segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Os pincéis do Neogarretismo prévio

Ao longo deste estudo, analisámos as propostas neogarrettistas para a pintura: a sua consonância com a literatura, os temas paisagísticos rurais e marítimos como fundo para as cenas de género. A pintura de paisagens campestres e marítimas obteve um lugar de destaque na arte da época, não apenas por ser uma novidade importada de França por pintores como Silva Porto e Marques de Oliveira, mas pela transformação que os artistas lhe infundiram, fazendo-a corresponder à imortalização dos costumes populares portugueses [...]

À espera dos barcos, Marques de Oliveira, 1892.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Nos ambientes marítimos, os pescadores que partem para a faina, ou que chegam da pesca; as varinas que os aguardam na praia com os seus trajes de trabalho; as mulheres que carregam as redes para as colocar a secar ou para as remendarem; os calafates que consertam os barcos, para impedir as infiltrações de água; as marinhas com pequenos veleiros ou as crianças que pescam ou brincam na beira da água.

Praia da Póvoa do Varzim, Silva Porto.
Imagem: Do Tempo da Outra Senhora

No campo, encontramos os camponeses com seus trajes de trabalho, de festa ou de ida ao mercado, em suas casas humildes, a alimentar os animais, nas procissões ou na lavoura. Os ceifeiros, os pastores e os lenhadores que trabalham pela manhã e ao fim do dia, e nas tardes de muito calor descansam à sombra, dormem a sesta e comem as merendas que prepararam em casa, são também frequentemente contemplados nestas telas do neogarrettismo. (1)

Colheita ou Ceifeiras, Silva Porto, 1893.
Imagem: Wikipédia

Silva Porto, sem ficar indiferente às várias correntes que em seu redor se desenvolviam, apenas uma serviu com devoção e maior sinceridade — a Naturalista — sem dúvida a mais consentânea com o seu robusto temperamento de meridional, preso à terra e aos seus virginais encantos [...]

A volta do mercado, Silva Porto, 1886.
Imagem: MNAC

O "Grupo do Leão", deu-nos um novo retratista do povo, um pintor que soube focar a alma popular, um artista que soube traduzir, com tintas de todos os matizes, as alegrias e as tristezas da grei.

O viático do termo, costume da Beira Baixa, José Malhoa, 1884.
Imagem: Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra

Talvez por isso, o povo português compreenda as pinturas de Malhoa, como as de nenhum outro pintor que, até agora, interpretou o sentimento popular [...]

A volta da romaria, José Malhoa, 1901.
Imagem: Coysas, Loysas, Tralhas Velhas...

O "Portugal columbano" é uma realidade meta-histórica mais real do que a outra que se escondia na sombra dum "Portugal malhoa", com seus sóis cortados às rodelas, suores e cios, em paganismo católico de romaria, cheirando a estrume de terra fecundada, de onde saía ainda a inexistente cidade nacional. Outro é o Portugal doloroso, preso na urbe jamais figurada mas adivinhada do impossível lado de fora dos retratos pintados por Columbano, e só necessária para lhes justificar a tragédia solitária e humilhada […] (3)

O sarau (ou O serão), Columbano Bordalo Pinheiro, 1880.
Imagem: WikiArt

Ramalho, tal como muitos outros pintores seus contemporâneos, lança-se numa espécie de recolha etnográfica, numa inventariação de sítios pitorescos que encantavam o público que visitava as exposições, fazendo-o deliciar-se com a contemplação de paisagens e motivos caracteristicamente portugueses. (4)


Na obra "Lavadeiras na Romeira, Alfeite", podemos observar várias lavadeiras que, usando os habituais trajes de trabalho e as cabeças cobertas por lenços para se protegerem do sol [...]

Lavadeiras na Romeira, Alfeite — Quadro de Ramalho Junior comprado pelo sr. Pereira da Costa, 1882.
Imagem: Hemeroteca Digital

Na obra "Praia do Alfeite", António Ramalho trata a temática marítima. Não nos apresenta, de forma tão explícita como fez Silva Porto ou João Vaz, o trabalho dos pescadores, mas a presença de uma varina e de uma criança com traje de pescador remetem de imediato o espectador para a importância das actividades marítimas. Tal como nas telas de Silva Porto ou de João Vaz, estas figuras parecem representar a família de um pescador que aguarda a sua chegada do mar [...]

Praia do Alfeite, António Ramalho (Ramalho Junior), 1882.
Imagem: YouTube

Dos pincéis do Grupo do Leão, despontavam paisagens marítimas e campestres, pinturas de animais, de história, de costumes, sentimentalistas e cobertas de religiosidade, de trajes e de tudo o que se relacionasse com o popular de forma a através dele criar um discurso identitário. Conforme estudámos anteriormente, o neogarrettismo atribuiu à relação entre os portugueses e o mar uma importância extrema e foi esse o aspecto que a obra de João Vaz (1859-1931) sobretudo absorveu [...]

