domingo, 9 de outubro de 2016

Grupo do Leão (5.ª exposição, 1885)

Comprehende se que no "Grupo do Leão" predominem os pintores de paysagem,— e perceber-se-ia até que n'este paiz, que em cada rugosidade de terreno, ao dobrar de cada monte, depara incomparavels elícitos de natureza, surgisse um povo inteiro de paysagistas.

O Moinho Gigante [de Alburrica, Barreiro] (O gigante, ao pôr do sol, Barreiro, 1885?), Silva Porto, 1887.
Imagem: Memórias e Imagens

Mas porque seguirão todos os artistas, como combinados, o panurgismo da moda villegiatureira, sahindo ao campo unicamente no verão,

O Grupo do Leão in O Contemporaneo n.° 147, Lisboa, 1885.
1 Silva Porto. 2 Alberto d'Oliveira. 3 Columbano.
4 Ramalho Junior. 5 José Malhos. 6 João Vaz. 7 João Vieira.
8 Gyrão. 9 Pinto. 10 Christino.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

e enchendo sempre as suas telas com as monotonas verduras estivaes, ingloriamente esquecidos dos ouropeis ferrujentos do outono, quando as folhas revoando como leves aves desamparadas despem os troncos, e das radiosas floraçoes primaveraes, e da nudez sagrada do inverno, quando as arvores levantam para o ceu gravemente os seus ramos intrincados, como braços que supplicam, e que a neve sudarial uma vez por outra vem forrar d'um rede, e fofo velludo branco? (1)

O Grupo do Leão (gravura no Museu do Chiado), Francisco Pastor, 1885.
Da esquerda para a direita e de cima para baixo: João Rodrigues Vieira, José Malhoa, Columbano Bordalo Pinheiro, António Carvalho da Silva Porto, António Ramalho, José de Moura Sousa Girão, J. J. Cipriano Martins, Berta Ramalho Ortigão, Maria Augusta Bordalo Pinheiro, Helena Gomes, Manuel Henrique Pinto, Rafael Bordalo Pinheiro, José Maria Moreira Rato Júnior, Alberto de Oliveira, José Júlio de Sousa Pinto, e João Ribeiro Cristino da Silva.
Imagem: MatrizNet

O grupo chamou-se do Leão, por causa de um café da rua do Principe...

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel Henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: MNAC

5.° Salão, Exposição d'Arte Moderna, 1885


Exposições de Quadros e d'Arte Moderna (1881-1889)
Catálogos Illustrados
Publicados por Alberto d'Oliveira
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BORDALLO PINHEIRO (D. M. A.) Pateo do Martel, 2.
(Maria Augusta Bordalo Pinheiro, pesquisa google)

1 — Rosas de maio.
[cf. Catálogo da exposição

2 — Rosas de Chá.

3 — Malvaíscos.
[cf. Catálogo da exposição

Malvaíscos,
Maria Augusta Bordalo Pinheiro 1885.
Imagem: MatrizNet

4 — Gira-soes.
[cf. Catálogo da exposição

5 — Velludo e rosas.

6 — Jarro com malvaíscos.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

7 — Malvaíscos, azulejos.

8 — Cesto com rosas.

9 — Rosas, porcelana.

10 — Amores perfeitos, faiança.

11 — Amores perfeitos, faiança.

12 — Amores perfeitos, faiança.

13 — Malvaiscos.

14 — Cabeça, desenho á penna.

BORDALLO PINHEIRO [Raphael] (R.) Largo da Abegoaria, 28, 2.°
(Rafael Bordalo Pinheiro, 1885, pesquisa Google

15 — Um accordo.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

16 — Dessidentes.

CHRISTINO DA SiLVA (J. R.) Rua da Graça, 47, 3.°
(Ribeiro Cristino, pesquisa google)

17 — Os freixiaes.
[cf. Catálogo da exposição

18 — A Merceana.
[cf. Catálogo da exposição
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

19 — A sésta.

20 — Azinhaga.

21 — Doka da Ribeira Velha.
[cf. Catálogo da exposição

22 — Provas de gravura em madeira.

COLUMBANO B. PINHEIRO, Pateo do Martel, 2.
(Columbano, pesquisa google)

23 — O mendigo.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

24 — Trecho difficil

25 — Cabeça.

