja história faria "pendant" ao Roman comique, e de onde partiram todos os "jovens" desse tempo, Richepin, Maupassant, Paul Bourget, Catulle Mendès, Villiers de l'Isle-Adam, Bouchor, Moynet, Sapeck, etc.

Um dia que Anna tremia de febre, o ilustre Sapeck tomou-se de piedade, levou-a para o sol, tratou-a, curou-a e, por excesso de originalidade, esqueceu-se de a fazer sua amante. Anna regressa a Paris.

Um poeta instala-a como florista, rua de Amsterdam; faz negócios lamentáveis e torna-se modelo. Ei-la, agora, esposa e mãe. Chorem, meus olhos!

Existe, entre as modelos do bairro de Montparnasse e as da avenida de Villiers, um eterno antagonismo, que degenera por vezes em brigas de arranhar a cara e arrancar os cabelos. E é fácil de entender. Lá em baixo, no Luxembourg, é a primeira etapa, frequentemente cruel; aqui, no parque Monceau, é o apogeu. 

Modelo nu Victorine Meurent, Déjeuner sur l'herbe, Édouard Manet, 1863.
Imagem: WikiArt

É aí que encontramos uma multidão de gente muito bem, amadores apaixonados dos quadros, que nem sempre se contentam com a cópia, e se anexam por vezes ao original. E qual o modelo que não acarinhou esse sonho!

Moralidade: — não há! (1)


(1) Parisis (Emile Blavet),  La Vie parisienne..., Paris, L. Boulanger et P. Ollendorff, 1885-1890


Informação relacionada:
Ellen Andrée. Modèle à Montmartre. (Manet, Degas, Renoir...)
Quando pittore fai rima con amore

Informação adicional:
Catalogue illustré du Salon [de Paris]... (28 numéros disponibles, 1879-1907)
Salon des Refusés (1863)
Société anonyme des artistes peintres, sculpteurs et graveurs (1874-1886)
Salon des indépendants (depuis 1884)

Leitura adicional:
Dictionary of Artists' Models
Charles Virmaître, Portraits pittoresques de Paris

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Val de Pereira

Em sessão da Câmara Municipal de 26 de março de 1866, propôs o vereador Isidoro Viana que a azinhaga chamada de Vale do Pereiro passasse a ter a denominação de travessa de São Mamede, por estar no seguimento da mesma travessa, dando-se-lhe maior largura. Para isto bastava expropriar uma terra de semeadura e umas barracas velhas e insignificantes. Foi a proposta discutida e em seguida enviada a informar à Repartição Técnica. Até hoje.

Lisboa vista da Quinta da Torrinha Val Pereiro, gravura de William James Bennett sobre desenho de L. B. Parlgns.
Imagem: Museu de Lisboa

Esta azinhaga de Vale do Pereiro começava no Salitre e ia acabar no caminho ou rua daquele nome em frente da quinta de Santo António, apertada entre os muros da do Cordoeiro, à direita, e do casal da Carvoeira, à esquerda. 

Aproximadamente seguia a directriz da nova rua de Rodrigo da Fonseca que serve de testa ao Bairro Barata Salgueiro.

Da quinta do Cordoeiro, pouco sei; do casal alguma coisa pude apurar. Ficava encravado entre o Salitre, a estrada e a azinhaga de Vale do Pereiro, e constava de casas e outras dependências, terras de semear, olival, vinha e poço de engenho. A carvoeira que lhe deu o nome chamava-se Nazaré e era a proprietária das terras. Em 1820 e tantos pertencia o casal ao súbdito alemão Bento Guilherme Klingelhoefer.

Lisbon, published under the superintendence of the Society for the Diffusion of Useful Knowledge.
Drawn by W B  Clarke, engraved and printed by J Henshall Published by Baldwin & Cradock 47 Paternoster Row, 1833.
Imagem: Lisboa de Antigamente

Falecido este em 1841, os administradores liquidatários da herança puseram o casal em praça e foi arrematado, não sei por quem, nesse mesmo ano.

No estremo dele vê-se hoje o respiradoiro do túnel do Rocio. 

A designação de Vale do Pereiro ou de Pereira e Val de Pereiro é vulgar de sul a norte do país. A corografia do Baptista cita numerosos locais desse nome, com variantes na grafia e no género. 

Lissabon von der Quinta da Torrinha - Val de Pereiro. Umgebunge von Lissabon.
Aus der Geographischen Graviranstalt des Bibliographischen Instituts zu Hildburghausen, Amsterdam, Paris u. Philadelphia.
Author: Meyer, Joseph (1796-1856) Society for the Diffusion of Useful Knowledge (Great Britain), 1844.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

O nosso Vale de Pereiro, às abas de Lisboa, remonta ao século XV, pelo menos, e é de crer provenha ainda de mais vetustas épocas. 

Em um dos livros da Mitra Patriarcal, colecção recentemente entrada na Torre do Tombo, encontram se três documentos referentes a este local, os quais passo a analizar.

É o primeiro uma escritura de emprazamento feita pelo arcebispo de Lisboa D. João, em três vidas, a Gil Martins do Poço, de uma vinha e olival em Vale do Pereiro. Está datada de 22 de março de 1442.

