sábado, 13 de agosto de 2016

Geração de 70 e Quinta da Rabicha

Ramalho Ortigão tem phisionomia e não a perde nunca. Fomos de uma vez á horta da Rabicha: elle, Anthero do Quental, Jayme Batalha Reis, Alberto de Queiroz, João Burnay, Oliveira Martins... 

Geração de 70, o Grupo dos Cinco: Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Antero de Quental, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro.

O nome de Oliveira Martins é hoje conhecido no paiz; áquelle tempo não pôde dizer-se que o fosse: havia produzido apenas um livro sobre Camões e a sua obra em relação á sociedade portugueza e ao movimento da renascença, editado no Porto, com o titulo de Camões e os Lusíadas.

O publico não conhecia nem o passado d'esse escriptor nem o seu género de estudos, nem a originalidade do seu methodo. Em vez de viver na intimidade dos livros de litteratura amena, que andam mais em uso, e se encontram por ahi em todas as estantes e livrarias, entregára-se sempre esse moço ás obras severas dos pensadores, estudando-as era boa ordem, annotando-as, nunca as deixando meio exploradas, e adquirindo grande abundância de conhecimentos. Talento reflexivo, philosophico, averiguador.

Coisa singular: tão dissimilhanles como eram as nossas predilecções litterarias, cntretinhamo-nos muito conversando de letras. Sabia o Proudhon na ponta da língua, e entrava pelos philosophos e políticos d'essa família; mas, de vez em quando apparecia, de manhã, em minha casa, e nunca encontrei espirito que melhor sentisse o folhetim do que elle.

Os Vencidos da Vida: António Maria Vasco de Melo César e Meneses, Luís Augusto Pinto de Soveral, Carlos Félix de Lima Mayer, Francisco Manuel de Melo Breyner, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, Carlos Lobo d'Ávila, Bernardo Pinheiro Correia de Melo, Eça de Queirós e J. P. de Oliveira Martins
Imagem: Wikipédia

Sempre guardei lembrança d'isso, e, como podem calcular, a minha estimação por elle tornou-se mais affectuosa. É um philosopho e ao mesmo tempo um artista. Oliveira Martins; tem grande e alto raciocínio, e ao mesmo tempo sensibilidade de poeta. Com que amor elle estudou os Lusíadas, e a vida venturosa, romantica, heróica, do Camões, lucta do talento contra a riqueza e a tolice!

Mas, emfim, n'aquella tarde da Rabicha, sinceramente se lhe figurou que, épico por épico, não ficasse a dever nada ao outro quem compozesse uma caldeirada em seis cantos — que tantos eram os que iam saudar, cantando-a ás auras e aos Arcos das Aguas Livres — a canto, por talher! — essa obra que emprehendi.

João Burnay havia mandado conduzir para alli, não sei se n'uma padiola se n'um omnibus, um roast-beef. Pela minha parte, para não deixar na sombra esse clarão de meu engenho, cumpre-me dizer-lhes que havia tomado perante Deus, elles, a Rabicha, e a minha consciência, o encargo glorioso de confeccionar lá mesmo a caldeirada das caldeiradas.

O ponto de reunião era na rua da Piedade, á Praça das Flores, — onde morava então Anthero do Quental. Alli nos juntámos n'um dia de verão esplendido, e partiu a caravana ao meio dia. Estava um sol de rachar. Poucos passos adeante ia resolver-se mandar buscar seges, mas ouviu-se uma voz sahir de um kiosque apostrofando-nos:

— Que! Seges?! Qual diabo! Vamos a pé!

Era Ramalho Ortigão, que assim exprimia as suas convicções por baixo de um panamá; mas um panamá, façam-me favor! digno emulo d'aquella couve heróica, que de uma vez deu sombra ao exercito de Napoleão! Encontrámos a guarda, — parou o official, pasmado, e os soldados iam cahindo de pasmo...

Na Rabicha a impressão foi profunda. Ramalho, alegre, risonho, ousado, explicou ao dono da fazenda, homenzarrão intrépido e de alta e antiga fama de valente com os homens e terno com o femeaço, pimpão reformado, a quem uma bala levara o braço direito, que, apesar de maneta, tinha a linha.

Ao principio aquelle homem não percebeu bem isto; mas, quando de iá sahimos, ás oito horas, havendo alli chegado ás quatro, já elle próprio, maneta, explicava ás criadas da horta, qual d'ellas tinha a linha, e qual d'ellas não tinha a linha.