26 — Cabeça.

27 — Retrato do sr. dr. Eduardo Burnay.

28 — Retrato do sr. José Pinto Sacavem.

29 — Retrato do sr. José Pessanha.

Retrato de D. José Pessanha, Columbano, 1885.
Imagem: MNAC

30 — Retrato do sr. José Queiroz.

31 — Retrato do sr. Mauricio Gomes.

32 — Retrato de Ramalho Ortigâo.

33 — Retrato de Arthur Loureiro.

34 — Retrato de Augusto Rosa.

35 — Esbocetos para decoração, carvôes.

GOMES (D. Helena) Rua Fresca, 6.

36 — Testemunhas d’accusaçào.

37 — Senhores da praça.

38 — Papoulas e begônias.
[cf. Catálogo da exposição

39 — Flores de campo.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

40 — Brincos de princeza.

41 — Flores.

42 — Flores e fructas.

GYRÃO (J. de S. M.) T. da Conçeiçâo á Lapa, 13.
(Moura Girão, pesquisa google)

43 — Boa refeição.
[cf. Catálogo da exposição

44 —-Pato.

45 — Gallo da ilha.

Galo da ilha, Moura Girão, 1885.
Imagem: Jornal das Caldas

46 — Gallo saloio.
[cf. Catálogo da exposição
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

47 — Uma capoeira.

48 — Em familia.

49 — Uma familia.

MALHOA (José) Pateo do Martel.
(José Malhoa, pesquisa google)
(Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra - GL5)


50 — Aldeia dos Escallos.

51 — Aldeia do Gravito.
[cf. Catálogo da exposição

52 — Ao cair da tarde.

53 — Ao nascer do sol.

54 — Interior da egreja de Pedrogào Grande.

55 — Valle de Gois.

56 — Costume do Minho.

57 — Costume do Porto.

58 — A fiandeira, Minho.

59 — O primeiro cigarro.

60 — Viatico ao Termo, Beira Baixa.

61 — Retrato do sr. João Vaz.

62 — Retrato do sr. C.

67 — Retrato do sr. Epiphanio J. David.

64 — Retrato da sr.ª D. J. M. David.

65 — João Rosa na Arlesiana, desenho.

66 — Do Pateo do Martel.

67 — Os moinhos.

68 — Ribeira do Gravito.

69 — Rua Dourada, Pedrogào Grande.

70 — Uma rua nos Escallos.

71 — Costume do Minho.

72 — Costume do Minho.

MARTINS (J. J. C.) Thomar.

73 — Fructos.

74 — Rua da Varzea Pequena, Thomar.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

75 — Estrada da Barquinha, Thomar.
[cf. Catálogo da exposição

76 — Castello dc Gualdim Paes, Thomar.
[cf. Catálogo da exposição

77 — Egreja da Conceição, Thomar.

78 — O descanço, costume.

79 — Margens do Nabâo, desenho.

PINTO (M. H.) Portalegre.
(Manuel Henrique Pinto, pesquisa google)

80 — Um pegulhal.
[cf. Catálogo da exposição

81 — Senhora da Esperança, Portalegre.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

82 — Um carril no matto, Portalegre.

83 — Pedra alçada, Portalegre.

84 — Cabeça do Mouro, Portalegre.

85 — Fonte dos Fornos, Portalegre.

86 — Bemposta, Portalegre.

87 — Bomfim, Portalegre.

88 — Pedra alçada, Portalegre.

89 — Pedra alçada, Portalegre.

90 — Bomfim, quinta do conde de Mello.

91 — Na ribeira.

ORTÍGÃO (D. B. R.) — C. dos Caetanos, 30, 3.°

92 — Recanto d’horta.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

93 — Costume de Vianna do Castello.

94 — Cabeça d’estudo.

95 — Um pandeiro.

RAMALHO (A. M.) Rue Gay Lussac, 45, Paris.
(António Ramalho, pesquisa google)
http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosListar.aspx?TipoPesq=4&NumPag=1&RegPag=50&Modo=1&IdAutor=68175

96 — Cabeça d’estudo.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

97 — Menino Gil Guedes Cabral, desenho.

98 — Menina Margarida G. Cabral, desenho.