Lisboa, panorama tirado de Vale de Pereiro para a Avenida da Liberdade, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Diz o documento muito precisamente: huma vinha e olival que son no Val de Pereira asima danda Luçus (Andaluz) asêrca da dita cidade que son de sua Meza Arsebispal e partem da parte do fundo do Soão (sul) com olival de Cathelina Feya que hora é de Bertholomeu Fernandes e da parte do Aguião (norte) com caminho Velho e deshy tornando através com olival de João Esteves créligo rasoeiro de São Lourenço e deshy entestar da parte do aguião (norte) por Marcos e cómaros e como se vay asima com olival e vinha de João de Lisboa mercador e deshy como se vay em redor e com vinha do Cabbido que ora traz Pêro Soayres Mercador e deshi como se torna arredor da parte da travesia com caminho de Éreos (herdeiros) junto com herdade de São Dominguos que foi do Berton, que chamam... e deshi como se torna afundo da parte do avrego (sul) com herdade que foi de dito Bertholomeu Feyiiandes e deshi mais afundo com vinha do Titulo da Conezia de Pêro Domingues, filho de Dominguo Annes, criado de El-Rey e vai-se accabar no dito olival de Cathelina Feya...

S. Sebastião da Pedreira, Largo do Andaluz e St.a Marta, vista tirada de Vale do Pereiro, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O segundo documento é um instrumento de que consta pagar-se ao referido arcebispo quinhentos e setenta e dois reais brancos, de foro da referida propriedade. Isto é, o mencionado Gil Martins do Poço, como trazia arrendada a um tal João Vasques, escrivão da Távola do Conde de Ourém, uma quinta que possuía em Vale do Pereiro (ou Val de Pereira) e este lhe estava em dívida ainda de rendas anteriores, transferia para êle, emquanlo lhe durasse essa obrigação, o pagamento do foro, da tal vinha e olival, ao arcebispo de Lisboa.

O estromento, datado de 2 de março de 1448 reza assim:

Saibam os que este estromento pirem que na era do Nascimento de Nosso senhor Jesus Christo de mil quatrocentos e quarenta e oito annos dous dias do mes de março, yia cidade de Lisboa no paço dos Tabelliaens, pareceo hy Gil Martins do Poço morador na. dita cidade e dice que hera verdade que elle tinha huma quinta em termo da dita cidade onde chamam Val de Pereira arrendada por nove anos a João Vasques, escrivão da Tavola do conde dourem, (morador ?) na Judiaria dessa mesma por dez escudos douro em cada hum anno de renda pagados em duas pagas, segundo era contheudo no estromento do dito arrendamento, a qual quintaa com todas suas pertences o dito Gil Martins deu e aconteceo em partilhas a Gomes e Annes de Óbidos, escudeiro do Senhor Regente, marido de Catherina de Serpa, seu neto por parte da dita sua molher e que porem a elle Gil Martins aprazia como logo aprouve e mandou que o dito João Vaz da dita renda de dei escudos dê e pague ao arsebispo de Lisboa em cada hum anno, por dia de Páscoa quinhentos e settenta dous reaes brancos que o dito senhor arsebispo hade haver de foro de huma vinha e olival e herdades que com a dita quinta andafn e o que sobrar se pague a Gomes Eanes de Óbidos. . . etc. 

Lisboa, St.a Marta vista tirada de Vale do Pereiro, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O recibo de pagamento do foro aludido feito por João Vás ao arcebispo de Lisboa em 6 de Julho de 1451, constitui o terceiro documento.

Como se viu pelas transcripções feitas, o território de Vale de Pereiro achava-se, naquele tempo, retalhado em quintas, olivais e vinhas, umas da Mitra Patriarcal — grande proprietária no termo de Lisboa — , e outras de particulares.

Segundo me parece da leitura atenta das complicadas confrontações, conclue-se ficar a propriedade da Mitra ao norte da azinhaga de Vale do Pereiro, onde, em 1755 e anteriormente mesmo, ficavam as terras fragmentadas dos Congregados do Oratório, hoje inclusas no ainda projectado Parque Eduardo VII. O caminho velho que ficava da parte do norte, bem poderia ser a estrada de Palhavã.

Lisboa, panorama tirado de Vale de Pereiro para a Avenida da Liberdade, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Fiquemos nisto. A designação de Val de Pereira ou de Vale do Pereiro, é antiquíssima; a Mitra possuía ali propriedades, assim como o Cabido; Gil Martins do Poço tinha uma quinta e o resto retalhava-se em vinhas e olivais de diversos donos.

Lisboa, panorama tirado de Vale de Pereiro para a Avenida da Liberdade, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O plantio da vinha era muito comum aqui às abas de Lisboa desde remotos tempos. E ver as Memorias para a Historia das Inquirições nos primeiros reinados de Portugal, publicadas em 1815, por João Pedro Ribeiro, numa inquirição feita — é de supor durante o reinado de D. Afonso III — a quantidade de vinhedos mencionados como pertencentes a várias ordens reli- giosas e militares. Os frades de São Vicente, entre muitos bens, possuíam uma vinha in Anduluzes (em Andaluz), outra in loco qui dicitur Alvaladi, e outras muitas no Lumiar, Charneca, Chelas, Leceia, Telheiras, Carnide, etc. Os frades de Calatrava tinham uma vinha in Arrujos (Arroios) e os de São Tiago e os Hospitalares, cada um a sua. Foram elas que forneceram até o século XVI o apreciado vinho do termo, então chamado de Campolide.