Anthero do Quental, que já chegara aos annos, não por certo do retiro e do silencio, mas da meditação severa, horas da madureza melancholica em que um homem, ao fazer a comparação do caminho que já andou com o que tem para andar, cuida avistar o segundo mais curto que o primeiro, parecia outro n'esse dia, tão juvenil e espontâneo era o contentamento em que estava.

Os Vencidos da Vida (com excepção de António Cândido) fotografados por Augusto Bobone em 1889, no jardim da casa do conde de Arnoso, na Rua de S. Domingos à Lapa: marquês de Soveral (Luiz Pinto de Soveral, 1850-1922), Carlos Lima Mayer (1846-1910), conde de Sabugosa (António José de Mello Cezar de Menezes, 1854-1923), Oliveira Martins (1846-1894), Carlos Lobo d’Ávila (1860-1895), Eça (1845-1900), Ramalho Ortigão (1836-1915), Guerra Junqueiro (1850-1923), conde de Arnoso (Bernardo Pinheiro Correia de Mello, 1855-1911) e conde de Ficalho (Francisco Manoel de Mello Breyner, 1837-1903).
Imagem: Lisboa Desaparecida

Oliveira Martins, vivamente sensibilisado pelos resultados obtidos, esteve a ponto de chorar de gosto ao ver a graça com que Ramalho ajudava a criada de Bournay — visto como Bournay mandara ir, além do roast-beef, uma criada franceza, ou á franceza pelo menos, isto é, de touquinha branca, saia curta e o avental de algibeirinhas consagrado pelas melhores vinhetas do Bertall — a pôr a mesa.

Lisboa, Aqueduto das Águas Livres. Retiro da Quinta da Rabicha encerrado, c. 1900.
Imagem: Delcampe

Elle ia á quinta colher as flores mais variadas, elle as enfeixava em bem armado ramilhete, elle estabelecia os desenhos mais interessantes, mercê da disposição gentilmente matizada d'ellas ; depois, vendo-me deante do grande tacho destinado á ceremonia solemne da caldeirada, perguntou-me tremulo de ternura:

— Já estás refugando, Júlio?

Eu não dizia nada. Mas Jayme Batalha Reis, que, durante aquelle acto, não tirava os olhos de mim, respondia com commoção:

— Já; já está a refugar !
— Quantas cebolas, Júlio? — perguntava Ramalho.
— Vinte e uma! — dizia Jayme. — Vinte e uma! — Cebolas verdes, em quartos!...
— Est-ce possible?! — exclamava a criada franceza, ou á franceza, consultando Ramalho Ortigão com o olhar.
— Je m'égare!... — retrucava Ramalho — E, (voltando-se para mim) que mais lhe deitaste?...

Eu não dizia nada. Alberto de Queiroz, debruçando-se brandamente, propunha-se metter o nariz no tacho. A tanto pôde a sede do saber, e quiçá uma juvenil ambição, acredora de estima, conduzir a mocidade!

Alberto de Queiroz era então um adolescente. Entrava na vida curioso de conhecer as luctas e difficuldades, ou sadias e revezes do destino dos escriptores e dos artistas. Dotado de uma percepção rara, e de uma avidez de estudar que ninguém combinaria facilmente com os ares de dandysmo com que elle passeava ao sol ou á chuva o seu janotismo, os que o viam, sem o conhecerem bem, consideravam apenas n'elle um rapazinho rendido a dois coquetismo, o coquetismo da elegância e o das le- tras, na idéa de que elle não quizesse d'ellas senão o que essas santas comadres offereçam de commodidade momentânea á existência de um rapaz, — a saber, os bilhetes de entrada nos theatros, os convites para bailes, para regatas, para as inaugurações de linhas férreas; e para as varias festas em que a vaidade ou a especulação do mundo, no habito em que estão de viverem colladas á publicidade dos reclamos, como a santola ao costado dos navios, recorrem aos que tiverem uma columna de jornal a disposição da patacoada humana.