Barcos na praia com figuras, João Vaz.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Em "Barco na Praia com Figuras", observamos um barco que acaba de chegar ao areal e é recebido pelas mulheres vestidas com seus trajes de trabalho que recolhem as redes e as trazem para o areal. Estas mulheres são as peixeiras que vimos na tela de Marques de Oliveira, "À Espera dos Barcos", aguardando a ocasião de recolherem o peixe e as redes, que remendarão se for necessário [...] (5)


(1) Ivete Pio, Alberto de Oliveira: ideário nacional, págs. 119-130, Universidade de Aveiro, 2012
(2) Joaquim Lopes, Silva Porto, Lisboa, 1955 cf. Ivete Pio op. cit.
(3) Acúrcio Pereira, As Três Idades de Malhoa, Caldas da Rainha, 1955 cf. Ivete Pio op. cit.
(4) Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Círculo de Leitores, Lisboa, 2003 cf. Ivete Pio op. cit.
(5) Ivete Pio, op. cit.


Autores e obras referênciados no documento original:

António Carvalho da Silva (Silva Porto, 1850-1893) 
"Guardando um Rebanho" 
"Colheita – Ceifeiras" 
"O Campino" 
"Carro de Bois" 
"A Volta do Mercado" 
"Praia da Póvoa de Varzim"

Marques de Oliveira (1853-1927) 
"À Espera dos Barcos" 
"Vista da Praia"

José Malhoa (1855-1933) 
 "A Corar a Roupa" 
"Músicos em Dia de Festa" 
"Milho ao Sol" 
"As Promessas"

António Ramalho (1858-1916) 
"Lavadeiras na Romeira, Alfeite" 
"Ponte de Guifões" 
"Vista do Espinheiro" 
"Praia do Alfeite"

João Vaz (1859-1931) 
"Barco na Praia com Figuras" 
"Pescadores na Praia" 
"Desembarque de Peixe"

Henrique Pinto (1853-1912) 
"Entre o Milheiral" 
"A Saída do Rebanho" 
"O Almoço" 
"A Perrice" 
"Na Eira"

Carlos Reis (1863-1940) 
"Mendiga" 
"Serra da Lousã, Paisagem com casa, figuras e milheiral" 
"O Baptizado"

domingo, 23 de outubro de 2016

Grupo do Leão (6.ª exposição, 1886)

Emfim, noto que o amador insinua se e cresce d'anno para anno, n'estas exposições, installa-se, toma posse. Que os do grupo do Leão se acautelem, contra esse invasõr sorrateiro, mas terrivel. Em qualquer ramificação das artes, litterarias ou plasticas, o amador á o inimigo, o damninho bicho parasita, que enreda, fura, e estraga. É o falso entendedor, que tem opiniões perigosas e altaneiras, para uso das suas relações; é, misturado n'uma sociedade desprenida d'artistas authenticos, como era torpe verruga obscena maculando um corpo são; é um cogumello de má casta, assoberbante e venenoso; é uma peste, besta de destroço, um tropêço, um lacrau, um escalracho, herva ruim! (1)

Soirée chez lui ou Concerto de amadores, Columbano, 1882.
Da esquerda para a direita: Maria Augusta Bordalo Pinheiro, Adolfo Greno, um cantor italiano, Josefa Greno e Artur Loureiro ao piano.
Imagem: MNAC

É curioso decerto, mas não é estranhável, o facto de que a única obra de arte poderosa e original que em Portugal tem produzido a pintura, obra aliás admitida no Salon de Paris em 1883 1882, foi por um júri português rejeitada de uma exposição constituída pelas obras banais do mais banal. (2)

O grupo chamou-se do Leão, por causa de um café da rua do Principe...

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel Henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: MNAC

6.° Salão, Exposição d'Arte Moderna, 1886

Exposições de Quadros e d'Arte Moderna (1881-1889)
Catálogos Illustrados
Publicados por Alberto d'Oliveira
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PINTURA E DESENHO

BASTOS (J. T-) R. do Rodrigo da Fonseca, 3 , 1.°

1 — Na taberna.
[cf. Catálogo da exposição]
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 294, 21 de fevereiro de 1887]  

CHRISTINO DA SILVA (J. R.) R. da Graça, 47, 2.°
(Ribeiro Cristino, pesquisa google

2 — Na eira.
[cf. Catálogo da exposição]
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 294, 21 de fevereiro de 1887]

3 — Barracas em Pedrouços.
[cf. Catálogo da exposição]

4 — Estrada antiga.

CONDEIXA (E.) R. da Madre de Deus, 23.
(Ernesto Condeixa, pesquisa google)

5 — Um pescador.
[cf. Catálogo da exposição]
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 294, 21 de fevereiro de 1887]

Um pescador ou Vinda da Faina, Ernesto Condeixa, 1886.
Imagem: Palácio do Correio Velho

6 — Na cocheira.

7 — Cabeça de velho, estudo.
 