Pelo espaço de quatrocentos anos que de alterações se não fizeram!

Lisboa, rua do Salitre, vista tirada de Vale de Pereiro, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Quantos emprazamentos, quantas vendas, quantas mudanças de proprietários!  De Andaluzes à Cotovia e a Campolide, por todo esse vasto trato de terreno, passou o vendaval dos séculos. Vale do Pereiro cem vezes transmudou a sua face matizada de vinhedos, de olivais e de searas verdejantes, cortada de azinhagas e de carreiros, esmaltada de muros de defesa, de cômoros e de marcos divisórios. Assente a poeira dos des troços produzidos nesse largo período, é que vamos agora examinar o arrabalde. 

Lisboa, panorama tirado de Vale de Pereiro para a Avenida da Liberdade, Francesco Rocchini, c. 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Era assim este sítio pela ocasião do terremoto, e foi-o ainda por muito tempo. Entrando na rua pelo lado do Salitre ficavam à esquerda as terras dos padres da Congregação do Oratório, que acabavam junto ao muro da quinta de Santo António, cujos restos ainda conheci e cuja casa de larga portada seiscentista, de cantarias boleadas, ainda hoje faz razoável figura entre os caixotões aparelhados à moderna, no troço que sobrevive da rua arrabaldina. 

Lisboa (Vale do Pereiro), estado actual das obras na Avenida da Liberdade, Ribeiro Cristino em O Occidente, julho de 1885.
Imagem: Hemeroteca Digital

Seria esta quinta aquela que, nos princípios do século XVIII, aparece denominada de Vale do Pereiro nos registos paroquiais de São Sebastião da Pedreira?

Nesses prestáveis e por vezes tão mal tratados informadores, vi que tal propriedade pertencia em 1708 ao padre Frei Pedro Borges, do hábito de Aviz, o qual nela faleceu em 6 de março desse ano, e que, em 28 de março de 1713, nela falecera também, José da Nóbrega Botelho, filho de Francisco da Cruz Nóbrega e de Andresa de Sousa Botelho.

O sítio de tal nome é já apontado em 1603 no assento de óbito de uma Margarida do Rio, mulher de um tal Pedro Fernandes, e a primeira vez que toma a designação de rua é em 1731, em igual documento respeitante a Marta de Almeida, viuva de D. João Maldonado.

Noutro assento de 1702, da paróquia de São José, fala-se em casas novas junto a Vale do Pereiro, sinal de que o subúrbio se começava a povoar.

Lisboa Arte Pintura Paisagem e animais [vista do Vale do Pereiro], João Cristino da Silva, 1859.
Imagem: MatrizNet

Pegada às casas da quinta de Santo António, via-se a ermidinha de Nossa Senhora da Mãe de Deus e dos Homens, de que já se falou, ao tratar de São Mamede, e depois mais terras dos Congregados até à azinhaga da Torrinha, cortadas a meio por um caminho (chamado beco de Santo António em 1833), que dava serventia à propriedade.

Entre esse beco e a quinta é que, mais tarde, se construiu, por ordem de Sebastião José de Carvalho e Melo,o abarracamento de Vale de Pereiro, para quartel de um dos regimentos da província, chamados em 1755 para policiar a cidade, e zelar pela segurança dos seus habitantes.

Parada militar no quartel de Vale do Pereiro, Paulo Guedes, 1906.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Não sei qual dos regimentos, mandados vir nessa ocasião iria ocupar o abarracamento, após os bivaques dos primeiros meses, se o de dragões de Évora, se o de Cascais, se o de Peniche, se o de Setúbal ; o certo é que, em 1784, estava aqui albergado o de Infantaria do conde de Aveiras, em 1799, o de Lencastre, em 1834 o de infantaria 2 e ultimamente o 2 de caçadores que saiu para a Cova da Moira onde esteve até à sua extinção. O quartel de Vale do Pereiro ficou então servindo para quaisquer dependências de serviços de administração, e assim foi apodrecendo, como está sucedendo ainda ao de Campo de Ourique, manchando o bairro com o seu aspecto miserável. 

Creio que foi um litígio complicado, que obrigou o município a ter suspensa durante muito tempo a demolição do quartel pombalino. Os terrenos onde êle assentava pertencem, ou pertenciam, aos herdeiros da falecida condessa de Gamarido, cujos possuidores, a esse tempo, o cederam para aquele fim exclusivo, com determinadas cláusulas. Foi uma destas cláusulas que durante anos susteve de pé o vetusto casarão.

Primitivamente constava apenas de dois barracões postos a par, paralelamente à rua. Em 1784 fizeram-se-lhe obras. Repetiram-se estas em 1798, no sentido de alargar-lhe os cómodos que eram poucos. Em 1804 já se achava concluído, como se vê da planta levantada nesse ano pelo engenheiro Fava. 

Carta topographica de Lisboa e seus suburbios..., Duarte José Fava, reprodução de 1807.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Em 5 de junho de 1908, como tal litígio se augurasse longe ainda de solução satisfatória, entendeu o quartel começar a demolir-se por iniciativa própria. Na madrugada desse dia desmoronou-se com estrépito, parte do edifício.