Mas não. Levava-o para as letras o amor sincero que lhes tinha; ficava contente do seu dia, quando um trabalho de outrem lhe dava ao espirito a doce satisfação de apreciar; e, prova não só da aptidão das suas faculdades, mas da generosidade do seu coração, tudo era como que desempenhar-se de um empenho que houvesse contrahido comsigo mesmo de não se limitar á estimação silenciosa, e tirar, da comprehensão brilhante e fácil de que a natureza o prendara, a consolação mais útil e benéfica para os que trabalham, qual a de não se limitar a aprecial-os de si para si, mas abrindo a janella que dá para a rua. por assim dizer explical-os ao publico, convidal-o a prestar a sua attenção ás producções d'elles; e, mercê do talento e da generosidade de animo, empregar em os fazer sobresahir, em lhes dar luz, a diligencia que os egoistas e os mediocres tanto applicam e de tão boa gana a pôr os outros na sombra.

— Que mais lhe deitaste ? — tornava o Ramalho a perguntar.

Ramalho Ortigão (1836 - 1915).
Imagem: Wikipédia

Jayme Batalha Heis, que, a titulo de eu o conhecer desde pequeno, e haver sido um dos primeiros a maravilhar-me da rara lucidez do seu espirito, merecera da minha benevolência o tel-o ao meu lado, recitou n'estes termos:

— Salsa, pimenta, sal, cabeça de safio e de eirós, coloráo, caril! tudo ás voltas, na fritura do refugado, um pouco antes de se lhe atirar com dezoito tomates grandes! em pedaços! três colheres de vinagre, oito de azeite! lulas e ostras, além de peixe de sete qualidades: ruivo, tainha, chocos, saíio, eiroz, peixe-gallo, xarroco!...

Porque os convivas, ao ouvirem isto, estivessem a ponto de se torcerem e retorcerem todos de commoção, em gentis ataques nervosos motivados pelas sensações d'este dia, resolveu-se, como medida de prudência, emprehender um passeiosinho de distracção, para não estarem alli concentrando por mais tempo uma attenção illimitada no tacho, em que tantos e tão extraordinários acontecimentos se estavam passando.

Ribeira de Alcântara na zona da Rabicha, José Artur Leitão Bárcia.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Assim foram pela quinta adeante até á estrada de Campolide. Andavam trabalhadores a arranjar a estrada.

— Vossemecês são das Obras Publicas? — perguntou-lhes Ramalho.
— Sim, senhores! — respondeu um d'elles, que se achava a contas com uma pedrinha, procurando com arte o melhor modo de a encravar no chão...


Elle chamou os companheiros e entretiveram-se a contemplar aquelle espectáculo.

— É curioso! — ponderou. Qual fosse o fim do trabalhador ao pegar n'aquena pedrinha, bem o comprehendiam elles; porém, com que habilidade elle se desempenhava de tal missão!

Piscava um olho...
Piscava o outro...
Mirava a pedrinha d'aqui, mirava-a d'alli...
Punha-a ao direito...
Olhava para ella bem, — e punha-a atravessada...
Apalpava-a...
Assoprava-a...
Espreitava-a e admirava-a, como faz um ourives a uma pedra preciosa, que se lhe figure de boa agua e com grande vida...

Depois, com geitos de observação que fariam honra a um mathematico, encanastrava-a em cima de outras, como quem está a fazer a caminha para uma creança, devagarinho, com extremos de quem sabe amar maternalmente, porque assim digamos...

Ramalho, tirando da algibeira do peito o seu lenço de assoar finíssimo, dirigiu-se áquelle trabalhador das Obras Publicas, pediu-lhe para que o attendesse, conferenciou com elle mysteriosamente; depois, voltando-se para os companheiros:

— Segurae nas pontas d'este lenço! Todos seguraram o lenço pegando-lhe pelas pontas, de forma que não deixassem cair o que elle continha, e assim voltaram em procissão até á Rabicha.

A caldeirada estava prompta. Eu passeava agitado. Aquelles instantes pareciam-me de um comprimento excessivo... Tinha a imaginação sobrexcitada por idéas de gloria... Haveria querido n'aquelle momento ler alli á mão algumas paginas de leitura austera que me puzessem em afinação de modéstia... Mas, não se poderia arranjar isso n'aquelles sítios.

Puz-me a meditar as palavras do Ecclesiasta: Vaidade das vaidades... Nada me acalmava. Parava machinalmente deante do tanque, via-me na agua e comprimentava-me a mim próprio, como elle, esperava eu, teriam de comprimentar-me pela caldeirada... Oh! Essa idéa fazia-me empallidecer... Ouvi-lhes as vozes. De cabeça erguida e attitude altiva esperei-os, firme.