8 — Pionias francezas.

9 — Rosas e cravos.

10 — Fructos e legumes.

11 — Bosque de Meudon, arred. de Paris.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 294, 21 de fevereiro de 1887]

12 — Perto de Carnachide.

13 — Na Tapada d’Ajuda.

14 — Marly-le-Roy, arred. de Paris.

15 — Um pateo em Paris.

16 — Um discípulo.

17 — Uma viéla no Porto.

18 — Praia de Paço d’Arcos.

19 — Fructos vários.

20 — Retrato da sr.ª D. E. C.
[cf. Catálogo da exposição]

21 — Retrato da sr.ª D. C. M.

22 — Retrato da sr.ª D. O. B.

23 — Retrato do sr. A. Alberto.

24 — Retrato do sr. J. A. M.

25 — Retrato do sr. P. R.

DUARTE (A. R.) R. dos Ourives, Rio de Janeiro.

26 — Retrato do sr. Dr. Francisco Ferraz de Macedo.

27 — Retrato da sr.ª D. Ferraz de Macedo.

28 — Retrjatos dos meninos Fêrraz de Macedo.

GOMES (D. H.) Rua da Cruz dos Poyaes, 49.

29 — A entrada.

GRENO (A. C. M.) T. de S. Mamede, 38 , 1.°
(Adolfo Cesar Medeiros Greno, pesquisa google)

30 — Arabe, estudo.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 294, 21 de fevereiro de 1887]

31 — Pepita, estudo.

32 — Meditação.

33 — Ostras e mimosas.

34 — Fructos d’outomno.
[cf. Catálogo da exposição]

35 — A vocação.

36 — Pionias.

37 — Ostras e camarões.

38 — Papolas e botoes d’ouro.
[cf. Catálogo da exposição]
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 294, 21 de fevereiro de 1887]

39 — Flores de campo.
[cf. Catálogo da exposição]

40 — Pecegos.

41 — Pecegos e rosas.

42 — Pionias.

43 — Rosas e despedidas de verão.

44 — Rosas.

45 — Uvas e melancia.

46 — Mimosas.

47 — Malvaiscos.

48 — Lilases.

49 — Paisagem.

GYRÂO (J. de S. M.) R. da Conceição, á Lapa, 13.
(Moura Girão, pesquisa google

50 — Elle e ellas.
 
51 — Boa refeição.
[cf. Catálogo da exposição]

52 — Pato.

53 — Em Bellas.

54 — Um sultão.
[cf. Catálogo da exposição]

55 — Coelhos. Pertencem ao sr. J. H. S.

MALHOA (J.) Calçada Nova de S. Francisco, l0.
(José Malhoa, pesquisa google)
(Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra - GL5)
 

56 — O duque das cidades d’Africa.

57 — O bando de S. Jorge.
[cf. Catálogo da exposição]

O Bando de S. Jorge, José Malhoa, 1885, apresentado na 6.a Exposição d'Arte Moderna, em 1886.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

58 — Os archeiros.

59 — Praia dos Corvos, Seixal.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 294, 21 de fevereiro de 1887]

Corvos, Seixal, Praia, José Malhoa, 1885.
Imagem: Hemeroteca Digital

Seixal [Moinhos na Ponta dos Corvos] José Malhoa, 1905, 1885.
Imagem: Ilustração Antiga

60 — Cabeça, estudo.

61 — Retrato do sr. L. (Pastel).

MARTINS (J. J. C.) Thomar.
(Cipriano Martins, pesquisa google

62 — Egreja de S. João, Thomar.

Igreja de S. João, Tomar, Cipriano Martins 1886.
Imagem: Porto da Lage

63 — Uma rua em Thomar.

64 — Cabeça de garoto.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 294, 21 de fevereiro de 1887]

65 — Margens do Rio Nabão.

66 — Esperando a vez.

67 — Retrato de criança, desenho a carvão. 

ORTIGÃO (D. B.) G. dos Caetanos, n.° 30.
[v. informação relacionada: D. Bertha Ortigão na Cova da Piedade em 1886]

68 — O valle de Mourellos no outomno.

69 — O Lavadouro da quinta do Brejo.

70 — Esquina da estrada do Pombal.

71 — Taruca, Carocho e Farrusco.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 294, 21 de fevereiro de 1887

72 — Rosas.

73 — Rosas.

74 — Arenques e vinho branco.

75 — Os moinhos do Pragal.

76 — Mademoiselle.

77 — Prato decorativo.

78 — Idem.

79 — Idem.

80 — Idem.

81 — Idem.

82 — Idem.

83 — Idem.

PINTO (M. H.) R. d’Elvas, Portalegre.
(Manuel Henrique Pinto, pesquisa google)

84 — Ponte velha, Portalegre.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 294, 21 de fevereiro de 1887]

85 — Na Santarém, Figueiró.

86 — Idem. 