SILVA PORTO (A. C.) Escola de Bellas-artes.
(Silva Porto, pesquisa google)
(Silva Porto, pesquisa MatrizNet)

99 — Campinos.
[cf. Catálogo da exposição

100 — Na arribana.

101 — Penedos, margens do Vizella.

102 — A manhã, Cascalheira.
[cf. Catálogo da exposição

103 — Praia de Valbom, Douro.

104 — Gollegã.
[cf. Catálogo da exposição
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

105 — Capella da Senhora do Valle, Cette.

106 — Logar da Estalagem, Vizella.
[cf. Catálogo da exposição

107 — Praia dos pescadores, Povoa do Varzim.

108 — O album.

109 — Azinhaga em Telheiras.

110 — Nas margens do Vizella.

111 — Caminho do Alfageme, Santarém.

112 — Caminho em Vizella.

113 — Praia da Foz.

114 — Mulher na fonte.

115 — Em Villa Franca.
[cf. Catálogo da exposição

116 — Fabrica de papel, Vizella.

117 — Mosteiro de Leça do Bailio.

118 — Moinhos, Barreiro.

119 — Estrada dc Bemfica.

120 — Logar de Coimbrões, arredores do Porto.

121 — Carvalheiras, Vizella.

122 — Caminho em Camarate.

123 — Ermida de S. Sebastião, Lumiar.

124 — O gigante, ao pôr do sol. Barreiro.

125 — Olival, Lumiar.

126 — Macieiras em flôr.

127 — Para a dcscascci.

128 — Bairro dos pescadores, Povoa.

129 — Costume hespanhol.

130 — Avintes, margeas do Douro.

SOUSA PINTO (J. J.) Paris.

131 — Colheita de batatas.

132 — Depois da penitencia.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

133 - Cabeça de camponez.

VAZ (J.) Calçada de Grillo, Xabregas.
(João Vaz, pesquisa google)

134 — Outomno.

135 — Castello d’Obidos.

136 — Na praia.
[cf. Catálogo da exposição

137 — Egreja da Graça, Santarém.
[cf. Catálogo da exposição

138 — O cypreste.
[cf. Catálogo da exposição

139 — Um fragmento gothico.

140 — Baixa-mar.

141 — Torre das Cabaças, Santarém.

Torre das Cabaças, Santarém, João Vaz, 1885.
Imagem: MNAC

143 — Praia-mar, Sado.
[cf. Catálogo da exposição
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

143 — Um dia chuvoso.

144 — Crepúsculo, Setúbal.

145 — Pateo de Toledo

146 — Convento de Christo, Thomar, carvão.

147 — Jorge, retrato a carvão.

VIEIRA (J. R.) Leiria.
(João Rodrigues Vieira, pesquisa google)

148 — Na janella do Alcaçar.

149 — Na toilette.
[cf. Catálogo da exposição
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

130 — Rosas.
[cf. Catálogo da exposição

151 — Flores e fructos.
[cf. Catálogo da exposição

152 — Sobeco, Nazareth.
[cf. Catálogo da exposição

153 — Flores.

154 — Seteaes, Cintra.

155 — Rapariga do Alemtejo.

156 — Pinhal, estudo.

157 — Flores.

158 — Aldeia da Telha.

159 — Flores.

160 — Pena, Cintra.

161 — Seteaes, Cintra.

163 — Rosas.

VILLAÇA (F.) Rue Gay-Lussac, 45 , Paris.

163 — Ultimo beijo do dia.
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]

164 — Retrato do sr. dr. Trigeiros de Martel.

Esculptura

MOREIRA RATO (J. M.) R. N. da Alegria, 47, 2.°

165 — Cain, estatua em gesso.

166 — Ovarina, estatua em gesso; em mármore.