Lisboa Aqueduto das Águas Livres Ponte da Rabicha, Ferreira da Cunha, antes de 1938.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

— Está prompta a caldeirada! — bradei. 
E o echo dos arcos das Aguas Livres repetiu: — Caldeirada!...

Jayme Batalha Reis dirigiu-me a palavra:
— Que dirias de Sócrates, se ai ém de philosopho, fosse industrial? Eu ia dizer... Anthero do Quental deu um passo á frente:
— Que dirias de Napoleão, se, além de guerreiro fosse pianista insigne?


Eu já, por um triz, ia a fallar... Oliveira Martins, pondo-me a mão no hombro, contemplando-me longamente:

— Que dirias de Thomaz de Carvalho, se, além de tudo que sabemos d'elle, fosse também capitão de navios?

Já a resposta me ia pela lingua adeante...

— Que diremos de ti, querido amigo, — proferiu Ramalho commovido — que, além das occupações do teu officio, te propões ser o que ha mais sublime entre as diversas espécies do saber humano, — cosinheiro!

À tua dedicação á humanidade é sem limites; o teu amor ao trabalho é digno do espirito scientifico de um grande século... Aqui te trazemos um presente!

Tens ouvido fallar no suor do povo?
— Muitas vezes. 
— É uma curiosidade rara, mas encontra-se. Pedimos um pinguinho d'isso a um trabalhador das obras publicas, que anda alli adeante na estrada, e eil-o aqui...

Entendemos que aquelle pinguito de suor do povo podia, mercê de que a raridade augmente o valor ás coisas, constituir o mais glorioso baptismo de um cosinheiro voluntário...

Lisboa Ponte da Rabicha Eduardo Portugal.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

E, soluçando de jubiloso enternecimento:
— Para a mesa, amigos !
— Para a mesa!... (1)


(1) Júlio César Machado, A vida alegre..., Lisboa, Editora de Mattos Ferreira & C.a, 1880

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Romantismo e Patuleia na Quinta da Rabicha

A Quinta da Rabicha era pequena e em forma de triangulo. Toda colmada de um odorífero e viçoso pomar, que dava primorosas laranjas. Agua abundante e corrente.

Aqueduto das Águas Livres, vista a montante dos arcos, século XIX.
Imagem: Turismo Matemático

A amenidade do sitio contrastava com os rochedos escalvados, que diziam para o poente. Nos arredores de Campolide muitas casas em ruinas, esburacadas de balas de fusil e artilheria, dos assaltos dos realistas á cidade, nos dias nefastos da grande guerra de D. Pedro e D. Miguel.

Na Rabicha, o sumptuoso hotel, ao ar livre, debaixo d'um parreiral, ao pé do tanque, sempre transbordando d'agua, fornecia as pescadinhas de rabo na bocca, ovos duros, queijo saloio, pão de Bellas, alface repolhuda, a verdadeira alface lisboeta, que nem a de Roma lhe dá de rosto. 

Era um banquete. Um cruzado novo — 480 réis — sobrava para quatro homens comerem e beberem á farta!

Aqueduto de Alcântara, vista a montante dos arcos, século XIX.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Comparar o preço da alimentação d'aquelle tempo com o de agora produz tonturas de cabeça! Vinho, fora de portas — e as portas eram logo alli, em Alcântara — trinta réis a canada; pão a vinte e cinco; uma pescada do alto, de lombo negro, que chegava para uma família regular, seis vinténs; manteiga de Cork da mais fina, e a melhor que se conhece, ou que já se não conhece, onze, doze vinténs o arrátel!

Lisboa, porta da cidade junto à ponte de Alcântara e estátua de S. João Nepomuceno.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Fructa de graça, e que fructa! A pêra do conde, a marqueza, a corrêa, a de sete cotovelos, a virgulosa, a colmar. Tudo isso desappareceu, quasi completamente. Fizeram-se umas enxertias, que, sem produzirem as finíssimas peras francezas, estragaram as nossas.

Em compensação, a cidade era uma necropole e um muladar. Os candieiros de azeite, a respeitosa distancia uns dos outros, bruxuleavam mortiços e fumosos. Nas noites em que a folhinha dava lua, embora os cúmulos toldassem o céo tempestuoso, não se accendiam! 