RAMALHO (A.) R. do Loreto, 61, 2.°
(António Ramalho, pesquisa google)

87 — Retrato do menino Gil Guedes Cabral.
[cf. Catálogo da exposição]

88 — Retrato da menina Margarida G. Cabral.
[cf. Catálogo da exposição]
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 294, 21 de fevereiro de 1887]

89 — Retrato do menino Eduardo Fontes Ganhado.
[cf. Catálogo da exposição]

90 — Paisagem.

91 — N’um atelier d’esculptor. Pert. ao sr. Conde da Praia e Monforte.

REIS (C.) R. da Conceição, 18, 3 .°, á Praça das Flores.
(Carlos Reis, pesquisa google)

92 — No atelier.
[cf. Catálogo da exposição]

93 — Jardim botânico.

94 — Retrato de J. V.

95 — Andalusa.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 294, 21 de fevereiro de 1887]

96 — Caminho da floresta.

SILVA PORTO (A. C.) Escola de Bellas-Artes.
(Silva Porto, pesquisa google)
(Silva Porto, pesquisa MatrizNet)

97 — A volta do mercado.

A volta do mercado, Silva Porto, 1886.
Imagem: MNAC

98 — Logar da Estalagem, Vizella.

99 — Fabrica de papel, Vizella.

100 — Largo do Matadouro, Thomar.

101 — Poço em Carnide.

102 — Tuy, margens do Minho.

103 — Tejo, effeito de luar.
[cf. Catálogo da exposição]

104 — Thomar, margens do Nabão.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 294, 21 de fevereiro de 1887]

105 — Monchão, idem.

106 — Moinhos de Matrena.

107 — Logar de Coimbrões.

108 — Ermida de S. Sebastião, Lumiar.

109 — Moinhos, Barreiro.

110 — Margens do Nabão, Thomar. Perto ao sr. Golumbano Bordallo Pinheiro.

Margens do Nabão, Tomar, Silva Porto, 1886.
Imagem: MNAC

VAZ (J.) Escolas Geraes, 2.
(João Vaz, pesquisa google)

111 — Canôa abicando á praia, Sado.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 294, 21 de fevereiro de 1887]

Canoa abicando à praia, João Vaz, 1886.
Imagem: Obra de João Vaz, no Facebook

112 — Um mosteiro manuelino, Setúbal.

113 — Praia da Maria Esguelha, Setubal.

114 — Chellas.

115 — Azenha no Almonde, Torres Novas.
[cf. Catálogo da exposição]

116 — Ponte da fabrica, Almonde.

117 — Olaias.

118 — Um pescador, estudo.

119 — Uma manhã no Sado.
[cf. Catálogo da exposição]

Uma manhã no Sado ou Manhã no Sado, João Vaz, 1886.
Imagem: Diamantino Vasconcelos no Facebook

120 — A torre d’Ajuda.
[cf. Catálogo da exposição]

121 — Na costa.

122 — Ermida de S. Gonçalo, arred. de Setúbal.

VIEIRA (J. R.) Leiria.
(João Rodrigues Vieira, pesquisa google

123 — Panier renversé.
[cf. Catálogo da exposição]

124 — A janella do alcaçar.

125 — Rosas.

126 — Praia da Nazareth.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 294, 21 de fevereiro de 1887]

ESCULPTURA

MOREIRA RATO (J. Rua Nova da Alegria, 47, 3 .®

127 — Flaneur, reproducçao em barro cosido.

128— Ovarina, estatua em gesso...

129 — Uma historia divertida, grupo em gesso...
[cf. Catálogo da exposição]

130 — Amuada, estatueta em gesso...

131 — Retrato do sr. R. Formigal, busto em bronze.

Grupo do Leão, o 6.° Salão (de Arte Moderna), 1886.
Imagem: Hemeroteca Digital


(1) O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 294, 21 de fevereiro de 1887
(2) Comércio de Portugal, 8 de julho de 1884

Críticas publicadas:
O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 294, 21 de fevereiro de 1887

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Cinco artistas em Cintra

Entre o muito que se escreveu sobre o referi do quadro de João Cristino da Silva (1855), salientamos duas interessantes leituras: [Cristino da Silva] Aproveitou-se de uma digressão a Cintra com alguns collegas para tirai d’ali o assumpto da sua composição. Cinco artistas em Cintra foi o titulo do quadro.

Cinco artistas em Sintra, João Cristino da Silva, 1855.
Imagem: MNAC

Representa elle cinco artistas no campo, desenhando do natural. Annunciação está assentado no centro; por traz d’elle, vê-se Metrass de pé. Alguns aldeãos olham com attenção e curiosidade para os albuns em que os dous desenham. N’um plano a distancia, estão Bastos e Christino de pé, e José Rodrigues assentado, desenhando tambem. Ao fundo, vê-se o castello da Pena.