167 — Flaneur, estatueta em barro cosido.
[cf. Catálogo da exposição

??? — A infância.
[cf. Catálogo da exposição
[cf. O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 11 de fevereiro de 1886]


Grupo do Leão, o 5.° Salão (de Arte Moderna), 1885.
Imagem: Hemeroteca Digital


(1) O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 1 de fevereiro de 1886

Críticas publicadas:
O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 256, 1 de fevereiro de 1886

sábado, 24 de setembro de 2016

Henrique Pinto, João Vaz, Casanova e eu

Em uma bella tarde de primavera, depois de ter recebido em uma graciosa carta escripta na lingua de Cervantes, um amavel convite do meu amigo Casanova, para o acompanhar a Setubal, onde elle ia copiar o panorama da cidade, panorama com que foi inaugurada essa bella publicação do Portugal Pittoresco [1883], dirigi-me para a estação dos vapores do Terreiro do Paço em companhia do distincto aguarellista.

Lisboa, litografia aguarelada, Enrique Casanova, 1883.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Tomamos bilhete do caminho de ferro, e ao embarcarmos, deparámos com outro artista: Henrique Pinto, um bello rapaz, com quem passei uma boa parte da minha mocidade n'esses bons tempos da Academia.

Tínhamos então por mestre Thomaz José da Annunciação (1821–1879), que nos estimava a todos d'aquelle tempo mais como filhos do que como discípulos. Era o Coelho, o Verissimo, o Malhoa, o Climaco, Pinto e eu [Monteiro Ramalho?]; todos em excellente camaradagem, inutilisando télas com estudos "d'aprés nature", mais ou menos felizes, cheios de boa vontade e estimulados pelo mestre, que nos estimava deveras.

Paisagem com figura e gado junto ao Castelo de Palmela, Tomás da Anunciação, 1865.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

De todos o que menos aproveitou foi justamente o auctor d'estas linhas, não porque não cursasse o estudo com verdadeiro amor, mas porque a maior parte do tempo o perdia admirando o trabalho alheio.

A arte não perdeu com isso. Mais tarde, o que era de prever, seguimos todos vida diversa. Deixamos seccar as tintas na paleta, os pinceis endureceram e os nossos verdes anos foram em busca de posição mais lucrativa. 

O mestre tambem passado algum tempo foi repousar eternamente debaixo da sombra dos cyprestes.

Que intima saudade! Henrique Pinto é que nunca desamparou o seu posto. Atropellando todas as dificuldades, foi sempre trabalhando com assombrosa tenacidade. A arte foi sempre o seu grande ideal.

Castelo de Palmela, lápis sobre papel, Manuel Henrique Pinto.
Imagem: Manuel Henrique Pinto no Facebook
Como ia dizendo, Henrique Pinto estava dentro do vapor; ia tambem para Setubal. Trocamos um bom aperto de mão, e em alegre convivio, fomos todo o trajecto.

Chegados a Setubal, Henrique Pinto foi para casa de João Vaz e Casanova e eu fomo-nos hospedar no "Escoveiro", um magnifico hotel, onde depois de nos serviram um bom jantar, vieram visitar-nos Henrique Pinto e João Vaz.

Praça do Bocage c. 1900, Palácio Araujo à direita da igreja de S. Julião onde esteve instalado o hotel Escoveiro.
Imagem: Delcampe

João Vaz é um d'estes rapazes que basta vél-os a primeira vez para se ficar logo sendo amigo. De uma physionomia altamente sympathica, é de uma verdadeira prodigalidade em extremos de delicadeza. A sua conversação é variadissima e sempre animada, rindo com um ar franco e obrigando os outros a rir com os seus ditos de bom espirito.

No dia seguinte embarcamos e fomos procurar no Sado o melhor ponto onde Casanova fizesse o seu trabalho.

Setubal, gravura aguarelada, Enrique Casanova 1883.
Imagem: Olisipo

Passamos a bordo quasi todo o dia, e proximo da noite fomos pagar a visita a João Vaz.

Elle recebeu-nos no seu "atelier, porque; ainda não disse, João Vaz é tambem artista, mas um artista de grande merecimento, firmando o sea nome muitas telas, especialmente no genero da "marinhas", estudo a que elle se tem dedicado com bom exito.


Depois do mais bello cavaco e de nao termos saido de sua casa sem trazermos cada um seu quadro, fomos todos ao Club, aprecial-o novamente como pianista e, depois de nos deliciar com algumas producções da sua lavra, combinamos ir no dia seguinte a visitar o castello de Palmella.

Que agradavel passeio! De Setubal a Palmella a estrada é deliciosa, tão bonita e pittoresca que o trem que nos conduzia foi obrigado a parar porque nós assim o exigimos.