Hoje nada resta do velho pardieiro, e o alinhamento da avenida de Braamcamp está concluído. O prolongamento da rua de Rodrigo da Fonseca é que parece, ignoro porquê, estar ainda para demora, apezar de, em 15 de dezembro de 1914, se ter feito, por sessenta contos de réis, à senhora condessa de Foz de Arouce, a expropriação da parte da quinta dos Arciprestes ne- cessária para tal fim.

Aí por 1770 e tantos abundavam por aqui os militares em moradias junto do quartel. Furriéis, tambores-mores, cabos e soldados, albergavam-se nas casas abarracadas que enxameavam no local. Escusado será dizer qual seria a maior percentagem da população feminina.

Quando constou em Lisboa, na segunda quinzena de março de 1817, que el-rei D. João VI, escolhera para receber o preito da corte do Rio de Janeiro, pela sua subida ao trono, o dia 6 do mês seguinte, sábado de aleluia, os comandantes dos regimentos da guarnição da cidade resolveram dar um público testemunho da sua calorosa adesão a tão fausto acontecimento. Soube-se, que na véspera do dia festivo sairia o bando do Senado da Câmara determinando uma iluminação geral para a noite seguinte e, eis a oficialidade dos regimentos lisboetas, entusiasmada a preparar as luminárias dos quartéis.

Depois da parada no Terreiro do Paço, Rocio e ruas comunicantes, de todas as tropas de linha e milicianos, Guarda Real de Polícia, Atiradores e Voluntários Nacionais, e da revista e marcha que se lhe seguiu, retiraram para os seus aquartelamentos e principiaram os fogos de artifício e a pasmaceira das iluminações. Um dos regimentos que mais luziu no desempenho da sua vistosa homenagem, foi o de Vale do Pereiro, o bravo 16 de Infantaria.

Sigamos a descripção do prospecto segundo a notícia da Mnemosine Lusitana.

No corpo central da ornamentação luminosa que cercava a porta principal do abarracamento, figurava uma latada sobre um fundo de buxo e de loiro, de que se recobriam as paredes nesse ponto da fachada. Por cima corria uma balaustrada coroada de trofeus militares, entre os quais avultavam dois escudos com os dizeres "Amor" e "Gratidão", sobrepujados, estes, de um grupo de nuvens, que na ocasião da inauguração se abriram para patentear o retrato de el-rei.

Sob o retrato lia-se esta quadra:

Immune Portugal hum Deus promette, 
Campo d'Ourique ouvio seu Santo Brado; 
As promessas de hum Deus mudar não podem 
O Tempo, a Morte, nem Desgraça, ou Fado.

Entre os quatro pilares da latada que suportavam a balaustrada, de cada lado da porta, liam-se estas:

A Pátria de seus Filhos Amor pede, 
Dos Vassalos o Rei Fidelidade: 
Juramos defender em todo o tempo 
A Fé, a Pátria, as Leis, a Magestade.

Sois Monarcha, Senhor, dos fieis Lusos, 
Que não sabem curvar-se a extranho Dono; 
E quando por Sob'rano vos aclamão 
Em cada coração vos dão hum Throno. 

As entradas da dupla rampa de acesso ao portão, estavam ornamentadas com arcos de buxo, rematados por um leão, das garras do qual pendiam fitas com o dístico:

Perseverando, Lisboa. Regimento n.° 16

O muro da rampa revestido de ramos de loiro, terminava, em cada uma das extremidades, junto ao arco, por duas figuras, imitando mármore, toucadas de um cocar de plumas, e sopesando escudos, nos quais se lia, em um: 

Do insigne Regimento, audaz, temido, 
As batalhas tu vês, nas quaes, ó Lusos, 
Vencedor sempre foi, nunca vencido.

e noutro:

Ás Lusas Legiões soube dar Glória 
Beresford imortal, e em sua frente 
As conduzio ao Templo da Memória.

Na extensão do parapeito do muro, achavam-se disseminados vários medalhões, contendo os nomes e as datas de todos os combates, batalhas, sítios, bloqueios e assaltos em que o 16 tomara parte, desde o combate de Albergaria, em l0 de maio de 1809, até o sítio de Bayona, que durou desde 27 de fevereiro a 28 de abril de 1814.

No centro do parapeito da meia laranja, fronteira à porta do quartel, avultavam as armas reais de Portugal por baixo das quais se lia, num transparente, esta quadra:

Do Tejo ao Ganges sem temor levadas 
Dando Fama aos Annaes da Antiguidade 
Desde o Tejo ao Garona as conduzimos 
Fazendo temer Gallia em nossa idade.

Um grande número de luzes abrilhantava esta ornamentação, e bom seria que assim fosse para desviar as atenções do povinho, dos malíssimos versos que, como amostra do estilo literário da época de D. João VI, ofereço à curiosidade do leitor.

Tais foram as festividades feitas pelo regimento de Vale do Pereiro, em 1817.

Continue-se a descripçao de Vale do Pereiro ao tempo do terremoto.

Planta do terreno compreendido entre a linha de cumeada da Cotovia, Rato, Amoreiras e Arco do Carvalhão e a linha de talveg de S. José, St.a Marta e S. Sebastião da Pedreira, feita em 1756, pelos Carlos Mardel, Eugénio dos Santos, Elias sebastião Poppe e António Carlos Andreis; acrescentada com o traçado conjectural das ruas do bairro de Pombal e a baixa da Cotovia [nota: o topo da imagem indica o lado nascente].
Imagem: Internet Archive

A azinhaga da Torrinha, atravessava o chamado, hoje, Casal Mont'Almeida até à circunvalação e prolongava-se ainda depois até Campolide. A planta inserta no primeiro volume desta obra elucidará melhor o leitor do que todas as minhas indicações.