Foi uma grande afirmação êsse quadro. Tentativa de novidade na atmosfera, perspectiva bem observada, boa distribuição no agrupamento das personagens, constituíram um episódio gracioso, moderno, vivido e bem executado. Apesar de muito terrosa ainda, a tonalidade geral da composição procura, todavia, libertar-se das receitas académicas. (1)


(1) Eduardo Duarte, Desenho romântico português, 2007

domingo, 9 de outubro de 2016

Grupo do Leão (5.ª exposição, 1885)

Comprehende se que no "Grupo do Leão" predominem os pintores de paysagem,— e perceber-se-ia até que n'este paiz, que em cada rugosidade de terreno, ao dobrar de cada monte, depara incomparavels elícitos de natureza, surgisse um povo inteiro de paysagistas.

O Moinho Gigante [de Alburrica, Barreiro] (O gigante, ao pôr do sol, Barreiro, 1885?), Silva Porto, 1887.
Imagem: Memórias e Imagens

Mas porque seguirão todos os artistas, como combinados, o panurgismo da moda villegiatureira, sahindo ao campo unicamente no verão,

O Grupo do Leão in O Contemporaneo n.° 147, Lisboa, 1885.
1 Silva Porto. 2 Alberto d'Oliveira. 3 Columbano.
4 Ramalho Junior. 5 José Malhos. 6 João Vaz. 7 João Vieira.
8 Gyrão. 9 Pinto. 10 Christino.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

e enchendo sempre as suas telas com as monotonas verduras estivaes, ingloriamente esquecidos dos ouropeis ferrujentos do outono, quando as folhas revoando como leves aves desamparadas despem os troncos, e das radiosas floraçoes primaveraes, e da nudez sagrada do inverno, quando as arvores levantam para o ceu gravemente os seus ramos intrincados, como braços que supplicam, e que a neve sudarial uma vez por outra vem forrar d'um rede, e fofo velludo branco? (1)

O Grupo do Leão (gravura no Museu do Chiado), Francisco Pastor, 1885.
Da esquerda para a direita e de cima para baixo: João Rodrigues Vieira, José Malhoa, Columbano Bordalo Pinheiro, António Carvalho da Silva Porto, António Ramalho, José de Moura Sousa Girão, J. J. Cipriano Martins, Berta Ramalho Ortigão, Maria Augusta Bordalo Pinheiro, Helena Gomes, Manuel Henrique Pinto, Rafael Bordalo Pinheiro, José Maria Moreira Rato Júnior, Alberto de Oliveira, José Júlio de Sousa Pinto, e João Ribeiro Cristino da Silva.
Imagem: MatrizNet

O grupo chamou-se do Leão, por causa de um café da rua do Principe...

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel Henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: MNAC

5.° Salão, Exposição d'Arte Moderna, 1885


Exposições de Quadros e d'Arte Moderna (1881-1889)
Catálogos Illustrados
Publicados por Alberto d'Oliveira
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BORDALLO PINHEIRO (D. M. A.) Pateo do Martel, 2.
(Maria Augusta Bordalo Pinheiro, pesquisa google)

1 — Rosas de maio.
[cf. Catálogo da exposição

2 — Rosas de Chá.

3 — Malvaíscos.
[cf. Catálogo da exposição

Malvaíscos,
Maria Augusta Bordalo Pinheiro 1885.
Imagem: MatrizNet

4 — Gira-soes.
[cf. Catálogo da exposição

5 — Velludo e rosas.

6 — Jarro com malvaíscos.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

7 — Malvaíscos, azulejos.

8 — Cesto com rosas.

9 — Rosas, porcelana.

10 — Amores perfeitos, faiança.

11 — Amores perfeitos, faiança.

12 — Amores perfeitos, faiança.

13 — Malvaiscos.

14 — Cabeça, desenho á penna.

BORDALLO PINHEIRO [Raphael] (R.) Largo da Abegoaria, 28, 2.°
(Rafael Bordalo Pinheiro, 1885, pesquisa Google

15 — Um accordo.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

16 — Dessidentes.

CHRISTINO DA SiLVA (J. R.) Rua da Graça, 47, 3.°
(Ribeiro Cristino, pesquisa google)

17 — Os freixiaes.
[cf. Catálogo da exposição

18 — A Merceana.
[cf. Catálogo da exposição
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

19 — A sésta.

20 — Azinhaga.

21 — Doka da Ribeira Velha.
[cf. Catálogo da exposição

22 — Provas de gravura em madeira.

COLUMBANO B. PINHEIRO, Pateo do Martel, 2.
(Columbano, pesquisa google)

23 — O mendigo.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

24 — Trecho difficil

25 — Cabeça.

26 — Cabeça.

27 — Retrato do sr. dr. Eduardo Burnay.

28 — Retrato do sr. José Pinto Sacavem.

29 — Retrato do sr. José Pessanha.

Retrato de D. José Pessanha, Columbano, 1885.
Imagem: MNAC

30 — Retrato do sr. José Queiroz.

31 — Retrato do sr. Mauricio Gomes.