Oliveiras em Azeitão, óleo s metal, Tomás da Anunciação 1860.
Imagem: Diamantino Vasconcelos

Eu extasiado com a belleza da paizagem, os meus companheiros contentes de haverem encontrado mais um assumpto para os seus albuns. Faz gosto jornadear em companhia de artistas quando elles possuem tão excellente comprehensão do bello! 

Mais alguns minutos de demora e nós em Palmella, subindo a escarpada montanha, escorregando aqui, caindo acolá e, de quando em quando, olhando a traz, maravilhando a mim e a Casanova tão seductor ponto de vista.

Os nossos amigos já conheciam o sitio, mas creio bem que tão demorada attenção nunca lhe tinham prestado. Entrámos dentro do vetusto Castello, uma mal cuidada religuia a que guarda agora o pó das ruivas um pequeno destacamento de velhos reformados como a dizer que: sentinella e posto estão em perfeita harmonia.

O Castello de Palmella é uma das fortalezas que, apesar de tudo, existem em melhor estado de conservação. Possue uma torre de menagem onde existe uma casa quadrada com uma escada por onde se desce para um subterraneo e, proximo da entrada d'este subterraneo, ha outra casa com uma cisterna no centro, onde esteve preso o bispo de Evora, D. Garcia de Menezes.

Tudo derrocado, caído, abandonado, de molde a poetas e romancistas irem para ali inspirar-se. Foi para um dos montes fronteiros, a carta distancia, que junto de um moinho nos fomos sentar. 

Palmella (moinho), João Vaz.
Imagem: Diamantino Vasconcelos

Casanova desenhou e aguarelou no seu block a vista do Castello tal qual está representada na gravura que hoje damos, e que é uma das que illustram o esplendido Almanach Illustrado (1882-1888), de Francisco Pastor [editor, também da Semana Illustrada, colaborador do Diário Illustrado e director artístico do Correio da Europa].

Castello de Palmela, Enrique Casanova, 1883.
Imagem: Hemeroteca Digital

Quando Casanova, Pinto e João Vaz acabaram de desenhar, partimos todos para Lisboa, á excepção do ultimo, que ficou em sua casa, em Setubal, onde vive para a familia que o adora e para a arte que o seduz.

Quando nos despedimos prometti que não guardaria em silencio a impressão de dois dias tão bem passados. Chega agora a occasião de pagar a divida. Pago os juros, que o capital... só á vista. (1)


(1) M, Diário Illustrado, 10 de dezembro de 1883

Leitura adicional: Enrique Casanova, Diário Illustrado, 5 de setembro de 1883

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Grupo do Leão (4.ª exposição, 1884)

Na quarta exposição de quadros, que nos mostrou com a sua energia tenaz, persistindo — de anno em anno, e creando consoladoramente a dupla força da vida em lucta, emprehendedora, e da tradicção que sustenta e empurra, — o bando d'artistas caracteristicamente embandeirolado com a taboleta alegre e fulva e rompante de "Grupo do Leão", era a larga tela de Silva Porto intitulado A Salmeja — a obra mestra. (1)

A Salmeja, Silva Porto, 1884.
Imagem: Viagens Pelo Oeste

O grupo chamou-se do Leão, por causa de um café da rua do Principe...

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel Henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: MNAC

4.° Salão, Exposição de Quadros Modernos, 1884


Exposições de Quadros e d'Arte Moderna (1881-1889)
Catálogos Illustrados
Publicados por Alberto d'Oliveira
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CHRISTINO DA SILVA (J. R.) Rua de S. Vicente, 30, 1.°.
(Ribeiro Cristino, pesquisa google)

1 — Na serra do Monte Junto.

2 — O passeio das aguas em Alemquer.
[cf. Catálogo da exposição

3 — O lago do Antelmo.

4 — Torre do convento de Villa Verde.

5 — A fonte d’aldeia.

6 — Um riacho no monte.

7 — Convento de S. Francisco, Villa Verde. Pertence ao sr. visconde de Chancelleiros.

COLUMBANO BORDALLO PINHEIRO L. das Taipas, 83.
(Columbano, pesquisa google)

8 — Retrato da sr.ª D. Cassilda Martins.