Lisboa, Avenida da Liberdade, comemorações do IV Centenário da Índia, Feira Franca.
Litografia de Ribeiro Cristino e Roque Gameiro, 1898.
Imagem: PAM

Depois da azinhaga, ficava a quinta do mesmo nome, em cujo âmbito se erguia a torrinha octogonal, que, por tanto tempo, alindou com o seu ar um tanto ou quanto misterioso, aquele local.

Lisboa Parque Eduardo VII casal da Torrinha 01 Paulo Guedes AML 04.jpg
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Nesta, quinta esteve em 1804 um colégio de que era director e proprietário, o professor Luís Maigre Restier. Nesse mesmo ano se mudou para Xabregas e, mais tarde, em 1833, estava, ainda com o mesmo nome, na travessa das Mónicas. Tempo depois ocupou, as casas e o torreão, uma fábrica de velas de estearina de que era sócio ou corrector de vendas o conhecido Castelani. Não era raro vê-lo agenciando a sua vida por estas paragens, dando regabofe aos ga rotos que se compraziam em trazê-lo às vaias, chacoteando do seu bigode ruivo e da sua figura ridícula.

A torrinha, sacrificada às exigências do progresso, começou a demolir-se em sexta feira santa, 20 de abril do ano findo, após uma comprida e porfiada resistência ao camartelo municipal do seu último morador, o francês Gustavo Mathieu, que ali tinha instalada uma oficina metalúrgica e onde demorava há mais de 25 anos.

Vi desaparecer com pena a simpática torrinha que era tanto da fisionomia daquele sítio, e comigo decerto muitos lisboetas sentiram a mesma pena.

Lisboa Parque Eduardo VII casal da Torrinha 02 Benoliel AML 04.jpg
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Esculápio, no Século de 21 de abril do ano último, fez, como extremado amigo da cidade, o seguinte epicédio ao pobre torreão setecentista do dr. José de Sousa Monteiro:

"Vetusto monumento de fé republicana de outras eras, anda o camartelo municipal a derruí-la, para dar seguimento ao parque Eduardo VII, que já se desenha esplendoroso ao cimo da Avenida, coroando a rotunda e o lugar onde, para as calendas gregas, se há-de erguer a tão falada estátua ao Marquês de Pombal. O leitor amante das antiguidades de Lisboa que vá vê-la nos seus derradeiros momentos, a célebre Torrinha onde se faziam dantes os comícios republicanos e onde os janízaros da municipal se fartaram de espadeirar o povo e os propagandistas da ideia nova. Faz pena vêr a Torrinha a cair aos bocados, em holocausto ao progresso e ao aformoseamento da plástica citadina!"

Dão-te a morte; coitadinha,
E tu morres fria e calma 
Torrinha que eras "Torrinha", 
Do teatro da minha alma.


Lisboa Parque Eduardo VII casal da Torrinha 03 Bárcia AML 04.jpg
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Seguia-se à Torrinha a casa e quinta de Manuel de Jesus, que há pouco também foi a terra e onde residiu desde as ultimas expropriações municipais, o sr. António Fernando Silva, chefe do serviço dos jardins da Câmara. Sobre o portão desta moradia, que ficava a cavaleiro da avenida de Fontes Pereira de Melo, avultava (julguei eu, por muito tempo, que fosse um brazão) um ornato feito de alvenaria com certa elegância decorativa. Na demolição lá se foi também.

Este Manuel de Jesus, que suponho um pequeno proprietário arrabaldino, era casado com uma tal Isabel Francisca que faleceu, em i5 de dezembro de 1737, nesta sua casa do Vale de Pereiro.

Lisboa Pintura a óleo do Parque Edurdo VII Vale do Pereiro 03 AML.jpg
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A esta casa seguia-se um pedaço da quinta das Lagens que se prolongava para o norte-poente, e depois dependências muradas da propriedade, a esse tempo, de Domingos Ferreira de Aguiar, a qual tornejava para o pitoresco largo de Andaluz [...] (1)


(1) Matos Sequeira,   Depois do Terremoto, Volume II, Academia das Sciências de Lisboa, 1917

Leitura adicional:
Ruy Travassos Valdez, A Quinta da Torrinha ao Vale do Pereiro

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A banhos no Tejo, a Deusa dos Mares

A faculdade portuguesa recomenda os banhos para todos os casos de queixas e males. Os homens despem-se na parte de vante do barco, vestem calções que vão abaixo do joelho e cobrem-se com um casaco comprido, antes de se sentarem na amurada do barco para entrarem dentro de água. Quando as senhoras anunciam que estão prontas eles ajudam-nas a entrar no rio, pegando-lhes nas mãos enquanto elas descem pelas pequenas escadas. Depois, entre gritos e chapinhadas, o divertimento é geral. Uma piada comum, conta que uma senhora atarracada e gorda, uma visão habitual, quase ia virando o barco quando descia.