32 — Retrato de Ramalho Ortigâo.

33 — Retrato de Arthur Loureiro.

34 — Retrato de Augusto Rosa.

35 — Esbocetos para decoração, carvôes.

GOMES (D. Helena) Rua Fresca, 6.

36 — Testemunhas d’accusaçào.

37 — Senhores da praça.

38 — Papoulas e begônias.
[cf. Catálogo da exposição

39 — Flores de campo.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

40 — Brincos de princeza.

41 — Flores.

42 — Flores e fructas.

GYRÃO (J. de S. M.) T. da Conçeiçâo á Lapa, 13.
(Moura Girão, pesquisa google)

43 — Boa refeição.
[cf. Catálogo da exposição

44 —-Pato.

45 — Gallo da ilha.

Galo da ilha, Moura Girão, 1885.
Imagem: Jornal das Caldas

46 — Gallo saloio.
[cf. Catálogo da exposição
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

47 — Uma capoeira.

48 — Em familia.

49 — Uma familia.

MALHOA (José) Pateo do Martel.
(José Malhoa, pesquisa google)
(Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra - GL5)


50 — Aldeia dos Escallos.

51 — Aldeia do Gravito.
[cf. Catálogo da exposição

52 — Ao cair da tarde.

53 — Ao nascer do sol.

54 — Interior da egreja de Pedrogào Grande.

55 — Valle de Gois.

56 — Costume do Minho.

57 — Costume do Porto.

58 — A fiandeira, Minho.

59 — O primeiro cigarro.

60 — Viatico ao Termo, Beira Baixa.

61 — Retrato do sr. João Vaz.

62 — Retrato do sr. C.

67 — Retrato do sr. Epiphanio J. David.

64 — Retrato da sr.ª D. J. M. David.

65 — João Rosa na Arlesiana, desenho.

66 — Do Pateo do Martel.

67 — Os moinhos.

68 — Ribeira do Gravito.

69 — Rua Dourada, Pedrogào Grande.

70 — Uma rua nos Escallos.

71 — Costume do Minho.

72 — Costume do Minho.

MARTINS (J. J. C.) Thomar.

73 — Fructos.

74 — Rua da Varzea Pequena, Thomar.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

75 — Estrada da Barquinha, Thomar.
[cf. Catálogo da exposição

76 — Castello dc Gualdim Paes, Thomar.
[cf. Catálogo da exposição

77 — Egreja da Conceição, Thomar.

78 — O descanço, costume.

79 — Margens do Nabâo, desenho.

PINTO (M. H.) Portalegre.
(Manuel Henrique Pinto, pesquisa google)

80 — Um pegulhal.
[cf. Catálogo da exposição

81 — Senhora da Esperança, Portalegre.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

82 — Um carril no matto, Portalegre.

83 — Pedra alçada, Portalegre.

84 — Cabeça do Mouro, Portalegre.

85 — Fonte dos Fornos, Portalegre.

86 — Bemposta, Portalegre.

87 — Bomfim, Portalegre.

88 — Pedra alçada, Portalegre.

89 — Pedra alçada, Portalegre.

90 — Bomfim, quinta do conde de Mello.

91 — Na ribeira.

ORTÍGÃO (D. B. R.) — C. dos Caetanos, 30, 3.°

92 — Recanto d’horta.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

93 — Costume de Vianna do Castello.

94 — Cabeça d’estudo.

95 — Um pandeiro.

RAMALHO (A. M.) Rue Gay Lussac, 45, Paris.
(António Ramalho, pesquisa google)
http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosListar.aspx?TipoPesq=4&NumPag=1&RegPag=50&Modo=1&IdAutor=68175

96 — Cabeça d’estudo.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

97 — Menino Gil Guedes Cabral, desenho.

98 — Menina Margarida G. Cabral, desenho.

SILVA PORTO (A. C.) Escola de Bellas-artes.
(Silva Porto, pesquisa google)
(Silva Porto, pesquisa MatrizNet)

99 — Campinos.
[cf. Catálogo da exposição

100 — Na arribana.

101 — Penedos, margens do Vizella.

102 — A manhã, Cascalheira.
[cf. Catálogo da exposição

103 — Praia de Valbom, Douro.

104 — Gollegã.
[cf. Catálogo da exposição
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

105 — Capella da Senhora do Valle, Cette.

106 — Logar da Estalagem, Vizella.
[cf. Catálogo da exposição

107 — Praia dos pescadores, Povoa do Varzim.

108 — O album.

109 — Azinhaga em Telheiras.

110 — Nas margens do Vizella.

111 — Caminho do Alfageme, Santarém.

112 — Caminho em Vizella.

113 — Praia da Foz.

114 — Mulher na fonte.

115 — Em Villa Franca.
[cf. Catálogo da exposição

116 — Fabrica de papel, Vizella.

117 — Mosteiro de Leça do Bailio.

118 — Moinhos, Barreiro.