Retrato da sr.ª D. Cassilda Martins, Columbano, 1884.
Imagem: Memórias e Imagens

9 — Retrato da sr.ª D. Anna Level.

10 — Retrato do sr. dr. Marianno Level.

11 — Retrato de M. Gustavo Bordallo Pinheiro.
[cf. Catálogo da exposição

Retrato de Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro, Columbano, 1884.
Imagem: Wikipédia

12 — No meu atelier.
[cf. Catálogo da exposição

Arte Pintura Grupo do Leão 1884  No meu atelier Columbano.jpg
Imagem: Alexandre Pomar

13 — Uma fifia.
[cf. Catálogo da exposição

14 — Camponeza de Fontainebleau

15 — Um typo.

16 — O bom cigarro.

17 — Satyros (talha em barro cozido).

GYRÃO (J. DE S. M.) Atelier Trav. da Conceição, á Lapa, 13.
(Moura Girão, pesquisa google)

18 — Uma familia.
[cf. Catálogo da exposição

Uma familia, Moura Girão, 1884.

19 — Boa colheita.

20 — Uma tentação.

21 — Patos no lago.

22 — Coelhos.
[cf. Catálogo da exposição

23 — Um observador.

24 — Coelhos comendo.

25 — Paizagem de Cintra.

Paisagem de Sintra, Moura Girão, 1884.
Imagem: arcadja

MALHOA (J. V. B.) T. dos Fieis de Deus, 57, 2.°.
(José Malhoa, pesquisa google)

26 — O viatico ao termo, costume da Beira Baixa.
[cf. Catálogo da exposição

O viático do termo, costume da Beira Baixa, José Malhoa, 1884.
Imagem: Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra

27 — A fiandeira, costume do Minho.
[cf. Catálogo da exposição

28 — Margens do Vouga.

29 — Ribeira d’Alge.

30 — Um pateo em Figueiró.

31 — Pateo de la Merced, Toledo.

32 — Silhouette de Toledo.
[cf. Catálogo da exposição

33 — Cabeça de estudo.

34 — Retrato do sr. D. I. B.

PINTO (M. H.) Portalegre.
(Manuel Henrique Pinto, pesquisa google)

35 — Na horta.

36 — Na ribeira.
[cf. Catálogo da exposição]  

RAMALHO (A. M.)  R. Campagne Première, 15, Paris.
(António Ramalho, pesquisa google)

37 — No museu de Cluny, Paris.

38 — Retrato do sr. José Malhôa (1882).

39 — Retrato do sr. João Vieira (1882).

40 — No jardim do Luxembourg.

41 — Uma nesga de Paris.

42 — Paizagem em Fontenay-aux-roses.

43 — Paizagem em Poissy.

44 — Distrações.

SILVA PORTO (A. C.) Escola de Bellas-Artes.
(Silva Porto, pesquisa google)

45 — A Salmeja, Lumiar.
[cf. Catálogo da exposição]
[v. imagem no topo da página]

46 — Vaccas na arribana.

47 — Singelada.

48 — Rio Vizella.

49 — Queda d’agua, Vizella.

50 — Ponte Velha, Vizella.

51 — Caminho novo, Vizella.

52 — A manhã, margens do Vizella.
[cf. Catálogo da exposição

[A manhã,] margens do Vizella, Silva Porto, 1884.
Imagem: MatrizNet

53 — Os moinhos, Cascalheira.

54 — No Areinho, Douro.
[cf. Catálogo da exposição

No Areinho, Silva Porto, 1880(?), 1884(?).
Imagem: Wikipédia

55 — Praia de Valbom, Douro.

56 — Praia dos pescadores, Povoa.
[cf. Catálogo da exposição

Praia dos pescadores, Póvoa [do Varzim], Silva Porto 1884.
Imagem: Do Tempo da Outra Senhora

57 — Bairro dos pescadores. Povoa.

Bairro dos pescadores (0,20x0,30), Póvoa [do Varzim], Silva Porto 1884.
Imagem: Do Tempo da Outra Senhora

58 — Praia da Povoa do Varzim.

59 — Logar de Campanhã.