Banhos no Tejo, A.P.D.G., Sketches of Portuguese life (...).
Imagem: Internet Archive

Quando os barcos do banho são numerosos, ao longo da praia, não raramente vi o Regimento de Cavalaria de Alcântara receber ordem de tomar banho. Então, é vê-los entrar na água, e completamente despidos com os seus  cavalos, nadar por entre os banhistas, causando-lhes o maior desconforto [...] (1)

Regimento de Cavalaria de Alcântara, William Beckford, 1808-1809.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O Administrador dos banhos da barca do Hiate, que está defronte do Caes das Columnas, participa ao público que de manhã os banhos de 200 réis, são de 180 réis, e os de 160 réis são de 120 réis, e de tarde depois da 5 horas, são de 40 réis de menos por cada banho, sem que seja necessário esperar por companheiro para entrar no banho. 

A barca tem para melhor cómodo do público dois botes com os seus letreiros que dizem = Bote da barca dos banhos = Além destas commodidades, e de outras, que na barca se saberão, haverá bebidas e comer de todas as qualidades, por preços cómmodos. (2)

No dia 15 do corrente mez se põem a barca dos banhos, contruida sobre o hiate, defronte do Terreiro do Paço; reformada de banhos e com nova construcção para receberem toda a força da corrente. (3)

Vista do Tejo e da Praça do Comércio em 1848, gravura em madeira fotografada por Bárcia (AML).
Imagem: O cais da Praça do Comércio e as suas colunas...

De toda a parte podiam partir botes e vapores que cruzassem entre os logares de recreio, onde houvesse hoteis, e restaurantes, onde pululassem a vida, a alegria, e os folguedos.

Em vez do concurso festivo de barcos empavezados, de chalupas casquilhadas e de vapores emplumados de fumo, de musicas e de orchestras casando os seus rithmos e melopéas com o marulhar das vagas; em vez dos mil rumores. de uma grande cidade a condensaram-se por algumas horas ua amplidão magestosa e poética de um dos rios mais soberbos da Europa, estamos condemnados ao supplicio de contemplar diariamente no meio das aguas azuladas do rio, que corre entre areias de ouro os estafermos fluctuantes da "Deusa dos Mares e da Flor do Tejo"!

Deusa dos mares, barca dos banhos no rio Tejo.
Imagem: Lisboa de Antigamente

Como aquelles abrutados cetáceos de pau carunchoso ostentam com a indifferençá e o egoismo da decrepidez a sua crusta encorreada, vaidosos do acolherem dentro de si tantas formosuras femininas, — que ali correm a banhar-se dentro de cells soturnas, escondidas sob o velho cavername e copiadas das penitenciárias primitivas — Amphitrites prosaicas, que parecem tripudiar naquelles churriões immoveís de Neptuno, entre algas e alforrecas!

Nas manhãs de verão e de outomno é uma dôr d'alma contemplar as gentis caravanas,que demandam aquellas regiões sinistras, fragmentos desprendidos do "Inferno" do Dante. Tanta lida, tantas fadigas, para alcançarem o phantasma fugitivo de um banho tomado no fundo de um antro fluctuante, visitado a miúdo pela onda impura das matérias organicas, que se espanejam na corrente! Que ironia de banhos hygienicos infligida a uma povoação inteira, no bôjo d'aquellas presigangas, que são, em pleno Tejo, um arremedo das prisões marmertinas, ou dos Chambos de Veneza.

Black Horse Square (Praça do Comércio), T. W. Langton, década de 1870.
Imagem: Baixa Pombalina 250 years of images

Mas a illusão dos banhos, em taes condições, não é senão a parodia da illusão campestre que desvaira a muita gente, que emigra da cidade para buscar e gozar o campo onde não ha d'elle o menor ves- tígio! A não serem os oásis verdejantes de Cintra e de Bellas, onde ha aguas frias e crystalinas, som- bras e espessuras de arvores e de mattos, a maior parte dos retiros aldeãos correm o grave perigo de se parecerem com uma charneca árida e nua de vegetação.


Praça do Commercio vista do Tejo (fotografia de Eduardo Portugal), ed. Costa 773, c. 1900.
Imagem: Delcampe

É um campo conjectural, difficil de adivinhar-se, o que se espalha em redor da cidade. Exigem grande dispêndio de imaginação os prados e os arvoredos que não avista o olhar mais perscrutador. Apezar d'isso, os omnibus e as carruagens andam numa roda viva, atarefados no empenho de trazerem e levarem passageiros, cheios de calma e de poeira, que se incumbem benevolamente de acolher no fato e nos cabellos a caliça do mac-adam da estrada! E cháma-se a isto estar no campo! e todas estas fadigas de viaçao attrahem como outras tantas sereias os que só vêem na cidade um brazeiro ardente, um oceano de poeira! Mas quem nos salva senão a fé? (4)

(1) A.P.D.G., Sketches of portuguese life, manners, costume and character, London, Geo. B. Wittaker, 1826
(2) Gazeta de Lisboa, 22 de julho de 1809
(3) Gazeta de Lisboa, 13 de julo de 1810
(4) Visconde de Benalcanfor, Diário Illustrado, 31 de julho de 1874

Leitura relacionada:
Lisboa de Antigamente
Alexandra de Carvalho Antunes, O cais da Praça do Comércio e as suas colunas...
Mariana J. Pimentel Pires, Água e luz — o imaginário dos banhos
A. Vieira da Silva, Barcas de banhos do Tejo