Da bocca da noite em deante, dos primeiros aos quintos andares, os gritos constantes de — Agua vae, ou Agua foi — como clamava Bocage, vituperando, em termos obscenos, a fregona, que o tinha baptisado com os bálsamos nocturnos!

Os grilhetas do Castello, do Limoeiro, da Cova da Moira e do Hospital da Estrella, acorrentados, carregando agua ou trabalhando nas calçadas. O omnihus, atravessando vagarosamente, pesado e triste como uma tumba, do Pelourinho até Belém. O mercado de porcos, onde hoje campeia a arejada e elegante praça do príncipe Real. 

O Passeio Publico fechado como uma jaula! Agora temos lá a desafogada e magestosa Avenida.

Illuminação do Passeio Publico, litografia A. S. Castro, 1851.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

No verão de 1847, os rapazes da Maria da Fonte, ao mando das potencias extrangeiras, embainharam a espada no Alto do Viso. Que rapazes! Como corriam ao assalto, cantando alegres:

Somos moços, somos livres,
Somos, de mais, portuguezes!
O dever nos chama á guerra:
Affrontemos seus revezes!

Quando da pátria
Sôa o clarim,
Ninguém nos vence !
Morremos, sim!

E não era rhetorica! No Alto do Viso, o primeiro que baqueou, á frente dos académicos, atravessado pelos peitos, foi o seu bravíssimo commandante, Fernando Mousinho d' Albuquerque. O segundo — e esse para não mais se levantar — Fialho, o grande amigo de D. António da Costa de Macedo. 

António da Costa, formoso talento e nobre coração, ainda passados muitos annos, não memorava esse dia sanguinolento e o seu condiscípulo e camarada, sem que os olhos se lhe enturvassem de lagrimas.

Os rapazes de hoje, quando apodam os velhos, não o fazem por malevolencia, obedecem a uma corrente, a mais impetuosa, a da moda: não sabem que acções elles praticaram, nem que livros escreveram! 

Aqueduto das Águas Livres, vista a jusante dos arcos, Ermida de Sant'Anna, Alexandre Jean Nöel, 1792.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Os novos, se um dia tiverem de contrastar as refregas da má fortuna, correndo os annaes da pátria, farão justiça a esses homens, que souberam trabalhar, amar, e morrer!

Em 1848, os conflictos davam-se todos os dias, nas ruas e praças da capital, entre os patuleias e os sicários do batalhão da Carta. 

Os ódios estavam latentes e não se perdia lanço de conspirar. Nas reuniões secretas, presididas pelo conde das Antas, nos cafés, nos passeios de campo, em toda a parte, iamos fazendo a nossa propaganda. Quando rebentou em Pariz a revolução de 48, cobrámos novos alentos.

Emilio Augusto Zaluar, João de Aboim, e Souza e Almada eram meus íntimos. Elles já homens feitos; eu nos primeiros annos da adolescência, mas acompanhava-os nas suas idéas e planos de reacção. Faziam versos, românticos, descabellados ; porém com chispas de talento. Zaluar continuou, e, no Brazil, onde esteve largos annos, alcançou nome litterario, justamente festejado.

Um dia saí-me eu com o Se coras, não conto. Abraçaram-me como se fôra o seu irmão Benjamim, e, a occultas minhas, puzeram-me os versos n'um jornal. Quando vi o meu nome em lettra redonda, precedido de algumas palavras benévolas, julguei-me coroado no Capitólio! Que dia, nadando em luz, foi para mim aquelle!... 

Ainda o bemdigo hoje, porque ás lettras, que me não tem dado gloria nem haveres, devo as horas luminosas e gratamente enleiadas da minha vida modesta.

Todos nós gostávamos do campo. Dávamos largos passeios, e na primavera e verão, muitas tardes iamos cair na Rabicha. Ás vezes apparecia um companheiro a mais, rapaz de mérito, e uma das melhores almas que tenho conhecido — era Luiz Ribeiro de Sá, — o Lulu, — como nós lhe chamávamos. N'aquelle banquete ao ar livre, com a popular pescadinha, o queijo saloio, crepitava a alegria!