60 — Villa do Conde.
[cf. Catálogo da exposição

Vila do Conde, Silva Porto, 1884.
Imagem: do Porto e não só...

61 — Rapariga da Povoa do Varzim.

62 — Lagoa do Arieiro, Lumiar.
[cf. Catálogo da exposição

63 — Valle de Forno, Lumiar.

64 — A seifa, Lumiar.

A Ceifa, Silva Porto 1884.
Imagem: DGPC

65 — Olival, Lumiar.

66 — Azinhaga de Telheiros.

67 — No jardim.

68 — A parreira, Telheiros.

A Parreira, Telheiros [Telheiras?], Silva Porto, 1884.
Imagem: Palácio do Correio Velho

69 — Caminho da Venda Secca.

70 — Contrariada.
[cf. Catálogo da exposição

Contrariada, Silva Porto, c. 1844.
Imagem: MutualArt

VAZ (J.) Calçada do Grilo, 3 , Xabregas.
(João Vaz, pesquisa google)

71 — Barcos no Sado.
[cf. Catálogo da exposição

Barcos no Sado, João Vaz, 1884.
Imagem: Obra de João Vaz no Facebook

72 — A pesca das lulas.
[cf. Catálogo da exposição

A peca das lulas, João Vaz, 1884.
Imagem: Obra de João Vaz no Facebook

73 — Convento de Christo, Thomar.

74 — O mestre da canôa, estudo.

75 — No concerto da rede.


No concerto da rede (ou Concertando a rede), João Vaz, 1884.
Imagem: Largo da memória

76 — Ao pôr do sol, Leiria.
[cf. Catálogo da exposição

77 — A porta da quinta, Setúbal.

78 — Barracas de pescadores, Setúbal.

79 — A casa da Maria Telles, Coimbra.

80 — Barcos encalhados, Setúbal.

81 — Callejon del Vicário, Toledo.

VIEIRA (J. R.) Leiria.
(João Rodrigues Vieira, pesquisa google)

82 — Leilão da pesca, praia da Nazareth.
[cf. Catálogo da exposição


83 — Quinta velha de Santa Cruz, Coimbra.

84 — Rosas.
[cf. Catálogo da exposição

85 — Cintra, estudo.

86 — Cabeça de creança.

87 — Cintra, estudo.

88 — Retrato do sr. Augusto Bettencourt.

Grupo do Leão, 4.° Salão de Quadros em 1884, .
Imagem: O Occidente Hemeroteca Digital


(1) O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 220, 1 de fevereiro de 1885

Críticas publicadas:
O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 220, 1 de fevereiro de 1885
O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 223, 1 de março de 1885

domingo, 18 de setembro de 2016

Palette de Alfredo Cristiano Keil (1850-1907)

A moda, que tudo altera, corrompe, destroe, imita, inventa, copia e contunde, tem ultimamente adquirido proporções exaggeradas nos paizes europeus, mesmo nos mais cultos, fazendo com que brotasse nas camadas sociaes, desde a mais elevada até á mais modesta, a ideia de um novo "sport": o de colleccionar antiguidades. (1)

Leitura de uma carta (detalhe), Alfredo Keil, 1874.
Imagem: MNAC

Durante cerca de um ano [Alfredo Keil] estudou na Academia Real de Nuremberga, sob a direcção do neo-romântico August von Kreling, mas num tempo em que a idealização alemã da paisagem também já dera lugar à observação realista, fiel e minuciosa, da natureza e das suas constantes variações de luz e clima.

A segunda "viagem" tem Barbizon por destino e data de Junho-Julho de 1877, já alguns anos depois do prolongamento, irregular e pouco interessado, dos estudos na Academia Real de Lisboa, onde foi colega de Rafael Bordalo Pinheiro e Malhoa.

Champs-Elysées, Alfredo Keil, 1883.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Essa estada em Barbizon, mostrada em sete pequenas telas daí trazidas e num auto-retrato pintando na floresta, já do ano seguinte, em Lisboa, de mais imponente formato, é uma das grandes surpresas oferecidas pela exposição.