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Vista de Lisboa, panorama de Barker

De facto, quando descrevia Lisboa vista do outro lado do rio em dezembro de 1812, o Major Augustus Frazer da "Royal Horse artillery" tinha explicitamente Henry Aston Barker na ideia: "O dia estava lindo, o cenário talvez o mais belo do mundo. O castelo de Almada foi o lugar a partir do qual o Panorama de Barker foi tirado." (1)

Lisbon from Fort Almeida Almada, Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden.
Imagem: Cesar Ojeda

Como, a começar a nossa próxima viagem, deveremos deixar Lisboa, sem a perspectiva de aí regressar, olhando um pouco por nós, se possível, sem negligenciar algo que possa merecer uma visita;

rapidamente nos ocorreu o morro de Almada, oposto a Lisboa, até então não nos tinha atraído subir o íngreme declive, e do seu cimo olhar a capital de Portugal, a partir dessa vantajosa posição, sendo que aí uma parte dessa cidade pode ser abrangida com uma simples passagem do olhar, mais do que em qualquer outro lugar:

Historical military picturesque..., George Landmann, View up the Tejo.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

tendo perdido tantas oportunidades como perdemos para nos oferecer esta vista altamente gratificante, teria sido verdadeiramente imperdoavel, não fosse o termos propositadamente deixado esta delícia para depois.

Historical military picturesque..., George Landmann, Lisboa, or Lisbon, the capital of Portugal.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Uma viagem a Almada não necessita preparação, exceptuando um cesto com comida, para saborear à sombra de uma laranjeira próxima das margens do rio. Contudo, alugámos um pequeno barco, para nos levar até à vila de Almada, oposta à parte ocidental de Lisboa... enquanto a cadeia de colinas da outra banda, o Almaraz, se estende na direcção da entrada do Tejo até se defrontar com a velha Torre de Belém.

Historical military picturesque..., George Landmann, Mouth of the Tagus.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Infindavel seria tentar descrever a multitude de aspectos que o semicírculo a norte apresenta; mas uma vista panorâmica, desenhada com muito cuidado a partir do original de Mr. Baker, que muito atenciosamente a cedeu ao autor com esse propósito, se apresenta [...]

O original foi desenhado por Mr. Barker [Henry Aston Barker (1774–1856)], a partir do qual pintou o seu muito admirado e correctamente fiel Panorama que exibiu no Strand em Londres [Barker's Leicester Square exhibitions]: 

Historical military picturesque..., George Landmann segundo Henry Aston Barker, Panorâmica de Lisboa e do Tejo.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

a gravura para este trabalho compreende a vista desde a Cidadela de Cascais, o ponto mais distante à esquerda, até ao extremo ocidental que é possível avistar desde a colina de Almada; 

Cross-section of the Rotunda in Leicester Square in which the panorama of London was exhibited (1801).
Imagem: TATE

ás pessoas que podem ter tido a boa sorte de ver o Panorama, esta gravura não conseguirá dar o justo sentido à extensão da beleza desta cena;

Robert Barker’s Leicester Square Panorama.
Imagem: The Regency Redingote

todavia espera-se que a tentativa de adicionar esta informação não se revele infrutífera: ver as gravuras intitulados: Mouth of the Tagus, Lisboa, or Lisbon, the capital of Portugal, e View up the Tejo. [cf. Capítulo XLIII. Uma viagem a Almada, Vista de Lisboa, as colinas fortificadas, e o  Castelo de Almada (...)] (2)


(1) Gavin Daly, The British Soldier in the Peninsular War..., 1808–1814
(2) George Landmann, Historical, military, and picturesque observations on Portugal..., 1818

Alguma leitura adicional:
Harry Sutherland, Adventures with the Connaught Rangers, 1809-1814
John Kincaid, Adventures in the Rifle Brigade, in the Peninsula... from 1809 to 1815

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Henri l'Évêque (1769-1832)

No primeiro plano, grupos de populares, no seu dia a dia quotidiano, na praia de Belém ou "Restello", vendo-se à esquerda, um barco na descarga de lenha; ao centro uma "barraca de comidas e vinho" com vários comensais sentados à mesa, sob os olhares dum mendigo e dum Andador de Almas. 

À direita, o grandioso convento " manuelino" dos Jerónimos e Igreja de St.a Maria de Belém (inícios do séc. XVII ainda com o coroamento, em pirâmide, seiscentista da torre. 

Em plano mais recuado, várias construções hoje desaparecidas, destacando-se, junto da praia, o palácio que foi dos Marqueses de Marialva e já esbatida no horizonte, a Torre de Belém.

Henri L'Évêque, Vista do Convento de Sto Jerónimo de Belém e da Barra de Lisboa.
Imagem: ComJeitoeArte

A estampa representa a Rua Direita da Junqueira vendo-se: em primeiro plano, grupos de populares, entre os quais um "grupo de galegos dançando e tocando" e um barco em processo de descarga; em segundo plano, o palácio dos inícios do séc. XVIII, conhecido por palácio dos Patriarcas, residência dos Cardeais Patriarcas de Lisboa, depois do terramoto, mais tarde comprado por Henri Burnay, posteriormente 1.° conde do mesmo nome que nele fez obras profundas, transformando-o numa luxuosa residência dos finais do séc. XIX.  Hoje é sede do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. 