Vista da ponte e da ribeira da Rabicha e do Aqueduto das Águas Livres, Tomás da Anunciação, c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Que planos, que futuros, que protestos de jamais nos separarmos! Passávamos diplomas de génio uns aos outros, revelávamos segredos do coração, decidíamos das altas questões do estado!... E a nora a gemer, e o pomar ondeando, e o sol fecundo da nossa primavera no azul immaculado!

O dia de S. João de 1848 foi o ultimo que passámos na Rabicha. Na noite d'esse dia deu-se um acontecimento grave, e que ia sendo fatal!

João de Aboim tinha entrado, como um valente, que era, na refrega do Alto do Viso. Logo no principio da batalha, defrontou com o Pancada, official do campo inimigo. Ambos estavam a cavallo e ambos eram bravos. No duello singular e rápido, o Pancada apanhou um leve gilvaz. Ficaram de reixa velha.

Nessa noite pois de S. João, pela volta das dez horas, aos Poyaes de S. Bento, João de Aboim deu de rosto com o Pancada, que era da Guarda municipal, — capitão, se bem me lembro. Jogaram-se um ao outro; Aboim com uma boa bengala de canna da índia, Pancada com a espada nua. Aboim partiu-lhe dois dentes; Pancada deu-lhe duas cutiladas na cabeça, que o deixaram por morto.

O poeta, logo que se restabeleceu dos graves ferimentos, partiu para o Rio de Janeiro.

Pois ainda não ficou a coisa por alli. No verão de 1851, João de Aboim voltou do Brazil. Passado tempo encontrou o Pancada, ao pé da fegreja de S. Domingos. Ambos vinham desarmados. A lucta foi a braços. D'essa vez, Aboim levou a melhor. O adversário ficou muito pisado. Vamos, que os dois tinham a garra dos falcões primazes! Augusto Zaluar foi para o Rio de Janeiro, e por lá ficou, como já contei nestas Memorias.

Quando hoje atravesso a Rabicha, no caminho de ferro, deixo de ouvir o ruido do trem, de sentir o fumo da machina... 

Lisboa, Uma paisagem em Campolide [Ponte do Tarujo], ed. Martins/Martins & Silva, 671, década de 1900.
Imagem: Delcampe

A memoria traz-me o aroma do pomar, o gemer da nora, os meus primeiros versos, os amigos que perdi, e... uma grande saudade!

Monte da Caparica, Torre. Fevereiro, 16, 1893 (1)



(1) Bulhão Pato, Memórias, Tomo I, Scenas de infância e homens de letras, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1894

Informação relacionada:
A ribeira de Alcântara, de Benfica a Campolide
Caneiro de Alcântara
A Ponte de Alcântara e suas circunvizinhanças : notícia histórica, por A. Vieira da Silva

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Lisboa Arte Digital 007

A Catástrofe do Terremoto do Primeiro de Novembro de 1755 impressionou consideravelmente a imaginação de muitos artistas estrangeiros, que gravaram grande número de estampas, alegóricas umas, e outras representando a cidade durante o cataclismo, as quais foram decalcadas sobre vistas panorâmicas já conhecidas, em que os diferentes artistas representaram os edifícios a desconjuntarem-se e a desmoronarem-se, com o fogo a irromper por todos os lados.

Lisboa 1755, fantasia de antes e durante o terremoto, Mateus Sautter.
Imagem: Histórias com História

Todas essas vistas dão bem a medida da fecunda imaginação e fantasia dos seus autores! (1)

Assassin's Creed Rogue - Lisbon Earthquake



(1) Vieira da Siva, Augusto, Iconografia de Lisboa, Revista Municipal n.° 32, Câmara Municipal de Lisboa, 1947

terça-feira, 19 de julho de 2016

O fim do Romantismo

Bulhão Pato viveu numa época má, na exhaustão deliquescente do romantismo, tendo já fechado o cyclo da sua carreira literaria quando se rasgavam os esplendorosos horizontes da poesia nova. Fez-se o paladino dos velhos moldes, manteve-se até tarde no subjectivismo sentimental que continuava a sentir que "o único rumor que se ouvia no Universo era o rumor das saias de Elvira".

Vista da Amora, Tomás da Anunciação, 1852
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Tentou libertar-se desse passado no Livro do Monte, de um bucolismo mais natural, onde se sentem perfumes junqueirianos, e não quis deixar de escrever uma derradeira satira á sociedade que se enxovalhara, com as quintilhas, de bella perfeição plastica, da "Dança Judenga".