119 — Estrada dc Bemfica.

120 — Logar de Coimbrões, arredores do Porto.

121 — Carvalheiras, Vizella.

122 — Caminho em Camarate.

123 — Ermida de S. Sebastião, Lumiar.

124 — O gigante, ao pôr do sol. Barreiro.

125 — Olival, Lumiar.

126 — Macieiras em flôr.

127 — Para a dcscascci.

128 — Bairro dos pescadores, Povoa.

129 — Costume hespanhol.

130 — Avintes, margeas do Douro.

SOUSA PINTO (J. J.) Paris.

131 — Colheita de batatas.

132 — Depois da penitencia.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

133 - Cabeça de camponez.

VAZ (J.) Calçada de Grillo, Xabregas.
(João Vaz, pesquisa google)

134 — Outomno.

135 — Castello d’Obidos.

136 — Na praia.
[cf. Catálogo da exposição

137 — Egreja da Graça, Santarém.
[cf. Catálogo da exposição

138 — O cypreste.
[cf. Catálogo da exposição

139 — Um fragmento gothico.

140 — Baixa-mar.

141 — Torre das Cabaças, Santarém.

Torre das Cabaças, Santarém, João Vaz, 1885.
Imagem: MNAC

143 — Praia-mar, Sado.
[cf. Catálogo da exposição
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

143 — Um dia chuvoso.

144 — Crepúsculo, Setúbal.

145 — Pateo de Toledo

146 — Convento de Christo, Thomar, carvão.

147 — Jorge, retrato a carvão.

VIEIRA (J. R.) Leiria.
(João Rodrigues Vieira, pesquisa google)

148 — Na janella do Alcaçar.

149 — Na toilette.
[cf. Catálogo da exposição
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

130 — Rosas.
[cf. Catálogo da exposição

151 — Flores e fructos.
[cf. Catálogo da exposição

152 — Sobeco, Nazareth.
[cf. Catálogo da exposição

153 — Flores.

154 — Seteaes, Cintra.

155 — Rapariga do Alemtejo.

156 — Pinhal, estudo.

157 — Flores.

158 — Aldeia da Telha.

159 — Flores.

160 — Pena, Cintra.

161 — Seteaes, Cintra.

163 — Rosas.

VILLAÇA (F.) Rue Gay-Lussac, 45 , Paris.

163 — Ultimo beijo do dia.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

164 — Retrato do sr. dr. Trigeiros de Martel.

Esculptura

MOREIRA RATO (J. M.) R. N. da Alegria, 47, 2.°

165 — Cain, estatua em gesso.

166 — Ovarina, estatua em gesso; em mármore.

167 — Flaneur, estatueta em barro cosido.
[cf. Catálogo da exposição

??? — A infância.
[cf. Catálogo da exposição
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]


Grupo do Leão, o 5.° Salão (de Arte Moderna), 1885.
Imagem: Hemeroteca Digital


(1) O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 1 de fevereiro de 1886

Críticas publicadas:
O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 1 de fevereiro de 1886

sábado, 24 de setembro de 2016

Henrique Pinto, João Vaz, Casanova e eu

Em uma bella tarde de primavera, depois de ter recebido em uma graciosa carta escripta na lingua de Cervantes, um amavel convite do meu amigo Casanova, para o acompanhar a Setubal, onde elle ia copiar o panorama da cidade, panorama com que foi inaugurada essa bella publicação do Portugal Pittoresco [1883], dirigi-me para a estação dos vapores do Terreiro do Paço em companhia do distincto aguarellista.

Lisboa, litografia aguarelada, Enrique Casanova, 1883.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Tomamos bilhete do caminho de ferro, e ao embarcarmos, deparámos com outro artista: Henrique Pinto, um bello rapaz, com quem passei uma boa parte da minha mocidade n'esses bons tempos da Academia.

Tínhamos então por mestre Thomaz José da Annunciação (1821–1879), que nos estimava a todos d'aquelle tempo mais como filhos do que como discípulos. Era o Coelho, o Verissimo, o Malhoa, o Climaco, Pinto e eu [Monteiro Ramalho?]; todos em excellente camaradagem, inutilisando télas com estudos "d'aprés nature", mais ou menos felizes, cheios de boa vontade e estimulados pelo mestre, que nos estimava deveras.

Paisagem com figura e gado junto ao Castelo de Palmela, Tomás da Anunciação, 1865.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

De todos o que menos aproveitou foi justamente o auctor d'estas linhas, não porque não cursasse o estudo com verdadeiro amor, mas porque a maior parte do tempo o perdia admirando o trabalho alheio.

A arte não perdeu com isso. Mais tarde, o que era de prever, seguimos todos vida diversa. Deixamos seccar as tintas na paleta, os pinceis endureceram e os nossos verdes anos foram em busca de posição mais lucrativa. 

O mestre tambem passado algum tempo foi repousar eternamente debaixo da sombra dos cyprestes.