No mesmo alinhamento, mas mais recuado o palácio dos condes e depois Marqueses da Ribeira Grande, também do começo do séc. XVIII, onde nasceu viveu e morreu D. João Gonçalves Zarco da Câmara, filho do 1.° Marquês da Ribeira Grande, grande dramaturgo português. Foi depois comprado pelo Estado que nele instalou ultimamente o liceu da Rainha D. Amélia. 

No meio da praia, o Forte de S. João da Junqueira, que no tempo do rei D. José foi convertido em prisão do Estado.

Henri L'Évêque, Vista da Cidade de Lisboa tomada da Junqueira.
Imagem: ComJeitoeArte

Pintor e gravador de origem suíça [Henri l'Évêque], nascido em Génova, [Genève, pt. Genebra] casando em Inglaterra, onde fixou residência. Fez várias viagens a Portugal, tendo aqui estado nos finais do séc. XVIII e, mais tarde, incorporado no exército anglo-português durante a Guerra Peninsular.

Escreveu sobre o nosso pais a obra "Costume Of Portugal", espécie de album ilustrado com 50 água-tintas sobre tipos portugueses. É também autor de óleos e gouaches fixando costumes e aspectos populares, feiras, etc. (1)

Nascido em Genebra, Henri l'Évêque, como Delerive, percorreu a Europa após a revolução francesa para representar as consequências políticas e militares e as revoluções que estavam acontecendo na Europa, especialmente depois que Napoleão começou as suas primeiras campanhas (2).

Henry L'Évêque, Episódio das Guerras Peninsulares.
Imagem: Veritas Art Auctioners

Campaigns of the British army in Portugal under the command of general the marquis of Wellington

Marechal de Campo Arthur [Wellesley] Duque de Wellington. Duque da Ciudad Rodrigo em Espanha. Duque da Victória em Portugal etc .

Field Marshal Arthur Duke of Wellington etc.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 1: A chegada do exército britânico ao Mondego [Lavos, Figueira da Foz, de 1 a 5 de agosto de 1808]

The Landing of the British Army at Mondego.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Gravura 2: O ataque aos corpos franceses comandados pelo general Laborde [Delaborde] em 17 de agosto de 1808

The attack on the French corps commanded by Gen. Laborde on the 17th of August 1808.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 3: Batalha do Vimeiro [21 de agosto de 1808]

Battle of Vimieiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 4: O embarque do general Junot, após a Convenção de Sintra [31 de agosto de 1808], no cais do Sodré [15 de setembro de 1808]

The Embarcation of Gen. Junot after the convention of Cintra at Quai Sodre.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 5: O ataque à fortaleza do Grijó em 11 de maio de 1809

The attack on the Strong Fort of Grijo, on the 11th May 1809.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 6: Travessia do Douro [12 de maio de 1809]

Passage of the Douro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 7: Travessia do Douro [Avintes, 12 de maio de 1809]

Passage of the Douro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
Gravura 8: Ponte de Nodin [sobre o rio Ave, retirada de Soult, maio de 1809]

Bridge of Nodin.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 9: O ataque da retaguarda francesa em Salamonde

The attack of the Rear Guard of French at Salamonde.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 10: A ponte de Saltadouro [retirada de Soult, 16 de maio de 1809]

Campaigns of the British Army H l Eveque 10 The Bridge of Saltador 03
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Gravura 11: Vista da ponte da Misarela, a cerca de três léguas de Salamonde [retirada de Soult, 16 de maio de 1809]

A view of the Bridge of Miserere, about three leagues from Salamonde.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 12: A batalha de Talavera [27 e 28 de julho de 1809]

The Battle of Talavera.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 13: A batalha do Bussaco [27 de setembro de 1810]

The Battle of Bussaco.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Grav. 14: Uma vista tomada no Tejo [margem esquerda] perto de Vila Franca que mostra uma parte das linhas inglesas

A view taken on the Tagus near Villa Franca which shows a part of the British Lines.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 15: O cerco de Badajoz [6 e 7 de abril de 1812]

The siege of Badajos.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura 16: A batalha de Salamanca [22 de julho de 1812]

The Battle of Salamanca.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A batalha da Vitória [21 de junho de 1813]

Adicionar legenda
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A partida de Sua Magestade o Príncipe Regente de portugal para o Brasil [27 de novembro de 1807]

Departure of H.R.H. the Prince Regent of Portugal for the Brazils, Henry L Evêque, F. Bartollozzi.
(Campaigns of the British Army in Portugal, London, 1812)
Imagem: Wikipédia

Esboço da acção perto de Vigia de la Barrosa [ou Barossa] (3)

Sketch of the Action near the Vigia de la Barrosa.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


(1) Lisboa: tipos, ambiente, modos de vida, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade: exposição iconográfica, Junho/Julho 1978 - 1979, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1979. 298 p.
(2) Veritas Art Auctioners
(3) Biblioteca Nacional de Portugal




Publicações:
L'Évêque, Henri (1769-1832), Campaigns of th
Wellington
, London, Colnaghi and E. Lloyd, 1813

L'Évêque, Henri (1769-1832), Costume of Portugal, London, Colnaghi and E. Lloyd, 1814

Referências:
Henri l'Évêque (google search)
Henri l'Évêque (1755-1818) também conhecido como [aka]: Henry l'Évêque,
Henrique L'Evêque, L'Evêque etc.