Octogenário, lia Zola, que eu lhe levava, e proclamava-o, intelligentemente, um grande romântico.

Um dia contou-me uma scena melancólica com o nosso paisagista Annunciação.

Era no Aterro, e viu o velho pintor a chorar ante o pôr do sol, pouco depois de chegar de Paris, onde contemplara os novos processos da pintura e o golfão de naturalismo que inundava todas as paletas.

No cais do Tejo, Alfredo Keil, 1881.
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Bulhão Pato talvez sentisse analoga melancolia ante a sua arte que via aceite apenas com complacência. Mas não o confessou, porque, muito orgulhoso, o velho romântico nunca deixou de arvorar o panache. (1)


(1) João Barreira, O retiro de um velho romântico

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Lisboa Arte Digital 006

Apenas dois desenhadores franceses, Paris e Pedegache, vieram a esta cidade copiar "algumas ruinas de Lisboa causadas pelo terremoto e pelo fogo do primeiro de Novembro do anno 1755", que foram gravadas em Paris por Jac. Ph. Le Bas em 1757.

Ruínas da Torre de S Roque ou Torre do Patriarca, Sé de Lisboa e Igreja de S. Paulo, Jacques-Philippe Le Bas, 1755.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

É uma colecção de 6 gravuras. Com o respectivo frontispício, que mostram bastante fantasiosamente o estado a que ficaram reduzidos seis edifícios da cidade por efeito daquele cataclismo. (1)

Ruínas da Praça da Patriarcal, Igreja de S. Nicolau e Ópera do Tejo, Jacques-Philippe Le Bas, 1755.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

How an Earthquake, Tsunami, and Firestorm All Hit Lisbon at Once on Smithsonian Channel



(1) Vieira da Siva, Augusto, Iconografia de Lisboa, Revista Municipal n.° 32, Câmara Municipal de Lisboa, 1947
 

domingo, 17 de julho de 2016

Chafariz d’El-Rey

O Chafariz d’El-Rey no século XVI, pintura de autor desconhecido, que se supõe datar de 1570-1580, inscreve-se na linhagem da pintura da época, no Norte da Europa, centrada em cenas urbanas.

Lisboa, Chafariz d’El-Rey, óleo sobre madeira de carvalho, 93 x 163 cm, autor desconhecido (Colecção Berardo), c. 1570.
Imagem: Lisboa, cidade africana

Se a qualidade pictórica se revela algo medíocre, em contrapartida põe em evidência a flexibilidade da composição que permite proceder ao inventário das práticas lisboetas, inscritas num espaço limitado atrás pelas construções na velha Ribeira das Naus, sendo o primeiro plano consagrado às actvidades marítimas. (1)

Panorâmica de Lisboa (detalhe) c.1540-1550  (ou 1570), , Leiden University Library Bodel Nijenhuis Collectie, Leyden.
Imagem: Wikimedia

O Chafariz d'El-Rei é seguramente um dos mais antigos da cidade de Lisboa, podendo remontar ao período muçulmano. Aparece referenciado documentalmente pela primeira vez no reinado de D. Afonso II, em 1220, sendo então conhecido por Chafariz de São João da Praça dos Canos. É a partir das alterações sofridas no reinado de D. Dinis, em 1308, que passa a ser designado por Chafariz d' EL-Rei, em referência a este monarca.

Segundo Fernão Lopes, o chafariz secou em 1373, durante o cerco de Lisboa, e só teve obras em 1487, por ordem de D. João II, que manda fazer o encanamento do chafariz até ao mar, para abastecimento de água potável aos batéis ancorados.

O Chafariz d’El-Rey, década de 1570, sobre a Panorâmica de Lisboa da Leiden University.

Na época manuelina o chafariz terá sido coberto por um alpendre em cantaria, cobertura para a qual D. Manuel ordenara a autorização à Câmara de Lisboa em 1517, e que seria patrocinada por Lopo de Albuquerque. O chafariz, que era então a principal fonte de água potável da capital, estava encostado à muralha da cidade, e tinha seis bicas em forma de cabeças de animais. (2)


(1) Isabel Castro Henriques, Os Africanos em Portugal História e Memória Séculos XV-XXI, Lisboa, Comité Português do Projecto Unesco "A Rota do Escravo", 2011
(2) Direcção-Geral do Património Cultural