O facto de ser ignorada pelos que escreveram sobre Keil é tão mais surpreendente quanto a história nacional atribui oficialmente o início da nossa pintura moderna, dita naturalista, à aprendizagem de Silva Porto e Marques de Oliveira nos arredores de Paris, mesmo se a "Escola" que informalmente aí nascera, já banalizada pela concentração de pintores e consagrada nos salões, se pudesse entender, na década de 70, como a despedida da última geração romântica.

Lisboa vista do Ginjal, Alfredo Keil.
Imagem: Casario do Ginjal

Keil foi sendo sempre designado como neo-romântico, tardo-romântico ou pré-naturalista, segundo um modelo historiográfico (Reynaldo dos Santos e José-Augusto França) que prezou demasiado as fórmulas classificativas e de grupo, consideradas como obrigatórias etapas de passagem num único itinerário progressivo. 

Cais do Ginjal, Óleo, Alfredo Keil
Imagem: Casario do Ginjal



Com escassa observação das obras e errada informação documental, as etiquetas davam-no como um "pintor de transição" e "isolado" face aos membros do Grupo do Leão, "preso a um espírito neo-romântico", que continuou, no entanto, a gozar dos "favores de uma clientela mundana". 

Esse desentendimento, prolongado na ideia de um diletante e amador (de facto, não cumpriu formação académica e dividiu-se por múltiplas actividades, mas com reconhecida competência e deixando uma vastíssima obra de pintor), parece prolongar susceptibilidades do tempo que só uma análise mais fina da vida cultural de Lisboa esclarecerá.

Landscape Necklaces, Alfredo Keil.
Imagem: MutualArt

Até 1880, Keil é muito elogiado e premiado. Nesse ano participa pela última vez na exposição da Promotora, a 12.ª, onde se revela o grupo dos naturalistas. 

Ausente das Exposições de Quadros Modernos (depois de Arte Moderna, 1881-88) promovidas por estes, praticamente só voltaria a expor na mostra de "Estudos de Paisagens e Marinhas", com 258 pinturas, que organizou em 1890 no seu atelier, pouco depois dos êxitos da ópera Dona Branca e da marcha patriótica A Portuguesa. 

Vapor da carreira de Cacilhas, 1890, Óleo, Alfredo Keil
Imagem: Casario do Ginjal



Apesar de ter sido talvez a exposição de pintura mais visitada do século XIX, e quase toda vendida, foi praticamente ignorada pela "crítica naturalista". (2)

Cais de Santos, vista da Rocha do Conde de Óbidos, Alfredo Keil, 1873.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Na década de 1880, Keil deixou de expor na Sociedade Promotora de Belas Artes e nunca apareceu nas exposições de "Quadros Modernos" ou de "Arte Moderna" promovidas pelo Grupo do Leão em Lisboa. 

Este desalinhamento prejudicou, mais tarde, a sua apreciação por uma historiografia que, no século XX, se esgotou no jogo dos agrupamentos escolares, a cujas etiquetas ("romântico", "naturalista", "modernista") nunca se prestou bem. 

No cais do Tejo, Alfredo Keil, 1881.
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Ficou condenado a fazer figura de "isolado" ou, pior, "pintor de transição". Isso já no seu tempo despistou os críticos, que gostariam de o ter visto estacionar nalguma tendência mais ou menos clara. 

Alfredo Cristiano Keil (1850-1907).
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O seu eclectismo apareceu-lhes como a indefinição típica de um "curioso" nas artes e nas letras. Keil nunca contou com a solidariedade, no meio artístico e literário, de uma "escola", "geração" ou "grupo". 

A diligência que ligava Tomar à Sertã, Alfredo Keil, Tojos e Rosmaninhos, Lisboa, A Editora, 1907.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Em 1869, em carta à mãe, atribuía-se um "génio tristonho, amigo da solidão, buscando fugir ao sussurro das grandes sociedades e procurando cenas melancólicas". (3)

Catalogo da exposição de pintura de quadros..., Lisboa, A Editora, 1910
Imagem: Internet Archive


(2) Alfredo Keil, Collecções e Museus de Arte em Lisboa, Lisboa, Livraria Ferreira e Oliveira, 1905
(2) Alexandre Pomar cf. ALFREDO KEIL 1850-1907, Viagens artísticas in EXPRESSO/Cartaz de 2/3/2002
(3) Rui Ramos, O Cidadão Keil, Publicações D. Quixote, 2010