Que intima saudade! Henrique Pinto é que nunca desamparou o seu posto. Atropellando todas as dificuldades, foi sempre trabalhando com assombrosa tenacidade. A arte foi sempre o seu grande ideal.

Castelo de Palmela, lápis sobre papel, Manuel Henrique Pinto.
Imagem: Manuel Henrique Pinto no Facebook
Como ia dizendo, Henrique Pinto estava dentro do vapor; ia tambem para Setubal. Trocamos um bom aperto de mão, e em alegre convivio, fomos todo o trajecto.

Chegados a Setubal, Henrique Pinto foi para casa de João Vaz e Casanova e eu fomo-nos hospedar no "Escoveiro", um magnifico hotel, onde depois de nos serviram um bom jantar, vieram visitar-nos Henrique Pinto e João Vaz.

Praça do Bocage c. 1900, Palácio Araujo à direita da igreja de S. Julião onde esteve instalado o hotel Escoveiro.
Imagem: Delcampe

João Vaz é um d'estes rapazes que basta vél-os a primeira vez para se ficar logo sendo amigo. De uma physionomia altamente sympathica, é de uma verdadeira prodigalidade em extremos de delicadeza. A sua conversação é variadissima e sempre animada, rindo com um ar franco e obrigando os outros a rir com os seus ditos de bom espirito.

No dia seguinte embarcamos e fomos procurar no Sado o melhor ponto onde Casanova fizesse o seu trabalho.

Setubal, gravura aguarelada, Enrique Casanova 1883.
Imagem: Olisipo

Passamos a bordo quasi todo o dia, e proximo da noite fomos pagar a visita a João Vaz.

Elle recebeu-nos no seu "atelier, porque; ainda não disse, João Vaz é tambem artista, mas um artista de grande merecimento, firmando o sea nome muitas telas, especialmente no genero da "marinhas", estudo a que elle se tem dedicado com bom exito.


Depois do mais bello cavaco e de nao termos saido de sua casa sem trazermos cada um seu quadro, fomos todos ao Club, aprecial-o novamente como pianista e, depois de nos deliciar com algumas producções da sua lavra, combinamos ir no dia seguinte a visitar o castello de Palmella.

Que agradavel passeio! De Setubal a Palmella a estrada é deliciosa, tão bonita e pittoresca que o trem que nos conduzia foi obrigado a parar porque nós assim o exigimos.

Oliveiras em Azeitão, óleo s metal, Tomás da Anunciação 1860.
Imagem: Diamantino Vasconcelos

Eu extasiado com a belleza da paizagem, os meus companheiros contentes de haverem encontrado mais um assumpto para os seus albuns. Faz gosto jornadear em companhia de artistas quando elles possuem tão excellente comprehensão do bello! 

Mais alguns minutos de demora e nós em Palmella, subindo a escarpada montanha, escorregando aqui, caindo acolá e, de quando em quando, olhando a traz, maravilhando a mim e a Casanova tão seductor ponto de vista.

Os nossos amigos já conheciam o sitio, mas creio bem que tão demorada attenção nunca lhe tinham prestado. Entrámos dentro do vetusto Castello, uma mal cuidada religuia a que guarda agora o pó das ruivas um pequeno destacamento de velhos reformados como a dizer que: sentinella e posto estão em perfeita harmonia.

O Castello de Palmella é uma das fortalezas que, apesar de tudo, existem em melhor estado de conservação. Possue uma torre de menagem onde existe uma casa quadrada com uma escada por onde se desce para um subterraneo e, proximo da entrada d'este subterraneo, ha outra casa com uma cisterna no centro, onde esteve preso o bispo de Evora, D. Garcia de Menezes.

Tudo derrocado, caído, abandonado, de molde a poetas e romancistas irem para ali inspirar-se. Foi para um dos montes fronteiros, a carta distancia, que junto de um moinho nos fomos sentar. 

Palmella (moinho), João Vaz.
Imagem: Diamantino Vasconcelos

Casanova desenhou e aguarelou no seu block a vista do Castello tal qual está representada na gravura que hoje damos, e que é uma das que illustram o esplendido Almanach Illustrado (1882-1888), de Francisco Pastor [editor, também da Semana Illustrada, colaborador do Diário Illustrado e director artístico do Correio da Europa].

Castello de Palmela, Enrique Casanova, 1883.
Imagem: Hemeroteca Digital

Quando Casanova, Pinto e João Vaz acabaram de desenhar, partimos todos para Lisboa, á excepção do ultimo, que ficou em sua casa, em Setubal, onde vive para a familia que o adora e para a arte que o seduz.

Quando nos despedimos prometti que não guardaria em silencio a impressão de dois dias tão bem passados. Chega agora a occasião de pagar a divida. Pago os juros, que o capital... só á vista. (1)


(1) M, Diário Illustrado, 10 de dezembro de 1883

Leitura adicional: Enrique Casanova, Diário Illustrado, 5 de setembro de 1883